Gostaria de ter gostado deste conto. Há nele alguns detalhes que apertam os botões certos, uma vez que Ana Sequeiros se dedica a gozar, sem dó nem piedade, com um facho, daqueles que o são de forma inapelável e soberanamente estúpida, muito embora haja bons argumentos para defender que não há facho que não o seja. Lucubrações Acacianas tem este título porque o facho se chama Acácio e o conto se dedica a dissecar com todo o detalhe todas as teias de aranha que ele tem na cabeça. Este Acácio fará certamente lembrar alguém a todos os que conheçam um facho desta variedade miudinha e intelectualmente (e e provavelmente não só) impotente. A mim decerto que fez. Mais que um, até.
Com estes ingredientes, como não gostar, não é? Mas a verdade é que não gostei. Não desgostei, mas também não gostei. Porquê?
Basicamente pelo mesmo motivo por que não gostei por aí além de O Patriota Improvável da Maria de Menezes. É que, apesar de ideologicamente se situarem em pontas praticamente opostas, os dois contos têm muito em comum. A queda para a caricatura inconsequente, principalmente, na qual qualquer tentação de contar uma história é subalternizada àquilo que realmente move as respetivas autoras: a vontade de lançar um violento ataque (de riso, talvez) às personagens que as inspiram. São contos em que a tradição nacional das histórias curtas que praticamente se resumem a um retrato dos protagonistas é alterada daquela forma algo grotesca que é inerente à transformação do retrato em caricatura. E isso, se pode agradar a alguns leitores, a mim não agrada.
Eu, leitor, preciso das minhas caricaturas literárias com alguma história por trás, e discretas o suficiente para não ofuscarem essa história. Não foi o que encontrei aqui. É pena.
Contos anteriores deste livro:
segunda-feira, 21 de outubro de 2019
Dulcineia: Alucinação?
Com Alucinação? (bibliografia), Dulcineia — nome que é certamente um pseudónimo — apresenta um texto banalíssimo no qual conta uma história fantástica que cai no velhíssimo chavão de chegar ao fim e se desfazer como se tudo não passasse de um sonho ou, como o título sugere, de uma alucinação.
Poderia resultar se houvesse algum rasgo literário, mas está muito longe de haver. O português é também ele banal, embora correto, pouco imaginativo, e o poema como um todo tem problemas de ritmo.
Em suma: um esforço bastante fraco.
Textos anteriores deste livro:
Poderia resultar se houvesse algum rasgo literário, mas está muito longe de haver. O português é também ele banal, embora correto, pouco imaginativo, e o poema como um todo tem problemas de ritmo.
Em suma: um esforço bastante fraco.
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domingo, 20 de outubro de 2019
Ray Bradbury: O Próximo da Fila
O México, sobretudo através da tradição do día de los muertos, é também algo recorrente nas ficções de Ray Bradbury. Não é difícil compreender porquê: há nessa tradição muito do mesmo macabro festivo que a celebração americana do Halloween tem, e esta festa, conjugada com todo o imaginário outonal que lhe está associado, é um dos temas que Bradbury revisita de forma mais obsessiva. De resto, o facto das duas festas coincidirem no tempo só sublinha mais a coincidência e torna mais naturais as visitas do autor americano à tradição mexicana.
O Próximo da Fila, claro, é uma dessas histórias. É uma noveleta de horror psicológico ao jeito de Bradbury, ambientado numa cidadezinha no México e protagonizado por um casal de turistas americanos que dificilmente podiam encarar a experiência de forma mais díspar. Ele, descontraído, indiferente aos problemas que os assolam (incluindo uma misteriosa e demorada avaria no carro que os retém na cidade), decidido a tirar o melhor partido das férias naquele local. Ela, tensa, cada vez mais mergulhada em terríveis pressentimentos a respeito da cidade e ansiosa por se ir embora, seja de que maneira for.
Bradbury nunca deixa grande lugar a dúvidas quanto ao desfecho que a história irá acabar por ter; o foreshadowing é intenso, as sugestões de algo de sobrenatural em ação são múltiplas, ainda que tanto uma coisa como a outra surjam exclusivamente por intermédio do que a mulher faz, diz e sente. Mas mesmo assim, quando ele acontece, surge trazendo a reboque uma certa surpresa. É possível que isso seja em parte explicado pela extensão desta história, invulgarmente longa para o autor americano, cuja obra, embora naturalmente inclua textos mais extensos, se centra entre o conto e o conto curto. Enquanto fui lendo, pensei várias vezes que o final não poderia ser tão óbvio, que não se justificaria que o fosse com tanta história para trás. E no fim é mesmo.
Em parte em resultado disso, esta história não é das melhores de Bradbury. Quando o leitor começa a pensar que o que está a ler já se está a prolongar demasiado é mau sinal, e isso acontece aqui. Se fosse mais curta, se fosse um conto, julgo que esta noveleta funcionaria melhor, mesmo que fosse necessário abreviar alguns episódios. Assim, torna-se aborrecida. É Bradbury, pelo que tem as qualidades habituais do autor, mas é um Bradbury de terceira ou quarta linha.
Conto anterior deste livro:
O Próximo da Fila, claro, é uma dessas histórias. É uma noveleta de horror psicológico ao jeito de Bradbury, ambientado numa cidadezinha no México e protagonizado por um casal de turistas americanos que dificilmente podiam encarar a experiência de forma mais díspar. Ele, descontraído, indiferente aos problemas que os assolam (incluindo uma misteriosa e demorada avaria no carro que os retém na cidade), decidido a tirar o melhor partido das férias naquele local. Ela, tensa, cada vez mais mergulhada em terríveis pressentimentos a respeito da cidade e ansiosa por se ir embora, seja de que maneira for.
Bradbury nunca deixa grande lugar a dúvidas quanto ao desfecho que a história irá acabar por ter; o foreshadowing é intenso, as sugestões de algo de sobrenatural em ação são múltiplas, ainda que tanto uma coisa como a outra surjam exclusivamente por intermédio do que a mulher faz, diz e sente. Mas mesmo assim, quando ele acontece, surge trazendo a reboque uma certa surpresa. É possível que isso seja em parte explicado pela extensão desta história, invulgarmente longa para o autor americano, cuja obra, embora naturalmente inclua textos mais extensos, se centra entre o conto e o conto curto. Enquanto fui lendo, pensei várias vezes que o final não poderia ser tão óbvio, que não se justificaria que o fosse com tanta história para trás. E no fim é mesmo.
Em parte em resultado disso, esta história não é das melhores de Bradbury. Quando o leitor começa a pensar que o que está a ler já se está a prolongar demasiado é mau sinal, e isso acontece aqui. Se fosse mais curta, se fosse um conto, julgo que esta noveleta funcionaria melhor, mesmo que fosse necessário abreviar alguns episódios. Assim, torna-se aborrecida. É Bradbury, pelo que tem as qualidades habituais do autor, mas é um Bradbury de terceira ou quarta linha.
Conto anterior deste livro:
Leiturtugas da semana #37
Mais uma semana com Leiturtugas, mas esta foi bastante mais calma que as duas últimas. E começa com uma correção. É que eu tinha ficado com a ideia de que a antologia O Resto é Paisagem não tinha qualquer FC, mas aparentemente há alguma num dos contos, pelo que conta para a coluna do "com FC". Isto afeta as contas da Carla Ribeiro, que em vez de ter ficado na semana passada com 2c3s, como eu tinha escrito, ficou com 3c2s. E, que me lembre, só a afeta a ela. Se afetar mais alguém, avisem-me.
Adiante.
É também da Carla Ribeiro que vem a primeira verdadeira Leiturtuga da semana, graças à sua opinião sobre o mais recente romance de Luís Corredoura, intitulado A Recriação do Mundo e publicado pela Cultura. Trata-se de história alternativa, que eu regra geral encaro como um ramo da FC (por via dos universos paralelos), pelo que a Carla passa a 4c2s. E cumpre os objetivos das Leiturtuguinhas, a que se tinha proposto. E agora como é, Carla? Ainda há tempo. Passamos às Leiturtugas? Hm?
Mas não ficamos por aí, pois também o Portuguese Portal publicou algo leiturtuguento. Trata-se de uma opinião sobre o romance de horror de Pedro Lucas Martins recentemente publicado pela Divergência: As Sombras de Lázaro. Não-FC, claro, e o Portuguese Portal passa a 0c2s.
E, em última hora, mesmo a fechar esta edição, chega-nos a notícia de que a Carla Ribeiro voltou ao "ataque" com mais uma opinião. Cabe a vez a uma novela de Nuno Sobral publicada pela Sana e intitulada Eu Creio que a Verdade Crua Cura. Nada tem de FC e só parece roçar pelo fantástico, mas também conta. A Carla passa assim a 4c3s. Leiturtugas? Hm?
Por fim, uma notícia há muito aguardada com ansiedade pela multidão que segue este projeto (ahem). Está online a lista de locais onde se pode encontrar online FC e fantástico português. Não está completa, que não tive tempo para ir esgravatar a fundo na net para ver se encontrava tudo, mas já é um começo e achei preferível disponibilizar já esse começo e ir completando à medida que houvesse tempo.
E por esta semana é só. Até à próxima.
Adiante.
É também da Carla Ribeiro que vem a primeira verdadeira Leiturtuga da semana, graças à sua opinião sobre o mais recente romance de Luís Corredoura, intitulado A Recriação do Mundo e publicado pela Cultura. Trata-se de história alternativa, que eu regra geral encaro como um ramo da FC (por via dos universos paralelos), pelo que a Carla passa a 4c2s. E cumpre os objetivos das Leiturtuguinhas, a que se tinha proposto. E agora como é, Carla? Ainda há tempo. Passamos às Leiturtugas? Hm?
Mas não ficamos por aí, pois também o Portuguese Portal publicou algo leiturtuguento. Trata-se de uma opinião sobre o romance de horror de Pedro Lucas Martins recentemente publicado pela Divergência: As Sombras de Lázaro. Não-FC, claro, e o Portuguese Portal passa a 0c2s.
E, em última hora, mesmo a fechar esta edição, chega-nos a notícia de que a Carla Ribeiro voltou ao "ataque" com mais uma opinião. Cabe a vez a uma novela de Nuno Sobral publicada pela Sana e intitulada Eu Creio que a Verdade Crua Cura. Nada tem de FC e só parece roçar pelo fantástico, mas também conta. A Carla passa assim a 4c3s. Leiturtugas? Hm?
Por fim, uma notícia há muito aguardada com ansiedade pela multidão que segue este projeto (ahem). Está online a lista de locais onde se pode encontrar online FC e fantástico português. Não está completa, que não tive tempo para ir esgravatar a fundo na net para ver se encontrava tudo, mas já é um começo e achei preferível disponibilizar já esse começo e ir completando à medida que houvesse tempo.
E por esta semana é só. Até à próxima.
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
Falaram da Dieselpunk
Fruto sobretudo da longa travessia do deserto por que a minha escrita passou depois de perder o meu pai, já não publico nada desde 2015 (e em 2015 foram só duas coisinhas para deixar num pousio condigno o Infinitamente Improvável; o último ano com publicações que se vissem foi 2013), se descontarmos uma vinhetazinha publicada aqui na Lâmpada no ano passado, e, em livro, desde 2011. Em parte por isso, é crescentemente raro que alguém comente alguma publicação em que eu tenha estado envolvido.
Mas de vez em quando acontece. A demonstração mais recente de que assim é surgiu no site da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro (coloquialmente conhecido apenas como "Planetário do Rio", porque o nome oficial é compriiiiiido), onde foi publicada uma opinião, com notas específicas para cada conto, sobre a antologia retrofuturista Dieselpunk, publicada em 2011 pela Draco. Lá se encontra a noveleta Só a Morte te Resgata, a segunda história da série a que pertence também o romance que tenho andado a escrever nos últimos meses, sobre a qual opina o resenhador que é "talvez [...] a mais madura das obras apresentadas".
Porreirinho, pá.
Já agora, eu falei do que penso sobre a antologia aqui, onde como é costume há links para opiniões específicas sobre as restantes histórias.
Mas de vez em quando acontece. A demonstração mais recente de que assim é surgiu no site da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro (coloquialmente conhecido apenas como "Planetário do Rio", porque o nome oficial é compriiiiiido), onde foi publicada uma opinião, com notas específicas para cada conto, sobre a antologia retrofuturista Dieselpunk, publicada em 2011 pela Draco. Lá se encontra a noveleta Só a Morte te Resgata, a segunda história da série a que pertence também o romance que tenho andado a escrever nos últimos meses, sobre a qual opina o resenhador que é "talvez [...] a mais madura das obras apresentadas".
Porreirinho, pá.
Já agora, eu falei do que penso sobre a antologia aqui, onde como é costume há links para opiniões específicas sobre as restantes histórias.
Helena Marques: O Tratado
Nunca tinha lido nada da Helena Marques e não fiquei bem impressionado com este continho de pouco mais de duas páginas sobre um triângulo amoroso pouco convencional. Pouco convencional no sentido de contar uma mulher e dois homens, todos saberem uns dos outros e encararem a situação com a maior das calmas e descontrações, mesmo quando a mulher decide acabar com ele e tornar-se monogâmica. O motivo do título O Tratado percebe-se na última frase do conto, que funciona como final surpresa, pelo que não falarei dela.
O conto até está bem escrito, mas o interesse que me despertou, francamente, foi nulo. Não tenho paciência alguma para este tipo de história intimista sobre relações: sou completamente desprovido do instinto mexeriqueiro que em grande medida cria o público para elas. Quando, na vida real, me vêm falar de fulano que fez não sei o quê a fulana e patati e patata e vice-versa, o que é abençoadamente raro, encolho os ombros e mudo de assunto. A vida dos outros é coisa que só me interessa se afetar a minha; de resto, vivam-na à vontade como acharem melhor. E esta atitude tem prolongamento natural nas histórias literárias, cinematográficas, por aí fora. Histórias de mexericos, mesmo que, como esta, tenham um fundo relativamente irónico, só me despertam mesmo chatice. Sono. Vontade que acabem depressa para eu poder dedicar o meu tempo a alguma coisa com algum interesse. Então estes três vivem numa relação triangular e depois deixam de viver? Eh, pá, quero lá saber.
Há públicos e públicos e cada um tem o seu. Helena Marques não é para mim.
Conto anterior deste livro:
O conto até está bem escrito, mas o interesse que me despertou, francamente, foi nulo. Não tenho paciência alguma para este tipo de história intimista sobre relações: sou completamente desprovido do instinto mexeriqueiro que em grande medida cria o público para elas. Quando, na vida real, me vêm falar de fulano que fez não sei o quê a fulana e patati e patata e vice-versa, o que é abençoadamente raro, encolho os ombros e mudo de assunto. A vida dos outros é coisa que só me interessa se afetar a minha; de resto, vivam-na à vontade como acharem melhor. E esta atitude tem prolongamento natural nas histórias literárias, cinematográficas, por aí fora. Histórias de mexericos, mesmo que, como esta, tenham um fundo relativamente irónico, só me despertam mesmo chatice. Sono. Vontade que acabem depressa para eu poder dedicar o meu tempo a alguma coisa com algum interesse. Então estes três vivem numa relação triangular e depois deixam de viver? Eh, pá, quero lá saber.
Há públicos e públicos e cada um tem o seu. Helena Marques não é para mim.
Conto anterior deste livro:
Paulo Moreira: Filho da Mãe
Mais um conto fúnebre escrito com bastante sensibilidade. E vão dois em pouco tempo, depois de Esta Casa não Foi Feita de Paredes, encontrado noutra antologia que também ando a ler. Curiosa coincidência. E há muito em comum entre as duas histórias. Aqui, Paulo Moreira fala também de um filho que chega à casa do familiar falecido — e também aqui esse familiar é a mãe — com a intenção de recuperar dela o que achasse que deve recuperar, encontrando sobretudo memórias. Mas também há diferenças, nomeadamente uma reviravolta final que não é muito surpreendente porque se faz anunciar com certa antecedência mas cuja descoberta constitui boa parte do que faz andar a narrativa deste Filho da Mãe, pelo que não falarei dela aqui.
Uma coisa que me incomodou neste conto foi uma forte dissonância entre o tema melancólico, acompanhado pelo enredo, igualmente melancólico, e o estilo de Moreira, composto quase inteiramente por frases muito curtas, quase sincopadas, que parecem muito mais adequadas para uma narrativa ágil de ação do que para um conto como este. Disso não gostei, especialmente de início, ainda que com o avançar da leitura essa dissonância me fosse incomodando cada vez menos. Como nunca tinha lido nada dele, não sei se foi propositado, isto é, se Moreira decidiu escrever assim esta história em concreto, ou se é o estilo que usa habitualmente. Mas não me agradou.
Tirando esse detalhe, no entanto, o conto é interessante e está bem concebido. Não posso dizer que tenha gostado dele, propriamente, mas também não deixei de gostar.
Contos anteriores deste livro:
Uma coisa que me incomodou neste conto foi uma forte dissonância entre o tema melancólico, acompanhado pelo enredo, igualmente melancólico, e o estilo de Moreira, composto quase inteiramente por frases muito curtas, quase sincopadas, que parecem muito mais adequadas para uma narrativa ágil de ação do que para um conto como este. Disso não gostei, especialmente de início, ainda que com o avançar da leitura essa dissonância me fosse incomodando cada vez menos. Como nunca tinha lido nada dele, não sei se foi propositado, isto é, se Moreira decidiu escrever assim esta história em concreto, ou se é o estilo que usa habitualmente. Mas não me agradou.
Tirando esse detalhe, no entanto, o conto é interessante e está bem concebido. Não posso dizer que tenha gostado dele, propriamente, mas também não deixei de gostar.
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terça-feira, 15 de outubro de 2019
Charlotte Perkins Gilman: O Papel de Parede Amarelo
E aqui temos um clássico. Não só um clássico, aliás, mas o primeiro conto desta pequena antologia que tem realmente todos os elementos de um conto de horror: uma história perturbadora, fantasmagórica, sobre uma personagem que talvez seja louca, talvez seja apenas (com muitas aspas) vítima do sobrenatural.
Mas o que transforma esta história de Charlotte Perkins Gilman num clássico nem é isso. Sim, O Papel de Parede Amarelo (bibliowiki) é uma história de terror bastante boa mas o que a eleva acima da maioria das outras não é nem o papel de parede, nem a protagonista, nem a forma como esta se deixa fascinar por aquele, imaginando-o (e será imaginação?) animado de vida própria, servindo de uma espécie de escape para qualquer coisa que nele vive e que a páginas tantas dele sai, transferindo a sua essência para o mundo cá fora. Para ela. Não. O que eleva esta história mais alto é o seu subtexto.
O subtexto é de luta, de denúncia. Este conto, com a autêntica clausura que a mulher sofre às mãos do marido, médico, porque está "nervosa" e tem de repousar para ficar de novo boa, é usado por Gilman para mostrar a menorização das mulheres na sociedade do seu tempo, a escassa atenção que aquela prestava às suas opiniões e problemas, e as consequências devastadoras que isso pode ter. Tudo o que a protagonista da história faz, fá-lo às escondidas do marido e este é para ela uma presença constantemente ameaçadora, apesar de armada das melhores intenções, pelo menos segundo a sua própria opinião. A fantasmagoria, o mergulho no papel de parede amarelo, é assim uma espécie de escape de uma prisão psicológica que a sufoca.
Este é das tais histórias de género que, longe do escapismo que tantas vezes se lhes quer colar, usam as convenções do género para fazer análises bastante profundas de questões sociais, psicológicas ou ambas. Geralmente são essas as melhores histórias de género, e é o caso aqui. Este conto é muito bom. Só é pena não ser condignamente servido pela edição.
Contos anteriores deste livro:
Mas o que transforma esta história de Charlotte Perkins Gilman num clássico nem é isso. Sim, O Papel de Parede Amarelo (bibliowiki) é uma história de terror bastante boa mas o que a eleva acima da maioria das outras não é nem o papel de parede, nem a protagonista, nem a forma como esta se deixa fascinar por aquele, imaginando-o (e será imaginação?) animado de vida própria, servindo de uma espécie de escape para qualquer coisa que nele vive e que a páginas tantas dele sai, transferindo a sua essência para o mundo cá fora. Para ela. Não. O que eleva esta história mais alto é o seu subtexto.
O subtexto é de luta, de denúncia. Este conto, com a autêntica clausura que a mulher sofre às mãos do marido, médico, porque está "nervosa" e tem de repousar para ficar de novo boa, é usado por Gilman para mostrar a menorização das mulheres na sociedade do seu tempo, a escassa atenção que aquela prestava às suas opiniões e problemas, e as consequências devastadoras que isso pode ter. Tudo o que a protagonista da história faz, fá-lo às escondidas do marido e este é para ela uma presença constantemente ameaçadora, apesar de armada das melhores intenções, pelo menos segundo a sua própria opinião. A fantasmagoria, o mergulho no papel de parede amarelo, é assim uma espécie de escape de uma prisão psicológica que a sufoca.
Este é das tais histórias de género que, longe do escapismo que tantas vezes se lhes quer colar, usam as convenções do género para fazer análises bastante profundas de questões sociais, psicológicas ou ambas. Geralmente são essas as melhores histórias de género, e é o caso aqui. Este conto é muito bom. Só é pena não ser condignamente servido pela edição.
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segunda-feira, 14 de outubro de 2019
Thackery T. Lambshead: Uma Introdução Relutante do Dr. Lambshead
Era inevitável que um livro como este contivesse Uma Introdução Relutante do Dr. Lambshead (bibliografia), "escrita" obviamente pelo próprio Thackery T. Lambshead (pseudónimo de alguém, claro, mas não se sabe de quem... e eu não faço apostas), mas a verdade é que este texto é significativamente pior que os dois que o antecederam. Porque o "Lambshead" que aqui escreve tem de se manter fiel à personagem, e esta é um velho jarreta dificilmente suportável mas coerente, apesar de louco, cheio de ressentimentos, tendente a disparar azedume para todos os lados, o que faz com que o texto esteja muito longe do humor esfuziante dos dois primeiros textos. E também literariamente é relativamente pobre. Mas é também um texto que, não sendo absolutamente necessário, contribui para a ficção geral do livro, pelo que, pensando bem, nada tenho a contestar.
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domingo, 13 de outubro de 2019
Paulo Marques Vasco: Janelas Para Lugar Nenhum
Uma das melhores maneiras de contar histórias simples de uma forma interessante é contá-las de um modo invulgar, ainda que nem sempre contar uma história de um modo invulgar resulte numa história bem contada. É também necessário que o modo se adeque à história, e isso exige um equilíbrio e uma reflexão que nem sempre são alcançados. Mas posso dizer desde já que Paulo Marques Vasco as alcançou neste seu conto. É um bom conto.
Ajuda que a história só enganadoramente seja simples. Janelas Para Lugar Nenhum é a história de uma mulher com um marido profundamente doente de Alzheimer, e de como as circunstâncias da vida dela conspiraram para a levar a essa situação. Contada num misto de narração em terceira pessoa e depoimentos das personagens mais importantes (a própria mulher, a mãe dela e uma amiga de juventude chamada Inês), vai levando o leitor a vários momentos da história de vida da mulher através do olhar dessas três personagens, com um uso extenso da memória.
A principal qualidade deste conto tem a ver com esse uso da memória, pois Paulo Marques Vasco consegue dosear muito bem a informação que fornece, por forma manter bem acesa a curiosidade do leitor pelo que vem aí, num número de equilibrismo entre a informação fornecida e a retida que está no ponto precisamente certo. Há sugestões e indícios na página tal, mais à frente revelam-se corretos, ou não, enquanto outros indícios e sugestões ocupam o seu lugar, até que no final tudo é revelado e amarrado com uma última carta deixada pela protagonista. Sem este desvendar progressivo, o conto dificilmente resultaria. Com ele, resulta em pleno.
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Ajuda que a história só enganadoramente seja simples. Janelas Para Lugar Nenhum é a história de uma mulher com um marido profundamente doente de Alzheimer, e de como as circunstâncias da vida dela conspiraram para a levar a essa situação. Contada num misto de narração em terceira pessoa e depoimentos das personagens mais importantes (a própria mulher, a mãe dela e uma amiga de juventude chamada Inês), vai levando o leitor a vários momentos da história de vida da mulher através do olhar dessas três personagens, com um uso extenso da memória.
A principal qualidade deste conto tem a ver com esse uso da memória, pois Paulo Marques Vasco consegue dosear muito bem a informação que fornece, por forma manter bem acesa a curiosidade do leitor pelo que vem aí, num número de equilibrismo entre a informação fornecida e a retida que está no ponto precisamente certo. Há sugestões e indícios na página tal, mais à frente revelam-se corretos, ou não, enquanto outros indícios e sugestões ocupam o seu lugar, até que no final tudo é revelado e amarrado com uma última carta deixada pela protagonista. Sem este desvendar progressivo, o conto dificilmente resultaria. Com ele, resulta em pleno.
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Leiturtugas da semana #36
Esta semana voltou uma vez mais a haver Leiturtugas, e ainda mais que na semana anterior, o que é extraordinário. Decididamente não há fome que não dê em fartura, caramba.
Mas primeiro tenho de falar de uma chegada ao projeto e uma desistência. A entrada é a do The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction, a primeira publicação coletiva a participar. A saída coube ao blogue de Raquel Silva, So Happy With Less. E a propósito quero sublinhar o seguinte: qualquer publicação online pode aderir ou sair ou regressar ao projeto a qualquer momento e os objetivos anuais são isso mesmo: objetivos a atingir, não uma obrigação. Podem permanecer no projeto mesmo sem os cumprir, naturalmente, e também podem prosseguir depois de alcançarem os objetivos. Naturalmente, eu prefiro a segunda opção à primeira, mas são ambas igualmente válidas. Além disso, tenho planeado criar aqui na Lâmpada uma página com links para sítios onde exista FC portuguesa online, para ajudar aqueles que quiserem alcançar os objetivos mas não tiverem possibilidade de adquirir material em papel. Ainda não tive tempo, mas conto fazê-lo muito em breve.
Posto isto, siga para bingo. A semana abriu com uma opinião sobre uma leiturtuga retroativa, publicada ainda em setembro, fruto da adesão do Portuguese Portal ao projeto. Trata-se do romance Dormir com Lisboa, de Fausta Cardoso Pereira, um caso curioso de um livro português que não conseguiu ver-se publicado em Portugal, acabando por sair pela editora galega Alcaia. É um livro de realismo mágico, i.e., sem FC, pelo que o Portuguese Portal se estreia com 0c1s.
Seguiu-se a Carla Ribeiro com a sua opinião sobre a antologia de fantástico rural O Resto é Paisagem, organizada pelo Luís Filipe Silva e publicada pela Divergência. Tudo indica que se trata de um livro sem qualquer FC, pelo que a Carla passa a 2c3s.
Depois foi a vez de aparecer uma opinião da Cristina Alves sobre mais um livro sem FC e publicado pela Divergência. Trata-se do romance de horror de Pedro Lucas Martins intitulado As Sombras de Lázaro. A Cristina passa assim a 5c7s e continua a faltar-lhe uma leitura com FC para cumprir os mínimos da coisa.
Depois, temos uma descoberta que me tinha passado despercebida até agora. A Nights fez o segundo vídeo em que inclui material para as Leiturtugas, tendo-me o primeiro (publicado a 4 de julho) passado completamente ao lado. Nesse, fala de um romance de fantasia de João Fialho intitulado Adronák - O Sonho, publicado por uma editora de que eu nunca tinha ouvido falar (nem do livro, diga-se): AL-Publicações. Ou seja, a Nights chega ao outono com 0c1s.
No segundo vídeo, publicado agora, falou de mais coisas. Só da Carina Portugal foram três: Duas Gotas de Sangue e um Corpo Para a Eternidade, uma noveleta de fantasia publicada pela Smashwords, O Pequeno Herói, também uma noveleta de fantasia publicada pela Smashwords e A Ponte das Almas Negras, mais uma noveleta de fantasia, mas esta publicada pela Fantasy & Co. Mas há mais! Falou também de duas BDs: A Ilha do Futuro, de José Ruy, publicado pela Meribérica, e Eternus 9, de Vítor Mesquita, não sei de que editora porque há dois álbuns e ela não diz de qual deles fala. E ainda... sim, que há mais... A Rosa de Inês, de Rosa Lobato de Faria, que aparentemente é um romance com pelo menos uma pitada de FC e foi publicado pela Bis. À exceção deste último, é tudo sem FC, porque as BDs vão para essa coluna mesmo quando a têm, pelo que a Nights salta para 1c6s.
Puff... puff...
E por fim, para acabar este lençol, falta fazer o balanço até ao fim de setembro que tinha ficado por fazer na semana passada. E cá está ele:
Como se vê, três participantes já acabaram, dois estão mesmo quase e outros três estão na calha para acabar mais ou menos nas calmas. Os outros quatro nem tanto (embora um deles — a Nights — vá bem mais avançado do que parece aqui), mas nada que seja impossível.
Boas leituras.
Mas primeiro tenho de falar de uma chegada ao projeto e uma desistência. A entrada é a do The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction, a primeira publicação coletiva a participar. A saída coube ao blogue de Raquel Silva, So Happy With Less. E a propósito quero sublinhar o seguinte: qualquer publicação online pode aderir ou sair ou regressar ao projeto a qualquer momento e os objetivos anuais são isso mesmo: objetivos a atingir, não uma obrigação. Podem permanecer no projeto mesmo sem os cumprir, naturalmente, e também podem prosseguir depois de alcançarem os objetivos. Naturalmente, eu prefiro a segunda opção à primeira, mas são ambas igualmente válidas. Além disso, tenho planeado criar aqui na Lâmpada uma página com links para sítios onde exista FC portuguesa online, para ajudar aqueles que quiserem alcançar os objetivos mas não tiverem possibilidade de adquirir material em papel. Ainda não tive tempo, mas conto fazê-lo muito em breve.
Posto isto, siga para bingo. A semana abriu com uma opinião sobre uma leiturtuga retroativa, publicada ainda em setembro, fruto da adesão do Portuguese Portal ao projeto. Trata-se do romance Dormir com Lisboa, de Fausta Cardoso Pereira, um caso curioso de um livro português que não conseguiu ver-se publicado em Portugal, acabando por sair pela editora galega Alcaia. É um livro de realismo mágico, i.e., sem FC, pelo que o Portuguese Portal se estreia com 0c1s.
Seguiu-se a Carla Ribeiro com a sua opinião sobre a antologia de fantástico rural O Resto é Paisagem, organizada pelo Luís Filipe Silva e publicada pela Divergência. Tudo indica que se trata de um livro sem qualquer FC, pelo que a Carla passa a 2c3s.
Depois foi a vez de aparecer uma opinião da Cristina Alves sobre mais um livro sem FC e publicado pela Divergência. Trata-se do romance de horror de Pedro Lucas Martins intitulado As Sombras de Lázaro. A Cristina passa assim a 5c7s e continua a faltar-lhe uma leitura com FC para cumprir os mínimos da coisa.
Depois, temos uma descoberta que me tinha passado despercebida até agora. A Nights fez o segundo vídeo em que inclui material para as Leiturtugas, tendo-me o primeiro (publicado a 4 de julho) passado completamente ao lado. Nesse, fala de um romance de fantasia de João Fialho intitulado Adronák - O Sonho, publicado por uma editora de que eu nunca tinha ouvido falar (nem do livro, diga-se): AL-Publicações. Ou seja, a Nights chega ao outono com 0c1s.
No segundo vídeo, publicado agora, falou de mais coisas. Só da Carina Portugal foram três: Duas Gotas de Sangue e um Corpo Para a Eternidade, uma noveleta de fantasia publicada pela Smashwords, O Pequeno Herói, também uma noveleta de fantasia publicada pela Smashwords e A Ponte das Almas Negras, mais uma noveleta de fantasia, mas esta publicada pela Fantasy & Co. Mas há mais! Falou também de duas BDs: A Ilha do Futuro, de José Ruy, publicado pela Meribérica, e Eternus 9, de Vítor Mesquita, não sei de que editora porque há dois álbuns e ela não diz de qual deles fala. E ainda... sim, que há mais... A Rosa de Inês, de Rosa Lobato de Faria, que aparentemente é um romance com pelo menos uma pitada de FC e foi publicado pela Bis. À exceção deste último, é tudo sem FC, porque as BDs vão para essa coluna mesmo quando a têm, pelo que a Nights salta para 1c6s.
Puff... puff...
E por fim, para acabar este lençol, falta fazer o balanço até ao fim de setembro que tinha ficado por fazer na semana passada. E cá está ele:
| Publicação | Já cumprido | Falta cumprir | Mês de início |
|---|---|---|---|
| O Senhor Luvas | objetivo ultrapassado | janeiro | |
| O Prazer das Coisas | objetivo ultrapassado | janeiro | |
| A Lâmpada Mágica | objetivo ultrapassado | janeiro | |
| Ideias de Leitora | 1c4s | 1 (2c) | fevereiro |
| Rascunhos | 5c6s | 1 (1c) | janeiro |
| As Leituras do Corvo | 2c2s | 2 (1c) | janeiro |
| Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction | 0c1s | 3 (2c) | setembro |
| Intergalactic Robot | 5c3s | 4 (1c) | janeiro |
| O Blog do Jauch | 2c1s | 9 (4c) | janeiro |
| Words a la Carte | 0c1s | 9 (5c) | março |
| Atmosfera dos Livros | - | 12 (6c) | janeiro |
| Faces de Marisa | - | 12 (6c) | janeiro |
Como se vê, três participantes já acabaram, dois estão mesmo quase e outros três estão na calha para acabar mais ou menos nas calmas. Os outros quatro nem tanto (embora um deles — a Nights — vá bem mais avançado do que parece aqui), mas nada que seja impossível.
Boas leituras.
Aí vem mais um dos "meus"!
Discretamente, a Saída de Emergência pôs há dias em pré-venda (e com brinde) a minha tradução mais recente, cuja capa podem ver aqui ao lado. Disponível a partir de 8 de novembro, este O Armazém, de um autor que eu desconhecia até pegar nele, Rob Hart, é um livro de ficção científica de futuro próximo que também pode ser visto como uma distopia político-económica. E não estou a dizer nada que não se possa compreender lendo a sinopse.
Por falar em sinopse, ei-la:
Não foi livro que me tivesse criado muitas dificuldades à tradução, ao contrário do que muitas vezes acontece quando se traduz ficção científica. A tecnologia que aqui aparece é pouco mais avançada que a tecnologia contemporânea e o mundo é o nosso, levemente projetado num amanhã que não canta lá muito, pelo que não existem grandes neologismos a reinventar; foi só questão de pesquisar alguns termos em uso, descobrir que são quase todos anglicismos, lamentar o facto, e usá-los sem pestanejar.
Mas foi um livro que gostei bastante de traduzir. Por me trazer de volta ao meu género preferido, claro, depois d'Um Estranho Numa Terra Estranha do Heinlein, mas também por tê-lo achado muito relevante para os tempos que correm e para uma reflexão muito fundamental sobre que sociedade queremos ter no futuro próximo e que espécie de abordagem queremos usar face às enormes ameaças que pairam sobre a civilização humana neste planeta, com as alterações climáticas à cabeça.
E além do mais, é dedicado a uma lusoamericana, nascida no Massachusetts, filha de pais portugueses que foram para a América em busca do sonho americano. Mas não foi o que ela encontrou, muito longe disso.
Por falar em sinopse, ei-la:
A CLOUD NÃO É APENAS UM LUGAR PARA TRABALHAR. É UM LUGAR PARA VIVER. E QUANDO LÁ SE ENTRA NUNCA MAIS SE QUER SAIR.Sim, é isso mesmo. Trata-se de um livro que pega em tendências socioeconómicas muitíssimo atuais e práticas empresariais de empresas muito concretas (a Cloud pode ter esse nome, mas o nome que não me largou a cabeça ao longo da leitura inicial e da tradução é outro, um nome de três sílabas que faz lembrar um certo e determinado rio) e as extrapola para uma década ou duas no futuro, acompanhando alguns meses da vida de um punhado de pessoas inseridas nesse futuro. É sobretudo uma reflexão inteligente sobre o rumo do capitalismo predatório, neoliberal e cada vez mais monopolista que temos e da forma como ele ameaça tomar conta também do discurso ambientalista, obviamente para proveito próprio. Um livro sobre o presente, portanto, como de resto sempre acontece na ficção científica, e sobretudo na FC de futuro próximo.
Paxton nunca pensou que trabalharia como segurança para a Cloud, o gigante da tecnologia que domina a economia americana depois do desaparecimento do comércio tradicional na sequência de uma série de assassínios em massa. Muito menos que se mudaria para as instalações em expansão onde é possível viver e trabalhar. Mas quando se compara com tudo o resto que existe, a Cloud não é assim tão má. E quando conhece Zinnia, as coisas melhoram com a esperança de um futuro partilhado.
Mas Zinnia não é o que parece. E Paxton, com acesso a credenciais de segurança, é o peão perfeito para ela descobrir os segredos mais negros da empresa. À medida que a verdade sobre a Cloud se vai revelando, ambos terão de perceber até onde a empresa está disposta a ir para tornar o mundo num lugar melhor.
O Armazém é um thriller brilhante sobre um futuro próximo e o que acontece quando o Big Brother se junta ao Big Business... e quem pagará o preço final.
Não foi livro que me tivesse criado muitas dificuldades à tradução, ao contrário do que muitas vezes acontece quando se traduz ficção científica. A tecnologia que aqui aparece é pouco mais avançada que a tecnologia contemporânea e o mundo é o nosso, levemente projetado num amanhã que não canta lá muito, pelo que não existem grandes neologismos a reinventar; foi só questão de pesquisar alguns termos em uso, descobrir que são quase todos anglicismos, lamentar o facto, e usá-los sem pestanejar.
Mas foi um livro que gostei bastante de traduzir. Por me trazer de volta ao meu género preferido, claro, depois d'Um Estranho Numa Terra Estranha do Heinlein, mas também por tê-lo achado muito relevante para os tempos que correm e para uma reflexão muito fundamental sobre que sociedade queremos ter no futuro próximo e que espécie de abordagem queremos usar face às enormes ameaças que pairam sobre a civilização humana neste planeta, com as alterações climáticas à cabeça.
E além do mais, é dedicado a uma lusoamericana, nascida no Massachusetts, filha de pais portugueses que foram para a América em busca do sonho americano. Mas não foi o que ela encontrou, muito longe disso.
sábado, 12 de outubro de 2019
Têssevê: Na Noite de Halloween
Já não é o primeiro texto deste livro que mostra uma pegada francamente infantojuvenil, usando uma forma mais propícia a ser contada em voz alta a criancinhas de olhos redondos do que propriamente a ser lida por adultos pelos olhos dos quais já passou muita coisa diferente. Como eu. Suponho que outra coisa dificilmente seria de esperar de algo com o título de Na Noite de Halloween (bibliografia), tradição alheia em que os miúdos desempenham papel de relevo e que vai invadindo também este retângulo, sobretudo porque convém a quem tem coisas para vender. Ou seja, não é surpreendente que Tessevê (pseudónimo de Natália Vale) tenha seguido esse caminho. A pergunta é: seguiu-o bem?
Bem... mais ou menos. Embora de uma maneira geral sejam corretos, há nestes versos problemas de ritmo que teriam impacto negativo quando se tentasse dizê-los em voz alta, e há também aqui e ali algumas palavras desnecessariamente complicadas, que teriam de ser explicadas à maioria dos miúdos. Há situações em que a simplicidade é desejável, e esta é uma dessas situações. Mas apesar do que ficou dito, este não é um mau texto.
Textos anteriores deste livro:
Bem... mais ou menos. Embora de uma maneira geral sejam corretos, há nestes versos problemas de ritmo que teriam impacto negativo quando se tentasse dizê-los em voz alta, e há também aqui e ali algumas palavras desnecessariamente complicadas, que teriam de ser explicadas à maioria dos miúdos. Há situações em que a simplicidade é desejável, e esta é uma dessas situações. Mas apesar do que ficou dito, este não é um mau texto.
Textos anteriores deste livro:
Susana Celina: Canto de Élea e Myrdhin
Este Canto de Élea e Myrdhin (bibliografia) é bem capaz de ser o mais ambicioso de todos os poemas incluídos nesta antologia. Razoavelmente longo, estendendo-se por quatro páginas, conta no essencial uma história de amor, não necessariamente feliz, no ambiente de fantasia que os nomes que Susana Celina escolheu para as suas personagens fazem prever. E não me parece que seja mau, apesar de uma certa queda para o chavão que, mais uma vez, já os nomes indicam. Há trechos razoavelmente bons, embora outros me pareçam algo fracos e aqui inclui-se uma vez mais o remate do texto, muito pouco satisfatório.
Em suma, um texto desequilibrado que teria beneficiado de alguma reescrita capaz de conservar os trechos bem conseguidos e de dar uns retoques mais ou menos intensos aos que não o estão. Por outras palavras, podia ser melhor do que é. Mas há aqui textos piores.
Textos anteriores deste livro:
Em suma, um texto desequilibrado que teria beneficiado de alguma reescrita capaz de conservar os trechos bem conseguidos e de dar uns retoques mais ou menos intensos aos que não o estão. Por outras palavras, podia ser melhor do que é. Mas há aqui textos piores.
Textos anteriores deste livro:
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
Em setembro falou-se de...
E cá temos mais um destes posts que fazem um apanhado ao que se foi publicando por aí no que toca às leituras de ficção científica e suas tangentes na web de língua portuguesa. Como sempre, tudo começa com links. O link para o primeiro post desta série, onde se explica o que é isto, de onde vem e quais as suas limitações, e o link para a tag leituras fc, onde se reúnem todos os posts relevantes, presente, passados e, quando for tempo disso, futuros. Também como sempre, informa-se os eventuais apressados, que veem estas listas aqui por baixo, acham uma chatice e pretendem passar à frente, de que depois das listas há alguns parágrafos com os comentários que a recolha me suscita, pelo que se pretendem um pouco de análise (e é mesmo pouco, não é nada de particularmente profundo), podem puxá-la para cima. E pronto, é isso. Vamos às listas? Vamos às listas.
Ficção portuguesa:
No que toca ao Brasil, as coisas mudam significativamente de figura. Embora não chegue a números alcançados em outros meses, 17 títulos comentados é um valor muito aceitável, especialmente tendo em conta que, ao contrário do que aconteceu noutros momentos, aqui a Lâmpada se manteve desta vez inteiramente afastada do material brasileiro e só um se refere a um conto, debruçando-se todas as opiniões restantes sobre livros. Mais: não só houve quase duas dezenas de títulos como alguns deles foram mencionados mais que uma vez, cabendo a esses autores o destaque do mês porque nenhum autor tem menções a mais que um título. Ana Beatriz Brandão recebeu duas menções, Fausto Luciano Panicacci quatro e Pablo Zorzi duas.
E quanto a leituras internacionais, o número de títulos caiu significativamente do mês anterior para este. 79 fica bastante abaixo dos 102 de agosto, e nem se pode dizer que haja a explicação de títulos visitados por uma quantidade invulgar de leitores, pois o máximo de leituras de um só título pouco sobe relativamente ao mês anterior: cinco. Os destaques do mês são Josh Malerman, com 6 opiniões distribuídas por dois títulos, George R. R. Martin, com 4 opiniões a um só título e S. K. Vaughn, com 5 opiniões também sobre um só título.
E quanto a setembro estamos conversados. Siga para outubro, que o tempo não espera por ninguém.
Ficção portuguesa:
- No Topo da Cadeia Alimentar, de Pedro Manuel Calvete (conto)
- Quem Chama Pelo Senhor Aventura?, de Rita Garcia Fernandes
- Subpólis, de Miguel Garcia (conto)
- A Conjura, de António de Macedo (conto)
- O Príncipe Mais que Perfeito, de Isabel Cristina Pires (conto)
- Ensayo Sobre la Ceguera, de José Saramago
- Os Romanos, de António Manuel Venda (conto)
- O Antissocial, de Fernando Azevedo
- Sonhos e Pesadelos, de Gabriel Billy
- Entre a Luz e a Escuridão, de Ana Beatriz Brandão (2x)
- Anacrônicos, de Luiz Bras
- Asimov e os Perseguidores da Lua, de Júlio Emílio Braz e Patrícia Martins
- Serpentário, de Felipe Castilho
- Extemporâneo, de Alexey Dodsworth
- Rede Vermelha em um Oceano de Merda e Outros Contos, de Cláudia Dugim
- Feitos de Sol, de Vinícius Grossos
- As Esferas, de Nelson Issa
- O Fantasma da Máquina, de Gabriela S. Nascimento
- News for Mr. Name, de Reinaldo Santos Neves
- O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci (4x)
- Fallen Angels, de Francélia Pereira
- Nana-Neném, de Newton Rocha (conto)
- A Telepatia São os Outros, de Ana Rüsche
- WOW - O Primeiro Contato, de Pablo Zorzi (2x)
- Cidade da Morte, de Douglas Adams
- Zathura, de Chris van Allsburg
- Opostos, de Jennifer L. Armentrout
- Originais, de Jennifer L. Armentrout
- Menace of the Machine, org. Mike Ashley
- Fundação, de Isaac Asimov
- Segunda Fundação, de Isaac Asimov
- Trilogia da Fundação, de Isaac Asimov
- O Conto da Aia, de Margaret Atwood
- O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle
- Farenheit 451, de Ray Bradbury
- Rondam Tigres, de Ray Bradbury (conto)
- Laranja Mecânica, de Anthony Burgess (3x)
- Best Women's Erotica of the Year, vol. 5, org. Rachel Kramer Bussel
- A Parábola dos Talentos, de Octavia E. Butler
- Despertar, de Octavia E. Butler
- Kindred, de Octavia E. Butler
- Antologia da Literatura Fantástica, org. Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo
- The Metal Horde, de John W. Campbell Jr. (conto)
- A Passagem, de Justin Cronin (2x)
- Ubik, de Philip K. Dick
- Criaturas Estranhas, org. Neil Gaiman
- Metro 2033, de Dmitry Glukhovsky
- A Curva do Sonho, de Ursula K. Le Guin
- April in Paris, de Ursula K. Le Guin
- Herdeiras de Duna, de Frank Herbert
- The Godmakers, de Frank Herbert
- Serotonina, de Michel Houellebecq
- Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
- Aftershocks, de Marko Kloos
- The Calculating Stars, de Mary Robinette Kowal
- Além do Planeta Silencioso, de C. S. Lewis
- Perelandra, de C. S. Lewis
- O Despertar de Cthulhu, de H. P. Lovecraft
- A Escolhida, de Lois Lowry
- O Doador de Memórias, de Lois Lowry
- O Jogo do Coringa, de Marie Lu
- Ladra de Almas, de Sarah J. Maas (2x)
- Intocável, de Tahereh Mafi (2x)
- Lovestar, de Andri Snær Magnason (2x)
- Caixa de Pássaros, de Josh Malerman
- Inspeção, de Josh Malerman (5x)
- Estação Onze, de Emily St. John Mandel
- Nightflyers, de George R. R. Martin (4x)
- Terra da Liberdade, de Anne McCaffrey
- Máquinas como Eu, de Ian McEwan
- A Altura Deslumbrante, de Katharine McGee
- Cinder, de Marissa Meyer
- Cress, de Marissa Meyer
- A Vingança do Astronauta, de Louis G. Milk
- Estação nas Estrelas, de Louis G. Milk
- Os Seis Finalistas, de Alexandra Monir
- Binti, de Nnedi Okorafor
- 1984, de George Orwell
- Amazónia, de James Rollins
- Contato, de Carl Sagan
- Skyward, de Brandon Sanderson
- A Reação Adversa do Caos, de Stephanne Says
- A Última Colônia, de John Scalzi (2x)
- Vilão, de V. E. Schwab
- Frankenstein, de Mary Shelley
- O Ceifador, de Neal Shusterman
- Seca, de Neal Shusterman e Jarrod Shusterman
- Quando as Estrelas Caem, de Meagan Spooner e Amie Kaufman
- Tempo Fechado, de Bruce Sterling
- Stalker, de Arkady e Boris Strugatsky
- Aniquilação, de Jeff VanderMeer
- The Big Book of Science Fiction, org. Jeff VanderMeer e Ann VanderMeer
- Através do Vazio, de S. K. Vaughn (5x)
- A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne
- Dezasseis, de Rachel Vincent
- Luta Contra o Tempo, de Rachel Ward
- O Caos, de Rachel Ward
- A Máquina do Tempo, de H. G. Wells
- O Homem Invisível, de H. G. Wells
- All Systems Red, de Martha Wells
- Impostores, de Scott Westerfeld
- Nós, de Evguéni Zamiatin
- As Horas Vermelhas, de Leni Zumas
- Sobre a Escrita, de Stephen King
No que toca ao Brasil, as coisas mudam significativamente de figura. Embora não chegue a números alcançados em outros meses, 17 títulos comentados é um valor muito aceitável, especialmente tendo em conta que, ao contrário do que aconteceu noutros momentos, aqui a Lâmpada se manteve desta vez inteiramente afastada do material brasileiro e só um se refere a um conto, debruçando-se todas as opiniões restantes sobre livros. Mais: não só houve quase duas dezenas de títulos como alguns deles foram mencionados mais que uma vez, cabendo a esses autores o destaque do mês porque nenhum autor tem menções a mais que um título. Ana Beatriz Brandão recebeu duas menções, Fausto Luciano Panicacci quatro e Pablo Zorzi duas.
E quanto a leituras internacionais, o número de títulos caiu significativamente do mês anterior para este. 79 fica bastante abaixo dos 102 de agosto, e nem se pode dizer que haja a explicação de títulos visitados por uma quantidade invulgar de leitores, pois o máximo de leituras de um só título pouco sobe relativamente ao mês anterior: cinco. Os destaques do mês são Josh Malerman, com 6 opiniões distribuídas por dois títulos, George R. R. Martin, com 4 opiniões a um só título e S. K. Vaughn, com 5 opiniões também sobre um só título.
E quanto a setembro estamos conversados. Siga para outubro, que o tempo não espera por ninguém.
Suzana Patrocínio: Poética das que Foram Felizes para Sempre
Não há muito a dizer sobre este poemazito de Suzana Patrocínio, até porque ele é curtinho. Poética das que Foram Felizes para Sempre (bibliografia) não é dos piores poemas que já aqui li, mas também não é dos melhores, limitando-se a um textozinho genericamente correto mas sem rasgo, elaborado com base nas histórias infantis, e principalmente na da Bela Adormecida.
O mais interessante nele é recuperar das histórias populares originais uma certa atmosfera de horror mais ou menos sobrenatural que quando são infantilizadas geralmente perdem. E como o poema é mesmo muito curtinho, e não tem muito mais que se lhe diga, vou ficar por aqui.
Textos anteriores deste livro:
O mais interessante nele é recuperar das histórias populares originais uma certa atmosfera de horror mais ou menos sobrenatural que quando são infantilizadas geralmente perdem. E como o poema é mesmo muito curtinho, e não tem muito mais que se lhe diga, vou ficar por aqui.
Textos anteriores deste livro:
terça-feira, 8 de outubro de 2019
Edgar Rice Burroughs: John Carter
Há livros que, pior piores que sejam, constituem marcos na evolução de um género literário e por isso devem fazer parte da bagagem de qualquer leitor desses géneros. A ficção científica tem alguns muito bons, mas também tem alguns bastante maus. Este John Carter (bibliografia), de Edgar Rice Burroughs, pertence ao segundo grupo.
Não que seja um livro despido de qualidades, atenção. Nenhuma obra se transforma em marco seja do que for se não tiver qualidades suficientes, mesmo que a qualidade global seja baixa, para levar os seus leitores a ignorar os defeitos e as deficiências. Até porque, como cada pessoa valoriza diferentemente as várias facetas da criação literária (e artística em geral), não é muito difícil que aqueles que dão um peso significativamente maior às facetas em que a obra x é boa do que àquelas em que é má acabem por a considerar bastante melhor do que realmente é. E vice-versa. Isto acontece com tudo e em todos os campos, e é um dos velhos, e pelos vistos eternos, motivos de conflito entre os apreciadores dos vários géneros literários e aqueles que os remetem para o campo das paraliteraturas.
No caso deste romance, a principal qualidade reside em algo que na opinião de alguns é um dos marcos identificativos da ficção científica, embora eu discorde: o maravilhamento, mais conhecido pela expressão inglesa sense of wonder.
John Carter ainda o tem com alguma abundância, apesar de toda a literatura acumulada no mais de um século que se passou desde que foi publicado, apesar de todos os filmes e bandas desenhadas e jogos de computador, e por aí fora. Isso é realmente uma qualidade incontestável deste livro, e deriva da escala em que Burroughs constrói a ambientação. É um mundo inteiro que torna razoavelmente palpável, fortemente baseado na mitologia greco-romana que atribui a Marte um caráter guerreiro, e na ideia que Percival Lowell divulgou sobre Marte, a de um mundo seco, mas vivo, no qual longos canais funcionam como rede de recuperação e aproveitamento da escassa água nele existente. Não é por acaso que quando se fala deste livro Barsoom vem sempre à baila: é sinal de que Barsoom é o mais importante protagonista da história. Barsoom?, perguntarão. Sim, Barsoom. Trata-se do nome marciano de Marte.
E é basicamente Barsoom o que transforma este livro num clássico. É Barsoom (a par do Marte d'A Guerra dos Mundos, que no entanto está muito escassamente descrito no romance de Wells) que influencia autores posteriores a escrever as suas próprias versões do romance planetário ambientado em mundos quase sem água, de Ray Bradbury, que se mantém fiel ao Marte lowelliano, a Frank Herbert, que transfere um ambiente semelhante para o seu próprio planeta a que chama Duna, só para mencionar dois nomes grandes.
Porque de resto, é muito o que neste livro é fraco, mau, feito de chavões e pouco imaginativo. O enredo, por exemplo, é aquele típico enredo de "homem branco chega ao país dos selvagens, cujo ambiente, modo de vida e tradições ignora por completo mas apesar disso se torna naturalmente seu líder e parte para a guerra para corrigir todas as injustiças e ficar com a gaja boa", tão comum nas ficções simplistas e supremacistas dos últimos 200 anos, pelo menos. O protagonista é o não menos típico herói ultraviril que derrete qualquer fêmea que se aproxime dele mais que meia dúzia de quilómetros, a menos que seja velha, feia e má porque essas não interessam a ninguém, e avança intrepidamente para qualquer perigo e desafio, saindo-se invariavelmente bem de qualquer empreitada, mesmo que por vezes pareça meter-se em assados intransponíveis. A escrita é no máximo básica, meia-bola e força, completamente nua de subtilezas. E por aí fora.
Ou seja: o interesse deste romance reside sobretudo na sua relevância histórica para o desenvolvimento de um género, seja na literatura, seja noutros meios de contar histórias. John Carter continua bem presente, cem anos depois, e de uma forma ou de outra, em muitos livros, sim, mas sobretudo em muitas bandas desenhadas e em muitos filmes e séries de TV. Deverá por isso ser lido por quem quiser compreender de onde vêm certas características das artes narrativas, sobretudo as americanas ao longo do século XX. Não virão inteiramente daqui, certamente, mas algumas têm aqui as suas verdadeiras origens e, para as que não as têm, este romance constitui um bom exemplo do que se fazia na época, pois este tipo de história extravasava bastante a ficção científica, surgindo em pleno em histórias de aventuras dos géneros mais díspares.
O que ficou escrito acima não chegou para que eu gostasse desta leitura, mas bastou para que a achasse interessante. Já é qualquer coisa.
Este livro foi comprado.
Não que seja um livro despido de qualidades, atenção. Nenhuma obra se transforma em marco seja do que for se não tiver qualidades suficientes, mesmo que a qualidade global seja baixa, para levar os seus leitores a ignorar os defeitos e as deficiências. Até porque, como cada pessoa valoriza diferentemente as várias facetas da criação literária (e artística em geral), não é muito difícil que aqueles que dão um peso significativamente maior às facetas em que a obra x é boa do que àquelas em que é má acabem por a considerar bastante melhor do que realmente é. E vice-versa. Isto acontece com tudo e em todos os campos, e é um dos velhos, e pelos vistos eternos, motivos de conflito entre os apreciadores dos vários géneros literários e aqueles que os remetem para o campo das paraliteraturas.
No caso deste romance, a principal qualidade reside em algo que na opinião de alguns é um dos marcos identificativos da ficção científica, embora eu discorde: o maravilhamento, mais conhecido pela expressão inglesa sense of wonder.
John Carter ainda o tem com alguma abundância, apesar de toda a literatura acumulada no mais de um século que se passou desde que foi publicado, apesar de todos os filmes e bandas desenhadas e jogos de computador, e por aí fora. Isso é realmente uma qualidade incontestável deste livro, e deriva da escala em que Burroughs constrói a ambientação. É um mundo inteiro que torna razoavelmente palpável, fortemente baseado na mitologia greco-romana que atribui a Marte um caráter guerreiro, e na ideia que Percival Lowell divulgou sobre Marte, a de um mundo seco, mas vivo, no qual longos canais funcionam como rede de recuperação e aproveitamento da escassa água nele existente. Não é por acaso que quando se fala deste livro Barsoom vem sempre à baila: é sinal de que Barsoom é o mais importante protagonista da história. Barsoom?, perguntarão. Sim, Barsoom. Trata-se do nome marciano de Marte.
E é basicamente Barsoom o que transforma este livro num clássico. É Barsoom (a par do Marte d'A Guerra dos Mundos, que no entanto está muito escassamente descrito no romance de Wells) que influencia autores posteriores a escrever as suas próprias versões do romance planetário ambientado em mundos quase sem água, de Ray Bradbury, que se mantém fiel ao Marte lowelliano, a Frank Herbert, que transfere um ambiente semelhante para o seu próprio planeta a que chama Duna, só para mencionar dois nomes grandes.
Porque de resto, é muito o que neste livro é fraco, mau, feito de chavões e pouco imaginativo. O enredo, por exemplo, é aquele típico enredo de "homem branco chega ao país dos selvagens, cujo ambiente, modo de vida e tradições ignora por completo mas apesar disso se torna naturalmente seu líder e parte para a guerra para corrigir todas as injustiças e ficar com a gaja boa", tão comum nas ficções simplistas e supremacistas dos últimos 200 anos, pelo menos. O protagonista é o não menos típico herói ultraviril que derrete qualquer fêmea que se aproxime dele mais que meia dúzia de quilómetros, a menos que seja velha, feia e má porque essas não interessam a ninguém, e avança intrepidamente para qualquer perigo e desafio, saindo-se invariavelmente bem de qualquer empreitada, mesmo que por vezes pareça meter-se em assados intransponíveis. A escrita é no máximo básica, meia-bola e força, completamente nua de subtilezas. E por aí fora.
Ou seja: o interesse deste romance reside sobretudo na sua relevância histórica para o desenvolvimento de um género, seja na literatura, seja noutros meios de contar histórias. John Carter continua bem presente, cem anos depois, e de uma forma ou de outra, em muitos livros, sim, mas sobretudo em muitas bandas desenhadas e em muitos filmes e séries de TV. Deverá por isso ser lido por quem quiser compreender de onde vêm certas características das artes narrativas, sobretudo as americanas ao longo do século XX. Não virão inteiramente daqui, certamente, mas algumas têm aqui as suas verdadeiras origens e, para as que não as têm, este romance constitui um bom exemplo do que se fazia na época, pois este tipo de história extravasava bastante a ficção científica, surgindo em pleno em histórias de aventuras dos géneros mais díspares.
O que ficou escrito acima não chegou para que eu gostasse desta leitura, mas bastou para que a achasse interessante. Já é qualquer coisa.
Este livro foi comprado.
Álvaro Guerra: Ponta Tenente
Que me lembre, de Álvaro Guerra só tinha lido até agora um conto fantástico, e tinha gostado. Embora tenha sido um autor com obra razoavelmente extensa (uns 15 livros), não é lembrado com muita frequência quando se fala de literatura portuguesa, e tende a passar-me despercebido, e provavelmente não só a mim. Não sei bem porquê, especialmente agora que voltei a ler um conto dele, e voltei a gostar: parece ser autor bastante interessante.
Este Porta Tenente é bastante diferente do outro conto dele que eu li. Nada tem de fantástico, para começar; trata-se de uma história que faz praticamente um retrato do colonialismo português em África, corporizado no protagonista: um bronco que abre uma exploração agrícola na Guiné e trata os homens e as mulheres que para ele trabalham praticamente como se fossem escravos, com crueldade e violência (e fazendo um nunca-acabar de filhos às mulheres, apesar de ter deixado família em Portugal) até tudo terminar em decadência, loucura e morte.
Com qualquer coisa de Apocalipse Now, apesar de não incluir nenhuma menção à guerra, pois muito do conto tem a ver com a tentativa do homem branco colonial alterar à sua semelhança uma zona dos trópicos, com a sua floresta luxuriante, abundância de água e doenças, acabando por ser alterado, enlouquecido e, em última análise, morto por ela, este é um conto francamente interessante que me espevita a curiosidade por outras coisas do autor.
Este Porta Tenente é bastante diferente do outro conto dele que eu li. Nada tem de fantástico, para começar; trata-se de uma história que faz praticamente um retrato do colonialismo português em África, corporizado no protagonista: um bronco que abre uma exploração agrícola na Guiné e trata os homens e as mulheres que para ele trabalham praticamente como se fossem escravos, com crueldade e violência (e fazendo um nunca-acabar de filhos às mulheres, apesar de ter deixado família em Portugal) até tudo terminar em decadência, loucura e morte.
Com qualquer coisa de Apocalipse Now, apesar de não incluir nenhuma menção à guerra, pois muito do conto tem a ver com a tentativa do homem branco colonial alterar à sua semelhança uma zona dos trópicos, com a sua floresta luxuriante, abundância de água e doenças, acabando por ser alterado, enlouquecido e, em última análise, morto por ela, este é um conto francamente interessante que me espevita a curiosidade por outras coisas do autor.
Maria João Mesquita e Jorge Augusto Pópulo: O Paraíso Perdido
E ao texto número 13 deste livro, a primeira surpresa positiva. Em primeiro lugar pelo inesperado. O Paraíso Perdido (bibliografia), embora seja um poema, não é propriamente um poema; é um libreto de ópera. Depois, pelo facto de ser escrito a quatro mãos e mesmo assim ter solidez estilística. Naturalmente não sei como Maria João da Silva Gomes Mesquita e Jorge Augusto dos Santos Pópulo trabalharam esta colaboração mas, fosse como fosse, resultou. E eu nunca tinha visto um poema, essa forma literária intimista por natureza, escrito por duas pessoas. Finalmente, porque este é o poema mais bem escrito que aqui encontrei até agora.
Como é natural num texto com o título de O Paraíso Perdido, a inspiração aqui é bíblica. O poema-libreto como que narra as motivações por trás da queda de Lúcifer, explicando-as com o amor. Não é dos temas que mais me entusiasmem, mas os autores tratam-no de forma bastante superior a todos os textos que antecederam este. Julgo que o contraste o faz parecer melhor do que realmente é, mas mesmo sem contraste este poema seria sempre inteiramente publicável.
Textos anteriores deste livro:
Como é natural num texto com o título de O Paraíso Perdido, a inspiração aqui é bíblica. O poema-libreto como que narra as motivações por trás da queda de Lúcifer, explicando-as com o amor. Não é dos temas que mais me entusiasmem, mas os autores tratam-no de forma bastante superior a todos os textos que antecederam este. Julgo que o contraste o faz parecer melhor do que realmente é, mas mesmo sem contraste este poema seria sempre inteiramente publicável.
Textos anteriores deste livro:
domingo, 6 de outubro de 2019
Leiturtugas da semana #35
Ena, ena! Não há fome que não dê em fartura! É que não só se cumpre a profecia aqui deixada no último destes posts, a de que esta semana voltaria a haver Leiturtugas, como as houve com invulgar abundância. Querem ver?
Começou, uma vez mais, com a Tita, que publicou uma pequena opinião (sim, expandida em vídeo; vocês já sabem) sobre o mais recente livro da Sandra Carvalho, A Noite do Caçador, uma edição da Presença. Trata-se de um livro de fantasia, sem FC, portanto, pelo que a Tita passa a... ah, esperem; ela já cumpriu os objetivos, pelo que não vale a pena continuarmos a fazer contas ao deve e haver.
Seguiu-se a Carla Ribeiro, também com uma opinião sobre A Noite do Caçador da Sandra Carvalho. Parece que combinaram. A Carla ainda não tem os objetivos cumpridos, pelo que ainda há deve e haver a fazer, que no caso dela dá mais um sem FC, ou seja, 2c2s.
Mas esperem, que há mais. É que a seguir da Carla veio o Artur Coelho, de novo com uma opinião sobre um livro de BD, muito curta no blogue dele mas mais desenvolvida noutro sítio, para o qual remete. Coube desta feita a análise ao álbum Tangerina de Rita Alfaiate, uma edição da Escorpião Azul. BD, já se sabe, conta como "sem FC", quer a tenha quer não tenha, pelo que o Artur passa a 5c3s.
E é tudo? Não, não é tudo. Ainda houve um certo Jorge Candeias que publicou a sua opinião sobre uma antologia intitulada Mensageiros das Estrelas, organizada por um trio composto por Adelaide Meira Serras, Duarte Patarra e Octávio dos Santos e publicado pela Fronteira do Caos. É um livro com FC, pelo que o dito cujo sobe a 6c7s. Ah, sim, e assim se cumprem os objetivos mínimos do projeto. Daqui em diante é só lucro.
Para a semana veremos se a fartura continua (muito improvável), mas haverá quase de certeza algo que devia ter havido nesta semana mas, com a abundância de material e a consequente extensão deste post, acabei por não ter tempo para a fazer: a tabelinha de balanço do estado em que cada participante tem a sua parte. Até lá.
Começou, uma vez mais, com a Tita, que publicou uma pequena opinião (sim, expandida em vídeo; vocês já sabem) sobre o mais recente livro da Sandra Carvalho, A Noite do Caçador, uma edição da Presença. Trata-se de um livro de fantasia, sem FC, portanto, pelo que a Tita passa a... ah, esperem; ela já cumpriu os objetivos, pelo que não vale a pena continuarmos a fazer contas ao deve e haver.
Seguiu-se a Carla Ribeiro, também com uma opinião sobre A Noite do Caçador da Sandra Carvalho. Parece que combinaram. A Carla ainda não tem os objetivos cumpridos, pelo que ainda há deve e haver a fazer, que no caso dela dá mais um sem FC, ou seja, 2c2s.
Mas esperem, que há mais. É que a seguir da Carla veio o Artur Coelho, de novo com uma opinião sobre um livro de BD, muito curta no blogue dele mas mais desenvolvida noutro sítio, para o qual remete. Coube desta feita a análise ao álbum Tangerina de Rita Alfaiate, uma edição da Escorpião Azul. BD, já se sabe, conta como "sem FC", quer a tenha quer não tenha, pelo que o Artur passa a 5c3s.
E é tudo? Não, não é tudo. Ainda houve um certo Jorge Candeias que publicou a sua opinião sobre uma antologia intitulada Mensageiros das Estrelas, organizada por um trio composto por Adelaide Meira Serras, Duarte Patarra e Octávio dos Santos e publicado pela Fronteira do Caos. É um livro com FC, pelo que o dito cujo sobe a 6c7s. Ah, sim, e assim se cumprem os objetivos mínimos do projeto. Daqui em diante é só lucro.
Para a semana veremos se a fartura continua (muito improvável), mas haverá quase de certeza algo que devia ter havido nesta semana mas, com a abundância de material e a consequente extensão deste post, acabei por não ter tempo para a fazer: a tabelinha de balanço do estado em que cada participante tem a sua parte. Até lá.
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
Serras, Patarra e Santos (orgs.): Mensageiros das Estrelas (#leiturtugas)
Não eram altas as expectativas com que parti para a leitura desta antologia. Mensageiros das Estrelas (bibliografia), organizada por Adelaide Meira Serras, Duarte Patarra e Octávio dos Santos, já vinha bastante mal recomendada, especialmente por pessoas cuja opinião me habituei a respeitar. Mas, como contém histórias de alguns dos mais renomados escritores portugueses de ficção científica e fantástico, esperava gostar pelo menos dessas, pelo que nunca achei que fosse assim tão má. Mas é.
Esperava gostar da história do Luís Filipe Silva, um dos melhores autores portugueses de ficção científica, com várias histórias inteligentes, estimulantes e bem escritas no currículo, mas o que ele apresenta aqui é uma aventurazinha inconsequente e muito pulp, bastante longe do seu melhor. Nunca tendo sido grande fã do António de Macedo, estou no entanto habituado a encontrar nas ficções dele correção técnica, não o recurso a um dos truques estilísticos mais totalmente desacreditados das ficções fantásticas. Dos autores de algum renome, só o João Seixas cumpriu, mesmo que também dele já tenha lido coisas mais inovadoras que a que aqui publica.
Quanto aos outros, de alguns não esperava nada, ou por nunca os ter lido, ou por não ter lido o suficiente para ter alguma espécie de expetativa, e de outros não esperava mais que a mediocridade habitual e mesmo assim conseguiram surpreender-me pela negativa, com textos simplesmente impublicáveis.
Para piorar as coisas, uma porção significativa dos contos mais bem conseguidos utiliza abordagens e temas que pouco estimulam o meu gosto literário, situando-se naquele grupo de textos nos quais reconheço qualidade mas que não me agrada particularmente ler. Estão neste grupo os dois melhores contos do conjunto, Das Visitações e Anamorfose, e também Aventura Borgiana: Uma Sinopse Avançada, que está um pouco abaixo destes dois mas acaba por ser também significativamente melhor que a média da antologia. Outros contos acima da média são, sem senões, O Confessor e O Príncipe Mais que Perfeito e, um pouco mais abaixo, mesmo a rasar a média, Tour de Main, In Falsetto, O Preço de uma Coroa e, apesar de tudo, A Conjura e Assombração.
Assim sendo, esta antologia vale a pena? Costumo dizer que uma antologia vale a pena desde que tenha pelo menos um texto muito bom ou vários bons e aqui não existe nenhum texto muito bom, embora existam dois muito maus, o que desde logo aponta para uma antologia de má qualidade (na verdade, é a pior antologia de FC&F portuguesa que eu li desde a pior das antologias da Simetria — A Viagem — embora esteja agora a ler outra que segundo tudo indica vai ser ainda pior). Mas há bons. Tudo fica a depender, portanto, da definição de "vários". E a melhor resposta que consigo dar é que para mim não valeu a pena, precisamente porque os melhores contos não jogam bem com o meu gosto literário, mas teria valido se jogassem, o que significa que é possível que valha para outros leitores com gostos diferentes dos meus.
Eis o que achei de cada um dos contos:
Esperava gostar da história do Luís Filipe Silva, um dos melhores autores portugueses de ficção científica, com várias histórias inteligentes, estimulantes e bem escritas no currículo, mas o que ele apresenta aqui é uma aventurazinha inconsequente e muito pulp, bastante longe do seu melhor. Nunca tendo sido grande fã do António de Macedo, estou no entanto habituado a encontrar nas ficções dele correção técnica, não o recurso a um dos truques estilísticos mais totalmente desacreditados das ficções fantásticas. Dos autores de algum renome, só o João Seixas cumpriu, mesmo que também dele já tenha lido coisas mais inovadoras que a que aqui publica.
Quanto aos outros, de alguns não esperava nada, ou por nunca os ter lido, ou por não ter lido o suficiente para ter alguma espécie de expetativa, e de outros não esperava mais que a mediocridade habitual e mesmo assim conseguiram surpreender-me pela negativa, com textos simplesmente impublicáveis.
Para piorar as coisas, uma porção significativa dos contos mais bem conseguidos utiliza abordagens e temas que pouco estimulam o meu gosto literário, situando-se naquele grupo de textos nos quais reconheço qualidade mas que não me agrada particularmente ler. Estão neste grupo os dois melhores contos do conjunto, Das Visitações e Anamorfose, e também Aventura Borgiana: Uma Sinopse Avançada, que está um pouco abaixo destes dois mas acaba por ser também significativamente melhor que a média da antologia. Outros contos acima da média são, sem senões, O Confessor e O Príncipe Mais que Perfeito e, um pouco mais abaixo, mesmo a rasar a média, Tour de Main, In Falsetto, O Preço de uma Coroa e, apesar de tudo, A Conjura e Assombração.
Assim sendo, esta antologia vale a pena? Costumo dizer que uma antologia vale a pena desde que tenha pelo menos um texto muito bom ou vários bons e aqui não existe nenhum texto muito bom, embora existam dois muito maus, o que desde logo aponta para uma antologia de má qualidade (na verdade, é a pior antologia de FC&F portuguesa que eu li desde a pior das antologias da Simetria — A Viagem — embora esteja agora a ler outra que segundo tudo indica vai ser ainda pior). Mas há bons. Tudo fica a depender, portanto, da definição de "vários". E a melhor resposta que consigo dar é que para mim não valeu a pena, precisamente porque os melhores contos não jogam bem com o meu gosto literário, mas teria valido se jogassem, o que significa que é possível que valha para outros leitores com gostos diferentes dos meus.
Eis o que achei de cada um dos contos:
- Alameda da Universalidade
- Aventura Borgiana: Uma Sinopse Avançada
- Rapsódia sem Dó (Maior)
- Tour de Main
- As Crianças Nunca Mentem
- Das Visitações
- A Todo o Vapor
- A República Nunca Existiu! Parte 2
- A Maratonista
- A Realidade, não Fora a Loucura
- Premonição
- O Preço de uma Coroa
- O Príncipe Mais que Perfeito
- A Conjura
- No Topo da Cadeia Alimentar
- Época de Apocalipses
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
Fernando Pessanha: O Sétimo Céu e as Meninas de Tânger
Terceiro conto desta pequena antologia, e segunda história fantástica. Como o título indica, O Sétimo Céu e as Meninas de Tânger (bibliografia) está ambientada na cidade marroquina de Tânger, e o protagonista é um historiador algarvio que lá se desloca para apresentar uma comunicação num congresso. Mas um encontro fortuito com uma mulher extraordinariamente bela faz-lhe descarrilar a viagem.
Fernando Pessanha serve-se das histórias populares para construir um conto de horror sobrenatural e algo erótico com bastante interesse. Com referências várias às aventuras portuguesas em terras marroquinas ao longo da história e às lendas que essas aventuras geraram (e sim, Dom Sebastião é mencionado, como seria inevitável), a principal fonte de inspiração é, porém, outra: as lendas de mouras encantadas. Porque são mouras encantadas que o protagonista encontra num hotel de Tânger.
Dizer mais seria desvendar demasiado o conto, pois uma das suas facetas mais interessantes está no modo como se vai revelando devagar, como quem afasta véus do que está subjacente à história. Não o farei, portanto. Digo simplesmente que gostei bastante mais desta história do que da segunda, e talvez também tenha gostado mais dela do que da primeira, embora quanto a isso mantenha algumas dúvidas. Seja como for, é uma história francamente interessante.
Contos anteriores deste livro:
Fernando Pessanha serve-se das histórias populares para construir um conto de horror sobrenatural e algo erótico com bastante interesse. Com referências várias às aventuras portuguesas em terras marroquinas ao longo da história e às lendas que essas aventuras geraram (e sim, Dom Sebastião é mencionado, como seria inevitável), a principal fonte de inspiração é, porém, outra: as lendas de mouras encantadas. Porque são mouras encantadas que o protagonista encontra num hotel de Tânger.
Dizer mais seria desvendar demasiado o conto, pois uma das suas facetas mais interessantes está no modo como se vai revelando devagar, como quem afasta véus do que está subjacente à história. Não o farei, portanto. Digo simplesmente que gostei bastante mais desta história do que da segunda, e talvez também tenha gostado mais dela do que da primeira, embora quanto a isso mantenha algumas dúvidas. Seja como for, é uma história francamente interessante.
Contos anteriores deste livro:
Jeff VanderMeer e Mark Roberts: Um Prefácio Entusiástico dos Editores
Se o primeiro texto deste livro mostrava uma abordagem mista entre Borges e uma espécie de humor surreal, este Um Prefácio Entusiástico dos Editores (bibliografia) é igual, só que em mais. Continua a ser pseudofactual, no sentido de se apresentar como texto não ficcional de apresentação a uma obra de não ficção, mas é também, numa palavra, hilariante.
O que Jeff VanderMeer e Mark Roberts aqui fazem é um brilhante relato nas entrelinhas. À superfície, este texto é exatamente o que o título indica, um prefácio entusiástico dos editores, cheio de elogios à multiplicidade de "doutores" que participaram na elaboração do almanaque e ao homem que teria estado na sua génese, o velho Lambshead. Mas nas entrelinhas a história que contam é bem diferente, uma história de absoluta saturação por terem sido obrigados a lidar com tanta gente doida, cada qual com as exigências mais absurdas ou as teses mais abstrusas. E o resultado, a combinação de uma coisa com a outra, é quase de ir às lágrimas. A rir, a rir.
Muito bom.
Texto anterior deste livro:
O que Jeff VanderMeer e Mark Roberts aqui fazem é um brilhante relato nas entrelinhas. À superfície, este texto é exatamente o que o título indica, um prefácio entusiástico dos editores, cheio de elogios à multiplicidade de "doutores" que participaram na elaboração do almanaque e ao homem que teria estado na sua génese, o velho Lambshead. Mas nas entrelinhas a história que contam é bem diferente, uma história de absoluta saturação por terem sido obrigados a lidar com tanta gente doida, cada qual com as exigências mais absurdas ou as teses mais abstrusas. E o resultado, a combinação de uma coisa com a outra, é quase de ir às lágrimas. A rir, a rir.
Muito bom.
Texto anterior deste livro:
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
Escrita de setembro
Começou por ser uma tentativa de noveleta mas depressa percebi que 17 mil palavras não iam chegar. Passou a novela, e assim permaneceu, pelo menos na minha cabeça, durante alguns anos, pois ficou incompleta no meu disco durante a fase de secura criativa praticamente total. Recuperei-a ainda como novela, mas fui-me apercebendo de que o mais certo seria não caber em 40 mil palavras. Às tantas, ultrapassou as 40 mil palavras, mas ainda mantive a ideia de que a novela, agora romance, provavelmente chegaria ao fim mais pequeno do que Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, que tem 47 mil. Depois ultrapassou as 47 mil. E as 50 mil.
E as 60 mil.
E neste momento está com quase 64 mil. Para cima de 180 páginas. Este mês houve algum abrandamento relativamente a agosto, mas mesmo assim o texto cresceu mais quase 8 mil palavras, o equivalente a umas 23 páginas. Ainda falta um pouco mais: já está naquela fase em que se prepara tudo para o desfecho mas ainda há uns detalhes a acertar, umas linhas a amarrar (se bem que as amarrações finais tenham de ficar para revisões) e umas decisões a tomar relativamente ao que fazer a umas quantas personagens, embora elas tenham mostrado uma certa tendência a decidir por si próprias.
É possível que isto acabe ainda durante... hm... não. Não vou cair outra vez nesta armadilha. Acaba quando acabar.
E não, não escrevi mais nada durante setembro. Foi só romance. No que toca à ficção, entenda-se. Não-ficção escrevi com fartura, incluindo uma coisa que, se e quando o projeto se concretizar, não deixarei de divulgar por aqui. Enquanto isso não acontece, daqui a um mês cá voltarei a falar dos avanços e recuos (às vezes acontecem) do que vou escrevendo. Até lá.
terça-feira, 1 de outubro de 2019
Mary Webb: O Fantasma do Senhor Tallent
Uma coisa liga este conto de Mary Webb a A Voz de Deus, de Winifred Holtby: uma muito corrosiva ironia. E também há uma coisa a ligar O Fantasma do Senhor Tallent (bibliografia) a A Porta Aberta, de Saki (conto que também não é alheio à ironia, diga-se de passagem): uma certa forma de brincar com os chavões das histórias de fantasmas para as subverter de modo realista.
Aqui, o alvo da ironia são aqueles escritores profundamente medíocres que se julgam o pináculo da criação literária e por isso são patologicamente incapazes de aceitar críticas, independentemente de serem brandas, duras ou assim-assim. Conhecem algum exemplar da patética espécie? Pois. O da Mary Webb chama-se Tallent, apelido deliciosamente gozão porque se há coisa de que o homem não tem nem o menor vestígio é talento, o que parece ser comum na raça. Mas não é ele o protagonista: o protagonista é um desgraçado que tem a má ideia de, num momento de ócio desavisado, lhe prestar atenção.
Sem saber bem como, o desgraçado do homem vê-se não só condenado a ter de aturar a nulidade, que insiste em ler-lhe uma das suas obras, mas erigido à condição de seu executor testamentário, o que, como vem a saber não muito mais tarde, tem o potencial para lhe arranjar um sem-fim de chatices porque o Tallent, que até tem o seu dinheiro, deserda toda a família a fim de usar o dinheiro para publicar livros que de outra forma ninguém quereria publicar. Mas que se lixe, pensa, o caso não é grave: o homem não irá propriamente finar-se assim de um dia para o outro e até que o faça tudo pode resolver-se a contento de todos.
Pois. Só que se fina mesmo, e o testamento, acompanhado da impublicável obra, vai mesmo parar às mãos do protagonista. O qual até toma algumas providências no sentido de vir a tentar publicar alguma coisa, o que só consegue fazer com que o Tallent se transforme em anedota (coisa que também é costume acontecer à raça), enquanto enfrenta a furiosa contestação dos familiares deserdados. E os livros ficam por publicar. E depois começam a acontecer coisas fantasmagóricas. Ou talvez não tão fantasmagóricas assim.
Não vou revelar o final da história, ainda que ela já fique disponível a bons entendedores através de várias meias palavras. Digo apenas que este conto é francamente divertido, e mais divertido se torna quando ao longo da leitura se imagina o Tallent com a cara de algum medíocre armado aos cágados que se conheça. Não será um grande conto, mas a ironia é deliciosa.
Contos anteriores deste livro:
Aqui, o alvo da ironia são aqueles escritores profundamente medíocres que se julgam o pináculo da criação literária e por isso são patologicamente incapazes de aceitar críticas, independentemente de serem brandas, duras ou assim-assim. Conhecem algum exemplar da patética espécie? Pois. O da Mary Webb chama-se Tallent, apelido deliciosamente gozão porque se há coisa de que o homem não tem nem o menor vestígio é talento, o que parece ser comum na raça. Mas não é ele o protagonista: o protagonista é um desgraçado que tem a má ideia de, num momento de ócio desavisado, lhe prestar atenção.
Sem saber bem como, o desgraçado do homem vê-se não só condenado a ter de aturar a nulidade, que insiste em ler-lhe uma das suas obras, mas erigido à condição de seu executor testamentário, o que, como vem a saber não muito mais tarde, tem o potencial para lhe arranjar um sem-fim de chatices porque o Tallent, que até tem o seu dinheiro, deserda toda a família a fim de usar o dinheiro para publicar livros que de outra forma ninguém quereria publicar. Mas que se lixe, pensa, o caso não é grave: o homem não irá propriamente finar-se assim de um dia para o outro e até que o faça tudo pode resolver-se a contento de todos.
Pois. Só que se fina mesmo, e o testamento, acompanhado da impublicável obra, vai mesmo parar às mãos do protagonista. O qual até toma algumas providências no sentido de vir a tentar publicar alguma coisa, o que só consegue fazer com que o Tallent se transforme em anedota (coisa que também é costume acontecer à raça), enquanto enfrenta a furiosa contestação dos familiares deserdados. E os livros ficam por publicar. E depois começam a acontecer coisas fantasmagóricas. Ou talvez não tão fantasmagóricas assim.
Não vou revelar o final da história, ainda que ela já fique disponível a bons entendedores através de várias meias palavras. Digo apenas que este conto é francamente divertido, e mais divertido se torna quando ao longo da leitura se imagina o Tallent com a cara de algum medíocre armado aos cágados que se conheça. Não será um grande conto, mas a ironia é deliciosa.
Contos anteriores deste livro:
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