Já a caminho do atual estado de insuportável parnasianismo mas ainda algo longe de lá chegar, David Soares fez deste No Muro o conto em que talvez tenha roçado mais de perto pela ficção científica.
A princípio não parece. De facto, nem parece ter nada de fantástico; parece não passar de uma daquelas histórias mainstream, tão do agrado de certos escritores e leitores, mas sobretudo dos primeiros, em que alguém descobre os livros e, ao descobri-los, descobre neles uma "centelha do divino" que os separa, e por conseguinte a quem os faz e os aprecia, da ralé ignara. Um dia talvez escreva sobre esta ideologia de deificação da palavra escrita e do mal que ela faz à própria propagação da palavra escrita, mas não será hoje. Talvez no dia em que escrever a sério e detalhadamente sobre o pulp, que corresponde ao extremismo de sentido oposto. Embora talvez não baste um dia para dizer bem o que tenho a dizer; se calhar preciso de uma semana.
Mas adiante.
Neste conto, o protagonista herda do pai uma vasta biblioteca. E põe-se a descobri-la quase por acaso, acabando por perder-se de amores por ela "como as meninas se afeiçoavam aos prometidos maritágios". Sim, é citação direta. Para ficarem com uma ideia da letradice desta prosa. E tantos amores sente que panica com a possibilidade de lhe roubarem a biblioteca ou lhe acontecer algum outro desastre do mesmo calibre. Vai daí, tem uma ideia daquelas de lâmpada acesa por cima da moleirinha: vai fazer um muro na sua propriedade. E dentro de cada tijolo desse muro vai encafuar um livro.
E é aqui que o conto se vira para a ficção científica. Porque o muro fica quando o seu criador se vai e a História de H grande continua a desenrolar-se, inexorável, desembocando em distopia à moda de Fahrenheit 451, com fuzilamentos, queima de todas as bibliotecas, promoção violenta da ignorância mais atroz. Permanece o muro, com a sua biblioteca secreta dentro. Preciosa, chama-lhe David Soares. Inerentemente preciosa, sugere, atribuindo às palavras dos livros uma qualquer alma mística. Inútil, digo eu. Porque sem ter quem as leia, e nada existe na história a sugerir que alguma vez virá a existir alguém que as leia, as palavras são um nada que se desfaz com o tempo. Sem uma criatura humana para lhes dar sentido, não passam de rabiscos sem qualquer significado. Não há superstição literata que lhes valha. Alma... hah... deixem-me rir.
Na contabilidade dos detalhes de que é feita a literatura, este é um conto razoável. Está bastante bem estruturado e de uma forma geral bem escrito, apesar dos ataques de parnasianismo espalhados aqui e ali. Mas a história que nele se conta é derivativa de obras melhores, em parte porque concretizadas sem o recurso a delírios místico-poéticos sobre a natureza das palavras. Há aqueles, obviamente, para os quais são precisamente esses delírios que elevam este conto mais alto; para mim, contudo, e tenho absoluta certeza de não estar nisso sozinho, são aquilo que mais conta em seu detrimento. As palavras que uns e outros leem são as mesmas. Mas é a criatura humana que as lê que lhes confere significado e lhes dá ou retira importância.
E é por isso que a experiência de leitura é inerentemente subjetiva.
sexta-feira, 9 de agosto de 2019
Italo Calvino: Eu Também Experimento Botar Palavra
À medida que nos aproximamos do fim deste livro de Italo Calvino, as histórias vão-se tornando cada vez mais bizarras. Eu Também Experimento Botar Palavra, a penúltima, até começa razoavelmente bem comportada, com o narrador a descrever de que forma tenta contar a sua história às restantes personagens presentes na taberna, mas depressa parte numa longa divagação sobre as representações possíveis do escritor não só em cartas de tarot mas nas artes plásticas em geral.
Entre as várias representações afloradas surge a figura do eremita, sozinho com os seus pensamentos e a sua pena, substituído por São Jerónimo quando as representações se transferem das cartas de tarot para os quadros, a do cavaleiro de espadas, cujo contraparte é São Jorge, o matador de dragões, e no meio de toda a especulação simbólica com base nas figuras pictóricas, Calvino, ou o seu protagonista por ele, vai inventando histórias, ou pelo menos farrapos de histórias.
Tão bem escrito como todos os outros, este conto tem um conteúdo simbólico mais denso que os demais, funcionando quase como texto filosófico sobre a natureza da atividade de escrita e as suas ramificações possíveis. Não é coisa que apele à minha personalidade de leitor, e fica ainda mais prejudicada por não conhecer particularmente bem as ramificações mitológicas das histórias que Calvino utiliza (coisas de ateu, desde sempre com pouco interesse pela religião e suas histórias), pelo que este não foi o texto que mais me agradou ler, longe disso. Mas julgo perceber o que Calvino aqui tentou fazer e até acho que o fez bem.
Contos anteriores deste livro:
Entre as várias representações afloradas surge a figura do eremita, sozinho com os seus pensamentos e a sua pena, substituído por São Jerónimo quando as representações se transferem das cartas de tarot para os quadros, a do cavaleiro de espadas, cujo contraparte é São Jorge, o matador de dragões, e no meio de toda a especulação simbólica com base nas figuras pictóricas, Calvino, ou o seu protagonista por ele, vai inventando histórias, ou pelo menos farrapos de histórias.
Tão bem escrito como todos os outros, este conto tem um conteúdo simbólico mais denso que os demais, funcionando quase como texto filosófico sobre a natureza da atividade de escrita e as suas ramificações possíveis. Não é coisa que apele à minha personalidade de leitor, e fica ainda mais prejudicada por não conhecer particularmente bem as ramificações mitológicas das histórias que Calvino utiliza (coisas de ateu, desde sempre com pouco interesse pela religião e suas histórias), pelo que este não foi o texto que mais me agradou ler, longe disso. Mas julgo perceber o que Calvino aqui tentou fazer e até acho que o fez bem.
Contos anteriores deste livro:
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Em julho falou-se de...
Mais um mês que se passou, mais um post destes que vê a luz do dia. E voltou a ser um mês fraco, agora tanto para os comentários a material português quanto para os comentários a material brasileiro. Mas antes, temos de deixar aqui a conversa do costume sobre o que é isto, para o que remeto os dois ou três interessados para o primeiro post desta série, onde também encontrarão informação sobre as limitações que isto tem e o lugar de onde isto vem, e onde encontrar este post, os anteriores e, a seu tempo, os posteriores, para o que envio os três ou quatro interessados para a tag leituras fc. Ah, sim, e se o compincha que estiver neste momento a ler estas palavras ainda não souber que se seguem agora umas quantas listas e no fim das listas vamos conversar um bocadinho sobre elas, fica agora informado também desse facto. E vamos às listas.
Ficção portuguesa:
Também o Brasil anda fraco. Com apenas 10 comentários a material brasileiro, mesmo que se lhes acrescentem mais dois sobre publicações que incluem ficção brasileira e em tradução, este foi dos piores meses de sempre lá por aquelas bandas, fruto em parte do abrandamento na atividade de alguns blogues virados sobretudo para a leitura e comentário a material brasileiro, o que de resto também aconteceu por cá. A coisa foi tão fraca que desta vez nem há destaques a fazer, pois cada autor aparece na lista uma única vez.
Em contraste, os comentários a material não lusófono abundam. 92 não é o maior número de títulos de sempre, desce até 2 desde o mês anterior, mas é um dos números mais elevados que já apareceram e este mês a desproporção relativamente ao material lusófono, tanto brasileiro quanto português, é imensa. Julgo que nunca antes tinha sido tão grande. Basicamente, temos quase seis vezes mais comentários a material traduzido (ou na língua original) do que a material lusófono, o que é um bom reflexo da fragilidade das FCs lusófonas (e no caso português da quase total ausência de edições em 2019). Os destaques vão para Gwenda Bond, cuja novelização recebeu 5 comentários, Octavia Butler, com 4 comentários a dois títulos diferentes, Ursula Le Guin, com 5 comentários também a dois títulos, Stephen King, também com 5 comentários mas a quatro títulos diferentes, e Nora Roberts, com 4 comentários a um só título.
Por fim, este mês há também a referir a grande quantidade de comentários a obras de não-ficção, tanto brasileiras quanto não-lusófonas. Embora sejam fruto quase exclusivamente de um só site, é muito invulgar que este tipo de obra se aproxime dos comentários a ficções lusófonas, como foi o caso com os 5 comentários a não-ficção brasileira (um deles refere-se a uma publicação que inclui também ficção, mas não científica) e 6 a não-ficção internacional. Veremos se é caso único ou tendência que prossegue nos próximos meses, e também se a atual fase má das ficções lusófonas se prolonga ou não.
Até ao mês que vem.
Ficção portuguesa:
- O Invisível, a sua Sombra e o seu Reflexo, de António Bizarro
- Imprudentes, de Ana Cláudia Dâmaso
- Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (2x)
- História do Cerco de Lisboa, de José Saramago
- In Falsetto, de Luís Filipe Silva (conto)
- A Batalha da Escuridão / The Dark Sea War Chronicles, de Bruno Martins Soares
- In Vino Veritas, de João Ventura (conto)
- Sobre a Imortalidade de Rui de Leão, de Machado de Assis
- Amaimon, de Lucas Barbosa
- Fome, de Márcio Benjamin
- Matando Gigantes, de Claudia Dugim
- Assim na Terra Como Embaixo da Terra, de Ana Paula Maia
- Fractais Tropicais, org. Nelson de Oliveira
- O Vale dos Mortos, de Rodrigo de Oliveira
- O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci
- A Telepatia São os Outros, de Ana Rüsche
- Manjedoura, de Sandro J. A. Saint
- Diário Macabro, nº 1, ed. Nathalia Scotuzzi
- Diário Macabro, nº 2, ed. Nathalia Scotuzzi
- Frankenstein Desencadenado, de Brian W. Aldiss
- Opostos, de Jennifer L. Armentrout
- Eu, Robô, de Isaac Asimov
- O Dia dos Caçadores, de Isaac Asimov (conto)
- Pobres Imbecis, de Isaac Asimov (conto)
- O Ano do Dilúvio, de Margaret Atwood
- O Conto da Aia, de Margaret Atwood
- Toda a Cerveja de Marte, de Gregory Benford (conto)
- O Homem Demolido, de Alfred Bester
- Raízes do Mal / Mentes Inquietas, de Gwenda Bond (5x)
- Mentes Sombrias, de Alexandra Bracken
- Fúria Vermelha, de Pierce Brown
- Laranja Mecânica, de Anthony Burgess
- A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler (2x)
- A Parábola dos Talentos, de Octavia E. Butler (2x)
- História da Floresta que se Vinga, de Italo Calvino (conto)
- História do Guerreiro Sobrevivente, de Italo Calvino (conto)
- Antologia da Literatura Fantástica, org. Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo (2x)
- A Coroa, de Kiera Cass
- A Herdeira, de Kiera Cass
- O Mundo Resplandecente, de Margaret Cavendish
- Nova Iorque Sob Trevas, de Adam Christopher
- Um Dia Na Vida do Século XXI, org. Arthur C. Clarke
- A Biblioteca Invisível, de Genevieve Cogman
- O Lagarto de Woz, de Edmund Cooper (conto)
- Timewyrm: Revelation, de Paul Cornell
- Vox, de Christina Dalcher
- Blade Runner, de Pilip K. Dick
- The Bullet-Catcher's Daughter, de Rod Duncan
- The Custodian of Marvels, de Rod Duncan
- Unseemly Science, de Rod Duncan
- A Cruz de Fogo, de Diana Gabaldon
- O Jardim Diabólico, org. Vic Ghidalia
- Neuromancer, de William Gibson (2x)
- O Periférico, de William Gibson
- Vinte e Dois Passos Para o Apocalipse, de Terence M. Green e Andrew Weiner (conto)
- A Curva do Sonho, de Ursula K. Le Guin (4x)
- Os Despojados, de Ursula K. Le Guin
- A Máquina do Tempo Acidental, de Joe Haldeman
- Guerra sem Fim / The Forever War, de Joe Haldeman (2x)
- Heretics of Dune, de Frank Herbert
- Synthespians, de Craig Hinton
- A Loja do Desejo Agridoce, de Rhys Hughes (conto)
- Os Engonços da Quionga, de Rhys Hughes (conto)
- À Beira da Eternidade, de Melissa E. Hurst (3x)
- Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
- Buick 8 - Um Carro Perverso, de Stephen King
- Cell - A Chamada da Morte / Celular, de Stephen King (2x)
- Novembro de 1963, de Stephen King
- Sob a Redoma, de Stephen King
- O Preço das Laranjas, de Nancy Kress (conto)
- A Balada do Black Tom, de Victor LaValle
- Os Dias Escuros, de Manel Loureiro
- Ladra de Almas, de Sarah J. Maas
- O Corpo Dela e Outras Farras, de Carmen Maria Machado
- Lovestar, de Andri Snær Magnason
- Alarma Galáctico, de Kurt Mahr
- Às Cegas, de Josh Malerman
- Amanhã: Quem Tem Medo da Noite, de John Marsden
- Nightflyers, de George R. R. Martin (3x)
- Máquinas como Eu, de Ian McEwan (2x)
- A Altura Deslumbrante, de Katharine McGee
- Revolta, de Kass Morgan
- Mundo em Caos, de Patrick Ness (2x)
- 1984, de George Orwell (2x)
- The Prestige, de Christopher Priest
- A Bússola de Ouro, de Philip Pullman
- The Deviant Strain, de Justin Richards
- Trail of Lightning, de Rebecca Roanhorse
- Ano Um, de Nora Roberts (4x)
- Red Mars, de Kim Stanley Robinson
- Crave a Marca, de Veronica Roth
- We Can Be Mended, de Veronica Roth (conto)
- Coração de Aço, de Brandon Sanderson
- Guerra do Velho, de John Scalzi
- A Última Colônia, de John Scalzi
- The Consuming Fire, de John Scalzi
- Frankenstein, de Mary Shelley (2x)
- Seca, de Neal Shusterman e Jarrod Shusterman (2x)
- Quando as Estrelas Caem, de Meagan Spooner e Amie Kaufman
- O Homem que Caiu na Terra, de Walter Tevis
- Minha Mulher, de Steven Utley (conto)
- The Big Book of Science Fiction, org. Jeff VanderMeer e Ann Vandermeer
- Dezasseis, de Rachel Vincent
- Matadouro-Cinco, de Kurt Vonnegut (2x)
- A Máquina do Tempo, de H. G. Wells
- Um Sonho do Armagedão, de H. G. Wells (conto)
- Artemis, de Andy Weir (2x)
- Impostores, de Scott Westerfeld (2x)
- Iridescência, de Dean Whitlock (conto)
- Interferências, de Connie Williams
- Marciana Idiota, de John Wyndham (conto)
- Megalon, nº 1, ed. Marcello Simão Branco e Renato Rosatti
- Traduzindo Ficção Científica: Samuel Delany, de Eduardo Andrade Barbosa de Castro
- Utopia, feminismo e resignação em The Left Hand of Darkness e The Handmaid’s Tale, de Ana Rüsche
- Ursula K. Le Guin: Otherworldly literature for nonhuman times, de Melina Pereira Savi
- Ursa menor: notas sobre ficção científica e fantasia, de Marco Antonio Valentim
- Wholeness and Balance in the Hainish Novels of Ursula K. Le Guin, de D. Barbour
- 21 Lições para o Século 21, de Yuval Noah Harari
- The Unity of “Childhood’s End”, de J. Huntington
- Imagining the Future: Zamyatin and Wells, de Patrick Parrinder
- Childhood’s End: A Median Stage of Adolescence?, de David N. Samuelson
- Utopia and Science Fiction, de Raymond Williams
Também o Brasil anda fraco. Com apenas 10 comentários a material brasileiro, mesmo que se lhes acrescentem mais dois sobre publicações que incluem ficção brasileira e em tradução, este foi dos piores meses de sempre lá por aquelas bandas, fruto em parte do abrandamento na atividade de alguns blogues virados sobretudo para a leitura e comentário a material brasileiro, o que de resto também aconteceu por cá. A coisa foi tão fraca que desta vez nem há destaques a fazer, pois cada autor aparece na lista uma única vez.
Em contraste, os comentários a material não lusófono abundam. 92 não é o maior número de títulos de sempre, desce até 2 desde o mês anterior, mas é um dos números mais elevados que já apareceram e este mês a desproporção relativamente ao material lusófono, tanto brasileiro quanto português, é imensa. Julgo que nunca antes tinha sido tão grande. Basicamente, temos quase seis vezes mais comentários a material traduzido (ou na língua original) do que a material lusófono, o que é um bom reflexo da fragilidade das FCs lusófonas (e no caso português da quase total ausência de edições em 2019). Os destaques vão para Gwenda Bond, cuja novelização recebeu 5 comentários, Octavia Butler, com 4 comentários a dois títulos diferentes, Ursula Le Guin, com 5 comentários também a dois títulos, Stephen King, também com 5 comentários mas a quatro títulos diferentes, e Nora Roberts, com 4 comentários a um só título.
Por fim, este mês há também a referir a grande quantidade de comentários a obras de não-ficção, tanto brasileiras quanto não-lusófonas. Embora sejam fruto quase exclusivamente de um só site, é muito invulgar que este tipo de obra se aproxime dos comentários a ficções lusófonas, como foi o caso com os 5 comentários a não-ficção brasileira (um deles refere-se a uma publicação que inclui também ficção, mas não científica) e 6 a não-ficção internacional. Veremos se é caso único ou tendência que prossegue nos próximos meses, e também se a atual fase má das ficções lusófonas se prolonga ou não.
Até ao mês que vem.
Jane Bowles: Aldeia das Cataratas
Confesso que me falta por completo a paciência para histórias sobre as neuroses de gente inútil, e por esta frase já poderão ficar com uma ideia bastante sólida tanto sobre o enredo desta longa história, quanto sobre a opinião com que eu dela fiquei.
Nunca tinha lido nada de Jane Bowles, e não me parece que volte alguma vez a ler, a menos que a apanhe por acaso noutra revista ou antologia qualquer. Porque este Aldeia das Cataratas não será propriamente caso para trauma, porque a novela (não contei as páginas mas o tamanho deve ser de novela) sempre está bem escrita e, à sua maneira, bem concebida, mas foi certamente das leituras mais aborrecidas que tive nos últimos anos.
Tudo gira em volta de duas irmãs, ambas completamente inúteis na vida. Solteironas e desocupadas, vivendo no ócio absoluto, têm fama de "neuróticas" e passam a vida a ruminar planos de fazer isto e aquilo, a resmonear desfeitas reais e imaginárias por parte dos outros membros da família e, na verdade, de qualquer outra pessoa que lhes cruze o caminho, em paroxismos de egoísmo e absoluta ausência de qualquer espécie de empatia pelo próximo, que se revela na incapacidade que ambas mostram em compreender qualquer coisa que lhes seja dita. Uma terceira irmã não é muito melhor, mas pelo menos tem o marido que a ocupe (o qual é moldado do mesmíssimo barro, apesar de não ser do mesmo sangue), pelo que não tem tanto tempo livre para neuras, embora talvez seja daí que lhe vem um caráter e língua mais viperinos. Gente desagradável e muito, muito estúpida, toda ela.
E o enredo pode resumir-se com a frase "irmã de férias num aldeamento chamado Aldeia das Cataratas concebe plano para se ir embora e desaparecer (que não põe em prática) e outra irmã resolve ir visitá-la, com consequências desagradáveis". O resto são ruminações, castelos no ar, conversas e atitudes imaginárias, tudo muito, muito, muito, mas muito chato. Mas mesmo muito chato. Absolutamente dispensável.
Contos anteriores desta publicação:
Nunca tinha lido nada de Jane Bowles, e não me parece que volte alguma vez a ler, a menos que a apanhe por acaso noutra revista ou antologia qualquer. Porque este Aldeia das Cataratas não será propriamente caso para trauma, porque a novela (não contei as páginas mas o tamanho deve ser de novela) sempre está bem escrita e, à sua maneira, bem concebida, mas foi certamente das leituras mais aborrecidas que tive nos últimos anos.
Tudo gira em volta de duas irmãs, ambas completamente inúteis na vida. Solteironas e desocupadas, vivendo no ócio absoluto, têm fama de "neuróticas" e passam a vida a ruminar planos de fazer isto e aquilo, a resmonear desfeitas reais e imaginárias por parte dos outros membros da família e, na verdade, de qualquer outra pessoa que lhes cruze o caminho, em paroxismos de egoísmo e absoluta ausência de qualquer espécie de empatia pelo próximo, que se revela na incapacidade que ambas mostram em compreender qualquer coisa que lhes seja dita. Uma terceira irmã não é muito melhor, mas pelo menos tem o marido que a ocupe (o qual é moldado do mesmíssimo barro, apesar de não ser do mesmo sangue), pelo que não tem tanto tempo livre para neuras, embora talvez seja daí que lhe vem um caráter e língua mais viperinos. Gente desagradável e muito, muito estúpida, toda ela.
E o enredo pode resumir-se com a frase "irmã de férias num aldeamento chamado Aldeia das Cataratas concebe plano para se ir embora e desaparecer (que não põe em prática) e outra irmã resolve ir visitá-la, com consequências desagradáveis". O resto são ruminações, castelos no ar, conversas e atitudes imaginárias, tudo muito, muito, muito, mas muito chato. Mas mesmo muito chato. Absolutamente dispensável.
Contos anteriores desta publicação:
João do Rio: Os Livres Acampamentos da Miséria
E a encerrar, aqui temos o motivo por que eu descarreguei este número da Macondo, revista virtual que até aí desconhecia por completo. João do Rio é um autor que marca presença nos anais do fantástico brasileiro, e quis saber se o texto dele aqui publicado cairia também no âmbito do fantástico ou não. Para o Bibliowiki, claro.
E não cai. Identificado como crónica, apesar de apresentar características de conto (como o facto de contar uma história, completa com as suas personagens, as falas em discurso direto dessas personagens, por aí fora), Os Livres Acampamentos da Miséria relata uma noite de aventura pela boémia dos bairros pobres do Rio de Janeiro do início do século XX, época em que a miséria começava a subir aos morros onde hoje em dia se espalham as favelas, aventura essa profusamente regada a cachaça e a samba.
E é um texto interessante. A espaços fez-me lembrar Jorge Amado, o que é bom sinal, ainda que com uma escrita menos límpida que a deste. Não há é muito a dizer além disso: esta história, seja ela verdadeira, romanceada ou inventada, é daquelas histórias que encontram a pureza de sentimentos e a alegria em lugares à partida tidos como sórdidos e deprimentes, o que provavelmente coloca João do Rio como percursor de correntes literárias que fazem isso mesmo de uma forma ideologicamente motivada, como o neorrealismo. Mas precisamente por fazer lembrar essas obras, basta apontar para elas para se ficar com uma ideia bastante concreta sobre esta. É interessante também por isso. Mas não é algo que me encha as medidas.
Textos anteriores desta publicação:
E não cai. Identificado como crónica, apesar de apresentar características de conto (como o facto de contar uma história, completa com as suas personagens, as falas em discurso direto dessas personagens, por aí fora), Os Livres Acampamentos da Miséria relata uma noite de aventura pela boémia dos bairros pobres do Rio de Janeiro do início do século XX, época em que a miséria começava a subir aos morros onde hoje em dia se espalham as favelas, aventura essa profusamente regada a cachaça e a samba.
E é um texto interessante. A espaços fez-me lembrar Jorge Amado, o que é bom sinal, ainda que com uma escrita menos límpida que a deste. Não há é muito a dizer além disso: esta história, seja ela verdadeira, romanceada ou inventada, é daquelas histórias que encontram a pureza de sentimentos e a alegria em lugares à partida tidos como sórdidos e deprimentes, o que provavelmente coloca João do Rio como percursor de correntes literárias que fazem isso mesmo de uma forma ideologicamente motivada, como o neorrealismo. Mas precisamente por fazer lembrar essas obras, basta apontar para elas para se ficar com uma ideia bastante concreta sobre esta. É interessante também por isso. Mas não é algo que me encha as medidas.
Textos anteriores desta publicação:
terça-feira, 6 de agosto de 2019
Italo Calvino: Duas Histórias em que nos Procuramos e nos Perdemos
Não sei se é pela acumulação de álcool nos organismos dos convivas à medida que a noite na taberna avança, isto é, não sei se Italo Calvino ordenou as suas histórias como as ordenou com essa ideia em mente (parece-me provável: ele era um escritor muitíssimo rigoroso, e esse é o tipo de pormenor que me parece ajustar-se inteiramente à personagem), mas o facto é que à medida que esta parte do livro avança aumenta também a confusão e desordem nas histórias que vão sendo contadas.
Prova disso é este conto, adequadamente intitulado Duas Histórias em que nos Procuramos e nos Perdemos, que conta como dois dos convivas da taberna competem para contar a história de cada um, recorrendo às mesmas cartas que o outro usa. Isto à superfície. Cavando mais fundo, o que Calvino na verdade aqui faz é uma reflexão altamente erudita sobre a natureza das histórias enquanto estruturas combinatórias de elementos mais ou menos discretos e comuns, na qual equipara e compara duas velhas lendas e os respetivos protagonistas: Fausto e as duas ambições alquímicas e Parsifal e a sua demanda do Graal.
O resultado é bastante confuso, no sentido de que o leitor distraído facilmente poderá perder-se no labirinto que Calvino monta. Não é um conto fácil, longe disso, e será tanto mais recompensador quanto melhor o leitor conhecer as lendas que lhe servem de inspiração, o que de resto também se pode dizer de várias das histórias anteriores. Eu, que não as conheço particularmente bem — ou por outra, a de Fausto conheço razoavelmente bem, pelo menos em algumas das suas muitas versões, mas a de Parsifal não — não me senti lá muito recompensado. Salvo pela escrita de Calvino, que essa é tão boa como sempre.
Contos anteriores deste livro:
Prova disso é este conto, adequadamente intitulado Duas Histórias em que nos Procuramos e nos Perdemos, que conta como dois dos convivas da taberna competem para contar a história de cada um, recorrendo às mesmas cartas que o outro usa. Isto à superfície. Cavando mais fundo, o que Calvino na verdade aqui faz é uma reflexão altamente erudita sobre a natureza das histórias enquanto estruturas combinatórias de elementos mais ou menos discretos e comuns, na qual equipara e compara duas velhas lendas e os respetivos protagonistas: Fausto e as duas ambições alquímicas e Parsifal e a sua demanda do Graal.
O resultado é bastante confuso, no sentido de que o leitor distraído facilmente poderá perder-se no labirinto que Calvino monta. Não é um conto fácil, longe disso, e será tanto mais recompensador quanto melhor o leitor conhecer as lendas que lhe servem de inspiração, o que de resto também se pode dizer de várias das histórias anteriores. Eu, que não as conheço particularmente bem — ou por outra, a de Fausto conheço razoavelmente bem, pelo menos em algumas das suas muitas versões, mas a de Parsifal não — não me senti lá muito recompensado. Salvo pela escrita de Calvino, que essa é tão boa como sempre.
Contos anteriores deste livro:
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
E vão três.
Diga um, diga dois, diga três, lá vamos nós outra vez.
Pois é. Quem segue a Lâmpada regularmente e vê este boneco aqui ao lado já deve ter percebido: alguém me nomeou outra vez para um prémio da European Science Fiction Society. É a terceira nomeação para um prémio que não ganharei nunca por motivos que já expliquei das outras duas vezes, numa análise que não tenho nenhum elemento que me leve a alterar. Continuo com a mesma opinião: a nomeação é agradável porque indica que há alguém que acha o meu trabalho bom o suficiente para a merecer, mas basicamente irrelevante porque, voluntarismos bem intencionados à parte, não existe um mercado europeu de ficção científica e fantástico e praticamente ninguém conhece o trabalho de ninguém. Nem eu faço alguma ideia se mereceria o prémio ou seria simplesmente ridículo vencê-lo.
Sim, porque desta vez estou nomeado para melhor tradutor e se há coisa que toda a gente ignora por completo é a competência dos tradutores ativos no país do lado. Na verdade, mesmo que existisse um mercado europeu de FC essa ignorância manter-se-ia: o trabalho de um tradutor está demasiado ligado à língua de destino para poder ser de outra forma. Se algumas das categorias até são passíveis de avaliação mais ou menos objetiva, como as ligadas às artes visuais, a da tradução não é nem nunca será. Eu sei que contra mim falo, mas as coisas são como são, não há forma de lhes fugir.
Enfim...
É a segunda vez que sou nomeado pelas traduções, depois de o mesmo ter acontecido há cinco anos e de há três ter sido nomeado pelo Bibliowiki. A ESFS insiste em publicar as nomeações em PDFs, mas quem quiser saber quem foi nomeado e por quê pode descarregá-los daqui. Há por lá mais portugueses, naturalmente. Sei que alguns dão mais importância a estes prémios que eu, mas continuo a achar que seria muito mais importante, viável e lógico se fizéssemos um esforço para criar prémios verdadeiramente lusófonos, lamento. Ou pelo menos para criar condições que viabilizassem a existência de um prémio assim. E foi basicamente para voltar a dizer isto que escrevi este post. De outra forma bastaria um "olha, giro, fui nomeado" e siga.
Pois é. Quem segue a Lâmpada regularmente e vê este boneco aqui ao lado já deve ter percebido: alguém me nomeou outra vez para um prémio da European Science Fiction Society. É a terceira nomeação para um prémio que não ganharei nunca por motivos que já expliquei das outras duas vezes, numa análise que não tenho nenhum elemento que me leve a alterar. Continuo com a mesma opinião: a nomeação é agradável porque indica que há alguém que acha o meu trabalho bom o suficiente para a merecer, mas basicamente irrelevante porque, voluntarismos bem intencionados à parte, não existe um mercado europeu de ficção científica e fantástico e praticamente ninguém conhece o trabalho de ninguém. Nem eu faço alguma ideia se mereceria o prémio ou seria simplesmente ridículo vencê-lo.
Sim, porque desta vez estou nomeado para melhor tradutor e se há coisa que toda a gente ignora por completo é a competência dos tradutores ativos no país do lado. Na verdade, mesmo que existisse um mercado europeu de FC essa ignorância manter-se-ia: o trabalho de um tradutor está demasiado ligado à língua de destino para poder ser de outra forma. Se algumas das categorias até são passíveis de avaliação mais ou menos objetiva, como as ligadas às artes visuais, a da tradução não é nem nunca será. Eu sei que contra mim falo, mas as coisas são como são, não há forma de lhes fugir.
Enfim...
É a segunda vez que sou nomeado pelas traduções, depois de o mesmo ter acontecido há cinco anos e de há três ter sido nomeado pelo Bibliowiki. A ESFS insiste em publicar as nomeações em PDFs, mas quem quiser saber quem foi nomeado e por quê pode descarregá-los daqui. Há por lá mais portugueses, naturalmente. Sei que alguns dão mais importância a estes prémios que eu, mas continuo a achar que seria muito mais importante, viável e lógico se fizéssemos um esforço para criar prémios verdadeiramente lusófonos, lamento. Ou pelo menos para criar condições que viabilizassem a existência de um prémio assim. E foi basicamente para voltar a dizer isto que escrevi este post. De outra forma bastaria um "olha, giro, fui nomeado" e siga.
Ednice Peixoto: Espelho, Espelho Meu
Uma das coisas que eu digo com frequência sempre que a conversa deriva para a sempiterna dialética entre forma e conteúdo na literatura, é que, para mim, o conteúdo tende a determinar a forma. O que quero dizer com isto é que há histórias que praticamente exigem um texto duro, seco e rápido, ao passo que outras quase o requerem pausado, elaborado, até poético. E quando há uma dissonância entre a forma que a minha sensibilidade de leitor afirma que uma história devia ter e aquela que realmente tem, o texto soa-me a falso, a coisa artificial e fabricada. O que obviamente é, mas, para que a suspensão da descrença se faça por forma a que o leitor acredite no que está a ler, procura parecer não o ser.
Neste seu conto, Ednice Peixoto resolveu poetizar a anorexia. Espelho, Espelho Meu, que poderia ter um subtítulo como Haverá Alguém Mais Gorda do que Eu?, é uma vinheta escrita em prosa poética sobre essa disfunção na autoimagem, com tudo o que lhe está associado. E eu senti-o dissonante. Não por completo, mas em parte sim. Porque para a minha sensibilidade literária, a elaboração da prosa choca com a dureza da realidade, que nada tem de poético. Poetizá-la é como poetizar um cancro, porque também a anorexia corrói as pessoas por dentro. Pode-se fazer, evidentemente, e até é provável que haja quem goste. E até é possível que essa poetização seja a única forma que quem passa por tais problemas tem para conseguir falar deles. Literatizando-os. Mas eu, decididamente, não faço parte desses grupos.
Textos anteriores desta publicação:
Neste seu conto, Ednice Peixoto resolveu poetizar a anorexia. Espelho, Espelho Meu, que poderia ter um subtítulo como Haverá Alguém Mais Gorda do que Eu?, é uma vinheta escrita em prosa poética sobre essa disfunção na autoimagem, com tudo o que lhe está associado. E eu senti-o dissonante. Não por completo, mas em parte sim. Porque para a minha sensibilidade literária, a elaboração da prosa choca com a dureza da realidade, que nada tem de poético. Poetizá-la é como poetizar um cancro, porque também a anorexia corrói as pessoas por dentro. Pode-se fazer, evidentemente, e até é provável que haja quem goste. E até é possível que essa poetização seja a única forma que quem passa por tais problemas tem para conseguir falar deles. Literatizando-os. Mas eu, decididamente, não faço parte desses grupos.
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domingo, 4 de agosto de 2019
Leiturtugas da semana #29
Mais uma semana de pausa nas Leiturtugas (o mês passado foi muito fraco, diga-se, e agosto começa no mesmo diapasão), e ei-las que regressam, de novo pela mão da Cristina Alves que nos apresenta a sua opinião sobre uma coletânea de António Bizarro publicada pela CoolBooks: O Invisível, a sua Sombra e o seu Reflexo. É um livro com FC, embora pouca, pelo que a Cristina passa a contar 5c4s.
E por esta semana foi só. Para a semana haverá mais. Na Lâmpada, pelo menos.
E por esta semana foi só. Para a semana haverá mais. Na Lâmpada, pelo menos.
Raquel Ochoa: Ninfas e Adamastores
Ponhamos logo de parte o elefante na sala: o incómodo à leitura que causa o facto de este conto vir escrito em itálico do princípio ao fim, e que espero que se deva a um erro de formatação do ebook e não a opção editorial ou autoral, que seria demasiado desastrada. Façamos de conta, pois, que se trata de um texto formatado normalmente e que se lê com a facilidade de qualquer outro destes ebooks publicados pelo DN.
Pondo isso de parte, Raquel Ochoa escreveu um bom conto. E sim, os cultores de literatura fantástica também vão ter de pôr de parte o desapontamento por o título poder induzi-los em erro porque não, este Ninfas e Adamastores não tem nem ninfas, nem adamastores, nem qualquer outra bicheza fantástica. É uma história sobre um judeu, comerciante, que se estabelece nos Açores vindo do norte de África, e sobre os altos e baixos da sua vida nas ilhas, contada por um dos filhos.
E é uma vida com bastantes altos e baixos. O homem era casado antes de imigrar para Portugal. A ideia era tentar estabelecer-se e, se e quando tivesse sucesso nessa empresa, mandar vir a mulher, o que de resto é tema comum em tantas histórias de emigração. Quando consegue arranjar uma vida estável com um negócio de importação e exportação, começa a pedir nas cartas que envia à mulher que fosse ter com ele, mas nenhuma das tem resposta. Entretanto, a vida continua. Com tanto silêncio, e também, talvez, porque lhe convém, o homem supõe a mulher morta, conhece uma portuguesa, não judia, apaixonam-se, casam, têm um filho. E o negócio continua a prosperar.
Até que acontece uma série de pequenas e grandes calamidades ao mesmo tempo e tudo muda num ápice. Um navio afunda-se com parte significativa do negócio a bordo. A mulher que se julgava morta aparece de repente nos Açores, decidida a reclamar o seu lugar junto do homem (não é propriamente aquilo a que se poderia chamar um prodígio de honestidade, esta), o filho que o homem tivera com a portuguesa fica com a vida por um fio. E tudo isto, e mais, é contado com segurança, em prosa escorreita e bem ritmada, mantendo a narrativa interessante até ao fim. Não é, mais uma vez, um tema que me interesse por aí além mas, tirando a desastrada formatação do texto, esta história pareceu-me bastante boa e bastante sólida. É mais do que posso dizer de um bom quinhão das outras.
Pondo isso de parte, Raquel Ochoa escreveu um bom conto. E sim, os cultores de literatura fantástica também vão ter de pôr de parte o desapontamento por o título poder induzi-los em erro porque não, este Ninfas e Adamastores não tem nem ninfas, nem adamastores, nem qualquer outra bicheza fantástica. É uma história sobre um judeu, comerciante, que se estabelece nos Açores vindo do norte de África, e sobre os altos e baixos da sua vida nas ilhas, contada por um dos filhos.
E é uma vida com bastantes altos e baixos. O homem era casado antes de imigrar para Portugal. A ideia era tentar estabelecer-se e, se e quando tivesse sucesso nessa empresa, mandar vir a mulher, o que de resto é tema comum em tantas histórias de emigração. Quando consegue arranjar uma vida estável com um negócio de importação e exportação, começa a pedir nas cartas que envia à mulher que fosse ter com ele, mas nenhuma das tem resposta. Entretanto, a vida continua. Com tanto silêncio, e também, talvez, porque lhe convém, o homem supõe a mulher morta, conhece uma portuguesa, não judia, apaixonam-se, casam, têm um filho. E o negócio continua a prosperar.
Até que acontece uma série de pequenas e grandes calamidades ao mesmo tempo e tudo muda num ápice. Um navio afunda-se com parte significativa do negócio a bordo. A mulher que se julgava morta aparece de repente nos Açores, decidida a reclamar o seu lugar junto do homem (não é propriamente aquilo a que se poderia chamar um prodígio de honestidade, esta), o filho que o homem tivera com a portuguesa fica com a vida por um fio. E tudo isto, e mais, é contado com segurança, em prosa escorreita e bem ritmada, mantendo a narrativa interessante até ao fim. Não é, mais uma vez, um tema que me interesse por aí além mas, tirando a desastrada formatação do texto, esta história pareceu-me bastante boa e bastante sólida. É mais do que posso dizer de um bom quinhão das outras.
sábado, 3 de agosto de 2019
K. H. Scheer: Missão Stardust
Depois de há uns tempos (bem, há bastante tempo já: quase dois anos) ter lido, fora de ordem, um dos livros da série Perry Rhodan, achei que já agora bem podia ler os que cá tenho por ordem. Começando pelo primeiro, como costuma acontecer quando se faz as coisas ordenadamente. Não é projeto de leitura de alta prioridade, como se pode deduzir pelos dois anos entre um livro e o seguinte, e pode ser abandonado a qualquer altura mas, para já, está lido este Missão Stardust, escrito por um senhor chamado K. H. Scheer.
E não começou particularmente bem, esta série Perry Rhodan. Mesmo dando o desconto devido ao facto de se tratar de uma série de inspiração declaradamente pulp, a verdade é que esta primeira novela deixa bastante a desejar, especialmente no início. Cheio de infodumps repletos de detalhes técnicos perfeitamente dispensáveis, o início deste livro é uma chatice pegada. E não precisam de acreditar em mim: o facto da edição vir com uma pequena nota a aconselhar os leitores a saltarem a primeira parte e começarem a leitura pela segunda é elucidativo quanto baste.
Trata-se da história da primeira missão tripulada à Lua, a Missão Stardust do título, que na época em que o livro foi publicado na Alemanha ainda estava no futuro, embora não por muito tempo. Não foi premeditado, mas foi muito curioso estar a ler este livrinho enquanto à minha volta o mundo celebrava o meio século da primeira missão verdadeira à Lua, recordando os detalhes da missão e os seus protagonistas. Foi quase como estar a ler com um calhamaço técnico ao lado e ir comparando realidade com ficção.
Mas claro: na realidade não houve nenhum encontro com alienígenas na face oculta da Lua.
Na ficção há, e é isso o que despoleta toda a gigantesca série do Perry Rhodan, a mais longeva e prolixa série de ficção científica literária do planeta. Isso e, julgo eu, o facto de Scheer ter decidido incluir logo neste primeiro volume algo mais profundo do que a mera aventura pulp que se poderia esperar: uma mensagem universalista, até mesmo pacifista, que só já não foi surpresa encontrar aqui porque a encontrei no primeiro livro desta série que li: o terceiro volume. Penso que sem isso, muito provavelmente, esta série nunca teria descolado por mais combustível que enfiassem no foguetão. Talvez convenha recordar que na época, um dos momentos mais tensos e extremados da Guerra Fria, a Alemanha estava no centro do confronto entre a NATO e o Pacto de Varsóvia, e dificilmente poderiam ter encontrado mensagem mais relevante do que essa para esse momento histórico.
É que a ficção científica nunca é realmente sobre o futuro, sabem? É, isso sim, uma forma de falar de forma abstrata sobre o presente e o passado.
Ainda por cima, é essa abordagem que justifica os atos de Perry Rhodan e do resto da sua tripulação no encerramento desta história, colocando-os em desafio aberto às potências terrestres e em aliança com os alienígenas. É um gancho claro para histórias subsequentes, extremamente eficaz, ao ponto de quase fazer esquecer o chatíssimo início desta. Quase.
O problema, claro, é o quase. E por isso não posso dizer que tenha gostado deste livro, mesmo com o desconto pulp ativo. A Abóbada Energética é bastante melhor.
E não começou particularmente bem, esta série Perry Rhodan. Mesmo dando o desconto devido ao facto de se tratar de uma série de inspiração declaradamente pulp, a verdade é que esta primeira novela deixa bastante a desejar, especialmente no início. Cheio de infodumps repletos de detalhes técnicos perfeitamente dispensáveis, o início deste livro é uma chatice pegada. E não precisam de acreditar em mim: o facto da edição vir com uma pequena nota a aconselhar os leitores a saltarem a primeira parte e começarem a leitura pela segunda é elucidativo quanto baste.
Trata-se da história da primeira missão tripulada à Lua, a Missão Stardust do título, que na época em que o livro foi publicado na Alemanha ainda estava no futuro, embora não por muito tempo. Não foi premeditado, mas foi muito curioso estar a ler este livrinho enquanto à minha volta o mundo celebrava o meio século da primeira missão verdadeira à Lua, recordando os detalhes da missão e os seus protagonistas. Foi quase como estar a ler com um calhamaço técnico ao lado e ir comparando realidade com ficção.
Mas claro: na realidade não houve nenhum encontro com alienígenas na face oculta da Lua.
Na ficção há, e é isso o que despoleta toda a gigantesca série do Perry Rhodan, a mais longeva e prolixa série de ficção científica literária do planeta. Isso e, julgo eu, o facto de Scheer ter decidido incluir logo neste primeiro volume algo mais profundo do que a mera aventura pulp que se poderia esperar: uma mensagem universalista, até mesmo pacifista, que só já não foi surpresa encontrar aqui porque a encontrei no primeiro livro desta série que li: o terceiro volume. Penso que sem isso, muito provavelmente, esta série nunca teria descolado por mais combustível que enfiassem no foguetão. Talvez convenha recordar que na época, um dos momentos mais tensos e extremados da Guerra Fria, a Alemanha estava no centro do confronto entre a NATO e o Pacto de Varsóvia, e dificilmente poderiam ter encontrado mensagem mais relevante do que essa para esse momento histórico.
É que a ficção científica nunca é realmente sobre o futuro, sabem? É, isso sim, uma forma de falar de forma abstrata sobre o presente e o passado.
Ainda por cima, é essa abordagem que justifica os atos de Perry Rhodan e do resto da sua tripulação no encerramento desta história, colocando-os em desafio aberto às potências terrestres e em aliança com os alienígenas. É um gancho claro para histórias subsequentes, extremamente eficaz, ao ponto de quase fazer esquecer o chatíssimo início desta. Quase.
O problema, claro, é o quase. E por isso não posso dizer que tenha gostado deste livro, mesmo com o desconto pulp ativo. A Abóbada Energética é bastante melhor.
Sónia Garcia: Decisões Imperfeitas
Eu digo com frequência que prefiro o conteúdo à forma literária, por isso imagino que quem leia aqui o blogue com alguma regularidade estranhe um pouco quando aponto às histórias que vou lendo problemas sobretudo de forma. Isso acontece por dois motivos: por um lado, preferir o conteúdo à forma não implica de forma alguma que se ache a forma irrelevante; por outro, quando o conteúdo é intrinsecamente mediano, ou me interessa pouco, é a forma que pode decidir se o resultado cai para o lado agradável ou desagradável da leitura.
No caso deste conto de Sónia Garcia, é a forma que me parece menos bem conseguida. A forma, isto é, a escrita em si, que mostra sinais por vezes demasiado evidentes de uma certa insegurança, e um detalhe estrutural no enredo, pois Garcia tenta sem sucesso fazer mistério de um detalhe fulcral na sua história, que no entanto fica óbvio logo à segunda página.
Do lado bom, temos a estruturação geral do conto, bastante bem conseguida, com grandes saltos temporais e entre ambientes que surgem quase sempre naturalmente com o fluir da história, uma caracterização francamente boa da protagonista feminina (do coprotagonista nem tanto), um uso bem feito do discurso direto e um bom ritmo. Tudo para contar uma história de amor, pois é disso que trata este Decisões Imperfeitas, um amor durante muito tempo desencontrado pelos fluxos e refluxos das decisões de vida dos dois protagonistas.
Trata-se, portanto, de um conto curioso mas com algumas falhas. É significativamente melhor do que o que o antecede, mas pior que o que antecede esse. Se o tema me despertasse mais interesse é perfeitamente possível que tivesse gostado dele, apesar das falhas. Mas não é tema que me interesse por aí além, pelo que saí da leitura razoavelmente indiferente.
Contos anteriores deste livro:
No caso deste conto de Sónia Garcia, é a forma que me parece menos bem conseguida. A forma, isto é, a escrita em si, que mostra sinais por vezes demasiado evidentes de uma certa insegurança, e um detalhe estrutural no enredo, pois Garcia tenta sem sucesso fazer mistério de um detalhe fulcral na sua história, que no entanto fica óbvio logo à segunda página.
Do lado bom, temos a estruturação geral do conto, bastante bem conseguida, com grandes saltos temporais e entre ambientes que surgem quase sempre naturalmente com o fluir da história, uma caracterização francamente boa da protagonista feminina (do coprotagonista nem tanto), um uso bem feito do discurso direto e um bom ritmo. Tudo para contar uma história de amor, pois é disso que trata este Decisões Imperfeitas, um amor durante muito tempo desencontrado pelos fluxos e refluxos das decisões de vida dos dois protagonistas.
Trata-se, portanto, de um conto curioso mas com algumas falhas. É significativamente melhor do que o que o antecede, mas pior que o que antecede esse. Se o tema me despertasse mais interesse é perfeitamente possível que tivesse gostado dele, apesar das falhas. Mas não é tema que me interesse por aí além, pelo que saí da leitura razoavelmente indiferente.
Contos anteriores deste livro:
Italo Calvino: História do Reino dos Vampiros
As histórias desta parte do livro em que as cartas do tarot são espalhadas e ordenadas sobre a mesa de uma taberna são mais variadas que as da primeira parte, como convém a um ambiente mais desordenado e informal que um castelo. Isso abre a Italo Calvino novas possibilidades narrativas, o que já ficou bem exemplificado com as histórias anteriores e volta a sê-lo nesta História do Reino dos Vampiros.
Esta é uma história de horror sobre versões da realidade, sobre as conclusões que se tiram com tanta frequência de informação incompleta ou até inexistente, mais uma vez com raízes profundas nos contos populares. Um rei é levado pelo bobo da corte a um cemitério oculto nas profundezas da floresta, e aí depara com um coveiro e com aquilo que julga ser bruxedos, levados a cabo por alguém que tem a forma e as feições da sua rainha. Indignado, investiga, contra todos os avisos de que se deve afastar, e quanto mais investiga mais profundamente mergulha em trevas sobrenaturais.
Furioso por ritos macabros como os que julga ver (embora aqui, bem como em vários outros pontos desta história, entre em jogo a ambiguidade das cartas, sempre abertas a interpretações divergentes) ainda terem lugar no seu reino, o rei vai tentar fazer o que pode para livrar os seus domínios de coisas daquelas, e aqui volta a surgir um ténue cheiro a ficção científica, pois o modo que o rei encontra para o fazer é meter a bruxa num foguetão e enviá-la para o espaço, talvez para a Lua, ou não andasse ela a dominar os atos profanos dos vampiros. Mas não corre bem: da floresta salta um violento relâmpago que atinge a cidade, avariando a central energética e o "grande cérebro mecânico" que tudo governa. E alguém lança o boato (e será mesmo inteiramente boato?) de que o relâmpago fora o rei a atirar a rainha da torre, matando-a, o que leva o povo à revolta. E o leva a ele a ficar com a fama de ser o rei dos vampiros.
Este é um conto algo confuso, o que me parece ser inteiramente propositado, uma forma de jogar com as ambiguidades do Tarot, e tão bem escrito como é de norma em Calvino. Bom, portanto.
Contos anteriores deste livro:
Esta é uma história de horror sobre versões da realidade, sobre as conclusões que se tiram com tanta frequência de informação incompleta ou até inexistente, mais uma vez com raízes profundas nos contos populares. Um rei é levado pelo bobo da corte a um cemitério oculto nas profundezas da floresta, e aí depara com um coveiro e com aquilo que julga ser bruxedos, levados a cabo por alguém que tem a forma e as feições da sua rainha. Indignado, investiga, contra todos os avisos de que se deve afastar, e quanto mais investiga mais profundamente mergulha em trevas sobrenaturais.
Furioso por ritos macabros como os que julga ver (embora aqui, bem como em vários outros pontos desta história, entre em jogo a ambiguidade das cartas, sempre abertas a interpretações divergentes) ainda terem lugar no seu reino, o rei vai tentar fazer o que pode para livrar os seus domínios de coisas daquelas, e aqui volta a surgir um ténue cheiro a ficção científica, pois o modo que o rei encontra para o fazer é meter a bruxa num foguetão e enviá-la para o espaço, talvez para a Lua, ou não andasse ela a dominar os atos profanos dos vampiros. Mas não corre bem: da floresta salta um violento relâmpago que atinge a cidade, avariando a central energética e o "grande cérebro mecânico" que tudo governa. E alguém lança o boato (e será mesmo inteiramente boato?) de que o relâmpago fora o rei a atirar a rainha da torre, matando-a, o que leva o povo à revolta. E o leva a ele a ficar com a fama de ser o rei dos vampiros.
Este é um conto algo confuso, o que me parece ser inteiramente propositado, uma forma de jogar com as ambiguidades do Tarot, e tão bem escrito como é de norma em Calvino. Bom, portanto.
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sexta-feira, 2 de agosto de 2019
Raymundo Netto: O Homem que Virou Relógio
E de repente, um conto fantástico. Raymundo Netto publica aqui uma pequena vinheta de uma página, mais coisa, menos coisa, de um fantástico surreal e absurdista, sobre um homem que um belo dia estaca no meio de uma praça e se põe a tiquetaquear as horas. E eis o motivo do título de O Homem que Virou Relógio.
Naturalmente, o tempo passa, não só pelo mundo em geral como pelo próprio homem que se fez relógio. E com ele vem o envelhecimento, e com este vem um certo desprezo que a crueldade do mundo reserva para as coisas obsoletas. E é assim que o homem-relógio acaba por ser removido a toque de picareta para dar lugar a um outro jovem que vira relógio. Digital. Modernaço.
Pesem embora alguns detalhes na escrita que não me agradaram lá muito, este continho é bastante interessante. Trata-se de um conto sobre o tempo, claro, e sobre a velhice. Das pessoas e das coisas, corporizadas nestas pessoas-coisa que Netto inventa. A ideia podia até dar um texto longo — novela ou romance — bastante bom, desde que à ideia de base fosse acrescentada uma história apelativa. Deste gostei.
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Naturalmente, o tempo passa, não só pelo mundo em geral como pelo próprio homem que se fez relógio. E com ele vem o envelhecimento, e com este vem um certo desprezo que a crueldade do mundo reserva para as coisas obsoletas. E é assim que o homem-relógio acaba por ser removido a toque de picareta para dar lugar a um outro jovem que vira relógio. Digital. Modernaço.
Pesem embora alguns detalhes na escrita que não me agradaram lá muito, este continho é bastante interessante. Trata-se de um conto sobre o tempo, claro, e sobre a velhice. Das pessoas e das coisas, corporizadas nestas pessoas-coisa que Netto inventa. A ideia podia até dar um texto longo — novela ou romance — bastante bom, desde que à ideia de base fosse acrescentada uma história apelativa. Deste gostei.
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Saki: A Porta Aberta
É curioso como por vezes basta uma frase para introduzir uma história num certo género ou retirá-la dele. E também é curioso como por vezes é absolutamente impossível falar de certas histórias sem entrar imediatamente em revelações de enredo, os tão temidos SPOILERS, e considerem-se avisados. É o que acontece neste conto de Saki, cujo remate, simultaneamente final surpresa, frase e parágrafo finais, faz com que um conto que até aí parecia ser realmente uma história de fantasmas passe a ser um conto humorístico com fantasmas à mistura, ou melhor, com a ideia de fantasmas à mistura.
A Porta Aberta é, neste caso, o lugar por onde se entra e sai de uma casa. Não é a porta da frente, mas a porta das traseiras, e as habitantes da casa, mãe e filha, aguardam que os homens da família regressem da caça enquanto conversam com uma visita. A filha, principalmente. Mas a história que esta conta é diferente; é uma história de fantasmas propriamente dita, e tenta com ela levar a visita a acreditar que os homens da família morreram todos tragicamente nos pântanos, um dia que foram à caça e não regressaram, coisa em que a mãe se recusa a acreditar. E fá-lo com tal perícia que quando os homens realmente aparecem, a visita julga-os fantasmas e foge esbaforida porta fora. Porta, esta, a da frente.
É um conto muito bem construído, este, e bastante divertido. No entanto, eu não lhe chamaria propriamente uma história de fantasmas. É mais uma história sobre fantasmas. Por outro lado, a sua inclusão neste livro amplifica a ilusão que lhe serve de esteio e portanto o efeito que o autor quis com ele alcançar.
A Porta Aberta é, neste caso, o lugar por onde se entra e sai de uma casa. Não é a porta da frente, mas a porta das traseiras, e as habitantes da casa, mãe e filha, aguardam que os homens da família regressem da caça enquanto conversam com uma visita. A filha, principalmente. Mas a história que esta conta é diferente; é uma história de fantasmas propriamente dita, e tenta com ela levar a visita a acreditar que os homens da família morreram todos tragicamente nos pântanos, um dia que foram à caça e não regressaram, coisa em que a mãe se recusa a acreditar. E fá-lo com tal perícia que quando os homens realmente aparecem, a visita julga-os fantasmas e foge esbaforida porta fora. Porta, esta, a da frente.
É um conto muito bem construído, este, e bastante divertido. No entanto, eu não lhe chamaria propriamente uma história de fantasmas. É mais uma história sobre fantasmas. Por outro lado, a sua inclusão neste livro amplifica a ilusão que lhe serve de esteio e portanto o efeito que o autor quis com ele alcançar.
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
Escrita de julho
— E então, pá?
— Hm?...
— Então, acabaste a novela?
— Ah, isso. Ná.
— Então?
— Então o quê?
— O que aconteceu? Porque é que não a acabaste?
— Porque não deu para acabar.
— Ah. Estou a ver. Voltaste a interromper a escrita, não é? Andaste a escrever durante uns meses, mas cansaste-te e voltaste a fechar a loja. Certo?
— Heh. Estás mais frio que os glaciares em derretimento da Gronelândia. Escrevi quase todos os dias do mês.
— Ah sim? Então conta lá. O que é que se passou para não acabares a novela?
— Bem, olha, para começar, porque não é uma novela.
— Então é o quê?
— Um romance.
— Mas andaste meses a falar de novela...
— Pois andei. O plano original era fazer uma noveleta, mas depressa percebi que ia sair maior. Daí falar de novela. De resto, foi essa uma das razões por que desisti de tentar aprontá-la a tempo da Solarpunk. Não a única, mas uma das.
— E?...
— E está a sair ainda maior do que eu esperava.
— Mas então isso é assim? Aprendeste com o Martin, foi?
— Engraçadinho.
— Não estou a tentar fazer piada. Porque é que isso cresce tanto?
— Olha, porque à medida que vou escrevendo vai-me parecendo que a coisa fica pouco sólida e precisa de mais um detalhe, e depois de mais outro, e depois de outro ainda. E às vezes arranjo maneiras melhores de chegar onde quero chegar, que costumam levar-me a escrever mais. E por aí fora.
— Ou seja: aprendeste com o Martin.
— Se preferes encarar as coisas assim...
— E agora quando é que tens a coisa pronta?
— Já que dizes que aprendi com o Martin, toma lá: já não faço previsões dessas. E embrulha.
— Sacana dum raio.
— Não vale a pena ter a fama sem ter o proveito, não te parece?
— Bah!
— Hihihi.
— E agora vais-me dizer que não acabaste nada, querem ver? Nem mesmo o tal capítulo que dizias que era grande.
— Não digo, não. Esse capítulo está finalmente acabado. Já estou no penúltimo. E nos entretantos também escrevi um conto e revi outro.
— Então já está mesmo grande?
— Já. Este mês foram mais quase nove mil palavras. Umas 25 páginas. Nem todas para o romance, mas quase, que o conto é pequenino. Já vai com umas 130 páginas.
— E faltam quantas?
— Querias saber, não querias? Mas não vais saber.
— Humpf!
— É a vida...
— Mas o que é isso, afinal?
— Como assim?
— Estás a escrever o quê?
— Ah. É mais uma história do Tempo das Passarolas. A história que o público aqui da Lâmpada escolheu em 2017 para eu trabalhar a seguir. Não trabalhei em 2017, mas tenho trabalhado em 2019. Antes tarde que nunca, suponho.
— Bem, desde que a acabes... desde que não fique eternamente em promessa...
— Estou a tratar disso.
— Podia era ser mais depressa.
— Não sei se podia. Se calhar este é o meu limite. Eu só uma vez escrevi tanto num ano só como já escrevi este ano: quando escrevi o Por Vós lhe Mandarei Embaixadores. E se continuar a este ritmo, o ano acaba com mais de 200 páginas escritas. Nunca aconteceu.
— Tá bem pronto. Olha, vai escrever.
— Agora não, que estive aqui a escrever isto e já cansou. Mais tarde, talvez. Ou amanhã.
— Preguiçoso!
— Tem dias.
Patrícia Portela: Monólogo do Oriente
Os contos podem tomar muitos aspetos diferentes, chegando mesmo por vezes ao ponto de quase parecerem ser outras coisas. O mais comum dessas aspetos, o mais tradicional, talvez, é o de histórias de narrativa relativamente simples e personagens pouco aprofundadas — pelo menos quando comparamos enredo e personagens com as dos romances — nas quais se explora um conjunto limitado de ideias. Mas também é relativamente comum servirem mais como estudos de personagem do que como histórias propriamente ditas, daquelas movidas a enredo, ainda que para aprofundar uma personagem seja geralmente necessário revelar a sua história, ou pelo menos deixar entrevê-la.
Este Monólogo do Oriente de Patrícia Portela é basicamente um estudo de personagem. Uma personagem que monologa sobre várias coisas, mas sobretudo sobre o oriente. Ou melhor, sobretudo sobre intenções. Sobre vontades. Uma personagem que tem sonhos mirabolantes de viajar para aqui ou para ali, mas há sempre um mas que se interpõe entre o sonho e a viagem. Um mas que tem frequentemente sabor a pretexto, a desculpa destinada a esconder que a vontade de partir e conhecer outras palavras é fundamentalmente teórica e na vida real o comodismo vencerá sempre.
E é um estudo de personagem bem feito. Escrito na primeira pessoa, como bom monólogo que é, o conto depende de uma voz de personagem bem sucedida, e a de Portela é-o, com um uso bastante bom das características orais do discurso. Claro: é daquelas histórias que não vão a lado nenhum, mas até isso contribui para sublinhar a natureza do protagonista/narrador, que também ele não vai a lado nenhum, por mais que fale em ir. Nunca. É um bom conto, portanto. A ponto de até eu ter gostado, eu que costumo achar chatos os contos com gente chata, e este tipo é um chato de primeira. Era capaz de dar uma ótima personagem secundária num texto mas extenso, daquelas que funcionam simultaneamente como inspiração para a ação e amarras contra ela. Protagonista é que não: é demasiado chato.
Este Monólogo do Oriente de Patrícia Portela é basicamente um estudo de personagem. Uma personagem que monologa sobre várias coisas, mas sobretudo sobre o oriente. Ou melhor, sobretudo sobre intenções. Sobre vontades. Uma personagem que tem sonhos mirabolantes de viajar para aqui ou para ali, mas há sempre um mas que se interpõe entre o sonho e a viagem. Um mas que tem frequentemente sabor a pretexto, a desculpa destinada a esconder que a vontade de partir e conhecer outras palavras é fundamentalmente teórica e na vida real o comodismo vencerá sempre.
E é um estudo de personagem bem feito. Escrito na primeira pessoa, como bom monólogo que é, o conto depende de uma voz de personagem bem sucedida, e a de Portela é-o, com um uso bastante bom das características orais do discurso. Claro: é daquelas histórias que não vão a lado nenhum, mas até isso contribui para sublinhar a natureza do protagonista/narrador, que também ele não vai a lado nenhum, por mais que fale em ir. Nunca. É um bom conto, portanto. A ponto de até eu ter gostado, eu que costumo achar chatos os contos com gente chata, e este tipo é um chato de primeira. Era capaz de dar uma ótima personagem secundária num texto mas extenso, daquelas que funcionam simultaneamente como inspiração para a ação e amarras contra ela. Protagonista é que não: é demasiado chato.
terça-feira, 30 de julho de 2019
Ronaldo Sergio de Biasi (ed): Isaac Asimov Magazine, nº 3
É bem provável que a Isaac Asimov Magazine, versão brasileira da revista americana Asimov's Science Fiction, tenha sido a melhor publicação periódica de género já publicada em língua portuguesa. E, pelo andar da carruagem, é até muito possível que nenhuma outra chegue algum dia a destroná-la. Composta sobretudo por contos, mais ainda do que a original (este número 3 só acrescenta aos contos um editorial, uma entrevista/depoimento de Ronaldo Sergio de Biasi, o editor, e algumas cartas), não era uma tradução direta dos números da Asimov's mas não andava muito longe disso, pois os contos que publicava tinham saído nos EUA muito pouco tempo antes.
E como a Asimov's é, a par da Analog e da Fantasy and Science Fiction, a mais conceituada revista de género do mundo, não é difícil antecipar que o conteúdo de cada número da IAM (iniciais pelos quais a revista brasileira ficou conhecida) era de alto nível.
O deste número certamente que o é. Com duas exceções claras, contos que achei fracos, e tendo também, por outro lado, dois que são realmente muito bons (Esperando os Olimpianos e Iridescência), o nível global é o de uma antologia de grande qualidade. A idade, que já vai pesando um pouco em algumas destas ficções — trinta anos sempre são trinta anos — ainda não pesa muito, e há uma história que é até mais urgente hoje em dia do que nos anos 80 (Muito Barulho por Nada), sendo outra uma autêntica corporização de "modernices" que só o são na cabeça dos ignorantes (O Preço das Laranjas). De uma forma geral, portanto, esta foi uma bela leitura.
Eis o que achei dos contos deste número da revista:
E como a Asimov's é, a par da Analog e da Fantasy and Science Fiction, a mais conceituada revista de género do mundo, não é difícil antecipar que o conteúdo de cada número da IAM (iniciais pelos quais a revista brasileira ficou conhecida) era de alto nível.
O deste número certamente que o é. Com duas exceções claras, contos que achei fracos, e tendo também, por outro lado, dois que são realmente muito bons (Esperando os Olimpianos e Iridescência), o nível global é o de uma antologia de grande qualidade. A idade, que já vai pesando um pouco em algumas destas ficções — trinta anos sempre são trinta anos — ainda não pesa muito, e há uma história que é até mais urgente hoje em dia do que nos anos 80 (Muito Barulho por Nada), sendo outra uma autêntica corporização de "modernices" que só o são na cabeça dos ignorantes (O Preço das Laranjas). De uma forma geral, portanto, esta foi uma bela leitura.
Eis o que achei dos contos deste número da revista:
- Esperando os Olimpianos
- Tempo Real
- A Serpente do Velho Nilo
- Muito Barulho Por Nada
- Toda a Cerveja de Marte
- Iridescência
- Minha Mulher
- Vinte e Dois Passos Para o Apocalipse
- O Preço das Laranjas
Italo Calvino: História do Guerreiro Sobrevivente
Outro conto por onde passa levemente um cheirinho a ficção científica, embora muito mais leve do que no conto anterior, esta História do Guerreiro Sobrevivente é sobretudo uma narrativa sobre a ansiedade masculina num mundo em mudança.
A princípio não parece nada. Com a sua habitual habilidade narrativa e excelente tratamento da língua (diga-se que muito bem servida pela tradução, como de resto é hábito de José Colaço Barreiros), Italo Calvino mergulha-nos em plena batalha medieval, um ambiente típico de uma narrativa histórica ou de fantasia épica. O conto acompanha o que faz e pensa um determinado guerreiro no meio da confusão da batalha, e a forma como trava um feroz e prolongado duelo com um guerreiro inimigo que, num momento de distração, desaparece.
Depois, reencontra-o no rescaldo da batalha que o seu exército perdera. Mas depressa se apercebe de que não se trata de um homem, mas de uma mulher. De orgulho ferido por ele, um homem treinado nas artes da guerra, não ter conseguido derrotar uma mera mulher, enche-se de fúrias vingativas, mas é aconselhado a não fazer o que pretende pois aquela é uma guerreira do invencível exército das amazonas, que já terá conquistado meio mundo e só poderá continuar a fazê-lo.
A vitória das amazonas é descrita como genocida, numa antecipação de distopia que aproxima esta história da FC: os homens que o exército das guerreiras encontra ou são mortos ou castrados; não há outra possibilidade. E assim termina o patriarcado, em sangue e chamas, inaugurando-se uma nova era de domínio feminino. E assim compreendem o motivo por que eu ali em cima disse que o tema deste conto é a ansiedade masculina num mundo em mudança, em que o poder secular do masculino é posto em causa.
Há muito sumo a espremer desta pequena história.
Contos anteriores deste livro:
A princípio não parece nada. Com a sua habitual habilidade narrativa e excelente tratamento da língua (diga-se que muito bem servida pela tradução, como de resto é hábito de José Colaço Barreiros), Italo Calvino mergulha-nos em plena batalha medieval, um ambiente típico de uma narrativa histórica ou de fantasia épica. O conto acompanha o que faz e pensa um determinado guerreiro no meio da confusão da batalha, e a forma como trava um feroz e prolongado duelo com um guerreiro inimigo que, num momento de distração, desaparece.
Depois, reencontra-o no rescaldo da batalha que o seu exército perdera. Mas depressa se apercebe de que não se trata de um homem, mas de uma mulher. De orgulho ferido por ele, um homem treinado nas artes da guerra, não ter conseguido derrotar uma mera mulher, enche-se de fúrias vingativas, mas é aconselhado a não fazer o que pretende pois aquela é uma guerreira do invencível exército das amazonas, que já terá conquistado meio mundo e só poderá continuar a fazê-lo.
A vitória das amazonas é descrita como genocida, numa antecipação de distopia que aproxima esta história da FC: os homens que o exército das guerreiras encontra ou são mortos ou castrados; não há outra possibilidade. E assim termina o patriarcado, em sangue e chamas, inaugurando-se uma nova era de domínio feminino. E assim compreendem o motivo por que eu ali em cima disse que o tema deste conto é a ansiedade masculina num mundo em mudança, em que o poder secular do masculino é posto em causa.
Há muito sumo a espremer desta pequena história.
Contos anteriores deste livro:
segunda-feira, 29 de julho de 2019
Luís Filipe Silva: In Falsetto
Enquanto fui lendo esta novela de Luís Filipe Silva foi-se-me avolumando na mente uma suspeita, que não passará nunca de suspeita a menos que algum dia o autor a confirme ou desminta: a de que In Falsetto (bibliografia) foi escrito, ou pelo menos começou a ser escrito, com Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa em mente.
É que embora se trate de uma novela steampunk, a pegada pulp é nela inconfundível e intensa.
A história desenrola-se em Lisboa, cidade à qual chegam mais ou menos em simultâneo dois representantes das duas grandes potências deste mundo criado pelo Luís: a França e a Áustria (ou Grosse Germania, termo que faz lembrar algumas das histórias de ficção científica do João Barreiros). Os primeiros, representados por um milionário com o pouco gaulês nome de Gulliver, querem oferecer ao rei português um autómato particularmente sofisticado, como forma de dar um golpe publicitário; já os segundos, vêm em perseguição de um ladrão muitíssimo escorregadio, que pode, ou não, estar a planar apropriar-se do autómato dos franceses e criar assim um incidente diplomático.
No meio de tudo anda um inspetor da polícia civil do reino de Portugal, que não sabe lá muito bem o que anda lá a fazer e é destratado com sobranceria por vários dos intervenientes, embora acabe por ser decisivo em vários momentos da trama. Esta, claro, é movimentada, cheia de reviravoltas, muitíssimo pulp... e bastante vazia.
Como sabe quem lê regularmente (ou mesmo esporadicamente) o que vou deixando escrito aqui na Lâmpada, não gosto de pulp. E o principal motivo é precisamente este: no afã de tentar distrair, criando enredos aventureirescos e enovelados, os produtores de pulp decidem com demasiada frequência não escrever sobre grande coisa, quando não é mesmo sobre coisa nenhuma. O escapismo puro na literatura não me interessa minimamente; quando quero ou preciso de desligar o cérebro, vou babar-me para a frente da televisão, não me ponho a ler. Ler para nada obter em troca é demasiado esforço para coisa alguma.
Sendo justo e rigoroso, não se pode dizer que Luís Filipe Silva não tenha escrito sobre nada nesta novela. Há aqui, corporizado no inspetor da polícia, aquele tradicional fadinho nacional de ser pequenino e irrelevante mas acabar desenrascando qualquer coisinha, e através das restantes personagens há também uns pozinhos de geopolítica com alguns reflexos na geopolítica contemporânea da União Europeia. Só que tudo isto tem dois problemas: por um lado é muito ténue, um pano de fundo para uma história cujo foco está decididamente virado para outras coisas; por outro lado é banal, já foi feito n vezes por outros n autores, e Luís Filipe Silva, provavelmente porque o seu foco está noutras coisas, não inova em nada.
E a consequência é que esta novela está muitos furos abaixo do melhor que o autor já produziu. Não é má, até porque o melhor de Luís Filipe Silva é francamente bom, mas não passa do razoável. Um exercício pulp que talvez agrade a quem gosta dessa abordagem mas que é muito provável saber a pouco aos restantes de nós. E uma revisão atenta, que claramente não existiu durante a preparação deste livro, também não seria tempo perdido.
Contos anteriores deste livro:
É que embora se trate de uma novela steampunk, a pegada pulp é nela inconfundível e intensa.
A história desenrola-se em Lisboa, cidade à qual chegam mais ou menos em simultâneo dois representantes das duas grandes potências deste mundo criado pelo Luís: a França e a Áustria (ou Grosse Germania, termo que faz lembrar algumas das histórias de ficção científica do João Barreiros). Os primeiros, representados por um milionário com o pouco gaulês nome de Gulliver, querem oferecer ao rei português um autómato particularmente sofisticado, como forma de dar um golpe publicitário; já os segundos, vêm em perseguição de um ladrão muitíssimo escorregadio, que pode, ou não, estar a planar apropriar-se do autómato dos franceses e criar assim um incidente diplomático.
No meio de tudo anda um inspetor da polícia civil do reino de Portugal, que não sabe lá muito bem o que anda lá a fazer e é destratado com sobranceria por vários dos intervenientes, embora acabe por ser decisivo em vários momentos da trama. Esta, claro, é movimentada, cheia de reviravoltas, muitíssimo pulp... e bastante vazia.
Como sabe quem lê regularmente (ou mesmo esporadicamente) o que vou deixando escrito aqui na Lâmpada, não gosto de pulp. E o principal motivo é precisamente este: no afã de tentar distrair, criando enredos aventureirescos e enovelados, os produtores de pulp decidem com demasiada frequência não escrever sobre grande coisa, quando não é mesmo sobre coisa nenhuma. O escapismo puro na literatura não me interessa minimamente; quando quero ou preciso de desligar o cérebro, vou babar-me para a frente da televisão, não me ponho a ler. Ler para nada obter em troca é demasiado esforço para coisa alguma.
Sendo justo e rigoroso, não se pode dizer que Luís Filipe Silva não tenha escrito sobre nada nesta novela. Há aqui, corporizado no inspetor da polícia, aquele tradicional fadinho nacional de ser pequenino e irrelevante mas acabar desenrascando qualquer coisinha, e através das restantes personagens há também uns pozinhos de geopolítica com alguns reflexos na geopolítica contemporânea da União Europeia. Só que tudo isto tem dois problemas: por um lado é muito ténue, um pano de fundo para uma história cujo foco está decididamente virado para outras coisas; por outro lado é banal, já foi feito n vezes por outros n autores, e Luís Filipe Silva, provavelmente porque o seu foco está noutras coisas, não inova em nada.
E a consequência é que esta novela está muitos furos abaixo do melhor que o autor já produziu. Não é má, até porque o melhor de Luís Filipe Silva é francamente bom, mas não passa do razoável. Um exercício pulp que talvez agrade a quem gosta dessa abordagem mas que é muito provável saber a pouco aos restantes de nós. E uma revisão atenta, que claramente não existiu durante a preparação deste livro, também não seria tempo perdido.
Contos anteriores deste livro:
domingo, 28 de julho de 2019
Luiz Gustavo Saldanha: O Personagem Heleno
E de novo tenho de falar de purple prose.
Não vou repetir tudo o que disse aqui, naturalmente, mas a maior parte do que aí ficou expresso também se aplica a O Personagem Heleno, pequeno conto de Luiz Gustavo Saldanha. A maior parte, não tudo. É que a história de Saldanha, apesar de continuar a escorrer púrpura, é melhor. Porque é muito menos cliché. E também porque é bastante mais curta, o que torna os arrebiques menos cansativos.
Aqui estamos em meio teatral. O personagem Heleno é o protagonista, jovem — catorze anos — apaixonado pela representação, mas tímido, ou talvez apenas reservado. Apesar da namorada, é esse o seu verdadeiro amor. Por isso não hesita quando, depois de ganhar coragem para pedir um papel ao professor, o seu primeiro, descobre que todos os papéis masculinos já estão ocupados: aceita imediatamente um papel feminino, escolhe-o e atira-se ao estudo.
O conto descreve (purpuramente) como ele vai encarnando a personagem, mergulhando cada vez mais profundamente no travestismo, encontrando aí uma espécie de felicidade. É uma história interessante e invulgar, surpreendente o suficiente para sustentar o interesse até ao fim, que a forma como está escrita quase estraga. Sem tantos arrebiques, este podia ser um bom conto. Mas a prosa pretensiosa de Saldanha não deixa. Pena.
Textos anteriores desta publicação:
Não vou repetir tudo o que disse aqui, naturalmente, mas a maior parte do que aí ficou expresso também se aplica a O Personagem Heleno, pequeno conto de Luiz Gustavo Saldanha. A maior parte, não tudo. É que a história de Saldanha, apesar de continuar a escorrer púrpura, é melhor. Porque é muito menos cliché. E também porque é bastante mais curta, o que torna os arrebiques menos cansativos.
Aqui estamos em meio teatral. O personagem Heleno é o protagonista, jovem — catorze anos — apaixonado pela representação, mas tímido, ou talvez apenas reservado. Apesar da namorada, é esse o seu verdadeiro amor. Por isso não hesita quando, depois de ganhar coragem para pedir um papel ao professor, o seu primeiro, descobre que todos os papéis masculinos já estão ocupados: aceita imediatamente um papel feminino, escolhe-o e atira-se ao estudo.
O conto descreve (purpuramente) como ele vai encarnando a personagem, mergulhando cada vez mais profundamente no travestismo, encontrando aí uma espécie de felicidade. É uma história interessante e invulgar, surpreendente o suficiente para sustentar o interesse até ao fim, que a forma como está escrita quase estraga. Sem tantos arrebiques, este podia ser um bom conto. Mas a prosa pretensiosa de Saldanha não deixa. Pena.
Textos anteriores desta publicação:
sábado, 27 de julho de 2019
Luísa Costa Gomes: Mania
Luísa Costa Gomes. Ora aqui está um nome que eu já conhecia, o que não tem sido lá muito frequente nestes contos publicados eletronicamente pelo DN. Conhecia de ter lido vários contos seus, não muitos... e de só ter gostado medianamente de um. Os outros... bem... Ora me pareceram banais, ora traziam uma espécie de humor e/ou ironia que não ressoa com o meu ou a minha, enfim, deixaram a desejar. Não tenho queixas relativamente ao português, que costuma ser bem tratado, mas como não é só de português que se faz a literatura, mesmo a que se faz em língua portuguesa, parti para a leitura desta Mania com as expetativas razoavelmente baixas.
E a história correspondeu à expetativa. Mania é um conto razoavelmente longo — 7 mil e muitas palavras, provavelmente já a passar a noveleta — ambientado numa Lisboa que talvez seja contemporânea (ou quase; este é o único conto que li até agora nesta coleção que não é inédito, pelo que a contemporaneidade será referente à época da primeira publicação), mas a fazer lembrar outros tempos e paragens, cheio de mulheres fatais, espionagens sentimentais e traições. Às vezes encontram-se neste tipo de temas e ambientes histórias interessantes, mas é cada vez mais raro porque estão bastante saturados desde para aí os anos 50.
E em parte por isso, Luísa Costa Gomes não cria uma história interessante. Sim, o português é tão competente como é hábito, mas o resto é uma história confusa, mais pela forma como é contada do que propriamente pela história em si, como se a autora procurasse ocultar a simplicidade e curta criatividade do enredo atrás de uma narrativa emaranhada, brumosa, sufocada pelo peso da "literatura", palavra que vai entre aspas porque segundo a minha forma de ver as coisas literatura não é bem o que demasiada gente julga que é.
Mas o que mais me desagradou nesta história foi uma muito intensa sensação de vazio. Aquela sensação que leva sempre à interrogação "sim, e daí?" A sensação de que o escritor está basicamente a escrever sobre nada. É bastante possível que seja uma sensação injusta mas não posso negá-la. É também provável que o facto de me ter sido impossível acreditar realmente em alguma destas personagens a tenha amplificado. Trata-se de uma sensação que tenho muitas vezes a ler literatura das duas extremidades do espectro literário: o pulp por um lado e a literatura demasiado preocupada em ser literária pelo outro. O curioso desta história é ir buscar temas e ambientes ao pulp e estilo narrativo ao outro lado, quase conseguindo juntar o pior de ambos. O que a salva, impedindo-a de ser realmente má, é a correção do uso do português. Mas que mesmo apesar disso é bastante fraca, é.
E a história correspondeu à expetativa. Mania é um conto razoavelmente longo — 7 mil e muitas palavras, provavelmente já a passar a noveleta — ambientado numa Lisboa que talvez seja contemporânea (ou quase; este é o único conto que li até agora nesta coleção que não é inédito, pelo que a contemporaneidade será referente à época da primeira publicação), mas a fazer lembrar outros tempos e paragens, cheio de mulheres fatais, espionagens sentimentais e traições. Às vezes encontram-se neste tipo de temas e ambientes histórias interessantes, mas é cada vez mais raro porque estão bastante saturados desde para aí os anos 50.
E em parte por isso, Luísa Costa Gomes não cria uma história interessante. Sim, o português é tão competente como é hábito, mas o resto é uma história confusa, mais pela forma como é contada do que propriamente pela história em si, como se a autora procurasse ocultar a simplicidade e curta criatividade do enredo atrás de uma narrativa emaranhada, brumosa, sufocada pelo peso da "literatura", palavra que vai entre aspas porque segundo a minha forma de ver as coisas literatura não é bem o que demasiada gente julga que é.
Mas o que mais me desagradou nesta história foi uma muito intensa sensação de vazio. Aquela sensação que leva sempre à interrogação "sim, e daí?" A sensação de que o escritor está basicamente a escrever sobre nada. É bastante possível que seja uma sensação injusta mas não posso negá-la. É também provável que o facto de me ter sido impossível acreditar realmente em alguma destas personagens a tenha amplificado. Trata-se de uma sensação que tenho muitas vezes a ler literatura das duas extremidades do espectro literário: o pulp por um lado e a literatura demasiado preocupada em ser literária pelo outro. O curioso desta história é ir buscar temas e ambientes ao pulp e estilo narrativo ao outro lado, quase conseguindo juntar o pior de ambos. O que a salva, impedindo-a de ser realmente má, é a correção do uso do português. Mas que mesmo apesar disso é bastante fraca, é.
sexta-feira, 26 de julho de 2019
Branco e Rosatti (eds.): Megalon, nº 1
Quanto mais o tempo passa, mais se solidifica em mim a ideia de que os projetos mais longevos e bem sucedidos são simultaneamente aqueles que têm os inícios mais despretensiosos, movidos muito mais pelo puro gosto de fazer as coisas do que por calculismos ou ambições, financeiras ou outras.
E o Megalon é um bom exemplo disso mesmo. Arrancou em 1988 com este nº 1 (bibliografia) e foi sendo publicado, entre os altos e baixos típicos destas coisas, até 2004, cifrando-se o saldo final em 71 números e largas centenas de contos (incluindo um número muito significativo que veio mais tarde a merecer publicação profissional) e artigos, quase sempre sob a batuta do seu editor principal, Marcello Simão Branco, ainda que neste número tivesse a coeditoria de Renato Rosatti, o qual o acompanhou nos primeiros anos.
E o começo dificilmente poderia ser mais modesto. A um só conto, muito curto e bastante mauzinho, somam-se quatro artigos e uma entrevista e está a coisa feita. A entrevista é de longe a parte mais interessante do fanzine; trata-se de uma adaptação de uma entrevista a Alfred Bester, um dos melhores autores americanos de FC da segunda metade do século XX, falecido não muito tempo antes da publicação deste número inaugural do Megalon. Os artigos pouco interesse têm, especialmente hoje em dia, consistindo em notícias sobre edições e movimentações do fandom (que acompanharam toda a vida do Megalon), brasileiro e não só, e opiniões sobre um par de filmes.
Desta modestíssima semente saiu uma das mais importantes publicações brasileiras de FC, a par do também fanzine Somnium e, noutro patamar, das versões locais da Asimov's e da F&SF. Mas enquanto estas últimas duraram um ou dois anos cada e encerraram após não mais que uma vintena de números, o Megalon durou quase quinze anos e o Somnium ainda hoje se publica. Elucidativo? Parece-me que sim.
Eis o que achei do único conto desta publicação:
E o Megalon é um bom exemplo disso mesmo. Arrancou em 1988 com este nº 1 (bibliografia) e foi sendo publicado, entre os altos e baixos típicos destas coisas, até 2004, cifrando-se o saldo final em 71 números e largas centenas de contos (incluindo um número muito significativo que veio mais tarde a merecer publicação profissional) e artigos, quase sempre sob a batuta do seu editor principal, Marcello Simão Branco, ainda que neste número tivesse a coeditoria de Renato Rosatti, o qual o acompanhou nos primeiros anos.
E o começo dificilmente poderia ser mais modesto. A um só conto, muito curto e bastante mauzinho, somam-se quatro artigos e uma entrevista e está a coisa feita. A entrevista é de longe a parte mais interessante do fanzine; trata-se de uma adaptação de uma entrevista a Alfred Bester, um dos melhores autores americanos de FC da segunda metade do século XX, falecido não muito tempo antes da publicação deste número inaugural do Megalon. Os artigos pouco interesse têm, especialmente hoje em dia, consistindo em notícias sobre edições e movimentações do fandom (que acompanharam toda a vida do Megalon), brasileiro e não só, e opiniões sobre um par de filmes.
Desta modestíssima semente saiu uma das mais importantes publicações brasileiras de FC, a par do também fanzine Somnium e, noutro patamar, das versões locais da Asimov's e da F&SF. Mas enquanto estas últimas duraram um ou dois anos cada e encerraram após não mais que uma vintena de números, o Megalon durou quase quinze anos e o Somnium ainda hoje se publica. Elucidativo? Parece-me que sim.
Eis o que achei do único conto desta publicação:
quinta-feira, 25 de julho de 2019
Ana Paula Nascimento: De Dentro Ninguém Responde
Às vezes tenho pena de não conseguir arranjar uma tradução para a expressão "purple prose" que transmita a mesma sensação de vacuidade presunçosa da expressão inglesa. Há quem a traduza como prosa poética, mas não é bem a mesma coisa; embora toda a purple prose tente ser poética, nem toda a prosa poética é purple. Um ótimo exemplo do que acabei de dizer é a prosa do Mia Couto, poética até à medula mas sem nada de purple. No entanto, arrisco-me a dizer que realmente existe uma relação entre as duas coisas e que a purple prose é o que acontece quando alguém sem domínio da língua e/ou talento suficiente tenta fazer prosa poética. Provavelmente não estarei inteiramente certo, mas aposto que não ando muito longe da verdade.
Em tempos, passou-me pela cabeça tentar adaptar para "prosa azeiteira", mas também não: essa é expressão demasiado (e desnecessariamente) insultuosa, mesmo havendo na purple prose um forte pendor para o mau gosto estético que a expressão sugere. Portanto desisto e fica mesmo em inglês.
Vem isto a propósito de ter lido recentemente dois exemplos da mais pura purple prose. E aqui está um deles.
Sem as cores desagradáveis da prosa, De Dentro Ninguém Responde até podia ter tido algum interesse. Um conto sobre um psicopata artista, ou artista psicopata, burguesíssimo, e a relação que se estabelece entre ele e uma antiga professora, tragédia ambulante, pode ser interessante se bem concebido e bem escrito, apesar da banalidade das personagens. Sim, banalidade: a literatura (e o cinema, e a televisão, e a BD, e...) tem uma certa predileção por este tipo de personagens, e tem-nas trabalhado e retrabalhado até à exaustão. Acha as suas histórias interessantes, suponho, mas de tanto usá-las torna-as banais e por isso desinteressantes. É o paradoxo do cliché: todos nascem como ideias boas e inovadoras, morrendo como tudo menos isso. Mas apesar disso, ainda se podem fazer histórias interessantes com essas características.
Mas para as fazer é preciso que elas sejam bem concebidas, desejavelmente de forma inovadora, e bem escritas. E se Ana Paula Nascimento não estrutura mal a sua história, também não se pode dizer que seja particularmente criativa a fazê-lo. O pior, contudo, é mesmo a forma de escrever, a escorrer púrpura por todos os lados. Resultado: só posso considerar este conto mau.
Contos anteriores deste livro:
Em tempos, passou-me pela cabeça tentar adaptar para "prosa azeiteira", mas também não: essa é expressão demasiado (e desnecessariamente) insultuosa, mesmo havendo na purple prose um forte pendor para o mau gosto estético que a expressão sugere. Portanto desisto e fica mesmo em inglês.
Vem isto a propósito de ter lido recentemente dois exemplos da mais pura purple prose. E aqui está um deles.
Sem as cores desagradáveis da prosa, De Dentro Ninguém Responde até podia ter tido algum interesse. Um conto sobre um psicopata artista, ou artista psicopata, burguesíssimo, e a relação que se estabelece entre ele e uma antiga professora, tragédia ambulante, pode ser interessante se bem concebido e bem escrito, apesar da banalidade das personagens. Sim, banalidade: a literatura (e o cinema, e a televisão, e a BD, e...) tem uma certa predileção por este tipo de personagens, e tem-nas trabalhado e retrabalhado até à exaustão. Acha as suas histórias interessantes, suponho, mas de tanto usá-las torna-as banais e por isso desinteressantes. É o paradoxo do cliché: todos nascem como ideias boas e inovadoras, morrendo como tudo menos isso. Mas apesar disso, ainda se podem fazer histórias interessantes com essas características.
Mas para as fazer é preciso que elas sejam bem concebidas, desejavelmente de forma inovadora, e bem escritas. E se Ana Paula Nascimento não estrutura mal a sua história, também não se pode dizer que seja particularmente criativa a fazê-lo. O pior, contudo, é mesmo a forma de escrever, a escorrer púrpura por todos os lados. Resultado: só posso considerar este conto mau.
Contos anteriores deste livro:
Italo Calvino: História da Floresta que se Vinga
Uma das características mais curiosas dos contos de Italo Calvino para alguém que, como eu, gosta bastante de ficção científica, é o diálogo que neles se estabelece com relativa frequência com o género. Não com o género como um todo, talvez, ou geralmente, mas com o género tal como era antes de ser género; com a proto-ficção científica.
Exemplos abundam, das Cosmicómicas a vários contos das Cidades Invisíveis, e é por isso sem grande surpresa que se encontram também neste livro. Por exemplo na História da Floresta que se Vinga, por estranho que isso possa parecer a quem olha para este título, que parece ter tudo a ver com fantasia e nada com ficção científica.
E é aqui que entra a espécie de ligação ao género que mais agrada a Calvino. O conto começa como um conto fantástico muito próximo das histórias tradicionais, com uma mulher criada numa floresta que um belo dia salva um príncipe vítima de salteadores, fá-lo perder-se de amores por ela (ou talvez só de desejo), engravida e fica à espera quando ele diz que precisa de ser desobrigado pelo Papa para poder casar com ela e se vai embora, alegadamente em busca dessa autorização. Mas o tempo passa e nada. Até que ela sai, à procura dele, e depara com o mundo fora da floresta vazio de homens e entregue à maquinaria, que já sabe passar sem os seus criadores e por isso corre com eles, numa cena apocalíptica típica da FC distópica.
E no fim, o conto volta a afastar-se da FC, mostrando um Dia do Juízo muito alicerçado na mitologia. Tudo, aparentemente, porque a floresta se vinga por a rapariga lá criada, logo parte dela, ter sido abandonada. Fica por explicar como é que a rapariga acaba ali reunida com os restantes convivas na taberna, como é que mesmo depois de um tal cataclismo apocalíptico ainda pode contar a sua história e há alguém para a acompanhar. Mas apesar disso, este é mais um conto muitíssimo bem escrito e bastante interessante.
Contos anteriores deste livro:
Exemplos abundam, das Cosmicómicas a vários contos das Cidades Invisíveis, e é por isso sem grande surpresa que se encontram também neste livro. Por exemplo na História da Floresta que se Vinga, por estranho que isso possa parecer a quem olha para este título, que parece ter tudo a ver com fantasia e nada com ficção científica.
E é aqui que entra a espécie de ligação ao género que mais agrada a Calvino. O conto começa como um conto fantástico muito próximo das histórias tradicionais, com uma mulher criada numa floresta que um belo dia salva um príncipe vítima de salteadores, fá-lo perder-se de amores por ela (ou talvez só de desejo), engravida e fica à espera quando ele diz que precisa de ser desobrigado pelo Papa para poder casar com ela e se vai embora, alegadamente em busca dessa autorização. Mas o tempo passa e nada. Até que ela sai, à procura dele, e depara com o mundo fora da floresta vazio de homens e entregue à maquinaria, que já sabe passar sem os seus criadores e por isso corre com eles, numa cena apocalíptica típica da FC distópica.
E no fim, o conto volta a afastar-se da FC, mostrando um Dia do Juízo muito alicerçado na mitologia. Tudo, aparentemente, porque a floresta se vinga por a rapariga lá criada, logo parte dela, ter sido abandonada. Fica por explicar como é que a rapariga acaba ali reunida com os restantes convivas na taberna, como é que mesmo depois de um tal cataclismo apocalíptico ainda pode contar a sua história e há alguém para a acompanhar. Mas apesar disso, este é mais um conto muitíssimo bem escrito e bastante interessante.
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