quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Luís Miguel Cascales: Corvos e Lobos

Este é um conto que me agradou um pouco mais do que tem sido hábito nestas histórias. A princípio não. A princípio parecia mais uma banalidade absoluta, com uma natureza já desvendada integralmente pelo título de Corvos e Lobos (bibliografia), um daqueles contos de adolescente gótico e metaleiro que há por aí aos pontapés, servido por um português pouco entusiasmante, cheio de seus, suas e eus frequentemente desnecessários, como quem traduz do inglês sem saber bem o que faz, e com inconsistências no tempo narrativo, que ora está no passado, ora no presente, sem que nada o justifique.

E é tudo isso, claro, o que impede o conto de ser bom. Mas Luís Miguel Carretas Cascales consegue contar a sua história no espaço que tem disponível sem deixar que ela pareça apressada, e sobretudo introduz no final um plot twist bastante bem feito e que faz pleno sentido com algo deixado no ar no princípio do conto. E isso impede o conto de ser mau. Com uns anos a apurar a escrita, este é autor que poderia vir a ter o seu interesse.

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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

E. A. Davies: Caminhos Obscuros

Mais um conto que se tivesse sido revisto até podia estar razoavelmente bem escrito, sem os erros de concordância e as palavras em falta espalhadas um pouco por todo o lado pelo(a?) autor(a?) que assina com o mais que provável pseudónimo de E. A. Davies, este Caminhos Obscuros (bibliografia) é um conto de terror onírico, feito de imagens desconexas e de uma narrativa pouco firme.

Tem muito de conto de adolescente gótico, ainda que a estrutura narrativa seja mais madura do que é comum encontrar em autores desse género: lê-se como uma espécie de reflexão meio filosófica sobre a natureza e sobretudo a origem do mal, misturada com um quase libelo contra o mauzão do ser humano. E para isso serve-se do tipicíssimo ambiente da aldeola perdida num fim de mundo qualquer, onde o padre (que não é humano) é o centro da vida local, tudo analisado por uma personagem vinda de fora, que tudo narra em primeira pessoa.

Cliché? Oh, sim. Muito cliché. Tão cliché que o leitor já boceja ainda o conto vai na página dois. Este leitor, pelo menos. É curioso que com tantos autores e tantas histórias este livro consiga a proeza de ser tão monótono. E em alguns casos bastaria um editor digno desse nome para melhorar consideravelmente o resultado. Como neste; este conto nunca seria bom, creio, mas uma revisão que lhe ajustasse o português evitaria que fosse tão fracote.

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Em dezembro falou-se de...

Dezembro voltou a ser um bom mês, curiosamente, porque eu à partida esperaria menos atividade por causa das festas — as visitas aos blogues, pelo menos, tendem a reduzir-se de forma clara por volta do Natal e do Ano Novo. Mas este mês não; este mês houve muitas leituras, muitos comentários, e em todos os subgrupos em que eles se dividem, ainda que parte da explicação para isso seja a descoberta e integração de uma mancheia de publicações que até aqui tinham estado de fora. Mas sobre isto falarei mais detalhadamente depois das listas. Para já, há aquela conversa habitual destinada a quem cá venha ter pela primeira vez.

O que é isto? Está explicado no primeiro destes posts, aqui. Também aí se explicam outras coisas relevantes, como de onde vêm os dados, e que se pretende com isto, que limitações se reconhece, por aí fora. O que é que já foi publicado no momento em que o caro leitor aqui cair? Encontra-se na tag leituras fc. E passemos de imediato às listas mencionadas acima, relembrando que depois há comentários. Aqui estão:

Ficção portuguesa:
  1. Autópsia, de João Nuno Azambuja
  2. O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, de João Barreiros (2x)
  3. O Longo Caminho de Regresso, de António Bizarro
  4. Quem Chama Pelo Senhor Aventura?, de Rita Garcia Fernandes
  5. Casos de Direito Galáctico, de Mário-Henrique Leiria
  6. Luz, de Carla Marques (conto)
  7. Amanhecer Etéreo, de Paulo Mota (conto)
  8. Enganando a Morte, de João Manuel da Silva Rogaciano (conto)
  9. Imortal, de José Rodrigues dos Santos
  10. Ensayo Sobre la Lucidez / Ensaio Sobre a Lucidez, de José Saramago (2x) 
  11. O Homem Duplicado, de José Saramago
  12. Antologia de Ficção Especulativa Queer, org. Carlos Silva
Ficção brasileira:
  1. A Taverna, nº 2, ed. ??
  2. Dicionário de Línguas Imaginárias, de Olavo Amaral
  3. Entre a Luz e a Escuridão, de Ana Beatriz Brandão
  4. Serpentário, de Felipe Castilho
  5. Fronteiras, org. Roberto de Sousa Causo (2x)
  6. O Dia Depois do Fora, de Laura Conrado
  7. Extemporâneo, de Alexey Dodsworth
  8. Colonização, de Day Fernandes
  9. Back in the USSR, de Fábio Fernandes
  10. A Caçada do Imortal, de Diego Medeiros
  11. A Retomada da União, de Bárbara Morais
  12. As Cinco Esposas de Nathan, de Clovis Nicacio
  13. O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci
  14. A Morte e o Meteoro, de Joca Reiners Terron (2x)
  15. Mitos de Origem, org. Leonardo Tremeschin, Andriolli Costa e Lucas R. Ferraz (2x)
  16. Interferência, de Márcia Silva 
  17. Traição, de Márcia Silva
  18. Deus Sonha o Homem, de Lidia Zuin
Ficção lusófona e internacional:
  1. Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas, org. Jeff VanderMeer, Mark Roberts e João Seixas
Ficção internacional:
  1. Star Wars: A Trilogia, org. ??
  2. O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams
  3. A Última Pergunta, de Isaac Asimov (conto)
  4. Fundação, de Isaac Asimov
  5. O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov (2x)
  6. Pedra no Céu, de Isaac Asimov
  7. O Conto da Aia, de Margaret Atwood (3x)
  8. Death Weeps, de Tamara Rose Blodgett
  9. Raízes do Mal, de Gwenda Bond
  10. A Biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges (conto)
  11. Nova Antologia Pessoal, de Jorge Luis Borges
  12. Os Viajantes, de Alexandra Bracken
  13. 4 Contra o Apocalipse, de Max Brallier
  14. O Guia de Sobrevivência a Zumbis, de Max Brooks
  15. A Laranja Mecânica / Laranja Mecânica, de Anthony Burgess (3x)
  16. A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler
  17. Ritos de Passagem, de Octavia E. Butler
  18. Antologia da Literatura Fantástica, org. Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo
  19. The Prince & the Guard, de Kiera Cass
  20. The Queen, de Kiera Cass
  21. História da Sua Vida e Outros Contos, de Ted Chiang
  22. As Fontes do Paraíso, de Arthur C. Clarke
  23. O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke
  24. A Biblioteca Invisível, de Genevieve Cogman
  25. A Trama Perdida, de Genevieve Cogman (2x)
  26. Recursão, de Blake Crouch
  27. Babel-17, de Samuel R. Delany (3x)
  28. Estrela Imperial, de Samuel R. Delany (2x)
  29. Anarquia, de Megan DeVos
  30. O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick
  31. O Tempo Desconjuntado, de Philip K. Dick
  32. Ubik, de Philip K. Dick
  33. Valis, de Philip K. Dick
  34. Talking to Robots, de David Ewing Duncan
  35. Terra de Lobos, de Tünde Farrand
  36. Uma Nova Esperança, de Alan Dean Foster e George Lucas 
  37. A Arma de um Jedi, de Jason Fry
  38. Os Últimos Jedi, de Jason Fry
  39. Seres Mágicos & Histórias Sombrias, org. Neil Gaiman e Al Sarrantonio
  40. The Roundheads, de Mark Gatiss
  41. O Império Contra-Ataca, de Donald F. Glut e George Lucas
  42. Terminais, de Roderick Gordon e Brian Williams
  43. Estrelas Perdidas, de Claudia Gray
  44. Guerra sem Fim, de Joe Haldeman
  45. Metrópolis, de Thea von Harbou
  46. O Armazém, de Rob Hart (2x)
  47. Herdeiro do Jedi, de Kevin Hearne
  48. Serotonina, de Michel Houellebecq
  49. O Céu de Pedra, de N. K. Jemisin (2x)
  50. O Legado, de Amie Kaufman e Meagan Spooner
  51. Flores para Algernon, de Daniel Keyes (2x)
  52. Interestelar, de Greg Keyes
  53. Novembro de 1963, de Stephen King
  54. O Concorrente, de Stephen King
  55. O Instituto, de Stephen King (5x)
  56. Solaris, de Stanislaw Lem (2x)
  57. Além do Planeta Silencioso, de C. S. Lewis (2x)
  58. O Ano da Graça, de Kim Liggett
  59. A Ira dos Justos, de Manel Loureiro
  60. O Chamado de Cthulhu e Outras Histórias, de H. P. Lovecraft
  61. O Despertar de Cthulhu, de H. P. Lovecraft
  62. Ignite Me, de Tahereh Mafi
  63. Intocável, de Tahereh Mafi
  64. Restaura-me, de Tahereh Mafi
  65. Shatter Me, de Tahereh Mafi
  66. Unravel Me, de Tahereh Mafi
  67. Caixa de Pássaros, de Josh Malerman
  68. Inspeção, de Josh Malerman
  69. Dois Mil e Sessenta e Um, de Barry N. Malzberg (conto)
  70. Nightflyers, de George R. R. Martin (2x)
  71. O Começo, org. George R. R. Martin (2x)
  72. Máquinas Como Eu, de Ian McEwan
  73. Cinder, de Marissa Meyer
  74. Winter, de Marissa Meyer
  75. A Cidade & a Cidade, de China Mièville
  76. The Forgotten Army, de Brian Minchin
  77. Brumas do Tempo, de Karen Marie Moning
  78. Tainted, de Alexandra Moody
  79. Os 100, de Kass Morgan
  80. Contos de Imaginação e Mistério, de Edgar Allan Poe
  81. A Resistência Renasce, de Rebecca Roanhorse
  82. Nova York 2140, de Kim Stanley Robinson
  83. Destinos Divididos, de Veronica Roth
  84. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry
  85. Calamidade, de Brandon Sanderson
  86. Tormenta de Fogo, de Brandon Sanderson
  87. A Última Colônia, de John Scalzi
  88. As Brigadas Fantasma, de John Scalzi
  89. Frankenstein, de Mary Shelley (2x)
  90. Mundos Sem Fim, de Clifford D. Simak
  91. O Médico e o Monstro / O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, de Robert Louis Stevenson (5x)
  92. Battle Royale, de Koushun Takami
  93. O Homem que Caiu na Terra, de Walter Tevis
  94. Debaixo de Cerco, de Robert Thurston
  95. Aniquilação, de Jeff VanderMeer
  96. Através do Vazio, de S. K. Vaughn
  97. A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne
  98. Vinte Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne
  99. Viajantes do Tempo, de Rysa Walker
  100. Openness, de Alexander Weinstein (conto)
  101. A Sombria Queda de Elizabeth Frankenstein, de Kiersten White
  102. Prince of Chaos, de Roger Zelazny
Não-ficção brasileira:
  1. A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil, de Kátia Regina Souza
Não-ficção internacional:
  1. O Zen e a Arte da Escrita, de Ray Bradbury
  2. Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos, de Emmanuel Carrère
  3. Churchill & Orwell - A Luta Pela Liberdade, de Thomas E. Ricks
  4. Stranger Fans, de Joseph Vogel
Como se disse acima, dezembro foi um bom mês para os comentários sobre FC portuguesa, que mais uma vez ultrapassaram o número que me parece mínimo para manter o paciente ligado à máquina. Mais positivo se torna se tivermos em conta que só 3 dos 12 títulos mencionados são títulos de ficção curta e que além destes 12 existe ainda um décimo terceiro que contém ficções portuguesas, embora eu não saiba ainda se estas incluem ou não FC (estou a ler o livro agora). O mês é dominado por José Saramago, que foi alvo de 3 comentários distribuídos por 2 títulos, e por João Barreiros, alvo de 2 comentários, ainda que parciais.

Também foi um mês bom para a FC brasileira, ainda que já tenha havido alguns bastante melhores. 18 títulos, três dois quais comentados duas vezes e nenhum dos quais correspondente a ficção curta, são um número decente. Os destaques do mês vão para Roberto de Sousa Causo e para o trio Tremeschin Costa e Ferraz na qualidade de antologistas, com dois comentários cada, e para Joca Reiners Terron e Márcia Silva, também com dois comentários cada, sendo os da Márcia distribuídos por dois títulos.

Mas claro, como sempre tudo isto torna-se insignificante quando comparado com a quantidade de leituras e comentários de material não lusófono, seja em tradução, seja em versões originais. E este mês foi dos mais prolixos, pois voltámos a ter mais de uma centena de títulos a mencionar, o que é em parte fruto de uma relativa escassez de leituras múltiplas: só O Instituto do King foi comentado 5 ou mais vezes. Os destaques do mês cabem, portanto, a Isaac Asimov, com 5 opiniões dispersas por 4 títulos, a Samuel R. Delany, também com 5 opiniões mas dispersas por 2 títulos, ao já mencionado Stephen King, com 7 opiniões dispersas por 3 títulos, e a Tahereh Mafi, de novo com 5 opiniões, mas dispersas por outros tantos títulos.

Ao todo mencionaram-se 138 títulos durante o mês de dezembro, incluindo cinco de não ficção. Só o facto de estarmos a falar de publicação online possibilita esse número. Fala-se muito, com ares trágicos, do fim da crítica na imprensa, mas nem nos tempos mais áureos esteve acessível ao público em geral uma quantidade tão elevada de textos críticos. E se é verdade que a qualidade de muitos destes textos não é particularmente elevada, também não deixa de o ser que a dos textos que saíam na imprensa por vezes também não era. Eu queria mais e melhor, muito mais e muito melhor, mas será que no antigamente dos nostálgicos — alguns dos quais aparentemente se recusam a escrever para a internet — estávamos melhor? Tenho enormes dúvidas.

Mas enfim, isto são divagações mais ou menos ociosas. Em fevereiro cá estarei de novo a falar do que se comentou durante janeiro.

Wu Cheng'em: A Sentença

O homem é o animal que conta histórias. Não sei bem se será o único — os cantos das baleias podem perfeitamente ser longos épicos contados de geração em geração — mas é aquele que o faz de forma mais óbvia e permanente. E desde o início da espécie. E em todas as culturas.

E desde sempre, o fantástico é a forma preferida para contar histórias que lidam com os grandes mistérios. Foi de fantástico que se fizeram os mitos e é do fantástico que os contadores de histórias se servem para contar histórias, por exemplo, sobre o destino. Como esta.

Wu Cheng'em é chinês. Ou melhor: foi chinês, tendo vivido no século XVI, o que significa que foi praticamente contemporâneo de Camões. E apesar de tão antigo, este A Sentença (bibliografia) é um miniconto fantástico notavelmente moderno, no qual se conta uma história sobre um suplicante que vai ter com o imperador afirmando ser um dragão e ter tido a revelação de que um ministro do imperador lhe cortaria a cabeça no dia seguinte, suplicando-lhe que o impedisse. O imperador acede. Mas depois entra o destino em ação.

Esta é uma história que, não sendo nada de extraordinário se extraída do contexto temporal e cultural em que foi escrita, se torna mesmo muito interessante quando o contexto é tido em conta.

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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Franz Kafka: O Animal na Sinagoga

Mais um conto kafkianamente bizarro, este. Na verdade, O Animal na Sinagoga dá uns certos ares de história ou ideia inacabada, até pela forma abrupta como Franz Kafka a termina, praticamente a meio de uma explicação. Mas sendo o autor quem foi, partir desse princípio é no mínimo arriscado.

O título é bastante explicativo do que o conto narra. Numa determinada sinagoga existe um animal, descrito com uma espécie de marta, mas com algumas características que a separam de uma marta normal: não só o pelo é de uma cor estranha como a marta é aparentemente imortal, permanecendo na mesma sinagoga enquanto gerações de fiéis se vão sucedendo. Estes vão oscilando entre o medo causado pelo insólito da situação, algumas tentativas vãs de expulsar o animal da sinagoga e a aceitação. E, pelo menos à superfície, é apenas isso.

Não sei o suficiente sobre judaísmo para saber se este animal na sinagoga poderá ter algum significado inerente à religião, mas parece-me não só possível como provável. Mas também pode ter um simbolismo mais genérico, sendo o mais óbvio o do pecado. De uma forma ou de outra, o conto parece ser uma denúncia contra a conspurcação dos locais de culto e por extensão de toda a religião, ainda que seja a denúncia resignada de quem no fundo sabe que não há nada a fazer, que as coisas são como são. Mas é sobretudo isto que torna o conto interessante; a história em si não o é muito.

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domingo, 12 de janeiro de 2020

Ray Bradbury: A Cisterna

De volta ao terror ternurento, Ray Bradbury cria neste conto a que o tradutor brasileiro resolveu, vá-se lá entender porquê, intitular como A Cisterna (e não, segundo o que vi em dicionários brasileiros não é diferença dialetal) uma história de morte e perda muito poética, muito bem escrita e bastante memorável.

O conto pouco mais é que um diálogo entre duas irmãs, daquelas solteironas, e talvez mais ou menos velhas, que começa quando uma das duas tem uma epifania: existe uma cidade debaixo da cidade, composta pelos canos de escoamento das águas pluviais. É um tema curioso de conversa, mas mais curioso se torna quando a mulher começa a criar a história de dois mortos que vivem nessa cidade debaixo da cidade, e mais ainda quando nos vamos apercebendo de que ambos os mortos estão profundamente ligados a ela. Não direi como. Digo apenas que há na história que ela conta um elemento sobrenatural forte, ao passo que a outra serve como elemento cético que faz avançar a narrativa, mais uma vez através da incompreensão, da não aceitação daquela aparente loucura... que se vem a revelar inteiramente acertada.

Um conto bastante bom, este. Mais um.

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Leiturtugas da semana #49

Esta semana foi calma ao ponto de não haver Leiturtugas a destacar, por mais que o Artur tente convencer-vos do contrário. Mas há algumas coisas a dizer.

Começando pelo Artur, já agora, ele publicou há dias mais uma opinião sobre um livro de BD. Tudo bem, entra, certo? Não, que o autor não é português, é galego. Contaria se este projeto se chamasse Leiturtugófonas, ou coisa do género, mas é -tugas, portanto exige-se que cada publicação nele integrada tenha alguma forma de autoria portuguesa. Portanto lamento, Artur, mas esse não conta. Venham mais.

Depois, houve algumas dúvidas sobre o sorteio de abril e os eventuais sorteios que se sigam. Uma prende-se com a ponderação; parece que ficou a ideia de que essa ponderação impossibilitaria qualquer publicação que entre no projeto mais tarde de ganhar fosse o que fosse. Não é bem assim. Deixem-me explicar porquê.

Sim, a ponderação destina-se a premiar quem mostre mais dedicação a este projeto, dando-lhe mais possibilidades de ganhar os sorteios do que aos outros. Também se destina a impedir que alguém que se junte ao projeto na véspera de um sorteio para ver se ganha um livro grátis e tencionando abandoná-lo logo a seguir tenha tantas hipóteses de ganhar como quem já por cá anda há bastante tempo. Por isso, se alguém chega a um sorteio com uma ponderação de 1 ou 2 não tem quase hipótese nenhuma de ganhar. Mas isso não fica assim para sempre. Porquê?

Isto é mais fácil de explicar com um exemplo. Digamos que um blogue se junta a nós em março. Quando for o primeiro sorteio terá ponderação de 1 e os mais antigos terão ponderação de 15. Ou seja: para ser o recém-chegado a ganhar, o seu número aleatório terá de ser 1 e o dos mais antigos terá de ser inferior a 1/15 = 0,067. Praticamente impossível. Mas digamos que seis meses mais tarde há outro sorteio. Aí, a ponderação do novo já será 7 e a dos mais antigos será 21. Para aquele ganhar, o seu número aleatório terá de ser 1 e o dos mais antigos terá de ser inferior a 7/21 = 0,33. Ou seja, embora a probabilidade de vitória continue a ser baixa, é bastante mais elevada do que inicialmente. E seis meses mais tarde passa a 0,48. E por aí fora, sempre a subir.

Trocando por miúdos: quanto mais tempo os novos se mantiverem no projeto mais aumentam as suas possibilidades de vencer algum sorteio.

E além disso, eu estou a supor que deverá haver bastantes recusas de prémios, porque os bloggers mais dedicados não costumam ficar à espera de um sorteio para ganhar um livro que lhes interesse; compram-nos.

De resto, tudo isto é ajustável com a experiência e está aberto a ideias novas. Sugeriram-me, por exemplo, que quem ganhasse um livro ficasse de fora nos dois ou três sorteios seguintes, e parece-me boa ideia mesmo que parta de um certo otimismo que eu não partilho por inteiro: o de que haverá autores e editores suficientes interessados em oferecer livros para chegarem a haver três ou quatro sorteios. Também me sugeriram que a ponderação das publicações que não cumprirem os objetivos seja reduzida em função do que falta, o que também me parece boa ideia, ainda que me cause alguns problemas técnicos (tenho tudo isto automatizado com fórmulas no excel, e não estou bem a ver como aplicar essas reduções de forma automática... tenho de pensar no assunto). E há ainda a hipótese de usar outras formas não lineares para as ponderações, que aumentem mais depressa as possibilidades dos recém-chegados (raiz quadrada ou logaritmos, por exemplo).

Por fim, contestaram a inclusão da Lâmpada, argumentando que os organizadores de sorteios não devem participar neles. Tudo bem, é ideia legítima. Mas vou manter a Lâmpada nisto. Porque desconfio que só vão acabar por ser sorteados livros meus, e se assim for a Lâmpada estar ou não estar vai dar ao mesmo, porque tenho tanta coisa para ler que o mais provável é que acabe por recusar se por acaso me sair alguma coisa e porque quem não acredita na honestidade do sorteio só tem de esperar para ver se ele é honesto ou não.

E por hoje é só isto. Vá, toca a ler.

Agostinha Teixeira Pópulo: O Dedo da Sibila

Este é outro conto com algum interesse, a começar pela premissa. Não é todos os dias que deparamos com uma fantasia apocalíptica baseada nos mitos gregos, e Agostinha Maria Teixeira Pópulo não escreve mal. O grande problema deste O Dedo da Sibila (bibliografia) é, mais uma vez, a pressa.

Cada história exige uma dimensão específica para ser bem contada. Algumas cabem bem em contos curtos, mas outras precisam de mais espaço. Um dos segredos da criação literária está em encontrar a dimensão certa para contar cada história, e são vários os autores desta antologia que não souberam encontrá-la. Agustina Pópulo é uma dessas autoras, enfiando o rossio de uma história do fim do mundo cheia de personagens do Olimpo e de elementos cosmológicos na betesga de um conto de quatro páginas. Não corre lá muito bem, ainda que haja neste livro contos bem piores.

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sábado, 11 de janeiro de 2020

Carlos Afonso Portela: Quatro Vidas Num Jardim

Há quem deteste de todo o coração contos oníricos, com o seu característico esquematismo e a sua frágil solidez narrativa. Eu sou algo ambivalente para com eles; muitos, a maioria, deixam-me frio, alguns desagradam-me profundamente, mas também já tenho gostado muito de uns quantos. Quatro Vidas Num Jardim, de Carlos Afonso Portela (bibliografia), é dos que me deixam frio.

Portela escreve melhor do que a média desta antologia, apesar de um ou outro tropeço, geralmente causados por tentativas menos bem sucedidas de "fazer estilo". E conta uma história onírica confusa, como é comum serem, baseada num jardim esquemático cujo significado o protagonista tenta compreender, servindo-se para isso da ajuda de uma personagem que ele próprio cria. A moral da história é clara: há coisas que são estragadas assim que se tenta explicá-las, por isso mais vale aceitá-las como são, sem tentativas de análise. E há coisas demasiado pessoais para serem compartilhadas até com personagens que nós próprios criamos. Não creio que concorde com nenhuma destas ideias, mas a verdade é que o conto me deixou demasiado indiferente para gastar nele o tempo necessário para pensar realmente sobre elas.

Não é mau; é apenas esquecível.

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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Mário Cláudio: As Chagas

Embora o facto não esteja indicado no livro, este As Chagas também é um excerto de um romance, provavelmente o seu início. Aliás, o romance nem sequer vem mencionado na nota que precede o texto e onde se faz uma breve apresentação do autor e da sua obra, como acontece em todos estes textos. Estranhas omissões... Está certo que Mário Cláudio tem uma obra vasta, mas se extraem um excerto de um romance parece-me bizarro que não façam a mais pequena menção a esse romance. Ela aqui fica: As Chagas é um excerto, e possivelmente o início, do romance Peregrinação de Barnabé das Índias.

Trata-se de um romance histórico, o que fica imediatamente bem claro com o texto que aqui vem publicado. Barnabé, o protagonista, é um jovem cristão-novo oriundo de Lamego que vem para Lisboa cumprir uma tarefa mas, por azares e ingenuidades de provinciano na cidade grande, cai numa vida de crime e pobreza. Em As Chagas é só isso que se encontra: os motivos da queda, uma apresentação razoavelmente detalhada da personagem e do seu ambiente e algumas peripécias; no romance, ao que parece, ele acaba por embarcar para a Índia na armada de Vasco da Gama.

Funciona como conto? Não, não funciona. De facto, foi por não funcionar que desconfiei que deveria ser apenas um excerto e fui à procura da informação complementar que este livro não fornece. Mas funciona no despertar de curiosidade pelo romance, porque o protagonista é interessante, o ambiente está muito bem recriado e tudo está tão bem escrito como seria de esperar. É um bom texto, este. Deixa na boca algum sabor a pouco, mas é bom.

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

João de Oliveiros: A Loja

João de Oliveiros não escreve propriamente mal. É essa a primeira coisa que se percebe quando se começa a ler este A Loja (bibliografia). Tem, ou tinha na altura em que escreveu esta história, algumas falhas no português, algum pendor para a adjetivação excessiva e para o dramalhão, salpica o texto de umas referências a ideias a atirar para o neonazi, ou pelo menos para o nietzcheano, mas não escreve propriamente mal. É uma vantagem face a alguns dos seus colegas de antologia.

Mas A Loja é um continho medíocre. Conto de horror, de vampiros, é demasiado previsível para chegar a ter algum do impacto pretendido. Oliveiros tenta usar a técnica do final surpresa, mas não consegue surpreender com o final que escolhe (pelo menos não me surpreendeu; talvez surpreenda outros leitores) e o resto do conto é demasiado descritivo, apesar de ser basicamente um diálogo, para fazer o leitor mergulhar mesmo na história. É provável que parte da razão para isso sejam as limitações na dimensão do conto, mas o facto é que esta história precisava de respirar um bom bocado mais do que respira.

O resultado? Não é dos piores contos que este livro inclui até ao momento, mas também não é dos melhores.

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Narayana: O Rato e o Eremita

Retirado de um antiquíssimo clássico hindu, neste livro identificado como sendo de autoria de Narayana mas sendo muito mais provável que a sua origem seja popular, este O Rato e o Eremita (bibliografia) é daquelas histórias que atestam a antiguidade dos contos populares. Porque é disso que se trata: um conto popular. Uma fábula que, não sendo tão antiga como as de Esopo, tem tudo em comum com elas. Incluindo a (quase sempre muito desnecessária) moral da história.

A história é sobre a (in)gratidão. Fala de um eremita com poderes mágicos que trava amizade com um rato, que vai transformando em animais sucessivamente mais poderosos à medida que ele vai sendo ameaçado por animais também eles cada vez mais poderosos. Até que o rato chega a tigre e acha não só que já não precisa do eremita, mas que a mera existência deste faz lembrar a todos os demais que por mais que hoje seja tigre começou sendo apenas rato. Ou seja, fala de animais para falar de homens e da forma como alguns destes homens tentam esconder origens humildes silenciando todos aqueles que as conhecem, mesmo que tenham (ou sobretudo se tiverem) ajudado a elevá-los à sua atual posição de poder. Um bom exemplo de fábula totalmente política.

Texto anterior deste livro:

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Livros de 2019

O Goodreads tem uma espécie de jogo que consiste em estabelecer um número de livros para ler durante o ano e depois, quando o ano chega o fim, "ganha" quem conseguir ler mesmo esse número de livros ou o ultrapassar. Há quem o jogue a sério, mas desconfio que a maioria das pessoas é mais como eu: usa-o como uma espécie de guia de progresso, uma forma de aferir se as leituras vão ou não progredindo à velocidade que se estabelece como desejável no início do ano. É que o "desafio" vai dizendo quantos livros se leva de avanço ou de atraso em relação à promessa. Eu costumo estabelecer como meta um livro por semana, 52 ao todo, e desde que comecei a participar naquilo nunca cheguei sequer perto.

Bem... este ano "ganhei".

A lista do Goodreads é um pouco diferente da minha, que eu conto coisas que eles não contam (alguns periódicos e um livro ainda não publicado) e vice-versa (livros em vários volumes, que aqui normalmente contam só como um e lá não, ainda que este ano não haja nenhum caso), mas seja lá qual for a lista, "ganhei". Por lá, contam-se 55 títulos, por aqui 58.

Claro que um motivo importante para isso foi ter lido este ano muitos contos em ebook, especialmente (mas não só) os da coleção de ebooks publicada pelo DN há alguns anos, o que também contribui para o predomínio da ficção lusófona, e muito especialmente portuguesa, sobre a não lusófona. Sem contar com os periódicos, foram 34 títulos lusófonos, dos quais apenas 2 são brasileiros e nenhum de outras nacionalidades, e 17 títulos não lusófonos, três dos quais li por trabalho. Os periódicos foram 7, dois deles compõem-se exclusivamente de material não lusófono, outros dois são de material brasileiro e os restantes são mistos.

A lista completa é a seguinte:

1. Contos Populares Portugueses, de Adolfo Coelho (contos populares, maioritariamente de fantasia);
2. A Idade da Ignorância, de Braulio Tavares (crónicas);
3. A Mina do Deus Morto, de João Barreiros (conto de ficção científica);
4. A Moeda, de Gonçalo M. Tavares (conto mainstream com uma certa pegada insólita);
5. A Musa Irrequieta, de Pedro Paixão (conto mainstream);
6. A Porrada, de Mário de Carvalho (conto mainstream);
7. A Princesa do Gelo, de Manuel João Vieira (conto de fantasia surrealista);
8. A Queda de um Anjo, de Afonso Cruz (conto fantástico);
9. A Terrível Criatura Sanguinária, de Nuno Markl (conto fantástico);
10. Memórias de uma Vida Inesperada, de Noor Al Hussein (memórias);
11. A.K.A., de Rob Swigart (romance satírico com elementos de ficção científica);
12. As Saudades que Tenho de Inácia, de Manuel Jorge Marmelo (conto mainstream);
13. Contos da Infância e do Lar, Volume I, dos Irmãos Grimm (contos populares ou baseados em contos populares, na sua grande maioria de fantasia);
14. Contos, de Eça de Queirós (contos mainstream e de fantasia);
15. Blindsight, de Peter Watts (romance de ficção científica);
16. Cães, de Ricardo Loureiro (conto mainstream);
17. Cidade Líquida, de João Tordo (conto de realismo mágico);
18. Aventuras do Vampiro de Palmares, de Gerson Lodi-Ribeiro (romance-colagem de ficção científica e história alternativa);
19. Defensor do Vínculo, de Pedro Mexia (conto mainstream);
20. O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges (contos fantásticos e mainstream);
21. E Tais Pancadas Tem a Costa da China, de Fernão Mendes Pinto (excerto de um livro de viagens);
22. Fábulas de Esopo Ilustradas, de Esopo (fábulas em prosa; minicontos e vinhetas, quase sempre fantásticos);
23. O Génio e a Deusa, de Aldous Huxley (romance mainstream);
24. Jean-Charles, Amor de Calções, de Onésimo Teotónio Pereira (conto mainstream);
25. Buick 8, um Carro Perverso, de Stephen King (romance de horror com elementos de ficção científica... ou vice-versa);
26. Fábulas do Tempo Presente... e do Tempo Futuro, de Carlos Couceiro (fábulas em verso);
27. Mania, de Luísa Costa Gomes (conto de mistério);
28. Missão Stardust, de K. H. Scheer (novela de ficção científica);
29. Monólogo do Oriente, de Patrícia Portela (conto mainstream);
30. Ninfas e Adamastores, de Raquel Ochoa (conto mainstream);
31. No Muro, de David Soares (conto de ficção científica);
32. Notas Soltas da Corda e do Carrasco, de Sérgio Godinho (conto mainstream);
33. O Filho do Pai Manel, de Pedro Santo (conto mainstream);
34. O Fim da Dívida, de Nuno Costa Santos (conto de humor mainstream);
35. O Castelo dos Destinos Cruzados, de Italo Calvino (coleção de contos interligados fantásticos, com elementos de horror e ficção científica);
36. O Galeão Enxobregas, de Francisco Maria Bordalo (noveleta de aventuras);
37. O Homem que Existia Demais, de Possidónio Cachapa (conto mainstream);
38. O Lado Oculto de Rose, de Ademir Pascale (contos de horror);
39. O Universo Extravagante, de Robert P. Kirshner (livro de divulgação científica);
40. Mensageiros das Estrelas, org. Adelaide Maria Serras, Duarte Patarra e Octávio dos Santos (contos de ficção científica e fantástico);
41. John Carter, de Edgar Rice Burroughs (romance de ficção científica);
42. Histórias de Fantasmas, de vários (contos de horror, fantásticos e de humor);
43. Meg, de Steve Alten (romance de ficção científica);
44. 7 Contos Ilustr.s, org. Fernando Esteves Pinto (contos fantásticos, de ficção científica e mainstream);
45. Vou-me Embora, de José Conrado Dias (novela mainstream);
46. Avenidas sem Sentido, org. Pedro Sena-Lino (contos mainstream e alguns fantásticos);
47. O Progresso da Humanidade, de Rui Cardoso Martins (conto mainstream);
48. O Teclado Paranóico, de João Ventura (conto fantástico e de humor)

Como sempre, também marcharam uns quantos periódicos:

49. Fantasy & Science Fiction, nº 645, ed. Gordon van Gelder (contos de ficção científica e fantasia);
50. Bang!, nº 3, ed. Luís Corte Real e Rogério Ribeiro (contos de ficção científica e fantástico);
51. Dagon, nº 3, ed. Roberto Mendes (contos de fantasia e um bocadinho de ficção científica);
52. Isaac Asimov Magazine, nº 3, ed. Ronaldo Sergio de Biasi (contos de ficção científica);
53. Macondo, nº 6, ed. Francisco Mariani Casadore e Marcos Mariani Casadore (poesia e contos fundamentalmente mainstream);
54. Megalon, nº 1, ed. Marcello Simão Branco e Renato Rosatti (contos e artigos sobre ficção científica e fantástico);
55. Ficções, nº 10, ed. Luísa Costa Gomes (contos principalmente mainstream, mas também com fantástico e ficção científica)

E também li por dever laboral:

56. The Warehouse, de Rob Hart (romance de ficção científica);
57. (ainda não anunciado)
58. (ainda não anunciado)

Este ano, ao contrário do que costuma acontecer, não foi propriamente a ficção científica a predominar. De facto, de todos estes títulos só 19 incluem alguns elementos de FC, e são muito poucos os que são declaradamente FC. A variedade imperou nas minhas leituras de 2019, ainda que os contos do DN as tenham empurrado bastante para o lado do mainstream: são 25 as publicações que ou são inteiramente mainstream, ou incluem ficções mainstream. Mas mesmo este número é menos de metade de todos os títulos que constam destas listas. Lá está: variedade.

Mais uma vez, também em 2019 não houve nenhum livro que me tivesse realmente enchido as medidas, apesar de ter havido uma lista de dezena e meia de que gostei bastante, o que dificulta muito a escolha do meu top-3 do costume. Mas depois de muito matutar, acho que vou mais uma vez fazer um top-3 integralmente de ficção científica: o Blindsight do Peter Watts em primeiro, A Mina do Deus Morto do João Barreiros em segundo e o Isaac Asimov Magazine, nº 3 em terceiro. Mas a distância entre estas três publicações e um pelotão inteiro de outras é bastante curta.

Por serem menos, é mais fácil decidir o trio de melhores leituras lusófonas. A Mina do Deus Morto, claro, foi a minha melhor leitura lusófona do ano. O segundo lugar vai para outro conto da coleção do DN, A Queda de um Anjo, do Afonso Cruz, e o terceiro vai para um clássico, os Contos do Eça de Queirós. Tudo português, sim, que este ano li pouco material brasileiro.

Com tanta coisa lida e com um top 3 dominado por FC, se calhar não é má ideia dar também um lamiré sobre as 3 melhores leituras sem ficção científica, ainda que seja uma lista cheia de títulos já vistos em outras. Aqui é A Queda de um Anjo a liderar, seguida pel'O Castelo dos Destinos Cruzados, do Italo Calvino, que é o único título novo porque em terceiro aparecem outra vez os Contos do Eça de Queirós.

E os piores do ano? Bem, aí a escolha é mais fácil porque a lista de candidatos é bastante mais curta. E de novo inclui contos do DN, tanto na lista de candidatos como nos três escolhidos. Estes são todos lusófonos, mas não todos portugueses. Decidi-me por O Filho do Pai Manel do Pedro Santo como o pior livro do ano. Outro Pedro, o Paixão, escreveu o segundo pior livro do ano: A Musa Irrequieta. E o Megalon nº 1 foi o terceiro pior, ainda que o único conto que contém leve provavelmente a taça de pior conto lido em 2019 (não, não vou passar a fazer essa lista; daria demasiado trabalho); o que salva esse número do fanzine é a entrevista.

Para o ano haverá mais, claro. Ainda tenho um punhado de ebooks do DN por ler, e mais uma porção de contos em ebook, alguns já bastante velhos, armazenados no disco rígido à espera de vez, pelo que as listas de 2020 também deverão ser extensas. Portanto se quiserem saber como foi o ano, voltem em 2021, mais ou menos por esta altura. Até lá.

Ray Bradbury: Havia uma Velha Senhora

Velhas que não admitem um «não» como resposta são daquelas personagens clássicas da literatura (e não só), que tendem a reaparecer com alguma regularidade um pouco por todo o lado. Mas neste conto, Ray Bradbury consegue refrescar a personagem, por assim dizer. É que a velha senhora deste Havia uma Velha Senhora (bibliografia) bate o pé até à própria morte. E com sucesso.

Este é um conto algo incaracterístico de Bradbury. É um conto de horror diluído, por assim dizer, o que nada tem de incaracterístico, bem pelo contrário, mas o que dilui aqui o horror não é a ternura e suavidade com que Bradbury costuma temperar as suas histórias macabras, ainda que estas coisas também estejam presentes aqui, mas algo que não é muito habitual encontrar nele: o humor. Esta é uma história francamente divertida, a começar pela ideia base da velha que morre mas não admite de forma alguma que possa estar morta e por isso vai fazer tudo para "pôr juízo" na cabeça das pessoas que têm o desplante de pegar no seu corpo e o levar para o enterrar, perante o choque, o protesto e por fim a resignação dos demais, até à concretização literária da ideia.

Não é um dos grandes contos de Bradbury, reconheça-se. Mas é um bom conto, criativo na forma como se serve da velha ideia fantasmagórica e interessante no contexto da obra do autor precisamente por se desviar um pouco do que é mais habitual encontrar nele.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

António Paulo da Costa: Rua Escura

Há mil e uma maneiras de destruir uma história. Umas são destruídas por um enredo desastrado, outras são destruídas por demasiada pretensão, outras são destruídas por falhas de lógica, outras são destruídas por uma pontuação desastrada, outras são simplesmente destruídas porque estão muito mal escritas.

António Paulo Cruz Alves da Costa (outro comprido) teve uma ideia interessante para um conto de terror. Rua Escura (bibliografia) tem um enredo razoavelmente bem concebido que não vou revelar pois trata-se de uma daquelas histórias que só funcionam se o final for surpreendente, e apesar de uma falha lógica que diminuiu significativamente o impacto.

Mas escreve mal. Escreve coisas como «... como se de um boneco amarrotado se trata-se...» (o que, mais uma vez, é tanto culpa dele como de quem editou o livro sem lhe fazer qualquer espécie de revisão), sim, mas sobretudo porque usa pessimamente a pontuação, parecendo ter uma noção no máximo nebulosa de como encadear frases ou como decidir entre o que deve ser frase e o que pode ficar como oração subordinada. O resultado é bastante mais tosco do que teria potencial para ser. E nem seriam precisas muitas mudanças para dar um conto razoável. Teria bastado revê-lo bem.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 5 de janeiro de 2020

Leiturtugas da semana #48

Então bem-vindos a 2020... espera. Quê? Ainda há coisas de 2019 a falar? Oh pá. Vá, pronto.

OK, vejamos. Ah. Sim. Então isto nas Leiturtugas até ao lavar dos cestos foi vindima, e nos últimos dias do ano ainda apareceu mais uma opinião. Foi a Carla Ribeiro a encerrar a sua participação de 2019 e a cumprir os mínimos das Leiturtugas (depois de ter começado pelas leiturtuguinhas), falando de mais um livro de fantasia publicado pela Chiado: O Eleito da Luz, de Martinho da Rocha.

Pronto. Está? OK. Então vamos lá.

Então bem-vindos a 2020, e bem-vindos a mais um ano de Leiturtugas!

No ano passado, feitas as contas, acabámos por ter quatro participantes a não cumprir os objetivos. Dois deles nem chegaram a começar, e estão provisoriamente fora da lista que inicia o ano, porque vou partir do princípio de que não têm interesse em participar este ano. Se tiverem, basta avisar. Os outros são o Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction e o Ideias de Leitora. Quanto aos oito participantes restantes, cumpriram, e a maioria com grande folga.

Portanto a lista que inicia o ano é:

- A Lâmpada Mágica (Jorge Candeias);
- As Leituras do Corvo (Carla Ribeiro);
- Ideias de Leitora (Maria) - Leiturtuguinhas;- Intergalactic Robot (Artur Coelho);
- O Blog do Jauch (Eduardo Jauch);
- O Prazer das Coisas (Tita (Patrícia Rodrigues));
- O Senhor Luvas (Marco Lopes);
- Rascunhos (Cristina Alves);
- The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction (coletivo);
- Words à la Carte (Nights);

(Nota a mim próprio: não esquecer de atualizar a página do projeto)

E agora, NOVIDADES.

Estou a pensar fazer uns sorteios de livros portugueses pelos participantes. Ou por outra: vou fazer de certeza um; os outros dependerão da adesão de outras pessoas. No início de abril sortearei um exemplar do meu primeiro livro, Sally, entre quem estiver a participar na altura. Depois, a ver vamos. Se houver editoras e/ou autores interessados em participar em sorteios semelhantes, contactem-me. Parece-me que seria interessante termos um sorteio destes por semestre.

O sorteio será ponderado e não escolherá apenas um vencedor, mas terá como resultado uma lista ordenada de potenciais vencedores.

Explicando: cada participante terá a ponderação do número de meses de participação no projeto (quem estiver nas leiturtuguinhas conta por metade). Depois, será calculado um resultado segundo a fórmula:

nº meses * aleatório

Por fim, os participantes serão ordenados segundo o resultado, do mais elevado até ao mais baixo. Isto permite que os participantes mais antigos tenham vantagem (porque o nº de meses é maior) mas caso os números aleatórios (entre 0 e 1) que lhes calharem forem muito baixos e os dos participantes mais recentes forem bons, estes têm todas as hipótese de ganhar. Além disso, um vencedor pode recusar o prémio — se já tiver o livro, se não tiver interesse nele, etc. — e nesse caso transfere-se para o seguinte da lista, e desse para o seguinte e por aí fora.

Neste momento a ponderação da Lâmpada Mágica e do Intergalactic Robot é 13, do Words a la Carte é 9, do Ideias de Leitora 6, do Portuguese Portal 4 e a dos restantes é 12. Fiz agora um teste à coisa e deu a lista seguinte:

- O Prazer das Coisas (Tita (Patrícia Rodrigues)) - 11,15
- Rascunhos (Cristina Alves) - 8,92
- A Lâmpada Mágica (Jorge Candeias) - 8,18
- O Blog do Jauch (Eduardo Jauch) - 6,78
- Ideias de Leitora (Maria) - 4,87
- As Leituras do Corvo (Carla Ribeiro) - 4,86
- Intergalactic Robot (Artur Coelho) - 3,65
- O Senhor Luvas (Marco Lopes) - 3,35
- The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction (coletivo) - 1,89
- Words à la Carte (Nights) - 0,09

Ou seja: funciona. Se fosse a sério, o livro iria para a Tita, se ela não quisesse, para a Cristina, se ela não quisesse, para mim, eu não quereria de certeza portanto iria para o Jauch, e por aí fora. O Artur, que tem uma das ponderações mais elevadas, teve azar no número aleatório e ficou cá para baixo, portanto essa parte também funciona. No início de abril será a sério.

Pedro Maria d'Almeida: Maria da Porta

E de repente, um corpo estranho. Pedro Maria d'Almeida escreve muito melhor, mas muito melhor, do que a generalidade dos outros autores presentes neste livro. Não há aqui gafes, não há fragilidades, não há inconsistências entre a história que se quer contar e o espaço em que se quer contá-la... por outro lado também praticamente não há história.

Almeida não é ficcionista, é poeta. O seu interesse não reside em contar uma história, mas em brincar com as palavras. Está imbuído daquele conceito de literatura, tão caro a demasiada gente, que a vê pela metade, reduzindo-a ao mero artifício linguístico. E assim, este Maria da Porta (bibliografia) serve sobretudo para criar frases como «O tempo ia passando e o rio fluindo como a vida sem porta nem comporta, e não importa porque não importa a alquimia do jogo das palavras.» Tudo o resto é secundário ao ponto de se tornar irrelevante. E eu detesto esta abordagem à ficção.

Mas por outro lado, a média desta antologia é tão fraquinha que apesar do que ficou dito acima este conto que não é bem um conto é capaz de se contar entre os melhores.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 4 de janeiro de 2020

Neil Gaiman: Crupe dos Doenceiros

Falei aqui há muito pouco tempo do conto Crupe dos Doenceiros (bibliografia), de Neil Gaiman. Menos de um ano de separação entre leituras não é suficiente para ver as histórias com olhos substancialmente diferentes, ainda que uma história como esta, que vive muito do impacto da surpresa, perca sempre qualquer coisa quando essa surpresa já não existe, quando já sabemos o que vamos encontrar. Mas a admiração pela perícia literária que fazer algo como isto exige continua toda lá. É mesmo um conto excelente, como dizia em abril último.

Textos anteriores deste livro:

Escrita de dezembro e de 2019


Em dezembro de 2018 resolvi fazer uma experiência: e se em vez de só escrever ficção quando tivesse algum tempo disponível e estivesse mentalmente repousado, que era o meu hábito e nos últimos anos vinha significando que quase nunca escrevia uma linha, eu passasse a enfiar uns 10 ou 15 minutos de ficção nas pausas que faço sempre nos trabalhos mais intensos e financeiramente recompensadores que me sustentam? Nesse mês, escrevi 2200 palavras, o equivalente a cerca de 7 páginas. Pouco, mas muito mais que em qualquer outro mês desde 2013. Um ano depois, em dezembro de 2019, escrevi quase 8800. Continua a não ser muito, e é menos que noutros meses, mas estas coisas somam-se...

... e como estas coisas se somam, acabei o ano de 2019 com um pouco mais de 79100 palavras de ficção escritas. Quase 230 páginas. Um livro, basicamente. Incluem-se nesse número cinco contos, uns mais extensos, outros mais curtos, mas não é a eles que cabe a parte de leão da produção.

Em 2012 comecei a escrever uma história. A princípio queria que se ficasse por noveleta, porque a ideia era apresentá-la a uma antologia de uma série que já levava duas publicadas, tendo eu participado em ambas com outras histórias integradas no mesmo universo ficcional, mas depressa se tornou claro que aquela história estava a tomar uma forma mais extensa (e não muito adequada ao tema da antologia, ainda por cima). Desisti da participação na antologia e continuei a escrever... mas por pouco tempo. Cheguei a cerca de 13 mil palavras, ainda no território da noveleta, e abandonei-a.

Na verdade, deixei de escrever quase por completo.

Foi nessa história que peguei em dezembro de 2018.

E foi essa história que finalmente acabei um ano depois, em dezembro de 2019.

Sim, o romance está terminado. Ou pelo menos o primeiro rascunho do romance está terminado. Tem cerca de 84 mil palavras, o que dá umas 250 páginas, mais coisa, menos coisa, e já vai a caminho da gaveta, onde terá de marinar durante algum tempo. Não muito tempo, porque só me conseguirei livrar daquela história quando a tiver contada a meu gosto — ainda continuo a dar voltas mentais à história mesmo depois de acabar o rascunho —, mas algum. Entretanto...

Entretanto hei de ir escrevendo outras coisas. Ainda não sei ao certo quais. No fim de janeiro cá estarei para dizer qualquer coisa sobre elas. Até lá.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Carla Ribeiro: Para Longe do Céu

Mais um conto de fundo cristão, ainda que talvez algo blasfemo, este Para Longe do Céu (bibliografia) passa-se no inferno e tem por tema a relação entre Deus e o Diabo. O pretexto para essa troca de ideias teológicas com o leitor é uma conversa ente o Diabo e um poeta daqueles bem soturnos, que vai parar ao inferno e se apresenta ao "mestre".

Este conto, todo ele muito gótico, é bastante melhor que a média desta antologia — pelo menos até onde ela está lida. Para começar, o texto em si, não sendo nada de extraordinário, é de uma qualidade significativamente superior à de muitos outros. Não há aqui erros de palmatória nem nenhuma sucessão de gralhas. E o conto está bem construído, não parecendo nem desconexo nem apressado.

É bom, então? Não, não creio que chegue a tanto. Mas está lá quase.

Textos anteriores deste livro:

Franz Kafka: Investigações de um Cão

Vê-se um título como Investigações de um Cão, especialmente se o virmos escrito por um autor como Franz Kafka, e fica-se imediatamente curioso com a abordagem e a história a que tal título levarão. Depois, começa-se a ler o texto propriamente dito e rapidamente a curiosidade dá lugar à confusão. É que há aqui coisas que não parecem bater certo, mesmo no contexto de uma história kafkiana.

O texto é um longo fluxo de consciência de um cão com queda para a filosofia e para as ideias abstratas. Talvez demasiado abstratas, pois não parece dar-se conta de que no seu mundo, que aparentemente é o nosso, existem uns símios grandes e ruidosos chamados seres humanos, e por isso se dedica a investigar mistérios transcendentes como por que motivo a comida parece ao mesmo tempo brotar do chão e cair do céu. Vinda aparentemente do nada.

Esta ausência humana causa alguma confusão até que se percebe que sim, os cães desta história estão mesmo inconscientes da nossa existência, o que é algo que está absolutamente à revelia da verdadeira natureza dos cães, basicamente lobos que aprenderam a descodificar as pistas sociais que nós fornecemos. Mas a fonte principal de confusão foi, parece-me, outra. Foi tentar decidir se esta história é uma sátira, um texto de humor, um divertimento, ou foi escrita para ser levada a sério.

Alinho mais pela primeira hipótese, mas sem desprezar a segunda. Ao colocar o seu cão filósofo a escrever, e com um ponto cego tão fulcral como o que apresenta, Kafka, parece-me, está acima de tudo a fazer uma longa troça com um certo tipo de intelectual (humano, não propriamente canino) que, na sua sisudez, na sua auto-importância, deixa passar coisas básicas que qualquer pessoa compreende. Está a gozar com torres de cristal. Está, talvez, a divertir-se à custa das filosofias vãs de tanta gente. Mas ao mesmo tempo está a fazer um comentário bastante sério sobre as nossas limitações e a relação que estabelecemos com elas (ou não), aceitando-as e tomando-as em conta (ou ignorando-as, fingindo que não existem).

E é boa, a história? É, mas não é para toda a gente. Quem goste de fluxos de consciência, de textos introspetivos, filosóficos, ou de humor ou ironia subtil, encontrará aqui um acepipe. Quem prefira ação é melhor que passe adiante, porque se há coisa que aqui praticamente não existe é ação. Eu estou algures no meio: prefiro a ação à introspeção, mas também me pelo por um bom texto irónico. E este está bastante bem escrito, portanto até gostei. Não é dos melhores textos de Kafka, mas é interessante.

Contos anteriores deste livro:

Shinichi Hoshi: Ei... ii, Sai cá pr'a Fo... ora!

O japonês Shinichi Hoshi é bem capaz de ser responsável, pelo menos parcialmente, pelo título mais bizarro de uma história de ficção científica já publicada em português, seja original lusófono, seja tradução como no caso. Se conhecerem um título mais esquisito que Ei... ii, Sai cá pr'a Fo... ora! (bibliografia), sou todo ouvidos.

O conto, curto, é daquelas FCs topológicas, em que uma descontinuidade qualquer do espaçotempo gera efeitos bizarros. E é uma FC tão soft que pode ser vista como um exercício de realismo mágico ou fantasia, talvez até com mais propriedade do que como FC. Conta a história de um buraco aparentemente sem fundo que um belo dia se descobre numa terra no Japão. A descoberta atrai a ciência, claro, mas depressa os cientistas ficam frustrados por não haver realmente nada que se consiga estudar. Como estudar um buraco sem fundo?

Impossível. Portanto, vão-se embora, deixando o buraco e a terra onde o buraco foi descoberto um tanto ou quanto órfãos de atenção e utilidade. Bem... utilidade até existe. Um buraco sem fundo é ótimo para atirar lá para dentro as coisas que ninguém quer, não é? Pois. Portanto, toca a despejar. Mas eis que as coisas dão uma reviravolta daquelas boas. No fim, obviamente.

É um conto engraçado, este. E bom, ainda que seja mais engraçado que bom.

Contos anteriores desta publicação:

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Maria Manuel Lopes: Pedras da Lua

É curioso como quando lemos publicações de contos de diversos autores as expetativas com que encaramos as histórias mais avançadas no decorrer do volume são afetadas pelas histórias que ficaram para trás. Curioso e natural. Mas pode pregar algumas partidas. Se, por exemplo, as expetativas com que se começa a ler um volume são elevadas e os primeiros contos se revelam maus, se calhar acabamos a avaliar melhor um conto razoável que nos surja a meio do que um conto igualmente razoável que apareça no princípio.

Maria Manuel Mateus Marques Claro Lopes (não faz por menos, seis nomes!) escreveu um conto razoável. Pedras da Lua (bibliografia), como de resto o título já começa a sugerir, é uma fantasia urbana movida a ciúme, traição e paranormalidade, escrita de uma forma algo frágil mas nem por sombras tão má como alguns dos contos que ficaram para trás. A situação, uma mulher desconfiada de que está a ser traída que procura a ajuda de uma astróloga para perceber se aquilo de que desconfia é real, é um chavão antigo, a verdade que se revela é um chavão ainda mais antigo e previsível desde o terceiro parágrafo, mas a história está razoavelmente bem contada e o português não sai propriamente maltratado da empreitada.

Textos anteriores deste livro:

Ana Paula Maia: A Pequena Fábrica de Sabão Artesanal do Senhor Chong

Para uma antologia que gira em volta do tema "cadeiras", o conto que a brasileira Ana Paula Maia apresenta tem pouco a ver com o tema. A Pequena Fábrica de Sabão Artesanal do Senhor Chong é uma história sobre um trabalhador, supõe-se que brasileiro, que se sente preso e infeliz no emprego que tem, a fazer sabão numa cave de um prédio, algures numa cidade brasileira, rodeado de chineses e coreanos, e dá voltas à cabeça para ver se consegue arranjar alguma maneira de se libertar daquilo.

A cadeira aparece apenas porque é a cadeira em que ele se empoleira para trabalhar, e que decide levar consigo quando é demitido do emprego, o que o leva a ser perseguido. Um adereço, nada mais. O resto é um relato de raiva surda e francamente racista (resta saber se o racismo é da autora, da personagem ou de ambos), com uma alusão a sexo com uma travesti, também ela asiática, que parece um bom bocado gratuita, servindo apenas para sublinhar a degradação pessoal do protagonista. Tudo somado, não foi conto que me tivesse agradado. Está escrito com competência, mas pouco mais de bom tenho a dizer sobre ele.

Conto anterior deste livro:

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Ray Bradbury: O Homem do Segundo Andar

Hoje em dia grita-se "plágio!" por tudo e por nada, ignorando-se com demasiada frequência que o conceito de plágio não se aplica a ideias mas sim à sua concretização. Não é plágio escrever uma história baseada num bruxo de óculos e com uma cicatriz na testa ou em elfos de orelhas pontiagudas, embora possa ser cliché e coisa derivativa e provavelmente pouco interessante; o que é plágio é repetir enredos, copiar excertos, usar as mesmas palavras, ou palavras muito semelhantes, para dizer as mesmas coisas. Por isso, se John Carpenter tivesse posto cá fora o filme They Live recentemente e não em 1988 provavelmente teria havido uma daquelas polémicas muito parvas e muito indignadas com acusações de plágio à mistura. É que o filme, que adapta um conto de Ray Nelson (Eight o'Clock in the Morning) de 1963, tem um detalhe fulcral de enredo que já tinha sido usado por Ray Bradbury neste conto. E O Homem do Segundo Andar (bibliografia) data de 1947.

Esse detalhe fulcral de enredo, e que me desculpem se acharem que o que se segue é spoiler, é o uso de uma superfície de material translúcido mas colorido para desvendar a verdadeira natureza de criaturas que de outra forma pareceriam inteiramente humanas. No filme de Carpenter, de ficção científica, essa superfície são uns óculos escuros cheios de estilo e as criaturas são invasores alienígenas; no conto de Bradbury, de horror, a superfície é um vitral e a criatura é um vampiro.

O protagonista é um miúdo, cujos pais gerem uma hospedaria, e que tem fascínio pelas vísceras, de ver a avó a preparar animais para cozinhar e faz, como qualquer miúdo curioso, o paralelismo entre os ossos e órgãos de uma galinha e os ossos e órgãos que sabe existirem dentro de si. E das outras pessoas. A história arranca no dia em que à hospedaria chega um homem com exigências estranhas, que aluga um quarto, e cujas exigências vão limitar a vida do miúdo, o que o leva a antipatizar intensamente com ele. O homem trabalha à noite e tem de dormir durante o dia, portanto não pode haver barulho. Ai o caraças, pá, já um miúdo não pode brincar?

E quando calha a espreitá-lo por uma janela de vidros coloridos que existe na casa e vê a sua verdadeira natureza, as coisas mudam de figura. Tornam-se perigosas. Mas o miúdo aprendeu algumas coisas com a avó, e o desfecho acontece. Bem. Este conto é muito bom, um daqueles contos de Bradbury que têm o ritmo certo, as personagens certas, o enredo certo e a forma de escrever certa para ficar na memória.

Contos anteriores deste livro: