Eu nunca publicaria alguns dos contos que saíram nesta antologia por falta de qualidade mínima no manejo da língua portuguesa, mas o problema deste Auto de Insolvência (bibliografia) não é falta de qualidade no português, que Gaspar Coutinho escreve bastante bem. No entanto, eu também nunca publicaria este conto numa antologia que se propõe publicar literatura fantástica, e por um motivo bastante simples: ele nada tem a ver com literatura fantástica, a menos que se faça uma interpretação altamente criativa da condição do protagonista (e com interpretações altamente criativas tudo é literatura fantástica, o que faz com que nada o seja).
E dito isso, tudo o resto passa a ser secundário e sim, vêm aí spoilers. O conto consiste numa diatribe de um empresário que sente que o mundo (com os mariolas dos sindicalistas à cabeça, que o "senhor doutor" é desses) está contra ele, levando-o a perder tudo. Daí a "insolvência" do título. Mas o "auto" não é propriamente coisa legal e burocrática como se percebe no fim. Sim, que (lembram-se de que avisei sobre spoilers?) acabamos por descobrir que o homem está moribundo, depois de se ter estampado no carrão, acabando por bater a bota quando os socorristas chegam para tentar salvá-lo.
O melhor que este conto tem é mesmo a escrita. Da adequação ao tema da antologia estamos conversados, e quanto à história propriamente dita, enfim... digamos que está muito longe de me entusiasmar. É possível que não haja outra forma de escrever uma história ante mortem como esta (e daí, não subestimemos a criatividade humana), mas o fluxo de consciência não é das minhas técnicas favoritas porque me parece muito difícil mantê-lo interessante. Isto do interesse tem a ver com o tema, claro está, e é inerentemente subjetivo, pelo que o que me desinteressa decerto interessará a outros, mas o facto é que esta história me aborreceu, mesmo sendo tão curta.
Textos anteriores deste livro:
quinta-feira, 14 de maio de 2020
Em abril falou-se de...
Se eu vos disser que o mês voltou a ser fraquinho, vocês certamente respondem-me qualquer coisa como vá, e agora diz-nos algo que não saibamos já. Bem, não posso fazer isso ainda porque tenho de despachar aquela conversa do costume dedicada aos eventuais descuidados que se esqueçam de abrir o paraquedas e venham cair aqui, pumba, abriu buraco no chão entre as palavras e o que vale é que não é duro, só terá deixado uma ou outra nódoa negra psicológica e nada mais sério do que isso. Portanto cá vai, a tal conversa:
Caros paraquedistas, isto é uma coisa que eu faço já há algum tempo e está explicada no primeiro post de todos. Que é dele, perguntam? Está aqui. É só clicar, ler e voltar. E se por acaso vos der na telha irem ver mês a mês o que foi sendo dito e listado nos restantes posts, basta irem à tag que os reúne a todos, a leituras fc (onde já não poderão encontrar posts futuros se cá vierem dar daqui a um mês ou mais porque este será o último destes posts), e investirem nisso o tempo que vos der na real gana. Mais perguntas? Há comentários; façam-nas aí. E siga para as listas.
Ficção portuguesa:
No Brasil, pelo contrário, parece que o confinamento, a quarentena, como quiserem chamar-lhe lhes deu para lerem FC. A FC deles, nomeadamente, embora não só, que a grande maioria de opiniões sobre FC internacional também de lá veio. Destacam-se Luiz Bras, com duas opiniões a um só título, A. Z. Cordenonsi, com três opiniões sobre dois títulos, Fausto Luciano Panicacci (ainda a colher os resultados da leitura coletiva), Carina Rissi e Gabriel G. Sampaio, todos com duas opiniões sobre um só título, e Lidia Zuin, com opiniões sobre quatro títulos, uma cada.
As opiniões a material não lusófono voltaram a ultrapassar os 100 títulos, e não porque os contos tenham sido muitos. Asimov é destaque do mês, com 6 comentários a 5 títulos diferentes, mas o principal destaque é Margaret Atwood, graças a 12 comentários a 4 títulos diferentes. Outros autores que se destacaram foram Stephen King, com 5 comentários a outros tantos títulos, e Matt Ruff, com 6 comentários a um só título.
Por fim, apareceu uma raridade, um comentário sobre uma obra portuguesa de não-ficção, e as opiniões sobre não-ficção internacional mais ou menos relevante continuaram a ser relativamente abundantes, com um total de 7 títulos e Mark R. Hillegas a merecer destaque dado ter sido o único autor repetente.
E assim chega ao fim esta série de posts. Deram trabalho mas achei-os úteis, e parece que quem cá vem ao blogue também achou porque costumavam estar sempre entre os posts mais vistos do mês. Mas o fim do FCL faz com que se torne impossível continuar, pelo que o ponto final que encerrará esta frase é mesmo final.
Caros paraquedistas, isto é uma coisa que eu faço já há algum tempo e está explicada no primeiro post de todos. Que é dele, perguntam? Está aqui. É só clicar, ler e voltar. E se por acaso vos der na telha irem ver mês a mês o que foi sendo dito e listado nos restantes posts, basta irem à tag que os reúne a todos, a leituras fc (onde já não poderão encontrar posts futuros se cá vierem dar daqui a um mês ou mais porque este será o último destes posts), e investirem nisso o tempo que vos der na real gana. Mais perguntas? Há comentários; façam-nas aí. E siga para as listas.
Ficção portuguesa:
- 24 de Abril, Corte e Costura, de João Cerqueira
- A Anos-Luz, de Carmen Garcia
- Blindness / Ensayo Sobre la Ceguera / L'Aveuglement / Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (8x)
- Casi un Objeto, de José Saramago
- A Taverna, nº 3, ed. ??
- Epílogo, de Victor Allenspach
- As Duas Faces do Destino, de Landulfo Almeida
- Exo, de Mário Bentes (conto)
- A Nova Ordem, de Eduardo Borsato
- Canis Majoris, de Eduardo Bragança
- Anacrônicos, de Luiz Bras (2x)
- Serpentário, de Felipe Castilho
- La Dame Chevalier e a Mesa Perdida de Salomão, de A. Z. Cordenonsi (2x)
- O Mistério dos Planos Roubados, de A. Z. Cordenonsi
- Mundo Sombrio, de Day Fernandes
- As Coisas que Encontramos, de Denise Flaibam
- História de Joia, de Guilherme Gontijo Flores
- A Rainha do Ignoto, de Emília Freitas
- Corpos Secos, de Luísa Geisler, Marcelo Rocha Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado
- Cyberpunk, org. Cirilo S. Lemos e Erick Santos Cardoso
- Quem é Helen Books?, de Delson Neto
- Ninguém Nasce Herói, de Eric Novello
- Às Moscas, Armas, de Nelson de Oliveira
- Uma Tempestade Determinística, de Marlon Ortiz (conto)
- O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci (2x)
- Perdida, de Carina Rissi (2x)
- Abismo do Mal, de Gabriel G. Sampaio (2x)
- Tanto Tempo Dirigindo sem Ninguém no Retrovisor, de Fabio Shiva
- A Realidade de Madhu, de Melissa Tobias
- A Máquina Sonha Deus, de Lidia Zuin (conto)
- Deus Sonha o Homem, de Lidia Zuin (conto)
- Dies Irae, de Lidia Zuin (conto)
- O Homem Sonha a Máquina, de Lidia Zuin (conto)
- Be Water, de Antía Yáñez
- Interzone, nº 285, ed. ??
- More Short Trips, org. ??
- Mundos Apocalípticos, org. John Joseph Adams
- A Morte da Terra, de J. H. Rosny Aîné
- Hopscotch, de Kevin J. Anderson
- Como se Divertiam, de Isaac Asimov (conto)
- Fundação, de Isaac Asimov
- Fundação e Império, de Isaac Asimov (2x)
- Histórias de Robôs, de Isaac Asimov
- Segunda Fundação, de Isaac Asimov
- MadAddão, de Margaret Atwood
- O Conto da Aia / The Handmaid's Tale, de Margaret Atwood (2x)
- Oryx e Crake, de Margaret Atwood
- Os Testamentos / The Testaments, de Margaret Atwood (8x)
- Sob o Véu do Tempo, de Anna Belfrage
- Farenheit 451, de Ray Bradbury (2x)
- Darkover Landfall, de Marion Zimmer Bradley
- A Marcha dos Zumbis, de Max Brallier (3x)
- Who?, de Algis Budrys
- Laranja Mecânica, de Anthony Burgess
- A Peste, de Albert Camus (2x)
- Antologia da Literatura Fantástica, org. Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo
- A Escolha, de Kiera Cass
- A Formatura, de Joelle Charbonneau
- Exhalation, de Ted Chiang
- Cidade nas Trevas, de Adam Christopher (2x)
- Doença de Ledru, de Michael T. Cisco (conto)
- Jogador nº 1, de Ernest Cline
- A Página em Chamas, de Genevieve Cogman
- Medo Mortal, de Robin Cook
- O Mundo Perdido, de Michael Crichton
- Recursão, de Blake Crouch (3x)
- Vox, de Christina Dalcher
- Mais Fortes, Mais Velozes, Mais Belos, de Arwen Elys Dayton
- Ruído Branco, de Don DeLillo
- Ubik, de Philip K. Dick
- Players, de Terrance Dicks
- Soldier for the Empire, de William C. Dietz
- Quarantine, de Greg Egan
- O Resgate no Mar, de Diana Gabaldon
- Os Tambores de Outono, de Diana Gabaldon
- Deuses Americanos, de Neil Gaiman
- Seres Mágicos & Histórias Sombrias, org. Neil Gaiman e Al Sorrantino (2x)
- Senhor das Moscas, de William Golding
- Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
- Revan, de Drew Karpyshyn
- Flores para Algernon, de Daniel Keyes (2x)
- O Mundo Perdido Entre Nós, de Caitlín R. Kiernan
- Celular, de Stephen King
- Insônia, de Stephen King
- O Bazar dos Sonhos Ruins, de Stephen King
- O Instituto, de Stephen King
- O Pistoleiro, de Stephen King
- Revival, de Stephen King
- Terror a Bordo, org. Stephen King e Bev Vincent
- Uma Força Medonha, de C. S. Lewis
- O Ano da Graça, de Kim Liggett
- A Tumba e Outras Histórias, de H. P. Lovecraft
- Beyond the Wall of Sleep, de H. P. Lovecraft (conto)
- O Despertar de Cthulhu, de H. P. Lovecraft
- Caixa de Pássaros, de Josh Malerman
- A Sabedoria dos Mortos, de Rodolfo Martínez
- Cyberstorm, de Matthew Mather
- Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson
- Esperarei por Ti Toda a Vida, de Megan Maxwell (2x)
- A Hospedeira, de Stephenie Meyer
- Os Tempos do Ódio, de Rosa Montero
- Deuses Renascidos, de Sylvain Neuvel
- As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, de Claire North
- A Convenção do Medo, de K. M. O'Donnell
- 1984, de George Orwell (3x)
- Matrix, de Robert Perry e Mike Tucker
- A Bússola de Ouro, de Philip Pullman
- A Faca Sutil, de Philip Pullman
- A Luneta Âmbar, de Philip Pullman
- Os Reinos do Norte, de Philip Pullman
- Waste Tide, de Chen Qiufan
- A Quinta, de Joanne Ramos (2x)
- Ligações, de Rainbow Rowell
- Território Lovecraft, de Matt Ruff (6x)
- As Brigadas Fantasma, de John Scalzi
- Vilão, de V. E. Schwab
- Frankenstein, ou O Prometeu Moderno, de Mary Shelley (2x)
- UnDivided, de Neal Shusterman
- Seca, de Neal Shusterman e Jarrod Shusterman
- X-Wing: The Bacta War, de Michael A. Stackpole
- X-Wing: The Kryptos Trap, de Michael A. Stackpole
- X-Wing: Wedge's Gamble, de Michael A. Stackpole
- O Médico e o Monstro e Outros Experimentos, de Robert Louis Stevenson (3x)
- Reiniciados, de Teri Terry
- A Máquina Infernal do Engenheiro Gárin, de Alexei Tolstói
- Aniquilação, de Jeff VanderMeer
- Através do Vazio, de S. K. Vaughn (2x)
- 20.000 Léguas Submarinas, de Jules Verne
- Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne (2x)
- Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne
- Fragmentos do Tempo, de Rysa Walker (2x)
- Viajantes do Tempo, de Rysa Walker
- The New Accelerator, de H. G. Wells (conto)
- Gladiator, de Philip Wylie
- A Última Estrela, de Rick Yancey
- Nós, de Ievguéni Zamiátin
- Superávit Educacional — Direitos Humanos Versus Políticas Educativas, de Ana S. Moura, João Seixas, M. Natália D. S. Cordeiro e João Barreiros
- Science Fiction and the Idea of Progress, de Mark R. Hillegas
- Science Fiction as Cultural Phenomenon: a Re-Evaluation, de Mark R. Hillegas
- H. P. Lovecraft: Contra o Mundo, Contra a Vida, de Michel Houellebecq
- A Física do Futuro, de Michio Kaku
- On Writing, de Stephen King
- A Vida de C. S. Lewis, de Alister McGrath
- Logo, Logo, de Kelly e Zach Weinersmith
No Brasil, pelo contrário, parece que o confinamento, a quarentena, como quiserem chamar-lhe lhes deu para lerem FC. A FC deles, nomeadamente, embora não só, que a grande maioria de opiniões sobre FC internacional também de lá veio. Destacam-se Luiz Bras, com duas opiniões a um só título, A. Z. Cordenonsi, com três opiniões sobre dois títulos, Fausto Luciano Panicacci (ainda a colher os resultados da leitura coletiva), Carina Rissi e Gabriel G. Sampaio, todos com duas opiniões sobre um só título, e Lidia Zuin, com opiniões sobre quatro títulos, uma cada.
As opiniões a material não lusófono voltaram a ultrapassar os 100 títulos, e não porque os contos tenham sido muitos. Asimov é destaque do mês, com 6 comentários a 5 títulos diferentes, mas o principal destaque é Margaret Atwood, graças a 12 comentários a 4 títulos diferentes. Outros autores que se destacaram foram Stephen King, com 5 comentários a outros tantos títulos, e Matt Ruff, com 6 comentários a um só título.
Por fim, apareceu uma raridade, um comentário sobre uma obra portuguesa de não-ficção, e as opiniões sobre não-ficção internacional mais ou menos relevante continuaram a ser relativamente abundantes, com um total de 7 títulos e Mark R. Hillegas a merecer destaque dado ter sido o único autor repetente.
E assim chega ao fim esta série de posts. Deram trabalho mas achei-os úteis, e parece que quem cá vem ao blogue também achou porque costumavam estar sempre entre os posts mais vistos do mês. Mas o fim do FCL faz com que se torne impossível continuar, pelo que o ponto final que encerrará esta frase é mesmo final.
Jeffrey Thomas: Doença da Tatuagem Internalizada
Esta é mais uma descrição de doença que não contém propriamente uma história o que, como sempre acontece nesses casos (ou quase sempre, vá), me leva a não gostar lá muito do resultado. Sinto sempre (ou quase) que há na ideia uma história por explorar e que é pena ela ter ficado por explorar. Uma ou mais. Ela ou elas. São coisas.
E como também acontece com alguma frequência, o título revela desde logo a ideia. Doença da Tatuagem Internalizada (bibliografia) é isso mesmo, uma doença, benigna, que consiste na criação psicossomática de tatuagens nos órgãos internos do corpo. Jeffrey Thomas fica-se pela descrição da doença e da sua descoberta, mas eu enquanto ia lendo identifiquei pelo menos um ponto fraco nessa descrição — ele diz que a doença só foi identificada recentemente porque só recentemente se desenvolveram as técnicas da autópsia... mas há séculos que o homem esventra o homem, pelo que seria de esperar que alguém tivesse reparado em tatuagens internas, apesar do sangue e de outros fluidos — e imaginei logo uma história baseada nesta ideia. A descrição tem a sua graça, que tem, mas soube-me a pouco.
Textos anteriores deste livro:
E como também acontece com alguma frequência, o título revela desde logo a ideia. Doença da Tatuagem Internalizada (bibliografia) é isso mesmo, uma doença, benigna, que consiste na criação psicossomática de tatuagens nos órgãos internos do corpo. Jeffrey Thomas fica-se pela descrição da doença e da sua descoberta, mas eu enquanto ia lendo identifiquei pelo menos um ponto fraco nessa descrição — ele diz que a doença só foi identificada recentemente porque só recentemente se desenvolveram as técnicas da autópsia... mas há séculos que o homem esventra o homem, pelo que seria de esperar que alguém tivesse reparado em tatuagens internas, apesar do sangue e de outros fluidos — e imaginei logo uma história baseada nesta ideia. A descrição tem a sua graça, que tem, mas soube-me a pouco.
Textos anteriores deste livro:
quarta-feira, 13 de maio de 2020
Isaac Asimov: O Surdo Ribombar
É engraçado como isto acontece com uma certa frequência: mal um gajo pensa detetar um padrão, uma fórmula inamovível e por isso mesmo aborrecida, um baralhar para voltar a dar as mesmas cartas, lá vem o autor e mete umas cartas novas no baralho, como quem diz "ah julgas-te espertinho, é? Achas que me topaste? Então toma lá, para ver se aprendes".
Sim, Isaac Asimov trocou-me as voltas. Este O Surdo Ribombar (bibliografia) não segue a fórmula de histórias anteriores, e o facto de o demoniozinho Azazel mal aparecer nem é o principal motivo para tal. Na verdade, e apesar da presença do demónio e dos seus atos não deixar que o seja por completo, esta história aproxima-se bastante de um dos seus contos de ficção científica: numa conversa entre duas pessoas, uma delas revela um fenómeno inusitado, e vamos aos poucos descobrindo o que o causa, sendo essa descoberta o que faz mover a história, não as tentativas mais ou menos bem sucedidas de humor em volta do infernal bicharoco.
O fenómeno é, claro, o surdo ribombar do título, resultado de uma estranha formação numa caverna que o descobridor apelida de saser, ou laser sónico. Certamente já veem de que forma esta história soa a FC, mas soa ainda mais do que isso, pois o que se segue é uma série de investigações sobre o funcionamento da coisa. Que a revelam perigosa, capaz dos mais variados efeitos, inclusivamente a destruição de certas espécies químicas através da frequência (e potência, claro) da vibração. É aqui que entramos firmemente no território do cientista maluco e vilanesco, pois o homem procura descobrir a frequência que destroi o ADN humano porque considera os seus semelhantes uma praga que há que destruir. E só não o faz porque revela as suas intenções ao homem que tem contacto direto com o demónio Azazel, e é a solução que estes dois engendram que afasta o conto da FC propriamente dita.
Não tenho bem a certeza, mas acho que este é o conto do Azazel que mais me agradou até agora.
Contos anteriores deste livro:
Sim, Isaac Asimov trocou-me as voltas. Este O Surdo Ribombar (bibliografia) não segue a fórmula de histórias anteriores, e o facto de o demoniozinho Azazel mal aparecer nem é o principal motivo para tal. Na verdade, e apesar da presença do demónio e dos seus atos não deixar que o seja por completo, esta história aproxima-se bastante de um dos seus contos de ficção científica: numa conversa entre duas pessoas, uma delas revela um fenómeno inusitado, e vamos aos poucos descobrindo o que o causa, sendo essa descoberta o que faz mover a história, não as tentativas mais ou menos bem sucedidas de humor em volta do infernal bicharoco.
O fenómeno é, claro, o surdo ribombar do título, resultado de uma estranha formação numa caverna que o descobridor apelida de saser, ou laser sónico. Certamente já veem de que forma esta história soa a FC, mas soa ainda mais do que isso, pois o que se segue é uma série de investigações sobre o funcionamento da coisa. Que a revelam perigosa, capaz dos mais variados efeitos, inclusivamente a destruição de certas espécies químicas através da frequência (e potência, claro) da vibração. É aqui que entramos firmemente no território do cientista maluco e vilanesco, pois o homem procura descobrir a frequência que destroi o ADN humano porque considera os seus semelhantes uma praga que há que destruir. E só não o faz porque revela as suas intenções ao homem que tem contacto direto com o demónio Azazel, e é a solução que estes dois engendram que afasta o conto da FC propriamente dita.
Não tenho bem a certeza, mas acho que este é o conto do Azazel que mais me agradou até agora.
Contos anteriores deste livro:
Sandro William Junqueira: As Cebolas Tornam-nos Maus
Cebolas, botas ortopédicas e outros tipos de sapatos, gabardines e cadeiras. É de objetos inanimados que se faz em grande medida este conto de Sandro William Junqueira. Mas é a violência o seu tema. Ou talvez a maldade. A crueldade do homem pelo homem, por mais que tente esquivar-se atribuindo as culpas a algo exterior a si próprio. A cebolas, digamos. As Cebolas Tornam-nos Maus. Tornarão?
Há em todo o conto uma atmosfera entre o fantasmagórico e o horror existencial, com toques de realismo mágico, apesar de nada do que nele é descrito se afaste realmente das possibilidades da vivência quotidiana. Um casal discute porque o marido se esqueceu de trazer cebolas do supermercado, e a discussão leva à violência. Doméstica, está bem de ver-se. Um cantor de rua é assassinado a tiro por alguém que parece ser só botas e gabardina (e arma), por motivos que não chegamos a conhecer. No pós-pancadaria, no apartamento do casal desavindo, uma cadeira pesada é atirada pela janela. No pós-homicídio, o assassino põe-se em fuga pela cidade fora. E no desfecho, assassino (ou apenas as coisas que o envolvem) e cadeira encontram-se no mesmo ponto do tempo e do espaço.
É como quem diz, sim, somos umas bestas, uns montes de trampa sempre prontos para nos atacarmos uns aos outros, mas no fundo, no fim de contas, o universo arranjará sempre maneira de levar o castigo devido a quem é devido. Ou talvez nem sempre, nem a todos. Só aos piores, talvez. É um conto incómodo, este, e é-o propositadamente. Estou mesmo a ver muitos leitores a torcer-lhe o nariz por isso mesmo. Eu gostei. Não me incomoda o incómodo, e a história está bastante bem escrita.
Contos anteriores deste livro:
Há em todo o conto uma atmosfera entre o fantasmagórico e o horror existencial, com toques de realismo mágico, apesar de nada do que nele é descrito se afaste realmente das possibilidades da vivência quotidiana. Um casal discute porque o marido se esqueceu de trazer cebolas do supermercado, e a discussão leva à violência. Doméstica, está bem de ver-se. Um cantor de rua é assassinado a tiro por alguém que parece ser só botas e gabardina (e arma), por motivos que não chegamos a conhecer. No pós-pancadaria, no apartamento do casal desavindo, uma cadeira pesada é atirada pela janela. No pós-homicídio, o assassino põe-se em fuga pela cidade fora. E no desfecho, assassino (ou apenas as coisas que o envolvem) e cadeira encontram-se no mesmo ponto do tempo e do espaço.
É como quem diz, sim, somos umas bestas, uns montes de trampa sempre prontos para nos atacarmos uns aos outros, mas no fundo, no fim de contas, o universo arranjará sempre maneira de levar o castigo devido a quem é devido. Ou talvez nem sempre, nem a todos. Só aos piores, talvez. É um conto incómodo, este, e é-o propositadamente. Estou mesmo a ver muitos leitores a torcer-lhe o nariz por isso mesmo. Eu gostei. Não me incomoda o incómodo, e a história está bastante bem escrita.
Contos anteriores deste livro:
terça-feira, 12 de maio de 2020
Vítor Claudino (ed.): Magazine do Fantástico e Ficção Científica, nº 3
Uma apreciação geral deste número 3 do Magazine do Fantástico e Ficção Científica tem de começar por um ponto negativo, que de resto não é único deste número. É que, sem um tema genérico que as junte num todo coerente, as histórias valem (ou não) por si mesmas, mas existe uma coisa que é comum a todas: a tradução. A muito má tradução.
Lembram-se da coleção Argonauta? Conhecem a fama que têm as traduções da Argonauta? Pois bem: depois de ter lido já dois números desta tentativa de publicar em Portugal uma versão da revista americana Fantasy and Science Fiction posso dizer-lhes que as traduções que aqui se encontram fazem as da Argonauta parecer obras literárias de primeira água. Isso talvez baste para explicar o motivo por que a iniciativa foi abandonada ao fim de meros quatro números, embora seja provável que outros fatores também tenham influído no falhanço.
Mas se nos abstrairmos das traduções, este número da revista é bom?
E a resposta é... não. Oh, vale plenamente a pena a publicação porque estão aqui incluídos dois contos que realmente dão gosto ler — Em Tempos Havia os Bois... e Debaixo de Cerco —, e eu mantenho a opinião de que se uma publicação inclui nem que seja um conto muito bom ou pelo menos dois ou três bons já valeu a pena, mas a verdade é que os contos são nove ao todo e valer a pena é uma coisa, ser bom é outra. Há aqui demasiados contos que não ultrapassam o razoável, e até há um ou dois que só a custo lá chegam, o que impede o conjunto de ser mais do que isso mesmo: razoável. Lê-se, desfruta-se das histórias que dão para desfrutar, mas o resto da leitura é basicamente indiferente. E desconfio que o seria mesmo se a tradução fosse boa, ainda que aqui tenha de admitir que se trata apenas de especulação e que é inteiramente possível que haja aqui boa literatura de tal forma estragada pela tradução que parece ser bastante pior do que na realidade é.
Não tenho elementos que me permitam saber como foram construídos os números desta versão portuguesa da F&SF, mas sei que não se trata de tradução direta dos números da revista americana, pois os contos que aqui se incluem datam de diversos anos. Ou seja: existe participação do editor português na seleção. Não sei se houve limitações nos contos que podiam ser incluídos, e se houve quais, financeiras ou outras, mas o facto é que este número não me parece particularmente bem conseguido. É demasiado desequilibrado. Mas lá está: inclui contos bons e por isso vale a pena.
Eis o que achei de cada um dos contos:
Lembram-se da coleção Argonauta? Conhecem a fama que têm as traduções da Argonauta? Pois bem: depois de ter lido já dois números desta tentativa de publicar em Portugal uma versão da revista americana Fantasy and Science Fiction posso dizer-lhes que as traduções que aqui se encontram fazem as da Argonauta parecer obras literárias de primeira água. Isso talvez baste para explicar o motivo por que a iniciativa foi abandonada ao fim de meros quatro números, embora seja provável que outros fatores também tenham influído no falhanço.
Mas se nos abstrairmos das traduções, este número da revista é bom?
E a resposta é... não. Oh, vale plenamente a pena a publicação porque estão aqui incluídos dois contos que realmente dão gosto ler — Em Tempos Havia os Bois... e Debaixo de Cerco —, e eu mantenho a opinião de que se uma publicação inclui nem que seja um conto muito bom ou pelo menos dois ou três bons já valeu a pena, mas a verdade é que os contos são nove ao todo e valer a pena é uma coisa, ser bom é outra. Há aqui demasiados contos que não ultrapassam o razoável, e até há um ou dois que só a custo lá chegam, o que impede o conjunto de ser mais do que isso mesmo: razoável. Lê-se, desfruta-se das histórias que dão para desfrutar, mas o resto da leitura é basicamente indiferente. E desconfio que o seria mesmo se a tradução fosse boa, ainda que aqui tenha de admitir que se trata apenas de especulação e que é inteiramente possível que haja aqui boa literatura de tal forma estragada pela tradução que parece ser bastante pior do que na realidade é.
Não tenho elementos que me permitam saber como foram construídos os números desta versão portuguesa da F&SF, mas sei que não se trata de tradução direta dos números da revista americana, pois os contos que aqui se incluem datam de diversos anos. Ou seja: existe participação do editor português na seleção. Não sei se houve limitações nos contos que podiam ser incluídos, e se houve quais, financeiras ou outras, mas o facto é que este número não me parece particularmente bem conseguido. É demasiado desequilibrado. Mas lá está: inclui contos bons e por isso vale a pena.
Eis o que achei de cada um dos contos:
- Em Tempos Havia os Bois...
- Dois Mil e Sessenta e Um
- Debaixo de Cerco
- Ei... ii, Sai cá pr'a Fo... ora!
- Pequeno Goethe
- Segunda Hipótese
- Projecto Grande Ascenção
- Gato
- Manhã
Rita Cláudia M. Silva: O Raio de Sol
Antes de falar diretamente sobre este conto, deixem-me fazer um parêntesis. Há quem se irrite com a inclusão de uma porção razoável da literatura infantil e/ou juvenil na literatura fantástica. O motivo da irritação tem a ver com alguma tendência, em certas outras pessoas, de tratar toda a literatura fantástica como literatura infantil e/ou infantiloide (não é bem a mesma coisa), o que vai desaguar no velho preconceito contra as literaturas não mainstream. Compreendendo o que origina a irritação, julgo no entanto que ela falha o alvo. Muita literatura infantil é literatura fantástica em sentido lato, o maravilhoso faz parte da grande família das literaturas do imaginário, e por isso faz pleno sentido juntá-la aos restantes membros da família. Questão diferente é se será ou não avisado incluir contos infantis num livro com outros contos que não são, de todo, adequados para crianças, mas disso falarei mais quando falar deste livro e não das suas histórias.
Depois deste preâmbulo já terão percebido, certamente, que O Raio de Sol (bibliografia), de Rita Cláudia M. Silva, é um conto infantil. E perceberam bem. De resto, o próprio título já o indica.
E é um conto infantil bastante típico. O português é bom — se descontarmos dois ou três descuidos que se tivesse existido uma revisão teriam sido apanhados — e adequadamente simples, o tom é aquele típico tom moralista cheio de bons sentimentos de tantas histórias infantis, e há nele poesia e fantasia qb. Conta a história de um menino trasmontano, aldeão pobre, que trava amizade com um raio de sol falante e com ele descobre como melhorar o mundo. E além disso, tem a dimensão certa para a história que quer contar.
Este é um conto infantil muito razoável, perfeitamente publicável (se revisto, bem entendido), o que não se pode dizer de todos os contos presentes neste livro.
Textos anteriores deste livro:
Depois deste preâmbulo já terão percebido, certamente, que O Raio de Sol (bibliografia), de Rita Cláudia M. Silva, é um conto infantil. E perceberam bem. De resto, o próprio título já o indica.
E é um conto infantil bastante típico. O português é bom — se descontarmos dois ou três descuidos que se tivesse existido uma revisão teriam sido apanhados — e adequadamente simples, o tom é aquele típico tom moralista cheio de bons sentimentos de tantas histórias infantis, e há nele poesia e fantasia qb. Conta a história de um menino trasmontano, aldeão pobre, que trava amizade com um raio de sol falante e com ele descobre como melhorar o mundo. E além disso, tem a dimensão certa para a história que quer contar.
Este é um conto infantil muito razoável, perfeitamente publicável (se revisto, bem entendido), o que não se pode dizer de todos os contos presentes neste livro.
Textos anteriores deste livro:
Em 2019 falou-se de... ficção internacional
Sim, é verdade que este post já devia ter saído há muito, que ainda levou mais tempo a sair do que no ano passado, ano em que ameacei não voltar a fazer isto por me dar demasiado trabalho, mas desta vez o problema não foi esse, que isto deu trabalho, sim (basta o tamanho para isso ser óbvio), mas não tanto como o atraso pode levar a crer. É mais uma vítima do covid, da paragem de tudo o não essencial para tratar de perceber o que se estava a passar e, antes disso, de uma prioridade dada a outros escritos para limpar uma acumulação de material já lido mas ainda não comentado que já estava a ser demasiada.
Vai mesmo ser a última vez que faço isto, mas por outros motivos. No entanto, já que começámos, acabemos.
Ah, temos por aí distraídos? OK, então vão lá ver o post destes dedicado à ficção portuguesa, e já que estão nessa vão também cheirar o que se dedica à brasileira. Ainda fica a faltar um, dedicado a outras categorias menos abundantes, e se estão muito ansiosos por esse aviso que é capaz de demorar, mas voltem sempre, não se acanhem. Para já deixo-vos com a longa lista de toda a ficção não lusófona que foi merecendo leitura e comentário ao longo de 2019 por essa internet lusófona fora:
?? (org.)
Ao mesmo tempo, é uma gota de água no oceano do que existe. Não só do que existe publicado nas línguas originais — e aqui temos também opiniões sobre material que nunca saiu em português, e provavelmente nunca sairá — mas até do que existe publicado em português, seja do lado de cá, seja do lado de lá do Atlântico. Por cada Douglas Adams com 7 títulos comentados 22 vezes há um número que desconheço de autores que ninguém lê ou, se lê, ninguém comenta. Tal como entre os portugueses. Tal como entre os brasileiros. Nisso, pelo menos, todos os escritores de FC (ou que roçaram no género em alguma parte das suas carreiras) do planeta estão unidos num só protesto.
E sim, Douglas Adams é um dos destaques do ano. Mas não é nem o único nem o maior. O maior destaque tem de caber a Isaac Asimov, que recebeu um total de 68 comentários a 36 títulos (incluindo muitos contos, claro). E houve mais autores a passar os 20 comentários: Margaret Atwood teve 26 (5 títulos), Octavia E. Butler 35 (6 títulos), Philip K. Dick 40 (12 títulos), Ursula K. Le Guin 29 (8 títulos), Stephen King 42 (11 títulos), H. P. Lovecraft não passou os 20 comentários mas alcançou-os (14 títulos), Josh Malerman 30 (3 títulos), John Scalzi 21 (5 títulos), Kurt Vonnegut 22 (3 títulos) e Neal Shusterman chegou apenas a 10 comentários, mas se somarmos os outros 10 que o título que escreveu com o filho Jarrod atinge os 20 (e um total de 5 títulos). Muitos monstros sagrados, um punhado de gente mais nova, muitos autores de FC adulta e poucos de YA, o que contraria algumas ideias feitas muito espalhadas, ainda que a proveniência destes números tenha certamente influência nisso.
Hão de reparar que todos estes autores estão presentes com mais que um título, não tendo havido, em 2019, nenhum daqueles casos em que um autor explode com um livro repentino que toda a gente parece querer ler e sobre o qual parece ter de falar, desaparecendo em seguida sem deixar rasto. Quando acontece algo do género, o total de leituras e comentários não atinge esses números. Mas há alguns autores com mais de 10 comentários a obras únicas, ainda que nem todos sejam novos autores nos mercados lusófonos. Destaca-se George Orwell, com 18 comentários ao romance 1984, outros autores consagrados presentes nesta lista são Anthony Burgess (10 comentários), Daniel Keyes (11 comentários) e Ian McEwan (13 comentários), mas também lá estão Gwenda Bond (14 comentários), Hank Green (13 comentários), Patrick Ness (11 comentários) e S. K. Vaughn (11 comentários).
Se isto continuasse, para o ano teríamos números semelhantes a estes em Saramago. Mas não vai continuar, portanto nunca os teremos. Ou por outra, vai continuar ainda para o post das categorias menores, que vem aí a seguir (quando não sei, que a prioridade é bastante baixa... mas virá), e depois acabou-se. Até lá.
Vai mesmo ser a última vez que faço isto, mas por outros motivos. No entanto, já que começámos, acabemos.
Ah, temos por aí distraídos? OK, então vão lá ver o post destes dedicado à ficção portuguesa, e já que estão nessa vão também cheirar o que se dedica à brasileira. Ainda fica a faltar um, dedicado a outras categorias menos abundantes, e se estão muito ansiosos por esse aviso que é capaz de demorar, mas voltem sempre, não se acanhem. Para já deixo-vos com a longa lista de toda a ficção não lusófona que foi merecendo leitura e comentário ao longo de 2019 por essa internet lusófona fora:
?? (org.)
- Contactos con Alienígenas
- El Planeta Loco
- El Tiempo no Es Tan Simple
- Histórias de Fantasmas
- Star Wars: A Trilogia (2x)
- A Vida, o Universo e Tudo Mais (3x)
- Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes! (3x)
- Cidade da Morte
- O Guia do Mochileiro das Galáxias / À Boleia Pela Galáxia (7x)
- O Restaurante no Fim do Universo (5x)
- O Salmão da Dúvida (2x)
- Praticamente Inofensiva
- Shada
- Mundos Apocalípticos (4x)
- The Goblin Emperor
- Brilliant Devices
- Her Own Devices
- Lady of Devices
- Magnificent Devices
- Imperfeitos (2x)
- O Poder (4x)
- Frankenstein Desencadenado
- Jornada de Esperança
- Zathura
- Meg
- O que Acontece Quando um Homem Cai do Céu
- Obsidiana (2x)
- Ônix
- Opala (2x)
- Opostos (4x)
- Originais (3x)
- Steamborn
- Steamforged
- Steamsworn
- Menace of the Machine
- 2.430 D.C. (conto)
- A Última Pergunta (conto)
- A Última Resposta (conto)
- As Cavernas de Aço (3x)
- Chuva, Chuva, Vá Embora! (conto)
- Eu, Robô (4x)
- Fundação (13x)
- Fundação e Império (2x)
- Fundação e Terra
- Half Breed (conto)
- Histórias de Robôs
- Liar (conto)
- Marooned Off Vesta (conto) (2x)
- O Bardo Imortal (conto)
- O Cair da Noite (conto) (2x)
- O Dia dos Caçadores (conto)
- O Fim da Eternidade (8x)
- O Sol Desvelado (2x)
- Os Robôs da Alvorada (3x)
- Os Robôs e o Império
- Pedra no Céu
- Pobres Imbecis (conto)
- Ponha o Pino A no Furo B (conto)
- Ponto Chave (conto)
- Ring Around the Sun (conto)
- Satisfação Garantida (conto)
- Segunda Fundação (2x)
- Sonhar é Assunto Particular (conto)
- The Magnificent Possession (conto)
- The Weapon, Too Dreadful to Use (conto)
- Trends (conto)
- Trilogia da Fundação (2x)
- Um Dia (conto)
- Vazio (conto)
- Visões de Robô
- Vitória Involuntária (conto)
- Coma e Emagreça com a Ficção Científica
- A História de uma Serva / O Conto da Aia / The Handmaid's Tale (15x)
- Madaddão (3x)
- O Ano do Dilúvio (2x)
- Orys e Crake (4x)
- Os Testamentos / The Testaments (2x)
- 4, 3, 2, 1
- The Peculiar
- Faca de Água (2x)
- Ship Breaker
- The Drowned Cities
- Tool of War
- Senlin Ascends
- Use of Weapons
- A Besta
- Toda a Cerveja de Marte (conto)
- Vigilance
- O Homem Demolido
- Isaac Asimov Magazine, nº 3
- Death Weeps
- Declínio
- Invasão
- Raízes do Mal / Mentes Inquietas (14x)
- A Biblioteca de Babel (conto)
- Nova Antologia Pessoal
- O Livro de Areia
- Utopia de um Homem que Está Cansado (conto)
- Antologia da Literatura Fantástica
- O Planeta dos Macacos
- Matem o Presidente
- The City of Silence (conto)
- Inesquecível (3x)
- Mentes Poderosas / Mentes Sombrias (4x)
- Os Passageiros do Tempo (2x)
- Os Viajantes (2x)
- Farenheit 451 (8x)
- Rondam Tigres (conto)
- A Chegada em Darkover
- Caçadores da Lua Vermelha
- 4 Contra o Apocalipse (7x)
- O Guia de Sobrevivência a Zumbis
- Filho Dourado
- Fúria Vermelha (3x)
- O Viajante de Negro
- A Laranja Mecânica / Laranja Mecânica (10x)
- John Carter
- Best Women's Erotica of the Year, vol. 5
- A Parábola do Semeador / Parable of the Sower (5x)
- A Parábola dos Talentos / Parable of the Talents (5x)
- Despertar (5x)
- Kindred: Laços de Sangue / Kindred (15x)
- Ritos de Passagem (4x)
- Sons da Fala (conto)
- Seres do Espaço
- História da Floresta que se Vinga (conto)
- História de Astolfo na Lua (conto)
- História do Guerreiro Sobrevivente (conto)
- O Castelo dos Destinos Cruzados
- Hiperpilosity
- The Last Evolution (conto)
- The Metal Horde (conto)
- When the Atoms Failed (conto)
- A Guerra das Salamandras (4x)
- A Rapariga que Sabia Demais / A Menina que Tinha Dons (2x)
- A União dos Universos
- A Invenção de Morel
- Antologia da Literatura Fantástica (4x)
- A Coroa
- A Herdeira
- A Seleção (2x)
- O Príncipe (conto)
- The Prince & the Guard
- The Queen
- O Mundo Resplandecente (2x)
- País das Maravilhas (conto)
- A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada (3x)
- Uma Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil (2x)
- Síndrome Fasciolar Cerebral dos Carteiros (conto)
- História da Sua Vida (conto)
- História da Sua Vida e Outros Contos (2x)
- Nova Iorque Sob Trevas
- The Deaths of Tao
- The Lives of Tao
- 2001, uma Odisseia no Espaço (2x)
- A Cidade e as Estrelas
- A Derradeira Manhã (conto)
- As Canções da Terra Distante / Canções da Terra Distante (2x)
- As Fontes do Paraíso
- Campanha Publicitária (conto)
- Encontro com Rama
- O Despertar (conto)
- O Fim da Infância (2x)
- Todo o Tempo do Mundo (conto)
- Um Dia Na Vida do Século XXI
- Richter 10
- Jogador nº 1 (2x)
- A Biblioteca Invisível (2x)
- A Trama Perdida (2x)
- A Muralha ao Redor do Mundo (conto)
- A Esperança
- Em Chamas
- Jogos Vorazes
- Los Mejores Relatos de Ciencia Ficción
- Vírus
- Cavalo-Marinho no Céu
- O Lagarto de Woz (conto)
- Tiamat's Wrath
- Timewyrm: Revelation
- Naves Espaciais, 2000 a 2100
- Jurassic Park
- O Enigma de Andrômeda
- A Armadilha do Paraíso
- A Cidade dos Espelhos
- A Passagem (3x)
- Os Doze
- Matéria Escura (4x)
- Recursão / Recursion (3x)
- Vox (40x)
- Dinosaurios
- A Terceira Potência
- O Crepúsculo dos Deuses
- The Good Doctor
- Stronger, Faster and More Beautiful
- Babel-17 (4x)
- Estrela Imperial (2x)
- Zero K
- Anarquia
- Alice no País das Armadilhas
- A Máquina Preservadora
- A Máquina Preservadora, vol. 1
- Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? / Blade Runner (6x)
- Espaço Eletrônico
- Espere Agora Pelo Ano Passado (3x)
- Lotaria Solar
- O Homem do Castelo Alto (10x)
- O Profanador
- O Tempo Desconjuntado (5x)
- Realidades Adaptadas (3x)
- Ubik (7x)
- Valis
- Deus da Fúria
- Home From the Shore
- Man After Man
- Fênix - A Ilha
- O Mundo Perdido (3x)
- O Sétimo Dia
- Alongamento Vestigial das Vértebras Caudais (conto)
- Talking to Robots
- The Bullet-Catcher's Daughter
- The Custodian of Marvels
- Unseemly Science
- Angry Candy
- The 2055 Hugo Awards (microficções)
- The World of Tiers / World of Tiers (2x)
- Terra de Lobos
- Os Herreachs
- Tempo Acelerado
- Time's Black Lagoon
- Incarceron
- Splinter of the Mind's Eye
- Uma Nova Esperança
- A Arma de um Jedi
- Os Últimos Jedi
- A Cruz de Fogo
- A Libélula no Âmbar
- Tambores de Outono / Os Tambores do Outono (2x)
- Coisas Frágeis
- Crupe dos Doenceiros (conto)
- Deuses Americanos
- Criaturas Estranhas
- Seres Mágicos & Histórias Sombrias (2x)
- Simulacron 3
- Lua de Larvas
- Os Escravos da Górgona
- The Roundheads
- Fantasy & Science Fiction, nº 645
- Transformation (conto)
- O Jardim Diabólico
- Count Zero (2x)
- Mona Lisa Overdrive
- Neuromancer (5x)
- O Periférico (5x)
- Terra das Mulheres (2x)
- Metro 2033 / Metrô 2033 (3x)
- O Império Contra-Ataca
- Senhor das Moscas
- Ficções, nº 10
- Terminais
- Crianças do Éden (5x)
- Feed
- Desafiando as Estrelas (3x)
- Estrelas Perdidas
- Um Milhão de Mundos com Você
- Uma Coisa Absolutamente Fantástica (13x)
- Vinte e Dois Passos Para o Apocalipse (conto)
- Spoonbenders
- A Mãe das Moscas
- A Cidade das Ilusões
- A Curva do Sonho (7x)
- A Mão Esquerda da Escuridão / A Mão Esquerda das Trevas (8x)
- April in Paris (conto)
- O Colar de Semley (conto)
- O Dia do Perdão
- Os Despossuídos / Os Despojados (9x)
- Planeta do Exílio
- Os Filhos Adotivos do Sol
- Como Parar o Tempo (3x)
- Os Humanos
- A Máquina do Tempo Acidental
- Guerra sem Fim / The Forever War (7x)
- Humor Cósmico
- Metrópolis
- Fatherland
- Deathworld
- O Armazém (2x)
- Herdeiro do Jedi
- O Mapa do Tempo (2x)
- O Navio Além do Tempo (2x)
- Cita en la Eternidad
- If This Goes On (conto)
- Life-Line (conto) (2x)
- Misfits (conto)
- Requiem (conto)
- Successful Operation (conto)
- Um Estranho Numa Terra Estranha (5x)
- Imortalidade (2x)
- Duna (2x)
- Filhos de Duna
- Herdeiras de Duna
- Heretics of Dune
- Imperador-Deus de Duna
- Messias de Duna (3x)
- The Godmakers
- Tempo Estranho
- Synthespians
- A Terra da Noite
- A Voz de Deus (conto)
- Serotonina (7x)
- Submissão
- The Dangerous Dimension (conto)
- A Loja do Desejo Agridoce (conto)
- Os Engonços da Quionga (conto)
- À Beira da Eternidade (7x)
- We Are the Ants
- Admirável Mundo Novo (8x)
- Não me Abandone Jamais
- Contos Clássicos de Terror
- A Quinta Estação
- O Céu de Pedra (3x)
- O Portão do Obelisco
- Farewell Horizontal
- The Edge of Human
- Illuminae
- O Legado (6x)
- Os Eternos
- Quando as Estrelas Caem (3x)
- Lords of the Sith
- Flores Para Algernon / Flowers for Algernon (11x)
- Interestelar
- A Dança da Morte
- As Terras Devastadas
- Buick 8 / Buick 8 - Um Carro Perverso (2x)
- Cell - A Chamada da Morte / Celular (4x)
- Novembro de 1963 (3x)
- O Bazar dos Sonhos Ruins (2x)
- O Concorrente (3x)
- O Instituto (22x)
- Os Justiceiros
- Os Olhos do Dragão
- Sob a Redoma (2x)
- Belas Adormecidas
- A Ascensão do Governador
- A Queda do Governador
- A Queda do Governador, vol. 1
- Aftershocks
- Contágio (2x)
- The Calculating Stars (2x)
- O Preço das Laranjas (conto)
- A Balada do Black Tom (5x)
- Justiça Ancilar
- Exo
- Solaris (3x)
- Muitas Águas
- Um Tempo Aceitável (5x)
- Uma Dobra no Tempo
- Canção de Ninar Venusiana
- Além do Planeta Silencioso (6x)
- Aquela Fortaleza Medonha (2x)
- Perelandra (4x)
- O Ano da Graça (2x)
- Nenhuma Máquina Seria Capaz Disso (conto)
- The Three-Body Problem
- A Ira dos Justos
- Os Dias Escuros
- A Cor que Caiu do Céu
- A Sombra Vinda do Tempo
- Azathoth (conto)
- Beyond the Wall of Sleep (conto)
- Celephaïs (conto)
- Medo Clássico
- Medo Clássico, vol. 1
- Nas Montanhas da Loucura
- Nas Montanhas da Loucura e Outras Histórias de Terror
- O Chamado de Cthulhu
- O Chamado de Cthulhu e Outras Histórias
- O Depoimento de Randolph Carter (conto)
- O Despertar de Cthulhu (5x)
- Os Contos Mais Arrepiantes de Howard Philips Lovecraft (3x)
- A Escolhida
- O Doador de Memórias (2x)
- A Estrela da Meia Noite
- Criaturas da Noite
- Jovens de Elite
- Legend (2x)
- O Jogo do Coringa (4x)
- Warcross
- Tudo o que Deixamos Para Trás
- Ladra de Almas (7x)
- O Corpo Dela e Outras Farras (3x)
- Defy Me
- Estilhaça-me / Shatter Me / Intocável (5x)
- Ignite Me
- Liberta-me / Unravel Me (2x)
- Restaura-me
- Reveal Me
- Shadow Me (conto)
- A Ilusão do Tempo (2x)
- Lovestar (3x)
- Alarma Galáctico
- Caminhos do Espaço
- Às Cegas / Caixa de Pássaros (17x)
- Bobby Bate à Porta (conto)
- Inspeção (12x)
- Dois Mil e Sessenta e Um (conto)
- Estação Onze (2x)
- Amanhã: Quem Tem Medo da Noite
- A Flor de Vidro (conto)
- Nightflyers (14x)
- O Começo (3x)
- Santuário dos Ventos
- Legacy of the Nautilus
- A Sabedoria dos Mortos
- Eu Sou a Lenda (2x)
- Terra da Liberdade
- A Estrada (2x)
- Odyssey
- Máquinas como Eu (13x)
- A Altura Deslumbrante (3x)
- Gather the Daughters
- Cinder (3x)
- Cress (2x)
- Renegades
- Scarlet (2x)
- Winter (4x)
- Iron Council
- Perdido Street Station
- Railsea
- The City & The City / A Cidade & a Cidade (2x)
- The Scar (2x)
- Um Conto de Natal (conto) (2x)
- A Vingança do Astronauta
- Estação nas Estrelas
- Kenobi
- Um Cântico para Leibowitz
- The Forgotten Army
- Brumas do Tempo
- Os Seis Finalistas (2x)
- Tainted
- Utopia (4x)
- Light Years (2x)
- Os 100
- Os Escolhidos
- Revolta
- Carbono Alterado (2x)
- 1Q84 (2x)
- Eight o'Clock in the Morning
- Mundo em Caos (11x)
- Autonomous
- The Malice
- A Mulher do Viajante no Tempo
- Quarta-Feira Submersa
- A Súbita Aparição de Hope Arden
- As Primeiras Quinze Vidas de Henry August
- Binti (2x)
- Home
- Quem Teme a Morte (2x)
- The Night Masquerade
- Sobrevive
- Antes de Vos Deixar
- 1984 (18x)
- Zoo (2x)
- W ou a Memória da Infância
- Sombras do Império
- Contos de Imaginação e Mistério
- Histórias Extraordinárias
- Medo Clássico, v. 2 (2x)
- Esperando os Olimpianos (conto)
- The Anubis Gates
- A Terra Longa
- Blasfémia
- Starters (3x)
- The Prestige
- A Bússola de Ouro
- Os Reinos do Norte
- A Revolta de Atlas
- Engenhos Mortíferos / Máquinas Mortais (4x)
- O Ouro do Predador
- Intruso
- Felicidade Para Humanos
- System Shock
- The Deviant Strain
- The Sands of Time
- Wake me After the Apocalypse
- A Resistência Renasce
- Trail of Lightning
- Origem Mortal
- Sedução Mortal
- Sobrevivência Mortal
- Traição Mortal
- Ano Um (7x)
- Nova York 2140
- Red Mars
- A Chave Maldita
- A Ordem Negra
- Amazónia (2x)
- O Labirinto de Ossos (2x)
- O Mapa de Ossos
- Crave a Marca (3x)
- Destinos Divididos (5x)
- Divergente
- We Can Be Mended (conto)
- The Beetle Horde
- Em Tempos Havia os Bois... (conto)
- As Escalas da Injustiça
- Nerve
- Contato (2x)
- O Pequeno Príncipe / O Principezinho (3x)
- História Verdadeira
- Calamidade (3x)
- Coração de Aço (2x)
- Skyward (8x)
- Tormenta de Fogo
- 2084
- Brilhantes
- Guerracivilância em Mau Declínio
- Flashforward (2x)
- Mindscan
- A Reação Adversa do Caos
- A Última Colônia (8x)
- As Brigadas Fantasma (3x)
- Encarcerados (3x)
- Guerra do Velho (6x)
- The Consuming Fire
- A Abóbada Energética
- Missão Stardust
- Troopers da Morte
- Vilão (3x)
- Amor & Cia (conto)
- A Serpente do Velho Nilo (conto)
- Between the Strokes of Night
- Sight of Proteus
- Frankenstein / Frankenstein, ou o Prometeu Moderno (9x)
- A Nuvem (5x)
- Desintegrados
- Fragmentados
- Scythe / O Ceifador (3x)
- Seca (10x)
- Moscas (conto)
- Nascer do Sol em Mercúrio (conto)
- O Homem que Jamais Esquecia (conto)
- O Sexto Palácio (conto)
- Os Desajustados (conto)
- Outros Tempos, Outros Mundos (2x)
- Mundos Sem Fim
- Solitária
- A Lente de Marbury
- Selva de Gafanhotos
- Arkwright
- Tempo Fechado
- O Médico e o Monstro / O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde (6x)
- O Médico e o Monstro e Outros Experimentos
- Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde and Other Stories
- Certamente, Talvez
- Piquenique na Estrada / Stalker (2x)
- Ontem Foi Segunda-Feira (conto)
- As Viagens de Gulliver
- A. K. A.
- Battle Royale (2x)
- Children of Time
- Todos os Nossos Ontens
- O Homem que Caiu na Terra (2x)
- Renda Limitada (conto)
- Debaixo de Cerco
- Rebelde
- Android Karenina
- Minha Mulher (conto)
- Space Opera
- Planeta Duplo
- Aniquilação (3x)
- Assimilação de Tian Shan-Góbi (conto)
- The Big Book of Science Fiction (5x)
- Através do Vazio (11x)
- A Volta ao Mundo em 80 Dias (4x)
- À Volta da Lua
- Twenty Thousand Leagues Under the Sea / Vinte Mil Léguas Submarinas (3x)
- Viagem ao Centro da Terra
- Dezasseis (2x)
- Black Destroyer (conto)
- As Sereias de Titã (3x)
- Cama de Gato (3x)
- Matadouro 5 / Matadouro Cinco (16x)
- O Último Contato
- Viajantes do Tempo
- The Mammoth Book of Steampunk
- Luta Contra o Tempo
- O Caos (2x)
- Tempo Real (conto)
- Blindsight
- Openness (conto)
- Artemis (11x)
- O Marciano
- Nova Era
- A Guerra dos Mundos / Guerra dos Mundos (5x)
- A Ilha do Doutor Moreau (3x)
- A Máquina do Tempo (5x)
- O Homem Invisível / The Invisible Man (3x)
- O País dos Cegos e Outras Histórias
- Um Sonho do Armagedão (conto)
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- Leviatã
- A Sombria Queda de Elizabeth Frankenstein (2x)
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- Iridescência (conto)
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- Muito Barulho por Nada (conto)
- Golden State
- Marciana Idiota (conto)
- Ascensão da Força Sombria
- Herdeiros do Império
- Thrawn
- Nós (3x)
- Blood and Amber
- Knight of Shadows
- Prince of Chaos
- Sign of Chaos
- Trumps of Doom
- As Horas Vermelhas (4x)
Ao mesmo tempo, é uma gota de água no oceano do que existe. Não só do que existe publicado nas línguas originais — e aqui temos também opiniões sobre material que nunca saiu em português, e provavelmente nunca sairá — mas até do que existe publicado em português, seja do lado de cá, seja do lado de lá do Atlântico. Por cada Douglas Adams com 7 títulos comentados 22 vezes há um número que desconheço de autores que ninguém lê ou, se lê, ninguém comenta. Tal como entre os portugueses. Tal como entre os brasileiros. Nisso, pelo menos, todos os escritores de FC (ou que roçaram no género em alguma parte das suas carreiras) do planeta estão unidos num só protesto.
E sim, Douglas Adams é um dos destaques do ano. Mas não é nem o único nem o maior. O maior destaque tem de caber a Isaac Asimov, que recebeu um total de 68 comentários a 36 títulos (incluindo muitos contos, claro). E houve mais autores a passar os 20 comentários: Margaret Atwood teve 26 (5 títulos), Octavia E. Butler 35 (6 títulos), Philip K. Dick 40 (12 títulos), Ursula K. Le Guin 29 (8 títulos), Stephen King 42 (11 títulos), H. P. Lovecraft não passou os 20 comentários mas alcançou-os (14 títulos), Josh Malerman 30 (3 títulos), John Scalzi 21 (5 títulos), Kurt Vonnegut 22 (3 títulos) e Neal Shusterman chegou apenas a 10 comentários, mas se somarmos os outros 10 que o título que escreveu com o filho Jarrod atinge os 20 (e um total de 5 títulos). Muitos monstros sagrados, um punhado de gente mais nova, muitos autores de FC adulta e poucos de YA, o que contraria algumas ideias feitas muito espalhadas, ainda que a proveniência destes números tenha certamente influência nisso.
Hão de reparar que todos estes autores estão presentes com mais que um título, não tendo havido, em 2019, nenhum daqueles casos em que um autor explode com um livro repentino que toda a gente parece querer ler e sobre o qual parece ter de falar, desaparecendo em seguida sem deixar rasto. Quando acontece algo do género, o total de leituras e comentários não atinge esses números. Mas há alguns autores com mais de 10 comentários a obras únicas, ainda que nem todos sejam novos autores nos mercados lusófonos. Destaca-se George Orwell, com 18 comentários ao romance 1984, outros autores consagrados presentes nesta lista são Anthony Burgess (10 comentários), Daniel Keyes (11 comentários) e Ian McEwan (13 comentários), mas também lá estão Gwenda Bond (14 comentários), Hank Green (13 comentários), Patrick Ness (11 comentários) e S. K. Vaughn (11 comentários).
Se isto continuasse, para o ano teríamos números semelhantes a estes em Saramago. Mas não vai continuar, portanto nunca os teremos. Ou por outra, vai continuar ainda para o post das categorias menores, que vem aí a seguir (quando não sei, que a prioridade é bastante baixa... mas virá), e depois acabou-se. Até lá.
domingo, 10 de maio de 2020
Lançamentos de FC de abril 2020 (segundo o FCL)
Antes de abrir o post propriamente dito, uma notazinha para dizer que os atrasos continuam. Têm sido reduzidos ao longo do mês, aos poucos e um pouco, mas eram tão grandes e a situação que o mundo atravessa tem gerado uma profusão tão grande de referências a obras de e com FC, o que tem os impactos no Ficção Científica Literária que são óbvios e evidentes, que a redução está ainda muito longe de anular os atrasos acumulados em março. Por conseguinte, as listas que aqui se apresentam incluem material do fim de março e não incluem material do fim de abril. Mas correspondem a um período de tempo equivalente a um mês. Um pouco maior que um mês, até.
Mas sim, a outra nota prévia sobre o que raio é isto. Podem encontrar uma explicação no primeiro destes posts, que saiu em fevereiro. É só dar-lhe uma leiturazinha rápida e ficam situados. E despachados estes prolegómenos, vamos então ao que interessa: que tal correu o mês.
Podia ter corrido pior? Dificilmente. A edição em Portugal parou quase por completo, e a de FC, que já não era propriamente abundante em circunstâncias normais, pura e simplesmente desapareceu. Podia ter-se tentado contornar as limitações na edição em papel publicando eletronicamente, mas nada, ninguém o fez. Ou se fez não publicitou a coisa de forma que se visse. Melhores dias virão. Um dia. Talvez.
No Brasil, talvez por haver normalmente muito mais edições que não dependem da distribuição em livrarias, fruto em parte da presença da Amazon no país, e em parte talvez consequência da sua dimensão continental, as coisas não pararam. Na verdade, nem sequer se reduziram; no mês anterior tinham sido detetadas 6 edições de material brasileiro, neste houve 8. Não faço ideia de quanto deste material chegou realmente aos leitores, mas ele ficou disponível. Esse é, sempre, o primeiro passo, sem o qual nenhum outro existe.
A edição de ficção traduzida não parou por completo em Portugal mas quase, tendo-se detetado apenas o lançamento de um par de volumes algo (ou talvez totalmente) marginais ao género. De novo, o mesmo não se pode dizer da edição no Brasil (os outros países lusófonos continuam a primar pela ausência, infelizmente), ainda que esta também tenha sofrido uma redução significativa que talvez tenha algo a ver com as variações naturais de mês a mês mas talvez seja mais do que isso.
Estranhamente, houve duas novidades de não ficção com interesse para o género. E digo estranhamente porque elas saíram em Portugal o que, não sendo inédito (longe disso, na verdade) também não é propriamente muito comum. Não me perguntem por que motivo num momento em que a edição em geral para quase por completo a de não ficção resiste assim; não vos saberia responder.
Por fim, falemos do único grupo de novidades em que a situação que atravessamos parece não ter causado grande impacto, provavelmente porque é aquele em que a digitalização mais avançou: os periódicos. Com três publicações portuguesas e outras três brasileiras, o mês até foi bom, embora as portuguesas andem muito em volta de Saramago e a única que não anda corresponda à edição em ebook de uma revista já antes publicada em papel. Mas mesmo assim, o mês foi bom, e é agradável poder concluir isto numa nota positiva. Que venham mais dessas notas é o que se deseja.
Ficção brasileira
Edições portuguesas
Edições portuguesas
Edições portuguesas
Mas sim, a outra nota prévia sobre o que raio é isto. Podem encontrar uma explicação no primeiro destes posts, que saiu em fevereiro. É só dar-lhe uma leiturazinha rápida e ficam situados. E despachados estes prolegómenos, vamos então ao que interessa: que tal correu o mês.
Podia ter corrido pior? Dificilmente. A edição em Portugal parou quase por completo, e a de FC, que já não era propriamente abundante em circunstâncias normais, pura e simplesmente desapareceu. Podia ter-se tentado contornar as limitações na edição em papel publicando eletronicamente, mas nada, ninguém o fez. Ou se fez não publicitou a coisa de forma que se visse. Melhores dias virão. Um dia. Talvez.
No Brasil, talvez por haver normalmente muito mais edições que não dependem da distribuição em livrarias, fruto em parte da presença da Amazon no país, e em parte talvez consequência da sua dimensão continental, as coisas não pararam. Na verdade, nem sequer se reduziram; no mês anterior tinham sido detetadas 6 edições de material brasileiro, neste houve 8. Não faço ideia de quanto deste material chegou realmente aos leitores, mas ele ficou disponível. Esse é, sempre, o primeiro passo, sem o qual nenhum outro existe.
A edição de ficção traduzida não parou por completo em Portugal mas quase, tendo-se detetado apenas o lançamento de um par de volumes algo (ou talvez totalmente) marginais ao género. De novo, o mesmo não se pode dizer da edição no Brasil (os outros países lusófonos continuam a primar pela ausência, infelizmente), ainda que esta também tenha sofrido uma redução significativa que talvez tenha algo a ver com as variações naturais de mês a mês mas talvez seja mais do que isso.
Estranhamente, houve duas novidades de não ficção com interesse para o género. E digo estranhamente porque elas saíram em Portugal o que, não sendo inédito (longe disso, na verdade) também não é propriamente muito comum. Não me perguntem por que motivo num momento em que a edição em geral para quase por completo a de não ficção resiste assim; não vos saberia responder.
Por fim, falemos do único grupo de novidades em que a situação que atravessamos parece não ter causado grande impacto, provavelmente porque é aquele em que a digitalização mais avançou: os periódicos. Com três publicações portuguesas e outras três brasileiras, o mês até foi bom, embora as portuguesas andem muito em volta de Saramago e a única que não anda corresponda à edição em ebook de uma revista já antes publicada em papel. Mas mesmo assim, o mês foi bom, e é agradável poder concluir isto numa nota positiva. Que venham mais dessas notas é o que se deseja.
Ficção brasileira
- A Bicicleta, de Roberto Fideli
- A Túnica Sagrada, de Eduardo Escames
- Cabaré em Chamas, de H. Pueyo
- Cibernética, de Melissa Tobias
- Corpos Secos, de Luisa Geisler, Natalia Borges Polesso, Marcelo Ferroni e Samir Machado de Machado
- Criaturas da Ilha de Corso, de Angela-Lago, José Roberto Torero e Pedro Hamdan das Pedras
- Eles, de A. T. Sérgio
- Noites Sombrias, de Ademir Pascale
Edições portuguesas
- Haven, de Simon Lelic
- Revolução, de Simon Lelic
- A Cruz de Fogo, de Diana Gabaldon
- A Nuvem Púrpura, de M. P. Shiel
- O Guia Definitivo do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams
- Os Olhos da Escuridão, de Dean Koontz
- Pantera Negra e o Jovem Príncipe, de Ronald L. Smith
- Utopia, de Thomas More
Edições portuguesas
- Cosmos: Mundos Possíveis, de Ann Druyan
- Novaceno: O Advento da Era da Hiperinteligência, de James Lovelock
Edições portuguesas
- Bang!, nº 27
- Blimunda, nº 93
- Revista de Estudos Saramaguianos, nº 11
- Conexão Literatura, nº 58
- Literomancia, nº 4
- Zanzalá, nº 4
sábado, 9 de maio de 2020
Daniel João Sousa: Casa Assombrada
Mais um autor que resolveu (ou alguém resolveu por ele) assinar com o nome completo. Diverti-me com isso no início deste livro, mas há já algum tempo que não me aparecia nenhum nome longo entre os pseudónimos e as combinações simples de nome+apelido que têm dominado nos últimos tempos. Daniel João Santos Sousa tem pelo menos a vantagem de o seu nome não ser daqueles que parecem nunca mais acabar; quatro palavrinhas e está a andar. E tem outra vantagem relativamente a muitos outros dos autores desta parte do livro: só tem de perder alguns vícios para conseguir escrever bem.
Casa Assombrada (bibliografia) é um pastiche de conto oitocentista, mais um, uma história anacrónica e hiperadjetivada, carregada de velhos clichés sobre... bem... casas assombradas. É inútil descrever a história: já todos a lemos, já todos assistimos a ela em inúmeros filmes e séries de TV. Não há aqui originalidade alguma. Mas há pelo menos um português que, depois de passar pela máquina desadjetivadora, pode tornar-se agradável de ler. E precisa mesmo de passar por ela, que como está é uma tal floresta de adjetivos desnecessários que torna difícil ver-se a qualidade que tenta respirar por baixo. Se o autor quiser e conseguir libertá-la, pode vir a produzir coisas interessantes. Esta não o é.
Textos anteriores deste livro:
Casa Assombrada (bibliografia) é um pastiche de conto oitocentista, mais um, uma história anacrónica e hiperadjetivada, carregada de velhos clichés sobre... bem... casas assombradas. É inútil descrever a história: já todos a lemos, já todos assistimos a ela em inúmeros filmes e séries de TV. Não há aqui originalidade alguma. Mas há pelo menos um português que, depois de passar pela máquina desadjetivadora, pode tornar-se agradável de ler. E precisa mesmo de passar por ela, que como está é uma tal floresta de adjetivos desnecessários que torna difícil ver-se a qualidade que tenta respirar por baixo. Se o autor quiser e conseguir libertá-la, pode vir a produzir coisas interessantes. Esta não o é.
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quinta-feira, 7 de maio de 2020
Michael Bishop: Doença de Menard
Já aqui falei de um conto de Jorge Luis Borges no qual um tal Pierre Menard escreve o clássico romance de Cervantes D. Quixote de la Mancha. É precisamente nesse conto que Michael Bishop pega para descrever a doença de que padece a personagem de Borges, apropriadamente chamada Doença de Menard (bibliografia). O resultado é um texto mais que assumidamente borgesiano dentro de um livro que, em si mesmo, também o é muito.
É um texto irónico, claro; o próprio conto de Borges já o era e Bishop só acentua o facto, entretendo-se não só com a evidente homenagem mas também a lançar piadas a alguns integrantes do meio literário de FC e fantástico americano. Mas parece-me que o ambiente de piada interna impede esta historinha de ter um apelo que ultrapasse o grupo restrito capaz de a compreender. É uma daquelas histórias de fandom e para o fandom. Gente de fora, provavelmente, limita-se a encolher os ombros. E se isso pode ser divertido para os de dentro, nada faz pela expansão da literatura fantástica a novos leitores, bem pelo contrário.
Textos anteriores deste livro:
É um texto irónico, claro; o próprio conto de Borges já o era e Bishop só acentua o facto, entretendo-se não só com a evidente homenagem mas também a lançar piadas a alguns integrantes do meio literário de FC e fantástico americano. Mas parece-me que o ambiente de piada interna impede esta historinha de ter um apelo que ultrapasse o grupo restrito capaz de a compreender. É uma daquelas histórias de fandom e para o fandom. Gente de fora, provavelmente, limita-se a encolher os ombros. E se isso pode ser divertido para os de dentro, nada faz pela expansão da literatura fantástica a novos leitores, bem pelo contrário.
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segunda-feira, 4 de maio de 2020
Joakim Santos: O Beijo da Morte
Mais um conto francamente mal escrito, este O Beijo da Morte (bibliografia) de JoaKim Santos, sem um mínimo de revisão que proteja o leitor e o autor da baixa qualidade do português utilizado. Sim, porque uma das funções de um editor é proteger o autor de ser exposto de forma demasiado violenta, e não o fazer é sinal de incompetência. Mas sobre isso falarei mais detalhadamente quando falar da antologia como um todo.
Sim, este conto está muito mal escrito. Querem ver? Eis o primeiro conjunto de frases que me apareceram debaixo dos olhos, ou seja, é um trecho ao calhas, nem o pior nem o melhor que aqui se acha: «Estava ainda a pensar no sucedido, difícil de imaginar quanto mais acreditar, com algum receio fui fechando os olhos, passados uns momentos suspirei de alívio, parecia-me que tudo tinha passado, (paf). — Ai! Novamente...». Pois.
À parte a fraca qualidade do português, esta é uma daquelas histórias sobrenaturais e razoavelmente lúgubres na qual o protagonista se vê assolado por coisas que não entende e das quais acaba por salvar-se porque, apesar do clima soturno, a mensagem do conto acaba por ser de alguma esperança. Um conto de horror esperançoso, por assim dizer. Mas muito, muito fraquinho. Quando o manuseio da língua é mau o resto tem de ser muito bom para que as coisas se salvem, e aqui estamos muito longe disso.
Textos anteriores deste livro:
Sim, este conto está muito mal escrito. Querem ver? Eis o primeiro conjunto de frases que me apareceram debaixo dos olhos, ou seja, é um trecho ao calhas, nem o pior nem o melhor que aqui se acha: «Estava ainda a pensar no sucedido, difícil de imaginar quanto mais acreditar, com algum receio fui fechando os olhos, passados uns momentos suspirei de alívio, parecia-me que tudo tinha passado, (paf). — Ai! Novamente...». Pois.
À parte a fraca qualidade do português, esta é uma daquelas histórias sobrenaturais e razoavelmente lúgubres na qual o protagonista se vê assolado por coisas que não entende e das quais acaba por salvar-se porque, apesar do clima soturno, a mensagem do conto acaba por ser de alguma esperança. Um conto de horror esperançoso, por assim dizer. Mas muito, muito fraquinho. Quando o manuseio da língua é mau o resto tem de ser muito bom para que as coisas se salvem, e aqui estamos muito longe disso.
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domingo, 3 de maio de 2020
António Bettencourt Viana: O Mistério dos Peixes Desaparecidos
Há uma série de decisões prévias à produção de um conto que vão ter um impacto fulcral no resultado do empreendimento. Não é só questão de ter uma ideia e desatar a escrever; temos de decidir que abordagem vamos dar a essa ideia, que personagens vamos pôr a lidar com ela, qual o grau de elaboração que é preferível dar a personagens, ambiente e à própria ideia, e por aí fora, mais uma série de coisas que vão do tipo de linguagem utilizada à extensão com que a história pode resultar melhor. É muito fácil que algumas destas decisões acabem por se revelar erradas. Aí, os autores têm duas alternativas: ou deitam fora e começam de novo, ou avançam com a coisa mesmo assim.
Muitos preferem avançar com a coisa mesmo assim. Percebo bem porquê; afinal, também eu o fiz por diversas vezes. Escrever dá trabalho e gasta tempo e, sem haver a certeza de que uma ou várias decisões diferentes no início desse trabalho vão necessariamente ter como resultado uma história melhor, isto é, de que vale a pena fazê-lo, a renitência em destruir e recomeçar é grande. Mas o resultado são todas aquelas histórias, e são tantas, que acabam por ficar insatisfatórias porque com outras abordagens ficariam com toda a probabilidade muito melhores.
Como esta?, perguntarão vocês. Sim, como esta. É que O Mistério dos Peixes Desaparecidos (bibliografia) não tem propriamente mistério. Não existe uma investigação, não há dúvidas, deduções, experiências, tentativa e erro. Há basicamente uma conversa entre um biólogo marinho que já sabe tudo o que há para saber e a sua mulher. O motivo da conversa é um dilema, pois o biólogo não sabe bem se deve ou não revelar ao mundo o que sabe. É que tinham andado a desaparecer peixes, e ele tem receio de que a revelação do porquê possa levar à destruição de algo de precioso... e a não revelação acabe com a sua carreira.
António Bettencourt Viana teria aqui material para uma história bastante mais interessante e bastante mais longa (e bastante mais sumarenta para mim, pessoalmente; afinal não é em vão que se tira um curso de biologia marinha), mas fica-se pela mediania. Por um conto de ficção científica que não é mau mas também não se pode propriamente dizer que é bom. Pena.
Contos anteriores deste livro:
Muitos preferem avançar com a coisa mesmo assim. Percebo bem porquê; afinal, também eu o fiz por diversas vezes. Escrever dá trabalho e gasta tempo e, sem haver a certeza de que uma ou várias decisões diferentes no início desse trabalho vão necessariamente ter como resultado uma história melhor, isto é, de que vale a pena fazê-lo, a renitência em destruir e recomeçar é grande. Mas o resultado são todas aquelas histórias, e são tantas, que acabam por ficar insatisfatórias porque com outras abordagens ficariam com toda a probabilidade muito melhores.
Como esta?, perguntarão vocês. Sim, como esta. É que O Mistério dos Peixes Desaparecidos (bibliografia) não tem propriamente mistério. Não existe uma investigação, não há dúvidas, deduções, experiências, tentativa e erro. Há basicamente uma conversa entre um biólogo marinho que já sabe tudo o que há para saber e a sua mulher. O motivo da conversa é um dilema, pois o biólogo não sabe bem se deve ou não revelar ao mundo o que sabe. É que tinham andado a desaparecer peixes, e ele tem receio de que a revelação do porquê possa levar à destruição de algo de precioso... e a não revelação acabe com a sua carreira.
António Bettencourt Viana teria aqui material para uma história bastante mais interessante e bastante mais longa (e bastante mais sumarenta para mim, pessoalmente; afinal não é em vão que se tira um curso de biologia marinha), mas fica-se pela mediania. Por um conto de ficção científica que não é mau mas também não se pode propriamente dizer que é bom. Pena.
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sábado, 2 de maio de 2020
Escrita de abril
Errr...
Como é que eu digo isto?...
Pois...
Olhem, vai ter de ser assim: não, não acabou. A novela que tenho andado a escrever ainda a ando a escrever. Havia umas inconsistências que podia ter deixado para a revisão mas decidi resolver já, o que levou à reescrita de algumas partes e à expansão de outras. E também levou a ajustes no rumo do enredo que vão levar a um final um pouco diferente. Ou melhor: o final vai ser muito diferente do que estava planeado porque vai incluir uma ideia que me ocorreu durante abril.
Ou seja, mais uma vez não cumpri o projetado, mas desta feita os motivos até foram bons. E pelo meio também houve uma interrupçãozinha para escrever um conto sem nada a ver com a novela, portanto não fica tudo nos corredores etéreos e em grande medida insubstanciais dos projetos não concluídos. A quantidade de material escrito não é grande, é certo, pois entre avanços e recuos não passei das 5500 palavras, ou pouco mais que isso, ou seja, cerca de 16 páginas, mas o resultado, parece-me, vai ficar melhor assim.
Já não me atrevo é a prometer que acabo este mês de maio. A ideia é essa, mas o histórico não é dos melhores. A ver vamos, a ver vamos.
Como é que eu digo isto?...
Pois...
Olhem, vai ter de ser assim: não, não acabou. A novela que tenho andado a escrever ainda a ando a escrever. Havia umas inconsistências que podia ter deixado para a revisão mas decidi resolver já, o que levou à reescrita de algumas partes e à expansão de outras. E também levou a ajustes no rumo do enredo que vão levar a um final um pouco diferente. Ou melhor: o final vai ser muito diferente do que estava planeado porque vai incluir uma ideia que me ocorreu durante abril.
Ou seja, mais uma vez não cumpri o projetado, mas desta feita os motivos até foram bons. E pelo meio também houve uma interrupçãozinha para escrever um conto sem nada a ver com a novela, portanto não fica tudo nos corredores etéreos e em grande medida insubstanciais dos projetos não concluídos. A quantidade de material escrito não é grande, é certo, pois entre avanços e recuos não passei das 5500 palavras, ou pouco mais que isso, ou seja, cerca de 16 páginas, mas o resultado, parece-me, vai ficar melhor assim.
Já não me atrevo é a prometer que acabo este mês de maio. A ideia é essa, mas o histórico não é dos melhores. A ver vamos, a ver vamos.
Isaac Asimov: Ao Conquistador
Já tinha tido umas indicações de que assim seria anteriormente, mas depois de ler este Ao Conquistador (bibliografia) fiquei com a certeza: há um problema neste livro. Isaac Asimov repete-se demasiado e como consequência as histórias perdem interesse e até piada.
A questão é que Asimov tenta replicar nos contos sobre Azazel a abordagem formulaica que deu tão bons resultados nos dos robôs positrónicos, mas o tema, aqui, presta-se muito menos a ela. Nos contos dos robôs existe sempre um problema a resolver, um mistério. O seu fascínio prende-se em boa medida com o exercício intelectual da análise desse mistério, um pouco à semelhança do que acontece com a literatura policial, que também tende com frequência a ser formulaica. É esse exercício que faz com que resulte. Mas aqui não existe desafio algum. OK, o demónio é desastrado. OK, cria mais problemas do que os que resolve porque encara literalmente, extremadamente, tanto os problemas como as propostas de solução. Certo, a ideia é divertir. Mas e daí?
O que fica é pouco. Neste conto temos um pobre desesperado porque as mulheres não lhe ligam. O demoniozinho é colocado em campo e resolve o problema dando ao protagonista incel um cocktail de feromonas que o tornam completamente irresistível para o sexo oposto. Claro que corre mal e o incel continua a ser incel, agora porque o mulherio não o larga. E o leitor sorri, quando sorri, e encolhe os ombros. Tá bem. Próximo.
Contos anteriores deste livro:
A questão é que Asimov tenta replicar nos contos sobre Azazel a abordagem formulaica que deu tão bons resultados nos dos robôs positrónicos, mas o tema, aqui, presta-se muito menos a ela. Nos contos dos robôs existe sempre um problema a resolver, um mistério. O seu fascínio prende-se em boa medida com o exercício intelectual da análise desse mistério, um pouco à semelhança do que acontece com a literatura policial, que também tende com frequência a ser formulaica. É esse exercício que faz com que resulte. Mas aqui não existe desafio algum. OK, o demónio é desastrado. OK, cria mais problemas do que os que resolve porque encara literalmente, extremadamente, tanto os problemas como as propostas de solução. Certo, a ideia é divertir. Mas e daí?
O que fica é pouco. Neste conto temos um pobre desesperado porque as mulheres não lhe ligam. O demoniozinho é colocado em campo e resolve o problema dando ao protagonista incel um cocktail de feromonas que o tornam completamente irresistível para o sexo oposto. Claro que corre mal e o incel continua a ser incel, agora porque o mulherio não o larga. E o leitor sorri, quando sorri, e encolhe os ombros. Tá bem. Próximo.
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sexta-feira, 1 de maio de 2020
Mia Couto: A Sombra Sentada
Duas histórias, particularmente quando tão curtas como estes textos a que Mia Couto chama crónicas, são muito insuficientes para se reconhecer um tema geral numa compilação que reúne quase cinquenta, mas há algo em comum entre esta A Sombra Sentada e a história que abre o livro: os fantasmas da guerra.
Aqui, no entanto, não surge nada de realmente sobrenatural; os fantasmas são mais ausências do que propriamente fantasmas, as premonições não o são, propriamente, são mais palpites. O narrador é alguém que vai em busca de um velho amigo, guarda de passagem de nível reformado, cuja tristeza é já não ver passar os comboios. Porquê? Porque a guerra os tinha transformado em alvos, impedindo-os de circular. E é essa tristeza, e em consequência a própria guerra e a devastação que ela causa, que funciona como tema da história. Tudo com a delicadeza e a poesia que são timbre de Mia Couto. Bastante bom.
Conto anterior deste livro:
Aqui, no entanto, não surge nada de realmente sobrenatural; os fantasmas são mais ausências do que propriamente fantasmas, as premonições não o são, propriamente, são mais palpites. O narrador é alguém que vai em busca de um velho amigo, guarda de passagem de nível reformado, cuja tristeza é já não ver passar os comboios. Porquê? Porque a guerra os tinha transformado em alvos, impedindo-os de circular. E é essa tristeza, e em consequência a própria guerra e a devastação que ela causa, que funciona como tema da história. Tudo com a delicadeza e a poesia que são timbre de Mia Couto. Bastante bom.
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