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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Flávio Moreira da Costa (org.): Os Melhores Contos Fantásticos (#leiturtugas)

Serão estes, realmente, Os Melhores Contos Fantásticos (bibliografia)? São-no, certamente, na opinião de Flávio Moreira da Costa, organizador desta antologia (a menos que tenha havido alguma questão com direitos, pelo menos no que toca às histórias mais modernas, que tenha levado à exclusão de uns e à inclusão de outros, o que desconheço). Mas serão mesmo "os melhores"? E o que significa realmente isso de "os melhores" contos fantásticos? Melhores em quê, ao certo?

Não sei. E consigo lembrar-me de contos de praticamente todos os autores aqui presentes e cuja bibliografia conheço de forma menos limitada que me parecem tão bons ou até melhores que os contos que aqui se apresentam. E também há uma panóplia de outros autores, especialmente entre os mais recentes, que me agradam mais do que vários dos que aqui aparecem, por razões objetivas e subjetivas. Mas lá está, nestas coisas há sempre uma componente de subjetividade, por mais que se tente ser objetivo; o que agrada a Fulano desagrada a Sicrano e nem sempre há grande diferença entre a bondade das razões de um e outro. Por isso, de resto, é que opiniões múltiplas e contraditórias são não só naturais como necessárias e até enriquecedoras, desde que os motivos para cada uma sejam bem explicados. E quanto ao que é influente, fator que também entra nestas contas, bem, depende de para onde se olha e como. Aqui não se encontra Dunsany, por exemplo, por mais que seja inegável a imensa influência que ele teve num vasto e muito bem sucedido género literário contemporâneo.

O que quero dizer com isto é que todas as escolhas, quando se compila um conjunto de "os melhores contos" seja do que for, são inerentemente discutíveis. Portanto nenhum desses conjuntos deve ser encarado como uma compilação definitiva. Nunca. Deve ser olhado como aquilo que é: uma opinião, individual ou coletiva, mais ou menos abalizada, entre muitas outras opiniões possíveis.

E há coisas na opinião do Flávio Moreira da Costa de que gostei particularmente. Gostei bastante, por exemplo, da ideia de lidar com textos antigos e sacralizados como as ficções fantásticas que são. Também gostei da preocupação em ser abrangente em vez de se cingir ao habitual eixo anglófono-francófono-germanófono de tantas compilações deste tipo, apesar de continuar aqui a haver algumas ausências gritantes: o continente africano, o médio oriente, etc. Mia Couto, no mínimo dos mínimos, mereceria figurar na secção lusófona, e Agualusa também, embora a sua exclusão se possa dever às mesmas razões que levaram à exclusão de muitos outros autores razoavelmente modernos, suponho.

Esta parte lusófona, de resto, é outra decisão editorial que me parece particularmente feliz. É demasiado frequente que as compilações dos "melhores contos" deste ou daquele género se limitem a material traduzido, esquecendo que a língua portuguesa também os produziu (e transmitindo a ideia de que o que existe não existe ou de que o que é nosso está sempre e inevitavelmente vários patamares abaixo do que vem de fora).

De resto, trata-se de uma compilação de textos clássicos, com tudo o que isso acarreta. Muitos destes contos são daqueles textos que surgem repetidamente em publicações antológicas, e o leitor experiente já terá, inevitavelmente, tomado contacto com muitos deles. O nível é seguramente alto, e inclui alguns contos extraordinários, ainda que nem todos me tenham convencido por inteiro, em boa parte, mas não exclusivamente, por questões de gosto literário.

Tudo somado, o resultado é um bom livro. Com os seus detalhes discutíveis? Certamente. Raros são os casos em que não existe nenhum detalhe discutível. Mas este livro é bom. Pessoalmente preferiria que me tivesse surpreendido mais, mostrando-me menos contos que já conhecia, mas como é evidente não posso culpar Moreira da Costa por aquilo que já li.

Eis o que achei de cada um dos textos deste livro:

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Flávio Moreira da Costa: Mensch(s)

Causa por vezes alguma celeuma que os organizadores de antologias incluam obras próprias nos volumes que organizam, por mais banal e corriqueiro que o facto seja. A celeuma parece radicar-se numa ideia deturpada de justiça: aparentemente julga-se ser injusto que o organizador se escolha a si próprio em detrimento de algum ou alguns autores terceiros que se veem assim excluídos da oportunidade que de outra forma teriam. Esta ideia é errada por um motivo simples: ao incluir-se, o organizador está a dizer que considera que a sua obra ombreia com as outras obras escolhidas, e ao fazê-lo está a expor-se, a correr um risco acrescido. Porque se houver uma diferença de qualidade nítida entre obra própria e obras alheias isso não deixará de ser apontado e criticado com severidade.

O caso muda um pouco de figura quando a antologia que se está a organizar pretende apresentar ao público "os melhores contos" disto ou daquilo. É que, salvo circunstâncias muito excecionais, o organizador de uma antologia assim não terá escrito um dos melhores contos sobre o tema proposto. Que circunstâncias muito excecionais? Bem, exemplifiquemos: eu poderia incluir-me numa antologia dos "melhores contos algarvios de ficção científica", pois estes são poucos, de um modo geral não muito bons e, tanto quanto eu saiba, o algarvio que mais se dedicou ao género sou eu, pelo que pelo menos essa relevância tenho, mas já não me incluiria numa antologia dos "melhores contos portugueses de FC de todos os tempos".

Bem, Flávio Moreira da Costa incluiu-se. É certo que Mensch(s) (bibliografia) é das histórias mais curtas da antologia, apenas com a extensão de miniconto, é certo que ele incluiu o conto numa secção própria a que chamou "Bónus", separando-o assim daqueles que serão de facto "os melhores contos fantásticos" (pelo menos na sua opinião), mas não é menos certo que se incluiu.

E é ele quem perde com isso, porque o conto, sobre uns tais mensch que entram e saem a seu bel-prazer do corpo, do qual se alimentam, até tem o seu interesse mas fica muito, muito longe da generalidade das restantes histórias do livro. Podia, com algumas alterações, figurar no Compêndio Calamar Trindade, onde não destoaria, mas neste livro? Não. Neste livro não cabe. Ou não devia ter cabido, mais precisamente.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Duílio Gomes: O Ovo com Solenidade

E aqui temos mais um daqueles contos que se leem e se esquecem quase no mesmo instante. Ou pelo menos que eu leio e esqueço quase no mesmo instante. A sua brevidade talvez tenha alguma responsabilidade por isso, embora eu já tenha lido alguns contos muito breves absolutamente memoráveis. Não foi o caso deste; nem o título de O Ovo com Solenidade (bibliografia) me disse alguma coisa. Tive de ir passar-lhe os olhos por cima, e precisei de reler quase metade do conto até se fazer luz.

Duílio Gomes escreve aqui uma breve história de terror. Um cego prepara-se para se deliciar com um ovo quando repara que os porcos, habitualmente confinados ao respetivo chiqueiro, lhe invadiram a casa. Assustado, pois os porcos são bichos grandes e omnívoros, com uns estômagos onde por vezes parece caber o mundo, perfeitamente capazes de lhe fincarem o dente, o cego dá-lhes o ovo e reza para que não se lembrem de que também ele tem potencial para se transformar em comida. E o conto é isso: acompanhamos o terror do cego, as especulações do cego sobre o que quererão os porcos, os planos e estratagemas do cego para se safar da situação, até que o conto acaba e ficamos só com uma suspeita sobre o desfecho da história.

Não foi, como se perceberá, história que me tenha impressionado. Não quero dizer com isto que seja uma má história — as histórias realmente más podem ser tão memoráveis como as histórias realmente boas. Foi uma história que me deixou indiferente ao ponto de se me ter sumido da memória como se nunca por lá tivesse passado. Não é bom. Mas podia ser pior, suponho.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 31 de janeiro de 2021

Murilo Rubião: Teleco, o Coelhinho

Há pessoas que leem um livro de cada vez. Outras leem dois ou três. Eu tendo a ler muitos, a maioria de contos, em parte porque não deixam de ser engraçadas as sincronicidades que às vezes acontecem quando me aparecem em livros diferentes contos com pontos de contacto evidentes. Agora, calhou estar a ler ao mesmo tempo esta antologia brasileira e os contos de FC surrealista do Mário-Henrique Leiria. E há paralelos claros entre o nosso Mário-Henrique e esta história de Murilo Rubião.

Não que Teleco, o Coelhinho (bibliografia) tenha alguma coisa a ver com ficção científica. Mas a forma de usar o surrealismo para criar situações insólitas profundamente ancoradas no quotidiano é basicamente a mesma em Rubião (ou pelo menos neste Rubião) e em Leiria.

Esta é a história de Teleco, o coelhinho. De Teleco e do homem que o acolhe em casa, sem propriamente um motivo claro. Por impulso. Sabendo que Teleco pode ser um coelhinho mas não é propriamente um coelhinho, pois não só fala como é capaz de se metamorfosear no que lhe apeteça. E isso gera um sem-número de problemas que vão servir de motor à narrativa.

Este é um conto divertido e bem feito, que a meu ver peca um pouco por se limitar a ser divertido e bem feito. Ou seja, a criação que Rubião aqui cria dava pano para mangas mais vastas, que ele parece não ter querido explorar, preferindo enfiá-la na via relativamente estreita da convivência interpessoal, com os seus amores e ciúmes velhos como o mundo. Parece-me que a ideia do coelho falante metamorfo dava para muito mais do que isso. Mas a verdade é que o que Rubião fez ficou bem feito, pelo que não me posso realmente queixar.

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sábado, 23 de janeiro de 2021

João Guimarães Rosa: Um Moço Muito Branco

Com umas sugestões de objetos voadores não identificados ou de outros objetos tecnológicos, que ultrapassem a mera menção a uma "geringonça", este conto de João Guimarães Rosa seria de ficção científica. Julgo, no entanto, que não terá sido essa a intenção do autor e a inspiração foi outra: a mitologia cristã.

É que, de facto, Um Moço Muito Branco (bibliografia) é sobre... um moço muito branco que aparece de repente numa cidadezinha brasileira no meio de muito fogo e destruição. Um moço muito branco e um moço muito estranho também, uma vez que parece ter poderes e não se rege pelas convenções sociais dos seres humanos. Um extraterrestre, portanto? Quase, quase. De facto não se distingue muito de vários ETs da ficção literária e cinematográfica. Mas talvez seja mais um anjo.

O que faz mover o conto é sobretudo a tensão entre o estranho protagonista e as normas sociais e morais da terreola conservadora onde ele vai parar. A prosa, essa, é um pouco estranha, pois apesar da sua grande qualidade parece algo anacrónica tanto em relação ao tema e enredo do conto, quanto, ou sobretudo, em relação à época em que este foi escrito. Nunca tinha lido Guimarães Rosa, pelo que não sei se se trata de estilo do autor ou artifício escolhido para esta história concreta, talvez para sublinhar a sua estranheza. E de facto é isso o que mais fica desta leitura: um conto bom, mas estranho, com uma história que não será nenhum prodígio de originalidade mas não deixa de ser interessante.

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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Raul Brandão: O Mistério da Árvore

E lá aconteceu outra vez: uma antologia, esta, a repetir histórias já lidas noutra antologia. Este O Mistério da Árvore (bibliografia), de Raul Brandão, consta da Antologia do Conto Fantástico Português, lida por mim há quase uma década. Sobre o conto falei aqui. E falei bem; não tenho agora grande coisa a acrescentar, salvo talvez ter gostado menos do conto aquando da releitura do que quando o li nessa época, provavelmente devido a sentir algum cansaço do jeito popular de contar histórias. Tenho lido muitos contos populares nos últimos anos e, por mais que me interesse lê-los e perceber de onde vêm muitas das características da fantasia, do horror e de outros géneros, a repetição deixa as suas marcas. Agora, ao reler esta história de Brandão, aborreceu-me um pouco ter reencontrado nela muitos clichés. Mas a prosa continua de primeira água e isso compensa muita coisa.

Textos anteriores deste livro:

Livros de 2020

Este ano as coisas iam bem lançadas para acabar por ser um ano de muitas leituras, daqueles em que o joguinho do Goodreads de que falava no ano passado acaba vencido. Mas em setembro a minha mãe caiu, partiu uma perna, e a partir daí foi o descalabro total. Em vez dos cerca de 50 títulos que tinha marcado como alvo, li 31, um número razoavelmente baixo para o qual também contribui o facto de ter concluído o ano quase a terminar a leitura de uns quantos livros.

Mais positivo é o facto da contabilidade lusófonos/não lusófonos ter sido este ano bastante equilibrada. Li 15 títulos lusófonos, a grande maioria portuguesa mas incluindo também um livro mais propriamente lusófono por incluir autores de vários países de língua portuguesa, um outro que é principalmente português mas inclui também brasileiros e ainda um fanzine exclusivamente brasileiro. Somam-se a isso três publicações primordialmente não lusófonas mas com participação lusófona e o restante é material traduzido ou nas línguas originais.

A lista completa é a seguinte:

1. O País de Outubro, de Ray Bradbury (contos de fantasia e terror);
2. Bestiário, de Franz Kafka (contos e novelas fantásticos);
3. Doze Escritores Portugueses Contemporâneos, org. Nelson de Matos (contos e excertos mainstream por vezes com elementos fantásticos);
4. O Ladrão da Eternidade, de Clive Barker (romance de horror juvenil);
5. Maresia, de Fernando Correia da Silva (romance de FC distópica);
6. Hopscotch, de Kevin J. Anderson (romance de FC);
7. Órbita, de Thomas H. Block (romance de FC);
8. Talentos Fantásticos, org. Carlos Lopes (antologia de contos e poemas de fantasia, horror e FC);
9. Dez Contos Para Ler Sentado, org. Tito Couto (antologia de contos mainstream e fantásticos);
10. O Manuscrito Perdido de Lord Byron, de John Crowley (romance mainstream com pitadas de fantástico);
11. Irish Bar «La Gomera», de José Conrado Dias (novela mainstream);
12. A Tragédia de Fidel Castro, de João Cerqueira (romance fantástico humorístico);
13. Histórias de Espantar, de António Bettencourt Viana (contos de FC, com uma história de horror e uma policial);
14. Impacto, de Douglas Preston (romance de FC, variante technothriller);
15. O Marciano, de Andy Weir (romance de FC);
16. Os Melhores Contos Fantásticos, org. Flávio Moreira da Costa (antologia de contos fantásticos clássicos);
17. Um Rio Chamado Angústia, de Eduardo Madeira (conto humorístico);
18. Um Romance, de Rui Zink (conto mainstream);
19. Um Velório Alegre, de Mário Zambujal (conto mainstream);
20. Os Demónios da Noite e Outros Contos, de Charles Nodier (contos fantásticos e de horror);
21. A Barca, de Pedro Pereira (conto fantástico);
22. A Besta, de Pedro Pereira (conto de fantasia juvenil);
23. Desporto Radical, de Ricardo Dias (conto ciberpunk);
24. Diferente, de Ricardo Dias (conto de FC);

Também foram lidos alguns números de periódico, nomeadamente:

25. Pulp Feek, nº 3 (contos de horror e noir);
26. Magazine do Fantástico e Ficção Científica, nº 3 (contos de FC e fantasia);
27. Qliphoth, nº 1 (contos de fantasia e FC);
28. Magazine do Fantástico e Ficção Científica, nº 5 (contos de FC e fantasia);

E por obrigação laboral foram lidos mais três livros.

Tal como no ano passado, a ficção científica não dominou as minhas leituras de 2020. Dos 31 títulos lidos só 8 foram total ou predominantemente de FC, a que se somam mais 4 que incluem alguma FC. Estes 12 títulos, apesar disso, somam a parcela mais abundante das minhas leituras, tendo-se as restantes distribuído por uma série de outras coisas, incluindo bastante mais horror e coisas próximas (como o fantástico da época romântica ou o gótico) do que é hábito.

Contrariamente ao que aconteceu no ano anterior, em 2020 houve um livro que realmente me satisfez quase por completo: O Manuscrito Perdido de Lord Byron, de John Crowley. Curiosamente, trata-se de um romance que se afasta do tipo de leitura que mais costuma agradar-me, um romance mainstream, primordialmente histórico, ainda que inclua leves pitadas de fantástico. Abaixo deste livro, houve uma segunda linha com seis títulos que me agradaram bastante, entre os quais destacaria O Marciano, de Andy Weir, e O Bestiário de Kafka para compor um top-3. Desta vez não houve nenhuma leitura lusófona aqui misturada, o que é pena.

Nessa segunda linha encontra-se um título português, Maresia, de Fernando Correia da Silva, e foi essa a melhor leitura lusófona do ano. Para completar o top-3 teremos de descer à terceira linha, onde vamos encontrar, entre outros títulos, a antologia Dez Contos Para Ler Sentado e o romance A Tragédia de Fidel Castro, de João Cerqueira. São o segundo e o terceiro, respetivamente. A primeira inclui histórias vindas das mais diversas geografias onde se fala português, o segundo volta a ser português.

Entre estes títulos facilmente se encontra boa parte dos top-3 das leituras de, com e sem FC em 2020: O Manuscrito Perdido de Lord Byron e O Bestiário de Kafka foram as duas leituras sem FC que mais me agradaram, seguidos por um título que ainda não tinha aparecido: O País de Outubro, de Ray Bradbury. O Marciano e Maresia foram as duas melhores leituras de FC, e também a elas se segue um título que ainda não tinha aparecido: Hopscotch, de Kevin J. Anderson. E quanto a títulos que não são de FC mas contêm FC, eles foram demasiado escassos para fazer realmente um top-3, mas os dois números do Magazine do Fantástico e Ficção Científica valem a menção. Especialmente o nº 3.

Quanto às piores leituras do ano, de novo temos uma lista integralmente lusófona. Quem vai levar a palma de pior leitura do ano vai ser o Eduardo Madeira com o seu Um Rio Chamado Angústia, seguido por um livro que é significativamente pior que a soma das suas partes (o livro é francamente mau em tudo, da organização à paginação), a antologia Talentos Fantásticos, e para completar o bottom-3 temos a novela de José Conrado Dias, Irish Bar «La Gomera».

Daqui a um ano, mais ou menos uns quantos dias, e a menos que algo de catastrófico aconteça, cá estaremos a falar de como foram as leituras de 2021. Até lá.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Eça de Queiroz: O Defunto

Pronto, as antologias e a sua tendência para repetirem textos voltaram a fazer das suas: Eça de Queiroz reaparece aqui na Lâmpada acompanhado do seu conto O Defunto (bibliografia). Que Eça reapareça não tem nada de mais; mas esta é a quarta aparição de O Defunto, o que talvez seja algo exagerado. E sim, reli, ainda que deva admitir que esta leitura foi algo diagonal, e nada tenho a acrescentar ao que disse aquando da leitura anterior (afinal, decorreu pouco mais que meio ano entre as duas).

Desta leitura, na verdade, fica apenas um toquezinho de humor. É que o conto, como se sabe, se ambienta em Segóvia e arredores, cidade castelhana situada a norte e não muito longe de Madrid. De resto, o conto abre com uma referência imediata a Castela. Ora, quem escreveu a introdução que precede o conto meteu os pés pelas mãos e tratou Segóvia como cidade... portuguesa. E eu ri.

Textos anteriores deste livro:

Ricardo Dias: Diferente (#leiturtugas)

Há algumas histórias que parecem uma coisa e depois se revelam outra bem diferente lá mais para o fim, e este conto de Ricardo Dias, sobre um homem que é Diferente, nem de propósito, o que na teocracia distópica futurista em que vive é ofensa capital, é uma dessas histórias.

Este é um conto razoável, daqueles que teriam potencial para serem bons se os seus autores tivessem tratado melhor o material de base. Há aqui uma série de elementos bastante interessantes, mas Ricardo Dias é (ou era na altura em que escreveu o conto; os autores evoluem) bastante melhor a ter ideias e a conceber situações do que a passá-las a texto.

Dias não é um estilista e tem alguma dificuldade em criar diálogos credíveis, o que gera uma experiência de leitura que não é particularmente agradável, até porque prejudica a suspensão de descrença necessária para apreciar uma história destas. Não que os elabore demasiado destruindo a oralidade necessária, pecha comum em muitos autores; o problema dele é mais colocar na boca de adultos frases e expressões mais características de jovens ou crianças. Há uma certa imaturidade nos diálogos desta história e também há alguma imaturidade no desenrolar do enredo. As duas coisas, de resto, estão relacionadas: a insistência em certas ideias, a sua repetição nas falas das personagens (principalmente), torna os vários acontecimentos demasiado óbvios. OK, há uma técnica chamada foreshadowing, a antecipação de acontecimentos futuros, mas ela só funciona se usada bem, e de qualquer forma não é grande ideia empregá-la num conto tão curto.

Por outro lado, a história tem potencial. Uma teocracia fundamentalista, obcecada pela pureza, que reprime violentamente qualquer desvio à normatividade sexual, tem um potencial muito interessante para ser usada como crítica de tendências nesse sentido existentes na sociedade contemporânea, e é claramente esse o objetivo do autor. Mas o mais interessante talvez seja mesmo o facto de Dias lançar a crítica "de dentro", por assim dizer, o que se torna evidente no desenlace do conto, o momento em que um deus ex machina totalmente literal faz com que ele deixe de ser ficção científica para passar a fantasia científica. Ou seja, a sua crítica ao fundamentalismo religioso não é a de um ateu, mas a de um crente e isso dá-lhe mais força.

Palavra de ateu.

Em suma: este é um conto interessante, que não é bom mas podia ter sido.


sábado, 16 de janeiro de 2021

Afonso Arinos: Uma Noite Sinistra

Um título como Uma Noite Sinistra (bibliografia) não engana ninguém. Nem tenta. Na verdade, bem pelo contrário, situa propositada e imediatamente o leitor no que poderá esperar do conto. É um conto de fantasmas, daqueles noturnos, misteriosos, assustadores. Uma história de casa assombrada ambientada no sertão brasileiro, ou não tivesse sido retirado de um livro chamado Pelo Sertão. O livro que deu fama a Afonso Arinos, de resto.

É um conto bem feito, que para um leitor português traz uma dificuldade acrescida devido ao uso de numerosos regionalismos que, regra geral, são desconhecidos do lado de cá do Atlântico. Muitos compreendem-se pelo contexto, é certo, mas nem todos. Mas tirando isso, que sendo embora uma dificuldade também ajuda bastante a situar a ação, a prosa não é particularmente complexa e o conto segue com bastante fidelidade os padrões deste tipo de história.

Aliás, talvez os siga com demasiada fidelidade. Digo isto porque estas opiniões sobre as histórias deste livro andam bastante atrasadas e o tempo decorrido desde a leitura já me tinha levado a esquecer quase por completo este texto, o que não acontece com os que o rodeiam. Sim, o conto é bom, mas lê-se um pouco como coisa já lida. Ou pelo menos como coisa lida antes de ser transplantada para o Sertão brasileiro. Na introdução fala-se das histórias de assombrações que o povo conta e sim, este conto de Arinos tem essa atmosfera. Só que o outro lado dessa moeda é ele não trazer realmente muito de novo. Há histórias mais ou menos como esta em quase todas as literaturas europeias, e provavelmente também na maioria das americanas. Arinos até fala aqui de lobos, animal ausente da fauna do seu país (há na América do Sul um canídeo chamado lobo-guará, mas tem um estilo de vida bem diferente do dos verdadeiros lobos, assemelhando-se mais ao de uma raposa), no que parece ser uma tentativa de capturar um imaginário muito característico das histórias europeias e norte-americanas.

Por outro lado, nada disto anula o facto de que sim, o conto está bem feito. É um bom conto. Esquecível, talvez, mas bom.

Textos anteriores deste livro:

Mário Zambujal: Um Velório Alegre

Rui Zink e Mário Zambujal têm pelo menos uma coisa em comum, mas em várias outras características dificilmente podiam ser mais diferentes. O que têm em comum é o despretensiosismo, uma abordagem simples, que não simplista, ao ato de escrever. Mas enquanto Zink é daqueles escritores que experimentam uma série de abordagens à literatura e formas de contar histórias, Zambujal especializou-se numa e dela parece não querer sair (ou pelo menos, vá lá, tudo o que li dele é assim; como não li tudo, admito a possibilidade de estar enganado).

É uma opção que oferece as suas vantagens. Os especialistas deste género conseguem frequentemente tornar-se excelentes no que fazem, apurando a técnica sem se dispersarem por ramais e desvios que lhes fariam outras exigências. É algo semelhante a um estilo, coisa que todos os escritores fazem bem em arranjar, mas não é bem a mesma coisa. E também tem os seus lados negativos. Facilmente se torna limitativo. Facilmente, também, pode cair no mais do mesmo.

E Zambujal, ou pelo menos o que dele tenho lido, é precisamente assim. Desde a Crónica dos Bons Malandros que os seus ambientes são basicamente os mesmos — os bairros populares e as suas gentes, que fazem da sobrevivência diária um exercício de equilibrismo e criatividade paredes meias com a ilegalidade — e as histórias que conta pouco divergem umas das outras. Assim, quem tenha lido os Bons Malandros não precisa de puxar muito pela imaginação para ficar com uma boa ideia do que poderá encontrar neste Um Velório Alegre. É, sim, mais do mesmo. Mas é um mais do mesmo em bom, porque o autor lida muito bem com o material que escolheu.

O protagonista é um bom malandro, sim, e o conto consiste de um depoimento prestado por ele à polícia. Conto que não é conto, propriamente, e aí reside o principal ponto fraco deste texto, uma vez que a sua condição de excerto de um romance (Primeiro as Senhoras, publicado em 2006) fica por demais evidente no final que nada encerra. Parece que o homem foi raptado e está a relatar o rapto a um inspetor da polícia que nunca se deixa ouvir, mas acabamos a leitura sem ficarmos a saber praticamente nada sobre o rapto. Aqui, Zambujal não conta isso, conta uma série de episódios que decorrem em torno de um velório a que o protagonista teria ido por engano antes de ter sido raptado, mas essas são, ou pelo menos parecem ser, historietas acessórias cuja função parece ser mais a de apresentar uma personagem do que qualquer outra coisa.

Mas a verdade é que este texto é divertido e está bastante bem feito, pelo que a sua leitura é agradável. Quem goste dos Bons Malandros do Zambujal, e eu gosto, certamente gostará de ler isto. Eu? Gostei, sim.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Aluísio Azevedo: Demônios

Eis mais um texto que me deixou dividido, à semelhança de várias das ficções de Charles Nodier que li recentemente. E em parte os motivos são os mesmos. Como Nodier, também Aluísio Azevedo mostra claras influências do romantismo (e no caso dele são mesmo influências, pois esta história é bem mais recente), o que, como quem frequenta este espaço já deverá saber, tende a desagradar-me. Mas neste Demônios (bibliografia) também existem elementos que só posso apelidar de soberbos.

Trata-se de uma noveleta, e bastante longa. A história é, à boa maneira novecentista, narrada em primeira pessoa e está, à boa (ou não) maneira romântica, salpicada de explosões sentimentais e muito exclamativas, em parte motivadas primeiro pela desesperada busca do protagonista pela sua amada e depois pelo esforço que os dois fazem em conjunto para sobreviver aos estranhos fenómenos que os dominam. Ou simplesmente para morrer juntos.

Nada disto me agrada particularmente (ou nada), e o final — que não revelarei, pois o autor pretende surpreender com ele — é de tudo o que menos me agrada. Se a história fosse apenas isso, teria deixado para trás uma opinião francamente desfavorável. Mas não é.

A questão é que Azevedo constrói um mundo de pesadelo, pesado, opressivo, dominador, através do qual os seus dois protagonistas se vão movimentando com crescente dificuldade, cada vez mais sobrecarregados pela sonolência, pela resistência desse mundo à existência nele de alguma espécie de vida, cada vez mais despidos de sentidos que os orientem, cada vez mais desinteressados, cada vez mais amorfos. E essa construção de mundo é magnífica. O mergulho passo a passo das personagens num mundo progressivamente mais infernal e estéril é o que dá a esta noveleta algo mais, apesar da simplicidade do enredo. É isso que provavelmente levará aqueles que apreciam os tiques literários do romantismo a achá-la extraordinária, e foi também isso o que me levou a mim, que não os aprecio, a sair da leitura com a sensação de que tinha acabado de ler uma ficção invulgarmente boa, mesmo não tendo gostado muito da experiência de leitura propriamente dita.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Mário-Henrique Leiria: A Vacina

Quando foram publicados originalmente, os Casos de Direito Galáctico vieram acompanhados por uma segunda série de textos chamada O Mundo Inquietante de Josela (fragmentos). Aqueles são ficção científica com muito de surrealismo à mistura; estes são surrealismo com alguma ficção científica misturada no caldeirão. E A Vacina (bibliografia) é o primeiro desses "fragmentos".

Mário-Henrique Leiria chama-lhes fragmentos mas são praticamente contos. E este é um conto divertido sobre as peripécias que acontecem a Josela e à família de Josela quando decidem levar os seus mamutes de estimação ao veterinário para levarem vacinas. É que os bichos fogem, e segue-se uma série divertida e muito, muito irónica, variante ácida, de aventuras e de estragos e de telefonemas a autoridades amigas, essa forma branda de corrupção tão omnipresente no Portugal salazarista (e que perdurou até aos dias de hoje, embora atenuada pela visibilidade que a liberdade lhe trouxe) para que o caso não tivesse mais consequências.

E no fim, tudo é em vão, que quem iria vacinar os bichos não se encontra no consultório. Quem não tem esta experiência de dar com o nariz numa porta que tinha de estar aberta? Todos temos, certamente. É que Leiria escreve sobre o seu quotidiano através dos mamutes de Josela, sem tentar a psicanálise barata do "caráter português" (seja isso o que for), mas retratando as irritações, os incómodos e os pontos de vista de um português a viver na sociedade portuguesa do seu tempo.

Também é por isso que é tão bom.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Jorge André Catarino: Omniantropocognoscite

Um dos principais motivos para tanto me cansarem os textos de quem acha interessante psicanalisar essa coisa fantasmagórica a que por vezes se chama "caráter português", em imitações mais ou menos baratas, mais ou menos derivativas, de Eça, é esses textos acabarem por ser tão parecidos uns com os outros. As mesmas ideias repetem-se até à exaustão, em variações superficiais que escondem mal ou não escondem de todo o mesmo núcleo, as mesmas ironias e as mesmas piadas sucedem-se monotonamente e o mesmo aborrecimento instala-se.

É muito por isso que ler Jorge André Catarino (ou pelo menos o seu texto presente nesta antologia) pouco difere de ler Patrícia Lameida (idem) e esta pouco difere de tantos outros exemplos do mesmo sintoma genérico de "caráter português". E isso diminui, obviamente, os textos de todos eles.

No caso deste Omniantropocognoscite (bibliografia), a doença que Catarino arranja é uma busca pela fama a qualquer custo e eu, pelo tom do texto, mais tarde também pelos "exemplos clínicos", comecei logo no primeiro parágrafo a resmungar com os meus botões "não fales de Portugal, não fales de Portugal!" Falou. Era óbvio que iria falar, e infelizmente falou mesmo, explicando os descobrimentos com a doença. E o conto, que sem isso não seria particularmente imaginativo mas podia tornar-se razoavelmente interessante, caiu na completa monotonia.

Não é mau? Não é mau. Não está mal escrito? Não está mal escrito. Mas é fracote.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Jorge Luis Borges: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius

Não sei se isto acontece a todas as pessoas que leem muitos contos ou é só comigo por, além de ler muitos contos e livros de contos e revistas, andar sempre a ler várias coisas ao mesmo tempo (e quando digo "várias" é à volta de 10), mas o facto é que já aconteceu mais que uma vez deparar com o mesmo conto em publicações lidas muito perto uma da outra. Voltou a acontecer agora com este conto de quase FC de Jorge Luis Borges: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius (bibliografia), de que aqui falei ainda nem há um mês. Sim, voltei a lê-lo agora, e não, continuo a não ter nada a acrescentar à minha opinião de há cinco anos.

Contos anteriores desta publicação:

domingo, 3 de janeiro de 2021

Charles Nodier: Os Demónios da Noite e Outros Contos

Há leituras de que se sai com uma ideia muito sólida sobre se foram ou não do nosso gosto. Livros existem que recebem muito claramente o rótulo de "gostei" ou de "não gostei". Mas há outros cuja avaliação final é mais ambígua, ambivalente ou incerta. E, para mim, este Os Demónios da Noite e Outros Contos (bibliografia) de Charles Nodier pertence claramente ao segundo grupo. Porquê?

Porque os contos que constituem este livro têm características que me agradam bastante, quase todos, e ao mesmo tempo também as têm que me desagradam muito, salvo algumas exceções. Nodier escreve muitíssimo bem, e isso agrada-me, obviamente. Escreve bem o suficiente, na verdade, para que deva bastar a qualidade puramente literária do texto para que o livro agrade àqueles leitores para quem isso chega. São muitos. Eu não sou um deles: acho-a um fator importante, sim, mas apenas um fator entre vários outros. E é nestes outros que se encontra o que me desagrada.

Quem frequenta a Lâmpada com alguma regularidade já deve saber que sofro de uma certa alergia aos exageros sentimentais do romantismo literário e Nodier, embora não tenha sido só um escritor romântico foi também um escritor romântico. Nem todos os contos que compõem esta compilação são contos românticos, mas há vários que são e, quase invariavelmente, foram esses os contos que menos me agradaram.

Além disso, tenho vários motivos para não nutrir grande apreço por ficções de fundo cristão, tendendo a achá-las previsíveis e por conseguinte chatas. Ora, Nodier parece ter sido religioso ao ponto de se poder chamar-lhe beato, e várias destas histórias têm profundas raízes nos preceitos cristãos. Algumas incluem divagações teológicas que pouco ou nenhum interesse me despertam. Outras seguem tão fielmente preceitos que qualquer pessoa integrada em sociedades em boa medida formatadas por alguma forma de cristianismo conhece de trás para a frente, que pouca surpresa contêm.

Por outro lado, quando as suas histórias são boas, são muito boas. Há nesta compilação contos excelentes, lado a lado com outros que só li a custo. Tenho a certeza de que outros leitores haverá para os quais cada uma destas histórias é um acepipe raro, mas eu saí da leitura com uma opinião bastante dividida. Reconheço muita qualidade a Nodier, gostei muito de alguns dos seus textos, mas não posso dizer o mesmo do livro como um todo.

Eis o que achei de cada conto ou novela:
Este livro foi comprado.

sábado, 2 de janeiro de 2021

Machado de Assis: As Academias de Sião

Há escritores a escrever hoje que parecem esforçar-se para produzir textos que possam confundir-se com ficções oitocentistas, de tal forma arcaicos são os temas que escolhem e os estilos que adotam. Por outro lado, há textos oitocentistas como este, de uma modernidade surpreendente, abordando temas que não se esperaria ver abordados em textos produzidos numa época que, pelo menos em certas áreas do mundo, estava dominada pelo puritanismo vitoriano.

Felizmente Machado de Assis era brasileiro, e por isso estava bem longe da influência da rainha Vitória. Talvez seja pelo menos em parte essa a explicação para ter escrito este As Academias de Sião (bibliografia) em 1884. É que para lá do seu evidente caráter alegórico, este conto debruça-se sobre a transsexualidade e os papéis de género.

Não deixa de ser curioso que Assis tenha situado a sua história no Sião, atual Tailândia, país mundialmente famoso pelo turismo sexual no qual está envolvida uma grande quantidade de transsexuais e travestis. Já seria assim no seu tempo? Não faço ideia. O certo é que este conto relata a história de um rei "de alma feminina" e de uma das suas concubinas, "de alma masculina". Embora não vá até às últimas consequências da ideia, os dois amantes trocam magicamente de corpos e aí se cumprem, sendo com relutância que regressam ao corpo original.

Simultaneamente, Assis diverte-se à custa dos académicos, retratando as academias de Sião como coisas grotescas, cheias de gente plenamente convicta de que todos os outros académicos ora são burros ora camelos. Diverte-se e diverte-nos, pois as ironias que aplica têm genuína graça.

Este conto seria bom mesmo se tivesse sido escrito hoje. Sendo um conto com quase cento e cinquenta anos, é extraordinário. Bravo, Machado!

Textos anteriores deste livro:

Patrícia Lameida: Legisreia

E não muito depois de nos oferecer um dos melhores contos de todo o volume, a parte portuguesa deste livro oferece-nos um dos piores, por intermédio de Patrícia Lameida, mais uma candidata a Eça. Legisreia (bibliografia) é um texto perfeitamente banal, que se limita a regurgitar as conversas de café contra os políticos, os funcionários públicos e os advogados, de uma forma levemente mais sofisticada do que é comum encontrar-se nos cafés propriamente ditos. Pior: nem sequer se enquadra bem no espírito geral do Almanaque.

A doença aqui inventada é uma tendência patológica para dar ordens e criar regras, que Lameida nem começa propriamente a descrever, contentando-se com menções a algumas personalidades e categorias de pessoas afetadas por ela. Fá-lo numa prosa competente, o que é o único aspeto positivo que descortino neste texto, mas fá-lo sem imaginação nem verve, o que até é pena porque algumas personagens que ataca até merecem o ataque. Convém é que ele seja bem feito, que tenha graça (e Lameida não tem), que seja imaginativo (e Lameida não é).

Este texto é bastante fraco.

Textos anteriores deste livro:

Irmãos Grimm: O Cravo

Uma das maneiras possíveis de dividir as histórias tradicionais europeias separa aquelas que mantêm mais ou menos puro o seu paganismo original daquelas em que o cristianismo surge explícito, quer por via de alterações feitas a histórias mais antigas, quer por se tratar de histórias criadas já depois das religiões cristãs terem dominado o continente. A quase totalidade das histórias dos Irmãos Grimm que surgiram até agora nestes volumes pertence ao primeiro grupo. O Cravo não.

O Cravo é uma história tão imbuída de cristandade que tem "Deus Nosso Senhor" na primeira linha e "Deus" na última. No entanto, essa cristandade parece ter sido sobreposta a um substrato mais antigo, pois os elementos nucleares da história são comuns a vários outros contos que a não têm. Fala de uma rainha estéril que magicamente teve um filho (aqui, claro, por intervenção divina), e desse filho, que tinha poderes (bastava-lhe desejar e os desejos eram satisfeitos) e acabou raptado por conta desses poderes.

No fim, depois de muita crueldade, de uma vingança bárbara e de muita magia, tudo acaba por ficar bem, como é típico dos contos de fadas. Embora este não tenha fadas, substituídas nos seus papéis habituais por deus e por anjos. Pelo meio fica um conto que, apesar de típico e talvez algo adulterado pela religião dominante, não deixa de ter o seu interesse.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Rui Zink: Um Romance

O Rui Zink é dos raros autores portugueses profundamente envolvidos com o meio literário "bem-pensante" (aspas importantes, estas) que mostra uma atitude absolutamente despreconceituosa (e despretensiosa) para com os géneros, movendo-se entre eles e fora deles com o à-vontade de alguém que não quer saber de rótulos e escreve o que lhe apetece como lhe apetece, com a única justificação de que fazê-lo lhe apetece. Muito por isso, é sempre com interesse e sem saber o que esperar que pego num texto dele. Por vezes, como seria sempre inevitável, não gosto muito; de outras vezes gosto bastante. Este Um Romance fica mais perto da primeira opção do que da segunda.

Não é um romance no sentido literário do termo, claro. Esta coleção é de contos, na sua maioria bastante breves, e este texto não é exceção, ainda que haja outros mais breves. Mas é sobre um romance.

Ou, mais precisamente, é sobre um romance que corre mal. E sobre as palermices que tantas vezes fazemos no campo das relações sentimentais.

Tudo é narrado por alguém que é alheio à história, e esta é meio observada, meio imaginada. Num restaurante, o narrador observa uma refeição que parece ter sido preparada pelo homem da relação para lhe pôr fim. Por insegurança, segundo quem observa tudo. Por medo. E Zink, em modo romântico (não me refiro aqui à corrente literária, atenção), usa a história como que para pedir desculpa pela palermice masculina, pela falta de jeito masculina, pela incapacidade masculina para fazer o que é correto na altura certa. A mulher da relação (do romance) pouco mais é que mera espetadora perplexa de um desastre em câmara lenta.

É um conto razoavelmente ternurento, bem escrito e bem feito, mas não me deixou particularmente satisfeito com a leitura. Gostei, não posso dizer que não tenha gostado. Mas não muito.