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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Reflexãozinha a 100 à hora

Diz-se com frequência que ler expande os horizontes. Que permite tomar consciência de mais mundo para além das limitações da vida de cada um. Que amplifica a capacidade empática, ou a inteligência, ou o potencial de raciocínio. Que, em suma, torna os leitores não necessariamente melhores que os não leitores, mas melhores do que eles próprios seriam se não o fossem.

De uma forma geral, tenho poucas dúvidas de que isto é verdade. E no entanto...

E no entanto tenho vindo a reparar com cada vez maior insistência quão limitados são aqueles que só leem uma coisa, seja essa coisa ficção "literária" ou ficção científica, fantasia urbana ou poesia, relatórios parlamentares ou banda desenhada, textos religiosos ou o manifesto do partido comunista. Quão incapazes eles se mostram tantas vezes de sair dos sulcos que as suas mentes percorrem uma e outra vez e outra ainda, sulcos tantas vezes aprofundados com o aparentemente irrefutável argumento de que "eu li". De que "está escrito". Como se estar escrito contivesse alguma espécie de taumaturgia, como se texto fosse sinónimo de sacro.

Como se ler só uma coisa, ou primordialmente uma coisa só, contraísse os horizontes. Como se reduzisse a empatia, a inteligência, o raciocínio. Como se esse tipo de leitura de foco estreito tivesse o efeito contrário ao que se diz que a leitura, em geral, possui.

Provavelmente é só impressão. Provavelmente, ela até expande os horizontes, embora não tanto como poderia expandir. Talvez amplifique empatias, inteligências e raciocínios, mas menos do que seria possível, ou até desejável.

Ou então, a explicação é outra, e não é a leitura a limitar os leitores, mas as limitações intrínsecas dos leitores a limitar as leituras. Se calhar é mais isso.

sábado, 22 de junho de 2013

Quando as coisas correm bem

Quando as coisas correm bem é fácil fechar os olhos. É fácil cuidar da vida, fingir que não se vê o que se passa à volta. É fácil encolher os ombros sempre que alguém mente, que alguém engana. Pois que minta. Que engane. Quero lá saber; as coisas correm bem.

Quando as coisas correm bem é fácil iludirmo-nos, julgando que os vigaristas não nos prejudicam, imaginando que não vale a pena insurgirmo-nos porque os aldrabões, no fundo, nem estão a causar um mal assim tão grande como isso.

Como poderiam causá-lo, se as coisas correm bem?

Só que, mais tarde ou mais cedo, as coisas deixam de correr bem. Nesse momento, torna-se difícil continuar de olhos fechados, porque o que se passa à volta nos invade a vida sem pedir licença. Nesse momento, os ombros deixam de se deixar encolher perante os mentirosos e os enganadores. Pelo contrário, os punhos cerram-se, os dentes rangem, e da boca sai a verdade aos gritos.

Quando as coisas deixam de correr bem, as ilusões estilhaçam-se, e sente-se na carne cada golpe que os vigaristas nos infligem, cada murro que os aldrabões nos dão. Não nos insurgirmos deixa de ser uma opção, a menos que sejamos cobardes, que não tenhamos coragem, que sejamos uns vermes sem espinha nem músculo.

Quando as coisas correm bem é fácil manter a civilidade tolerante com quem não vale nada. Quando deixam de correr, a tolerância esfuma-se como o fumo de um cigarro numa ventania.

Quando as coisas correm mal é urgente apontar. Tu, sim, tu, és um mentiroso. Um vigarista. Passaste a vida a mentir e queres continuar a mentir. Roubaste e continuas a roubar. Iludiste quem se quis deixar iludir e quem não é capaz de te ver como és, e estás a fazer tudo para continuar a passar despercebido entre os pingos de chuva, enquanto à tua volta o mundo desmorona debaixo dos pés de quem vale infinitamente mais que tu. Mas eu, porra, olha bem para a minha cara, eu não vou deixar. Vou apontar-te na rua e gritar a plenos pulmões ali vai um canalha. Ali vai um suíno em forma humana. Ali vai alguém que não vale o ar que respira. Vejam-no bem, não esqueçam aquela cara de falsário. Aquela coisa mentiu-vos. Aldrabou-vos. Roubou-vos. Assaltou-vos o corpo e o espírito, a casa e as ideias. Levou-vos a assumir culpas que não vos cabem. Empurrou-vos para precipícios que não merecem. Olhem-no bem. Aquela é a cara da vossa desgraça. Mas não é a única. Ali vai outro. Tu, sim, tu, não te faças desentendido. Tu és um aldrabão. Um gatuno. Uma besta. Um filho de uma vaca comida pelas pulgas.

Quando as coisas correm bem, é fácil ser-se cortês mesmo com quem não merece tal cortesia. De barriga cheia, é fácil manter a polidez. Mas chega um dia em que o excesso de canalhice leva as coisas a correr mal.

Desse dia em diante, puta que pariu todos os canalhas.

Porque é esse dia o momento de gritar BASTA!

sábado, 15 de maio de 2010

Hábitos de leitura

Anda por aí um meme giro, até mesmo útil, essencialmente para reforçar a ideia de que "o leitor" é coisa que não existe: existem "os leitores", cada um com as suas próprias características, gostos e hábitos, todos procurando coisas diferentes na leitura. E eu sou mais um. É um questionário. E aqui têm as minhas respostas:

Petis­cas enquanto lês? Se sim, qual é o teu petisco favo­rito?

Normalmente, não. Mesmo não sendo propriamente daquelas pessoas que mal abrem os livros para não estragar a lombada, a ideia de andar a passar páginas com mãos empetiscadas não me atrai.

Mas se a situação se proporcionar, acontece. É raro, a atirar para o muito raro. Mas já tem acontecido.

Qual é a tua bebida pre­fe­rida enquanto lês?

No que toca à leitura, bebida é petisco. É tão raro beber enquanto leio que nem chego a ter uma bebida preferida.

Cos­tu­mas fazer ano­ta­ções enquanto lês, ou a ideia de escre­ver em livros horroriza-​te?

Anotações nos livros? Nunca. Nem mesmo quando andava a estudar as fazia. Afinal de contas, o gajo que inventou o bloco de notas fê-lo para alguma coisa. Ou o outro, o dos post-its. Quando é necessário tirar apontamentos, há alternativas muito melhores do que andar a estragar livros com rabiscos. Não é que me horrorize a ideia de escrever em livros, mas odeio ler livros sarrabiscados. Por mim, ou seja por quem for. De modo que não o faço.

Como é que mar­cas o local onde ficaste na lei­tura? Um mar­ca­dor de livros? Dobras o canto da página? Dei­xas o livro aberto?

Normalmente, marcador, ou algo de papel razoavelmente grosso que faça as vezes de marcador. Na sua ausência, se vou só ali deixo-o muitas vezes aberto (e virado para baixo, claro); se a paragem for mais demorada viro o cantinho à página. Se é livro que estou constantemente a consultar, uso muitas vezes algo volumoso, que o mantenha fácil de abrir no sítio certo: uma caneta, um canivete, algo assim. E os livros em processo de tradução ficam abertos com um vidro em cima. Mas as leituras normais são quase sempre marcadas com marcador.

Fic­ção, não-​ficção, ou ambos?

Em livro, fundamentalmente ficção. Online, fundamentalmente não-ficção. Acho que pesando o tempo gasto a ler uma e outra coisa, acabo por ler mais não-ficção do que ficção.

És do tipo de pes­soa que lê até ao final do capí­tulo, ou paras em qual­quer sítio?

Prefiro ler até ao fim do capítulo, sempre que possa. Quando não dá, tendo a procurar um marco qualquer: uma pausa, o primeiro parágrafo duma nova página, etc.

És lei­tor para ati­rar um livro para o outro lado da sala ou para o chão quando o autor te irrita?

Às vezes apetece mesmo. Mesmo. Mas não, nunca fiz isso. Ainda se o baque da queda servisse para baralhar as letras e as palavras e transformasse as porcarias que dão essa vontade em coisas legíveis...

Se te depa­ra­res com uma pala­vra des­co­nhe­cida, paras e vais pro­cu­rar o seu sig­ni­fi­cado?

Nem pensar nisso. Geralmente procuro entendê-las pelo contexto, e geralmente consigo. Só em casos muito particulares faço uma notazinha, quase sempre mental, e quando interrompo a leitura vou verificar. Não há melhor ginástica para a massazinha cinzenta do que raciocinar sobre palavras que não se entende às primeiras; sobre a sua construção, sobre o modo como são empregues, sobre a posição que ocupam nas frases, etc. Etimologia, sintaxe, essas coisas. Geralmente, isso é mais que suficiente para acrescentar uma palavra nova ao nosso repertório. E nos raros casos em que não é, esse raciocínio prévio ajuda sempre a compreender a palavra quando se vai enfiar o nariz no dicionário.

O que é que estás a ler actu­al­mente?

Estou a ler... deixa cá contar... um, dois, três... hum... onze livros, quase todos de contos. Mas o principal, aquele que mais tempo me ocupa, é a mais recente tradução. Estou em plena revisão. Quase, quase a acabar.

Qual foi o último livro que com­praste?

Os últimos livros que me chegaram a casa, muito aconchegadinhos um ao outro, foram duas antologias: Brinca Comigo! e E Outros Belos Contos de Natal.

Lês só um livro de cada vez, ou con­se­gues ler mais que um ao mesmo tempo?

Como já devem ter compreendido, leio muitos livros ao mesmo tempo. Quase todos livros de contos. Naqueles onze de que falei acima, só um é romance. Ou antes, dois: a tradução também é.

Tens um lugar/​altura do dia pre­fe­rido para ler?

Quando tenho tempo, não. Leio em qualquer sítio e em qualquer altura, desde que me apeteça.

Quando não tenho tempo, quando tenho os meus dias ocupados com trabalhos e coisas dessas, leio principalmente à noite, na caminha, antes de dormir. E no trono de porcelana.

Pre­fe­res livros incluí­dos em séries ou inde­pen­den­tes?

Prefiro livros independentes. As séries normalmente não me atraem.

Há exceções.

Existe algum livro ou autor espe­cí­fico que este­jas sem­pre a reco­men­dar?

Tendo a recomendar mais alguns, mas como sempre achei uma parvoíce fazer-se recomendações indiscriminadas, sem se tomar em conta as características, gostos e antecedentes da pessoa a que se faz a recomendação, não recomendo os mesmos livros a toda a gente. Há livros de que eu gostei muito e sei perfeitamente que não irão agradar à pessoa X ou Y, de modo que não os recomendo. Aqueles que recomendo mais são aqueles que me parecem suscetíveis de agradar a mais tipos diferentes de leitores e/ou de introduzir suavemente certos géneros a leitores que normalmente andam por outras paragens. Livros de FC mais literária, por exemplo. Fantasia com forte componente humana. Coisas dessas.

Como é que orga­ni­zas os teus livros?

Onde cabem, basicamente. Embora tenha aquelas coleções que têm os livros todos do mesmo tamanho organizadas por autores. E muitas vezes em fila dupla.

E pilhas de livros por toda a parte.

Pensando bem, olha, não os organizo.

domingo, 2 de janeiro de 2005

2005

Diz o Cachapa:

Ia escrever: "2005 não poderá ser pior", mas vêm-me à memória as imagens trágicas em directo dos paraísos para ocidentais. E todas as certezas caem por terra. Mesmo as que se referem à importância das coisas que por aqui se discutem. Todos os sobreviventes do maremoto diziam "estou vivo e isso é que interessa". Que nos fique a lição para o ano que começa.


Não podia estar mais de acordo.

Mas, por outro lado, quando paramos de tentar alcançar algo mais, paramos de ser humanos. A insatisfação com o presente é uma das mais importantes coisas que nos mantém de pé. No momento em que a vida é posta em causa, é ela a coisa mais importante, mas assim que a ameaça passa um pouco outras coisas surgem no topo das prioridades. A dignidade. A justiça. O futuro. O modo como seremos lembrados - e se seremos lembrados - quando a vida se nos esgotar. Essas coisas.

Então, se calhar, e afinal de contas, concordo discordando...

sábado, 31 de maio de 2003

Feira do livro

Anda aí um sururu do caraças porque parece que abriram por aí umas feiras do livro. O meu hemisfério esquerdo, solidário, esquerdista, e etc., acha óptimo, porque o sururu dá promoção às feiras, logo à venda de livros, logo à leitura, e isso é bom para desentorpecer neurónios demasiado habituados à televisão. Mas o hemisfério direito, um chato cínico e egoísta, como bom direitista, tá-se positivamente cagando e pergunta-me para que me servirão as feiras a 300 e 700 quilómetros de distância, mais coisa, menos coisa...

Tenho de concordar com os dois, infelizmente...