segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Ednice Peixoto: Espelho, Espelho Meu

Uma das coisas que eu digo com frequência sempre que a conversa deriva para a sempiterna dialética entre forma e conteúdo na literatura, é que, para mim, o conteúdo tende a determinar a forma. O que quero dizer com isto é que há histórias que praticamente exigem um texto duro, seco e rápido, ao passo que outras quase o requerem pausado, elaborado, até poético. E quando há uma dissonância entre a forma que a minha sensibilidade de leitor afirma que uma história devia ter e aquela que realmente tem, o texto soa-me a falso, a coisa artificial e fabricada. O que obviamente é, mas, para que a suspensão da descrença se faça por forma a que o leitor acredite no que está a ler, procura parecer não o ser.

Neste seu conto, Ednice Peixoto resolveu poetizar a anorexia. Espelho, Espelho Meu, que poderia ter um subtítulo como Haverá Alguém Mais Gorda do que Eu?, é uma vinheta escrita em prosa poética sobre essa disfunção na autoimagem, com tudo o que lhe está associado. E eu senti-o dissonante. Não por completo, mas em parte sim. Porque para a minha sensibilidade literária, a elaboração da prosa choca com a dureza da realidade, que nada tem de poético. Poetizá-la é como poetizar um cancro, porque também a anorexia corrói as pessoas por dentro. Pode-se fazer, evidentemente, e até é provável que haja quem goste. E até é possível que essa poetização seja a única forma que quem passa por tais problemas tem para conseguir falar deles. Literatizando-os. Mas eu, decididamente, não faço parte desses grupos.

Textos anteriores desta publicação:

domingo, 4 de agosto de 2019

Leiturtugas da semana #29

Mais uma semana de pausa nas Leiturtugas (o mês passado foi muito fraco, diga-se, e agosto começa no mesmo diapasão), e ei-las que regressam, de novo pela mão da Cristina Alves que nos apresenta a sua opinião sobre uma coletânea de António Bizarro publicada pela CoolBooks: O Invisível, a sua Sombra e o seu Reflexo. É um livro com FC, embora pouca, pelo que a Cristina passa a contar 5c4s.

E por esta semana foi só. Para a semana haverá mais. Na Lâmpada, pelo menos.

Raquel Ochoa: Ninfas e Adamastores

Ponhamos logo de parte o elefante na sala: o incómodo à leitura que causa o facto de este conto vir escrito em itálico do princípio ao fim, e que espero que se deva a um erro de formatação do ebook e não a opção editorial ou autoral, que seria demasiado desastrada. Façamos de conta, pois, que se trata de um texto formatado normalmente e que se lê com a facilidade de qualquer outro destes ebooks publicados pelo DN.

Pondo isso de parte, Raquel Ochoa escreveu um bom conto. E sim, os cultores de literatura fantástica também vão ter de pôr de parte o desapontamento por o título poder induzi-los em erro porque não, este Ninfas e Adamastores não tem nem ninfas, nem adamastores, nem qualquer outra bicheza fantástica. É uma história sobre um judeu, comerciante, que se estabelece nos Açores vindo do norte de África, e sobre os altos e baixos da sua vida nas ilhas, contada por um dos filhos.

E é uma vida com bastantes altos e baixos. O homem era casado antes de imigrar para Portugal. A ideia era tentar estabelecer-se e, se e quando tivesse sucesso nessa empresa, mandar vir a mulher, o que de resto é tema comum em tantas histórias de emigração. Quando consegue arranjar uma vida estável com um negócio de importação e exportação, começa a pedir nas cartas que envia à mulher que fosse ter com ele, mas nenhuma das tem resposta. Entretanto, a vida continua. Com tanto silêncio, e também, talvez, porque lhe convém, o homem supõe a mulher morta, conhece uma portuguesa, não judia, apaixonam-se, casam, têm um filho. E o negócio continua a prosperar.

Até que acontece uma série de pequenas e grandes calamidades ao mesmo tempo e tudo muda num ápice. Um navio afunda-se com parte significativa do negócio a bordo. A mulher que se julgava morta aparece de repente nos Açores, decidida a reclamar o seu lugar junto do homem (não é propriamente aquilo a que se poderia chamar um prodígio de honestidade, esta), o filho que o homem tivera com a portuguesa fica com a vida por um fio. E tudo isto, e mais, é contado com segurança, em prosa escorreita e bem ritmada, mantendo a narrativa interessante até ao fim. Não é, mais uma vez, um tema que me interesse por aí além mas, tirando a desastrada formatação do texto, esta história pareceu-me bastante boa e bastante sólida. É mais do que posso dizer de um bom quinhão das outras.

sábado, 3 de agosto de 2019

K. H. Scheer: Missão Stardust

Depois de há uns tempos (bem, há bastante tempo já: quase dois anos) ter lido, fora de ordem, um dos livros da série Perry Rhodan, achei que já agora bem podia ler os que cá tenho por ordem. Começando pelo primeiro, como costuma acontecer quando se faz as coisas ordenadamente. Não é projeto de leitura de alta prioridade, como se pode deduzir pelos dois anos entre um livro e o seguinte, e pode ser abandonado a qualquer altura mas, para já, está lido este Missão Stardust, escrito por um senhor chamado K. H. Scheer.

E não começou particularmente bem, esta série Perry Rhodan. Mesmo dando o desconto devido ao facto de se tratar de uma série de inspiração declaradamente pulp, a verdade é que esta primeira novela deixa bastante a desejar, especialmente no início. Cheio de infodumps repletos de detalhes técnicos perfeitamente dispensáveis, o início deste livro é uma chatice pegada. E não precisam de acreditar em mim: o facto da edição vir com uma pequena nota a aconselhar os leitores a saltarem a primeira parte e começarem a leitura pela segunda é elucidativo quanto baste.

Trata-se da história da primeira missão tripulada à Lua, a Missão Stardust do título, que na época em que o livro foi publicado na Alemanha ainda estava no futuro, embora não por muito tempo. Não foi premeditado, mas foi muito curioso estar a ler este livrinho enquanto à minha volta o mundo celebrava o meio século da primeira missão verdadeira à Lua, recordando os detalhes da missão e os seus protagonistas. Foi quase como estar a ler com um calhamaço técnico ao lado e ir comparando realidade com ficção.

Mas claro: na realidade não houve nenhum encontro com alienígenas na face oculta da Lua.

Na ficção há, e é isso o que despoleta toda a gigantesca série do Perry Rhodan, a mais longeva e prolixa série de ficção científica literária do planeta. Isso e, julgo eu, o facto de Scheer ter decidido incluir logo neste primeiro volume algo mais profundo do que a mera aventura pulp que se poderia esperar: uma mensagem universalista, até mesmo pacifista, que só já não foi surpresa encontrar aqui porque a encontrei no primeiro livro desta série que li: o terceiro volume. Penso que sem isso, muito provavelmente, esta série nunca teria descolado por mais combustível que enfiassem no foguetão. Talvez convenha recordar que na época, um dos momentos mais tensos e extremados da Guerra Fria, a Alemanha estava no centro do confronto entre a NATO e o Pacto de Varsóvia, e dificilmente poderiam ter encontrado mensagem mais relevante do que essa para esse momento histórico.

É que a ficção científica nunca é realmente sobre o futuro, sabem? É, isso sim, uma forma de falar de forma abstrata sobre o presente e o passado.

Ainda por cima, é essa abordagem que justifica os atos de Perry Rhodan e do resto da sua tripulação no encerramento desta história, colocando-os em desafio aberto às potências terrestres e em aliança com os alienígenas. É um gancho claro para histórias subsequentes, extremamente eficaz, ao ponto de quase fazer esquecer o chatíssimo início desta. Quase.

O problema, claro, é o quase. E por isso não posso dizer que tenha gostado deste livro, mesmo com o desconto pulp ativo. A Abóbada Energética é bastante melhor.

Sónia Garcia: Decisões Imperfeitas

Eu digo com frequência que prefiro o conteúdo à forma literária, por isso imagino que quem leia aqui o blogue com alguma regularidade estranhe um pouco quando aponto às histórias que vou lendo problemas sobretudo de forma. Isso acontece por dois motivos: por um lado, preferir o conteúdo à forma não implica de forma alguma que se ache a forma irrelevante; por outro, quando o conteúdo é intrinsecamente mediano, ou me interessa pouco, é a forma que pode decidir se o resultado cai para o lado agradável ou desagradável da leitura.

No caso deste conto de Sónia Garcia, é a forma que me parece menos bem conseguida. A forma, isto é, a escrita em si, que mostra sinais por vezes demasiado evidentes de uma certa insegurança, e um detalhe estrutural no enredo, pois Garcia tenta sem sucesso fazer mistério de um detalhe fulcral na sua história, que no entanto fica óbvio logo à segunda página.

Do lado bom, temos a estruturação geral do conto, bastante bem conseguida, com grandes saltos temporais e entre ambientes que surgem quase sempre naturalmente com o fluir da história, uma caracterização francamente boa da protagonista feminina (do coprotagonista nem tanto), um uso bem feito do discurso direto e um bom ritmo. Tudo para contar uma história de amor, pois é disso que trata este Decisões Imperfeitas, um amor durante muito tempo desencontrado pelos fluxos e refluxos das decisões de vida dos dois protagonistas.

Trata-se, portanto, de um conto curioso mas com algumas falhas. É significativamente melhor do que o que o antecede, mas pior que o que antecede esse. Se o tema me despertasse mais interesse é perfeitamente possível que tivesse gostado dele, apesar das falhas. Mas não é tema que me interesse por aí além, pelo que saí da leitura razoavelmente indiferente.

Contos anteriores deste livro:

Italo Calvino: História do Reino dos Vampiros

As histórias desta parte do livro em que as cartas do tarot são espalhadas e ordenadas sobre a mesa de uma taberna são mais variadas que as da primeira parte, como convém a um ambiente mais desordenado e informal que um castelo. Isso abre a Italo Calvino novas possibilidades narrativas, o que já ficou bem exemplificado com as histórias anteriores e volta a sê-lo nesta História do Reino dos Vampiros.

Esta é uma história de horror sobre versões da realidade, sobre as conclusões que se tiram com tanta frequência de informação incompleta ou até inexistente, mais uma vez com raízes profundas nos contos populares. Um rei é levado pelo bobo da corte a um cemitério oculto nas profundezas da floresta, e aí depara com um coveiro e com aquilo que julga ser bruxedos, levados a cabo por alguém que tem a forma e as feições da sua rainha. Indignado, investiga, contra todos os avisos de que se deve afastar, e quanto mais investiga mais profundamente mergulha em trevas sobrenaturais.

Furioso por ritos macabros como os que julga ver (embora aqui, bem como em vários outros pontos desta história, entre em jogo a ambiguidade das cartas, sempre abertas a interpretações divergentes) ainda terem lugar no seu reino, o rei vai tentar fazer o que pode para livrar os seus domínios de coisas daquelas, e aqui volta a surgir um ténue cheiro a ficção científica, pois o modo que o rei encontra para o fazer é meter a bruxa num foguetão e enviá-la para o espaço, talvez para a Lua, ou não andasse ela a dominar os atos profanos dos vampiros. Mas não corre bem: da floresta salta um violento relâmpago que atinge a cidade, avariando a central energética e o "grande cérebro mecânico" que tudo governa. E alguém lança o boato (e será mesmo inteiramente boato?) de que o relâmpago fora o rei a atirar a rainha da torre, matando-a, o que leva o povo à revolta. E o leva a ele a ficar com a fama de ser o rei dos vampiros.

Este é um conto algo confuso, o que me parece ser inteiramente propositado, uma forma de jogar com as ambiguidades do Tarot, e tão bem escrito como é de norma em Calvino. Bom, portanto.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Raymundo Netto: O Homem que Virou Relógio

E de repente, um conto fantástico. Raymundo Netto publica aqui uma pequena vinheta de uma página, mais coisa, menos coisa, de um fantástico surreal e absurdista, sobre um homem que um belo dia estaca no meio de uma praça e se põe a tiquetaquear as horas. E eis o motivo do título de O Homem que Virou Relógio.

Naturalmente, o tempo passa, não só pelo mundo em geral como pelo próprio homem que se fez relógio. E com ele vem o envelhecimento, e com este vem um certo desprezo que a crueldade do mundo reserva para as coisas obsoletas. E é assim que o homem-relógio acaba por ser removido a toque de picareta para dar lugar a um outro jovem que vira relógio. Digital. Modernaço.

Pesem embora alguns detalhes na escrita que não me agradaram lá muito, este continho é bastante interessante. Trata-se de um conto sobre o tempo, claro, e sobre a velhice. Das pessoas e das coisas, corporizadas nestas pessoas-coisa que Netto inventa. A ideia podia até dar um texto longo — novela ou romance — bastante bom, desde que à ideia de base fosse acrescentada uma história apelativa. Deste gostei.

Textos anteriores desta publicação:

Saki: A Porta Aberta

É curioso como por vezes basta uma frase para introduzir uma história num certo género ou retirá-la dele. E também é curioso como por vezes é absolutamente impossível falar de certas histórias sem entrar imediatamente em revelações de enredo, os tão temidos SPOILERS, e considerem-se avisados. É o que acontece neste conto de Saki, cujo remate, simultaneamente final surpresa, frase e parágrafo finais, faz com que um conto que até aí parecia ser realmente uma história de fantasmas passe a ser um conto humorístico com fantasmas à mistura, ou melhor, com a ideia de fantasmas à mistura.

A Porta Aberta é, neste caso, o lugar por onde se entra e sai de uma casa. Não é a porta da frente, mas a porta das traseiras, e as habitantes da casa, mãe e filha, aguardam que os homens da família regressem da caça enquanto conversam com uma visita. A filha, principalmente. Mas a história que esta conta é diferente; é uma história de fantasmas propriamente dita, e tenta com ela levar a visita a acreditar que os homens da família morreram todos tragicamente nos pântanos, um dia que foram à caça e não regressaram, coisa em que a mãe se recusa a acreditar. E fá-lo com tal perícia que quando os homens realmente aparecem, a visita julga-os fantasmas e foge esbaforida porta fora. Porta, esta, a da frente.

É um conto muito bem construído, este, e bastante divertido. No entanto, eu não lhe chamaria propriamente uma história de fantasmas. É mais uma história sobre fantasmas. Por outro lado, a sua inclusão neste livro amplifica a ilusão que lhe serve de esteio e portanto o efeito que o autor quis com ele alcançar.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Escrita de julho


— E então, pá?
— Hm?...
— Então, acabaste a novela?
— Ah, isso. Ná.
— Então?
— Então o quê?
— O que aconteceu? Porque é que não a acabaste?
— Porque não deu para acabar.
— Ah. Estou a ver. Voltaste a interromper a escrita, não é? Andaste a escrever durante uns meses, mas cansaste-te e voltaste a fechar a loja. Certo?
— Heh. Estás mais frio que os glaciares em derretimento da Gronelândia. Escrevi quase todos os dias do mês.
— Ah sim? Então conta lá. O que é que se passou para não acabares a novela?
— Bem, olha, para começar, porque não é uma novela.
— Então é o quê?
— Um romance.
— Mas andaste meses a falar de novela...
— Pois andei. O plano original era fazer uma noveleta, mas depressa percebi que ia sair maior. Daí falar de novela. De resto, foi essa uma das razões por que desisti de tentar aprontá-la a tempo da Solarpunk. Não a única, mas uma das.
— E?...
— E está a sair ainda maior do que eu esperava.
— Mas então isso é assim? Aprendeste com o Martin, foi?
— Engraçadinho.
— Não estou a tentar fazer piada. Porque é que isso cresce tanto?
— Olha, porque à medida que vou escrevendo vai-me parecendo que a coisa fica pouco sólida e precisa de mais um detalhe, e depois de mais outro, e depois de outro ainda. E às vezes arranjo maneiras melhores de chegar onde quero chegar, que costumam levar-me a escrever mais. E por aí fora.
— Ou seja: aprendeste com o Martin.
— Se preferes encarar as coisas assim...
— E agora quando é que tens a coisa pronta?
— Já que dizes que aprendi com o Martin, toma lá: já não faço previsões dessas. E embrulha.
— Sacana dum raio.
— Não vale a pena ter a fama sem ter o proveito, não te parece?
— Bah!
— Hihihi.
— E agora vais-me dizer que não acabaste nada, querem ver? Nem mesmo o tal capítulo que dizias que era grande.
— Não digo, não. Esse capítulo está finalmente acabado. Já estou no penúltimo. E nos entretantos também escrevi um conto e revi outro.
— Então já está mesmo grande?
— Já. Este mês foram mais quase nove mil palavras. Umas 25 páginas. Nem todas para o romance, mas quase, que o conto é pequenino. Já vai com umas 130 páginas.
— E faltam quantas?
— Querias saber, não querias? Mas não vais saber.
— Humpf!
— É a vida...
— Mas o que é isso, afinal?
— Como assim?
— Estás a escrever o quê?
— Ah. É mais uma história do Tempo das Passarolas. A história que o público aqui da Lâmpada escolheu em 2017 para eu trabalhar a seguir. Não trabalhei em 2017, mas tenho trabalhado em 2019. Antes tarde que nunca, suponho.
— Bem, desde que a acabes... desde que não fique eternamente em promessa...
— Estou a tratar disso.
— Podia era ser mais depressa.
— Não sei se podia. Se calhar este é o meu limite. Eu só uma vez escrevi tanto num ano só como já escrevi este ano: quando escrevi o Por Vós lhe Mandarei Embaixadores. E se continuar a este ritmo, o ano acaba com mais de 200 páginas escritas. Nunca aconteceu.
— Tá bem pronto. Olha, vai escrever.
— Agora não, que estive aqui a escrever isto e já cansou. Mais tarde, talvez. Ou amanhã.
— Preguiçoso!
— Tem dias.

Patrícia Portela: Monólogo do Oriente

Os contos podem tomar muitos aspetos diferentes, chegando mesmo por vezes ao ponto de quase parecerem ser outras coisas. O mais comum dessas aspetos, o mais tradicional, talvez, é o de histórias de narrativa relativamente simples e personagens pouco aprofundadas — pelo menos quando comparamos enredo e personagens com as dos romances — nas quais se explora um conjunto limitado de ideias. Mas também é relativamente comum servirem mais como estudos de personagem do que como histórias propriamente ditas, daquelas movidas a enredo, ainda que para aprofundar uma personagem seja geralmente necessário revelar a sua história, ou pelo menos deixar entrevê-la.

Este Monólogo do Oriente de Patrícia Portela é basicamente um estudo de personagem. Uma personagem que monologa sobre várias coisas, mas sobretudo sobre o oriente. Ou melhor, sobretudo sobre intenções. Sobre vontades. Uma personagem que tem sonhos mirabolantes de viajar para aqui ou para ali, mas há sempre um mas que se interpõe entre o sonho e a viagem. Um mas que tem frequentemente sabor a pretexto, a desculpa destinada a esconder que a vontade de partir e conhecer outras palavras é fundamentalmente teórica e na vida real o comodismo vencerá sempre.

E é um estudo de personagem bem feito. Escrito na primeira pessoa, como bom monólogo que é, o conto depende de uma voz de personagem bem sucedida, e a de Portela é-o, com um uso bastante bom das características orais do discurso. Claro: é daquelas histórias que não vão a lado nenhum, mas até isso contribui para sublinhar a natureza do protagonista/narrador, que também ele não vai a lado nenhum, por mais que fale em ir. Nunca. É um bom conto, portanto. A ponto de até eu ter gostado, eu que costumo achar chatos os contos com gente chata, e este tipo é um chato de primeira. Era capaz de dar uma ótima personagem secundária num texto mas extenso, daquelas que funcionam simultaneamente como inspiração para a ação e amarras contra ela. Protagonista é que não: é demasiado chato.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Ronaldo Sergio de Biasi (ed): Isaac Asimov Magazine, nº 3

É bem provável que a Isaac Asimov Magazine, versão brasileira da revista americana Asimov's Science Fiction, tenha sido a melhor publicação periódica de género já publicada em língua portuguesa. E, pelo andar da carruagem, é até muito possível que nenhuma outra chegue algum dia a destroná-la. Composta sobretudo por contos, mais ainda do que a original (este número 3 só acrescenta aos contos um editorial, uma entrevista/depoimento de Ronaldo Sergio de Biasi, o editor, e algumas cartas), não era uma tradução direta dos números da Asimov's mas não andava muito longe disso, pois os contos que publicava tinham saído nos EUA muito pouco tempo antes.

E como a Asimov's é, a par da Analog e da Fantasy and Science Fiction, a mais conceituada revista de género do mundo, não é difícil antecipar que o conteúdo de cada número da IAM (iniciais pelos quais a revista brasileira ficou conhecida) era de alto nível.

O deste número certamente que o é. Com duas exceções claras, contos que achei fracos, e tendo também, por outro lado, dois que são realmente muito bons (Esperando os Olimpianos e Iridescência), o nível global é o de uma antologia de grande qualidade. A idade, que já vai pesando um pouco em algumas destas ficções — trinta anos sempre são trinta anos — ainda não pesa muito, e há uma história que é até mais urgente hoje em dia do que nos anos 80 (Muito Barulho por Nada), sendo outra uma autêntica corporização de "modernices" que só o são na cabeça dos ignorantes (O Preço das Laranjas). De uma forma geral, portanto, esta foi uma bela leitura.

Eis o que achei dos contos deste número da revista:

Italo Calvino: História do Guerreiro Sobrevivente

Outro conto por onde passa levemente um cheirinho a ficção científica, embora muito mais leve do que no conto anterior, esta História do Guerreiro Sobrevivente é sobretudo uma narrativa sobre a ansiedade masculina num mundo em mudança.

A princípio não parece nada. Com a sua habitual habilidade narrativa e excelente tratamento da língua (diga-se que muito bem servida pela tradução, como de resto é hábito de José Colaço Barreiros), Italo Calvino mergulha-nos em plena batalha medieval, um ambiente típico de uma narrativa histórica ou de fantasia épica. O conto acompanha o que faz e pensa um determinado guerreiro no meio da confusão da batalha, e a forma como trava um feroz e prolongado duelo com um guerreiro inimigo que, num momento de distração, desaparece.

Depois, reencontra-o no rescaldo da batalha que o seu exército perdera. Mas depressa se apercebe de que não se trata de um homem, mas de uma mulher. De orgulho ferido por ele, um homem treinado nas artes da guerra, não ter conseguido derrotar uma mera mulher, enche-se de fúrias vingativas, mas é aconselhado a não fazer o que pretende pois aquela é uma guerreira do invencível exército das amazonas, que já terá conquistado meio mundo e só poderá continuar a fazê-lo.

A vitória das amazonas é descrita como genocida, numa antecipação de distopia que aproxima esta história da FC: os homens que o exército das guerreiras encontra ou são mortos ou castrados; não há outra possibilidade. E assim termina o patriarcado, em sangue e chamas, inaugurando-se uma nova era de domínio feminino. E assim compreendem o motivo por que eu ali em cima disse que o tema deste conto é a ansiedade masculina num mundo em mudança, em que o poder secular do masculino é posto em causa.

Há muito sumo a espremer desta pequena história.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Luís Filipe Silva: In Falsetto

Enquanto fui lendo esta novela de Luís Filipe Silva foi-se-me avolumando na mente uma suspeita, que não passará nunca de suspeita a menos que algum dia o autor a confirme ou desminta: a de que In Falsetto (bibliografia) foi escrito, ou pelo menos começou a ser escrito, com Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa em mente.

É que embora se trate de uma novela steampunk, a pegada pulp é nela inconfundível e intensa.

A história desenrola-se em Lisboa, cidade à qual chegam mais ou menos em simultâneo dois representantes das duas grandes potências deste mundo criado pelo Luís: a França e a Áustria (ou Grosse Germania, termo que faz lembrar algumas das histórias de ficção científica do João Barreiros). Os primeiros, representados por um milionário com o pouco gaulês nome de Gulliver, querem oferecer ao rei português um autómato particularmente sofisticado, como forma de dar um golpe publicitário; já os segundos, vêm em perseguição de um ladrão muitíssimo escorregadio, que pode, ou não, estar a planar apropriar-se do autómato dos franceses e criar assim um incidente diplomático.

No meio de tudo anda um inspetor da polícia civil do reino de Portugal, que não sabe lá muito bem o que anda lá a fazer e é destratado com sobranceria por vários dos intervenientes, embora acabe por ser decisivo em vários momentos da trama. Esta, claro, é movimentada, cheia de reviravoltas, muitíssimo pulp... e bastante vazia.

Como sabe quem lê regularmente (ou mesmo esporadicamente) o que vou deixando escrito aqui na Lâmpada, não gosto de pulp. E o principal motivo é precisamente este: no afã de tentar distrair, criando enredos aventureirescos e enovelados, os produtores de pulp decidem com demasiada frequência não escrever sobre grande coisa, quando não é mesmo sobre coisa nenhuma. O escapismo puro na literatura não me interessa minimamente; quando quero ou preciso de desligar o cérebro, vou babar-me para a frente da televisão, não me ponho a ler. Ler para nada obter em troca é demasiado esforço para coisa alguma.

Sendo justo e rigoroso, não se pode dizer que Luís Filipe Silva não tenha escrito sobre nada nesta novela. Há aqui, corporizado no inspetor da polícia, aquele tradicional fadinho nacional de ser pequenino e irrelevante mas acabar desenrascando qualquer coisinha, e através das restantes personagens há também uns pozinhos de geopolítica com alguns reflexos na geopolítica contemporânea da União Europeia. Só que tudo isto tem dois problemas: por um lado é muito ténue, um pano de fundo para uma história cujo foco está decididamente virado para outras coisas; por outro lado é banal, já foi feito n vezes por outros n autores, e Luís Filipe Silva, provavelmente porque o seu foco está noutras coisas, não inova em nada.

E a consequência é que esta novela está muitos furos abaixo do melhor que o autor já produziu. Não é má, até porque o melhor de Luís Filipe Silva é francamente bom, mas não passa do razoável. Um exercício pulp que talvez agrade a quem gosta dessa abordagem mas que é muito provável saber a pouco aos restantes de nós. E uma revisão atenta, que claramente não existiu durante a preparação deste livro, também não seria tempo perdido.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 28 de julho de 2019

Luiz Gustavo Saldanha: O Personagem Heleno

E de novo tenho de falar de purple prose.

Não vou repetir tudo o que disse aqui, naturalmente, mas a maior parte do que aí ficou expresso também se aplica a O Personagem Heleno, pequeno conto de Luiz Gustavo Saldanha. A maior parte, não tudo. É que a história de Saldanha, apesar de continuar a escorrer púrpura, é melhor. Porque é muito menos cliché. E também porque é bastante mais curta, o que torna os arrebiques menos cansativos.

Aqui estamos em meio teatral. O personagem Heleno é o protagonista, jovem — catorze anos — apaixonado pela representação, mas tímido, ou talvez apenas reservado. Apesar da namorada, é esse o seu verdadeiro amor. Por isso não hesita quando, depois de ganhar coragem para pedir um papel ao professor, o seu primeiro, descobre que todos os papéis masculinos já estão ocupados: aceita imediatamente um papel feminino, escolhe-o e atira-se ao estudo.

O conto descreve (purpuramente) como ele vai encarnando a personagem, mergulhando cada vez mais profundamente no travestismo, encontrando aí uma espécie de felicidade. É uma história interessante e invulgar, surpreendente o suficiente para sustentar o interesse até ao fim, que a forma como está escrita quase estraga. Sem tantos arrebiques, este podia ser um bom conto. Mas a prosa pretensiosa de Saldanha não deixa. Pena.

Textos anteriores desta publicação:

sábado, 27 de julho de 2019

Luísa Costa Gomes: Mania

Luísa Costa Gomes. Ora aqui está um nome que eu já conhecia, o que não tem sido lá muito frequente nestes contos publicados eletronicamente pelo DN. Conhecia de ter lido vários contos seus, não muitos... e de só ter gostado medianamente de um. Os outros... bem... Ora me pareceram banais, ora traziam uma espécie de humor e/ou ironia que não ressoa com o meu ou a minha, enfim, deixaram a desejar. Não tenho queixas relativamente ao português, que costuma ser bem tratado, mas como não é só de português que se faz a literatura, mesmo a que se faz em língua portuguesa, parti para a leitura desta Mania com as expetativas razoavelmente baixas.

E a história correspondeu à expetativa. Mania é um conto razoavelmente longo — 7 mil e muitas palavras, provavelmente já a passar a noveleta — ambientado numa Lisboa que talvez seja contemporânea (ou quase; este é o único conto que li até agora nesta coleção que não é inédito, pelo que a contemporaneidade será referente à época da primeira publicação), mas a fazer lembrar outros tempos e paragens, cheio de mulheres fatais, espionagens sentimentais e traições. Às vezes encontram-se neste tipo de temas e ambientes histórias interessantes, mas é cada vez mais raro porque estão bastante saturados desde para aí os anos 50.

E em parte por isso, Luísa Costa Gomes não cria uma história interessante. Sim, o português é tão competente como é hábito, mas o resto é uma história confusa, mais pela forma como é contada do que propriamente pela história em si, como se a autora procurasse ocultar a simplicidade e curta criatividade do enredo atrás de uma narrativa emaranhada, brumosa, sufocada pelo peso da "literatura", palavra que vai entre aspas porque segundo a minha forma de ver as coisas literatura não é bem o que demasiada gente julga que é.

Mas o que mais me desagradou nesta história foi uma muito intensa sensação de vazio. Aquela sensação que leva sempre à interrogação "sim, e daí?" A sensação de que o escritor está basicamente a escrever sobre nada. É bastante possível que seja uma sensação injusta mas não posso negá-la. É também provável que o facto de me ter sido impossível acreditar realmente em alguma destas personagens a tenha amplificado. Trata-se de uma sensação que tenho muitas vezes a ler literatura das duas extremidades do espectro literário: o pulp por um lado e a literatura demasiado preocupada em ser literária pelo outro. O curioso desta história é ir buscar temas e ambientes ao pulp e estilo narrativo ao outro lado, quase conseguindo juntar o pior de ambos. O que a salva, impedindo-a de ser realmente má, é a correção do uso do português. Mas que mesmo apesar disso é bastante fraca, é.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Branco e Rosatti (eds.): Megalon, nº 1

Quanto mais o tempo passa, mais se solidifica em mim a ideia de que os projetos mais longevos e bem sucedidos são simultaneamente aqueles que têm os inícios mais despretensiosos, movidos muito mais pelo puro gosto de fazer as coisas do que por calculismos ou ambições, financeiras ou outras.

E o Megalon é um bom exemplo disso mesmo. Arrancou em 1988 com este nº 1 (bibliografia) e foi sendo publicado, entre os altos e baixos típicos destas coisas, até 2004, cifrando-se o saldo final em 71 números e largas centenas de contos (incluindo um número muito significativo que veio mais tarde a merecer publicação profissional) e artigos, quase sempre sob a batuta do seu editor principal, Marcello Simão Branco, ainda que neste número tivesse a coeditoria de Renato Rosatti, o qual o acompanhou nos primeiros anos.

E o começo dificilmente poderia ser mais modesto. A um só conto, muito curto e bastante mauzinho, somam-se quatro artigos e uma entrevista e está a coisa feita. A entrevista é de longe a parte mais interessante do fanzine; trata-se de uma adaptação de uma entrevista a Alfred Bester, um dos melhores autores americanos de FC da segunda metade do século XX, falecido não muito tempo antes da publicação deste número inaugural do Megalon. Os artigos pouco interesse têm, especialmente hoje em dia, consistindo em notícias sobre edições e movimentações do fandom (que acompanharam toda a vida do Megalon), brasileiro e não só, e opiniões sobre um par de filmes.

Desta modestíssima semente saiu uma das mais importantes publicações brasileiras de FC, a par do também fanzine Somnium e, noutro patamar, das versões locais da Asimov's e da F&SF. Mas enquanto estas últimas duraram um ou dois anos cada e encerraram após não mais que uma vintena de números, o Megalon durou quase quinze anos e o Somnium ainda hoje se publica. Elucidativo? Parece-me que sim.

Eis o que achei do único conto desta publicação:

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Ana Paula Nascimento: De Dentro Ninguém Responde

Às vezes tenho pena de não conseguir arranjar uma tradução para a expressão "purple prose" que transmita a mesma sensação de vacuidade presunçosa da expressão inglesa. Há quem a traduza como prosa poética, mas não é bem a mesma coisa; embora toda a purple prose tente ser poética, nem toda a prosa poética é purple. Um ótimo exemplo do que acabei de dizer é a prosa do Mia Couto, poética até à medula mas sem nada de purple. No entanto, arrisco-me a dizer que realmente existe uma relação entre as duas coisas e que a purple prose é o que acontece quando alguém sem domínio da língua e/ou talento suficiente tenta fazer prosa poética. Provavelmente não estarei inteiramente certo, mas aposto que não ando muito longe da verdade.

Em tempos, passou-me pela cabeça tentar adaptar para "prosa azeiteira", mas também não: essa é expressão demasiado (e desnecessariamente) insultuosa, mesmo havendo na purple prose um forte pendor para o mau gosto estético que a expressão sugere. Portanto desisto e fica mesmo em inglês.

Vem isto a propósito de ter lido recentemente dois exemplos da mais pura purple prose. E aqui está um deles.

Sem as cores desagradáveis da prosa, De Dentro Ninguém Responde até podia ter tido algum interesse. Um conto sobre um psicopata artista, ou artista psicopata, burguesíssimo, e a relação que se estabelece entre ele e uma antiga professora, tragédia ambulante, pode ser interessante se bem concebido e bem escrito, apesar da banalidade das personagens. Sim, banalidade: a literatura (e o cinema, e a televisão, e a BD, e...) tem uma certa predileção por este tipo de personagens, e tem-nas trabalhado e retrabalhado até à exaustão. Acha as suas histórias interessantes, suponho, mas de tanto usá-las torna-as banais e por isso desinteressantes. É o paradoxo do cliché: todos nascem como ideias boas e inovadoras, morrendo como tudo menos isso. Mas apesar disso, ainda se podem fazer histórias interessantes com essas características.

Mas para as fazer é preciso que elas sejam bem concebidas, desejavelmente de forma inovadora, e bem escritas. E se Ana Paula Nascimento não estrutura mal a sua história, também não se pode dizer que seja particularmente criativa a fazê-lo. O pior, contudo, é mesmo a forma de escrever, a escorrer púrpura por todos os lados. Resultado: só posso considerar este conto mau.

Contos anteriores deste livro:

Italo Calvino: História da Floresta que se Vinga

Uma das características mais curiosas dos contos de Italo Calvino para alguém que, como eu, gosta bastante de ficção científica, é o diálogo que neles se estabelece com relativa frequência com o género. Não com o género como um todo, talvez, ou geralmente, mas com o género tal como era antes de ser género; com a proto-ficção científica.

Exemplos abundam, das Cosmicómicas a vários contos das Cidades Invisíveis, e é por isso sem grande surpresa que se encontram também neste livro. Por exemplo na História da Floresta que se Vinga, por estranho que isso possa parecer a quem olha para este título, que parece ter tudo a ver com fantasia e nada com ficção científica.

E é aqui que entra a espécie de ligação ao género que mais agrada a Calvino. O conto começa como um conto fantástico muito próximo das histórias tradicionais, com uma mulher criada numa floresta que um belo dia salva um príncipe vítima de salteadores, fá-lo perder-se de amores por ela (ou talvez só de desejo), engravida e fica à espera quando ele diz que precisa de ser desobrigado pelo Papa para poder casar com ela e se vai embora, alegadamente em busca dessa autorização. Mas o tempo passa e nada. Até que ela sai, à procura dele, e depara com o mundo fora da floresta vazio de homens e entregue à maquinaria, que já sabe passar sem os seus criadores e por isso corre com eles, numa cena apocalíptica típica da FC distópica.

E no fim, o conto volta a afastar-se da FC, mostrando um Dia do Juízo muito alicerçado na mitologia. Tudo, aparentemente, porque a floresta se vinga por a rapariga lá criada, logo parte dela, ter sido abandonada. Fica por explicar como é que a rapariga acaba ali reunida com os restantes convivas na taberna, como é que mesmo depois de um tal cataclismo apocalíptico ainda pode contar a sua história e há alguém para a acompanhar. Mas apesar disso, este é mais um conto muitíssimo bem escrito e bastante interessante.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Nancy Kress: O Preço das Laranjas

Há por aí quem julgue que nos últimos anos os esquerdalhos andam a estragar a ficção científica com a mania de enfiar nela personagens que não sejam homens brancos hetero e wasp. Que isso de variedade é parte de alguma conspiração comuno-gay internacional, provavelmente financiada por judeus (e não são sempre os judeus que financiam tudo?). Estas brilhantes ideias tiveram recentemente um violento impacto na FC internacional (mas especialmente na americana), ao ponto de fazerem abanar uma das mais antigas instituições do género: os Prémios Hugo.

Como tantas outras opiniões vindas daquelas bandas, esta também é uma opinião movida sobretudo a uma tremenda ignorância. Porque só a ignorância explica o completo desconhecimento de que todas as coisas que apontam como irritantes modernices desta era do politicamente correto já existem na ficção científica há décadas. E a prova está, por exemplo, em O Preço das Laranjas (bibliografia), noveleta de Nancy Cress publicada originalmente em 1989. Há trinta anos, portanto.

Trata-se de uma história de viagem do tempo. Um avô preocupado com a neta está convencido de que os problemas dela se devem aos tempos modernos e às múltiplas carências que eles revelam no campo das relações interpessoais (sim, porque como toda a gente sabe antigamente é que as pessoas tinham respeito umas pelas outras... ahem...). Ora acontece que este avô tem um segredo. Por qualquer motivo que ele não compreende (mas isso não o preocupa por aí além), há um portal no fundo do seu armário que o leva ao passado, às vésperas da II Guerra Mundial, e o facto de o portal se encontrar no armário tem mais que uns pozinhos de ironia. Leva-o a 1937, mais propriamente. E ele concebe um plano: se arranjasse forma de trazer um homem de 1937 para o presente com certeza que ele seria o ideal para arrancar a neta ao seu permanente mau humor raiando o desespero. Não podia ser um homem qualquer, claro, mas certamente haverá alguém adequado.

E se bem o planeia, melhor o põe em prática. Bem, não é que seja fácil, mas acaba por conseguir arrancar um rapaz promissor ao tempo que lhe é próprio. Não voluntariamente, atenção, o que naturalmente vai provocar ao jovem um choque e peras. Mas o velhote escolhera mesmo bem. Não que o seu plano tenha resultado, mas a verdade é que o jovem recupera depressa do choque e deixa-se fascinar pelo mundo moderno, para ele futuro, e até aceita passar algum tempo com a neta do velhote.

Mas depois, claro, quer voltar para o seu tempo e, a contragosto, o velhote lá o deixa ir, julgando que não tinha conseguido alcançar nada com a aventura. Mas tinha. O jovem vive a sua vida no seu tempo, batendo-se pelo progresso. E tem descendência. E uma das suas descendentes, lésbica, entra numa relação com a neta do protagonista da história. Fazendo-a finalmente feliz. Fim.

E um conto com trinta anos tem tudo aquilo que certa malta odeia no "politicamente correto de hoje em dia". Não será por isso que é bom, mas é bom. Temos pena.

(Não, não temos.)

Contos anteriores desta publicação:

terça-feira, 23 de julho de 2019

Máximo Gomez: Reino de Luz

Mais um poema que não me pareceu particularmente bom, este Reino de Luz (bibliografia) de Máximo Gomez é pelo menos simpático. À superfície é sem dar espaço para dúvidas um texto fantástico, cheio de criaturas e cenários das histórias infantis, mas se escavarmos um pouco mais fundo, e diga-se de passagem que o facto de haver aqui o que escavar é uma qualidade, descobrimos nele sobretudo um texto sobre a nostalgia da infância. Quem escreve grita que acredita na existência, algures, de toda a mitologia das histórias infantis (e aqui são claramente infantis, não populares), como quem diz que ainda tem em si a criança de outrora, só à espera de uma oportunidade para vir à superfície. Só desejando essa oportunidade de se voltar a maravilhar com as magias do mundo. Com um domínio mais firme da língua, maior qualidade e sofisticação no seu manejo, este podia ter-se transformado num poema realmente bom. As ideias estão lá. Não falta tudo, portanto.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 21 de julho de 2019

Victor Poe Lovecraft: Massacre Macabro

Pega-se num fanzine e espera-se encontrar material típico de fã sem experiência nem competência nem, provavelmente, grande talento ou potencial. Textos mais ou menos toscos, amadores, adolescentes, coisas dessas. Mas por vezes o que se encontra é o contrário: textos de qualidade boa ou muito boa, que não ficariam mal vistos em publicações profissionais de vários tipos.

No caso deste Massacre Macabro (bibliografia), de alguém que assina com o pseudónimo bastante pretensioso de Victor Poe Lovecraft, o que se encontra é precisamente o que se espera encontrar de um conto de fanzine. Trata-se de um conto de horror adolescente, que não estará assim muito mal escrito mas cuja prosa é tosca, cheio de referências e alusões demasiado óbvias para terem algum interesse, sobre os feitos de um psicopata assassino morto-vivo, nascido em 1666 e sepultado na sepultura 666 (duh), na cidade de Ercassam Orbacam e leiam lá de trás para a frente para verem a astúcia do rapaz.

E o conto é todo assim. Meia bola e força, num enredo derivativo completamente incapaz de criar alguma espécie de emoção a não ser o tédio. Felizmente é bastante curto, não passando de vinheta. Agradeçamos as pequenas misericórdias. Este é um começo muito mau para uma publicação que viria mais tarde a publicar alguns das melhores histórias da ficção científica brasileira contemporânea.

Leiturtugas da semana #28

Começa a semana de novo com Leiturtugas vindas do mesmo sítio das da semana passada. A Cristina Alves fala-nos desta vez sobre um livro de contos de Rui Zink com muito de fantástico — o que de resto é costumeiro nele — mas que não parece ter nada de FC — o que é menos vulgar; até costuma ter, ainda que frequentemente de uma forma algo tangencial. Intitula-se o livro A Metamorfose e Outras Fermosas Morfoses e leva a Cristina a 5c3s.

Mas não ficamos por aqui. Esta semana temos dois posts relativos ao projeto, o que tem sido raro nos últimos tempos. O segundo é de um tal Jorge Candeias, não sei se estão a ver quem é o gajo, que resolveu falar de um livro de fábulas em verso escrito por Carlos Couceiro. O título? Fábulas do Tempo Presente... e do Tempo Futuro. Também nada tem a ver com FC, o que faz com que o tipo que escreve n'A Lâmpada Mágica passe a 4c7s.

E por esta semana é só. Para a semana haverá mais? Aqui, não. Noutros sítios? Quiçá.

sábado, 20 de julho de 2019

Carla Marques: Morte

E de repente temos um soneto nesta antologia, depois de uma série de poemas sem grande estruturação formal. Em Morte (bibliografia), Carla Marques apresenta mais um daqueles poemas que só são realmente fantásticos se forem encarados de forma literal, e não se teria saído particularmente mal da empreitada se tivesse conseguido, ou querido, manter nos tercetos uma estrutura rítmica tão coerente como a que manteve nos quartetos. Sim, que os sonetos não são uma forma tão rígida como a dos haicais mas quando um poema começa bem ritmado e termina sem qualquer espécie de ritmo a sensação que deixa é de coisa coxa.

O tema é a morte, claro, aqui apresentada como entidade viva, o que justifica que se chame fantástico ao poema, mas não com grande solidez, o que também justificaria que se encarasse a figura da morte apenas como parábola. De certa forma, portanto, é um poema de horror, mas só de certa forma. Quanto à qualidade, não é grande, não só devido aos problemas rítmicos de que falei acima, mas também porque as rimas não são particularmente inspiradas. Mas já ficaram para trás coisas piores.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Carlos Couceiro: Fábulas do Tempo Presente... e do Tempo Futuro (#leiturtugas)

Como qualquer leitor bem sabe, às vezes há compras por impulso, e o que dá origem ao impulso podem ser as coisas mais variadas. Pode ser qualquer coisa na capa, pode ser algum detalhe da sinopse, pode ser um blurb, podem ser montes de coisas. No caso deste Fábulas do Tempo Presente... e do Tempo Futuro foi o título que me fisgou. Fábulas do tempo futuro? Haverá aqui alguma coisa relacionada com ficção científica?

Lido o livro, fica desfeita a dúvida: não há.

O que há são fábulas, bastante bem contadas em verso. Algumas são adaptações de fábulas bem conhecidas (duas ou três já constam da obra de Esopo), outras parecem ser criações novas do próprio Carlos Couceiro, embora eu não conheça o suficiente deste tipo de obra literária para ter tal certeza. E todas são fábulas na plena aceção da palavra, com os seus animais falantes e antropomorfizados e moralidade implícita, evitando-se aqui, felizmente, a tentação de explicitar a moral de cada uma.

A impressão mais intensa que fica é a de textos para serem ditos em voz alta. Ao longo de toda a leitura não me saiu da cabeça a imagem de um grupo de contadores de histórias, mais ou menos teatralizadas, rodeado por uma plateia de miúdos. A capa de formas simples cheia de cores primárias e as profusas ilustrações internas reforçam essa impressão de livro concebido sobretudo para públicos de tenra idade, mas o texto propriamente dito não é tão infantil como se poderá supor. Há nele abundância de ironia e bastante política (a qual explica, de resto, o "tempo futuro" do título), sobretudo nas primeiras fábulas, e uma razoável sofisticação nas rimas e nos ritmos que mais facilmente será apreciada por adultos que por crianças.

Em suma, se este livrinho — é bastante curto, com apenas 105 páginas — por um lado me desapontou por o tempo futuro que alardeia no título nada ter a ver com FC, por outro não posso dizer que me tenha desagradado. É daqueles livros que fazem bem aquilo a que se propõem e isso é absolutamente respeitável.

Este livro foi comprado.

Stephen King: Buick 8 - Um Carro Perverso

É curioso como Stephen King consegue em vários dos seus livros escrever histórias que podem ser encaradas como horror sobrenatural ou ficção científica dependendo da maneira como se olha para elas. Não é o único a fazê-lo, evidentemente, pois as interseções entre o horror e a FC são abundantes e antigas, não só na literatura mas também noutras formas de arte. Mas, ao contrário de muitos outros autores comummente associados ao horror, cujas sobrenaturalidades não deixam lugar a dúvidas, King fá-lo de forma quase tão consistente como Lovecraft.

E fá-lo neste Buick 8, Um Carro Perverso (bibliografia), por exemplo. O título português, de resto, é bastante mau. Nada há no título original de From a Buick 8 que permita deduzir perversidade, e a que existe no texto é mais impressão subjetiva de algumas das personagens do que coisa minimamente objetiva. O título original, que significa simplesmente "De um Buick 8", deixa todas as interpretações em aberto, e isso não acontece por acaso (ainda que o motivo principal seja a ligação a Bob Dylan), pelo que a tentativa de forçar uma interpretação através do título em português não só é francamente má como desrespeita a vontade do autor. E não, não estou a bater na tradutora: este título tem toda a cara de opção editorial.

O que o Buick 8 é com toda a certeza é um portal para outro mundo. Ou melhor, não propriamente um portal para algures, mas um que conecta bidirecionalmente a Terra a outro mundo. Que mundo? Não se sabe. Não fica claro. Pode ser um mundo alienígena, situado algures neste vasto universo, pode ser um mundo paralelo ao nosso, situado noutro universo, pode ser um qualquer mundo infernal, demoníaco, o texto do romance dá azo a todas estas interpretações. As duas primeiras são de ficção científica, a terceira não é.

Essa indefinição não é casual. É precisamente esse o tema do romance: o que se desconhece e, mais do que isso, o que não se pode conhecer. Nesse sentido, este livro aproxima-se de vários livros de Lem, de Solaris a Fiasco, e também de um outro romance que li há muito pouco tempo, Blindsight, de Peter Watts, embora a abordagem seja aqui bastante diferente. Enquanto o incognoscível de Lem e Watts se encontra no espaço, o de King aparece um belo dia numa bomba de gasolina da Pensilvânia sob a forma de um carro que, se não fosse o seu condutor ter desaparecido, deixando-o abandonado, e o carro ter uma ou outra característica estranha, poderia considerar-se banalíssimo.

Mas há as características estranhas e o desaparecimento do condutor, portanto o carro é apreendido pela polícia estadual, metido num barracão... e começam a acontecer coisas estranhas com ele. Coisas ainda mais estranhas que as primeiras. Espetáculos de luzes, aparecimento de bizarras e repugnantes criaturas que rapidamente se decompõem emitindo odores nauseabundos... e desaparecimentos vários de coisas e criaturas que se encontravam à sua volta. Incluindo um polícia.

A história é-nos contada porque décadas depois do carro ter aparecido o filho de um polícia morto num acidente e desde o início profundamente mergulhado na investigação possível à natureza daquela coisa começa a fazer biscates na esquadra em busca de informações sobre o pai. E os colegas do pai vão-no pondo ao corrente do que sabem, das coisas que aconteceram com o Buick, das coisas que o pai fez e das coisas que os outros fizeram. É uma história longa, contada a várias vozes, e em grande medida inconclusiva porque apesar de se terem passado décadas desde o abandono (se é que o foi de facto) do carro na bomba de gasolina, ninguém conseguiu penetrar muito no mistério do Buick.

Perto do fim, o rapaz quase é apanhado pelo carro-portal, resistindo apenas porque um dos colegas do pai o agarra, amarrado a uma corda que outros colegas seguram, fornecendo-nos um vislumbre do lugar que existe do outro lado. Este é tão esquemático e limitado que também está aberto a interpretações, ou seja, traz em si muito pouca informação — uma espécie de prado numa espécie de colina, cores estranhas e pouco mais. De novo, não é por acaso. Mas para mim este vislumbre sustenta a aproximação do livro à ficção científica: o lugar que se vislumbra tem todas as características de um sítio real no mundo natural.

Há quem deteste esta indefinição, este deixar as coisas em aberto e sujeitas a interpretações; eu, aqui, gosto bastante, uma vez que ela contribui em grande medida para a eficácia do livro. Numa história sobre o incognoscível pouco sentido faria definir aquilo que só pode ficar indefinido, compreender o que não se pode compreender. Este livro é bastante bom. A narração é pausada mas apesar disso não tem a palha que se encontra em alguns dos outros livros de Stephen King, antes segue o modo naturalmente sinuoso do contar oral de histórias, em especial quando estas são contadas por vários contadores, como acontece aqui. E a informação que acaba por ser fornecida, sendo insuficiente para o leitor ficar com certezas, é no entanto mais que suficiente para ter suspeitas e construir opiniões. Ou seja: King teceu o seu romance bastante bem. Não perfeitamente, até porque a perfeição é tão inatingível como o Buick 8 é incognoscível, mas sim, bastante bem.

Este livro veio da biblioteca dos meus pais.