domingo, 17 de outubro de 2004

Spam fiction (10)

Uma coisa que nunca te direi


Baseado num spam intitulado "Do you remember me?"


— Não quero trocar fluidos com ninguém! — explodiu a toupeira-furadora enquanto se afastava do cruzamernto o mais depressa que conseguia, fazendo ecoar fantasmas do grito (ninguém-guém-ém) nas paredes do túnel.
A outra toupeira-furadora ficou parada, a ouvir. Pareceu-lhe conhecer aquela voz, mas colheitas e colheitas de vida solitária na vastidão dos túneis enchiam-lhe o cérebro traseiro de dúvidas. Não conseguia ter a certeza.
Esta segunda toupeira-furadora tinha, no entanto, uma característica que a distinguia da maior parte das outras toupeiras-furadoras e que levava todas as que a conheciam a evitá-la. Não que fosse invulgar que uma toupeira-furadora evitasse tanto quanto possível os outros membros da sua espécie, bem pelo contrário, mas no caso específico daquela, as toupeiras-furadoras que a conheciam punham um pouco mais de empenho nesse afastamento, chegando algumas ao ponto de fazer grandes desvios por túneis desconhecidos assim que as respectivas terceiras patas detectavam no chão dos túneis um odor que lembrasse vagamente o seu.
Não, não cheirava mal, ou pelo menos não punha nos túneis um cheiro pior que o das restantes toupeiras-furadoras. Tampouco cheirava desagradavelmente bem, empestando as zonas de trânsito, trabalho e descanso de cheiros enjoativos de tão agradáveis. Não era uma questão de cheiros.
Esta toupeira-furadora tinha o pior defeito conhecido na espécie: era curiosa.
Ou, na versão de todas as outras, era metediça.
Por isso não supreendeu ninguém (ou pelo menos não supreenderia ninguém, se alguém ali estivesse a assistir) que ela, em vez de sacudir o telson numa aprovação da atitude insociável da outra toupeira-furadora e de enveredar por outro túnel qualquer (naquele cruzamento juntavam-se cinco), tivesse esgravatado durante algum tempo o chão com as terceiras patas e depois tivesse resolvido enfiar o seu longo corpo pelo mesmo túnel da outra toupeira-furadora.
Aquela voz parecia-lhe conhecida. Ah, sim, parecia conhecida. E o cheiro, mais ainda.

Antes de ir mais longe, talvez convenha esclarecer que as toupeiras-furadoras não possuem nomes, uma vez que deles não necessitam para viver as suas vidas solitárias. Não só raramente se encontram, como quando o fazem o habitual é passarem a maior parte do tempo a trocar fluidos e o mínimo indispensável de tempo extra a trocar informações, num sistema de comunicação que é mais uma sucessão de dois monólogos do que propriamente uma conversa e onde nada é dito acerca de outras toupeiras-furadoras específicas, antes se fala sobre acontecimentos gerais, ou em acontecimentos particulares mas sem nunca mencionar os seus protagonistas. Diz-se que nasceu uma nova toupeira-furadora no sector xis, ou que foi descoberta uma nova camada de raízes no sector ípslon, mas nada é dito sobre quem esteve envolvido em cada um destes acontecimentos. A protecção da privacidade é encarada muito a sério. E uma reunião de mais de dois indivíduos é coisa nunca vista.
Quase tão inédito é acontecer encontros sucessivos entre duas toupeiras-furadoras. Quando duas se encontram, tratam da troca de fluidos o mais depressa que são capazes, despacham a conversa em dois tempos e depois separam-se sem se despedirem, cada uma segue o seu caminho por túneis diferentes, e passam ambas a evitar-se uma à outra com maior afinco do que o que utilizam para evitar as demais. É como se a troca de fluidos as repugnasse tanto que não conseguissem sequer imaginar a ideia de voltar a encontrar-se, ou como se ficassem submersas em vergonha por ter baixado a guarda o suficiente para dar de caras (é força de expressão) com outro indivíduo da mesma espécie e fizessem o possível para evitar até a memória de tal acontecimento.
Por tudo isto, como logicamente se deduz, a nossa e curiosa toupeira-furadora não possuía um nome. Mas esse facto causa dificuldades à elaboração de um texto acerca dela, texto esse destinado a ser lido por membros de uma determinada espécie de primatas originários do planeta Terra, para os quais o nome é uma condição inseparável da individualidade, e que são incapazes de conceber um mundo desprovido destes sinais convencionais de identificação. Nestas condições há duas hipóteses: pode-se procurar por todos os meios identificar a toupeira-furadora sem o recurso a um nome, usando malabarismos linguísticos cada vez mais complicados e artificiais e nem sempre fáceis de gerir, ou pode-se atrabuir-lhe um nome qualquer, arbitrário ou baseado nas suas características, por uma questão de comodidade. Poderia ficar Curiosa, por exemplo. Ou Gertrudes. Ou Minhoca-de-Vinte-Patas. Qualquer coisa.
Há situações em que a escolha entre estas duas opções é complicada, causa suficiente para um longo processo de avaliação de pesos e contrapesos. Mas neste caso, trata-se apenas de um pequeno conto escrito por um obscuro rapazola que se convenceu um dia de que aquilo que escrevia poderia, talvez, vir a ter algum interesse para alguém mas que bem lá no fundo não acredita nisso. Portanto, em cinco segundos a decisão estava tomada.

Gertrudes, a toupeira-furadora, curiosa por ter encontrado um cheiro e uma voz que causavam ressonâncias na sua memória, pôs-se a perseguir a minhoca-furadora dona desse cheiro e dessa voz. Chamemos-lhe Genoveva. A perseguição foi demorada, não só porque as minhocas-furadoras não são propriamente conhecidas pela sua rapidez, mas também porque Genoveva se movimentava quase à velocidade máxima que as suas vinte curtas patas permitiam.
Enquanto fugia — porque era precisamente isso que aquela correria toda era -, Genoveva tinha ambos os cérebros presos num ciclo contínuo em que recordava a visão súbita da cabeça de Gertrudes a emergir do túnel por onde planeava seguir, o susto, o grito que soltara por instinto, os primeiros metros da corrida, tudo intercalado com velhas e nebulosas memórias que a informavam de que não era a primeira vez que contactava com aquela toupeira-furadora, e de que esse primeiro contacto se perdia na sua juventude, que ela achava longínqua, numa época em que os túneis ainda eram coisas gigantescas, espaços amplos cobertos por tectos que mal se veriam não fosse a fosforescência dos fungos que cresciam nas paredes.
Genoveva, claro, não tentou aprofundar essas recordações. Eram apenas um mecanismo automático que servia para manter a fuga durante o tempo e o espaço considerados convenientes para tornar altamente improvável que o contacto acabasse por acontecer e que pouco dependia da sua vontade consciente. Além disso, e ao contrário de Gertrudes, Genoveva não era metediça.
Por isso, quando dobrou uma curva no túnel e à sua frente apareceu de súbito um conjunto de raízes maduras pendentes do tecto, ao qual chegava agora com a maior das facilidades (na verdade, raspava por ele com o dorso nas passagens mais apertadas — era uma toupeira-furadora bastante grande), o ciclo mental de fuga foi quebrado por uma avassaladora sensação de fome e não mostrou qualquer sinal de ter reparado no desvanecimento das recordações ligadas à toupeira-furadora que encontrara mais atrás. A verdade é que a esqueceu por completo e a todos os acontecimentos relacionados com ela, reajustando o seu mundo interno a uma paisagem plácida de movimentos lentos e progressivos através dos túneis, e dedicou-se à sua actividade favorita: comer.

Para Gertrudes, o mesmo caminho foi um passeio bastante mais calmo. Por um lado, era uma toupeira-furadora mais velha e naturalmente mais lenta, e possuía duas patas que lhe doíam sempre que as mexia e que lhe quebravam o ritmo aos passos. Por outro lado, sempre que se aproximava de uma intersecção de túneis, o que acontecia com alguma frequência, apesar de os grandes entroncamentos serem raros, tinha de parar, esgravatar o solo com as terceiras patas para descobrir o túnel por onde a outra toupeira-furadora enveredara, e combater a vontade de investigar todos os outros cheiros que lhe despertavam curiosidades e, às vezes, velhas memórias, antes de se pôr de novo em movimento. Por outro lado ainda, mesmo na relativa uniformidade dos troços de túnel desprovidos de ramificações, surgia com freequência qualquer coisa que a distraía do seu objectivo, e passava-se algum tempo até que lograsse recolocar o seu confuso cérebro na trilha de Genoveva. Ainda por outro lado, o último, por vezes deixava-se submergir tão completamente em recordações e especulações acerca do cheiro e da voz da outra toupeira-furadora que acabava por não se dar conta dos acidentes de percurso, e tropeçava em pedras ou raízes expostas, ou esbarrava em paredes que curvavam, atrapalhando a sua tendência natural de seguir em frente, ou deixava passar cruzamentos e avançava por túneis errados, às vezes durante algum tempo, o que a forçava a voltar para trás, às arrecuas, fazendo uso do telson como segunda cabeça, modo de locomoção bem menos eficiente e seguro.
Passou-se, por isso, bastante tempo até Gertrudes começar a sentir uma intensificação significativa na frescura do cheiro a Genoveva que a vinha chamando atrtavés dos túneis. Na verdade, passou-se tanto tempo que foi obrigada a parar por duas vezes para recuperação fisiológica e mais quatro para mordiscar velhas raízes que se espetavam das paredes laterais do túnel, alimento que não era propriamente delicioso mas teria de servir à falta das raízes frescas, penduradas do tecto, que constituíam o principal acepipe existente naquela área.
Mas acabou por acontecer. Com a paragem de Genoveva, o seu esquecimento do encontro com Gertrudes, o seu regresso à rotina preguiçosa da sua vida, Gertrudes acabou por começar a ganhar-lhe terreno. E quanto mais próxima estava Gertrudes de Genoveva mais fresco era o cheiro, mais fácil era seguir o rasto que ele criava, menos Gertrudes se distraía com outros estímulos e mais rápida se tornava a aproximação da toupeira-furadora que perseguia à toupeira-furadora que era perseguida. Se a curiosidade da toupeira-furadora e a cultura do seu povo fossem suficientes para chegar a dados tão sofisticados, facilmente teria Gertrudes chegado à conclusão de que estava envolvida num ciclo de retroalimentação positiva. E não era só na eficiência da perseguição que se poderia detectar esse ciclo. Também a curiosidade que sentia pela outra toupeira-furadora estava aser retroalimentada com mais intensidade, e até a memória era estimulada da mesma forma. Era como se o problema de quem, realmente, era aquela toupeira-furadora, possuidora de uma voz e de um cheiro tão familiares fosse a pouco e pouco sobrepujando todos os outros pequenos problemas que ocupam a vida quotidiana de uma toupeira-furadora. Era como se Genoveva andasse pelos túneis cada vez mais depressa e com cada vez maior segurança, presa num ciclo mental que perguntava uma e outra vez "Quem és tu? Quem és tu?"
Há perguntas que não têm resposta. A outras não é possível dar uma resposta com toda a certeza. Outras têm mais do que uma resposta provável. E é impossível saber à partida a que categoria pertence a maior parte das perguntas, antes é necessário ficar à espera que algo ou alguém tente responder-lhes. É até frequente que a mesma pergunta salte de categoria em categoria consoante as novidades que cada lugar do tempo traz consigo. Tudo isto é verdade quer no nosso mundo de macacos sabichões, quer no mundo subterrâneo das toupeiras-furadoras, embora estas sejam bastante menos sabedoras das coisas do universo exterior aos seus buracos do que nós (que, por outro lado, sabemos muito pouco do mundo interior aos seus buracos).
A pergunta de Genoveva, a princípio, pertencia ao grupo das perguntas sem resposta. A resposta tradicional da sua espécie a este tipo de perguntas é, como já terão compreendido, esquecê-las, ignorá-las, fingir que não existem, procurar conforto naquilo que já conhecem ou julgam conhecer, ocupar-se com outras coisas. Mas Genoveva era diferente. Metediça. E por isso parecia que as perguntas sem resposta chamavam por si, especialmente se tinha a sensação, quase a certeza, de ter dentro de um qualquer dos seus dois cérebros exactamente a resposta que procurava. Era o caso. De cada vez que perguntava a si mesma "quem és tu?", era percorrida por uma corrente subterrânea, meio inconsciente, que lhe fornecia um indício de resposta: "eu sei quem tu és". Mas era um saber sem forma, uma coisa ectoplásmica feita de impressões vagas como o espaço vazio entre os planetas. Um quase nada sem substância.
Só quando Genoveva finalmente olhou em frente e viu o telson adormecido da outra toupeira-furadora, as memórias dispersas se começaram a juntar e a formar um fio condutor, uma espécie de túnel entre a porção consciente dos seus cérebros e as zonas onde as memórias antigas dormiam o seu sono solto e, geralmente, eterno. Só então, parada, a escutar o murmúrio que Gertrudes fazia nos seus sonhos e a vasculhar com as terceiras patas todo o cheiro que era capaz de retirar do solo se começou a lembrar.
Antes de tempos vêm tempos e antes deles outros tempos. E na vida das toupeiras-furadoras a cada tempo corresponde um ciclo que começa num encontro e termina no seguinte ou, o que é dizer o mesmo, a vida das toupeiras-furadoras é determinada pelas ocasiões em que trocam fluidos. Não é uma medida rígida como os nossos anos, horas e minutos, não é determinada por ritmos naturais cuja duração muda tão lentamente que parece imutável. Em mundos subterâneos não existem dias e no planeta das toupeiras-furadoras nem sequer as estações sugerem que talvez haja ritmos mais subtis do que a evidente sucessão da claridade e escuridão. Para elas, só os encontros são capazes de pontuar com novidade o fluxo monótono do tempo. Por vezes, muitas vezes mesmo, dessas trocas de fluidos surge nova vida e ficam então conhecidas como trocas grandes; outras vezes nada acontece para além da simples troca de novidades, e essas são as pequenas trocas. A vida que nasce das trocas grades é autónoma quase desde que começa, mas fica sempre nela qualquer coisa da outra vida que lhe deu vida. Um subtil subtom no tom de voz. Uma componente quase imperceptível no cheiro corporal. Coisas assim, subtis e pouco claras, só descortináveis por muito poucas toupeiras-furadoras.
Muito tempo antes, a toupeira-furadora a que chamámos Genoveva tivera uma certa troca grande. Fora oito trocas grandes antes, para sermos mais precisos. E dessa troca grande nascera a toupeira-furadora a que chamámos Gertrudes.
Foi isso que Genoveva descobriu, e foi isso que fez com que tivesse ficado ficou imóvel e silenciosa, a observar a sua filha. Primeiro a dormir, depois a acordar, a comer durante algum tempo e a ir-se embora, túnel adentro, sem chegar a dar-se conta de que tivera a mãe muito próxima de si. E durante todo aquele tempo, pensava, absorvida nessa ideia fixa como é hábito da sua espécie, que ali tinha uma vida que nascera da sua vida mas que nunca lhe diria nada sobre isso. Para quê? De que serviria? E como lhe poderia transmitir essa informação, visto que na sua espécie a comunicação era uma questão acessória da troca de fluidos?
Mas a sensação era estranha. Uma espécie de confusão maravilhada ou de maravilhamento confuso, uma coisa assim. Ali, na sua frente, estava uma grande toupeira-furadora que nascera apenas porque ela própria passara pelos túneis. Que se poderia sentir em casos desses?
Ficou ainda muito tempo imóvel, a matutar neste problema. Mas por fim trincou a uma das primeiras patas em sinal de indiferença: não eram estas perguntas sem resposta que a iriam alimentar.
Uma coisa, no entanto, era certa: não iria prosseguir o seu caminho pelo túnel por onde seguira a sua filha. Então, verificou a consistência da parede da esquerda e saboreou-a, verificou a consistência e saboreou a parede da direita, comparou uma e a outra e pôs-se a escavar um novo túnel na parede da esquerda. Tinha a certeza de que por ali, não muito longe e um pouco mais acima, iria encontrar raízes saborosas, e os três estômagos contorciam-se-lhe com a fome.
Não passou muito tempo até encontrar as raízes, e pôs-se de imediato a mastigá-las. Não demorou muito mais até esquecer-se da perseguição e da descoberta que se lhe seguiu, guardando tudo naquela zona adormecida dos seus cérebros onde ficam guardadas as recordações que não serão necessárias durante muito tempo. E não muito depois foi a sua vez de adormecer, ainda com um resto de raiz preso entre as placas trituradoras.
Afinal, estava muito cansada. Não sabia era porquê.

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