quarta-feira, 7 de outubro de 2009

É a chamada honestidade dos direitinhas. Nada que surpreenda, portanto. O costume. Mais do mesmo. Enfim, é o que é.

O Senhor Palomar tem um blogue porreiro. Quando fala de literatura é uma voz digna de ser ouvida, e já tem escrito e publicado coisas em que eu dou por mim a responder a cada palavra com um "pois é" interno. E não foi uma nem duas vezes que isso aconteceu.

O problema é que não se fica pela literatura. E em coisas como esta, entra política dentro. Se o fizesse decentemente, tudo bem, mas não o faz. Fá-lo enviesadamente, com deturpações grosseiras da verdade e com insultos implícitos.

Senão, vejamos.

Insinua ele que é exemplo da "coerência habitual" do BE que o partido tenha uma posição oficial sobre as touradas e outros espetáculos de degradação taurino-equestre, enquanto a presidente-candidata à câmara de Salvaterra de Magos, eleita nas listas do BE, se manifeste favorável a tais espetáculos.

Ora, o Senhor Palomar, que é óbvio que não é nem inculto, nem burro, nem mal informado, sabe perfeitamente que Ana Cristina Ribeiro não é militante do BE. Talvez seja o BE o partido com que mais se identifica, razão pela qual se sentirá bem concorrendo nas suas listas mas, se não é militante, é porque tem pontos de divergência com a linha oficial do partido que considera suficientemente relevantes para impedir que nele se inscreva. Eu sei como é: é o que acontece comigo, com a diferença de eu não ser candidato a nada. Mas não me inscrevo no partido em que tenho votado quase sempre nos últimos anos e com o qual mais me identifico no geral porque há coisas em que discordo por completo dele. Assim são todos os não-militantes partidários, suponho eu. Ou pelo menos aqueles que têm algumas ideias políticas na cabeça.

Ora bem: pelas posições tomadas publicamente por ambas as partes, é evidente que um dos pontos de discórdia entre partido e candidata independente é o modo como devem ser encarados pela sociedade no seu todo os espetáculos tauromáquicos. Ambas as partes aceitam essa divergência como parte inevitável e natural de se lidar com pessoas que pensam pela própria cabeça, e nenhuma das partes ousa tentar reprimir ou suprimir as ideias discordantes da outra, o que é sintoma de espírito tolerante e democrático, que qualquer pessoa que fosse realmente tolerante e democrática só poderia saudar.

Sabendo o Senhor Palomar disto, como certamente sabe, como se explica aquela tentativa patusca de associar uma posição da independente que é candidata a presidente duma câmara a pretensas "incoerências" num discurso partidário, suprimindo precisamente a parte da história que explica as divergências? Sim, que o Senhor Palomar fala como se Ana Cristina Ribeiro e o BE fossem uma e a mesma coisa, e sabe perfeitamente que isso é uma deturpação desonesta da realidade.

Mas não é nada que surpreenda. Mesmo. A nossa lamentável direita é quase toda assim. Só tenho pena é de que o síndroma ataque desta forma devastadora um blogue que, em geral, até se pode ler.

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