segunda-feira, 13 de abril de 2020

Lançamentos de FC de março 2020 (segundo o FCL)

Cá estou eu mais uma vez, com outra lista das edições de FC (e arredores) anunciadas no mês anterior, desta feita março. As limitações, os critérios e patati, patata, podem ser encontrados no primeiro post destes, aquele que se refere a janeiro último. Deem-lhe uma vista de olhos, sim? Mas o que interessa mesmo é sabermos que tal correu o mês. Este.

Há, no entanto, uma notazinha prévia a fazer: o FCL terminou o mês de março muito atrasado, pelo que estas listas, provavelmente, não correspondem à totalidade do mês, sendo o restante reunido com o que vier por aí em abril. Mas mesmo assim...

Pois.

O mês correu mal, claro. E desta vez foi mal em tudo; não só o material português só não está a zeros por ter sido editado no Brasil um livro muitíssimo periférico relativo à FC, como até as traduções foram bastante escassas e, também elas, bastante periféricas. Safa-se um fanzine autoral, que na verdade não faço a mínima ideia se contém FC ou não (até porque ainda não vi por aí uma única opinião a números anteriores; a pecha do costume por escassez de produção de opinião) apesar de se afirmar de ficção especulativa em geral. De outra forma, o deserto seria absoluto. Dá vontade de dizer "escrevam, bolas!" e "publiquem, raisparta!" Seja lá como for. Hoje em dia há n maneiras de publicar, não tem de ficar toda a gente à espera das editoras.

(Ou será que até estão a escrever e a publicar, mas fazem um trabalho tão mau a divulgar edições que ninguém sabe delas? Também é possível.)

(E sim, eu, o gajo que faz o apelo, também estou do outro lado a ouvi-lo. Só posso dizer que vou escrevendo. Devagarinho, mas vai saindo alguma coisa. Publicar? Bem... veremos. Saiu há dias um continho aqui na Lâmpada, mas esse praticamente não conta. Veremos.)

Mas depois de passar o desabafo, até se compreende. A epidemia enfiou-nos numa crise profunda, e não sabemos bem quando e como dela vamos sair. Muitas editoras, se não todas, puseram-se na retranca, adiando lançamentos, algumas talvez até desistindo deles. Segundo as últimas notícias, as vendas de livros em março reduziram-se a menos de metade das que haveria em circunstâncias normais. E iniciativas individuais também precisam de público. Estará esse público disponível nesta altura? Ajuizando por mim, com o pouco que tenho lido no meio de tudo isto, se calhar não. Compreende-se, pois. O que não quer dizer que se goste.

Que isto ao menos sirva para prepararmos um novo impulso assim que o ciclo mudar; tem-se falado tanto de FC nos últimos tempos que no mínimo a curiosidade terá certamente aumentado. Cabe a nós aproveitá-la. Ou, mais uma vez, desperdiçá-la.

Adiante.

No Brasil também houve uma redução, ainda que pouco significativa, mas mais uma vez só se encontram aqui nomes novos. Um deles, de resto (a única moça), é um nome tão novo que recebeu uma imensidão de exposição na imprensa lá do lado ocidental do mar oceano, maior que toda a exposição combinada dos nomes consagrados das várias FCs lusófonas ao longo de vários anos. Caiu-me o queixo, confesso.

Quanto à ficção traduzida, finalmente cá temos o que eu já previa que acontecesse mais tarde ou mais cedo: um enorme desequilíbrio entre o material publicado cá e o material publicado lá, com vantagem para o que saiu lá, obviamente. Fruto sobretudo de um aumento apreciável nas edições brasileiras, ainda que as portuguesas também tenham ajudado, diminuindo.

Por fim, resta assinalar a reedição em ebook de um ensaio português sobre um escritor que roçou pela (proto-)ficção científica, o já referido fanzine e um par de lançamentos de periódicos brasileiros. E siga para o mês que vem, na esperança de que corra melhorzinho.

Ficção portuguesa
  1. Vamos Comprar um Poeta, de Afonso Cruz (publicado no Brasil)
Ficção brasileira
  1. Acid+Neon, nº 2, org. Washington Albuquerque
  2. Alguns Contos Estranhos e uma Novela, de Lucas Victor de Freitas
  3. Ruínas da Escuridão, de Beatriz Di Felice Soriano 
  4. Sangue Vermelho, de J. de J. Batista
  5. Sementes, de Sérgio Barretto 
  6. Titanium, de Leonardo M.
Ficção internacional

Edições portuguesas
  1. 1984, de George Orwell
  2. A Assistente Virtual, de S. K. Tremayne
  3. Esperarei por Ti Toda a Vida, de Megan Maxwell
Edições brasileiras
  1. A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, de Suzanne Collins
  2. A Comunidade Secreta, de Philip Pullman
  3. A Diabólica, de S. J. Kincaid
  4. A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin 
  5. Apenas Humanos, de Sylvain Neuvel
  6. Bloodshot, de Gavin Smith e Vin Diesel
  7. Box Terríveis Mestres, de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Arthur Conan Doyle
  8. Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke 
  9. Mais Fortes Mais Velozes Mais Belos, de Arwen Elys Dayton
  10. O Chamado de Cthulhu, de H. P. Lovecraft
  11. Qualityland, de Marc-Uwe Kling
  12. Sonhos Elétricos, de Philip K. Dick
  13. Vingança, de V. E. Schwab
Não-ficção portuguesa
  1. O Essencial sobre Mario de Sá-Carneiro, de Clara Rocha
Periódicos

Edições portuguesas
  1. As Viagens do Feiticeiro, nº 2
Edições brasileiras
  1. Conexão Literatura, nº 57
  2. Universo GalAxis, anual 2019

domingo, 12 de abril de 2020

Leiturtugas #57

Escrevo isto "só" com 1800 posts à espera de serem vasculhados em busca de material relevante para o FCL, e por conseguinte também de leiturtugas. Mas também escrevo isto já com todo o material de março tratado, pelo que já se pode avançar com isto. Mas antes...

... mas antes fica a nota de que a Carla Ribeiro também iniciou o ano, publicando uma opinião sobre o 5º volume das Obras Completas de Maria Judite de Carvalho, um volume publicado pela Minotauro que, apesar de reunir quatro dos livros da autora, nem é tão grosso como isso. Lá dentro encontra-se um conto que pode ser integrado na literatura fantástica. Nenhum parece ter seja o que for a ver com ficção científica, pelo que a Carla arranca com 0c1s.

Ou seja, o sorteio do Sally vai encontrar a malta assim:

Publicação Já cumprido Falta cumprir Mês de início
Intergalactic Robot 1c4s 7 (5c) janeiro
Ideias de Leitora 0c0s 6 (3c) janeiro
A Lâmpada Mágica 1c1s 10 (5c) janeiro
O Prazer das Coisas 0c2s 10 (6c) janeiro
As Leituras do Corvo 0c1s 11 (6c) janeiro
O Blog do Jauch 0c0s 12 (6c) janeiro
O Senhor Luvas 0c0s 12 (6c) janeiro
Rascunhos 0c0s 12 (6c) janeiro
Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction 0c0s 12 (6c) janeiro
Words a la Carte 0c0s 12 (6c) janeiro

Como se vê, está quase toda a gente atrasada, muitos ainda nem começaram, e só o Artur vai de vento em popa, rumo a uma conclusão rápida da coisa. Por conseguinte, será ele o único a não ter meses de desconto no sorteio; eu e a Tita teremos um, a Carla terá dois e os restantes três.

Planeio fazer o sorteio (e o vídeo) algures durante a semana, mas não me citem: pode ser que haja algum atraso. Afinal, vídeos não são propriamente a minha especialidade. Talvez corra bem, mas talvez não corra e seja preciso aprender umas coisas à pressa. Veremos. Se tudo correr bem, daqui a uma semana cá terão mais um post destes, não só com Leiturtugas (e vai haver Leiturtugas, que eu já sei) mas também com um videozinho. Até lá, leiam coisas boas e protejam-se de bichos esquisitos.

A Gargalhada

Há dias interrompi a história que tenho vindo a escrever nos últimos tempos porque me ocorreu uma ideia para um continho muito curto de ficção científica. Muito curto e algo amargo, confesso. Quem o ler depressa compreenderá qual é o tema. E lê-se num instante: um minuto, minuto e meio e está despachado. É assim:

A Gargalhada


A gargalhada reverbera na pequena sala. Uma voz masculina, roufenha. Outra voz, feminina mas quase igualmente roufenha, soa na sala ao lado, trazendo consigo interrogação e censura em partes iguais.
— Já estás nessa fase, Zé? A rir sozinho?
— Estou aqui a ler uns textos velhos, do tempo da epidemia.
— Não tens nada de melhor para fazer?
— É divertido. Devias ler também. Este é dum gajo que dizia…
— Zé…
— Não, a sério, vais-te rir. Um gajo dizia aqui que a epidemia ia levar a humanidade a reaprender o sentido da comunidade e que o bem de cada um depende sempre do bem de todos. É só palavras caras. Diz ele que o indivíduo só faz sentido enquadrado no coletivo, e patati e patata. — Outro risinho. Uma pausa. — Não achas divertido?
— Não. Deprime-me. Olha, tenho aqui uma luzinha a piscar. O filtro precisa de ser substituído.
— Outra vez?!
— É o que diz aqui.
A voz que antes rira solta agora um suspiro. Exasperado? Resignado?
— Tá bem, tá bem…
O dono da voz levanta-se, dirige-se à zona de descontaminação do abrigo, enverga o fato hazmat, põe a máscara, verifica os indicadores de qualidade do ar, franze o sobrolho, ajusta a posição da máscara e dá três ou quatro pancadinhas na zona onde estão os sensores, encolhe os ombros, pega na arma e verifica as munições, põe a tiracolo a maleta com os filtros e as ferramentas, enfia no braço uma braçadeira lavada do partido, que apesar de estar lavada ainda exibe sinais das mais recentes manchas de sangue, espreita o exterior pela vigia em busca de sinais de perigo, não os vê, fecha a porta interior estanque, substitui a atmosfera limpa do interior pela contaminada do exterior e abre a porta exterior.
— Comunidade — resmunga enquanto sai para uma paisagem dominada pelas ruínas de arranha-céus semissubmersos sob o ataque incessante das ondas do mar, lá longe, atrás do fosso e da cerca eletrificada. — Coletivo. Aquela gente dos tempos da Queda tinha cada ideia…
E lá vai substituir o filtro, arrastando os pés na poeira, uma figura solitária num mundo vazio.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Lucas Ruelles e Rafael Marx (eds.): Pulp Feek, nº 3

Nos fanzines há um fenómeno que acontece com alguma frequência: a uma modéstia extrema nos primeiros números, seja em termos de qualidade dos textos propriamente ditos, seja em termos daqueles pormenores técnicos de que também é feita uma publicação periódica, sucede-se um período em que as coisas melhoram, e por vezes melhoram bastante. Nem sempre é assim; há fanzines que arrancam logo bastante bem e outros nunca chegam a sair do mau, além de que tenho encontrado este fenómeno muito mais vezes em publicações brasileiras do que nas portuguesas (nestas, a relutância em participar numa publicação que arranca mal parece superar quase sempre a vontade de contribuir para que ela melhore). Mas acontece com frequência.

E aparentemente aconteceu com o Pulp Feek, pois o nível geral deste número 3 é significativamente superior ao dos dois primeiros (e o do segundo já tinha sido mais elevado que o do primeiro).

Ou talvez não. Como estes números são concebidos por forma a incluírem material pertencente a um conjunto restrito de géneros ou subgéneros, também é possível que a explicação seja outra: é possível que os autores que se dedicam a certos géneros e estão dispostos a participar no fanzine sejam melhores autores que os que se dedicam a outros géneros. E também é possível que a verdade esteja numa combinação dos dois fatores.

Seja como for, a verdade é que os textos deste número são em geral melhores que os dos números anteriores... com uma só exceção: o único conto completo que aqui se inclui. Este é um conto fraco e de longe o pior texto do fanzine, ainda que os dois inícios de histórias mais longas que aqui também se incluem mostrem por enquanto, e inevitavelmente, mais potencial que concretização.

E isto sublinha mais uma vez o grande ponto fraco de toda esta ideia: as serializações. Nos velhos tempos das revistas pulp, as serializações faziam sentido porque eram muitas vezes a única forma de publicar histórias longas no contexto limitado de uma revista na época (durante pelo menos parte dos tempos áureos dessas publicações o próprio papel era muitíssimo escasso). Mas numa publicação eletrónica em tempos de internet rápida e de grande volume não faz o mais pequeno sentido, nem mesmo para fidelizar públicos, e menos ainda quando a parte seguinte da história não vem no número seguinte porque este está reservado para textos de outro género, mas sim uma quantidade qualquer de números depois. É, numa palavra, absurdo.

Não vou continuar a ler estes fanzines desta forma. Vou ignorar a sequência, pegar num género e ler o que houver para ler no contexto desse género. Não sei qual será o próximo, mas uma coisa é certa: não será o nº 4.

Eis o que achei do único conto completo desta edição:

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Escrita de março


Há um mês, escrevia eu que a ficção que tenho em mãos ia ser acabada "em março, salvo alguma hecatombe". E não é que veio mesmo uma hecatombe?

Covid-19, assim se chama a coisa. Uma epidemia global daquelas que a ficção científica se dedicou várias vezes a analisar, nas fontes, no desenvolvimento e nas consequências, para irrisão de todos os bem-pensantes que agora se descobrem, com espanto e pânico, mergulhados "num filme de ficção científica" (para estes bem-pensantes são sempre filmes; a literatura não existe). E eu, que felizmente não sou bem-pensante, sou um desses tipos escapistas que leem coisas impossíveis de acontecer porque querem fugir ao mundo real, coitadinhos deles, não fiquei nem espantado nem em pânico. Fiquei ávido por informação, toda a informação. E mergulhei nela com sofreguidão, esquecendo leituras, esquecendo vários projetos em curso ou em planeamento, esquecendo quase tudo o que não tivesse a ver diretamente com o trabalho que me põe o pão na mesa e com a vida quotidiana, aquelas tarefas de todos os dias que são condição de estar vivo. E sim, esquecendo também em grande medida a escrita.

Isso, juntamente com o facto da história que tenho vindo a escrever ter chegado a um ponto que exigia parar e trabalhar um pouco em conceptualização — a ficção científica precisa dessas coisas às vezes —, reduziu a menos de metade a quantidade de texto escrito no mês: se o pequeno fevereiro tinha acabado com mais de 8200 palavras de ficção nova, este longo março terminou com meras 4000. Poderiam ter sido as suficientes se a história não tivesse decidido que ia mesmo ser novela; curta, talvez, mas novela. Terminou o mês à volta das 20 mil palavras; quando ficar completo deverá  rondar as 25 mil.

O que isto quer dizer é que deverá terminar agora em abril, apesar da primeira semana do mês ter sido tão improdutiva como foi o mês de março. Ou se calhar ainda mais. Mas acho que vou conseguir acelerar isto; nos últimos tempos tenho conseguido abstrair-me melhor (ou pelo menos durante mais tempo de cada vez) do que se está a passar no mundo e os ajustamentos que foi preciso fazer na vida do dia-a-dia já estão razoavelmente internalizados, transformados em rotinas, pelo que já gastam menos tempo.

Se sim ou se sopas só saberemos em maio. E em maio cá voltarei para vo-lo dizer. Até lá.

Théophile Gautier: A Cafeteira

Ao ler os velhos contos do romantismo é com bastante frequência que saio da leitura com um conjunto bastante contraditório de impressões. Se por um lado sou perfeitamente capaz de apreciar o domínio narrativo e linguístico desses escritores, por outro algumas características do estilo, do movimento ou do que lhe queiram chamar mexem-me violentamente com o sentido do ridículo e até, por vezes, com os nervos. É boa literatura? Será. Mas às vezes é para mim praticamente ilegível.

Ora, o francês Théophile Gautier foi um dos expoentes desse mesmo romantismo, e muito em especial da sua vertente mais fantástica. Saíram-lhe da pena algumas das obras mais conhecidas do movimento (de uma delas falarei aqui em breve, vou já avisando) e ele não se limitava a produzir textos enquadrados ou pelo menos influenciados por ele; defendia-o com unhas e dentes.

Entra em cena A Cafeteira (bibliografia), um conto curto de 1831 que se insere na subcategoria dos casarões assombrados e onde vários dos irritantes do romantismo marcam presença. Mas o conto não chegou a aborrecer-me; em parte por ser bastante curto, o que o torna razoavelmente leve, sem grandes exageros sentimentais, e justifica até certo ponto a instantaneidade de certos acontecimentos.

Sim, porque aquele velho chavão do romantismo lá está, como talvez fosse inevitável estar: o amor instantâneo e irresistível. O protagonista, ao alojar-se num quarto assombrado de um velho casarão, tem a noite perturbada por assombrações mas estas, longe de serem coisas grotescas e terríveis, são — ou parecem ao protagonista ser, depois de passado o susto inicial — benfazejas, até um pouco divertidas, uma procissão de fantasmas dos velhos antepassados do proprietário da casa, que querem apenas passar uma noite divertida, com chá, danças e risos. Pelo menos até que os olhos do protagonista caem numa donzela, linda, claro, pois não existe outra qualidade nas mulheres, sejam elas de carne e osso ou de ectoplasma, e claro que ele fica num êxtase instantâneo de paixão. No fim, tudo acaba em tragédia de faca e alguidar. Mas há neste conto mais humor do que propriamente drama. Não sei se assim é, não tenho certezas, mas pareceu-me que Gautier reconhece o ridículo da sua trama e brinca propositadamente com ele. Pelo menos nesta história.

E, claro, o conto está muito bem escrito. Por aí não há nada a dizer. É boa literatura e não, não é da que referi no início deste texto, aquela que para mim se torna praticamente ilegível. Não terei adorado a experiência de leitura, que não adorei, mas este conto leu-se razoavelmente bem.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 5 de abril de 2020

E mais "meus" em edição especial

Pois no mês de março lá saíram mais duas edições especiais destes "meus" livrinhos (que de inhos não têm nada; são uns belos calhamaços, mesmo tendo dividido os originais em dois) e, como sempre, as capas são um espetáculo à parte.

Há dias estive pela primeira vez com livros destes nas mãos. São de capa dura, como saberá quem vier acompanhando estas edições especiais, mas há dois tipos de livros de capa dura. Alguns, como os livros que o Círculo de Leitores costuma (costumava? já não compro nada ao Círculo há muitos anos) publicar, têm a própria capa ilustrada; outros, como os livros publicados pelo Público na sua coleção Mil Folhas, têm uma sobrecapa ilustrada a cobrir a capa dura propriamente dita.

Estas edições das Crónicas também são como estes últimos: capa dura (que não vi; não quis estar a remexer demasiado no livro sem o comprar a seguir, coisa que ainda não me convenci a fazer) e uma sobrecapa por cima.

E estas continuam a fazer referências mais ou menos subtis a acontecimentos que ocorrem algures nas várias centenas de páginas que encerram. Para alguém que nunca tenha lido as Crónicas, ou visto a série, suponho que sejam bastante misteriosas; para alguém que já conheça a história olhar para estas capas é quase como revisitar essa história.

E é por isso que eu babo.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Kevin J. Anderson: Hopscotch

Muitos histórias de ficção científica, provavelmente a maioria, começam a sua existência com uma pergunta de aparência muito simples: "E se?" Não é só na FC que esta pergunta se encontra, atenção: ela aparece com regularidade em qualquer faceta das artes narrativas, sempre que haja alguma forma de ficcionalização. Mas na FC e em géneros próximos ela é absolutamente fulcral. E se a pergunta for "E se num futuro indeterminado, mas talvez relativamente próximo, fosse possível trocar de corpo quase tão facilmente como se troca de camisa?" é bem possível que o resultado seja este Hopscotch, de Kevin J. Anderson.

Mas ser possível e ser inevitável são coisas bem diferentes. Uma ideia destas pode ser desenvolvida de formas muito distintas e resultar até em histórias quase diametralmente opostas. E é por isso mesmo que dar toda a primazia à IDEIA, mesmo assim em maiúsculas, que é tendência de algumas pessoas ligadas à FC, é uma perspetiva francamente redutora do que pode ser e muitas vezes é uma obra criativa em geral e literária em particular. Sim, a ideia é importante, mas o seu desenvolvimento é tão ou mais importante do que ela.

Neste romance, o tom é algo juvenil. Trata-se no essencial de um romance de formação, não centrado numa personagem como é mais vulgar, mas em quatro, um grupo de amigos, todos órfãos. O romance começa quando eles se preparam para sair do orfanato e enfrentar o mundo lá fora, cada um à sua maneira.

Um tem uma deficiência que é ao mesmo tempo uma qualidade: é incapaz de trocar de corpo, mas consegue identificar sem erro qual é a identidade que se encontra no interior de cada corpo específico. É que as regras mandam que sempre que se dê uma troca esta fique registada nuns chips que toda a gente é obrigada a ter, para que não haja dessincronias entre quem habita um corpo e quem o mundo exterior julga habitá-lo, mas nem todos cumprem as regras. Há quem não sincronize a identificação, o que constitui crime. E há quem procure apanhar criminosos, naturalmente, para o que a habilidade deste coprotagonista é extremamente útil.

Outra é alguém que procura um sentido para a vida, alguém que tem necessidade de se integrar, de pertencer a qualquer coisa maior que ela. Uma ingénua influenciável, incapaz de ver a maldade humana ou de compreender todas as consequências de estilos de vida, e com uma certa queda para o transcendente.

Outro é um artista, sempre em busca de alguma forma de revelar as verdades que sente necessidade de colocar no mundo sobre a natureza humana, a natureza da vida no seu tempo, a natureza de ele próprio. Um espírito inquieto, numa procura incessante por qualquer coisa, quer enquanto a sua arte não lhe deu o suficiente para viver, quer depois de começar a dar. E para isso troca sucessivamente de corpo, tentando perceber como é viver como outras pessoas, todos os tipos possíveis de outras pessoas.

E o quarto é um despreocupado que faz o que precisa de fazer para sobreviver, e se o que precisa de fazer é alugar o corpo a quem queira pagar-lhe por isso, pois que seja. Há formas piores de ganhar a vida do que aguentar durante algumas horas ou dias as dores de corpos velhos ou doentes ou a dor de parto de mulheres que preferem não passar pela experiência.

Todos são bastante ingénuos, todos vão tropeçando vida fora sem uma rede de apoio que vá além da velha amizade que os une, ou talvez a palavra mais adequada seja irmandade apesar de eles não serem realmente irmãos. E é isso, a amizade, o tema principal do romance. A amizade e o que se está disposto a fazer por ela, as coisas que a desenvolvem ou corroem.

Uma das maiores frustrações deste livro vem um pouco daí. A ideia de base da troca de corpos dá tanto pano para mangas que Anderson podia tê-la explorado de forma bastante mais profunda, mas preferiu ficar-se pelo tom juvenil e algo superficial. Ou talvez o problema seja outro, talvez seja ter-se perdido nas várias ramificações da ideia sem realmente explorar nenhuma delas por completo. Ou talvez seja a desconexão dos protagonistas com o leitor (ou com este leitor, pelo menos), que nunca chega realmente a formar uma ligação com eles, nem que seja de compreensão ou empatia.

Por outro lado, não se pode dizer que não seja livro que até se lê bem. É uma aventura de ficção científica juvenil sem nada de transcendente, com uma boa ideia que não é lá muito bem aproveitada, mas deixa-se ler bem. Literatura de entretenimento, basicamente, que passa longe da melhor FC que por aí anda mas serve para passar algumas horas razoavelmente entretidas. Razoável, ora cá está a palavra certa; é isso o que este livro é.


Este livro foi um presente de uma amiga.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Leiturtugas #56

Com esta história da epidemia, a minha produtividade foi completamente pelo ralo. Não que o recolhimento obrigue a grandes adaptações relativamente à vida que eu fazia antes — quem já trabalhava em casa, como eu, não tem grandes adaptações a fazer. Na verdade, sou até capaz de ter passado a sair mais vezes, porque para lá de compras para mim agora também faço pelo menos parte das da minha mãe. Mas tudo isto originou uma busca obsessiva de informação, e a consequência é que todo o trabalho aqui na Lâmpada e no FCL, e até a própria leitura, se detiveram quase por completo, pelo menos durante a primeira semana. E tal. E isso teve e deverá continuar a ter consequências aqui nas Leiturtugas.

Que consequências? Atrasos. Grandes. O material para o FCL acumulou-se e no momento em que escrevo isto tenho quase 2500 posts por vasculhar, o que deverá demorar ainda bastante tempo. Ora, como as minhas fontes para o FCL são as mesmas que uso para as Leiturtugas, não será muito difícil imaginarem com quanto atraso estarão as coisas a ser divulgadas aqui. Por isso, se publicarem hoje um post relevante, não contem com vê-lo aqui antes de se passar pelo menos uma semana. Pelo menos.

Outra coisa: o sorteio do Sally. Vai ser feito mas não logo no princípio de abril, como eu tinha planeado, e sim apenas quando acabar de despachar todo o material acumulado de março. Como não sei ainda quando isso será, não vos posso dar uma data, nem mesmo aproximada. Quanto ao livro, e como eu, como qualquer de nós, não posso ter a certeza de não estar contaminado, vai ser empacotado assim que haja vencedor do sorteio que o aceite, depois fica a repousar dois ou três dias, o suficiente para a bicharada que poderá eventualmente assolar-nos se decompor no interior do embrulho, e só será enviado depois. Aconselho quem o receber a ter os cuidados normais com o embrulho, mas o interior deverá chegar totalmente livre de bichezas desagradáveis, ou seja, perfeitamente seguro.

(sim, sim, eu sei que não é um bicho)

Quanto ao envio propriamente dito, não garanto rapidez. Pode ser que tenha de fazer várias viagens ao posto dos correios até o encontrar vazio o suficiente para considerar razoavelmente seguro fazer o envio. Pode ser que seja à primeira tentativa, pode ser que não seja antes de um número indeterminado delas. Veremos.

Que mais? Bem... mais nada. Parece que é isto.

Ah, sim, já me esquecia. A Tita estreou o ano nas Leiturtugas com duas opiniões sobre dois livros da Catarina Janeiro, ambos publicados pela Coolbooks. O primeiro intitula-se Outubro Negro e o segundo, sequela deste, tem o título de O Hospital de Todos os Santos. Nenhum deles tem FC, ao que parece, pelo que a Tita arranca com 0c2s.

E por agora é tudo. Para a semana pode ser que haja mais.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Robert Louis Stevenson: O Ladrão de Cadáveres

De médicos e de monstros se fez um dos mais famosos romances de proto ficção científica intimamente ligada ao terror, ou vice-versa (é mais vice-versa, sim), da literatura mundial. Mas essa não é a única história do autor, Robert Louis Stevenson, que mistura esses dois elementos. A prova? Esta noveleta intitulada O Ladrão de Cadáveres (bibliografia).

É uma daquelas histórias de ouvir dizer, alegadamente reais, com um narrador que relata algo que uma segunda pessoa lhe conta, tão em voga no século XIX e início do século XX. Uma história de bar. Depois de assistir a um estranho confronto entre um companheiro de bebedeira e um desconhecido, médico, o narrador ouve do amigo a história que explica o confronto.

É esta que tem muitos pontos de contacto com a protagonizada pelo Dr. Jekyll e pelo Mr Hyde. À primeira vista, e durante muito tempo, parece apenas uma história de crime, sobre gente sem escrúpulos que assalta campas e rouba cadáveres para os fornecer a uma escola de medicina para as aulas de anatomia. E que não se limita a assaltar tumbas, pois tem também outras formas mais criminosas de se munir de cadáveres. Mas no final...

... No final surge o horror a sério, com forte indicação de sobrenaturalidade, ainda que outra interpretação o faça não passar de psicológico. Seja qual for a interpretação preferida, o final é bastante apoteótico em termos narrativos, contando com cadáveres, noite, tempestade e chuva. E medo, muito medo. Mais das personagens que deste leitor, que é muito imune ao medo vindo da literatura, mas medo, muito medo. Um final que explica a mudança acontecida no homem que conta a história, pois além do confronto que este tem com o desconhecido existe também nele uma mudança radical no rumo da vida que também contribui para o mistério que acrescenta interesse à história.

No fundo, e tal como O Médico e o Monstro, esta também é uma história sobre a natureza e a decência humana, e os limites éticos a que deve obedecer quem lida com a vida e a morte. Sobre as consequências de se ultrapassar esses limites. Sobre a consciência, no fundo. E é uma boa história, mesmo que a sua qualidade esteja bastante aquém do romance.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 26 de março de 2020

Mais um dos "meus": a primeira biografia

Até ao final do ano passado, tinha passado o tempo quase todo a traduzir ficção, e o "quase" está aqui por causa de um par de álbuns de BD que também traduzi. Fantasia, sobretudo, mas também FC, romance histórico, história alternativa, horror (ou pelo menos fantasia sombria), por aí fora. No final do ano passado, isso mudou: traduzi o meu primeiro livro de não ficção.

E foi este, cuja capa está aqui ao lado e que foi publicado recentemente por uma das chancelas da Saída de Emergência. Animal não é nome mas sim a alcunha de um criminoso violento, filho de emigrantes açorianos no Massachusetts. O nome é Joe Barboza, com Z provavelmente porque se fosse S os americanos pronunciariam "barbossa" e como todos sabemos o S de barbosa diz-se Z. O Animal aqui biografado era um assassino a soldo com ligações à Máfia, que esteve profundamente envolvido na guerra do crime organizado que houve em Boston, e na Nova Inglaterra em geral, nos primeiros anos da década de 60 do século XX.

Na guerra do crime organizado e também na destruição desse mesmo crime organizado, na criação do Programa de Proteção de Testemunhas e numa série de escândalos que abalaram profundamente o FBI no último quartel do século XX. É que o nosso Animal teve uma vida muitíssimo colorida, o que de resto é hábito em quem mergulha no mundo do crime. Mas no caso de Joe Barboza terá provavelmente sido mais colorida do que a maioria.

E o autor deste livro, Casey Sherman, não se limita a acompanhar a vida do protagonista pelo meio de todas essas convulsões. Ele é o fio condutor, sim, mas Sherman não vira a cara às ramificações, às ligações mais ou menos próximas entre acontecimentos exteriores ao caminho que Joe Barboza seguiu do nascimento à morte e esse caminho propriamente dito. Fala, brevemente, dos antecedentes familiares e sociais, da comunidade, da vida das comunidades operárias, em grande medida compostas por imigrantes, na Nova Inglaterra ao longo do século XIX e do início do século XX, fala bastante da Máfia e dos gangues irlandeses de Boston e zonas limítrofes, fala do FBI, de J. Edgar Hoover e de Bobby Kennedy, por aí fora. Barboza é retratado como um peão de acontecimentos mais vastos, que o influenciam e que ele por sua vez influencia. Um peão que deixa um rasto de sangue por onde passa.

Este livro não é ficção, mas até podia ser. Ou por outra, retrata aquela realidade que inspirou muita da ficção literária e cinematográfica que temos visto e lido ao longo do último meio século. Com uma diferença de monta, pelo menos para nós: o protagonista é lusodescendente. Tudo isto torna-o bastante interessante e espero ter-lhe feito justiça com a minha tradução.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Alan Moore: Doença de Fuseli

Andar a ler histórias sobre doenças, por mais excêntricas e desacreditadas que elas sejam, no meio do que provavelmente será a epidemia do século é uma sensação algo estranha.

Especialmente quando a doença desacreditada é das contagiosas. É o caso desta Doença de Fuseli (bibliografia), saída da pena de alguém conhecido sobretudo como autor de BD: Alan Moore. Como autor de BD de terror, mais precisamente e, sim, esta doença/história é de terror, com base numa ideia realmente muito boa: uma enfermidade onírica que se propaga pelo mundo dos sonhos.

Imaginam? De dia, ou melhor, enquanto acordadas, as pessoas não revelam qualquer sintoma e vivem as suas vidas, saudáveis ou enfermas de outras enfermidades, como se nada se passasse. Mas quando adormecem são assaltadas por sonhos vívidos em que estão doentes, com sintomas característicos, e se por acaso calha sonharem com outras pessoas verdadeiras é quase inevitável que os sonhos destas também passem a ser assim. Imaginam as consequências?

Alan Moore não nos dá as consequências, ainda que sugira algumas; afinal, isto é um livro de descrições de doenças. Mas deixa no ar o apetite de ler uma história mais extensa, com um estilo ficcional mais convencional, sobre um mundo assolado por uma epidemia deste género. Podia ser uma história magnífica. Assim, Moore fez provavelmente o melhor que poderia ter feito dentro das limitações da proposta, o que significa que o resultado é bom. Mas confesso: soube-me a pouco. Queria mais.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 14 de março de 2020

Elsa Loff: O Museu

É curioso como os problemas no uso das vírgulas se correlacionam tão frequentemente com as pretensões à prosa poética, como se os autores mais inexperientes estivessem convencidos de que escrever bem e escrever rebuscadamente são uma e a mesma coisa, e por isso tentassem, sem saberem bem como, alcançar o segundo objetivo para conseguirem obter o primeiro.

Sim, é precisamente o caso deste O Museu (bibliografia) de Elsa Loff, mais um conto bastante fraco principalmente por conta de demasiados disparates na colocação de sinais de pontuação, sobretudo de vírgulas, e porque a autora, ao tentar fazer prosa poética, acaba a adverbiar e adjetivar em demasia o seu texto. Este é uma banal história de terror sobre uma criatura demoníaca mergulhada em formol num frasco num museu — e cá temos o título — mas nem por isso desprovida de um certo poder. A leitura não é particularmente agradável, mas o conto, muito curto (duas páginas), esquece-se num ápice.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 13 de março de 2020

Em fevereiro falou-se de...

Fevereiro foi mais um mês francamente mau, mas esperem que sobre isso falarei mais adiante. Os apressados podem saltar já para as listas ou para os comentários... ou para os dois lados se tiverem o dom da ubiquidade. Para já, a conversa habitual, destinada àquela malta que cai aqui pela primeira vez. E olhem, este mês vou limitar-me a um copy-paste do mês anterior, em honra do recém-falecido Larry Tesler.

A explicação sobre o que vem a ser isto está no primeiro destes posts, aqui, onde também se dão conta das limitações que isto tem, do lugar de onde isto vem, do que se pretende alcançar com isto, e por aí fora. E se quem aqui chegar pela primeira vez tiver curiosidade sobre o que já se publicou de semelhante no passado (e no futuro, que se o leitor cá cair depois de março de 2020 já haverá coisas semelhantes posteriores a esta), basta-lhe clicar na tag leituras fc e empanturrar-se de informação. E siga para as listas, que depois delas há comentários.

Ficção portuguesa:
  1. Mekanon, de Michel Alex
  2. O Submundo dos Antigos, de Susana Celina de Oliveira Augusto (conto)
  3. A Gaivota Ferida, de Jeracina Gonçalves (conto)
  4. Feridas de Ódio e Amor, de António Orta (conto)
  5. Ensayo Sobre la Lucidez, de José Saramago
  6. Saudações de Tau Ceti, de António Bettencourt Viana (conto)
Ficção luso-brasileira:
  1. Vaporpunk, org. Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva
Ficção brasileira:
  1. Epílogo, de Victor Allenspach
  2. Anacrônicos, de Luiz Bras (conto)
  3. Máquina Macunaíma, de Luiz Bras (2x)
  4. Paraíso Líquido, de Luiz Bras
  5. Não Jogue com a Morte, de Capitolina (conto)
  6. La Dame Chevalier e a Mesa Perdida de Salomão, de A. Z. Cordenonsi
  7. O Mistério dos Planos Roubados, de A. Z. Cordenonsi (2x)
  8. O Problema dos Cálculos Maquinares, de A. Z. Cordenonsi
  9. Morte Matada, de G. G. Diniz
  10. Gastaria Tudo com Pizza, de Pedro Duarte
  11. Back in the USSR, de Fábio Fernandes
  12. Engrenagens, org. Paola Giometti
  13. Hannah, de Bruno Godoi
  14. Elemento Alpha, de Priscila Gonçalves
  15. Elemento Infinito, de Priscila Gonçalves
  16. Leia Mulheres, org. Michelle Henriques, Juliana Gomes e Juliana Leuenroth
  17. Juízo Final, de Thiago Kansler
  18. Rio 2054, de Jorge Lourenço
  19. Três Meses no Século 81, de Jeronymo Monteiro
  20. Incompletos, de Sabine Mendes Moura
  21. Um Passeio no Jardim da Vingança, de Daniel Nonohay
  22. Ninguém Nasce Herói, de Eric Novello
  23. Às Moscas, Armas, de Nelson de Oliveira
  24. A Batalha dos Mortos, de Rodrigo de Oliveira
  25. O Senhor do Tempo, de Márcio Pacheco (2x)
  26. O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci (12x)
  27. Crónica Extra-Terrestre, de José Guilherme Correa Pinto (conto)
  28. Por Onde Ela Esteve?, de Rebeka Prez
  29. Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, de Ana Cristina Rodrigues
  30. A Telepatia São os Outros, de Ana Rüsche (2x) 
  31. Safra Macabra, de King Shelter
  32. Traição, de Márcia Silva
  33. Fanfic, de Braulio Tavares
  34. Ìségún, de Lu Ain-Zaila (2x)
Ficção internacional:
  1. Das Estrelas ao Oceano, org. ??
  2. O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams
  3. O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams
  4. Mundos Apocalípticos, org. John Joseph Adams
  5. As Cavernas de Aço, de Isaac Asimov (2x)
  6. Eu, Robô, de Isaac Asimov
  7. Fundação, de Isaac Asimov
  8. Fundação e Império, de Isaac Asimov (2x)
  9. Nove Amanhãs, de Isaac Asimov
  10. O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov
  11. O Conto da Aia, de Margaret Atwood (2x)
  12. Os Testamentos, de Margaret Atwood (2x)
  13. O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle
  14. Farenheit 451, de Ray Bradbury (2x)
  15. 4 Contra o Apocalipse, de Max Brallier (2x)
  16. A Marcha dos Zumbis, de Max Brallier (3x)
  17. Fortaleza Digital, de Dan Brown
  18. Filho Dourado, de Pierce Brown
  19. Laranja Mecânica, de Anthony Burgess
  20. A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler
  21. Bloodchild, de Octavia E. Butler (conto)
  22. Seres do Espaço, de Steven Caldwell
  23. O Enigma de Outro Mundo, de John W. Campbell (2x)
  24. Dacey's Patent Automatic Nanny, de Ted Chiang (conto)
  25. Doença do Arroz Claro, de Michael Cisco (conto)
  26. Desencanto Fúngico, de Alan M. Clark (conto)
  27. 2001: Odisseia Espacial, de Arthur C. Clarke
  28. O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke (2x)
  29. Respire Fundo, de Arthur C. Clarke (conto)
  30. A Biblioteca Invisível, de Genevieve Cogman
  31. Naves Espaciais 2000 a 2100, de Stewart Cowley
  32. Jurassic Park, de Michael Crichton
  33. Matéria Escura, de Blake Crouch
  34. Recursão, de Blake Crouch (3x)
  35. Vox, de Christina Dalcher
  36. The Evil Goblins from Neptune, de Martin Day e Keith Topping 
  37. O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick
  38. A Libélula no Âmbar, de Diana Gabaldon
  39. Ecos do Futuro, de Diana Gabaldon
  40. Seres Mágicos e Histórias Sombrias, de Neil Gaiman e Al Sorrentino
  41. Herland, de Charlotte Perkins Gilman
  42. Uma Coisa Absolutamente Fantástica / Uma Coisa Absolutamente Incrível, de Hank Green (2x)
  43. A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin
  44. Os Despossuídos, de Ursula K. Le Guin
  45. Guerra Sem Fim, de Joe Haldeman
  46. Metrópolis, de Thea von Harbou
  47. Hunters of Dune, de Brian Herbert e Kevin J. Anderson
  48. Chapterhouse: Dune, de Frank Herbert
  49. Heretics of Dune, de Frank Herbert
  50. O Homem da Areia, de E. T. A. Hoffmann (conto)
  51. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
  52. A Gaiola Dourada, de Vic James
  53. A Quinta Estação, de N. K. Jemisin
  54. O Céu de Pedra, de N. K. Jemisin
  55. O Portão do Obelisco, de N. K. Jemisin
  56. The Kingdom of Gods, de N. K. Jemisin
  57. O Mundo Invisível Entre Nós, de Caitlín R. Kiernan
  58. Cell, de Stephen King
  59. O Instituto, de Stephen King
  60. Lucky Thirteen, de Marko Kloos (conto)
  61. Measures of Absolution, de Marko Kloos (conto)
  62. Perelandra, de C. S. Lewis
  63. O Ano da Graça, de Kim Liggett (4x) 
  64. O Fim da Morte, de Cixin Liu
  65. A Cor que Caiu do Espaço / A Cor que Caiu do Céu, de H. P. Lovecraft (3x)
  66. A Vida Depois de Legend, de Marie Lu (conto)
  67. Champion, de Marie Lu
  68. Prodigy, de Marie Lu
  69. Rebel, de Marie Lu
  70. Ladra de Almas, de Sarah J. Maas
  71. Intocável, de Tahereh Mafi
  72. Inspeção, de Josh Malerman (2x)
  73. O Outro Lado do Amanhecer, de John Marsden
  74. O Começo, org. George R. R. Martin
  75. A Memory Called Empire, de Arkady Martine
  76. Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson
  77. Máquinas Como Eu, de Ian McEwan
  78. A Altura Deslumbrante, de Katharine McGee
  79. Cinder, de Marissa Meyer
  80. Levana, de Marissa Meyer
  81. Brumas do Tempo, de Karen Marie Moning
  82. Mais Forte que o Mar, de Kassandra Montag (2x)
  83. Gigantes Adormecidos, de Sylvain Neuvel
  84. 1984, de George Orwell
  85. Gato, de Bill Pronzini (conto)
  86. A Bússola de Ouro, de Philip Pullman
  87. Intruso, de Iain Reid
  88. Perdida, de Carina Rissi
  89. Pureza Mortal, de J. D. Robb
  90. De Sangue e Ossos, de Nora Roberts
  91. Nova York 2140, de Kim Stanley Robinson
  92. Território Lovecraft, de Matt Ruff
  93. A Última Colônia, de John Scalzi
  94. Vilão, de V. E. Schwab
  95. Frankenstein, de Mary Shelley (2x)
  96. O Projeto Rosie, de Graeme Simsion
  97. Matadouro-Cinco, de Kurt Vonnegut, Jr.
  98. Utopia, LOL, de Jamie Wahls (conto) 
  99. Fragmentos do Tempo, de Rysa Walker
  100. O Homem Invisível, de H. G. Wells
  101. A Queda Sombria de Elizabeth Frankenstein, de Kiersten White
  102. Uma Nova Esperança: A Vida de Luke Skywalker, de Ryder Windhan
  103. Frankissstein, de Jeanette Winterson
  104. A Sombra do Torturador, de Gene Wolfe
  105. Projecto Grande Ascenção, de Robert F. Young (conto)
  106. Nós e Outras Novelas, de Evguéni Zamiátin
Não-ficção internacional:
  1. 21 Lições Para o Século XXI, de Yuval Noah Harari
  2. A Nova Idade das Trevas, de James Bridle
  3. Novacene: The Coming Age of Hyperintelligence, de James Lovelock
  4. Monstros Fabulosos, de Alberto Manguel
Pois como ia dizendo, este mês voltou a ser muito mau no que toca à FC portuguesa. Não só 6 comentários fica bem longe dos 10 que considero o mínimo aceitável para um ambiente razoavelmente saudável, como todos menos dois foram comentários a contos feitos aqui mesmo na Lâmpada. Contando só com o que vem do "vasto mundo lá fora", tudo se resume a uma opinião sobre Saramago vinda do mundo hispânico e uma opinião sobre um livro lançado recentemente. De resto, a quase ausência de lançamentos nos primeiros meses do ano contribui para este silêncio. E assim, naturalmente, não há destaques a fazer.

Num contraste absoluto, os comentários à FC brasileira podem ter batido o recorde (não tenho registado quantos comentários houve em cada categoria em cada mês, pelo que escrevo de memória, a qual é falível), e mesmo se não o fizeram ficaram certamente perto. 34 títulos são muitos títulos, especialmente tendo em conta que incluem relativamente poucos contos, e houve bastante mais comentários que esses. O destaque do mês vai outra vez para Fausto Luciano Panicacci, que continua a fazer marketing do seu romance, desta feita através de uma leitura conjunta que lhe rendeu este mês 12 comentários. Além dele, são de destacar Luis Braz, com 4 comentários a 3 títulos e A. Z. Cordenonsi, também com 4 comentários a 3 títulos.

Também as leituras internacionais foram bastante abundantes — embora aqui não haja de certeza recordes batidos — voltando o total de títulos a ultrapassar a centena: 106. O principal destaque do mês coube a Isaac Asimov, com 8 comentários distribuídos por 6 títulos, mas Max Brallier, com 5 comentários a 2 títulos, Arthur C. Clarke, com 4 comentários a 3 títulos, Blake Crouch, também com 4 comentários mas a 2 títulos, N. K. Jemisin, ainda com 4 comentários mas a outros tantos títulos, Kim Liggett, também com 4 comentários a um só título, e Marie Lu, de novo com 4 comentários a outros tantos títulos, também merecem destaque.

Por fim, havia em janeiro a dúvida sobre se a abundância de comentários a obras de não ficção seria epifenómeno ou tendência. Bem... é facto que a quantidade diminuiu significativamente em fevereiro, mas não deixa de ser também facto que a lista continua a ser múltipla. Ou seja: acho que ainda não há resposta. Teremos de esperar mais algum tempo. Talvez em março? Talvez.

Até lá.

domingo, 8 de março de 2020

Leiturtugas da semana #55

Depois de uma semana de pausa, eis que regressam as Leiturtugas, e agora já não chegam pelas mãos do Artur Coelho como tem sido hábito até aqui. É que um tal Jorge Candeias, não sei se sabem quem é, estreou o ano com uma opinião sobre um livro português de ficção científica que pelos vistos ninguém conhecia. Intitula-se o livro Maresia, o autor chama-se Fernando Correia da Silva, e o livro, um romance, foi publicado pela Campo das Letras nos primeiros anos do século.

Mas não me fiquei por este, que eu cá quando começo é logo à bruta (não é nada; até sou suavezinho). Também opinei sobre um segundo livro integrado no projeto, este sem qualquer sinal de FC mas com algum fantástico de outros matizes: a antologia Doze Escritores Portugueses Contemporâneos publicada pela Dom Quixote e organizada pelo respetivo editor, Nelson de Matos. E o tal Jorge Candeias estreia-se com 1c1s.

Para a semana? Eu não tenho nada. E vocês?

sábado, 7 de março de 2020

Lançamentos de FC de fevereiro 2020 (segundo o FCL)

E cá temos a segunda lista mensal de lançamentos, depois da inauguração desta nova forma de fazer isto que tivemos no início de fevereiro e referente a janeiro. Convém ir lá dar-lhe uma vista de olhos para saber de limitações e critérios e essas coisas, e quanto ao que está aqui neste post, é tudo o que foi apanhado pelo FCL durante fevereiro subtraído do que já tinha sido apanhado pelo FCL durante janeiro.

E que tal correu?

Olhem, foi tudo bastante parecido com janeiro. A FC portuguesa está praticamente parada, contando este mês apenas com um lançamento algo marginal ao género (ou totalmente fora dele, pois os livros do António Bizarro só têm alguns elementos de FC e às vezes nem isso, pelo menos a ajuizar por algumas opiniões que se têm lido por aí) e uma reedição brasileira de Saramago. Ou então é tudo secreto, não divulgado, encerrado nos grupinhos murados das redes sociais.

Em contraste, no Brasil continua a lançar-se material se não com abundância, pelo menos com regularidade. E com muitos nomes novos, coisa que em Portugal só raramente aparece com lançamentos individuais, e quando aparece tem tendido a ser através daquelas pequenas edições de contos feitas pela Imaginauta. Este mês, de resto, as novidades brasileiras são praticamente só nomes novos; não vejo aqui nenhum clássico ou consagrado.

Quanto à ficção traduzida, desaparecido o efeito dos anúncios de novidades de médio e longo prazo os números desceram bastante, tanto em Portugal como no Brasil. Mas voltaram a ser equilibrados, o que continuo a achar surpreendente, ainda que desta vez haja uma ligeiríssima vantagem brasileira. Talvez devido à continuada ausência de anúncios de edições brasileiras de Perry Rhodan. Mas não só, pois as novidades portuguesas são desta vez mais próximas do núcleo central da ficção científica, estando a maior parte das brasileiras um pouco mais afastadas. Mas em ambos os casos os números são baixos; desconfio que talvez se venham a contar entre os mais baixos do ano.

De resto, tivemos um lançamento de não-ficção lusobrasileira, três lançamentos de não-ficção traduzida, todos no Brasil, e três lançamentos de periódicos, sendo aqui de realçar o aparecimento de um português, o que é uma raridade. E também aqui os números são baixos, com exceção da não-ficção traduzida publicada no Brasil. Está certo que nunca fiz isto mês a mês, portanto não posso ter certezas, mas três títulos num só mês não deve ser muito frequente.

Em suma: fevereiro não me agradou. Em abril logo veremos como foi março. Até lá.

Ficção portuguesa:
  1. Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (editado no Brasil)
  2. Os Filhos de Rambeau, de António Bizarro
Ficção brasileira:
  1. A Primeira Diretriz, de Paulo Batkai Louzada
  2. Canis Majoris, de Eduardo Bragança
  3. Ir Também é Ficar, org. Vanessa Brunt
  4. O Garoto das Dez, de G. S. Goméz
  5. O Herdeiro dos Deuses, de Victor Alves
  6. Passageiro do Caos, de Uziel A. Gomes 
  7. Quadrado 111, de Gleisom Peixoto 
  8. Signum, de Júlio César Bueno
  9. Unicelular, de Tarsis Magellan
Ficção internacional:

Edições portuguesas
  1. A Tempestade, de Clive Cussler e Graham Brown
  2. Depois do Dilúvio, de Kassandra Montag
  3. Os Tempos do Ódio, de Rosa Montero 
  4. Viagem ao Passado, de Kevin Emerson
Edições brasileiras
  1. A Jangada, de Jules Verne
  2. Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe 
  3. Nova York 2140, de Kim Stanley Robinson
  4. O Chamado de Cthulhu e Outras Histórias, de H. P. Lovecraft
  5. Território Lovecraft, de Matt Ruff
Não-ficção luso-brasileira:
  1. Faces da Utopia, org. ??
Não-ficção internacional:

Edições brasileiras
  1. 21 Lições Para o Século 21, de Yuval Noah Harari
  2. H. P. Lovecraft: Contra o Mundo, Contra a Vida, de Michel Houellebecq
  3. Inteligência Artificial, de Kai-Fu Lee
Periódicos:

Edições portuguesas
  1. Orion, nº 5
Edições brasileiras
  1. Conexão Literatura, nº 56
  2. Literomancia, nº 3

Nelson de Matos (org.): Doze Escritores Portugueses Contemporâneos (#leiturtugas)

Tenho o Bibliowiki basicamente parado, por falta de tempo para lhe dedicar. Consequência de várias coisas, quase todas positivas: ter tido trabalho, ter voltado a escrever, ter lido bastante ultimamente e portanto ter tido muito a dizer sobre o que vou lendo, e por aí fora. Mas o Bibliowiki sofre. O que não quer dizer que parem as leituras que vou fazendo para perceber se os livros têm lá dentro alguma coisa que interesse ao wiki. E aqui está mais uma.

Pois esta antologia de Doze Escritores Portugueses Contemporâneos, organizada por Nelson de Matos de forma algo clandestina, pois não aparece o seu nome em lugar nenhum e há que deduzir que a responsabilidade é sua a partir de elementos díspares, foi comprada (cegamente, num site de livros em segunda mão) especificamente para satisfazer essa curiosidade: conterá alguma coisa relevante para a literatura fantástica? Algum autor novo, algum autor a escrever textos com elementos não realistas de relevo?

E de facto contém. Não é como em certas antologias, em que, com grande surpresa, constatei que a literatura fantástica compõe um quinhão significativo dos textos nelas presentes, mas dois destes doze textos são realmente enquadráveis no fantástico, um de uma forma mais ténue, outro de modo decidido. Missão cumprida, portanto.

No entanto, não era esse o propósito deste livro. Trata-se de uma compilação de textos previamente publicados, entre contos e excertos de romances, com o objetivo de apresentar a putativos leitores, tradutores e editores uma série de autores da casa, a Dom Quixote. A ideia é, pois, despertar curiosidade pelo resto das obras de onde estes textos são extraídos e, por extensão, pelo resto das obras dos autores aqui incluídos. Terá sido nisso bem sucedido?

Bem, pela parte que me toca, mais ou menos. Se é certo que gostei de vários destes textos, e até os achei em geral boa ou muito boa literatura, a esmagadora maioria não me puxou o suficiente os cordelinhos do gosto para me levar a ter realmente vontade de arranjar os livros de que fazem parte. Ou por outra, alguns até levaram, mas de forma algo vaga, como um projeto a médio ou a longo prazo, não como algo para fazer em breve. E todos sabemos o que acontece com frequência aos projetos vagos de longo prazo, não é? Esquecem-se. São ultrapassados pelos acontecimentos e pelas vontades. Acontecerá? Só o futuro o dirá.

Se chegar a acontecer, não será surpresa para ninguém que aconteça sobretudo com aqueles textos e autores que me mostraram pegada fantástica: a Teolinda Gersão de A Árvore das Palavras e a Luísa Costa Gomes de O Fosso e o Pêndulo, embora eu costume não gostar dos contos desta autora. Mas não só: o Álvaro Guerra de Ponta Tenente também me despertou alguma curiosidade, o Mário Cláudio de As Chagas também e até, talvez, a Lídia Jorge de A Espuma da Tarde. Quanto aos outros, duvido mesmo muito que chegue a ler algum.

Seja como for, esta foi mais uma leitura que valeu a pena, mesmo tendo alguns dos textos passado um pouco (ou bastante) ao largo do meu gosto literário: encontrei mais coisas para o Bibliowiki, li alguns textos bons e descobri dois ou três autores que não conhecia e me parecem potencialmente interessantes. Tudo isto é lucro.

Contos anteriores deste livro:
Este livro foi comprado.

Prosper Mérimée: A Vênus de Ille

Apesar de se integrar literariamente no romantismo, na prosa de Prosper Mérimée algumas das características do movimento que mais me desagradam — e desagradam-me muito — não são muito acentuadas. Não há nele grande exagero de sentimentalismo, não há adjetivação em excesso; há um sentimentalismo algo comedido e uma exploração razoavelmente sensata dos temas típicos do romantismo fantástico (ou não fantástico). Isso mesmo se comprova neste A Vênus de Ille (bibliografia), uma noveleta sobre uma estátua diabólica.

Trata-se de uma daquelas histórias, comuns na ficção oitocentista, em que alguém vindo de fora, normalmente da cidade grande, chega a um lugar que lhe é desconhecido e geralmente pequeno e trava conhecimento com tradições, superstições e histórias locais. Muitas das histórias de fantasmas vitorianas são assim, por exemplo. Mas aqui não temos propriamente um fantasma; temos um protagonista-narrador vindo da cidade grande, sim, que aparece numa terreola distante, sim, mas o interesse dele é arqueológico. E o que encontra é a estátua de uma divindade, provavelmente romana, que tinha sido recentemente encontrada na vilória de Ille, a qual se situa nos Pirenéus franceses muito perto da fronteira com a Catalunha.

A estátua fascina o seu anfitrião, um proprietário local também interessado em arqueologia, que procura nele a validação das suas teorias uma vez que o considera uma espécie de colega dotado de conhecimentos mais sólidos sobre o tema. Mas também amedronta; várias pessoas afirmam sentir que dela é exalada qualquer coisa de maligno. E também há uns acontecimentos estranhos...

O pior, porém, está reservado para o filho do anfitrião, jovem de casamento marcado para aqueles dias, o qual, por conta de uma atitude irrefletida, vai despertar uma ligação fatal entre si e o que quer que de sobrenatural anima o bronze da estátua. Não é difícil a partir daqui deduzir o desfecho da história, mas não entrarei em detalhes.

Concluo dizendo apenas que embora tenha, como não podia deixar de ter, algumas daquelas características das ficções do romantismo que tendem a colidir violentamente com o meu gosto literário, esta história de Merimée dilui-as o suficiente para que a qualidade de tudo o resto venha (quase) plenamente ao de cima. É uma noveleta bastante boa, algo previsível mas não tanto como tantas outras histórias da época (i.e., e para dar um exemplo, se a tragédia é previsível, a forma concreta que ela toma é bastante inesperada), bem narrada e bastante bem escrita.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 6 de março de 2020

Mia Couto: A Carta

É curioso como dois contos de Mia Couto integrados em dois livros bem diferentes e cuja publicação se distancia no tempo em várias décadas, um deles a assumir a sua condição de conto, o outro travestido de crónica, conseguem ter tanto em comum.

E é curioso também que os tenha lido quase um a seguir ao outro. Por puro acaso. Falo deste A Carta, claro, e de A Dona da Ausência, aqui comentado há dias.

Tal como no outro, também aqui o ambiente é guerreiro. Tal como no outro, também aqui uma mulher está no fulcro da narrativa. Tal como o outro também este conto é bastante curto, quatro páginas apenas. Também há algumas diferenças, naturalmente. O outro é um conto sobre relações de poder, este é um conto sobre saudade. O outro não tem elementos fantásticos que ultrapassem uma certa atmosfera vagamente mágica, de que Mia Couto nunca prescinde, neste a magia (ou telepatia, ou intuição, o que lhe queiram chamar) é pelo menos uma interpretação possível de um elemento do enredo. E mais algumas.

Uma dessas algumas é a tristeza. Este é um conto muito triste, um conto sobre a devastação da guerra. A carta do título é uma missiva de um filho guerreiro, a única, que o narrador lê repetidamente (alterando-a sempre) à mãe daquele. Até ao dia em que recebe a notícia que o filho morrera, notícia essa que não tem coragem de transmitir à mãe. Mas a mãe parece saber mesmo assim. O conto é muito bom. E muito "miacoutiano", também.

quinta-feira, 5 de março de 2020

António Bettencourt Viana: Probabilidades

Ao longo de boa parte deste conto, que vem na página de rosto anunciado como sendo de ficção científica, a primeira interrogação que não sai da cabeça de quem o lê é "mas o que raio tem isto a ver com a FC?" E a segunda é "e por que raio tem o título de Probabilidades?" (bibliografia). Porque o que António Bettencourt Viana parece fazer neste conto é um daqueles estudos de personalidade à Eça, aqui centrado num irascível dono de casa de penhores e seu sobrinho, com um enredo, que aparenta ser mais ou menos acessório, sobre um homem que tenta empenhar um anel. O conto está cheio de ironia (à Eça, lá está), o homem é retratado como um daqueles tipos miudinhos e desagradáveis que dão sempre boas personagens, mas que no fundo só quer ter um bocadinho de sossego nos fundos da loja enquanto o sobrinho atende o raio do cliente. Mas o sobrinho é novo naquilo, não sabe bem quanto há de oferecer pelo anel, que acha valioso, e por isso vai chatear o tio.

O tio corre com ele à pedrada. Figurativamente falando, calma. Mas depois aparece morto sem nada de figurativo. Mas com muito mistério à mistura.

E é aqui, prestes a terminar o conto, que se percebe finalmente o que tem ele de ficção científica. E com probabilidades. É que a explicação para a morte do homem é uma explicação de FC, relacionada com probabilidades, precisamente. Uma explicação bastante forçada, há que dizê-lo, embora Viana faça um bom trabalho a disfarçar o facto.

Este é um conto interessante, mais bem escrito do que o anterior, talvez em parte porque o caráter didático que também tem não se intromete tanto no desenrolar da história e faz sentido no contexto em que aparece.

Conto anterior deste livro:

Isaac Asimov: O Sorriso que Rouba

Apesar de ter sido em geral uma pessoa progressista, Isaac Asimov não é propriamente um autor imaculado no que toca às relações com as mulheres, e sabê-lo acrescenta uma camada de algum desconforto à leitura deste conto. Pois O Sorriso que Rouba (bibliografia) é uma história onde, nas entrelinhas, assoma a violência doméstica. Não que Asimov fosse culpado de tais práticas, pelo menos que se saiba. Mas exerceu, tudo o indica, outras formas de abuso. Quais? Bem, digamos que era muito liberal com os lugares onde punha as mãos...

Alegadamente...

Este conto é, claro, mais uma história em que surge o demónio Azazel. Ou por outra, é e não é, pois do demónio propriamente dito não aparece nem sinal; esta é apenas uma história contada pelo (extraordinariamente arrogante e vaidoso) homem a quem o demónio faz favores, sobre mais uma obra demoníaca cheia de boas intenções que terá originado efeitos secundários inesperados e desastrosos.

A situação é a seguinte: uma mulher anda perturbada porque o marido, que ela vê como carinhoso e amantíssimo, nunca aparece nas fotografias com aquela expressão que ela tanto adora. E o vaidoso, que tem um fraquinho por ela, resolve requisitar o demónio para lhe dar uma mãozinha e capturar a tal expressão numa fotografia. Consegue, naturalmente. Mas vem-se a perceber que captura mais do que isso e o marido de amantíssimo passa a abusador.

O que é realmente perturbador é a reação da mulher. A inventar desculpas para os abusos, enquanto vai minguando em tristeza. A atribuir culpas a si própria. Uma reação demasiado comum, na verdade. E é necessária uma intervenção externa para voltar a colocar tudo nos eixos; é preciso que o vaidoso tenha um ataque de decência e remorso e decida recuperar a fotografia e destruí-la. Coisa que a mulher não perdoa.

Convenhamos que para um conto curto cuja ambição primordial é ser divertido, este Sorriso que Rouba tem entrelinhas poderosas. E digo-o mesmo sem ter gostado lá muito de o ter lido.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 4 de março de 2020

Escrita de fevereiro


As minhas previsões sobre o momento em que teria as coisas concluídas não seriam as minhas previsões sobre o momento em que teria as coisas concluídas se não as falhasse pelo menos uma vez. No que se refere à escrita de material original, note-se, que no resto costumo ser muito certinho.

Sim, sim, não acabei a história que estou a escrever e tinha dito que provavelmente acabaria em fevereiro. Os motivos para isso foram dois: escrevi um pouco menos em fevereiro do que tinha escrito em janeiro, 8200 palavras (não chega a 25 páginas) em vez de 9100, e o facto de a história, que eu apontava para vir a ser uma noveleta longa ou uma novela curta se estar a encaminhar para a novela curta. Está atualmente quase a chegar ao limite superior da noveleta e deverá acabar por volta das 21-22 mil palavras.

Ou seja: acaba em março, salvo alguma hecatombe. Depois? Bem. Depois se verá. No início de abril cá estarei para vos contar.

terça-feira, 3 de março de 2020

Fernando Correia da Silva: Maresia (#leiturtugas)

Tem sido assim há algumas décadas: sempre que eu acho que se calhar sou capaz de já conhecer toda a ficção científica portuguesa que se foi publicando por aí, seja por a ter lido, seja por dela ter tido conhecimento através de leituras alheias, lá aparece qualquer coisa a desmentir tal convencimento. Normalmente é um conto aqui, outro ali. Mas por vezes são livros inteiros. Incluindo romances. Como este.

Nunca tinha ouvido falar de Fernando Correia da Silva até ter tropeçado neste Maresia, algum tempo antes da editora fechar as portas. Comprei o livro apenas porque a sinopse me chamou a atenção, e todos os leitores sabem como as sinopses por vezes são enganadoras, mas fi-lo sem grande esperança de encontrar aqui algo de interessante, até porque a capa remete mais para um livro de poesia budista do que a alguma coisa que mexa mais de perto com o meu gosto. Mas desta vez a sinopse acertou e a capa não. O livro é um romance de FC, variante distópica. Ou vá, que está na moda: uma distopia. Uma distopia política, mais propriamente.

Estamos, aparentemente, no futuro. Sem que seja explicado como — e não é necessário — uma estranha forma de teocracia tomou conta do país (do mundo?), que agora é governado por mandarins (uma piscadela de olho ao Eça?) sob a autoridade não só nominal mas efetiva do Papa. A teocracia levou de uma forma igualmente misteriosa a uma alteração profunda das relações sociais e sexuais entre homens e mulheres. Os dois sexos vivem agora separados, os homens nas várias estruturas económicas e de poder, as mulheres em gineceus, uma espécie de guetos murados, acompanhadas pelos filhos pequenos de ambos os sexos. A líbido é inexistente... exceto um mês por ano, durante janeiro, altura em que explode com violência. Então, os homens invadem os gineceus, num frenesim de sexo e pancadaria que só termina ao terminar o mês, e aí são recebidos pelas mulheres, que não estão menos irracionais, menos afetadas pelo cio brusco, mas que mesmo assim são sujeitas a todas as formas de indignidades. É a "maresia" do título.

O romance segue a vida de um rapaz inteligente, primeiro no gineceu da mãe, depois como jovem cativado por um dos mandarins, depois como guerreiro, um dos homens de confiança do mandarim, um dos "fortes", por aí fora. Embora a abrangência temporal seja aqui bastante mais vasta, há muito em comum na progressão do protagonista com o bombeiro Montag de Fahrenheit 451, de jovem ingénuo a revolucionário. Porque é nisso que o protagonista de Correia da Silva se transforma: num revolucionário. Alguém que quer acabar com o sistema da maresia e dos gineceus e dos mandarins e do reino da força como único poder verdadeiro, com a própria teocracia de que o papa se serve simplesmente para enriquecer. E não tem nisso mais sucesso do que Montag, pelo menos na aparência, acabando em fuga e perseguido.

Mas não um revolucionário qualquer. Como em muitas outras distopias, também nesta o protagonista é uma espécie de revolucionário conservador, alguém que deseja reverter as alterações políticas e económicas (e neste caso também biológicas) que transformaram a sua sociedade num pesadelo, trazendo-a de volta a um estado próximo da sociedade do autor, encarada como "normal". Contudo, ao mesmo tempo, Fernando Correia da Silva aproveita para criticar alguns elementos da sociedade que temos (a ganância, a exploração dos fracos pelos fortes, ou seja, do homem pelo homem, a desigualdade sexual, etc.) por via do exagero. Com um ponto de vista que se não é marxista dá uns certos ares disso. Mas há neste livro uma certa ambivalência, o que também o aproxima de outras distopias, e também algum desencanto, pois o livro não termina propriamente numa nota de esperança, mesmo que o autor se esforce por deixar entreaberta essa possibilidade.

E é um livro com uma brutalidade intrínseca que chega a fazer lembrar as ficções, também muitíssimo distópicas, de Telmo Marçal. Toda a sociedade se baseia em relações de força bruta, e por isso a violência e a morte violenta estão sempre presentes, a pairar sobre todos. E Correia da Silva usa um estilo narrativo a condizer, com uma prosa seca e despida de qualquer sinal de sentimentalismo, frases curtas e capítulos também curtos, nos quais os acontecimentos são descritos em primeira pessoa pelo protagonista. É o seu ponto de vista que o leitor acompanha, e é à sua forma de encarar o que o rodeia que se vai habituando. Nem sempre é fácil: o tipo pode até ter boas intenções, até pode ser invulgarmente inteligente, mas não deixa de ser um brutamontes, com uma racionalidade muito própria, baseada num conjunto de valores que, no fundo, são aqueles que a educação numa sociedade daquelas lhe deu. Mesmo a sua relação com a mulher que escolhe no fim para compartilhar aquilo a que chama "suave maresia" traz consigo uma frieza e um calculismo que quase arrepiam.

Este é, portanto, um romance interessante de ficção científica portuguesa que parece ter passado completamente ao lado dos leitores habituais do género. Não me lembro de ter visto alguma referência a ele entre 2003, a data de edição, e o momento em que este texto foi publicado. E é pena, até porque entretanto a editora faliu e por isso não sei se ainda é possível encontrar o livro em algum sítio.

Eu ainda consegui comprá-lo, meio por acaso. E ainda bem que o fiz.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Mais dos "meus" em edição especial

Já não é grande novidade. Este mês tenho estado muito atarefado com o trabalho e com a escrita de opiniões sobre coisas que vou lendo e este post atrasou-se pelo menos umas duas semanas. Mas aqui fica mesmo assim a nota de que saíram mais dois volumes da edição especial, em capa dura, das minhas traduções d'As Crónicas de Gelo e Fogo do George R. R. Martin.

Trata-se desta vez dos dois volumes que correspondem ao segundo volume original, o terceiro e o quarto da edição portuguesa: A Fúria dos Reis e O Despertar da Magia.

E eu continuo a babar com estas capas.

A babar, digo-vos eu!

É que não é só as capas serem bonitas, e são. É que quem, como eu, já conhece bem a história consegue encontrar nelas pormenores que se referem a acontecimentos fulcrais contidos em cada livro.

E quem não conhece, imagino, terá uma experiência ainda mais recompensadora ao chegar às partes da história relevantes e passar por aquele momento de revelação: "Aaaaah! Então era isto!"

De modo que continuo em modo "quero!" Talvez me passe. O espaço em estante e a carteira agradecerão que me passe. Mas ainda não passou.