E aqui temos mais um caso de um conto que é bastante bom, no sentido literário do termo e por a autora, Inês Pedrosa, ter realmente conseguido fazer muito bem aquilo que se propôs fazer, mas que não conseguiu despertar-me grande interesse ou prazer na leitura.
O problema está, mais uma vez, no pouquíssimo interesse que me despertam estes temas, que tantos escritores (e leitores) adoram: os encontros e desencontros amorosos de pessoas, reais ou ficcionais, que me são completamente indiferentes. Mesmo quando, como neste caso, as histórias estão bastante bem escritas e muitíssimo bem concebidas, com um desenrolar da trama no qual a informação transmitida ao leitor é só e apenas a necessária em cada momento, forçando-o, porque O Labirinto dos Desejos de que o título fala é enredado e invulgar, a reavaliar o que ficou para trás quase página após página. Ou às vezes mais que uma vez por página.
É esta a grande qualidade deste conto, embora a qualidade da escrita também seja elevada: a forma como Pedrosa tece a sua teia. Se o tema me interessasse um pouco que fosse, tenho a certeza de que teria gostado muito de o ler. Mesmo não sendo bem um conto; trata-se de um excerto de romance, que no entanto funciona muito bem como história curta. Sim, reconheço-lhe qualidades múltiplas e relevantes, e aconselho sem reservas a leitura a qualquer pessoa que se interesse por paixões e desejos cruzados, homossexualidade mais ou menos armariada e coisas dessas. Muito provavelmente gostará. Mas eu? Oh pá... a chatice que esta leitura me causou já ninguém ma tira.
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terça-feira, 5 de novembro de 2019
segunda-feira, 4 de novembro de 2019
Escrita de outubro
A-ha! Já está! Acabei de escrever o último capítulo do romance que me vem ocupando o setor ficcionista de forma quase ininterrupta desde que recomecei a escrever em dezembro último! Boa! Boa? Sim, boa, claro, mas... bem... como é que eu digo isto?... há um certo embaraço... (suspiro)... Bom, cá vai: descobri que esse último capítulo, afinal, não é o último capítulo.
E até que nem é muito difícil explicar porquê. Eu tinha planeado a história para um final razoavelmente em aberto... e ops, que ia metendo aqui um spoiler dos grandes. Bem, acho que dizer isso chega: tinha-a planeado para ficar razoavelmente em aberto, com algumas pontas soltas. E chegado perto do fim ocorreu-me uma maneira de a encerrar não só de uma forma mais solidamente amarrada, mas até mais coerente com tudo o que ficou para trás. Ora, para fazer isso precisei de reajustar algumas coisas e acrescentar uns detalhes e, chegado a um determinado ponto da narrativa, vi aí um fim de capítulo evidente, pelo que mandei os planos (mentais, que eu não faço doutros) às urtigas e pimba, fim de capítulo e vamos em frente.
Quer dizer, mais ou menos "vamos em frente". De momento, o romance está parado, que eu de vez em quando preciso de me afastar um pouco dele para ganhar perspetiva e renovar as energias, e os finais de capítulo são os momentos ideais para fazer isso. De momento estou a escrever um conto, que por enquanto é curto mas vai deixar de ser antes de acabar. Para trás ficou um mês em que, entre romance e conto, escrevi cerca de 8600 palavras, ou umas 25 páginas. O que é ótimo para um mês ocupado com tradução.
E o ano já vai com umas 180 páginas escritas, mais coisa menos coisa. Só de ficção; excluem-se todas as toneladas de texto que tenho produzido aqui para a Lâmpada e para outros sítios. O que é como quem diz que este ano tem sido extraordinariamente produtivo, o que por sua vez está diretamente ligado ao truque de ir escrevendo um ou dois parágrafos de vez em quando que apliquei primeiro ao blogue e depois à escrita de ficção na segunda metade do ano passado.
Se tivesse descoberto essa há mais tempo, não tinha tanta coisa incompleta à espera de vez. Ou talvez tivesse, mas teria também decerto muito mais coisas completas. E quanto ao que o futuro reserva, daqui a um mês voltamos a conversar. Até lá.
Ray Bradbury: O Emissário
Eis um conto que mostra um cão como melhor amigo do homem, ou neste caso de um miúdo doente, preso ao seu quarto. Mas que também diz que quando essa amizade não tem limites as consequências podem ser de arrepiar.
O Emissário (bibliografia) que Ray Bradbury aqui cria é o cão. É ele que parte pelo mundo fora, trazendo ao miúdo os seus cheiros e, até certo ponto, as suas texturas. Fidelíssimo, sempre que parte à aventura, incentivado pelo pequeno, levando consigo os sonhos da criança, regressa num alvoroço de respiração ofegante e rabo a dar a dar. É ele que depois começa a trazer-lhe também amigos. Especialmente uma certa menina Haight. E o pequeno é quase feliz, por uns tempos.
Breves.
É que a menina Haight morre de repente. E o miúdo fica meio órfão, órfão de amizade, a especular sobre o que farão as pessoas no cemitério, para horror da mãe que tenta afastar dele tais ideias. Mas lentamente as coisas voltam a alguma normalidade, embora o cão pareça ter perdido a alegria de outrora e tenha começado a trazer para casa cheiros estranhos. Cheiros a cemitério. A morte.
Mais uma vez, tudo o que ficou para trás pouco ou nada distingue este conto de uma história mainstream sobre a amizade entre uma criança e o seu animal de estimação. Mas, mais uma vez, é no final que ela se revela um conto de horror bastante clássico. E bastante bom, também. Não direi porquê, digo apenas que é muito eficaz a criar o efeito que pretende criar.
Contos anteriores deste livro:
O Emissário (bibliografia) que Ray Bradbury aqui cria é o cão. É ele que parte pelo mundo fora, trazendo ao miúdo os seus cheiros e, até certo ponto, as suas texturas. Fidelíssimo, sempre que parte à aventura, incentivado pelo pequeno, levando consigo os sonhos da criança, regressa num alvoroço de respiração ofegante e rabo a dar a dar. É ele que depois começa a trazer-lhe também amigos. Especialmente uma certa menina Haight. E o pequeno é quase feliz, por uns tempos.
Breves.
É que a menina Haight morre de repente. E o miúdo fica meio órfão, órfão de amizade, a especular sobre o que farão as pessoas no cemitério, para horror da mãe que tenta afastar dele tais ideias. Mas lentamente as coisas voltam a alguma normalidade, embora o cão pareça ter perdido a alegria de outrora e tenha começado a trazer para casa cheiros estranhos. Cheiros a cemitério. A morte.
Mais uma vez, tudo o que ficou para trás pouco ou nada distingue este conto de uma história mainstream sobre a amizade entre uma criança e o seu animal de estimação. Mas, mais uma vez, é no final que ela se revela um conto de horror bastante clássico. E bastante bom, também. Não direi porquê, digo apenas que é muito eficaz a criar o efeito que pretende criar.
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domingo, 3 de novembro de 2019
Leiturtugas da semana #39
E lá chegou mais um domingo, o primeiro do mês de novembro, e este projeto das Leiturtugas vai-se aproximando rapidamente do seu primeiro aniversário. Em breve será tempo de fazer um balanço, mas para já vamos a ver o que a semana trouxe.
E o que a semana trouxe foi mais uma opinião do Artur Coelho sobre um livro português com FC. No caso, trata-se de um livro já lido e comentado pela Carla, o mais recente romance de história alternativa de Luís Corredoura, publicado pela Cultura: A Recriação do Mundo. O Artur passa, assim, a 6c3s e ficam a faltar-lhe três opiniões (com ou sem FC) para cumprir os objetivos da coisa.
E também trouxe o regresso do Eduardo Jauch, "desaparecido em combate" há largos meses. Num post único, ele opina sobre várias leituras suas integradas no projeto, incluindo o romance em mosaicos Terrarium, de João Barreiros e Luís Filipe Silva, publicado pela Saída de Emergência, o conto Na Crista da Onda, também de Luís Filipe Silva, publicado no Brasil, em ebook, pela Draco, e a novela O Mandarim, de Eça de Queirós, publicado em ebook pelo Projecto Adamastor. Terrarium e Na Crista da Onda são obras de FC, O Mandarim não a tem, pelo que o Jauch passa a 4c2s.
E por esta semana foi só isto e já não foi mau. Para a semana haverá mais, segundo consta por aí. Até lá.
E o que a semana trouxe foi mais uma opinião do Artur Coelho sobre um livro português com FC. No caso, trata-se de um livro já lido e comentado pela Carla, o mais recente romance de história alternativa de Luís Corredoura, publicado pela Cultura: A Recriação do Mundo. O Artur passa, assim, a 6c3s e ficam a faltar-lhe três opiniões (com ou sem FC) para cumprir os objetivos da coisa.
E também trouxe o regresso do Eduardo Jauch, "desaparecido em combate" há largos meses. Num post único, ele opina sobre várias leituras suas integradas no projeto, incluindo o romance em mosaicos Terrarium, de João Barreiros e Luís Filipe Silva, publicado pela Saída de Emergência, o conto Na Crista da Onda, também de Luís Filipe Silva, publicado no Brasil, em ebook, pela Draco, e a novela O Mandarim, de Eça de Queirós, publicado em ebook pelo Projecto Adamastor. Terrarium e Na Crista da Onda são obras de FC, O Mandarim não a tem, pelo que o Jauch passa a 4c2s.
E por esta semana foi só isto e já não foi mau. Para a semana haverá mais, segundo consta por aí. Até lá.
Paulo Kellerman: Facelist
Nunca gostei muito de contos filosóficos, entendendo-se pelo termo não contos com filosofia, evidentemente, pois quase qualquer conto com algum conteúdo tem também alguma espécie de filosofia subjacente, mas contos filosóficos propriamente ditos, baseados ou inspirados nos diálogos dos filósofos gregos. E nunca gostei muito deles porque sempre os achei demasiado artificiais, com a personagem-filósofo a explanar a sua filosofia auxiliada pela infinitamente ignorante e infinitamente curiosa personagem-coadjuvante, cuja única função é ir dizendo coisas, por vezes bastante tolas, para fazer avançar o discurso do protagonista.
E sim, Facelist (bibliografia), de Paulo Kellerman, é precisamente uma dessas histórias. Um diálogo praticamente socrático, entre o protagonista e o seu psiquiatra, no qual este faz o papel de coadjuvante e aquele é o filósofo, cheio de ideias imaginativas sobre como as coisas podiam ser ou talvez venham a ser um dia. Não é uma história fantástica propriamente dita, nem uma história de ficção científica, mas as ideias do protagonista são frequentemente ideias de ficção científica, o que de resto é referido várias vezes no texto. Poder-se-á dizer que é uma espécie de ficção científica que nunca chega a ser concretizada.
E tudo parte da ideia bizarra de escrever na cara uma lista de compras. A facelist do título, precisamente. O que acontece quando o faz é o que o protagonista começa por contar ao psiquiatra, bem como os motivos por que o fez, o que procurava conseguir com isso. Sorrisos. Mas em vez de sorrisos depara-se com a mais completa indiferença. Claro que a ideia é falar disso, de uma sociedade tão metida consigo (ou será apenas tão tolerante?) que já nem liga às pequenas excentricidades quotidianas, e Kellerman fá-lo misturando algumas ideias curiosas ou engraçadas com outras que não são nem uma coisa nem a outra. Em diálogo puro.
E eu não gostei muito, pelos motivos expressos acima. Para mim, seria bastante mais interessante "assistir" a todo o processo, a escrita da lista de compras na cara, o passeio pela cidade, o divertimento ou perplexidade ou talvez divertimento perplexo com as reações ou ausência delas, as divagações interiores que esse feedback geraria, do que estar a "ouvir" a conversa entre o homem e o seu psiquiatra. É certo que o conto seria bastante mais longo assim. Mas em princípio agradar-me-ia bastante mais.
Contos anteriores deste livro:
E sim, Facelist (bibliografia), de Paulo Kellerman, é precisamente uma dessas histórias. Um diálogo praticamente socrático, entre o protagonista e o seu psiquiatra, no qual este faz o papel de coadjuvante e aquele é o filósofo, cheio de ideias imaginativas sobre como as coisas podiam ser ou talvez venham a ser um dia. Não é uma história fantástica propriamente dita, nem uma história de ficção científica, mas as ideias do protagonista são frequentemente ideias de ficção científica, o que de resto é referido várias vezes no texto. Poder-se-á dizer que é uma espécie de ficção científica que nunca chega a ser concretizada.
E tudo parte da ideia bizarra de escrever na cara uma lista de compras. A facelist do título, precisamente. O que acontece quando o faz é o que o protagonista começa por contar ao psiquiatra, bem como os motivos por que o fez, o que procurava conseguir com isso. Sorrisos. Mas em vez de sorrisos depara-se com a mais completa indiferença. Claro que a ideia é falar disso, de uma sociedade tão metida consigo (ou será apenas tão tolerante?) que já nem liga às pequenas excentricidades quotidianas, e Kellerman fá-lo misturando algumas ideias curiosas ou engraçadas com outras que não são nem uma coisa nem a outra. Em diálogo puro.
E eu não gostei muito, pelos motivos expressos acima. Para mim, seria bastante mais interessante "assistir" a todo o processo, a escrita da lista de compras na cara, o passeio pela cidade, o divertimento ou perplexidade ou talvez divertimento perplexo com as reações ou ausência delas, as divagações interiores que esse feedback geraria, do que estar a "ouvir" a conversa entre o homem e o seu psiquiatra. É certo que o conto seria bastante mais longo assim. Mas em princípio agradar-me-ia bastante mais.
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sábado, 2 de novembro de 2019
Franz Kafka: A Transformação
São coisas das traduções. Há uma novela de Franz Kafka que é famosíssima com o título de A Metamorfose, mas quando Álvaro Gonçalves pegou nela resolveu chamar-lhe A Transformação (bibliografia). De alemão não sei mais que umas coisinhas aqui e ali, pelo que não sei avaliar quem tem razão, se Gonçalves, se a tradição. Mas o que está por trás dos dois títulos é a mesma obra.
Bem, mais ou menos a mesma obra. De novo há detalhes de tradução que alteram até certo ponto a perceção que o leitor português dela tem. Um exemplo é o do animal em que Samsa se transforma, tradicionalmente apelidado de barata, mas aqui não. Aqui, é um bicho indefinido — o que, segundo já li por aí, se adequa melhor ao original em alemão — que se locomove com dificuldade apoiado em múltiplas "patinhas". Perde-se em familiaridade (e em repugnância, que poucos bichos a causam mais que as baratas) o que se ganha em fidelidade ao original.
Mas de resto, sim, é a história tal como já é sobejamente conhecida, mesmo desconfiando eu que esse conhecimento, em muitos casos, é mais de ouvir dizer do que de leitura feita. Gregor Samsa, um jovem caixeiro-viajante cioso da sua profissão, a morar provisoriamente em casa dos pais, descobre-se uma fatídica manhã em pleno processo de metamorfose. E logo num dia em que deveria partir para mais uma viagem plena de sucesso comercial.
E a novela vai seguindo a sua lenta degenerescência e os problemas que causa à família — os pais e a irmã — a qual, apesar de tudo, mantém um notável estoicismo até quase ao final. Lenta degenerescência porque a transformação vem acompanhada por incapacidade em alimentar-se, a qual leva primeiro à letargia e por fim ao desfecho da história. E quanto aos problemas que causa à família, são fáceis de adivinhar, ainda que Kafka os menorize bastante, o que de resto é a característica mais curiosa desta história.
É que embora toda a situação seja coisa típica de uma história de terror, há muito pouco medo nesta novela. Há tristeza, há alguns sustos, há indiferença, há repugnância, há até humor nos pensamentos do bom Gregor e na forma como eles revelam um indivíduo miudinho, tão capaz de se resignar a qualquer coisa quanto incapaz de um rasgo de imaginação que fosse, um rasgo de imaginação que lhe possibilitasse a compreensão das ramificações que a transformação sofrida iria inevitavelmente causar na sua vida antes que essas ramificações como que o esbofeteassem, surpreendendo-o e entristecendo-o sempre. Mas terror? Quase não existe.
Porque no fundo, parece-me, o terror é uma emoção demasiado intensa para a espécie de burguesia acomodada que Kafka retrata. Não é de bom tom mostrar emoções, sobretudo se intensas. Pode ruir o mundo à volta daquela família, podem acontecer-lhes os desastres mais insólitos, que o importante é manter a dignidade intacta e tudo aceitar com o fatalismo possível, não dar parte de fraco, e sobretudo nunca, mas nunca, mostrar o mais pequeno sinal seja a quem for de que no seio do lar algo de anormal se passa. E assim, Gregor Samsa transforma-se em inseto e toda a gente age quase como se nada se passasse, ainda que a condição de Gregor se imponha de vez em quando aos demais.
Esta é, obviamente, uma novela brilhante e, a par de O Processo, talvez a obra que mais contribuiu para a criação do adjetivo "kafkiano", embora não sejam estas as únicas obras do autor a merecê-lo. E esta tradução faz-lhe justiça, até porque o incómodo que eu senti com as alterações da releitura não será decerto sentido por um leitor de primeira viagem.
Bem, mais ou menos a mesma obra. De novo há detalhes de tradução que alteram até certo ponto a perceção que o leitor português dela tem. Um exemplo é o do animal em que Samsa se transforma, tradicionalmente apelidado de barata, mas aqui não. Aqui, é um bicho indefinido — o que, segundo já li por aí, se adequa melhor ao original em alemão — que se locomove com dificuldade apoiado em múltiplas "patinhas". Perde-se em familiaridade (e em repugnância, que poucos bichos a causam mais que as baratas) o que se ganha em fidelidade ao original.
Mas de resto, sim, é a história tal como já é sobejamente conhecida, mesmo desconfiando eu que esse conhecimento, em muitos casos, é mais de ouvir dizer do que de leitura feita. Gregor Samsa, um jovem caixeiro-viajante cioso da sua profissão, a morar provisoriamente em casa dos pais, descobre-se uma fatídica manhã em pleno processo de metamorfose. E logo num dia em que deveria partir para mais uma viagem plena de sucesso comercial.
E a novela vai seguindo a sua lenta degenerescência e os problemas que causa à família — os pais e a irmã — a qual, apesar de tudo, mantém um notável estoicismo até quase ao final. Lenta degenerescência porque a transformação vem acompanhada por incapacidade em alimentar-se, a qual leva primeiro à letargia e por fim ao desfecho da história. E quanto aos problemas que causa à família, são fáceis de adivinhar, ainda que Kafka os menorize bastante, o que de resto é a característica mais curiosa desta história.
É que embora toda a situação seja coisa típica de uma história de terror, há muito pouco medo nesta novela. Há tristeza, há alguns sustos, há indiferença, há repugnância, há até humor nos pensamentos do bom Gregor e na forma como eles revelam um indivíduo miudinho, tão capaz de se resignar a qualquer coisa quanto incapaz de um rasgo de imaginação que fosse, um rasgo de imaginação que lhe possibilitasse a compreensão das ramificações que a transformação sofrida iria inevitavelmente causar na sua vida antes que essas ramificações como que o esbofeteassem, surpreendendo-o e entristecendo-o sempre. Mas terror? Quase não existe.
Porque no fundo, parece-me, o terror é uma emoção demasiado intensa para a espécie de burguesia acomodada que Kafka retrata. Não é de bom tom mostrar emoções, sobretudo se intensas. Pode ruir o mundo à volta daquela família, podem acontecer-lhes os desastres mais insólitos, que o importante é manter a dignidade intacta e tudo aceitar com o fatalismo possível, não dar parte de fraco, e sobretudo nunca, mas nunca, mostrar o mais pequeno sinal seja a quem for de que no seio do lar algo de anormal se passa. E assim, Gregor Samsa transforma-se em inseto e toda a gente age quase como se nada se passasse, ainda que a condição de Gregor se imponha de vez em quando aos demais.
Esta é, obviamente, uma novela brilhante e, a par de O Processo, talvez a obra que mais contribuiu para a criação do adjetivo "kafkiano", embora não sejam estas as únicas obras do autor a merecê-lo. E esta tradução faz-lhe justiça, até porque o incómodo que eu senti com as alterações da releitura não será decerto sentido por um leitor de primeira viagem.
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
Shelley Jackson: Alfabetos
Eis-nos chegados ao último dos textos introdutórios deste livro (ou pelo menos da parte internacional deste livro, pois há outra), todos eles, pela própria natureza do livro, pelo menos parcialmente ficcionais. Alfabetos (bibliografia) não é exceção, apesar de se tratar de um poema. Mas é algo excecional relativamente aos restantes numa coisa: não funciona.
Pelo menos na tradução portuguesa. É perfeitamente possível, ou até provável, que este texto de Selley Jackson funcione em pleno em inglês. Mas em português não. Porque a tradução, por mais que se esforce, é incapaz de transpor para a nossa língua toda a riqueza de brincadeiras e rimas e trocadilhos e até, talvez, rigor formal que parece evidente que o original tem. Tudo indica que a tarefa era dificílima, e é bem capaz até de estar à partida fadada ao insucesso, porque nada existe de mais problemático na tradução do que a poesia e quando esta se baseia fortemente em jogos de palavras pode tornar-se completamente intraduzível. Mas no fim de contas, o que interessa ao leitor comum é o resultado, e este não é famoso.
Textos anteriores deste livro:
Pelo menos na tradução portuguesa. É perfeitamente possível, ou até provável, que este texto de Selley Jackson funcione em pleno em inglês. Mas em português não. Porque a tradução, por mais que se esforce, é incapaz de transpor para a nossa língua toda a riqueza de brincadeiras e rimas e trocadilhos e até, talvez, rigor formal que parece evidente que o original tem. Tudo indica que a tarefa era dificílima, e é bem capaz até de estar à partida fadada ao insucesso, porque nada existe de mais problemático na tradução do que a poesia e quando esta se baseia fortemente em jogos de palavras pode tornar-se completamente intraduzível. Mas no fim de contas, o que interessa ao leitor comum é o resultado, e este não é famoso.
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quarta-feira, 30 de outubro de 2019
Ray Bradbury: O Lago
Algumas histórias dos géneros especulativos têm uma característica muito curiosa. Já falei aqui dela, aliás, ainda que talvez não de uma forma muito clara. São histórias em que o leitor vai lendo e lendo e lendo sem encontrar nada que possa integrá-las no horror, no fantástico, na ficção científica, por aí fora, até que de repente, geralmente no final ou perto dele, pumba!, lá está o pormenor que faz toda a diferença. Esta característica é curiosa, em parte, porque transforma estas histórias nos veículos ideais para apresentar àquelas pessoas para as quais a literatura que não se baseie no mais completo realismo é imediatamente motivo para narizes torcidos e todos os tipos de preconceitos. E em parte, também, porque construir bem uma narrativa desta forma exige habilidade e técnica.
O Lago, claro, é uma dessas histórias. Neste conto breve, Ray Bradbury mostra, basicamente, como se faz, criando uma história literariamente forte, escrita numa prosa poética que nunca chega a cansar, o que não posso dizer da maioria das histórias assim escritas que tenho lido, sobre um miúdo que perde uma amiga num lago onde ambos passam férias. Um dia, ela mergulha e não volta à superfície. E ele ali fica, choroso e solitário, até ao fim das férias. Mas estas acabam, a vida continua, e ele volta para casa. E cresce, e torna-se adulto, e casa. E um dia volta ao lago, com a mulher. E até aqui nada faz pensar em algo que não seja o mais puro mainstream. Mas depois...
... Depois, o passado torna-se algo mais que recordação e velha dor, como que se renovando. E surge finalmente algo de sobrenatural na história a retirá-la do mais puro realismo mainstream que aparentava até aí. O resultado é muitíssimo bom.
Uma história ideal para dar a ler a preconceituosos.
Contos anteriores deste livro:
O Lago, claro, é uma dessas histórias. Neste conto breve, Ray Bradbury mostra, basicamente, como se faz, criando uma história literariamente forte, escrita numa prosa poética que nunca chega a cansar, o que não posso dizer da maioria das histórias assim escritas que tenho lido, sobre um miúdo que perde uma amiga num lago onde ambos passam férias. Um dia, ela mergulha e não volta à superfície. E ele ali fica, choroso e solitário, até ao fim das férias. Mas estas acabam, a vida continua, e ele volta para casa. E cresce, e torna-se adulto, e casa. E um dia volta ao lago, com a mulher. E até aqui nada faz pensar em algo que não seja o mais puro mainstream. Mas depois...
... Depois, o passado torna-se algo mais que recordação e velha dor, como que se renovando. E surge finalmente algo de sobrenatural na história a retirá-la do mais puro realismo mainstream que aparentava até aí. O resultado é muitíssimo bom.
Uma história ideal para dar a ler a preconceituosos.
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terça-feira, 29 de outubro de 2019
Ray Bradbury: A Jarra
Coisas, de preferência estranhas. Há todo um subgénero (ou um subsubgénero) na literatura fantástica que gira em volta delas. Objetos misteriosos, por vezes com o seu quê (ou mais que o seu quê) de sobrenatural, que causam efeitos variados às pessoas que com eles contactam. E A Jarra (bibliografia) é um desses objetos.
A história passa-se no delta do Misssissípi, terra misteriosa por excelência. Aí, um homem daqueles que, de tão pequeninos, parecem andar sempre com diminutivo atrás deixa-se fascinar por uma jarra (ou um frasco) com uma coisa dentro que encontra numa feira. Que coisa? Ninguém sabe, e ele também não. Mas o fascínio é forte, a tentação também, e ele acaba por comprar o objeto, levando-o para casa, numa aldeola relativamente distante.
Ray Bradbury descreve depois como a jarra, ou melhor, o seu misterioso conteúdo, impacta cada habitante da aldeola. Dos céticos, entre os quais avulta a mulher do homenzinho, que não o respeita e se ressente da súbita popularidade que ele ganha a reboque do objeto, aos crédulos, quase todos, cada um dos quais tem a sua teoria própria sobre a natureza daquela coisa. Ao fazê-lo, e ao rematar o conto como remata, diz-nos o que está implícito nesta história: que cada pessoa cria a sua própria realidade, com base não só nas suas crenças mas também, ou talvez sobretudo, nas suas necessidades.
Não tão bom como alguns dos outros contos do livro, este conto não deixa de ser também muito bom.
Contos anteriores deste livro:
A história passa-se no delta do Misssissípi, terra misteriosa por excelência. Aí, um homem daqueles que, de tão pequeninos, parecem andar sempre com diminutivo atrás deixa-se fascinar por uma jarra (ou um frasco) com uma coisa dentro que encontra numa feira. Que coisa? Ninguém sabe, e ele também não. Mas o fascínio é forte, a tentação também, e ele acaba por comprar o objeto, levando-o para casa, numa aldeola relativamente distante.
Ray Bradbury descreve depois como a jarra, ou melhor, o seu misterioso conteúdo, impacta cada habitante da aldeola. Dos céticos, entre os quais avulta a mulher do homenzinho, que não o respeita e se ressente da súbita popularidade que ele ganha a reboque do objeto, aos crédulos, quase todos, cada um dos quais tem a sua teoria própria sobre a natureza daquela coisa. Ao fazê-lo, e ao rematar o conto como remata, diz-nos o que está implícito nesta história: que cada pessoa cria a sua própria realidade, com base não só nas suas crenças mas também, ou talvez sobretudo, nas suas necessidades.
Não tão bom como alguns dos outros contos do livro, este conto não deixa de ser também muito bom.
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Carlos Ré: Mafarrécos
Carlos Ré é o primeiro dos ilustradores presentes nesta antologia que faz acompanhar a sua ilustração por um texto de características ficcionais. Nem todos o fizeram; alguns preferiram não escrever nada ou quase, outros escreveram textos explicativos sobre o processo criativo ou as técnicas utilizadas e até houve quem tivesse escrito poesia. Só falarei aqui dos textos que podem ser considerados contos ou poemas, e Mafarrécos (bibliografia) é basicamente um miniconto que descreve a irónica criptoespécie que o autor desenhou, baseada, claro, nos mafarricos. Não tem muito que se lhe diga, mas é divertido.
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segunda-feira, 28 de outubro de 2019
Luísa Azevedo: Absurda Sedação
Aqui temos um corpo estranho nesta antologia, o primeiro mas, segundo já me foi dado ver, não o único: um texto publicado "extra-concurso", como eles dizem, isto é, um texto que não foi autoproposto (e pago? Não tenho a certeza de como esta publicação foi financiada) pelos autores mas sim fruto de um convite de quem organiza a compilação a uma "colaboradora". Não sei o que fizeram aqui as pessoas identificadas como colaboradoras, mas imagino que terão ajudado a selecionar o material publicado. Talvez.
E é também um corpo estranho por outro motivo. Luísa Azevedo, aparentemente, detesta fantasia em particular e provavelmente também o maravilhoso e o horror em geral. E como detesta essas coisas faz publicar num livro com essa temática (ainda que algo alargada) um soneto no qual trata o género logo a partir do título como Absurda Sedação (bibliografia), atacando-o sem dó nem piedade. Absurda publicação?
Provavelmente. Sim, é verdade que este poema — um soneto — é muito melhor que quase todos os restantes, seja em qualidade literária genérica, seja nas características formais que caracterizam uma obra poética. Luísa Azevedo sabe o que está a fazer, ao contrário de vários dos autores com quem compartilha o livro e que ela terá possivelmente ajudado a escolher. Mas se isso a valoriza, a repugnância que demonstra pelo género em que está a trabalhar, acompanhada por uma dose considerável de ignorância pois parece não saber que o que descreve é uma caricatura que não corresponde à realidade, faz precisamente o contrário. Era escusado, francamente.
Textos anteriores deste livro:
E é também um corpo estranho por outro motivo. Luísa Azevedo, aparentemente, detesta fantasia em particular e provavelmente também o maravilhoso e o horror em geral. E como detesta essas coisas faz publicar num livro com essa temática (ainda que algo alargada) um soneto no qual trata o género logo a partir do título como Absurda Sedação (bibliografia), atacando-o sem dó nem piedade. Absurda publicação?
Provavelmente. Sim, é verdade que este poema — um soneto — é muito melhor que quase todos os restantes, seja em qualidade literária genérica, seja nas características formais que caracterizam uma obra poética. Luísa Azevedo sabe o que está a fazer, ao contrário de vários dos autores com quem compartilha o livro e que ela terá possivelmente ajudado a escolher. Mas se isso a valoriza, a repugnância que demonstra pelo género em que está a trabalhar, acompanhada por uma dose considerável de ignorância pois parece não saber que o que descreve é uma caricatura que não corresponde à realidade, faz precisamente o contrário. Era escusado, francamente.
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Clotilde Graves: Almas Gémeas
E eis que pela mão segura de Clotilde Graves nos chega mais um exemplo de conto de fantasmas carregado de humor. Almas Gémeas (bibliografia) é um daqueles contos-depoimento, no caso o depoimento de uma mulher que conta aos leitores interessados como adquirira os conhecimentos que tem sobre almas do outro mundo, fantasmas e esse tipo de questões etéreas. E não, não podem desde já imaginar como: a coisa está bem esgalhada e é bastante original.
Devo fazer um alerta antes de prosseguir: este é dos tais contos de que é praticamente impossível falar sem se fazer revelações de enredo, e este constitui boa parte do que sustenta o interesse do leitor ao longo da leitura. Por outras palavras, daqui para diante vai haver spoilers. Estão avisados.
Aviso feito, vamos lá. Pois bem: a forma como a narradora começou a perceber alguma coisa sobre fantasmas foi ter deparado uma bela noite, ao acordar de repente, com o fantasma de uma mulher sentado na sua cama de casada, onde dormia com o marido pouco depois do casamento. Segue-se uma conversa divertida, em que a mulher fantasma explica que está ali porque o marido da verdadeira, que conhecera numa sessão espírita porque ele a invocara para falar de Shakespeare (eu avisei que era divertido), está a sonhar com ela e só se pode ir embora quando o sonho terminar. Resultado? Ciumeira, claro.
É essa ciumeira, primeiro da mulher de carne e osso pela mulher ectoplásmica e depois do marido da mulher de carne e osso pelo homem ectoplásmico quando a mulher decide que o que é demais enjoa e também pode arranjar um companheiro fantasmagórico só seu, que faz mover o enredo. Tudo bastante bem apanhado e bastante engraçado, incluindo o final, que tem uma certa qualidade delicodoce que estraga um pouco o que ficou para trás, mas não deixa de ser o desenlace mais lógico de toda a situação.
Mais um conto bastante interessante, este.
Contos anteriores deste livro:
Devo fazer um alerta antes de prosseguir: este é dos tais contos de que é praticamente impossível falar sem se fazer revelações de enredo, e este constitui boa parte do que sustenta o interesse do leitor ao longo da leitura. Por outras palavras, daqui para diante vai haver spoilers. Estão avisados.
Aviso feito, vamos lá. Pois bem: a forma como a narradora começou a perceber alguma coisa sobre fantasmas foi ter deparado uma bela noite, ao acordar de repente, com o fantasma de uma mulher sentado na sua cama de casada, onde dormia com o marido pouco depois do casamento. Segue-se uma conversa divertida, em que a mulher fantasma explica que está ali porque o marido da verdadeira, que conhecera numa sessão espírita porque ele a invocara para falar de Shakespeare (eu avisei que era divertido), está a sonhar com ela e só se pode ir embora quando o sonho terminar. Resultado? Ciumeira, claro.
É essa ciumeira, primeiro da mulher de carne e osso pela mulher ectoplásmica e depois do marido da mulher de carne e osso pelo homem ectoplásmico quando a mulher decide que o que é demais enjoa e também pode arranjar um companheiro fantasmagórico só seu, que faz mover o enredo. Tudo bastante bem apanhado e bastante engraçado, incluindo o final, que tem uma certa qualidade delicodoce que estraga um pouco o que ficou para trás, mas não deixa de ser o desenlace mais lógico de toda a situação.
Mais um conto bastante interessante, este.
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domingo, 27 de outubro de 2019
Leiturtugas da semana #38
Ah! Finalmente, depois de algumas semanas totalmente frenéticas no capítulo Leiturtugas, voltámos a ter uma calma. Mas não calma demais, daquelas que não trazem nenhuma novidade ao projeto; esta trouxe, embora só uma.
E veio pela mão da Cristina Alves, a qual publicou uma opinião sobre uma edição de BD já anteriormente comentada pelo Artur: o fanzine Legendary Horror Stories, publicado pela Legendary Books. Não vou repetir a equipa de autores, que é grande; quem quiser saber quem são dê aqui um saltinho e ficará a saber. BD conta como sem FC, como sabem, pelo que a Cristina passa a 5c8s e ainda lhe falta uma leitura com FC para cumprir os objetivos, apesar de já ter feito mais que os 12 comentários da praxe.
E por esta semana é só. Até à próxima.
E veio pela mão da Cristina Alves, a qual publicou uma opinião sobre uma edição de BD já anteriormente comentada pelo Artur: o fanzine Legendary Horror Stories, publicado pela Legendary Books. Não vou repetir a equipa de autores, que é grande; quem quiser saber quem são dê aqui um saltinho e ficará a saber. BD conta como sem FC, como sabem, pelo que a Cristina passa a 5c8s e ainda lhe falta uma leitura com FC para cumprir os objetivos, apesar de já ter feito mais que os 12 comentários da praxe.
E por esta semana é só. Até à próxima.
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Ray Bradbury: O Esqueleto
E aqui estamos perante um dos grandes contos de Ray Bradbury, na sua vertente mais macabra e, neste caso, de verdadeiro horror. Um daqueles contos que se lê e não se esquece. O Esqueleto (bibliografia) é a história de um homem em guerra aberta com uma parte de si próprio: o esqueleto, precisamente.
É uma daquelas histórias que vão evoluindo lentamente, desde que um homem com alguns problemas recebe a ideia de que estes se devem a uma incompatibilidade fundamental entre ele e o esqueleto que o sustenta, passando a encará-lo com corpo estranho a si e, mais, como entidade que o combate e que é preciso combater para que não o mate, até ao desenlace que, mesmo sendo inevitável desde o início, não deixa ainda assim de chocar. Refiro-me ao desenlace para o protagonista, não o momento, pouco antes, em que se revela a verdadeira motivação do médico que o trata: aí existe surpresa genuína, mas o choque do final não é maior por isso.
Quando li pela primeira vez este conto, nos já algo longínquos tempos da adolescência, não reparei nisto, mas agora na releitura não pude evitar o paralelismo entre o que se vai passando nesta história e a progressão das variedades mais graves das doenças autoimunes. Não posso saber até que ponto Bradbury se inspirou nelas para escrever o seu conto, se bem que se me pedissem uma suposição diria que não se inspirou em nada. Mas o facto é que o paralelismo existe. O protagonista desta história vê no esqueleto uma parte de si que o quer destruir, ideia — ou melhor: obsessão — que é reforçada com as dores que o esqueleto "lhe causa" sempre que pensa fazer algo que frustre os seus planos daninhos. E nas doenças autoimunes é precisamente isso que acontece: partes do corpo encaram erroneamente outras partes do corpo como objetos estranhos e atacam-nas, frequentemente de forma dolorosa e, em casos extremos, potencialmente fatal.
Com tal paralelismo em mente, o impacto da história é ainda maior. É frequente que nas releituras aquele abalo emocional que as histórias têm quando são novas e inesperadas se perca, se não por completo pelo menos em parte. Mas com esta história aconteceu-me o oposto. Um dos vários motivos por que este conto é excelente.
Contos anteriores deste livro:
É uma daquelas histórias que vão evoluindo lentamente, desde que um homem com alguns problemas recebe a ideia de que estes se devem a uma incompatibilidade fundamental entre ele e o esqueleto que o sustenta, passando a encará-lo com corpo estranho a si e, mais, como entidade que o combate e que é preciso combater para que não o mate, até ao desenlace que, mesmo sendo inevitável desde o início, não deixa ainda assim de chocar. Refiro-me ao desenlace para o protagonista, não o momento, pouco antes, em que se revela a verdadeira motivação do médico que o trata: aí existe surpresa genuína, mas o choque do final não é maior por isso.
Quando li pela primeira vez este conto, nos já algo longínquos tempos da adolescência, não reparei nisto, mas agora na releitura não pude evitar o paralelismo entre o que se vai passando nesta história e a progressão das variedades mais graves das doenças autoimunes. Não posso saber até que ponto Bradbury se inspirou nelas para escrever o seu conto, se bem que se me pedissem uma suposição diria que não se inspirou em nada. Mas o facto é que o paralelismo existe. O protagonista desta história vê no esqueleto uma parte de si que o quer destruir, ideia — ou melhor: obsessão — que é reforçada com as dores que o esqueleto "lhe causa" sempre que pensa fazer algo que frustre os seus planos daninhos. E nas doenças autoimunes é precisamente isso que acontece: partes do corpo encaram erroneamente outras partes do corpo como objetos estranhos e atacam-nas, frequentemente de forma dolorosa e, em casos extremos, potencialmente fatal.
Com tal paralelismo em mente, o impacto da história é ainda maior. É frequente que nas releituras aquele abalo emocional que as histórias têm quando são novas e inesperadas se perca, se não por completo pelo menos em parte. Mas com esta história aconteceu-me o oposto. Um dos vários motivos por que este conto é excelente.
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FairyGi: A Fada do Caminho
E por falar em textos profundamente banais (não que o último o seja, mas há vários neste livro), A Fada do Caminho (bibliografia), de FairyGi, é mais um. Tão banal que pouco tem que se lhe diga, uma vez que repega no velho cliché do caminho escondido para o reino das fadas, num poemazito composto sem imaginação que se veja, incluindo a que poderia existir no uso da língua; basta ver que a rima mais interessante que contém é a de magia com harmonia. É possível que se trate de um esforço adolescente, e quem não fez poemas destes em adolescente que atire a primeira pedra, mas a verdade é que o resultado é fraquinho, fraquinho...
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quarta-feira, 23 de outubro de 2019
Hugo Infante Torres: As Fadas
Mais um poemazinho de pegada infantil, ainda que este não seja tão claramente concebido para ser lido a miúdos. É sintoma curioso, e um pouco triste, da infantilização generalizada que sofreram as histórias populares ao longo do século XX, da qual se salva apenas alguma fantasia que nelas se baseia. Mas não esta. Em As Fadas (bibliografia), Hugo Infante Torres limita-se a uma descrição dessas pequenas criaturas, num texto genericamente correto, com rimas nem sempre inteiramente óbvias e com bom ritmo. Este não é mau. Não chega a ser bom, parece-me, mas não é mau.
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terça-feira, 22 de outubro de 2019
Ray Bradbury: A Ficha de Pôquer Sempre Atenta de H. Matisse
Já aqui falei por variadíssimas vezes dos temas comuns na obra de Ray Bradbury, temas e ambientes a que ele tende a voltar uma e outra vez ao longo dos seus contos e romances. Mas é mais raro falar de coisas raras, até pela sua própria raridade. Ora, este A Ficha de Pôquer Sempre Atenta de H. Matisse (bibliografia) é um dos contos cuja principal característica é uma dessas raridades: o humor.
Um humor à Bradbury, naturalmente, entretecido a qualquer coisa de macabro e a muito de insólito.
A história centra-se num chato muito chato que, por ser um chato muito chato, se torna no centro das atenções dos hipsters do tempo (julgavam que isto dos hipsters era coisa de agora? Ná!), que o elevam a inspirador de um "movimento literário". E o homem fica nas suas sete quintas, descobrindo que adora ser o centro das atenções.
O problema é que essa condição é de vida breve, especialmente se a única qualidade que para ela contribui é a chatice. E assim, os amigos começam aos poucos a afastar-se, para seu grande desapontamento. Mas depois tem uma ideia: há que arranjar alguma novidade para os manter interessado. A solução é drástica e insólita: algo a que se poderia chamar "mutilação criativa". Primeiro arranca um olho e substitui-o por uma ficha de póquer pintada por Matisse, depois, quando nem isso já chega, passa a mutilações mais drásticas, e por aí fora.
Este é um conto cujas maiores qualidades são ser divertido e bastante imaginativo, mas não deixa por isso de ser um conto de Bradbury, com as características inerentes a esse facto. Um bom conto de Bradbury, sublinhe-se.
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Um humor à Bradbury, naturalmente, entretecido a qualquer coisa de macabro e a muito de insólito.
A história centra-se num chato muito chato que, por ser um chato muito chato, se torna no centro das atenções dos hipsters do tempo (julgavam que isto dos hipsters era coisa de agora? Ná!), que o elevam a inspirador de um "movimento literário". E o homem fica nas suas sete quintas, descobrindo que adora ser o centro das atenções.
O problema é que essa condição é de vida breve, especialmente se a única qualidade que para ela contribui é a chatice. E assim, os amigos começam aos poucos a afastar-se, para seu grande desapontamento. Mas depois tem uma ideia: há que arranjar alguma novidade para os manter interessado. A solução é drástica e insólita: algo a que se poderia chamar "mutilação criativa". Primeiro arranca um olho e substitui-o por uma ficha de póquer pintada por Matisse, depois, quando nem isso já chega, passa a mutilações mais drásticas, e por aí fora.
Este é um conto cujas maiores qualidades são ser divertido e bastante imaginativo, mas não deixa por isso de ser um conto de Bradbury, com as características inerentes a esse facto. Um bom conto de Bradbury, sublinhe-se.
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segunda-feira, 21 de outubro de 2019
Ana Sequeiros: Lucubrações Acacianas
Gostaria de ter gostado deste conto. Há nele alguns detalhes que apertam os botões certos, uma vez que Ana Sequeiros se dedica a gozar, sem dó nem piedade, com um facho, daqueles que o são de forma inapelável e soberanamente estúpida, muito embora haja bons argumentos para defender que não há facho que não o seja. Lucubrações Acacianas tem este título porque o facho se chama Acácio e o conto se dedica a dissecar com todo o detalhe todas as teias de aranha que ele tem na cabeça. Este Acácio fará certamente lembrar alguém a todos os que conheçam um facho desta variedade miudinha e intelectualmente (e e provavelmente não só) impotente. A mim decerto que fez. Mais que um, até.
Com estes ingredientes, como não gostar, não é? Mas a verdade é que não gostei. Não desgostei, mas também não gostei. Porquê?
Basicamente pelo mesmo motivo por que não gostei por aí além de O Patriota Improvável da Maria de Menezes. É que, apesar de ideologicamente se situarem em pontas praticamente opostas, os dois contos têm muito em comum. A queda para a caricatura inconsequente, principalmente, na qual qualquer tentação de contar uma história é subalternizada àquilo que realmente move as respetivas autoras: a vontade de lançar um violento ataque (de riso, talvez) às personagens que as inspiram. São contos em que a tradição nacional das histórias curtas que praticamente se resumem a um retrato dos protagonistas é alterada daquela forma algo grotesca que é inerente à transformação do retrato em caricatura. E isso, se pode agradar a alguns leitores, a mim não agrada.
Eu, leitor, preciso das minhas caricaturas literárias com alguma história por trás, e discretas o suficiente para não ofuscarem essa história. Não foi o que encontrei aqui. É pena.
Contos anteriores deste livro:
Com estes ingredientes, como não gostar, não é? Mas a verdade é que não gostei. Não desgostei, mas também não gostei. Porquê?
Basicamente pelo mesmo motivo por que não gostei por aí além de O Patriota Improvável da Maria de Menezes. É que, apesar de ideologicamente se situarem em pontas praticamente opostas, os dois contos têm muito em comum. A queda para a caricatura inconsequente, principalmente, na qual qualquer tentação de contar uma história é subalternizada àquilo que realmente move as respetivas autoras: a vontade de lançar um violento ataque (de riso, talvez) às personagens que as inspiram. São contos em que a tradição nacional das histórias curtas que praticamente se resumem a um retrato dos protagonistas é alterada daquela forma algo grotesca que é inerente à transformação do retrato em caricatura. E isso, se pode agradar a alguns leitores, a mim não agrada.
Eu, leitor, preciso das minhas caricaturas literárias com alguma história por trás, e discretas o suficiente para não ofuscarem essa história. Não foi o que encontrei aqui. É pena.
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Dulcineia: Alucinação?
Com Alucinação? (bibliografia), Dulcineia — nome que é certamente um pseudónimo — apresenta um texto banalíssimo no qual conta uma história fantástica que cai no velhíssimo chavão de chegar ao fim e se desfazer como se tudo não passasse de um sonho ou, como o título sugere, de uma alucinação.
Poderia resultar se houvesse algum rasgo literário, mas está muito longe de haver. O português é também ele banal, embora correto, pouco imaginativo, e o poema como um todo tem problemas de ritmo.
Em suma: um esforço bastante fraco.
Textos anteriores deste livro:
Poderia resultar se houvesse algum rasgo literário, mas está muito longe de haver. O português é também ele banal, embora correto, pouco imaginativo, e o poema como um todo tem problemas de ritmo.
Em suma: um esforço bastante fraco.
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domingo, 20 de outubro de 2019
Ray Bradbury: O Próximo da Fila
O México, sobretudo através da tradição do día de los muertos, é também algo recorrente nas ficções de Ray Bradbury. Não é difícil compreender porquê: há nessa tradição muito do mesmo macabro festivo que a celebração americana do Halloween tem, e esta festa, conjugada com todo o imaginário outonal que lhe está associado, é um dos temas que Bradbury revisita de forma mais obsessiva. De resto, o facto das duas festas coincidirem no tempo só sublinha mais a coincidência e torna mais naturais as visitas do autor americano à tradição mexicana.
O Próximo da Fila, claro, é uma dessas histórias. É uma noveleta de horror psicológico ao jeito de Bradbury, ambientado numa cidadezinha no México e protagonizado por um casal de turistas americanos que dificilmente podiam encarar a experiência de forma mais díspar. Ele, descontraído, indiferente aos problemas que os assolam (incluindo uma misteriosa e demorada avaria no carro que os retém na cidade), decidido a tirar o melhor partido das férias naquele local. Ela, tensa, cada vez mais mergulhada em terríveis pressentimentos a respeito da cidade e ansiosa por se ir embora, seja de que maneira for.
Bradbury nunca deixa grande lugar a dúvidas quanto ao desfecho que a história irá acabar por ter; o foreshadowing é intenso, as sugestões de algo de sobrenatural em ação são múltiplas, ainda que tanto uma coisa como a outra surjam exclusivamente por intermédio do que a mulher faz, diz e sente. Mas mesmo assim, quando ele acontece, surge trazendo a reboque uma certa surpresa. É possível que isso seja em parte explicado pela extensão desta história, invulgarmente longa para o autor americano, cuja obra, embora naturalmente inclua textos mais extensos, se centra entre o conto e o conto curto. Enquanto fui lendo, pensei várias vezes que o final não poderia ser tão óbvio, que não se justificaria que o fosse com tanta história para trás. E no fim é mesmo.
Em parte em resultado disso, esta história não é das melhores de Bradbury. Quando o leitor começa a pensar que o que está a ler já se está a prolongar demasiado é mau sinal, e isso acontece aqui. Se fosse mais curta, se fosse um conto, julgo que esta noveleta funcionaria melhor, mesmo que fosse necessário abreviar alguns episódios. Assim, torna-se aborrecida. É Bradbury, pelo que tem as qualidades habituais do autor, mas é um Bradbury de terceira ou quarta linha.
Conto anterior deste livro:
O Próximo da Fila, claro, é uma dessas histórias. É uma noveleta de horror psicológico ao jeito de Bradbury, ambientado numa cidadezinha no México e protagonizado por um casal de turistas americanos que dificilmente podiam encarar a experiência de forma mais díspar. Ele, descontraído, indiferente aos problemas que os assolam (incluindo uma misteriosa e demorada avaria no carro que os retém na cidade), decidido a tirar o melhor partido das férias naquele local. Ela, tensa, cada vez mais mergulhada em terríveis pressentimentos a respeito da cidade e ansiosa por se ir embora, seja de que maneira for.
Bradbury nunca deixa grande lugar a dúvidas quanto ao desfecho que a história irá acabar por ter; o foreshadowing é intenso, as sugestões de algo de sobrenatural em ação são múltiplas, ainda que tanto uma coisa como a outra surjam exclusivamente por intermédio do que a mulher faz, diz e sente. Mas mesmo assim, quando ele acontece, surge trazendo a reboque uma certa surpresa. É possível que isso seja em parte explicado pela extensão desta história, invulgarmente longa para o autor americano, cuja obra, embora naturalmente inclua textos mais extensos, se centra entre o conto e o conto curto. Enquanto fui lendo, pensei várias vezes que o final não poderia ser tão óbvio, que não se justificaria que o fosse com tanta história para trás. E no fim é mesmo.
Em parte em resultado disso, esta história não é das melhores de Bradbury. Quando o leitor começa a pensar que o que está a ler já se está a prolongar demasiado é mau sinal, e isso acontece aqui. Se fosse mais curta, se fosse um conto, julgo que esta noveleta funcionaria melhor, mesmo que fosse necessário abreviar alguns episódios. Assim, torna-se aborrecida. É Bradbury, pelo que tem as qualidades habituais do autor, mas é um Bradbury de terceira ou quarta linha.
Conto anterior deste livro:
Leiturtugas da semana #37
Mais uma semana com Leiturtugas, mas esta foi bastante mais calma que as duas últimas. E começa com uma correção. É que eu tinha ficado com a ideia de que a antologia O Resto é Paisagem não tinha qualquer FC, mas aparentemente há alguma num dos contos, pelo que conta para a coluna do "com FC". Isto afeta as contas da Carla Ribeiro, que em vez de ter ficado na semana passada com 2c3s, como eu tinha escrito, ficou com 3c2s. E, que me lembre, só a afeta a ela. Se afetar mais alguém, avisem-me.
Adiante.
É também da Carla Ribeiro que vem a primeira verdadeira Leiturtuga da semana, graças à sua opinião sobre o mais recente romance de Luís Corredoura, intitulado A Recriação do Mundo e publicado pela Cultura. Trata-se de história alternativa, que eu regra geral encaro como um ramo da FC (por via dos universos paralelos), pelo que a Carla passa a 4c2s. E cumpre os objetivos das Leiturtuguinhas, a que se tinha proposto. E agora como é, Carla? Ainda há tempo. Passamos às Leiturtugas? Hm?
Mas não ficamos por aí, pois também o Portuguese Portal publicou algo leiturtuguento. Trata-se de uma opinião sobre o romance de horror de Pedro Lucas Martins recentemente publicado pela Divergência: As Sombras de Lázaro. Não-FC, claro, e o Portuguese Portal passa a 0c2s.
E, em última hora, mesmo a fechar esta edição, chega-nos a notícia de que a Carla Ribeiro voltou ao "ataque" com mais uma opinião. Cabe a vez a uma novela de Nuno Sobral publicada pela Sana e intitulada Eu Creio que a Verdade Crua Cura. Nada tem de FC e só parece roçar pelo fantástico, mas também conta. A Carla passa assim a 4c3s. Leiturtugas? Hm?
Por fim, uma notícia há muito aguardada com ansiedade pela multidão que segue este projeto (ahem). Está online a lista de locais onde se pode encontrar online FC e fantástico português. Não está completa, que não tive tempo para ir esgravatar a fundo na net para ver se encontrava tudo, mas já é um começo e achei preferível disponibilizar já esse começo e ir completando à medida que houvesse tempo.
E por esta semana é só. Até à próxima.
Adiante.
É também da Carla Ribeiro que vem a primeira verdadeira Leiturtuga da semana, graças à sua opinião sobre o mais recente romance de Luís Corredoura, intitulado A Recriação do Mundo e publicado pela Cultura. Trata-se de história alternativa, que eu regra geral encaro como um ramo da FC (por via dos universos paralelos), pelo que a Carla passa a 4c2s. E cumpre os objetivos das Leiturtuguinhas, a que se tinha proposto. E agora como é, Carla? Ainda há tempo. Passamos às Leiturtugas? Hm?
Mas não ficamos por aí, pois também o Portuguese Portal publicou algo leiturtuguento. Trata-se de uma opinião sobre o romance de horror de Pedro Lucas Martins recentemente publicado pela Divergência: As Sombras de Lázaro. Não-FC, claro, e o Portuguese Portal passa a 0c2s.
E, em última hora, mesmo a fechar esta edição, chega-nos a notícia de que a Carla Ribeiro voltou ao "ataque" com mais uma opinião. Cabe a vez a uma novela de Nuno Sobral publicada pela Sana e intitulada Eu Creio que a Verdade Crua Cura. Nada tem de FC e só parece roçar pelo fantástico, mas também conta. A Carla passa assim a 4c3s. Leiturtugas? Hm?
Por fim, uma notícia há muito aguardada com ansiedade pela multidão que segue este projeto (ahem). Está online a lista de locais onde se pode encontrar online FC e fantástico português. Não está completa, que não tive tempo para ir esgravatar a fundo na net para ver se encontrava tudo, mas já é um começo e achei preferível disponibilizar já esse começo e ir completando à medida que houvesse tempo.
E por esta semana é só. Até à próxima.
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
Falaram da Dieselpunk
Fruto sobretudo da longa travessia do deserto por que a minha escrita passou depois de perder o meu pai, já não publico nada desde 2015 (e em 2015 foram só duas coisinhas para deixar num pousio condigno o Infinitamente Improvável; o último ano com publicações que se vissem foi 2013), se descontarmos uma vinhetazinha publicada aqui na Lâmpada no ano passado, e, em livro, desde 2011. Em parte por isso, é crescentemente raro que alguém comente alguma publicação em que eu tenha estado envolvido.
Mas de vez em quando acontece. A demonstração mais recente de que assim é surgiu no site da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro (coloquialmente conhecido apenas como "Planetário do Rio", porque o nome oficial é compriiiiiido), onde foi publicada uma opinião, com notas específicas para cada conto, sobre a antologia retrofuturista Dieselpunk, publicada em 2011 pela Draco. Lá se encontra a noveleta Só a Morte te Resgata, a segunda história da série a que pertence também o romance que tenho andado a escrever nos últimos meses, sobre a qual opina o resenhador que é "talvez [...] a mais madura das obras apresentadas".
Porreirinho, pá.
Já agora, eu falei do que penso sobre a antologia aqui, onde como é costume há links para opiniões específicas sobre as restantes histórias.
Mas de vez em quando acontece. A demonstração mais recente de que assim é surgiu no site da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro (coloquialmente conhecido apenas como "Planetário do Rio", porque o nome oficial é compriiiiiido), onde foi publicada uma opinião, com notas específicas para cada conto, sobre a antologia retrofuturista Dieselpunk, publicada em 2011 pela Draco. Lá se encontra a noveleta Só a Morte te Resgata, a segunda história da série a que pertence também o romance que tenho andado a escrever nos últimos meses, sobre a qual opina o resenhador que é "talvez [...] a mais madura das obras apresentadas".
Porreirinho, pá.
Já agora, eu falei do que penso sobre a antologia aqui, onde como é costume há links para opiniões específicas sobre as restantes histórias.
Helena Marques: O Tratado
Nunca tinha lido nada da Helena Marques e não fiquei bem impressionado com este continho de pouco mais de duas páginas sobre um triângulo amoroso pouco convencional. Pouco convencional no sentido de contar uma mulher e dois homens, todos saberem uns dos outros e encararem a situação com a maior das calmas e descontrações, mesmo quando a mulher decide acabar com ele e tornar-se monogâmica. O motivo do título O Tratado percebe-se na última frase do conto, que funciona como final surpresa, pelo que não falarei dela.
O conto até está bem escrito, mas o interesse que me despertou, francamente, foi nulo. Não tenho paciência alguma para este tipo de história intimista sobre relações: sou completamente desprovido do instinto mexeriqueiro que em grande medida cria o público para elas. Quando, na vida real, me vêm falar de fulano que fez não sei o quê a fulana e patati e patata e vice-versa, o que é abençoadamente raro, encolho os ombros e mudo de assunto. A vida dos outros é coisa que só me interessa se afetar a minha; de resto, vivam-na à vontade como acharem melhor. E esta atitude tem prolongamento natural nas histórias literárias, cinematográficas, por aí fora. Histórias de mexericos, mesmo que, como esta, tenham um fundo relativamente irónico, só me despertam mesmo chatice. Sono. Vontade que acabem depressa para eu poder dedicar o meu tempo a alguma coisa com algum interesse. Então estes três vivem numa relação triangular e depois deixam de viver? Eh, pá, quero lá saber.
Há públicos e públicos e cada um tem o seu. Helena Marques não é para mim.
Conto anterior deste livro:
O conto até está bem escrito, mas o interesse que me despertou, francamente, foi nulo. Não tenho paciência alguma para este tipo de história intimista sobre relações: sou completamente desprovido do instinto mexeriqueiro que em grande medida cria o público para elas. Quando, na vida real, me vêm falar de fulano que fez não sei o quê a fulana e patati e patata e vice-versa, o que é abençoadamente raro, encolho os ombros e mudo de assunto. A vida dos outros é coisa que só me interessa se afetar a minha; de resto, vivam-na à vontade como acharem melhor. E esta atitude tem prolongamento natural nas histórias literárias, cinematográficas, por aí fora. Histórias de mexericos, mesmo que, como esta, tenham um fundo relativamente irónico, só me despertam mesmo chatice. Sono. Vontade que acabem depressa para eu poder dedicar o meu tempo a alguma coisa com algum interesse. Então estes três vivem numa relação triangular e depois deixam de viver? Eh, pá, quero lá saber.
Há públicos e públicos e cada um tem o seu. Helena Marques não é para mim.
Conto anterior deste livro:
Paulo Moreira: Filho da Mãe
Mais um conto fúnebre escrito com bastante sensibilidade. E vão dois em pouco tempo, depois de Esta Casa não Foi Feita de Paredes, encontrado noutra antologia que também ando a ler. Curiosa coincidência. E há muito em comum entre as duas histórias. Aqui, Paulo Moreira fala também de um filho que chega à casa do familiar falecido — e também aqui esse familiar é a mãe — com a intenção de recuperar dela o que achasse que deve recuperar, encontrando sobretudo memórias. Mas também há diferenças, nomeadamente uma reviravolta final que não é muito surpreendente porque se faz anunciar com certa antecedência mas cuja descoberta constitui boa parte do que faz andar a narrativa deste Filho da Mãe, pelo que não falarei dela aqui.
Uma coisa que me incomodou neste conto foi uma forte dissonância entre o tema melancólico, acompanhado pelo enredo, igualmente melancólico, e o estilo de Moreira, composto quase inteiramente por frases muito curtas, quase sincopadas, que parecem muito mais adequadas para uma narrativa ágil de ação do que para um conto como este. Disso não gostei, especialmente de início, ainda que com o avançar da leitura essa dissonância me fosse incomodando cada vez menos. Como nunca tinha lido nada dele, não sei se foi propositado, isto é, se Moreira decidiu escrever assim esta história em concreto, ou se é o estilo que usa habitualmente. Mas não me agradou.
Tirando esse detalhe, no entanto, o conto é interessante e está bem concebido. Não posso dizer que tenha gostado dele, propriamente, mas também não deixei de gostar.
Contos anteriores deste livro:
Uma coisa que me incomodou neste conto foi uma forte dissonância entre o tema melancólico, acompanhado pelo enredo, igualmente melancólico, e o estilo de Moreira, composto quase inteiramente por frases muito curtas, quase sincopadas, que parecem muito mais adequadas para uma narrativa ágil de ação do que para um conto como este. Disso não gostei, especialmente de início, ainda que com o avançar da leitura essa dissonância me fosse incomodando cada vez menos. Como nunca tinha lido nada dele, não sei se foi propositado, isto é, se Moreira decidiu escrever assim esta história em concreto, ou se é o estilo que usa habitualmente. Mas não me agradou.
Tirando esse detalhe, no entanto, o conto é interessante e está bem concebido. Não posso dizer que tenha gostado dele, propriamente, mas também não deixei de gostar.
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terça-feira, 15 de outubro de 2019
Charlotte Perkins Gilman: O Papel de Parede Amarelo
E aqui temos um clássico. Não só um clássico, aliás, mas o primeiro conto desta pequena antologia que tem realmente todos os elementos de um conto de horror: uma história perturbadora, fantasmagórica, sobre uma personagem que talvez seja louca, talvez seja apenas (com muitas aspas) vítima do sobrenatural.
Mas o que transforma esta história de Charlotte Perkins Gilman num clássico nem é isso. Sim, O Papel de Parede Amarelo (bibliowiki) é uma história de terror bastante boa mas o que a eleva acima da maioria das outras não é nem o papel de parede, nem a protagonista, nem a forma como esta se deixa fascinar por aquele, imaginando-o (e será imaginação?) animado de vida própria, servindo de uma espécie de escape para qualquer coisa que nele vive e que a páginas tantas dele sai, transferindo a sua essência para o mundo cá fora. Para ela. Não. O que eleva esta história mais alto é o seu subtexto.
O subtexto é de luta, de denúncia. Este conto, com a autêntica clausura que a mulher sofre às mãos do marido, médico, porque está "nervosa" e tem de repousar para ficar de novo boa, é usado por Gilman para mostrar a menorização das mulheres na sociedade do seu tempo, a escassa atenção que aquela prestava às suas opiniões e problemas, e as consequências devastadoras que isso pode ter. Tudo o que a protagonista da história faz, fá-lo às escondidas do marido e este é para ela uma presença constantemente ameaçadora, apesar de armada das melhores intenções, pelo menos segundo a sua própria opinião. A fantasmagoria, o mergulho no papel de parede amarelo, é assim uma espécie de escape de uma prisão psicológica que a sufoca.
Este é das tais histórias de género que, longe do escapismo que tantas vezes se lhes quer colar, usam as convenções do género para fazer análises bastante profundas de questões sociais, psicológicas ou ambas. Geralmente são essas as melhores histórias de género, e é o caso aqui. Este conto é muito bom. Só é pena não ser condignamente servido pela edição.
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Mas o que transforma esta história de Charlotte Perkins Gilman num clássico nem é isso. Sim, O Papel de Parede Amarelo (bibliowiki) é uma história de terror bastante boa mas o que a eleva acima da maioria das outras não é nem o papel de parede, nem a protagonista, nem a forma como esta se deixa fascinar por aquele, imaginando-o (e será imaginação?) animado de vida própria, servindo de uma espécie de escape para qualquer coisa que nele vive e que a páginas tantas dele sai, transferindo a sua essência para o mundo cá fora. Para ela. Não. O que eleva esta história mais alto é o seu subtexto.
O subtexto é de luta, de denúncia. Este conto, com a autêntica clausura que a mulher sofre às mãos do marido, médico, porque está "nervosa" e tem de repousar para ficar de novo boa, é usado por Gilman para mostrar a menorização das mulheres na sociedade do seu tempo, a escassa atenção que aquela prestava às suas opiniões e problemas, e as consequências devastadoras que isso pode ter. Tudo o que a protagonista da história faz, fá-lo às escondidas do marido e este é para ela uma presença constantemente ameaçadora, apesar de armada das melhores intenções, pelo menos segundo a sua própria opinião. A fantasmagoria, o mergulho no papel de parede amarelo, é assim uma espécie de escape de uma prisão psicológica que a sufoca.
Este é das tais histórias de género que, longe do escapismo que tantas vezes se lhes quer colar, usam as convenções do género para fazer análises bastante profundas de questões sociais, psicológicas ou ambas. Geralmente são essas as melhores histórias de género, e é o caso aqui. Este conto é muito bom. Só é pena não ser condignamente servido pela edição.
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