Há dias de tudo e mais umas botas por aí, já toda a gente sabe. Mas os dias relacionados com o livro parecem concentrar-se nesta altura do início da primavera do hemisfério norte, entre finais de março e todo o mês de abril. Hoje, 30 de março, é o dia do livro independente.
É uma iniciativa recente e razoavelmente oficiosa, nascida na Alemanha em 2013, mas parece-me interessante, apesar de haver alguma dificuldade em definir ao certo o que é um livro independente. Eles parecem adotar a versão mais lata, a de que livro independente é o livro editado por qualquer entidade que não faça parte de um grande grupo editorial, o que provavelmente vai das edições de autor a editoras estabelecidas e com anos de atividade como as portuguesas Saída de Emergência e Colibri ou a brasileira Draco, passando muito provavelmente pelas vanities (coisa de que a Colibri em certas ocasiões se aproxima, a bem dizer). São coisas muito, muito diferentes umas das outras, mas parece ser esse o âmbito que eles lhe dão.
Como não tenho tempo, influência e, francamente, paciência para tentar restringir um pouco mais o âmbito à coisa (se tivesse, a primeira coisa que faria seria excluir as vanities), pois que seja.
Mas isso quer dizer que toda a minha atividade literária tem sido feita no circuito independente, tanto as traduções como as edições de originais. E não tenho nenhum problema com isso, bem pelo contrário.
No entanto, a minha edição mais independente de todas é mesmo esta:
Foi tudo feito por mim, à parte a impressão propriamente dita. Mais independente do que isto, só mesmo tendo uma maquineta para imprimir livros.
E ainda há alguns exemplares por aqui. Querem um?
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sábado, 30 de março de 2019
domingo, 3 de janeiro de 2016
PDF de Improbabilidades de Fecho já disponível
Conforme prometi no post em que dava conta do infinitamente provável fim do Infinitamente Improvável, a última (provavelmente) publicação deste e-zine seria uma versão em PDF da derradeira antologia que reúne os contos lá publicados, Improbabilidades de Fecho. Avisei nesse post que, como a paginação de um PDF é mais minuciosa do que a de um ficheiro preparado para e-readers, esta versão ainda demoraria algum tempo a ficar pronta. Pensava então em uma semana, mais coisa menos coisa; acabaram por ser só quatro dias.
Quem quiser regalar-se com 286 páginas de contos e comentários em PDF pode, portanto, dirigir-se ao sítio do costume, onde além dos habituais links para as versões em EPUB e em MOBI tem também um terceiro link para a versão em PDF. Só para esta antologia, claro; não faria sentido fazê-lo também para as duas primeiras, visto que o conteúdo delas está (quase) integralmente incluído nesta.
Apetece resmungar um bocado contra esta coisa de se ter sempre de preparar várias versões para cada ebook por não haver um formato realmente standard e generalizado que seja legível em todos os sistemas, mas vou deixar isso para outra ocasião.
E pronto, agora é que é. O Infinitamente Improvável fechou.
Provavelmente.
Quem quiser regalar-se com 286 páginas de contos e comentários em PDF pode, portanto, dirigir-se ao sítio do costume, onde além dos habituais links para as versões em EPUB e em MOBI tem também um terceiro link para a versão em PDF. Só para esta antologia, claro; não faria sentido fazê-lo também para as duas primeiras, visto que o conteúdo delas está (quase) integralmente incluído nesta.
Apetece resmungar um bocado contra esta coisa de se ter sempre de preparar várias versões para cada ebook por não haver um formato realmente standard e generalizado que seja legível em todos os sistemas, mas vou deixar isso para outra ocasião.
E pronto, agora é que é. O Infinitamente Improvável fechou.
Provavelmente.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
O infinitamente provável fim do Infinitamente Improvável
Como escrevi no texto que serve de prefácio ao ebook cuja capa está aqui ao lado, o Infinitamente Improvável foi um glorioso fracasso. Mas um glorioso fracasso que, apesar de o ser, teve o mérito de dar vazão a um número razoável de histórias que me deu muito gozo publicar. Isso chega?
Não, no caso deste projeto não acho que chegue, mesmo tendo em conta que sem ele, e sem algumas das histórias que nele foram publicadas e talvez tenham sido, ou talvez não, escritas de propósito, parte desta ficção nunca teria chegado a existir. Não chega porque o objetivo principal do projeto não foi alcançado, longe disso. Não chega, portanto, para evitar que considere o projeto um fracasso, embora chegue para achar que tinha a obrigação de lhe dar um fim condigno em vez de o deixar morrer simplesmente por falta de comparência como tantas vezes acontece na web.
Foi isso mesmo que fiz agora, com a publicação de duas últimas histórias e a compilação de todas as histórias publicadas enquanto o II se manteve vivo nesta derradeira antologia, acompanhadas por comentários individualizados, sempre que a extensão da história ultrapassa a vinheta, ou mais genéricos quando não.
São ao todo 29 contos, que decidi subdividir em 5 grupos, e 19 textos introdutórios em que procuro contextualizar o projeto e as histórias propriamente ditas, tanto nele como fora dele. Tudo isso foi compilado num ebook, disponível aqui, em duas versões, EPUB e MOBI (esta última é a que se usa no kindle, caso não saibam). Planeio ainda fazer uma versão em PDF, mas essa exige uma paginação mais minuciosa e ainda demorará algum tempo a ficar pronta. Avisarei quando ficar e será essa a última publicação do Infinitamente Improvável.
Ou por outra, é infinitamente provável que o seja, que nestas coisas do II nunca se pode dar certezas de nada. Foi giro enquanto durou e, na infinita improbabilidade de continuar a durar, giro continuará a ser.
Não, no caso deste projeto não acho que chegue, mesmo tendo em conta que sem ele, e sem algumas das histórias que nele foram publicadas e talvez tenham sido, ou talvez não, escritas de propósito, parte desta ficção nunca teria chegado a existir. Não chega porque o objetivo principal do projeto não foi alcançado, longe disso. Não chega, portanto, para evitar que considere o projeto um fracasso, embora chegue para achar que tinha a obrigação de lhe dar um fim condigno em vez de o deixar morrer simplesmente por falta de comparência como tantas vezes acontece na web.
Foi isso mesmo que fiz agora, com a publicação de duas últimas histórias e a compilação de todas as histórias publicadas enquanto o II se manteve vivo nesta derradeira antologia, acompanhadas por comentários individualizados, sempre que a extensão da história ultrapassa a vinheta, ou mais genéricos quando não.
São ao todo 29 contos, que decidi subdividir em 5 grupos, e 19 textos introdutórios em que procuro contextualizar o projeto e as histórias propriamente ditas, tanto nele como fora dele. Tudo isso foi compilado num ebook, disponível aqui, em duas versões, EPUB e MOBI (esta última é a que se usa no kindle, caso não saibam). Planeio ainda fazer uma versão em PDF, mas essa exige uma paginação mais minuciosa e ainda demorará algum tempo a ficar pronta. Avisarei quando ficar e será essa a última publicação do Infinitamente Improvável.
Ou por outra, é infinitamente provável que o seja, que nestas coisas do II nunca se pode dar certezas de nada. Foi giro enquanto durou e, na infinita improbabilidade de continuar a durar, giro continuará a ser.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, o livro
Quem acompanhou a série sobre edição que vim publicando aqui na Lâmpada nos últimos tempos, terá possivelmente reparado nas fotos que a ilustraram. Todas, com a única exceção da que ilustra a página de índice, são fotografias de pormenores de páginas, capa, lombada, de um livro novo. Chama-se Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, é romance, é meu, e a capa é esta:
Fazer esta edição em papel é um projeto já antigo, que deveria ter acontecido logo em 2008 mas, por uma série de vicissitudes, não avançou. Entretanto, foi-se passando o tempo, foram acontecendo coisas e, estranhamente, o livrinho foi ganhando cada dia mais atualidade mesmo que algumas das suas personagens subliminares tenham dado lugar a outras. Por isso mesmo, ao longo do verão passado, ao mesmo tempo que tive tempo para amadurecer as últimas ideias que vieram a desembocar na tal série sobre edição, tive-o também para me deixar de adiamentos, fazer uma última revisão global ao romance, desarrincar uma capa (que em papel é menos berrante do que aqui parece, embora o tema do livro calhe bem com uma capa berrante) e mandar imprimir uns quantos exemplares. A ideia era ter tudo pronto para o lançar no aniversário do meu velhote, a 30 de novembro, mas porque a vida me correu melhor do que estava à espera (não contava ter trabalho, e tive), não consegui preparar as coisas a tempo.
Tenho-as agora preparadas. E por isso apresento agora o livro a quem o quiser. Não é a altura ideal (loge disso, na verdade), mas foi a que se pôde arranjar. Fica a lição para o futuro: há que preparar as coisas com mais antecedência ainda.
Mas falemos do livro em si.
Como a capa diz, trata-se de uma sátira com cientistas loucos, extraterrestres drogados, políticos histéricos e pelo menos uma gaja boa. A contracapa tem elogios (inteiramente genuínos... coff coff...) ao autor e à obra. E o miolo tem o que foi publicado em 2007 e 2008 no blogue respetivo, que agora reabre como central de informações sobre a edição física, mas numa versão melhorada e ligeiramente ampliada, atualizada e acrescentada. Melhorada porque foram assassinadas implacavelmente dezenas de gralhas e foram reescritos parágrafos inteiros, que na versão primitiva estavam algo... primitivos. Atualizada porque a ortografia agora é outra. Acrescentada porque o livro em papel contém também uma breve introdução que explica a génese da coisa e um posfácio que faz parte integrante do todo mas nunca tinha sido publicado.
Quem quiser divulgá-lo tem lá no site uma sinopse (onde diz "sinopse", sim) e mais uma série de informações úteis também para quem quiser lê-lo. Mas vou acrescentar aqui mais uma:
Este livro é o primeiro que publicarei desta forma, mas não será o último. E pretendo fazer com eles outras formas de personalização, além das descritas no site do livro. Para já, são aquelas. Mas de futuro planeio descontos no segundo livro para quem comprou o primeiro, por exemplo. Concurso de melhor foto de leitor-com-livro com o segundo livro como prémio, por exemplo. Coisas dessas.
De hoje em diante, pretendo pôr cá fora, no mínimo, um livro por ano. É, entre outras coisas, uma forma de traçar um objetivo claro para a produção de ficção, embora nem todos os livros que tenciono lançar sejam de ficção. E embora esse objetivo seja uma média; pode haver anos em que publico dois livros, ou até três, pode haver anos em que não publico nenhum. E nem todos, espero, serão publicados desta forma.
Mas vou esforçar-me para estar bastante mais presente do que tenho estado até aqui, com lançamentos regulares de novidades. É uma promessa que faço a quem gosta do que eu escrevo. Eu sei que andam aí uns quantos.
Fazer esta edição em papel é um projeto já antigo, que deveria ter acontecido logo em 2008 mas, por uma série de vicissitudes, não avançou. Entretanto, foi-se passando o tempo, foram acontecendo coisas e, estranhamente, o livrinho foi ganhando cada dia mais atualidade mesmo que algumas das suas personagens subliminares tenham dado lugar a outras. Por isso mesmo, ao longo do verão passado, ao mesmo tempo que tive tempo para amadurecer as últimas ideias que vieram a desembocar na tal série sobre edição, tive-o também para me deixar de adiamentos, fazer uma última revisão global ao romance, desarrincar uma capa (que em papel é menos berrante do que aqui parece, embora o tema do livro calhe bem com uma capa berrante) e mandar imprimir uns quantos exemplares. A ideia era ter tudo pronto para o lançar no aniversário do meu velhote, a 30 de novembro, mas porque a vida me correu melhor do que estava à espera (não contava ter trabalho, e tive), não consegui preparar as coisas a tempo.
Tenho-as agora preparadas. E por isso apresento agora o livro a quem o quiser. Não é a altura ideal (loge disso, na verdade), mas foi a que se pôde arranjar. Fica a lição para o futuro: há que preparar as coisas com mais antecedência ainda.
Mas falemos do livro em si.
Como a capa diz, trata-se de uma sátira com cientistas loucos, extraterrestres drogados, políticos histéricos e pelo menos uma gaja boa. A contracapa tem elogios (inteiramente genuínos... coff coff...) ao autor e à obra. E o miolo tem o que foi publicado em 2007 e 2008 no blogue respetivo, que agora reabre como central de informações sobre a edição física, mas numa versão melhorada e ligeiramente ampliada, atualizada e acrescentada. Melhorada porque foram assassinadas implacavelmente dezenas de gralhas e foram reescritos parágrafos inteiros, que na versão primitiva estavam algo... primitivos. Atualizada porque a ortografia agora é outra. Acrescentada porque o livro em papel contém também uma breve introdução que explica a génese da coisa e um posfácio que faz parte integrante do todo mas nunca tinha sido publicado.
Quem quiser divulgá-lo tem lá no site uma sinopse (onde diz "sinopse", sim) e mais uma série de informações úteis também para quem quiser lê-lo. Mas vou acrescentar aqui mais uma:
Este livro é o primeiro que publicarei desta forma, mas não será o último. E pretendo fazer com eles outras formas de personalização, além das descritas no site do livro. Para já, são aquelas. Mas de futuro planeio descontos no segundo livro para quem comprou o primeiro, por exemplo. Concurso de melhor foto de leitor-com-livro com o segundo livro como prémio, por exemplo. Coisas dessas.
De hoje em diante, pretendo pôr cá fora, no mínimo, um livro por ano. É, entre outras coisas, uma forma de traçar um objetivo claro para a produção de ficção, embora nem todos os livros que tenciono lançar sejam de ficção. E embora esse objetivo seja uma média; pode haver anos em que publico dois livros, ou até três, pode haver anos em que não publico nenhum. E nem todos, espero, serão publicados desta forma.
Mas vou esforçar-me para estar bastante mais presente do que tenho estado até aqui, com lançamentos regulares de novidades. É uma promessa que faço a quem gosta do que eu escrevo. Eu sei que andam aí uns quantos.
sábado, 10 de agosto de 2013
Desafio Improvável à Urbe e à Orbe
Atenção, atenção, cidadãos e cidadãs, oriundos de Seca e Meca, do gigantone ao meia-leca! Tenho um desafio a propor-vos. Um desafio, notem bem, com prémio junto.
Então, como costuma dizer-se, é assim:
Desafio-vos a inspirar-se em qualquer dos contos que publiquei no Infinitamente Improvável e, com base nele, escreverem outro conto infinitamente improvável. Depois, cliquem no ✉ que lá irão encontrar e enviem-no, de preferência indicando que conto vos inspirou (embora suponha que isso deva ser quase sempre bastante óbvio). O(s) vosso(s) conto(s) estará(ão) sujeito(s) às regras gerais da publicação no ezine, motivo pelo qual se aconselha vivamente a consulta deste último link, e todos os que me parecerem publicáveis sê-lo-ão. O número de contos por autor depende apenas da criatividade de cada um. No fim do prazo, de entre os publicados ou ainda não publicados mas já selecionados para publicação será escolhido um, e apenas um, para receber o prémio. O critério de seleção será o mais simples possível: aquele de que eu gostar mais.
O prémio é segredo. Não vos direi qual é. Digo-vos apenas que é um objeto físico com valor monetário.
Os contos que vos podem servir de inspiração são os seguintes:
Interessados? Então toca a escrever.
Então, como costuma dizer-se, é assim:
Desafio-vos a inspirar-se em qualquer dos contos que publiquei no Infinitamente Improvável e, com base nele, escreverem outro conto infinitamente improvável. Depois, cliquem no ✉ que lá irão encontrar e enviem-no, de preferência indicando que conto vos inspirou (embora suponha que isso deva ser quase sempre bastante óbvio). O(s) vosso(s) conto(s) estará(ão) sujeito(s) às regras gerais da publicação no ezine, motivo pelo qual se aconselha vivamente a consulta deste último link, e todos os que me parecerem publicáveis sê-lo-ão. O número de contos por autor depende apenas da criatividade de cada um. No fim do prazo, de entre os publicados ou ainda não publicados mas já selecionados para publicação será escolhido um, e apenas um, para receber o prémio. O critério de seleção será o mais simples possível: aquele de que eu gostar mais.
O prémio é segredo. Não vos direi qual é. Digo-vos apenas que é um objeto físico com valor monetário.
Os contos que vos podem servir de inspiração são os seguintes:
- A Injeção Financeira
- Pandorama
- Testemunhas
- Uma História Verdadeira, Segundo Quem a Contou
- Quem Quer Ser Super-Herói?
- À Porta de Tua Casa
- A Fome das Ratazanas
- A Ideia Peregrina
Interessados? Então toca a escrever.
sábado, 18 de maio de 2013
A fauna no Infinitamente Improvável
Tenho andado a reparar numa tendência curiosa no material que chega e acaba publicado no Infinitamente Improvável: há por lá bicharada a dar com um pau.
A culpa é em parte minha, claro. Não só sou eu quem diz se as histórias sim ou sopas, como fui eu a inaugurar a presença de animais no ezine, com as ovelhas de Testemunhas. As intenções, juro, foram as melhores. Mas depois disso reincidi, com os mosquitos hipertecnológicos de Uma História Verdadeira, Segundo Quem ma Contou e o peixinho de prata radioativo de Quem Quer Ser Super-Herói?, o que não só já foi algo mal intencionado como me põe em primeiro plano no alinhamento dos culpados. Admito-o sem problemas. Ou com problemas, mas sem reservas. Mesmo que antes tenha aparecido O Gafanhoto do Álvaro Holstein. Mesmo assim.
Mas mais recentemente, a invasão animalesca tem sido um fartote. Especialmente sob a forma de ratazanas, oh, as ratazanas!, mas não só. E a culpa é de quem? De quem é? Do Miguel Hernâni Guimarães e da sua A Crise das Ratazanas, claro está, que eu tive de seguir com A Fome das Ratazanas. Teve mesmo de ser. E preparem-se porque o próximo conto a ser publicado também traz desses simpáticos bicharocos.
E com tanto roedor, até pode passar despercebida A Truta, do José Eduardo Lopes. Mas não devia, que não é lá por ser o primeiro peixe que merece menos atenção.
Ou seja, ele é mamíferos, ele é insetos, ele é peixes. Que virá a seguir? Passarada? Lagartagem? Alforrecas?
Atendendo aos antecedentes, já nada me surpreenderá.
E daí... se calhar surpreende.
A culpa é em parte minha, claro. Não só sou eu quem diz se as histórias sim ou sopas, como fui eu a inaugurar a presença de animais no ezine, com as ovelhas de Testemunhas. As intenções, juro, foram as melhores. Mas depois disso reincidi, com os mosquitos hipertecnológicos de Uma História Verdadeira, Segundo Quem ma Contou e o peixinho de prata radioativo de Quem Quer Ser Super-Herói?, o que não só já foi algo mal intencionado como me põe em primeiro plano no alinhamento dos culpados. Admito-o sem problemas. Ou com problemas, mas sem reservas. Mesmo que antes tenha aparecido O Gafanhoto do Álvaro Holstein. Mesmo assim.
Mas mais recentemente, a invasão animalesca tem sido um fartote. Especialmente sob a forma de ratazanas, oh, as ratazanas!, mas não só. E a culpa é de quem? De quem é? Do Miguel Hernâni Guimarães e da sua A Crise das Ratazanas, claro está, que eu tive de seguir com A Fome das Ratazanas. Teve mesmo de ser. E preparem-se porque o próximo conto a ser publicado também traz desses simpáticos bicharocos.
E com tanto roedor, até pode passar despercebida A Truta, do José Eduardo Lopes. Mas não devia, que não é lá por ser o primeiro peixe que merece menos atenção.
Ou seja, ele é mamíferos, ele é insetos, ele é peixes. Que virá a seguir? Passarada? Lagartagem? Alforrecas?
Atendendo aos antecedentes, já nada me surpreenderá.
E daí... se calhar surpreende.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
O Infinitamente Improvável apresenta...
Sim, sim, bem sei que já passa da meia-noite. Mas não dormi ainda, portanto para mim ainda é ontem... digo... hoje, 23 de abril de 2013. Dia mundial do livro e do direito de autor. Dia ideal, portanto, e cá na minha forma irreverente de ver as coisas, para apresentar aos meus leitores lampadinos que não têm contacto comigo por outras vias (sim, porque para esses isto já nada tem de novidade) esta edição que veem aqui ao lado, gratuita, com os direitos regidos por uma licença creative commons: Improbabilidades de Tempo Chuvoso 2012/2013 de seu improvável título, uma compilação dos contos publicados no Infinitamente Improvável entre outubro de 2012 e março de 2013 e...
... e de um artigo, meu, inédito e exclusivo, que versa sobre coisas muito relevantes para um dia do livro e do direito de autor, motivo pelo qual decidi fazer este post aqui hoje... ou ontem... enfim, vocês entendem. Passei o dia todo a trabalhar (e às voltinhas pela cidade a servir de chofer à família), não tive tempo, etc., patati e patata. Tenho essa desculpa pelo atraso de uma hora e picos, e acho que é boa. Adiante.
Eis alguns excertos para perceberem porque acho o artigo relevante. Por exemplo, ele começa assim:
Mas além deste artigo há mais motivos de interesse na antologiazinha. Um conto do Gerson Lodi-Ribeiro, um dos grandes escritores de FC do Brasil, um conto meu, mais um conto potente do Miguel Hernâni Guimarães e dois continhos do João Ventura com a sua habitual mistura de ironia e economia de meios. É possível que já os tenham lido, ou que prefiram lê-los na web. Tudo bem. Nesse caso, têm no artigo a vossa desculpa para baixarem o elivro para os vossos sistemas. Está aqui, por cima da primeira destas compliações, em formatos EPUB e MOBI.
Boas leituras. E boas reflexões, também.
... e de um artigo, meu, inédito e exclusivo, que versa sobre coisas muito relevantes para um dia do livro e do direito de autor, motivo pelo qual decidi fazer este post aqui hoje... ou ontem... enfim, vocês entendem. Passei o dia todo a trabalhar (e às voltinhas pela cidade a servir de chofer à família), não tive tempo, etc., patati e patata. Tenho essa desculpa pelo atraso de uma hora e picos, e acho que é boa. Adiante.
Eis alguns excertos para perceberem porque acho o artigo relevante. Por exemplo, ele começa assim:
Se alguma coisa nos ensina a pirataria é que a nova paisagem digital não espera por retardatários. As coisas acontecem à velocidade das redes interconectadas de que se vai construindo rapidamente o futuro. E a nossa escolha é só entre aceitarmos esse facto como algo tão banal como a probabilidade de nos chover em cima ao sairmos para a rua, ou tentarmos fechar-nos e às nossas coisas em cofres, cofrezinhos e cofrezões em que alguém, algures, irá acabar por arranjar maneira de entrar se tiver nisso interesse suficiente.Mais à frente, digo isto:
E se o que fizermos for bom, alguém acabará de certeza por ter nisso interesse suficiente.
Esta é uma lição que o mundo da literatura está prestes a aprender. [...]
É certo que é no mínimo violentamente antiético estar-se a pôr e a dispor do fruto do trabalho dos artistas sem autorização ou até conhecimento destes, causando-lhes muitas vezes prejuízos de monta, mas também é certo que há fartura de casos de abuso, pela parte empresarial da indústria, das boas ideias que estão por trás dos direitos de cópia. Nada é simples. No admirável mundo novo da cultura digital, tudo é complexo e multifacetado e ninguém consegue ter consigo toda a razão.E mais à frente...
Ou seja: o risco aparente que a disponibilização das coisas em digital encerra, o de que seja muito fácil roubá-las, é bastante menor do que parece à primeira vista e menor se vai tornando à medida que elas se disseminam. A cópia, por paradoxal que pareça, protege o autor. Especialmente se for uma cópia ética, com a autoria e a proveniência devidamente identificadas. A reutilização de ideias, ambientes e personagens, se devidamente identificada, também. Mas a grande maioria dos autores não tem disto uma compreensão completa.Já perceberam. Eu sei que já.
Mas além deste artigo há mais motivos de interesse na antologiazinha. Um conto do Gerson Lodi-Ribeiro, um dos grandes escritores de FC do Brasil, um conto meu, mais um conto potente do Miguel Hernâni Guimarães e dois continhos do João Ventura com a sua habitual mistura de ironia e economia de meios. É possível que já os tenham lido, ou que prefiram lê-los na web. Tudo bem. Nesse caso, têm no artigo a vossa desculpa para baixarem o elivro para os vossos sistemas. Está aqui, por cima da primeira destas compliações, em formatos EPUB e MOBI.
Boas leituras. E boas reflexões, também.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Uma minúscula janelinha sobre um grande território
Esta imagem que aqui veem ao lado é a capa da Antologia Fénix, Volume I, uma antologia de vinhetas e mini-contos, em ebook, que pode ser descarregada ou lida aqui. Tenho lá uma vinhetazinha, concluída em menos de uma hora de trabalho total, entre conceção, escrita e revisões. Provavelmente precisaria de mais algum tempo para ficar inteiramente a meu gosto, mas o prazo era curtíssimo, o espaço também, e não deu para melhor.
Para já.
Nada me impede de fazer uma segunda versão. Ou uma terceira, ou as que forem precisas.
É uma história de ficção científica, intitulada Miel Lê, sobre... alguém que lê. Mas a leitura do Miel não é exatamente a leitura que vocês estão a fazer agora, muito menos aquela que fazemos todos quando tiramos os olhos de écrans e os fazemos cair sobre papel. É outra coisa.
Uma hora, disse-vos eu? Sim, foi uma hora, mas não está nessa hora contida toda a história. É que aí só cabe uma minúscula parte de um todo muito, muitíssimo, maior.
Acontece que há anos ando a desenvolver aos poucos um cenário de FC bastante vasto, distribuído por vários mundos e até por várias estrelas. Ainda me falta arranjar um bom nome para esse universo; por vezes parece que já está, de outras surge-me outra ideia que me parece melhor, mas pouco depois já não a acho grande coisa e volto à primitiva. Ou a outra. Mas o nome é o menos; há bastante worldbuilding já feito e até várias histórias ambientadas nesse cenário, umas já parcialmente passadas a texto, outras ainda exclusivamente guardadas no grande e empoeirado baú de histórias que é esta minha cabeça. Mas até este momento eram todas histórias razoavelmente grandes. E isso comigo significa que levam eternidades a ficarem concluídas. Ou seja: ainda não concluí nenhuma.
Até este momento. Miel Lê — curiosamente a primeira ideia que tive para uma história passada no planeta Bemia... que foi um dos primeiros a serem caracterizados — inaugura a fase de revelação. Talvez seja um estímulo para me dedicar mais às outras.
E uma delas até é romance e tudo...
Para já.
Nada me impede de fazer uma segunda versão. Ou uma terceira, ou as que forem precisas.
É uma história de ficção científica, intitulada Miel Lê, sobre... alguém que lê. Mas a leitura do Miel não é exatamente a leitura que vocês estão a fazer agora, muito menos aquela que fazemos todos quando tiramos os olhos de écrans e os fazemos cair sobre papel. É outra coisa.
Uma hora, disse-vos eu? Sim, foi uma hora, mas não está nessa hora contida toda a história. É que aí só cabe uma minúscula parte de um todo muito, muitíssimo, maior.
Acontece que há anos ando a desenvolver aos poucos um cenário de FC bastante vasto, distribuído por vários mundos e até por várias estrelas. Ainda me falta arranjar um bom nome para esse universo; por vezes parece que já está, de outras surge-me outra ideia que me parece melhor, mas pouco depois já não a acho grande coisa e volto à primitiva. Ou a outra. Mas o nome é o menos; há bastante worldbuilding já feito e até várias histórias ambientadas nesse cenário, umas já parcialmente passadas a texto, outras ainda exclusivamente guardadas no grande e empoeirado baú de histórias que é esta minha cabeça. Mas até este momento eram todas histórias razoavelmente grandes. E isso comigo significa que levam eternidades a ficarem concluídas. Ou seja: ainda não concluí nenhuma.
Até este momento. Miel Lê — curiosamente a primeira ideia que tive para uma história passada no planeta Bemia... que foi um dos primeiros a serem caracterizados — inaugura a fase de revelação. Talvez seja um estímulo para me dedicar mais às outras.
E uma delas até é romance e tudo...
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Improbabilidades de Verão
Já que divulguei por uma série de outros sítios, não custa nada divulgar também aqui. Publiquei, através do Infinitamente Improvável, a compilação Improbabilidades de Verão 2012, que reúne em ebook (formatos MOBI e EPUB) os contos publicados durante os meses de verão no zine. Para quem não conhece a ideia, trata-se de contos com um tema comum: aquilo que é infinitamente improvável. Ou, por outras palavras, o impossível. Algo assim.
Os treze contos incluídos nesta primeira compilação — sim, que a ideia é fazer uma destas compilações por trimestre, desde que haja textos para tal — têm uma pegada insólita, surrealista e de humor razoavelmente forte, embora sejam bastante mais variados do que isto poderá levar a crer. Há dois ou três que estão bem perto (ou bem dentro) da ficção científica, há pelo menos um que é realismo mágico quase puro, há outros dois ou três de horror, etc.
A ideia de fazer esta que é, na prática, uma pequena antologia, surgiu por eu ter constatado que os kindles — e provavelmente outros tablets também — não lidavam lá muito bem com os textos conforme se apresentavam no blogue. E como otimizá-los um a um, criando um ebook para cada conto, era impraticável devido ao trabalho que isso dava e à existência de alguns contos muito curtos, acabei por decidir que o melhor era juntá-los de três em três meses, arranjar uma capa minimamente catita, e resolver assim o problema.
A proposta do site é publicar um conto por semana, mais coisa menos coisa. Se for cumprida, o que depende de mim e do material que me for enviado, dá para editar um ebookzito destes a cada três meses com cerca de doze contos lá dentro. Este primeiro, se fosse um livro físico, teria umas 70 páginas. Já são umas horinhas de leitura. E o melhor é ser inteiramente "grátes"!
Quem quiser obter o ebook pode encontrá-lo aqui. Este e os mais que se venham a publicar no futuro.
Os treze contos incluídos nesta primeira compilação — sim, que a ideia é fazer uma destas compilações por trimestre, desde que haja textos para tal — têm uma pegada insólita, surrealista e de humor razoavelmente forte, embora sejam bastante mais variados do que isto poderá levar a crer. Há dois ou três que estão bem perto (ou bem dentro) da ficção científica, há pelo menos um que é realismo mágico quase puro, há outros dois ou três de horror, etc.
A ideia de fazer esta que é, na prática, uma pequena antologia, surgiu por eu ter constatado que os kindles — e provavelmente outros tablets também — não lidavam lá muito bem com os textos conforme se apresentavam no blogue. E como otimizá-los um a um, criando um ebook para cada conto, era impraticável devido ao trabalho que isso dava e à existência de alguns contos muito curtos, acabei por decidir que o melhor era juntá-los de três em três meses, arranjar uma capa minimamente catita, e resolver assim o problema.
A proposta do site é publicar um conto por semana, mais coisa menos coisa. Se for cumprida, o que depende de mim e do material que me for enviado, dá para editar um ebookzito destes a cada três meses com cerca de doze contos lá dentro. Este primeiro, se fosse um livro físico, teria umas 70 páginas. Já são umas horinhas de leitura. E o melhor é ser inteiramente "grátes"!
Quem quiser obter o ebook pode encontrá-lo aqui. Este e os mais que se venham a publicar no futuro.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
E ele cresce...
Parece que foi ontem que falei pela última vez do Infinitamente Improvável aqui na Lâmpada, mas a verdade é que não foi. Se fosse ontem, o mais certo seria o site estar precisamente na mesma; como não foi, não está. Na verdade, duplicou de tamanho desde então. Em vez dos cinco contos que tinha naquela altura, tem agora dez.
Começou por crescer com um continho meu, Testemunhas, sobre umas ovelhinhas que me vieram bater à porta enquanto eu estava a almoçar. É uma coisa que me chateia, que ovelhas me venham bater à porta enquanto eu estou a almoçar, de modo que escrevi o conto. Depois, mantendo-se em volta das refeições (o que já é uma forma de diálogo, suponho), cresceu com um continho do Tiago Martins Gama, adequadamente intitulado O Jantar, sobre um momento de perplexidade familiar. Seguiu-se O Gafanhoto, um conto um pouco mais extenso, de Álvaro de Sousa Holstein, no qual Zeus, ou algo por ele, resolve proteger a bicharada rastejante da forma mais radical possível. O conto seguinte veio do Brasil, o que fica claro logo no título: O Pacto Macabro da Velha Antonha. Ôxente! Parece que vem lá coisa braba, visse? E veio mesmo, que o Afonso Luiz Pereira faz um belo tratamento do dialeto nordestino que forçou aqui o pobre editor a matutar sobre como fazer com que algo de semelhante a notas de rodapé funcionasse em hipertexto. Acho que não me saí mal da empreitada, mas o importante é mesmo o conto. E por falar em conto, já só falta falar aqui do décimo, A Rapariga de Areia, de G. B. Nunes. É um conto que se vai inspirar no realismo mágico e, provavelmente, na época estival que atravessamos.
São todos contos que se enquadram na proposta do zine: escrever sobre o infinitamente improvável. Mas confesso que, tomados em conjunto, não estão a corresponder inteiramente ao que eu tinha em mente para o zine. Ainda não decidi se acho isso bom ou não. Seja como for, não vou recusar bons contos que respeitam a proposta só porque não a respeitam exatamente como eu estava à espera. O máximo que farei, se o chegar a fazer, será publicar contos meus que se aproximem mais do que queria, para ver se inspiram a malta.
E, por falar nisso, continua sem haver o tal diálogo. Tirando a coincidência de terem sido publicados consecutivamente dois contos com ambientes domésticos e centrados em refeições (e não passa de coincidência; o conto do Tiago já estava escrito antes do meu ser publicado), não me chegou ainda nenhum inspirado noutro dos contos II. Os motivos? Vocês saberão quais são. Mas o que eu quero mesmo saber é: quem será o primeiro a atrever-se? Hm? Quem será o destemido?
Não me obriguem a ser eu, vá lá.
Começou por crescer com um continho meu, Testemunhas, sobre umas ovelhinhas que me vieram bater à porta enquanto eu estava a almoçar. É uma coisa que me chateia, que ovelhas me venham bater à porta enquanto eu estou a almoçar, de modo que escrevi o conto. Depois, mantendo-se em volta das refeições (o que já é uma forma de diálogo, suponho), cresceu com um continho do Tiago Martins Gama, adequadamente intitulado O Jantar, sobre um momento de perplexidade familiar. Seguiu-se O Gafanhoto, um conto um pouco mais extenso, de Álvaro de Sousa Holstein, no qual Zeus, ou algo por ele, resolve proteger a bicharada rastejante da forma mais radical possível. O conto seguinte veio do Brasil, o que fica claro logo no título: O Pacto Macabro da Velha Antonha. Ôxente! Parece que vem lá coisa braba, visse? E veio mesmo, que o Afonso Luiz Pereira faz um belo tratamento do dialeto nordestino que forçou aqui o pobre editor a matutar sobre como fazer com que algo de semelhante a notas de rodapé funcionasse em hipertexto. Acho que não me saí mal da empreitada, mas o importante é mesmo o conto. E por falar em conto, já só falta falar aqui do décimo, A Rapariga de Areia, de G. B. Nunes. É um conto que se vai inspirar no realismo mágico e, provavelmente, na época estival que atravessamos.
São todos contos que se enquadram na proposta do zine: escrever sobre o infinitamente improvável. Mas confesso que, tomados em conjunto, não estão a corresponder inteiramente ao que eu tinha em mente para o zine. Ainda não decidi se acho isso bom ou não. Seja como for, não vou recusar bons contos que respeitam a proposta só porque não a respeitam exatamente como eu estava à espera. O máximo que farei, se o chegar a fazer, será publicar contos meus que se aproximem mais do que queria, para ver se inspiram a malta.
E, por falar nisso, continua sem haver o tal diálogo. Tirando a coincidência de terem sido publicados consecutivamente dois contos com ambientes domésticos e centrados em refeições (e não passa de coincidência; o conto do Tiago já estava escrito antes do meu ser publicado), não me chegou ainda nenhum inspirado noutro dos contos II. Os motivos? Vocês saberão quais são. Mas o que eu quero mesmo saber é: quem será o primeiro a atrever-se? Hm? Quem será o destemido?
Não me obriguem a ser eu, vá lá.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Mais dois contos no II
Desde que falei dele, aqui, o Infinitamente Improvável cresceu. Recebeu uma vinheta de João Ventura, Sem Maneiras, sobre... bem... sobre excessos e as suas consequências, numa escala verdadeiramente cósmica. E uma noveleta (sim, sim, noveleta) de Tibor Moricz, a primeira participação brasileira. Esta, intitulada Variável da Imponderabilidade, é uma história de ficção científica que nos apresenta uma sociedade organizada de forma infinitamente improvável e nos mostra aquilo que um homem tem de fazer para ganhar as eleições. Ou não.
Contava ter por esta altura duas ou três histórias lá publicadas. Tenho cinco. Há aqui um certo ultrapassar de expetativas. Se perdurar, será excelente.
O que ainda não há é nenhuma história inspirada noutra. O tal diálogo ainda não se estabeleceu. Sempre achei que seria essa a parte mais complicada da ideia — suficientemente complicada para fazer com que alguns autores pusessem logo de parte a ideia de participar — e parece confirmar-se, embora ainda seja cedo para o afirmar taxativamente.
A ver vamos...
Contava ter por esta altura duas ou três histórias lá publicadas. Tenho cinco. Há aqui um certo ultrapassar de expetativas. Se perdurar, será excelente.
O que ainda não há é nenhuma história inspirada noutra. O tal diálogo ainda não se estabeleceu. Sempre achei que seria essa a parte mais complicada da ideia — suficientemente complicada para fazer com que alguns autores pusessem logo de parte a ideia de participar — e parece confirmar-se, embora ainda seja cedo para o afirmar taxativamente.
A ver vamos...
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Infinitamente Improvável
Tenho um anúncio a fazer: abri um webzine. Chama-se Infinitamente Improvável.
O Editorial explica tudo, como a ideia surgiu, porque foi posta em prática, etc. Também remete para a página mais importante da moldura do zine, esta, que explica em linhas gerais o que se pretende. Como lá vem escrito, "o Infinitamente Improvável publica contos e outras coisas literárias que sejam... infinitamente improváveis." Isto é vago? É. Mas foi deixado vago de propósito. Mesmo a informação complementar que essa página contém é algo vaga. Porquê?
É frequente a criatividade precisar de estímulo, de um arranque. Mas também é frequente ficar abafada quando se lhe são impostos limites demasiado estreitos, embora o que seja "demasiado" varie muitíssimo de autor para autor (e até de momento para momento). Por isso, quando concebi o zine tomei algumas decisões.
A primeira, e mais importante, foi criar uma delimitação que o individualizasse. Compreendo bem a necessidade que as publicações dirigidas ao mercado genérico têm de tentar agradar ao máximo possível de públicos, maximizando assim a visibilidade e, por vezes, o retorno financeiro. Mas sinto falta de publicações com individualidade forte, especialmente em Portugal. É isso que o II pretende ser.
Por outro lado, não quis afunilar demasiado o âmbito do zine. Daí a vagueza.
Mas por outro lado ainda, pareceu-me que talvez alguns autores precisassem de algo mais concreto que os auxiliasse a perceber, mais ou menos, o que se pretendia. Portanto decidi começar por publicar dois contos meus que se encaixassem no que pretendo. No editorial chamei-lhes balizas, mas pensando melhor creio que a imagem mais adequada é a de escoras. Um par de estacas que atraiam e solidifiquem a duna de histórias que desejavelmente se irá ali construir.
Esses contos já lá estão. Um, A Injeção Financeira, já tinha sido aqui publicado na Lâmpada, e fala de um tipo que anda a precisar de meter finanças para a veia. O outro, Pandorama, é novo e vai buscar um certo mito grego, misturando-o com cosmologia, extraterrestres e universos alternativos.
Não planeava passar tão depressa da criação do espaço ao seu anúncio oficial. Mas as submissões começaram a chegar, e isso levou-me a acelerar tudo. Inclusive a publicação da primeira dessas submissões, de Miguel Hernâni Guimarães. Intitula-se Decepções da Paternidade e é uma ficção científica carregadinha de ironia, na qual se reconhecem certas figuras e instituições muito presentes nos últimos tempos nos noticiários portugueses.
Mas o pormenor mais original na proposta que ali é feita é este: "o Infinitamente Improvável não só autoriza como encoraja que as histórias [lá] publicadas sejam usadas como fonte de inspiração para novas histórias. Satirizando-as, levando-as por outros caminhos, qualquer coisa menos copiando-as." A ideia é que o II não seja apenas um repositório de histórias, mas sim uma rede de textos que dialogam uns com os outros. Bem sei que não o será por completo, que haverá histórias que permanecerão sozinhas e isoladas, mas a ideia é que essa rede surja. Até porque isso mostrará que as histórias são realmente lidas, não se limitam a estar lá. E propiciará que o todo ultrapasse a mera soma das partes que o compõem.
Mas agora é com vocês, autores e leitores. A primeira metade da minha parte está feita. Abri o espaço e fiz a proposta. Cabe agora a vocês aceitá-la. Ou não.
O Editorial explica tudo, como a ideia surgiu, porque foi posta em prática, etc. Também remete para a página mais importante da moldura do zine, esta, que explica em linhas gerais o que se pretende. Como lá vem escrito, "o Infinitamente Improvável publica contos e outras coisas literárias que sejam... infinitamente improváveis." Isto é vago? É. Mas foi deixado vago de propósito. Mesmo a informação complementar que essa página contém é algo vaga. Porquê?
É frequente a criatividade precisar de estímulo, de um arranque. Mas também é frequente ficar abafada quando se lhe são impostos limites demasiado estreitos, embora o que seja "demasiado" varie muitíssimo de autor para autor (e até de momento para momento). Por isso, quando concebi o zine tomei algumas decisões.
A primeira, e mais importante, foi criar uma delimitação que o individualizasse. Compreendo bem a necessidade que as publicações dirigidas ao mercado genérico têm de tentar agradar ao máximo possível de públicos, maximizando assim a visibilidade e, por vezes, o retorno financeiro. Mas sinto falta de publicações com individualidade forte, especialmente em Portugal. É isso que o II pretende ser.
Por outro lado, não quis afunilar demasiado o âmbito do zine. Daí a vagueza.
Mas por outro lado ainda, pareceu-me que talvez alguns autores precisassem de algo mais concreto que os auxiliasse a perceber, mais ou menos, o que se pretendia. Portanto decidi começar por publicar dois contos meus que se encaixassem no que pretendo. No editorial chamei-lhes balizas, mas pensando melhor creio que a imagem mais adequada é a de escoras. Um par de estacas que atraiam e solidifiquem a duna de histórias que desejavelmente se irá ali construir.
Esses contos já lá estão. Um, A Injeção Financeira, já tinha sido aqui publicado na Lâmpada, e fala de um tipo que anda a precisar de meter finanças para a veia. O outro, Pandorama, é novo e vai buscar um certo mito grego, misturando-o com cosmologia, extraterrestres e universos alternativos.
Não planeava passar tão depressa da criação do espaço ao seu anúncio oficial. Mas as submissões começaram a chegar, e isso levou-me a acelerar tudo. Inclusive a publicação da primeira dessas submissões, de Miguel Hernâni Guimarães. Intitula-se Decepções da Paternidade e é uma ficção científica carregadinha de ironia, na qual se reconhecem certas figuras e instituições muito presentes nos últimos tempos nos noticiários portugueses.
Mas o pormenor mais original na proposta que ali é feita é este: "o Infinitamente Improvável não só autoriza como encoraja que as histórias [lá] publicadas sejam usadas como fonte de inspiração para novas histórias. Satirizando-as, levando-as por outros caminhos, qualquer coisa menos copiando-as." A ideia é que o II não seja apenas um repositório de histórias, mas sim uma rede de textos que dialogam uns com os outros. Bem sei que não o será por completo, que haverá histórias que permanecerão sozinhas e isoladas, mas a ideia é que essa rede surja. Até porque isso mostrará que as histórias são realmente lidas, não se limitam a estar lá. E propiciará que o todo ultrapasse a mera soma das partes que o compõem.
Mas agora é com vocês, autores e leitores. A primeira metade da minha parte está feita. Abri o espaço e fiz a proposta. Cabe agora a vocês aceitá-la. Ou não.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Vaporpunk / dieselpunk, update
Pois é. Vaporpunk já não há. Os três exemplares seguiram viagem para três novos lares e chegaram sãos e salvos. Até me cheira que já alguém os andará a ler e tudo. O mesmo aconteceu a um número maior de exemplares de Dieselpunk, mas desses ainda restam por cá dois. Se houver por aí interessados, já sabem: contactem-me.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Vaporpunk / Dieselpunk outra vez
Finalmente, depois duma longa odisseia alfandegária, chegaram cá a casa os Vaporpunks e os Dieselpunks. Quem se mostrou interessado nos livros (nos comentários daqui, no twitter e por email) já foi contactado por email com as condições, e perguntando se o interesse se mantém. Com uma exceção por não ter conseguido encontrar o endereço dele: o Jauch, ao qual peço que me contacte pelo endereço que está ali do lado direito (--->) no caso do interesse se manter.
Depois das respostas que já obtive, resta 1 Vaporpunk (que irá para o Jauch, se ele não tiver mudado de ideias entretanto, portanto está disponível à condição) e 5 Dieselpunks. Os preços são um euro mais caros do que tinha indicado no post original, mais portes quando é caso disso.
Depois das respostas que já obtive, resta 1 Vaporpunk (que irá para o Jauch, se ele não tiver mudado de ideias entretanto, portanto está disponível à condição) e 5 Dieselpunks. Os preços são um euro mais caros do que tinha indicado no post original, mais portes quando é caso disso.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Lembram-se do "Puras Coincidências"?
Lembram-se do Puras Coincidências? Seria supostamente um conjunto de quatro contos e noveletas de FC, a publicar pela Antagonista, em livro duplo e acompanhado por uma novela de James Patrick Kelly. Pois bem: não sairá. A ideia começou a descambar logo no outubro seguinte, por motivos totalmente alheios à minha responsabilidade e, após várias peripécias, acabei por informar a editora em fevereiro último de que já não tinha interesse em publicar o livro com ela.
Fosse como fosse, com interesse da minha parte ou sem ele, havia um contrato, assinado pouco antes de eu ter escrito o post ligado acima, portanto o livro podia ainda ser publicado mesmo que eu torcesse o nariz à ideia. Até hoje. Hoje, o contrato expirou e posso anunciar que o livro não será mesmo publicado pela Antagonista e, naqueles moldes, por mais ninguém.
Noutros moldes, aqueles contos acabarão por vir a lume. Quando, como e onde é que ainda é cedo para dizer.
Fosse como fosse, com interesse da minha parte ou sem ele, havia um contrato, assinado pouco antes de eu ter escrito o post ligado acima, portanto o livro podia ainda ser publicado mesmo que eu torcesse o nariz à ideia. Até hoje. Hoje, o contrato expirou e posso anunciar que o livro não será mesmo publicado pela Antagonista e, naqueles moldes, por mais ninguém.
Noutros moldes, aqueles contos acabarão por vir a lume. Quando, como e onde é que ainda é cedo para dizer.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Vaporpunk / Dieselpunk - Há interesse?
Caros leitores da Lâmpada, fiéis ou infiéis, queria perguntar-vos se terão interesse em comprar exemplares das antologias da Draco em que participo, a Vaporpunk e a Dieselpunk. São ambas antologias retrofuturistas. A primeira é de steampunk e já tem o conteúdo no Bibliowiki, aqui; a segunda é de dieselpunk (óbvio) e ainda não houve tempo para adicionar ao site. Podem encontrá-las a ambas no site da Draco, claro, a Vaporpunk aqui e a Dieselpunk aqui.
São livros grandes, bastante cuidados e também caros. No Brasil estão à venda pelo equivalente a cerca de 22€ a Vaporpunk e 25€ a Dieselpunk. Embora caros, não são preços extraordinários em livros do género, mas para leitores portugueses são ainda aumentados pelos muito caros portes de correio que as encomendas do Brasil implicam, em especial quando os livros são pesados, como é o caso. No entanto, eu, como autor, tenho direito a desconto e posso conseguir arranjar-vos os livros mais ou menos por estes preços, mais portes domésticos (que ainda não fui saber quanto custam) se for caso disso. Mesmo que vos saia mais caro do que aos brasileiros, nunca será tão caro como sairia se os encomendassem vocês pelo correio.
Se houver interesse, avisem que eu mando-os vir e depois combina-se o resto dos detalhes. Para isso, têm a caixa de comentários, têm o twitter e têm o facebook. Cá fico à espera.
São livros grandes, bastante cuidados e também caros. No Brasil estão à venda pelo equivalente a cerca de 22€ a Vaporpunk e 25€ a Dieselpunk. Embora caros, não são preços extraordinários em livros do género, mas para leitores portugueses são ainda aumentados pelos muito caros portes de correio que as encomendas do Brasil implicam, em especial quando os livros são pesados, como é o caso. No entanto, eu, como autor, tenho direito a desconto e posso conseguir arranjar-vos os livros mais ou menos por estes preços, mais portes domésticos (que ainda não fui saber quanto custam) se for caso disso. Mesmo que vos saia mais caro do que aos brasileiros, nunca será tão caro como sairia se os encomendassem vocês pelo correio.
Se houver interesse, avisem que eu mando-os vir e depois combina-se o resto dos detalhes. Para isso, têm a caixa de comentários, têm o twitter e têm o facebook. Cá fico à espera.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Sobre a autoedição
Há dias apareceu-me no twitter um link para este artigo, no qual a autora tece uma série de considerações sobre a autoedição em print-on-demand. Em geral, acerta em cheio no alvo. A autoedição em print-on-demand, pela sua própria natureza, adequa-se muito melhor a livros com um público-alvo muito limitado do que a obras que, pelo menos em potencial, teriam um público vasto. Se não houvesse mais fator nenhum envolvido no assunto, a própria natureza do sistema de impressão adequa-se muito melhor a livros cuja tiragem total acabará inevitavelmente por ser baixa do que a livros com potencial para tiragens maiores. Se uma tiragem tradicional de 50 exemplares não compensa, economicamente, ir imprimindo um a um esses 50 exemplares é bastante mais lógico. Até que o custo do POD desça até ao nível das outras formas de impressão, o que talvez nunca aconteça, livros com um público razoável saem mais baratos a toda a gente (e em princípio ficam mais bem feitos) se forem impressos tradicionalmente do que em POD. Não é de admirar, portanto, que os serviços de print-on-demand assumam aquilo a que ela chama "long-tail business model" (não faço ideia como se traduz isto para português no jargão da gestão... se é que tem tradução), ou seja, a preferência por terem um milhão de autores a vender 100 exemplares cada a terem 100 autores a vender um milhão de exemplares cada.
E depois há tudo o resto. A distribuição que uma editora a sério faz e que um sistema POD não faz, o marketing, capa e paginação profissionais, etc., etc. Obviamente que nenhuma editora propriamente dita vai investir em livros com potencial para venderem 100 exemplares, mas livros capazes de vender mais do que isso têm direito a uma série de "achegas" que a autoedição não fornece.
E claro que isto tem consequências. Claro que a vasta maioria destes livros não valem nada. Mas será isso um problema? Ela, a autora do artigo, acha que sim. Acha que a prevalência de livros muito maus como que "tapa" o punhado de livros muito bons publicados por autoedição em POD. Porque, segundo diz, torna difícil separar o trigo do joio.
Aqui discordo. Se houver uma descrição do livro, de preferência escrita pelo autor, e se houver uma antevisão do livro disponível gratuitamente (e normalmente há ambas as coisas), parece-me bastante fácil encontrar as agulhas, ou pelo menos rejeitar a palha. Reparem nas seguintes sinopses. São as sinopses dos livros de ficção científica e fantástica que encontramos no mais popular dos "nossos" serviços de POD (nossos está entre aspas porque uma boa parte do site está em espanhol), o bubok. Algumas, as mais longas, estão abreviadas. Numa delas omitiu-se um par de nomes de autores e o título de outro livro. De resto, está tudo rigorosamente tal e qual como aparece no site:
Para quais destes livros olhariam uma segunda vez? Basta avaliar os erros de português para excluir imediatamente uma proporção significativa, não é? Quando nem a sinopse está escrita em português correto, o livro é de certeza palha. E reduz-se mais um pouco quando, ainda que formalmente correto, o português é atabalhoado ou básico. Cortemos então essas sinopses. Ficamos com os números 1, 5, 6, 13, 15, 16 e 21. De vinte e um trabalhos restam sete, sem ser preciso mais do que olhar para o fraco português das sinopses, sem ler sequer uma linha dos trabalhos propriamente ditos. Destes sete, outros serão excluídos com igual facilidade após uma leitura rápida de umas quantas linhas do miolo, de novo bastando uma análise à qualidade do português. E assim se faz a seleção. É difícil? Nada. Consome algum tempo, mas quem resiste à ditadura do best-seller e das modas literárias e vai às livrarias à descoberta está habituado a perder algum tempo a folhear, a ler uns trechos aqui, umas contracapas ali, umas orelhas acolá. Não é nada de novo, só o meio é diferente.
Ou seja, se houver livros muito bons editados independentemente em edições POD ou ebook, eles acabam por vir à tona sem grande dificuldade, por um simples processo de eliminação. Desde que as pessoas tenham a capacidade de olhar para o livro e não para o modo como foi publicado. Desde que as pessoas evitem as ideias preconcebidas. O problema, quanto a mim, está mais aqui. Se no mundo da música tem havido a capacidade para evitar os preconceitos no que toca à edição independente, analisando-se a qualidade da música em si mesma, tendo-se mesmo chegado ao ponto de levar alguns discos independentes aos tops, no da literatura não tem. Pelo menos em Portugal. O meio é demasiado preconceituoso e presunçoso para fechar os olhos aos nomes (seja da editora, seja do autor, seja da forma de impressão ou formato, seja do que for) e focar-se realmente no conteúdo. É por isso que muitos patetas falam dos livros sem os lerem, baseando-se apenas nos géneros, nas editoras onde eles foram publicados, em tudo o que nada tem a ver com literatura. É também por isso que a implantação do ebook está tão atrasada no nosso país relativamente a alguns dos outros. E é por isso que pouca gente com algumas ambições literárias tem a coragem de avançar para autoedições. Porque num meio tão cheio de peneiras parvas como o nosso é mesmo preciso ter coragem.
E é pena. Porque isso contribui para não termos uma edição regular em géneros como a ficção científica, especialmente no que toca aos contos. É sabido que contos se vendem mal. A FC, pelos vistos, também tem passado as últimas décadas a vender-se mal. Por conseguinte, contos de FC praticamente não vendem. Ou seja: a autoedição em POD seria o veículo ideal para a edição de coletâneas de contos de FC em Portugal. Mas ela não se faz. E essa ausência de edição regular contribui não só para não existir um público, como também para não existir produção. É uma pescadinha de rabo na boca que muito pouca gente (nenhuma, se calhar?) parece estar interessada em desenrolar. Entre os autores com algum nome no nosso país só posso apontar para um caso, uma tentativa que vai mais ou menos nesse sentido: o Luís Filipe Silva, que disponibilizou gratuitamente em ebook a sua velha coletânea premiada O Futuro à Janela (e é provável que só o tenha feito por ser um livro premiado, portanto sem nada a provar a ninguém). E mais nada.
Cá para mim, devíamos aprender alguma coisa com os nossos colegas produtores culturais ali do bairro do lado, o da música. Era capaz de nos ser mais proveitoso do que ficarmos eternamente sentadinhos à espera de quimeras. E queixando-nos, queixando-nos muito.
E depois há tudo o resto. A distribuição que uma editora a sério faz e que um sistema POD não faz, o marketing, capa e paginação profissionais, etc., etc. Obviamente que nenhuma editora propriamente dita vai investir em livros com potencial para venderem 100 exemplares, mas livros capazes de vender mais do que isso têm direito a uma série de "achegas" que a autoedição não fornece.
E claro que isto tem consequências. Claro que a vasta maioria destes livros não valem nada. Mas será isso um problema? Ela, a autora do artigo, acha que sim. Acha que a prevalência de livros muito maus como que "tapa" o punhado de livros muito bons publicados por autoedição em POD. Porque, segundo diz, torna difícil separar o trigo do joio.
Aqui discordo. Se houver uma descrição do livro, de preferência escrita pelo autor, e se houver uma antevisão do livro disponível gratuitamente (e normalmente há ambas as coisas), parece-me bastante fácil encontrar as agulhas, ou pelo menos rejeitar a palha. Reparem nas seguintes sinopses. São as sinopses dos livros de ficção científica e fantástica que encontramos no mais popular dos "nossos" serviços de POD (nossos está entre aspas porque uma boa parte do site está em espanhol), o bubok. Algumas, as mais longas, estão abreviadas. Numa delas omitiu-se um par de nomes de autores e o título de outro livro. De resto, está tudo rigorosamente tal e qual como aparece no site:
- David Young tem uma missão numa cidade estranha.
- Num tempo em que as pessoas buscam a tão sonhada tecnologia, um homem irá descobrir um mundo em que a sua formação é a tecnologia. Ele descobrirá um novo mundo, onde perigos e aventuras são as coisas que o esperam.
- Genius é um cientista norte-americano que condicionou-se à esquizofrenia e aceitou parte da doença por querer ver seus amigos imaginários. Estes, eram os maiores gênios da humanidade como Albert Einstein, Aristóteles, Leonardo da Vinci, Charles Chaplin, Darwin, William Shakespeare, Confúcio e Santos Dumont. Mais tarde, ele descobre um espelho no qual acredita viajar no tempo por ver seus amigos tão reais dentre outras descobertas e pessoas de forma surpreendente. Descubra, em diálogos baseados no que estes gênios disseram e nos deixaram como herança, além de conhecer profundamente suas vidas, necessários a todas as pessoas, sejam quais forem seus erros, expectativas e experiências.
- Há 2000 anos atrás um jovem filosofo descobrira a magia e o seu poder destrutivo mas também curativo, receoso que esses conhecimentos se perdessem, escreveu todos os seus segredos num livro, um livro que com o passar da décadas se tornou muito cobiçado por toda espécie de feiticeiros até se lhe perder o rasto. O Livro Mágico fora mais tarde descoberto numa escola de magia em Orion, terra de feiticeiros.
- Uma colecção de sete contos, incluindo um totalmente escrito em inglês, com base na ficção científica e com salpicos de horror e espiritualidade.
- Será que as nossas opções não foram já as opções de outros? Será que os resultados dessas nossas opções não foram também já os resultados para outros? Será que não existem outros modos, outros caminhos?
- Para quem vivi seu mundo com sua vida, seja ela: boa, ótima ou quem sabe excelente, já enfrenta uma luta constante, você imagina para alguém que tem sua vida normal no seu cotidiano, e em certo momento se encontra dividida em dois mundos. E o pior, um sendo inverso do outro, em suas ideologias, comportamentos, dia-dia, e até mesmo, visão de seu mundo.
- Duas Dimensões irmãs gemeas são separadas por um grande cataclisma, devido este acontecimento nasceram grandes montes, vales e gigantescas montanhas na terra, dentre uma dessas montanhas, uma encobriu o portal que dava o acesso aos dois mundos que agora se mantém paralelos. Um jovem garoto sonhador e que não tinha sucesso com as mulheres depois de uma tragica decepção amorosa passa algumas reviravoltas na sua vida, depois de ter pensado muito e ouvido muito conselho. Logan em meio a nova fase em sua vida agora está diante da sua decepção amorosa e junto de Gabi, Eder e o Dudu o menino de rua, eles descombrem uma grande mina de ouro dentro da Montanha do Destino, ali encontram um lugar resevardo e bem escondio, onde encontram um mapa que os leva até um portal secreto.
- Esta historia é de um menino, de 13 anos, ele estudava em sua cidade, pode ser qualquer cidade de tamanho pequeno americana, tinha seus amigos, dois desajustados como ele, que gostavam de ler, não tinha corpo físico para ser um jogador de futebol americano, com seus quase um metro e cinqüenta não pesava mais de 29 quilos, ele adorava escrever, e sua personagem predileta, era uma menina chamada Sheila, ele adorava a fantasia de ter um personagem que fazia o que ele queria, ela era uma feiticeira, que tinha poderes mágicos, era a imagem de uma amiga de infância, mas isto era entre ele e a personagem, ninguém mais sabia.
- Por conta de um experimento científico, um homem toma uma vacina que o torna imortal. Quatrocentos anos após tomar a vacina o homem conta sua saga à um Rastejumano, um ser que vive no futuro. Para seu novo amigo o homem conta todas as suas angústias, e a situações que vivenciou como guerras e uma nova divisão mundial.
- " ... E Deus disse: Façamos o homem a nossa imagem e segundo nossa semelhança..." O homem é talvez o único animal que tem em suas mãos o poder de desobedecer as leis da natureza e do tempo, criando sua própria evolução. Este salto é inevitável, porém, infelizmente a evolução mental nem sempre anda de mãos dadas com a evolução moral.
- Oito amigos de países diferentes, viajam sempre juntos. Mas desta vez algo especial esta para acontecer, o destino do planeta depende deles e desta misteriosa viajem. Eles irão em busca do “ultimo milagre”, uma mudança radical que ira salvar à todos e criar um mundo novo.
- Após a derrota de Lúcifer, Roger Hawkins e os quatro Escolhidos continuam a sua luta contra as restantes forças de demónios, agora desorganizadas e sem líder. Contudo, Timothy prepara-se para libertar um grupo de poderosos e antigos demónios, que ameaçam colocar a civilização humana em risco, ao mesmo tempo que continua a sua demanda para ganhar poder e libertar Lúcifer...
- “Então, é assim... A escuridão mostra, finalmente, a sua face. A face da covardia e da insanidade. Mas agora, a coragem de poucos faz com que o grande corruptor sinta, no ar, somente o cheiro do medo de seus próprios soldados. E são esses poucos que avançam na direção de muitos, contrariando a lógica... É verdade que, nem sempre, as lutas serão travadas nos campos, planícies e montanhas deste mundo... mas no coração de cada um. E esses poucos venceram o medo... Venceram a corrupção da alma... Venceram seus próprios desafios. E eles acreditam, apenas, em poder vencer, agora, a batalha que não pode ser vencida. Por muitas e muitas centenas de anos, eu nunca presenciei tamanha bravura contra o impossível... Eu sinto isso na minha alma e na minha carne. O coração de meu filho ainda bate nessa planície e repete, para mim, o que já foi dito... Que haverá, sim, um tempo para a paz. Mas que, também, haverá um tempo para a luta. E para essa, agora, e para esses bravos que ousam ser mais do que eles mesmos, eu me rendo.”
- NOSSA IDEIA de uma antologia de contos sobrenaturais e fantásticos, com toques de romantismo, deu realmente muito certo. Dois meses após o lançamento da primeira antologia em e-book, [...], agora estão de novo reunidos alguns dos autores do primeiro livro, e duas novas autoras: [...].
- A IDEIA DE UM e-book de contos sobrenaturais, escrito por novos autores que publicavam na internet surgiu de repente. Alguns autores já publicaram antes, outros estão inaugurando aqui sua entrada no mundo da literatura e da internet. Sempre publicando independentemente, os novos autores buscavam soluções para expor seus trabalhos, seja publicando em sites especializados em literatura de ficção, seja publicando em blogs ou comunidades do Orkut. Pela primeira vez, resolveram lançar seus trabalhos juntos, em um único volume e essa foi, sem dúvida, uma boa ideia.
- Niagrin Campus não passava de um adolescente normal com algumas divergências familiares até que um estranho acontecimento altera o rumo da sua vida, para sempre. Perdido numa aldeia de aspecto medieval, Niagrin encontra-se com uma estranha rapariga que juntamente com o seu avô, apresentam-lhe uma nova realidade, um novo mundo, Niagrin depara-se com a existência de uns cristais mágicos com poderes ilimitados, capazes de dominar tudo o que anda sobre o solo, num remoto reino que é governado por uma cruel e implacável feiticeira e é a ele que é atribuída a missão de salvar o reino de todo o mal.
- Tudo parecia demasiado marcado pelo tempo; tempos que não queriam ser relembrados nunca mais. Apenas apelava para que não sofresse e, a partir daquela idade, fosse tudo mais calmo; já era a recta final. Mas o sonho não a levou para essa recta tão delineada pelo passado tumultuoso; levou-a de novo à partida - onde tudo era simples, sem dor e onde a vontade de vencer predominava. Depois de percorrer aqueles vastos caminhos, livídos e desconhecidos, encontra finalmente o destino do dia 25.
- A viagem às montanhas do Tibete iria trazer-lhes mais desafios que os que esperavam. A ideia de que alguém podia matar apenas com o olhar, era dificil de aceitar e de enfrentar.
- Em contos curtos de fantasia, o autor procura deixar ao final deles, um despertar para a realidade de que todos somos responsáveis pelo equilíbrio ecológico da Natureza e pela salvação do planeta Terra.
- Fora do cânone literário tradicional, o Sol e a Lua é uma obra entre a fábula psicanalítica, a alegoria mística, a epopeia cibernética e a utopia milenar. É uma viagem pelos lugares da mente numa ausência ou relativização de tempos e espaços. O Sol e a Lua debruça-se sobre duas questões.Uma de ordem semântica : O que é o mundo? E outra de ordem epistemológica: Como aceder a ele? As possiveis respostas encontre você mesmo nestas ficções...
Para quais destes livros olhariam uma segunda vez? Basta avaliar os erros de português para excluir imediatamente uma proporção significativa, não é? Quando nem a sinopse está escrita em português correto, o livro é de certeza palha. E reduz-se mais um pouco quando, ainda que formalmente correto, o português é atabalhoado ou básico. Cortemos então essas sinopses. Ficamos com os números 1, 5, 6, 13, 15, 16 e 21. De vinte e um trabalhos restam sete, sem ser preciso mais do que olhar para o fraco português das sinopses, sem ler sequer uma linha dos trabalhos propriamente ditos. Destes sete, outros serão excluídos com igual facilidade após uma leitura rápida de umas quantas linhas do miolo, de novo bastando uma análise à qualidade do português. E assim se faz a seleção. É difícil? Nada. Consome algum tempo, mas quem resiste à ditadura do best-seller e das modas literárias e vai às livrarias à descoberta está habituado a perder algum tempo a folhear, a ler uns trechos aqui, umas contracapas ali, umas orelhas acolá. Não é nada de novo, só o meio é diferente.
Ou seja, se houver livros muito bons editados independentemente em edições POD ou ebook, eles acabam por vir à tona sem grande dificuldade, por um simples processo de eliminação. Desde que as pessoas tenham a capacidade de olhar para o livro e não para o modo como foi publicado. Desde que as pessoas evitem as ideias preconcebidas. O problema, quanto a mim, está mais aqui. Se no mundo da música tem havido a capacidade para evitar os preconceitos no que toca à edição independente, analisando-se a qualidade da música em si mesma, tendo-se mesmo chegado ao ponto de levar alguns discos independentes aos tops, no da literatura não tem. Pelo menos em Portugal. O meio é demasiado preconceituoso e presunçoso para fechar os olhos aos nomes (seja da editora, seja do autor, seja da forma de impressão ou formato, seja do que for) e focar-se realmente no conteúdo. É por isso que muitos patetas falam dos livros sem os lerem, baseando-se apenas nos géneros, nas editoras onde eles foram publicados, em tudo o que nada tem a ver com literatura. É também por isso que a implantação do ebook está tão atrasada no nosso país relativamente a alguns dos outros. E é por isso que pouca gente com algumas ambições literárias tem a coragem de avançar para autoedições. Porque num meio tão cheio de peneiras parvas como o nosso é mesmo preciso ter coragem.
E é pena. Porque isso contribui para não termos uma edição regular em géneros como a ficção científica, especialmente no que toca aos contos. É sabido que contos se vendem mal. A FC, pelos vistos, também tem passado as últimas décadas a vender-se mal. Por conseguinte, contos de FC praticamente não vendem. Ou seja: a autoedição em POD seria o veículo ideal para a edição de coletâneas de contos de FC em Portugal. Mas ela não se faz. E essa ausência de edição regular contribui não só para não existir um público, como também para não existir produção. É uma pescadinha de rabo na boca que muito pouca gente (nenhuma, se calhar?) parece estar interessada em desenrolar. Entre os autores com algum nome no nosso país só posso apontar para um caso, uma tentativa que vai mais ou menos nesse sentido: o Luís Filipe Silva, que disponibilizou gratuitamente em ebook a sua velha coletânea premiada O Futuro à Janela (e é provável que só o tenha feito por ser um livro premiado, portanto sem nada a provar a ninguém). E mais nada.
Cá para mim, devíamos aprender alguma coisa com os nossos colegas produtores culturais ali do bairro do lado, o da música. Era capaz de nos ser mais proveitoso do que ficarmos eternamente sentadinhos à espera de quimeras. E queixando-nos, queixando-nos muito.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Só a Morte te Resgata
No ano passado, em agosto, a editora brasileira Draco publicou um livro que trazia lá dentro uma novela minha. Chamava-se o livro Vaporpunk e a novela Unidade em Chamas. Um e outra tiveram acolhimentos que ultrapassaram as minhas melhores expetativas, mas mesmo antes de sair o livro já eu andava com umas vagas ideias na cabeça sobre possíveis sequelas e prequelas àquela história, ou por outra, sobre outras histórias passadas no mesmo universo ficcional.
Depois surgiu a convocatória para outra antologia publicada pela mesma editora e organizada por um dos organizadores da Vaporpunk, o Gerson Lodi-Ribeiro. Esta teria o nome de Dieselpunk, e, como o próprio nome indica, procuraria histórias dieselpunk. O conceito é semelhante ao do steampunk, mas a tecnologia é mais avançada, baseando-se não no vapor, mas no motor de combustão interna.
E isso encaixava como uma luva numa das histórias que eu tinha esboçado.
Mas esteve quase a não sair, por motivos muito pessoais. E a história que acabou por sair, embora tenha a base da ideia que eu tinha tido há meses, acabou por tomar um rumo muito diferente do que eu tinha planeado. Mas continua a ser uma espécie de sequela da Unidade em Chamas. Passa-se no mesmo universo ficcional, algumas décadas mais tarde, é mais curta mas não muito mais curta (é uma noveleta, mas está bastante perto de se tornar novela), e chama-se Só a Morte te Resgata.
Será publicada no próximo mês de agosto. Vai fechar a antologia Dieselpunk. E já estou em pulgas para ter o livro na mão.
Depois surgiu a convocatória para outra antologia publicada pela mesma editora e organizada por um dos organizadores da Vaporpunk, o Gerson Lodi-Ribeiro. Esta teria o nome de Dieselpunk, e, como o próprio nome indica, procuraria histórias dieselpunk. O conceito é semelhante ao do steampunk, mas a tecnologia é mais avançada, baseando-se não no vapor, mas no motor de combustão interna.
E isso encaixava como uma luva numa das histórias que eu tinha esboçado.
Mas esteve quase a não sair, por motivos muito pessoais. E a história que acabou por sair, embora tenha a base da ideia que eu tinha tido há meses, acabou por tomar um rumo muito diferente do que eu tinha planeado. Mas continua a ser uma espécie de sequela da Unidade em Chamas. Passa-se no mesmo universo ficcional, algumas décadas mais tarde, é mais curta mas não muito mais curta (é uma noveleta, mas está bastante perto de se tornar novela), e chama-se Só a Morte te Resgata.
Será publicada no próximo mês de agosto. Vai fechar a antologia Dieselpunk. E já estou em pulgas para ter o livro na mão.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Ainda sobre edição, agora mais a sério
Há uma citação, atribuída a um almirante americano chamado Hyman Rickover, que reza assim: "Great men talk about ideas; Mediocre men talk about things; Small men talk about people." Traduzindo: "Grandes homens falam sobre ideias; Homens medianos falam sobre coisas; Homens pequeninos falam sobre pessoas." Isto, embora todos nós façamos as três coisas de vez em quando, tem muito de verdadeiro. Quando se desce das ideias para as coisas está a reduzir-se o nível da conversa, e quando destas se começa a falar de Fulano ou Beltrano ela bate no fundo. Quanto mais medíocre é o indivíduo, mais frequente é trazer a conversa para este nível rasteiro do diz-que-disse, e isto pode observar-se em todos os campos, da vida do dia-a-dia de cada um de nós aos níveis pretensamente mais elevados da política das nações.
Adaptando a coisa à literatura e à maneira de se falar do que é editado, esta máxima poderia ser adaptada a algo como isto: "Grandes homens falam dos livros; Homens medianos falam da vertente criadora dos autores; Homens pequeninos falam das editoras." E, claro, os homens realmente rascas não falam nem de livros, nem de autores, nem de editoras, mas das qualidades ou defeitos que os autores têm, em seu entender, enquanto pessoas.
Que quero eu dizer com isto?
Que o que importa é a obra. Falar-se do autor, mesmo que enquanto criador, não pode nunca substituir-se à leitura de cada um dos livros que ele escreveu, individualmente considerados. Porque o talento não se revela ao só escrever-se obras-primas, mas sim na proporção de material de qualidade que é produzido ao longo de uma carreira (de toda a carreira, o que faz com que as pessoas realmente inteligentes evitem fazer juízos de valor apressados sobre autores enquanto estes ainda estão capazes de criar) relativamente ao que não a tem, ou a tem em menor quantidade. Cada livro é um livro. Cada conto um conto é. Cada poema um poema. Todos diferentes, todos merecedores duma análise individualizada (a não ser que façam parte de séries, claro, ou quando se está fazer um apanhado da obra do autor X).
E se falar-se do autor enquanto criador deve ceder lugar à obra, por maioria de razão falar-se da editora em que a obra sai ou deixa de sair é atirar completamente ao lado. Porque se aquilo que envolve a obra (capa, marketing, distribuição, rigor e cuidado na edição, etc.) depende da editora, a obra propriamente dita não depende. Sendo verdade que a qualidade média das obras publicadas vai diminuindo das boas editoras para as más, não é menos verdade que há obras muito más editadas por editoras muito boas e vice-versa. Miguel Torga, grande escritor português do século XX, várias vezes nomeado para o Nobel, publicou boa parte da sua obra em edições de autor; ao Cristiano Ronaldo não faltam editoras ansiosas por fechar contrato.
De editoras pode e deve falar-se quando o assunto são as práticas comerciais desonestas em que algumas incorrem, ou aquilo que delas depende no processo de edição. Quando o assunto é a obra, falar-se seja do que for que não seja a obra é mostrar com toda a clareza que se está a Leste, que não se percebe nada do assunto, que não se tem a mais pequena credibilidade. Ou, pior, que a má-fé que por vezes move quem assim age pega no que encontra com o único fito de atacar obras ou autores que não consegue atacar de outra maneira. E assim voltamos à adaptação da citação do senhor Rickover.
Adaptando a coisa à literatura e à maneira de se falar do que é editado, esta máxima poderia ser adaptada a algo como isto: "Grandes homens falam dos livros; Homens medianos falam da vertente criadora dos autores; Homens pequeninos falam das editoras." E, claro, os homens realmente rascas não falam nem de livros, nem de autores, nem de editoras, mas das qualidades ou defeitos que os autores têm, em seu entender, enquanto pessoas.
Que quero eu dizer com isto?
Que o que importa é a obra. Falar-se do autor, mesmo que enquanto criador, não pode nunca substituir-se à leitura de cada um dos livros que ele escreveu, individualmente considerados. Porque o talento não se revela ao só escrever-se obras-primas, mas sim na proporção de material de qualidade que é produzido ao longo de uma carreira (de toda a carreira, o que faz com que as pessoas realmente inteligentes evitem fazer juízos de valor apressados sobre autores enquanto estes ainda estão capazes de criar) relativamente ao que não a tem, ou a tem em menor quantidade. Cada livro é um livro. Cada conto um conto é. Cada poema um poema. Todos diferentes, todos merecedores duma análise individualizada (a não ser que façam parte de séries, claro, ou quando se está fazer um apanhado da obra do autor X).
E se falar-se do autor enquanto criador deve ceder lugar à obra, por maioria de razão falar-se da editora em que a obra sai ou deixa de sair é atirar completamente ao lado. Porque se aquilo que envolve a obra (capa, marketing, distribuição, rigor e cuidado na edição, etc.) depende da editora, a obra propriamente dita não depende. Sendo verdade que a qualidade média das obras publicadas vai diminuindo das boas editoras para as más, não é menos verdade que há obras muito más editadas por editoras muito boas e vice-versa. Miguel Torga, grande escritor português do século XX, várias vezes nomeado para o Nobel, publicou boa parte da sua obra em edições de autor; ao Cristiano Ronaldo não faltam editoras ansiosas por fechar contrato.
De editoras pode e deve falar-se quando o assunto são as práticas comerciais desonestas em que algumas incorrem, ou aquilo que delas depende no processo de edição. Quando o assunto é a obra, falar-se seja do que for que não seja a obra é mostrar com toda a clareza que se está a Leste, que não se percebe nada do assunto, que não se tem a mais pequena credibilidade. Ou, pior, que a má-fé que por vezes move quem assim age pega no que encontra com o único fito de atacar obras ou autores que não consegue atacar de outra maneira. E assim voltamos à adaptação da citação do senhor Rickover.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Guia Candeias Para a Taxonomia Editorial
Tenho notado de há algum tempo a esta parte que há por aí uma grande confusão, em boa medida deliberada, em torno do que são e como funcionam as editoras deste país. E dos outros, que nisto, como em tantas outras coisas em que nos julgamos únicos e especiais, não há nada que nos separe dos outros. Não sendo uma autoridade inatacável na matéria, mas tendo alguns conhecimentos sobre ela, resolvi deixar aqui o meu modesto contributo para que quem opina saiba melhor sobre o que opina e possa ter uma breve referência básica.
A editosfera subdivide-se em três géneros. Os dois primeiros subdividem-se em várias espécies cada um, o outro constitui uma espécie única. São eles:
Pessoalmente? Há algumas espécies aqui que me interessam. P. amiculivrus, P. amantissimus, A. amantissimus, A. nichianus e S. individualis, basicamente. As outras dispenso, e de algumas fujo a sete pés.
Adenda: por lapso, tinha-me esquecido de incluir no esquema a A. predatorius. Já está corrigido.
A editosfera subdivide-se em três géneros. Os dois primeiros subdividem-se em várias espécies cada um, o outro constitui uma espécie única. São eles:
- Genus Professionalis - editoras profissionais, aquelas que servem de ganha-pão pelo menos aos donos, e muitas vezes também a equipas de funcionários e colaboradores;
- Professionalis comercialis - editoras que publicam tudo o que venda, seja bom seja uma porcaria. O best-seller é deus e o dinheiro que ele gera é seu profeta. Com várias subespécies, algumas especializadas em certos habitats (especialmente em mercados maiores, naturalmente), é uma espécie muito abundante, e por vezes os exemplares atingem grandes dimensões;
- Professionalis amiculivrus - editoras que, entre o que vende, procuram publicar apenas aquilo que lhes agrada. Os exemplares tendem a ser muito pequenos e ágeis, sempre a tentar roubar aos P. comercialis e aos P. amantissimus um naco de comida particularmente apetitoso;
- Professionalis amantissimus - editoras que usam edição comercial, por vezes de coisas por que nem têm grande respeito, para financiar a edição de livros que sabem à partida que vão dar prejuízo mas que acham que devem publicar, ou porque acham que fazem falta no mercado ou porque realmente os adoram. Tendem a atingir dimensões superiores às dos P. amiculivrus, mas não atingem nunca o tamanho dinossáurico de alguns dos P. comercialis. O seu modo de alimentação é semelhante ao do P. amiculivrus, mas costumam ter mais força para defender os acepipes;
- Professionalis predatorius - as aves de rapina do meio editorial. Publicam qualquer merda desde que alguém lhes pague. Normalmente a vítima principal é o pobre autor iludido que julga que só assim poderá ter uma oportunidade e que ao mesmo tempo que é sugado até ao tutano fica com o nome manchado no mercado;
- Genus Amatoris - editoras amadoras, aquelas que, embora possam gerar algum lucro, não geram o suficiente para a sobrevivência de ninguém;
- Amatoris amantissimus - editoras que só publicam aquilo de que realmente gostam, frequentemente mostrando grande brio nos acabamentos e em todo o processo. Uma subespécie, A. amantissimus ridiculus, tenta mimetizar a pertença ao género Professionalis; os especialistas divergem na interpretação deste curioso fenómeno;
- Amatoris nichianus - editoras muito proximamente aparentadas às A. amantissimus (alguns autores consideram-nas uma única espécie, apontando como prova, entre outras características, para a existencia, também aqui, de uma subespécie ridiculus); caracterizam-se principalmente por adotarem uma grande especialização ecológica;
- Amatoris desenrascus - editoras que publicam o que calha, como calha, quando calha. São a espécie de vida mais curta em toda a editosfera;
- Amatoris ideologicus - editoras que publicam tudo o que promova as ideias dos seus editores ou donos. Muitas mimetizam com grande eficácia a pertença ao género Professionalis, mas um exame mais atento às suas características fisiológicas revela que o dinheiro provém não da edição propriamente dita mas de quem quer promover as ideias;
- Amatoris milionariaborrecidus - editoras que não têm falta de dinheiro porque possuem um mecenas forte; aparentadas com a A. ideologicus, diferenciam-se desta por não publicarem exclusivamente obras a promover as ideias dos donos, embora também o façam;
- Amatoris predatorius - editoras que sonham ser P. predatorius mas não conseguem;
- Genus Setinstrumentus
- Setinstrumentus individualis - espécie isolada, vive em simbiose com gráficas e casas de print on demand; dotada de enorme variabilidade interna, cada indivíduo é uma subespécie, ainda que uma boa maioria se possa agrupar de uma forma pouco rígida num agrupamento chamado minitalentus inteligentis, por não caírem nas malhas dos P. predatorius. Uma boa maioria, note-se, não a totalidade: a subespécie mais valiosa é a S. individualis migueltorgus, várias vezes nomeada para o Nobel.
Pessoalmente? Há algumas espécies aqui que me interessam. P. amiculivrus, P. amantissimus, A. amantissimus, A. nichianus e S. individualis, basicamente. As outras dispenso, e de algumas fujo a sete pés.
Adenda: por lapso, tinha-me esquecido de incluir no esquema a A. predatorius. Já está corrigido.
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