sábado, 21 de dezembro de 2019

Rui Cardoso Martins: O Progresso da Humanidade

Regresso após alguns meses a estes ebooks publicados pelo DN e preparados pela Escritório, e regresso bem, com um conto de um autor que já tinha lido antes, e do qual já tinha gostado: Rui Cardoso Martins. Aliás, já antes tinha lido este conto, precisamente. É que O Progresso da Humanidade é um dos poucos contos desta coleção que não são inéditos, tendo sido publicado num dos números da revista Ficções que li há uns anos. Há oito anos, para ser preciso. A avaliação que dele fiz em 2011 está aqui.

Relendo-o agora, encontro nele coisas que não mencionei em 2011, e uma é bastante relevante. Não sei bem se porque em 2011 a besta fascista ainda não estava com a cabeça tão erguida como está hoje, apesar de já se mostrarem claramente os sinais para quem soubesse vê-los, se porque li o conto muito poucos meses depois de perde o meu pai, numa altura em que não estava propriamente aberto a apreciar ironias, o certo é que na altura pareço não ter reparado (ou achado importante mencionar) na pesada ironia que envolve toda a história do menino nazi, e no caráter patético, diria mesmo imbecil, que Rui Cardoso Martins lhe atribui.

Consequentemente, gostei mais desta leitura que da primeira. Continuo a achar que este conto não é nada de superlativo, mas é dos melhores contos incluídos nesta coleção.

Sapphire Fayer: Princesa dos Dragões

Este é um conto absolutamente adolescente. Não, não é um conto YA, pois estes são regra geral escritos por escritores pelo menos razoavelmente maduros, mesmo quando os temas e as abordagens são adolescentes. Este não. Este é um conto em que a imaturidade é total, começando pelo pseudónimo escolhido pela autora e acabando na história que ela conta, passando por tudo o resto, mas sobretudo, porque é essencial quando se contam histórias por escrito, pela escrita propriamente dita.

Nos tempos em que havia fanzines, contos destes marcavam muitas vezes as estreias de uma porção razoável dos fãs candidatos a escritores, os quais, quando os reliam anos mais tarde, depois de ganharem conhecimentos e experiência, não era raro renegarem-nos. Mas os fanzines praticamente acabaram, não foram substituídos de forma consistente por publicações eletrónicas, ou na verdade por quaisquer outras, e este tipo de coisa acaba por acolher-se em antologias duvidosas. Como esta.

Mas o que escreveu, ao certo, a autora que assina como Sapphire Fayer? O título, Princesa dos Dragões (bibliografia), já dá todas as pistas. É um conto de fantasia carregadinho de dramatismo, sobre a filha adolescente do rei dos dragões, que, como qualquer adolescente caprichosa, revira os olhos a cada palavra ou ato do pai, com o qual viaja até à «ilha dos dragões» onde os dois vão deparar com uma batalha, na qual mergulham e em consequência da qual acontece uma tragédia que a deixa chorosa e resignada com o seu destino régio. Fim. Tudo um bom bocado incoerente e gratuito e escrito num português fracote.

Sim, este conto é mau. Não quer dizer que a pessoa por trás do pseudónimo não possa um dia produzir material realmente interessante, ou até bom — todos começamos por baixo — mas aqui ainda estava a muitos anos disso. Precisava de amadurecer, de ler muito e de escrever bastante para descobrir o que funciona e o que não funciona. Mas escrever e publicar são coisas diferentes. Se é verdade que publicar tem vantagens, não é menos verdade que constitui com frequência um choque demasiado violento com as realidades da opinião pública para quem não está preparado para elas e está ainda longe de ter as suas capacidades aprimoradas, o que leva com frequência à desilusão e esta ao abandono.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Paulo Mota: Amanhecer Etéreo

O que será que leva tantos autores portugueses que enveredam pela ficção científica, pelo menos nesta antologia (mas não só; vejam-se tantas das ficções do João Barreiros ou do Telmo Marçal, entre outros), a misturá-la com o horror?

Sim, foi o que fez também Paulo Mota. Amanhecer Etéreo (bibliografia) é um conto sobre um astronauta americano que sobe à estação espacial como solução de emergência para concluir uma reparação em atividade extraveicular, a qual causara a morte do astronauta chinês que tentara realizá-la anteriormente. E acaba como história de fantasmas. Ou de loucura, talvez. Sim, fica a dúvida, dúvida essa, entre fantasmas e loucura, que é uma característica muito usada nas histórias de terror.

A ideia podia ter pernas para andar. Mas Paulo Mota concretiza-a mal, não só por encher o seu conto de referências extremamente vagas a aparelhos e procedimentos, o que transmite uma fortíssima sensação de que pouco ou nada sabe sobre aquilo de que está a falar (e isto é fatal para quem tenta escrever FC) ou porque o argumento do conto está mais esburacado que uma peneira (o que não será tão fatal, mas também acaba por ser), mas também porque o português que utiliza é fraco, cheio de imagens batidas e de adjetivos desnecessários.

Esta história é muito fraquinha. A qualidade, que nunca foi famosa, tende a decair com o avançar da antologia, pelos vistos.

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Manuel Alegre: Alma

Escolher excertos de romances para incluir em coletâneas ou antologias tem muito de arte, mesmo que certos romances facilitem mais a vida aos praticantes dessa arte do que outros. Convém encontrar um equilíbrio entre a vontade de despertar curiosidade para o livro exterior ao excerto e a igualmente forte vontade de apresentar um texto cuja leitura não se apresente frustrante, isto é, um texto demasiado aberto, que funcione particularmente mal quando isolado do resto.

No caso deste texto de Manuel Alegre a escolha foi bastante feliz, ainda que o autor tenha facilitado muito. Com efeito, Alma, primeiro capítulo do romance homónimo, funciona perfeitamente como conto independente, narrando uma história de infância, ambientada nos círculos (maioritariamente) republicanos e progressistas de uma terreola beirã em plena fase inicial (segundo parece; nisso o texto não é claro) do salazarismo.

O protagonista é um miúdo, descendente de uma família que é uma espécie de aristocracia republicana local, por mais que isso constitua um contrassenso, e oposicionista do regime. Há na terra uma espécie de ritual, no qual se celebram os valores republicanos e a liberdade, e o miúdo, dada a sua condição de príncipe não oficial, tem de estar presente. Mas ao mesmo tempo há jogo de bola, joga o clube da terra. E o puto, que tem bastante mais interesse pela bola que por cerimónias chatas, rebela-se, proclamando-se monárquico. Escandaleira, claro. Mas no fim tudo se resolve.

É um texto bastante bem escrito e bastante interessante, retratando com carinho mas também com ironia mais ou menos corrosiva uma certa camada da burguesia antissalazarista e provinciana de que o próprio autor faz parte (afinal, nasceu em Águeda), pelo que deverá conhecê-la bem. Não terá chegado para me despertar verdadeiramente a curiosidade pelo romance completo — prefiro outras literaturas, como é sabido — mas foi sem dúvida uma leitura agradável.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Pedro Sena-Lino (org.): Avenidas sem Sentido (#leiturtugas)

Nas minhas leituras mais recentes tem sido abundante um tipo específico de livro: antologias e coletâneas que compro por curiosidade de ver se por acaso lá dentro se acoita alguma história fantástica ou até, quem sabe, de ficção científica. E, ainda que seja raro encontrar FC, tem sido bastante frequente encontrar nelas contos de outras facetas da ficção especulativa, ao ponto de alguns desses livros se poderem encarar como obras de ficção especulativa com alguns contos de outros géneros lá misturados.

Avenidas sem Sentido não vai tão longe; a maioria dos contos aqui incluídos — e não sei se se pode falar em escolhidos, uma vez que esta antologia é o resultado de uma oficina de escrita criativa ministrada por Pedro Sena-Lino — pertence à variante realista da literatura. Mas não deixa de incluir um punhado de histórias de ficção especulativa. Aliás, abre logo com uma. Ao todo, 4 destas histórias podem integrar-se na ficção especulativa.

O nível geral é bom. Há alguns contos mais fracos (e um que achei mesmo mau), mas também há contos muito bons, tanto em termos de conto propriamente dito como em termos de adequação aos meus gostos literários, e há outros que, não sendo para o meu gosto, são igualmente bons. Como é habitual neste tipo de livro, a abordagem literária, no sentido de se dar mais relevância ao burilamento do texto do que propriamente ao seu conteúdo, tende a sobrepor-se ao resto, mas não o faz muito e há histórias que equilibram bastante bem forma e conteúdo. Destaco muito em especial o Conto Bizantino como a melhor história da antologia e Esta Casa não Foi Feita de Paredes como a segunda melhor. Entre os fantásticos, o melhor será provavelmente Deriva Divina.

Em suma, esta foi uma leitura genericamente agradável. Bastante melhor do que eu esperava à partida, confesso.

Eis o que achei de cada um dos dezasseis contos:
Este livro foi comprado.

Joel Puga: O Último

Este é um conto curioso porque, sendo um conto de ficção especulativa, é fundamentalmente uma espécie de declaração de amor à ficção especulativa. Joel Puga arranja uma personagem de fantasia razoavelmente típica e de fundo cristão, um homem que, descontente com o aspeto dos dois sítios onde poderia ir passar a eternidade, tanto o céu quanto o inferno, decide simplesmente não morrer, dedicando-se (ou submetendo-se, o que vai dar ao mesmo) ao vampirismo. E assim transforma-se em O Último (bibliografia). Mas depois aborrece-se; a eternidade, mesmo quando não é propriamente eterna, tende a tornar-se chata. Solução? Ler. Não qualquer coisa, mas especificamente ficção especulativa.

Mas claro que nada dura para sempre e, tendo o conto fundo cristão, nele aparece o Armagedão, onde os exércitos de anjos e demónios se enfrentam numa derradeira batalha. E o vampiro imortal é apanhado no meio, sabendo que isso significa o fim. Curioso. Mas não propriamente bom; não está suficientemente bem escrito para o ser, e a própria estrutura do conto, demasiado descritiva, não é a melhor. Mas sim, curioso.

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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

R. M. Berry: Cegueira Uxória

R. M. Berry, o(a) misterioso(a) autor(a) deste Cegueira Uxória (bibliografia) — uma tradução algo desajustada, pelo seu eruditismo, para o mui prosaico título original de Wife Blindness — é bem capaz de ser uma mulher. Ou então é um homem cheio de ironia autocrítica. É que a doença que descreve é enfermidade extremamente comum, diz-se, na população masculina casada, cujos sintomas são principalmente uma progressiva incapacidade... de ver a mulher.

Este é um texto divertido, ainda que sem o rasgo literário de uma Assimilação de Tian Shan-Góbi, por exemplo. A ironia é quase sempre bastante óbvia, visto que corresponde a queixas conjugais que acompanham a vida de casado desde há séculos, com as variações próprias da evolução social e tecnológica. Mas cumpre, tanto os objetivos como a proposta.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 15 de dezembro de 2019

Leiturtugas da semana #45

Mais uma semana, mais Leiturtugas, que isto desde setembro tem sido sempre a aviar. Desta vez começamos pelos suspeitos do costume, pois quem começou a publicar coisas relevantes para o projeto foi o Artur Coelho, opinando mais uma vez sobre BD, numa opinião bastante curta que, como é hábito quando o assunto é BD, remete para uma opinião mais desenvolvida noutro lado. A BD em causa intitula-se All Watched Over By Machines Of Loving Grace, um título inglês para textos em português, e é uma antologia de várias histórias criadas por uma porção de gente: Amorim Abiassi Ferreira, Ana Maçã, André Pereira, Cátia Serrão, Cláudia Salgueiro, Dois Vês, Félix Rodrigues, João Carola e Vasco Ruivo. É uma edição da Chili Com Carne.

E depois veio mais uma suspeita do costume, a Cristina Alves, com a quarta e última parte da sua opinião sobre a mais recente edição de O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, de João Barreiros. Ambos têm os objetivos cumpridos, pelo que nada de sinalefas.

Mas não ficámos por aqui, pois também a Carla Ribeiro publicou uma opinião integrada no projeto, sobre o livro de estreia de Mário de Carvalho, Contos da Sétima Esfera, recentemente reeditado pela Porto Editora. Trata-se fundamentalmente de uma coletânea de contos fantásticos mas, como contém um conto que roça pela ficção científica (O Bólide), conta como "com FC", o que leva a Carla a 5c3s.

sábado, 14 de dezembro de 2019

Franz Kafka: Fábula Breve

De nove linhas e um penduricalhozito se faz em versão portuguesa este miniconto de Franz Kafka que, precisamente como o título indica, é uma Fábula Breve. Uma fábula breve e bastante niilista, sobre um rato, que vê a vidinha a andar para trás sob a forma de um mundo que o encurrala, e um gato, que é gato e trata o rato como é costume um gato tratar um rato. Não é nada de invulgar ou extraordinário, este continho; é uma fábula breve, nada mais.

Contos anteriores deste livro:

Luísa Costa Gomes: O Fosso e o Pêndulo

Quem conhece alguma coisa sobre a obra de Edgar Allan Poe sem dúvida terá lido um dos seus melhores contos, O Poço e o Pêndulo, e não lhe custará nada ver no título desta história de Luísa Costa Gomes uma referência óbvia a esse conto. O Fosso e o Pêndulo até foneticamente é quase igual ao título português do conto de Poe. Mesmo assim, não vá dar-se o caso de alguém ser tão obtuso que não entenda a ligação, a autora ainda inicia o seu conto com uma citação em epígrafe do conto de Poe. Pronto. Assim toda a gente percebe.

Aqui na Lâmpada falei duas vezes sobre o conto de Poe, primeiro aqui, depois aqui, e não foram as únicas vezes que o li; já o tinha lido antes de começar a escrever em blogues e sites. Ou seja, conheço-o razoavelmente bem. Mas mesmo assim custa-me a encontrar a ligação com o conto de Luísa Costa Gomes.

Poe escreve sobre um homem sujeito a tortura psicológica. Costa Gomes escreve sobre um assassino, ou pelo menos sobre um homem que se sonha assassino. Sim, é mal definido. De resto, todo o conto o é, repleto de um onirismo de pesadelo. Talvez seja essa a ligação entre as duas histórias, pois também a de Poe tem muito de pesadelo. Mas é a única que vislumbro.

A personagem de Costa Gomes, batizada como Vândalo, depois de matar (ou de sonhar matar, talvez) uma velha, foge, mete-se num comboio, foge a um polícia que só queria ser prestativo, associa-se a um gigante contrabandista, e por aí fora, não necessariamente por esta ordem, e acaba enterrado vivo, por vontade própria, por um velho gagá que com toda a certeza se vai esquecer de o desenterrar três dias mais tarde como ele lhe pede. Porquê? Sabe-se lá. Tudo no sonho... digo... no conto é gratuito, incoerente, insólito. Analisá-lo literariamente é impossível sem recorrer às técnicas mais ou menos astrológicas da interpretação de sonhos, e eu não sou gajo de astrologias. Está bem escrito, sim, como é costume da autora. Por aí não há queixas. Mas soube-me a pouco.

Contos anteriores deste livro:

Marcelina Gama Leandro: Carvalho-e-Velho

Um conto com o título de Carvalho-e-Velho (bibliografia) seria bastante surpreendente se não andasse pelas veredas do fantástico, fantasia ou horror rurais. E Marcelina Gama Leandro entrega precisamente o que o título faz esperar: uma história de horror rural, razoavelmente bem escrita e melhor concebida, sobre um miúdo que, pela inteligência, solidariedade e coragem, se destaca na aldeia, e o seu irmão. Ou então sobre um segredo tenebroso.

Esta é daquelas histórias construídas por forma a sugerir mais do que revelar, e consegue fazê-lo bastante bem. Quase tudo fica indicado por meias palavras, com uma subtileza que, muito francamente, não esperava encontrar neste livro. O ambiente está bem caracterizado, as personagens, embora pouco desenvolvidas como seria inevitável numa história deste tamanho, são credíveis, e não há aqui aquela sensação de que tudo foi apressado para caber no espaço disponível, que tantas vezes tem surgido nas histórias anteriores. Este conto consegue chegar ao patamar do bom.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Vanda Belo: Vida de Faz de Conta

Diz na introdução deste Vida de Faz de Conta, brevíssima apresentação de conto e autora como as que antecedem todos os outros, que Vanda Belo se estreou com esta história. Pois bem: se assim é, está de parabéns porque, à parte umas distrações com o tempo narrativo (quase todo o conto é narrado no presente, mas volta e meia passa ao passado sem que se vislumbre motivo para isso), quem dera a muitos de nós começar com esta maturidade.

E o conto (que na verdade é uma noveleta) nem é daqueles que mais me interessam. É uma história mundana, mais uma, sobre a incomunicabilidade num casamento que entra em crise fatal quando o marido perde o emprego. E não informa disso a mulher, continuando a manter a aparência de tudo estar bem, saindo às horas do costume, regressando a casa às horas habituais mas, em vez de trabalhar ou de tentar encontrar outro emprego, passando os dias a vaguear pela cidade.

Claro que esta vida de faz de conta vai ter consequências. E Vanda Belo explana-as bem, com a ressalva expressa acima. É um bom texto, este, mesmo estando longe do tipo de conto que mais me costuma agradar.

Contos anteriores deste livro:

Barry N. Malzberg: Dois Mil e Sessenta e Um

Dois Mil e Sessenta e Um (bibliografia), o título deste pequeno conto de Barry N. Malzberg, pertence àquela rarefeita categoria de títulos que acrescentam à história que titulam alguma informação que ela, só por si, não contém. Que informação? Bem, não é possível ter grandes certezas, mas tudo indica que se trata de uma data. A data em que a história se desenrola.

É que a história propriamente dita dispensa caracterizações assim tão finas. É um continho razoavelmente divertido sobre dois homens, um paciente e um terapeuta, que têm uma conversa durante a qual o primeiro procura convencer o segundo de que a experiência a que se submeteu está a ter efeitos secundários indesejáveis, ideia a que o interlocutor resiste enquanto lhe é possível. Que experiência? A autoindução de uma doença mental.

É daqueles contos engenhosos, feitos para uma reviravolta final deixar no leitor aquela sensação de "Ah-ha! Espertinho!" Também tem ironia e algum bom humor. Tudo boas qualidades. Mas não me agradou por aí além: por baixo da prestidigitação literária centrada no enredo este continho é bastante vazio. Uma brincadeira, que até pode ser razoavelmente divertida mas que não tem grande sumo ao espremer. Não é mau, mas também não é bom.

Conto anterior desta publicação:

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

FC portuguesa? Para onde vai?

Não estava previsto escrever agora isto, mas o Artur Coelho disse de sua justiça sobre esta conversa nas suas duas últimas colunas no Bit2Geek, e eu discordei dele, de modo que teve de ser. Nas duas últimas, mas especialmente na última; basicamente estou de acordo com o que ele diz na primeira. E este "primeira" e "segunda" referem-se ao momento em que comecei a escrever este texto. É muito provável que quando o acabe ele já tenha dito mais coisas, mas agora só vou falar sobre o que está aqui.

Se eu aceitasse o diagnóstico que ele apresenta com o habitual fatalismo de quase todas as discussões sobre este tema, fechava simplesmente a loja, deixava de fazer coisas, deixava de comentar coisas, remetia-me ao meu mundinho, a escrever as minhas coisinhas para me livrar delas e a metê-las na gaveta (o que é basicamente o que faço agora) e mais nada (o que não é o que faço agora). Mas não o aceito, por isso continuo a fazer coisas. Porquê? Porque vejo as coisas de outra forma. Eis o que eu vejo:

Vejo um movimento no âmbito da FC portuguesa como nunca houve. Com oscilações de ano para ano, naturalmente, com as suas carências, claro, mas vejo mais gente a escrever, a publicar, possivelmente até a ler (ainda que não seja muito fácil aferir este último dado com o recolhimento de demasiada gente e comentário a redes sociais mais ou menos fechadas) do que alguma vez houve. No "ano milagroso" de 1993, havia basicamente uma editora a publicar FC portuguesa, a Caminho, e o ano só foi milagroso porque quase todo o seu catálogo do ano foi ocupado por FC portuguesa; hoje há várias, ainda que algumas — ou muitas — prefiram chamar outras coisas à FC que publicam. E os números vão no mesmo sentido: no "ano milagroso" de 1993 publicaram-se cerca de 10 livros de FC portuguesa. Bem mais do que era hábito na época. Pois calha que em 2017 se publicaram 25, mesmo sendo alguns reedições e outros ebooks; em 2018 foram 32; E este ano, mesmo sendo claramente o pior dos três, ainda hão de acabar por ser à volta de uns 20. E isto contando só com os títulos recolhidos pelo Ficção Científica Literária; há de certeza mais. Não há é comparação possível.

Vejo dois livros distópicos, parentes muito próximos da FC, portanto (se não forem mesmo FC), a serem finalistas de prémios literários portugueses este ano: Ecologia, da Joana Bértholo, e Meio Homem, Metade Baleia, de José Gardeazabal. Alguma vez aconteceu? Só com o Saramago, que eu saiba.

Quanto à velha história de que a FC como género é mal vista também dava pano para muitas mangas. Dentro do fandom (dos fandoms, que isto não é coisa só nossa; até os americanos se queixam do mesmo) existe essa velha queixa de que a visão exterior sobre o género é condescendente e desrespeitosa, mas faz-se demasiado de conta de que a visão do género sobre o exterior não tende a ser igualmente condescendente e desrespeitosa. Eu percebo porquê — também me sinto atingido quando leio coisas fraquinhas de escritores ditos "sérios", com temas, abordagens e ideias que já tinham sido antes exploradas, e tantas vezes melhor, por escritores de FC. Mas a verdade é que escamotear a realidade não ajuda ninguém... nem mesmo à projeção pessoal de quem a escamoteia. A realidade é que a FC é mal vista tanto por culpa da tacanhez e ignorância alheia, o que a malta adora sublinhar, quanto da sua própria arrogância e ignorância, o que a malta faz tudo para esconder. E sim, quando eu digo "a malta" estou a incluir-me: também fui muitas vezes — e ainda sou, de vez em quando — culpado disso.

Por outro lado... com duas distopias finalistas de dois prémios literários daqueles "de prestígio", só este ano, como é? A verdade é que os "bem-pensantes" só são contra a ficção científica quando percebem que estão a ler ficção científica. Se ninguém lhes disser nada, consomem-na com gosto e ainda lambem os beiços. Quando pegam num Ensaio Sobre a Cegueira e o enchem de elogios nem lhes passa pela cabeça que estão a elogiar um romance de ficção científica social, segundo a terminologia do Asimov. Porquê? Porque só olham para o que sai do gueto ou nunca lá entrou. E é por isso que eu até percebo quem rejeita o rótulo de FC, apesar da minha abordagem ser a oposta: dar o rótulo a tudo o que seja FC, quer o seja com "pureza", quer o seja impuramente.

No que está dentro do gueto há carências? Claro que há. Falta qualidade, provavelmente — é por exemplo deprimente constatar que quase 30 anos depois da publicação original do Caçador de Brinquedos ainda não tenha aparecido ninguém a escrever "FC-de-gueto" melhor que o Barreiros... e que o próprio Barreiros não tenha evoluído por aí além desde essa época — mas como eu não acredito que a qualidade seja de geração espontânea, isto é, que seja possível a existência de uma qualidade sustentada sem que antes haja quantidade, só posso achar que vamos no caminho certo. Devagarinho, frustrantemente devagarinho, mas no caminho certo.

(Já agora, esta relação quantidade - qualidade aplica-se não só em geral mas também no particular. Quem não escreve mais que dez ou vinte páginas por ano, se tanto, só muito dificilmente conseguirá escrevê-las bem. Escrever é tanto uma arte como uma técnica e, como qualquer técnica, também depende de uma espécie de "memória muscular" — apesar de não haver metidos nisto músculos dignos de nota — mental para ser feita bem. Sem treinar, há coisas que começam a perder-se e demoram a recuperar.)

É que havendo coisas, a academia mais tarde ou mais cedo acaba por aparecer. Um académico sério (e eles existem) estuda o que existe, pelo que o que é realmente importante é as coisas existirem. Isso é a base, e é essa base que parece agora estar finalmente a começar a ser construída. Quanto mais as coisas existirem, mais dignas de nota se tornam. Quanto mais relevantes forem, também. Um dia haverá quem repare que andamos por cá... e se não houver, também, que importa? O que é que interessa mais, a aprovação da academia ou da literatura estabelecida, ou leitores?

Eu cá prefiro leitores, francamente.

Emanuel R. Marques: A Desconhecida

Comecei praticamente o ano a ler um conto em ebook do Emanuel R. Marques, e quase ao fechar o pano leio um conto do mesmo autor, agora em papel. E se não gostei particularmente do conto que li em janeiro, do que li em dezembro gostei ainda menos.

Continuamos em tom de horror. A Desconhecida (bibliografia) é um conto de fantasmas com uma pequena diferença; enquanto na maior parte de histórias de fantasmas estes são visíveis para a pessoa que assombram, ou então para toda a gente, aqui o fantasma, isto é, a desconhecida do título, é visível para todos menos para a pessoa que assombra. É um elemento positivo do conto. De resto, não tenho grandes queixas relativas à ideia ou até à maior parte da construção narrativa. São interessantes, umas e outras.

O problema é este conto estar bastante mal escrito. Há autores que precisam que lhes seja inculcada a ideia de que menos é muitas vezes mais, em particular quando não têm o domínio sobre a língua portuguesa que é indispensável para se fazer bem certas coisas. Não há nisso nenhuma desgraça; esse domínio é algo que se adquire. Mas leva tempo. Tempo, muita leitura e muito texto escrito, em especial mas talvez não exclusivamente na língua em que se trabalha, tanto a leitura quanto a escrita. É por isso que é tão útil escrever em blogues, por exemplo: obrigam a uma assiduidade no trabalho com a língua que outras formas de produção de texto podem tender a descurar. Mas divago.

O que interessa é que por estar tão mal escrito este conto de fantasmas acaba por se tornar bastante mais fraco do que poderia ser. Tinha potencial para muito, muito mais.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Ray Bradbury: A Segadeira

Na literatura, inclusivamente naquela que gosta de se apresentar como a mais original, é pouco o que realmente se cria. As ideias, muitas vezes as mesmas sofrem múltiplas variações e recombinações e/ou são executadas de formas distintas por autores distintos. Há quem julgue que isso é plágio, mas não é. Não há plágio de ideias ou de conceitos; só a execução dessas ideias e conceitos é plagiável. Tudo o resto é intrínseco aos intercâmbios culturais que fazem parte do desenvolvimento de qualquer cultura, e é muito frequente que uma dada ideia surja em múltiplos momentos e sob múltiplas formas sem que sequer haja qualquer espécie de fecundação cruzada entre os criadores. Qualquer criador que seja honesto consigo próprio (e já para não falar dos outros) sabe que já teve ideias que veio a encontrar mais tarde em obras de outras pessoas, já teve ideias que só depois de as ter (às vezes muito depois das ter) compreende que nascem de sementes plantadas anos ou décadas antes por qualquer obra experimentada e depois esquecida, pelo menos na aparência, e muitos sabem também que já reutilizaram com plena consciência esta ou aquela ideia alheia.

Pois bem, não sei se Saramago leu ou não Ray Bradbury e, se leu, se terá ou não lido este conto. Podemos ter aqui contaminação de ideias, e igualmente podemos ter o desenvolvimento independente de uma ideia semelhante. Mas o que é facto é que este A Segadeira (bibliografia) tem elementos importantes em comum com um dos romances tardios de Saramago: As Intermitências da Morte.

Com efeito, também aqui temos a figura da Morte, que a páginas tantas se rebela. Não da mesma forma, no entanto. Talvez até se possa dizer que da forma oposta: enquanto a Morte de Saramago se rebela por amor, a morte de Bradbury fá-lo por desgosto. Também a morte é diferente, sendo a de Saramago a figura tradicional da Morte, nada mais sendo a de Bradbury que um pobre diabo que um certo e fatídico dia vai dar a uma quinta no oeste dos EUA, no meio, aparentemente, do período de fome generalizada que se seguiu ao Dust Bowl, nos anos 30, e onde encontra comida, uma seara pronta para ser colhida, um homem deitado na cama, morto, e um papel onde este transfere a propriedade da quinta para aquele que o encontrasse e a quisesse.

O conto segue depois o processo de descoberta por parte do homem das estranhas características daquelas espigas e do que elas realmente significam. E as consequências que tem essa descoberta, tanto para ele quanto para o mundo cá fora. É um conto muito bom, este; mais um dos grandes contos de Bradbury.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Em novembro falou-se de...

Francamente positivo, este mês de novembro, tanto no que toca às leituras de FC portuguesa, quanto no que toca (ou sobretudo no que toca) às de FC brasileira. Mas antes, vamos à conversa habitual dedicada àqueles que encontram pela primeira vez um post destes.

O que é isto, perguntam? Está explicado aqui. É o primeiro destes posts, e aí também se explica de onde vêm os dados, que limitações têm e o que se pretende com estas listas.

Listas, interrogam-se? Sim, que são já muitas e provavelmente virão a ser ainda mais. Todos os posts destes são reunidos pela etiqueta leituras fc, e se por acaso cá caírem depois de começar 2020 é praticamente certo que encontrarão não só as que ficaram para trás como aquelas que eu ainda não escrevi no momento em que aqui desenho estas linhas. E, claro, há estas que estão aqui por baixo.

Vamos então a elas, não sem que antes vos diga que no fim deste post haverá alguns comentários sobre o que aqui fica listado.

Ficção portuguesa:
  1. Almanaque Steampunk 2019, org. ??
  2. Aquilo, de Pedro Afonso (conto)
  3. O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, de João Barreiros (2x)
  4. Terrarium, de João Barreiros e Luís Filipe Silva
  5. Uma Manhã em Lisboa, de Nuno Fonseca (conto)
  6. A Anos-Luz, de Carmen Garcia
  7. Facelist, de Paulo Kellerman (conto)
  8. Reconversão de Excedentes, de Telmo Marçal (conto)
  9. 7 Contos Ilustr.s, org. Fernando Esteves Pinto
  10. O Cão, de Isabel Cristina Pires (conto) 
  11. Imortal, de José Rodrigues dos Santos
  12. Ensayo Sobre la Ceguera, de José Saramago
  13. Na Crista da Onda, de Luís Filipe Silva (conto)
Ficção brasileira:
  1. Histórias (Mais ou Menos) Assustadoras, org. ??
  2. O Primeiro Imortal, de Rodrigo N. Alvarez
  3. Amália Atrás de Amália, de Marco Aqueiva
  4. Jogos de Guerra, de J. M. Beraldo
  5. A Melhor Idade, de C. Nan Bianchi (2x)
  6. Asilo nas Torres, de Ruth Bueno
  7. Sob o Trópico de Capricórnio, de Pedro Carcereri
  8. O Jogo dos Sonhos, de Pedro Carvalho
  9. Serpentário, de Felipe Castilho (5x)
  10. Mestre das Marés, de Roberto de Sousa Causo
  11. As Pirâmides Revolucionárias, de Thunder Dellú
  12. A Eva Mecânica e Outras Histórias de Ginoides, de Daniel I. Dutra
  13. Colonização, de Day Fernandes (2x)
  14. Mundo Sombrio, de Day Fernandes
  15. A Era de Aquária, org. Coletivo Kriptocaipora
  16. Labirinto Digital, de Mario Kuperman
  17. Sete Faces da Ficção Espacial, org. Marcia Kupstas
  18. Operação Meleca Mutante, de Angélica Lopes
  19. Assim na Terra como Embaixo da Terra, de Ana Paula Maia
  20. As Cinco Esposas de Nathan, de Clovis Nicacio (4x)
  21. O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci (6x)
  22. Possessão Alienígena, org. Ademir Pascale
  23. A Sorte dos Girinos, de Carlos Patati
  24. O Fruto Maduro da Civilização / O Éter Inconsútil, de Ivan Carlos Regina
  25. Estranha Bahia, org. Ricardo Santos, Rochett Tavares e Alec Silva
  26. Contos Reversos, de Romy Schinzare (2x)
  27. A Torre Acima do Véu, de Roberta Spindler
  28. A Alcova da Morte, de Enéias Tavares, Nikelen Witter e A. Z. Cordenonsi
  29. A Morte e o Meteoro, de Joca Reiners Terron (2x)
  30. As Águas-Vivas não Sabem de Si, de Aline Valek
  31. Viajantes do Abismo, de Nikelen Witter
  32. WOW! O Primeiro Contato, de Pablo Zorzi
Ficção internacional:
  1. Histórias de Fantasmas, org. ??
  2. Mundos Apocalípticos, org. John Joseph Adams
  3. O Poder, de Naomi Alderman
  4. Meg, de Steve Alten
  5. Fundação, Isaac Asimov
  6. O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov (3x)
  7. Ponha o Pino A no Furo B, de Isaac Asimov (conto)
  8. Os Testamentos, de Margaret Atwood
  9. Declínio, de Jay Bonansinga
  10. Invasão, de Jay Bonansinga
  11. Raízes do Mal, de Gwenda Bond (2x)
  12. Os Passageiros do Tempo, de Alexandra Bracken
  13. Os Viajantes, de Alexandra Bracken
  14. Farenheit 451, de Ray Bradbury
  15. 4 Contra o Apocalipse, de Max Brallier (4x)
  16. Kindred, de Octavia E. Butler
  17. Ritos de Passagem, de Octavia E. Butler (3x)
  18. Sons da Fala, de Octavia E. Butler (conto)
  19. A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares
  20. Richter 10, de Arthur C. Clarke e Mike McQuay
  21. A Esperança, de Suzanne Collins
  22. Jurassic Park, de Michael Crichton
  23. A Cidade dos Espelhos, de Justin Cronin
  24. Recursão, de Blake Crouch
  25. A Máquina Preservadora, de Philip K. Dick
  26. Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick
  27. O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick
  28. Deus da Fúria, de Philip K. Dick e Roger Zelazny
  29. Man After Man, de Dougal Dixon
  30. Alongamento Vestigial das Vértebras Caudais, de L. Timmel Duchamp (conto)
  31. Angry Candy, de Harlan Ellison
  32. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry
  33. The World of Tiers, de Philip José Farmer
  34. A Libélula no Âmbar, de Diana Gabaldon
  35. Os Escravos da Górgona, de Curtis Garland
  36. Transformation, de Silviu Genescu (conto)
  37. Neuromancer, de William Gibson
  38. Metro 2033, de Dmitry Glukhovsky
  39. Crianças do Éden, de Joey Graceffa
  40. A Curva do Sonho, de Ursula K. Le Guin
  41. A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin (3x)
  42. Serotonina, de Michel Houellebecq
  43. À Beira da Eternidade, de Melissa E. Hurst
  44. O Céu de Pedra, de N. K. Jemisin
  45. Farewell Horizontal, de K. W. Jeter
  46. Illuminae, de Amie Kaufman e Jay Kristoff
  47. Flores para Algernon, de Daniel Keyes
  48. O Instituto, de Stephen King (13x)
  49. Belas Adormecidas, de Stephen King e Owen King
  50. A Ascensão do Governador, de Robert Kirkman e Jay Bonansinga
  51. A Queda do Governador, de Robert Kirkman e Jay Bonansinga
  52. Contágio, de David Koepp
  53. A Balada do Black Tom, de Victor Lavalle (2x)
  54. O Ano da Graça, de Kim Liggett
  55. A Cor que Caiu do Céu, de H. P. Lovecraft
  56. Medo Clássico, vol. 1, de H. P. Lovecraft
  57. O Despertar de Cthulhu, de H. P. Lovecraft (3x)
  58. Ladra de Almas, de Sarah J. Maas
  59. Liberta-me, de Tahereh Mafi
  60. Inspeção, de Josh Malerman (2x)
  61. O Começo, org. George R. R. Martin
  62. A Estrada, de Cormac McCarthy
  63. Odyssey, de Jack McDevitt
  64. Máquinas como Eu, de Ian McEwan (2x)
  65. Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller, Jr.
  66. Carbono Alterado, de Richard Morgan
  67. A Mulher do Viajante no Tempo, de Audrey Nieffenegger
  68. Quem Teme a Morte, de Nnedi Okorafor
  69. Starters, de Lissa Price
  70. A Chave Maldita, de James Rollins
  71. Em Tempos Havia os Bois..., de Charles W. Runyon (conto)
  72. História Verdadeira, de Luciano de Samóstata
  73. Seres Mágicos & Histórias Sombrias, org. Al Sarrantonio e Neil Gaiman
  74. Mindscan, de Robert J. Sawyer
  75. A Última Colônia, de John Scalzi
  76. Vilão, de V. E. Schwab
  77. Between the Strokes of Night, de Charles Sheffield
  78. Sight of Proteus, de Charles Sheffield
  79. Aniquilação, de Jeff VanderMeer
  80. Assimilação de Tian Shan-Góbi, de Jeff VanderMeer (conto)
  81. Através do Vazio, de S. K. Vaughn
  82. À Volta da Lua, de Jules Verne
  83. A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells (2x)
  84. Impostores, de Scott Westerfeld (2x)
  85. A Estrada Subterrânea, de Colson Whitehead
  86. Ascensão da Força Sombria, de Timothy Zahn
  87. Knight of Shadows, de Roger Zelazny
  88. As Horas Vermelhas, de Leni Zumas
Não-ficção brasileira:
  1. Atmosfera Rarefeita, de Alfredo Suppia
Não-ficção internacional:
  1. A Arte do Cinema: Star Wars, de anónimo
  2. Monstros Fabulosos, de Alberto Manguel (2x)
  3. Un Mundo Robot, de Javier Serrano
  4. Stranger Fans, de Joseph Vogel
Ficção internacional relacionada:
  1. The Infinite Future, de Tim Wirkus
Outro mês positivo no que toca à leitura e comentário de FC portuguesa, com o número de títulos a ultrapassar mais uma vez o número que me parece mínimo aceitável. Foram 13, com um deles a ser alvo de dois comentários (ainda que parciais). Claro que podemos olhar para isto de uma forma menos otimista: 6 dos 13 títulos correspondem a contos, uma percentagem muito superior de leituras curtas do que a que os outros grupos de leituras apresentam. Mas sendo mais comum entre nós a publicação de contos (isolados ou em coletânea) do que de romances, não deixa de ser natural que isso aconteça. Os destaques vão para João Barreiros, alvo de duas opiniões isoladas e uma em colaboração, e Luís Filipe Silva, alvo da mesma opinião em colaboração e uma isolada.

Quanto aos brasileiros, esses deram cabo de todos os recordes. 32 títulos ao todo, e nenhum é conto. É obra. Não sei ao certo (teria de ir ver e não estou com paciência), mas creio que este mês de novembro de 2019 é de longe aquele com leituras e comentários mais abundantes na FC brasileira. Tenho memória de um mês com mais de 20, mas nunca chegou aos 30. Já para não falar dos autores mencionados mais que uma vez, com destaque para Felipe Castilho (5 menções), Day Fernandes (3 menções distribuídas por dois títulos), Clovis Nicacio (4 menções) e Fausto Luciano Panicacci (6 menções), ainda que estes dois últimos devam mais agradecimentos ao marketing do que a menções "orgânicas". Suspeito que se passarão muitos meses até voltarmos a números destes.

E se é verdade que costuma acontecer que sempre que a leitura de obras lusófonas cresce a de obras traduzidas (ou na língua original) diminui, não foi isso o que aconteceu no mês passado. Com efeito, não só o número total de títulos, 88, é superior ao do mês anterior, como uma só obra foi alvo de 13 comentários, nada mais, nada menos. Coube a proeza a Stephen King, que ainda teve direito a mais um comentário a outra obra, esta escrita em colaboração. Além dele, os nomes que se destacam das leituras de novembro são Isaac Asimov, com 4 comentários distribuídos por 2 títulos, Max Brallier, também com 4 comentários mas apenas a um título, Octavia E. Butler, ainda com 4 comentários, de novo distribuídos por 2 títulos, Philip K. Dick, com 3 comentários a outros tantos títulos escritos só por ele e um 4ª a outra obra escrita em colaboração, Ursula K. Le Guin, mais uma vez com 4 comentários distribuídos por 2 títulos, e por fim H. P. Lovecraft, com 5 comentários distribuídos por 3 títulos.

E assim termina o último apanhado mensal das leituras lusófonas de FC deste ano de 2019. O próximo só chegará em 2020. Estes apanhados despedem-se até para o ano, portanto, mas eu ainda estou longe de o fazer. Até.

Luís Miguel dos Santos Teixeira: Esboços da Realidade

E da ficção científica, mesmo que impura, saltamos para o horror pelas mãos de mais um nome comprido: Luís Miguel dos Santos Teixeira. E o resultado é razoável. Esboços da Realidade (bibliografia) tem como protagonista uma família mergulhada em problemas devido a um filho doente, a uma mãe que abandona o emprego para cuidar do miúdo e a um pai que é forçado a trabalhar pelos dois, e como principal qualidade a de a história que pretende contar se ajustar bem à extensão do texto em que a conta. Não perfeitamente, mas bem.

O principal problema deste conto é tornar-se demasiado previsível demasiado depressa. Assim que aparece na história uma segunda mulher, torna-se óbvio que de uma forma ou de outra vai ser ela a causar um desfecho trágico qualquer... e ela aparece logo no início da segunda página. E assim o crescendo emocional que o autor pretende alcançar não acontece, e quando o desfecho surge aparece sem sombra do impacto que devia ter.

Mas apesar disso é um conto com o seu interesse e razoavelmente bem escrito. Um conto razoável, portanto.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 8 de dezembro de 2019

Leiturtugas da semana #44

Abrimos dezembro como fechámos novembro, isto é, com mais Leiturtugas a divulgar. Coube desta vez, e uma vez mais, à Cristina Alves a tarefa de marcar o ponto, com a terceira parte da sua opinião sobre a coletânea de João Barreiros lançada há alguns meses, O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias. Livro de FC, mas a Cristina tem os objetivos cumpridos, portanto deixemos as sinalefas para outra altura.

E parece que esta semana é só. Foi uma semana calma. Logo veremos o que a próxima nos traz.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

José Conrado Dias: Vou-me Embora

Quando alguém fala mal da atividade das vanity presses há autores que se amofinam, julgando que atacar a atividade das vanities é equivalente a atacá-los a eles, por publicarem por intermédio desse tipo de empresas. Enganam-se redondamente. O que realmente acontece é que uma vanity é uma empresa fundamentalmente predatória que pega nos sonhos de pessoas que pensam ter coisas a dizer por escrito, nada faz para otimizar a qualidade do texto e por vezes até da edição, quase nada faz para divulgar a edição junto de potenciais interessados, e no fim o resultado é o autor ficar sem o dinheiro (porque tem de pagar a edição do seu bolso) e/ou ter de ser ele quem anda a vender o livro para o prejuízo não ser maior, sem que ninguém lhe diga atempadamente se o seu livro vem com erros, sistemáticos ou ocasionais, se vem com gralhas, se vem com trechos demasiado e desnecessariamente confusos ou embrulhados, por aí fora. Assim, mais vale fazer uma edição de autor, francamente. Defender uma vanity press de quem fala mal dela é um bocado parecido com o síndrome de Estocolmo. É um bocado como uma gazela defender uma chita porque pelo menos a chita lhe dá atenção. Sim, tá bem, devora-a, mas ao menos dá-lhe atenção.

Já estão a ver o caminho que isto leva, não é?

Alguém — um revisor, coisa que as editoras a sério têm e de que as vanities não precisam porque o seu negócio não é a produção de texto de qualidade... e todos nós precisamos de revisor — devia ter dito ao José Conrado Dias que comete erros na colocação das vírgulas e no uso de outra pontuação, os quais chegam ao ponto de dificultar e, aqui e ali, impossibilitar a compreensão das suas frases. Ninguém o fez.

Alguém — um editor, neste caso — talvez lhe devesse ter também dito para controlar os seus impulsos pedagógicos, porque explicar aquilo que não padece de explicação pode satisfazer o bichinho docente (o autor é professor reformado) mas não é literário. A literatura vive da imaginação, não só do autor mas também do leitor, e o excesso de explicações mata-a. Também ninguém o fez. A consequência é este livro estar enxameado de notas de rodapé — 53 para 128 páginas pouco densas —, a maioria das quais perfeitamente escusadas. Já para não falar das explicações inseridas no próprio texto. Chega ao ponto de haver pelo menos um caso em que a mesma coisa está explicada no texto e numa nota de rodapé. Má ideia.

Também talvez fosse bom que alguém lhe tivesse dito que a simplicidade estilística que adotou na maior parte dos dois terços finais do livro gerou um texto de qualidade bastante superior ao que resultou da tentativa de fazer estilo do terço inicial. Também ninguém o fez.

Com todas estas ausências, naturalmente, o que sofre é a novela. Não fossem as ausências, Vou-me Embora podia ser significativamente melhor do que é, mesmo havendo neste texto algumas fragilidades que não se resolveriam apenas com a ação de uma editora propriamente dita. O final, por exemplo, precisaria de trabalho, uma vez que surge de uma forma tão abrupta que parece ter sido concebido para despachar. E poderia dar outros exemplos. Mas devidamente trabalhada, esta história podia ter algum interesse, ainda que para um público ao qual não pertenço.

Com efeito, não costumo gostar por aí além de histórias mundanas, como quem lê habitualmente o que vou aqui escrevendo está farto de saber. E esta história é inteiramente mundana; uma história semiautobiográfica sobre um homem, professor reformado, que deambula entre Portimão, Lisboa e Cabo Verde, encontrando-se e desencontrando-se com várias mulheres (sobretudo) e culturas. Resolvidas as fragilidades listadas acima, e talvez encontrado um eixo mais sólido em torno do qual desenvolver a história, podia ser um panorama interessante dos contrastes e semelhanças entre as vivências caboverdiana e portuguesa, ou uma reflexão sobre uma série de coisas que o texto aflora mas nunca aprofunda, da relação e/ou contraste entre sexo, afeto e amor à mortalidade. Mas dificilmente seria coisa que me enchesse as medidas: o meu gosto simplesmente não combina com este tipo de história.

Este livro foi comprado.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

João Manuel da Silva Rogaciano: Enganando a Morte

Mais ficção científica bastante impura. Enganando a Morte (bibliografia), de outro autor que mais tarde apareceu por aí com um nome bastante mais curto mas aqui assina como João Manuel da Silva Rogaciano, começa como um conto clássico de FC, no qual um milionário confrontado com um diagnóstico de carcinoma incurável e fatal resolve enganar a morte através de um tratamento tão radical quanto criminoso, além de extremamente caro, inacessível ao comum dos mortais: a troca de corpos. Arranjar-se-ia um dador, jovem e, se involuntário, pois azar o dele, e transferir-se-ia para o corpo desse dador a sua personalidade. Até aqui, tudo parece FC pura e dura. Depois deixa de parecer.

É que o dador não é um ser humano normal, mas um lobisomem. E isso vai ter consequências interessantes.

Este é um conto interessante. Talvez seja o primeiro conto desta antologia cuja história me parece adequar-se realmente bem à extensão (e é mais curto que todos os anteriores, o que talvez seja significativo), sem deixar no ar a impressão de coisa encavalitada numa extensão pequena porque tem de ser. Não tem grande rasgo literário, é certo, mas o texto não deixa de ser competente.

Incluindo a reviravolta final, que está bem concebida mas não muito bem executada, incluindo demasiada explicação para ter realmente o impacto que podia ter. É competente, mesmo não sendo particularmente boa. E isso chega para estar acima da média das histórias que o acompanham neste princípio do material em prosa.

Textos anteriores deste livro:

Escrita de novembro


Às vezes acontece. Um tipo chega a um ponto de certo bloqueio e fica a remoer sobre a melhor forma de sair dele. Quando isso acontece no início de uma história e já se sabe mais ou menos como ela vai seguir depois do bloqueio, pode-se saltar para outra cena qualquer e ir escrevendo, mas quando acontece com a história já adiantada e desse bloqueio depende a forma como se enquadra o fim, não há grande coisa a fazer, além de escrever, não gostar, apagar, escrever de novo e repetir o processo quantas vezes forem necessárias para, pelo menos, ficarem as linhas gerais da coisa estabelecidas.

Foi o que aconteceu em novembro. O romance avançou pouco e não me agrada muito o que avançou. Houve escrita, apagamento e reescrita de vários trechos e é provável que continue a haver. Ao todo, devo ter escrito mais de 30 páginas, mas descontando o que foi apagado e refeito o saldo final fica-se pelas 22. Cerca de. 7600 palavras, mais coisa, menos coisa. E no fim do mês, parou. Acho que estou a precisar de passar um período sem escrever nada — de ficção, pelo menos; a tradução em curso e as coisas para o blogue vão sempre exercitando o manuseamento da palavra — para ver se regresso fresco e acabo finalmente esta história. Desde que voltei a pegar nela já se passou quase um ano, com muito poucas interrupções. Nunca estive tanto tempo a escrever uma coisa só, nem de perto nem de longe: o Embaixadores é mais pequeno que isto (pouco passa de metade, na verdade) e ficou feito em dois ou três meses, ainda que tenha depois sofrido várias revisões.

Mas estas oscilações são naturais e, feitas as contas, as coisas continuam a correr muito bem. Esta é a mais complexa história que eu já escrevi, e se não houvesse uns enguiçozinhos de vez em quando seria de estranhar. Acho que posso é dizer desde já que só vou terminar em 2020. Mas vou terminar em 2020. E aí já vou ter também um novo patamar a alcançar e ultrapassar. É que este ano já escrevi o equivalente a mais de 200 páginas de ficção, coisa que nunca antes tinha feito, nem nos meus tempos mais produtivos, em que escrevia mais coisas e mais depressa mas depois ficava uma porção de tempo sem escrever nada. Como quando escrevi o Embaixadores, ou de outra vez que devo ter escrito umas 70 páginas num só mês mas nem cheguei a somar-lhe outro tanto no resto do ano.

Portanto, siga. Dezembro também deverá ser fraco, mas hei de somar mais texto a esta história, certamente. Para o ano logo vos digo como foi.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Leiturtugas da semana #43

Ultimamente não tem havido semanas em falta nestas notas sobre as Leiturtugas da semana, e esta não foi exceção. Mas contrariamente às últimas semanas, nesta não foi nem o Artur nem a Cristina a fazer as honras da coisa, mas sim um tipo chamado Jorge Candeias, que leu e comentou a antologia 7 Contos Ilustr.s, organizada por Fernando Esteves Pinto e publicada pela Lua de Marfim. É um livro com FC, se bem que a esta altura do campeonato isso já não tenha importância porque os mínimos estão cumpridos.

O início de dezembro é também a altura certa para fazer um balanço das Leiturtugas. Não só por faltar um mês para o fim do ano, e por isso ser o momento para quem ainda estiver atrasado e quiser atingir os objetivos fazer um último esforço, mas porque foi em dezembro do ano passado que esta ideia foi posta em prática.

O balanço do ano até agora está aqui na tabela em baixo: seis participantes já cumpriram, uma sétima só ainda não cumpriu porque depois de despachar as leiturtuguinhas, em que tinha escolhido participar inicialmente, decidiu tentar as leiturtugas, e três dos outros estão bem encaminhados. Só dois duvido que cumpram, mas nunca se sabe; podem ter deixado tudo para o fim do ano.

Publicação Já cumprido Falta cumprir Mês de início
O Senhor Luvas objetivo ultrapassado janeiro
O Prazer das Coisas objetivo ultrapassado janeiro
A Lâmpada Mágica objetivo ultrapassado janeiro
Rascunhos objetivo ultrapassado janeiro
Intergalactic Robot objetivo ultrapassado janeiro
O Blog do Jauch objetivo ultrapassado janeiro
Ideias de Leitora 1c4s 1 (2c) fevereiro
Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction 0c2s 2 (2c) setembro
Words a la Carte 1c6s 3 (4c) março
As Leituras do Corvo 4c3s 5 (2c) janeiro
Atmosfera dos Livros - 12 (6c) janeiro
Faces de Marisa - 12 (6c) janeiro
So Happy with Less - 5 (2c) março

Relativamente a balanço... isto correu bem. E é para continuar em 2020.

Aumentou-se a quantidade de menções a material português na internet, que era um dos objetivos, houve algumas pessoas que não costumavam ler FC portuguesa a ler FC portuguesa, que era outro. Eu descobri livros que não conhecia (em grande medida à conta destas mesmas pessoas, o que mostra como é vantajoso não passarmos a vida em circuito fechado), o que não era um objetivo, não era algo que eu esperasse, mas acho excelente que tenha acontecido. Os habitués não tiveram dificuldades em cumprir os mínimos, como eu esperava. Enfim, a coisa correu francamente bem. Só um dos aspetos da ideia falhou redondamente: as menções cruzadas às leiturtugas. A menos que alguém esteja a pensar publicar uma lista completa agora no fim do ano, só eu e o Jauch cumprimos, o que é algo dececionante. Tinha também alguma — muito pouca — esperança que isto levasse à criação de novas publicações mas, como eu suspeitava que sucederia, não levou. Mas tirando isso correu tudo sobre rodas. Portanto é para continuar.

E vou partir do princípio de que todos os que participaram este ano vão também participar para o ano. Isto é, à exceção da Atmosfera dos Livros e das Faces de Marisa (salvo se aparecer no fim do ano a participação dessas publicações, claro), vou partir do princípio de que todos os que estão de momento no projeto vão continuar em 2020. Se não for o caso, avisem-me; se não estão e pretenderem passar a estar, avisem-me também. Parece-me mais simples fazer as coisas assim, i.e., limitar os avisos às mudanças de estado, do que estar a pedir todos os anos a confirmação de participação. Ou seja: avisem-me de entradas, saídas, regressos, suspensões e mudanças de Leiturtugas para Leiturtuguinhas ou vice-versa.

E vamos adiante. Até para o ano que aí vem.

L. Timmel Duchamp: Catamenia Histérica

Quase tudo o que digo sobre o Alongamento Vestigial das Vértebras Caudais posso também dizer sobre esta Catamenia Histérica (bibliografia), e a impressão geral com que saí da leitura é precisamente idêntica. L. Timmel Duchamp mostra-se igual a si mesmo. A doença, claro, é outra; aqui, trata-se de uma falsa menstruação que ataca homens e tende a ocorrer em surtos. Há mais ironia neste texto do que no primeiro, mas esta fica-se sobretudo pela ideia em si; o texto mantém-se seco, pouco estimulante e bastante breve, o que contribui para o meu sentimento de ter muito pouco a dizer sobre ele.

Textos anteriores deste livro:

FC portuguesa? Mas para quê?

A Cristina Alves começou por divagar um bocado sobre a ficção científica portuguesa, eu discordei de várias coisas e vai daí pus-me a escrever. Primeiro escrevi sobre o que é, depois escrevi sobre se existe. Se calhar convinha dar uma vista de olhos a esses textos antes de ler este, porque não vou estar a repetir-me e quem se ficar por este talvez apanhe algumas coisas um bocado no ar.

Neste, não falar de nada que a Cristina tenha dito e me tenha causado alguma discordância; a ideia, aqui, é lançar para cima da mesa algumas ideias minhas, que me parecem importantes em qualquer discussão deste género e que raramente vejo afloradas. Porque quando se fala de ficção científica portuguesa, a conversa em geral fica presa nas dificuldades óbvias (a falta de público, a falta de editores, a falta de produção) ou em tentativas de definir o que é e o que deixa de ser, mas parece-me que há mais alguma coisa que lhe falta, uma carência que ajuda a compreender parte das dificuldades óbvias: a questão da relevância.

É que me parece que uma das coisas que mais falta faz à FC portuguesa é relevância.

Não que seja tudo irrelevante, naturalmente. Mas se fosse possível juntarmos toda a produção de FC nacional e tirarmos uma média à relevância, o resultado seria bastante baixo.

E a relevância é importante. É importante para encontrar e fazer crescer um público, é importante para promover a durabilidade das obras, é importante, até, pelos efeitos que tem na sua validade artística, etc. A que irá um leitor dedicar mais depressa o seu tempo, a uma obra relevante, isto é, a uma obra que o faça sentir que obtém dela mais do que à primeira vista seria de esperar, uma obra que o enriquece, ou a uma obra irrelevante, daquelas que agora se leem e dez minutos depois estão esquecidas?

Pois.

Há várias maneiras de dar relevância à ficção científica. Uma dessas maneiras, que há até quem pense erradamente que é a única, é fazê-la "de ponta", fazendo uso das mais recentes evoluções e ideias científicas e tendências do próprio género. Infelizmente, esta abordagem tem vários problemas, que se prendem em parte com o inevitável amadorismo dos nossos escritores e em parte com carências do nosso sistema educativo, que vão influenciar tanto os escritores quanto os leitores. É que enquanto em mercados mais profissionalizados há escritores que se podem dar ao luxo de não fazer nada além de recolher informação, brincar com ideias, elaborar histórias, trabalhá-las e escrevê-las, nós somos todos obrigados a fazer tudo isso nas horas vagas dos trabalhos que realmente põem o pão na mesa. E assim é praticamente impossível mantermo-nos na crista de uma onda que está permanentemente em movimento rápido, e produzir mesmo assim obras sólidas, com as necessárias elaboração e reflexão e cuidado técnico, e a tempo de não estarem já ultrapassadas quando finalmente ficarem prontas. Com tal desvantagem à partida, conseguir com sucesso seguir esta abordagem seria quase um milagre. E não é a única, ainda por cima. O nosso sistema de ensino cria um fosso extremamente prejudicial entre as ciências e as humanidades, o que vai dar origem a demasiada gente interessada nas questões técnicas mas sem interesse algum pela literatura e, o que talvez seja ainda pior, gente interessada em literatura mas não só sem interesse pelas matérias científicas como profundamente ignorante sobre elas. E a FC de ponta exige escritores e leitores bem informados.

Outra estratégia possível é aderir a modas. Não que as modas de uma forma geral deem origem a material particularmente bom, relevante ou até interessante, mas se forem usadas com alguma originalidade podem dar, até porque algumas delas, como a atual moda das distopias feministas, refletem ansiedades bem reais e extremamente atuais. O problema, claro, é que quanto mais original a obra for mais se afasta de um certo "mainstream" da moda que quer seguir, o que pode dificultar a sua penetração no mercado. Além daquela realidade chata da pequenez do nosso mercado colocar inevitavelmente os nossos escritores (e editores) no papel inerentemente subalterno de meros seguidores da moda. E há também que ter em conta a fugacidade de qualquer moda e, de novo, o nosso amadorismo, dois factos que, em conjunto, tornam bastante provável que quando o autor Fulano tiver finalmente pronta para publicação a obra xis que quer integrar na moda tal, esta já levou a uma saturação tal do mercado que o pobre do Fulano tem dificuldade em penetrar e/ou em fazer-se ouvir no meio da cacofonia. Ou a moda já terminou, pura e simplesmente.

Outra estratégia é estar atento à sociedade que nos rodeia. E escrever em conformidade. Isto é: fazer a antítese da literatura leve, de mero escapismo e entretenimento, que por vezes se tenta promover como a solução para todos os problemas da FC portuguesa. Julgo que é precisamente o contrário: a FC portuguesa precisa de ser relevante e uma das melhores formas de o ser é mergulhar decidida e claramente no comentário social. E poucos géneros são mais talhados para o comentário social do que a FC, com a capacidade que esta tem para projetar tendências para sociedades futuras ou paralelas ou explorar as consequências deste ou daquele cenário. Basta olharmos para as obras mais frequentemente republicadas e elogiadas, e veremos comentário social e político por todo o lado, dos mais antigos clássicos às obras mais recentes.

Muitos autores resistem a fazer isto com o argumento de que ao tomarem posição política ou ao fazerem comentário social podem estar a alienar leitores potenciais por estes não se reverem nas suas opções e nos seus pontos de vista. É uma renitência válida, mas essa medalha também tem um reverso de que nunca ninguém fala: os leitores que só o são porque se reveem nos pontos de vista do autor. Olhando para a literatura mundial, encontramos fartura de casos não só de autores que não são particularmente bons em termos de técnica literária mas se tornaram extremamente influentes e marcantes devido à argúcia das suas observações sociológicas, como de autores francamente medíocres em praticamente tudo, que no entanto conservam um público fiel por motivos puramente ideológicos. Até em Portugal isso existe. Mas não darei exemplos portugueses; vou dar dois americanos: L. Ron Hubbard e Ayn Rand, dois péssimos autores de meados do século passado que continuam até hoje a ter leitores.

Não quero com isto dizer, naturalmente, que tentar seguir o caminho de Hubbard e Rand é boa ideia. Longe disso. Quero apenas mostrar como o argumento da perda de leitores não colhe. O mundo está cheio de autores que nunca se coibiram de fazer comentário social nas suas obras (e fora delas) e nunca tiveram falta de leitores. Se a obra for boa, se for relevante, só um leitor francamente tacanho a rejeita por razões ideológicas, e se é verdade que leitores tacanhos existem, não é menos verdade que a maioria não o é e que por cada rejeição ideológica haverá sempre uma adesão igualmente ideológica. Ou até mais que uma.

Gostaria que a questão da relevância fosse mais frequentemente aflorada quando se discute a FC portuguesa. Porque me parece fundamental para o seu desenvolvimento.

Sublinho algo que já ficou expresso acima, para que não fiquem dúvidas: nem toda a FC portuguesa é irrelevante, há bons exemplos de relevância em todas estas vertentes, mas também há um clima geral que tende a olhar mais para dentro do que para fora, e não só na FC. O muito pós-moderno autorreferencialismo irónico é uma praga de que custamos a livrar-nos, a tendência para sobrepor o efeito literário ao conteúdo, que alguns autores importam de fora do género (caso da Isabel Cristina Pires, por exemplo), é outra... embora aí talvez seja mais questão de grau, porque por outro lado também parece haver autores que julgam que o desenvolvimento da sua capacidade para se exprimirem em língua portuguesa é secundário (não é).

E fico por aqui, que isto já vai bastante mais longo do que eu tinha planeado. Há mais a dizer, mas fica para depois.