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segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Spam fiction (11)

O terrível destino de Santana Nobre


Baseado num spam intitulado "miuui Natural peniss enlaarrge"


Santana Nobre era um homem atraente, pelo menos na imagem que tinha de si próprio. As mulheres eram o seu meio, e era no mar de saias, seios e perfumes que se sentia confortável, embora fosse frequente ver-se atirado para a praia pelas ondas desse mar. Quando tal acontecia, resmungava numa voz prestes a desfazer-se em lágrimas que não era possível entender as mulheres, mas rapidamente esquecia estas tristezas e mergulhava de novo entre aquelas que não conseguia entender, lançando-se muitas vezes de costas para ter como dizer mais tarde que fora o mar que o fora a terra resgatar.
De sereia em sereia, de duche de areia em duche de areia, foi Santana Nobre saltitando ao longo dos anos. Nunca ancorou em nenhum baixio, pois cada onda de vestido o arrastava na sua esteira. Mas à medida que os primeiros cabelos brancos iam nascendo, à medida que as entradas se iam entreabrindo, começou a sentir cada vez maior dificuldade em achar-se dentro de águas femininas. Ele bem mergulhava, mas rapidamente a rebentação ia dar consigo encalhado em terra, sacudindo os restos de algas que faziam as vezes de recordações, tentando sem sucesso limpar-se da areia que se lhe entranhava nos calções. E depois aí ficava durante períodos cada vez mais longos, dividido entre a vontade de voltar a mergulhar e o medo de se ver de novo dolorosamente arrastado para terra. Intercalava estas épocas melancólicas e lentas com outras em que se dedicava a mergulhos sucessivos num frenesi de peixe-voador perseguido pela desgraça.
Santana Nobre não entendia o que se passava. Que a idade estivesse a afectar o seu sucesso junto do género feminino, o qual, apesar do que pensava de si próprio, nunca fora grande coisa, não lhe entrava na cabeça. Que diabo, pensava, toda a gente sabe que elas se pelam por uma cabeleira grisalha e uma barriguinha bem tratada. É ou não é?
Um dia teve um esboço de resposta, quando, num dos inúmeros mergulhos no mar de estrogénios que ocupavam por esses tempos a maior parte dos seus dias, surpreendeu duas raparigas a falar dele.
— O Santana — dizia uma — é um desastre.
— E ridículo — ria-se outra. — Reparaste no gel que ele anda a pôr no cabelo para ver se não se nota que está cada vez mais careca?
— Nem me fales — retorquia a primeira. — Mas o pior de tudo nem é isso.
— Pois não — aprovava a segunda. — Não sei como é que ele não se apercebe que aquilo não dá nem para começar.
— Pois é — descambava a primeira — aquilo, decididamente não é pau que se apresente.
— Sabes como é que lhe chama a Aninhas? — ria-se a segunda.
— Diz! — gargalhava a primeira.
— O Pilinhas! — rebolava-se a segunda, logo seguida pela primeira numa revoada de risota que parecia canções de baleias em fast-forward.
Foi então que pela primeira vez na sua vida, Santana Nobre saiu do mar de sua livre vontade e pelo seu pé, arrastando-se lentamente para a praia como um leão marinho exausto e ferido, no fim da migração.
Pilinhas!
Chamavam-lhe Pilinhas!
Sentado num rochedo debruçado sobre o mar, envolto em cheiro a maresia e coberto de salitre, estremecendo a cada onda que se quebrava na praia, julgando entreouvir no seu rugido milhares de feminis gargalhadas, ficou um longo tempo acabrunhado, uma sombra do Santana Nobre confiante de outrora, curvado sob o peso de várias camadas de pena por si próprio.
Pilinhas!
O raio das mulheres chamavam-lhe Pilinhas!
Que fazer?
Passaram-se vários dias nesta indecisão. Santana Nobre descurava-se, deixava que o sol lhe secasse o gel na cabeça em pequenas partículas quebradiças que o vento arrastava para longe, despenteando-o, descaracterizando-o, não reagia quando salpicos da rebentação lhe traziam aos lábios o familiar cheiro a fêmea, o que antes teria sido suficiente para se julgar chamado, desejado, imprescindível, e para se atirar do rochedo para o mar. Decididamente, não era o mesmo. Coberto por uma melancolia incaracterística, Santana Nobre definhava devagar, evaporando-se em desinteresse.
Fosse pelo que fosse, talvez porque estar inteiramente imóvel e inactivo é, paradoxalmente, actividade que cansa mais do que fazer alguma coisa, talvez numa tentativa subconsciente de recuperar algum controlo sobre a sua vida, talvez como terapia de substituição, talvez por outro motivo qualquer, o certo é que Santana Nobre começou aos poucos a prender a sua atenção, todos os dias, nas nuvens de mensagens que lhe passavam pelo céu e a que nunca dera mais que uma fugaz olhadela. Apreciava as suas configurações, avaliava a forma como se sobrepunham, ultrapassavam ou fundiam, vislumbrava nelas significados ocultos, enfim, começava a conhecê-las.
Um dia reparou numa que lhe causou uma viva impressão. Atravessando o céu a grande velocidade, tornando difícil a leitura, esta mensagem vinha numa versão encriptada de inglês e dizia, simplesmente:

"miuui Natural peniss enlaarrge"

Seguia-se um número de telefone e a promessa de "Guarrantied resultss".
Foi o fim da melancolia de Santana Nobre. Por fim, tinha de novo esperança, tinha de novo algo que o incentivasse. Por fim, recuperara a imaginação, que se antes só lhe servira para criar a sua auto-imagem de garanhão irresistível, agora voltava a criar essa mesma auto-imagem, mas desta vez de uma forma diferente, menos centrada na sua figura geral, mais centrada numa particular característica da sua figura. Já se imaginava, nu, ou então vestido de forma reveladora, a exibir o seu novo e multiplicado pénis, rodado de ohs e risinhos, não já de troça mas de admiração.
A ver se alguém iria ter coragem de lhe continuar a chamar Pilinhas!
Telefonou para o número que vinha na mensagem, fez e encomenda e ficou à espera. Durante esse tempo nem se aproximou do mar feminino, limitou-se a aproveitar as noites de vento favorável para subir à varanda recolher o seu cheiro e sonhar com um futuro risonho.
Quando o "mui natural penis enlarge" chegou, descobriu tratar-se de três comprimidos esverdeados, envoltos em papel de prata e acompanhados por uma receita que indicava que o tratamento consistiria de um comprimido ao deitar durante um fim de semana (sexta, sábado e domingo), noites de sono descansado e muito repouso durante os dias. Como não fazia nada que se visse com a sua vida, e como recebera o embrulho a uma terça-feira, Santana Nobre decidiu que não valia a pena esperar pelo fim de semana e nessa mesma noite tomou o primeiro comprimido.
Cumpriu o tratamento à risca nos dias seguintes, passando as noites a dormir e os dias a ouvir música disco, deitado no sofá, e a dormitar. Sempre que acordava, pegava numa régua e media-se cuidadosamente, ao milímetro, anotando o resultado num papel que preparara de antemão.
Os resultados foram-no desapontando. Ainda teve uma alegria quando tomou o segundo comprimido, na quarta-feira, pois o pénis media-lhe mais 4 milímetros do que na véspera, mas ao longo de quinta-feira o resultado da medição foi variando de forma aparentemente aleatória e à noite, após o comprimido, media menos dois milímetros do que na primeira medição. Nessa noite deitou-se deprimido, teve dificuldade em adormecer e acabou por dormir pouco, o que também se terá devido às sestas que dormira durante o dia. A sexta-feira foi, de novo, um dia melancólico e a banda sonora mudou de disco para fado, com Santana Nobre cada vez mais convencido de ter sido enganado, de que os comprimidos de nada valiam e de que iria continuar a ser conhecido por Pilinhas no futuro mais próximo e, quem sabe, no mais longínquo, salvo se se afastasse de vez do género feminino, o que talvez fosse mais deprimente ainda do que ser perseguido por aquela alcunha. Mas decidiu, apesar de tudo, levar o tratamento até ao fim, e foi com uma tristeza obstinada que engoliu o comprimido de sexta-feira e foi para a cama.
Nessa noite teve uma série de sonhos estranhos, que, se ele tivesse algum conhecimento da cultura literária do século XX, teria sem dúvida associado ao escritor checo Franz Kafka. Coisas relativamente normais transformavam-se em coisas decididamente estranhas, o pequeno passava a ver-se gigantesco, braços e pernas transmutavam-se em pequenos bolbos inúteis e cobertos de pêlos rijos, homens metamorfoseavam-se em seres grotescos, cuja forma nunca chegava a fazer-se clara nos filmes que a sua cabeça ia criando. Apesar dos sonhos, dormiu a noite inteira, sem sequer acordar para a tradicional ida à casa de banho das 5 da manhã, o que também teve, à sua maneira, algo de bizarro.
O sábado acordou solarengo e Santana Nobre acordou tarde com o sol a entrar-lhe pela janela. Sentiu-se de imediato estranho, talvez flácido demais e, ainda muito estremunhado, pensou que se calhar o tratamento tinha acabado por fazer efeito, o que serviu de motor e roldanas para que saltasse da cama e se encaminhasse para o maior espelho da casa, tropeçando em pernas que de repente lhe pareciam excessivamente curtas.
Ao olhar para o espelho, ficou horrorizado, cambaleou e acabou por cair, sem sentidos. Esperara ver um grande pénis a sobressair do seu púbis, rodeado do Santana Nobre de sempre, com o físico de sempre, a cara de sempre e o gel de sempre no cabelo (sim, regressara com a renovação da esperança). Em vez disso, no entanto, viu apenas um grande pénis. Apenas um grande pénis a olhar para si através de olhos implantados incongruentemente na superfície da glande, braços fininhos e negros, com uma forma que dava a sensação de encaracolamento e que se projectavam da porção intermédia do cilindro e umas pernas que se pareciam estranhamente com testículos.
Ninguém sabe o que lhe aconteceu depois, porque nunca mais ninguém o viu. De certo, fica só uma coisa:
Nunca mais ninguém lhe chamou Pilinhas.

domingo, 17 de outubro de 2004

Spam fiction (10)

Uma coisa que nunca te direi


Baseado num spam intitulado "Do you remember me?"


— Não quero trocar fluidos com ninguém! — explodiu a toupeira-furadora enquanto se afastava do cruzamernto o mais depressa que conseguia, fazendo ecoar fantasmas do grito (ninguém-guém-ém) nas paredes do túnel.
A outra toupeira-furadora ficou parada, a ouvir. Pareceu-lhe conhecer aquela voz, mas colheitas e colheitas de vida solitária na vastidão dos túneis enchiam-lhe o cérebro traseiro de dúvidas. Não conseguia ter a certeza.
Esta segunda toupeira-furadora tinha, no entanto, uma característica que a distinguia da maior parte das outras toupeiras-furadoras e que levava todas as que a conheciam a evitá-la. Não que fosse invulgar que uma toupeira-furadora evitasse tanto quanto possível os outros membros da sua espécie, bem pelo contrário, mas no caso específico daquela, as toupeiras-furadoras que a conheciam punham um pouco mais de empenho nesse afastamento, chegando algumas ao ponto de fazer grandes desvios por túneis desconhecidos assim que as respectivas terceiras patas detectavam no chão dos túneis um odor que lembrasse vagamente o seu.
Não, não cheirava mal, ou pelo menos não punha nos túneis um cheiro pior que o das restantes toupeiras-furadoras. Tampouco cheirava desagradavelmente bem, empestando as zonas de trânsito, trabalho e descanso de cheiros enjoativos de tão agradáveis. Não era uma questão de cheiros.
Esta toupeira-furadora tinha o pior defeito conhecido na espécie: era curiosa.
Ou, na versão de todas as outras, era metediça.
Por isso não supreendeu ninguém (ou pelo menos não supreenderia ninguém, se alguém ali estivesse a assistir) que ela, em vez de sacudir o telson numa aprovação da atitude insociável da outra toupeira-furadora e de enveredar por outro túnel qualquer (naquele cruzamento juntavam-se cinco), tivesse esgravatado durante algum tempo o chão com as terceiras patas e depois tivesse resolvido enfiar o seu longo corpo pelo mesmo túnel da outra toupeira-furadora.
Aquela voz parecia-lhe conhecida. Ah, sim, parecia conhecida. E o cheiro, mais ainda.

Antes de ir mais longe, talvez convenha esclarecer que as toupeiras-furadoras não possuem nomes, uma vez que deles não necessitam para viver as suas vidas solitárias. Não só raramente se encontram, como quando o fazem o habitual é passarem a maior parte do tempo a trocar fluidos e o mínimo indispensável de tempo extra a trocar informações, num sistema de comunicação que é mais uma sucessão de dois monólogos do que propriamente uma conversa e onde nada é dito acerca de outras toupeiras-furadoras específicas, antes se fala sobre acontecimentos gerais, ou em acontecimentos particulares mas sem nunca mencionar os seus protagonistas. Diz-se que nasceu uma nova toupeira-furadora no sector xis, ou que foi descoberta uma nova camada de raízes no sector ípslon, mas nada é dito sobre quem esteve envolvido em cada um destes acontecimentos. A protecção da privacidade é encarada muito a sério. E uma reunião de mais de dois indivíduos é coisa nunca vista.
Quase tão inédito é acontecer encontros sucessivos entre duas toupeiras-furadoras. Quando duas se encontram, tratam da troca de fluidos o mais depressa que são capazes, despacham a conversa em dois tempos e depois separam-se sem se despedirem, cada uma segue o seu caminho por túneis diferentes, e passam ambas a evitar-se uma à outra com maior afinco do que o que utilizam para evitar as demais. É como se a troca de fluidos as repugnasse tanto que não conseguissem sequer imaginar a ideia de voltar a encontrar-se, ou como se ficassem submersas em vergonha por ter baixado a guarda o suficiente para dar de caras (é força de expressão) com outro indivíduo da mesma espécie e fizessem o possível para evitar até a memória de tal acontecimento.
Por tudo isto, como logicamente se deduz, a nossa e curiosa toupeira-furadora não possuía um nome. Mas esse facto causa dificuldades à elaboração de um texto acerca dela, texto esse destinado a ser lido por membros de uma determinada espécie de primatas originários do planeta Terra, para os quais o nome é uma condição inseparável da individualidade, e que são incapazes de conceber um mundo desprovido destes sinais convencionais de identificação. Nestas condições há duas hipóteses: pode-se procurar por todos os meios identificar a toupeira-furadora sem o recurso a um nome, usando malabarismos linguísticos cada vez mais complicados e artificiais e nem sempre fáceis de gerir, ou pode-se atrabuir-lhe um nome qualquer, arbitrário ou baseado nas suas características, por uma questão de comodidade. Poderia ficar Curiosa, por exemplo. Ou Gertrudes. Ou Minhoca-de-Vinte-Patas. Qualquer coisa.
Há situações em que a escolha entre estas duas opções é complicada, causa suficiente para um longo processo de avaliação de pesos e contrapesos. Mas neste caso, trata-se apenas de um pequeno conto escrito por um obscuro rapazola que se convenceu um dia de que aquilo que escrevia poderia, talvez, vir a ter algum interesse para alguém mas que bem lá no fundo não acredita nisso. Portanto, em cinco segundos a decisão estava tomada.

Gertrudes, a toupeira-furadora, curiosa por ter encontrado um cheiro e uma voz que causavam ressonâncias na sua memória, pôs-se a perseguir a minhoca-furadora dona desse cheiro e dessa voz. Chamemos-lhe Genoveva. A perseguição foi demorada, não só porque as minhocas-furadoras não são propriamente conhecidas pela sua rapidez, mas também porque Genoveva se movimentava quase à velocidade máxima que as suas vinte curtas patas permitiam.
Enquanto fugia — porque era precisamente isso que aquela correria toda era -, Genoveva tinha ambos os cérebros presos num ciclo contínuo em que recordava a visão súbita da cabeça de Gertrudes a emergir do túnel por onde planeava seguir, o susto, o grito que soltara por instinto, os primeiros metros da corrida, tudo intercalado com velhas e nebulosas memórias que a informavam de que não era a primeira vez que contactava com aquela toupeira-furadora, e de que esse primeiro contacto se perdia na sua juventude, que ela achava longínqua, numa época em que os túneis ainda eram coisas gigantescas, espaços amplos cobertos por tectos que mal se veriam não fosse a fosforescência dos fungos que cresciam nas paredes.
Genoveva, claro, não tentou aprofundar essas recordações. Eram apenas um mecanismo automático que servia para manter a fuga durante o tempo e o espaço considerados convenientes para tornar altamente improvável que o contacto acabasse por acontecer e que pouco dependia da sua vontade consciente. Além disso, e ao contrário de Gertrudes, Genoveva não era metediça.
Por isso, quando dobrou uma curva no túnel e à sua frente apareceu de súbito um conjunto de raízes maduras pendentes do tecto, ao qual chegava agora com a maior das facilidades (na verdade, raspava por ele com o dorso nas passagens mais apertadas — era uma toupeira-furadora bastante grande), o ciclo mental de fuga foi quebrado por uma avassaladora sensação de fome e não mostrou qualquer sinal de ter reparado no desvanecimento das recordações ligadas à toupeira-furadora que encontrara mais atrás. A verdade é que a esqueceu por completo e a todos os acontecimentos relacionados com ela, reajustando o seu mundo interno a uma paisagem plácida de movimentos lentos e progressivos através dos túneis, e dedicou-se à sua actividade favorita: comer.

Para Gertrudes, o mesmo caminho foi um passeio bastante mais calmo. Por um lado, era uma toupeira-furadora mais velha e naturalmente mais lenta, e possuía duas patas que lhe doíam sempre que as mexia e que lhe quebravam o ritmo aos passos. Por outro lado, sempre que se aproximava de uma intersecção de túneis, o que acontecia com alguma frequência, apesar de os grandes entroncamentos serem raros, tinha de parar, esgravatar o solo com as terceiras patas para descobrir o túnel por onde a outra toupeira-furadora enveredara, e combater a vontade de investigar todos os outros cheiros que lhe despertavam curiosidades e, às vezes, velhas memórias, antes de se pôr de novo em movimento. Por outro lado ainda, mesmo na relativa uniformidade dos troços de túnel desprovidos de ramificações, surgia com freequência qualquer coisa que a distraía do seu objectivo, e passava-se algum tempo até que lograsse recolocar o seu confuso cérebro na trilha de Genoveva. Ainda por outro lado, o último, por vezes deixava-se submergir tão completamente em recordações e especulações acerca do cheiro e da voz da outra toupeira-furadora que acabava por não se dar conta dos acidentes de percurso, e tropeçava em pedras ou raízes expostas, ou esbarrava em paredes que curvavam, atrapalhando a sua tendência natural de seguir em frente, ou deixava passar cruzamentos e avançava por túneis errados, às vezes durante algum tempo, o que a forçava a voltar para trás, às arrecuas, fazendo uso do telson como segunda cabeça, modo de locomoção bem menos eficiente e seguro.
Passou-se, por isso, bastante tempo até Gertrudes começar a sentir uma intensificação significativa na frescura do cheiro a Genoveva que a vinha chamando atrtavés dos túneis. Na verdade, passou-se tanto tempo que foi obrigada a parar por duas vezes para recuperação fisiológica e mais quatro para mordiscar velhas raízes que se espetavam das paredes laterais do túnel, alimento que não era propriamente delicioso mas teria de servir à falta das raízes frescas, penduradas do tecto, que constituíam o principal acepipe existente naquela área.
Mas acabou por acontecer. Com a paragem de Genoveva, o seu esquecimento do encontro com Gertrudes, o seu regresso à rotina preguiçosa da sua vida, Gertrudes acabou por começar a ganhar-lhe terreno. E quanto mais próxima estava Gertrudes de Genoveva mais fresco era o cheiro, mais fácil era seguir o rasto que ele criava, menos Gertrudes se distraía com outros estímulos e mais rápida se tornava a aproximação da toupeira-furadora que perseguia à toupeira-furadora que era perseguida. Se a curiosidade da toupeira-furadora e a cultura do seu povo fossem suficientes para chegar a dados tão sofisticados, facilmente teria Gertrudes chegado à conclusão de que estava envolvida num ciclo de retroalimentação positiva. E não era só na eficiência da perseguição que se poderia detectar esse ciclo. Também a curiosidade que sentia pela outra toupeira-furadora estava aser retroalimentada com mais intensidade, e até a memória era estimulada da mesma forma. Era como se o problema de quem, realmente, era aquela toupeira-furadora, possuidora de uma voz e de um cheiro tão familiares fosse a pouco e pouco sobrepujando todos os outros pequenos problemas que ocupam a vida quotidiana de uma toupeira-furadora. Era como se Genoveva andasse pelos túneis cada vez mais depressa e com cada vez maior segurança, presa num ciclo mental que perguntava uma e outra vez "Quem és tu? Quem és tu?"
Há perguntas que não têm resposta. A outras não é possível dar uma resposta com toda a certeza. Outras têm mais do que uma resposta provável. E é impossível saber à partida a que categoria pertence a maior parte das perguntas, antes é necessário ficar à espera que algo ou alguém tente responder-lhes. É até frequente que a mesma pergunta salte de categoria em categoria consoante as novidades que cada lugar do tempo traz consigo. Tudo isto é verdade quer no nosso mundo de macacos sabichões, quer no mundo subterrâneo das toupeiras-furadoras, embora estas sejam bastante menos sabedoras das coisas do universo exterior aos seus buracos do que nós (que, por outro lado, sabemos muito pouco do mundo interior aos seus buracos).
A pergunta de Genoveva, a princípio, pertencia ao grupo das perguntas sem resposta. A resposta tradicional da sua espécie a este tipo de perguntas é, como já terão compreendido, esquecê-las, ignorá-las, fingir que não existem, procurar conforto naquilo que já conhecem ou julgam conhecer, ocupar-se com outras coisas. Mas Genoveva era diferente. Metediça. E por isso parecia que as perguntas sem resposta chamavam por si, especialmente se tinha a sensação, quase a certeza, de ter dentro de um qualquer dos seus dois cérebros exactamente a resposta que procurava. Era o caso. De cada vez que perguntava a si mesma "quem és tu?", era percorrida por uma corrente subterrânea, meio inconsciente, que lhe fornecia um indício de resposta: "eu sei quem tu és". Mas era um saber sem forma, uma coisa ectoplásmica feita de impressões vagas como o espaço vazio entre os planetas. Um quase nada sem substância.
Só quando Genoveva finalmente olhou em frente e viu o telson adormecido da outra toupeira-furadora, as memórias dispersas se começaram a juntar e a formar um fio condutor, uma espécie de túnel entre a porção consciente dos seus cérebros e as zonas onde as memórias antigas dormiam o seu sono solto e, geralmente, eterno. Só então, parada, a escutar o murmúrio que Gertrudes fazia nos seus sonhos e a vasculhar com as terceiras patas todo o cheiro que era capaz de retirar do solo se começou a lembrar.
Antes de tempos vêm tempos e antes deles outros tempos. E na vida das toupeiras-furadoras a cada tempo corresponde um ciclo que começa num encontro e termina no seguinte ou, o que é dizer o mesmo, a vida das toupeiras-furadoras é determinada pelas ocasiões em que trocam fluidos. Não é uma medida rígida como os nossos anos, horas e minutos, não é determinada por ritmos naturais cuja duração muda tão lentamente que parece imutável. Em mundos subterâneos não existem dias e no planeta das toupeiras-furadoras nem sequer as estações sugerem que talvez haja ritmos mais subtis do que a evidente sucessão da claridade e escuridão. Para elas, só os encontros são capazes de pontuar com novidade o fluxo monótono do tempo. Por vezes, muitas vezes mesmo, dessas trocas de fluidos surge nova vida e ficam então conhecidas como trocas grandes; outras vezes nada acontece para além da simples troca de novidades, e essas são as pequenas trocas. A vida que nasce das trocas grades é autónoma quase desde que começa, mas fica sempre nela qualquer coisa da outra vida que lhe deu vida. Um subtil subtom no tom de voz. Uma componente quase imperceptível no cheiro corporal. Coisas assim, subtis e pouco claras, só descortináveis por muito poucas toupeiras-furadoras.
Muito tempo antes, a toupeira-furadora a que chamámos Genoveva tivera uma certa troca grande. Fora oito trocas grandes antes, para sermos mais precisos. E dessa troca grande nascera a toupeira-furadora a que chamámos Gertrudes.
Foi isso que Genoveva descobriu, e foi isso que fez com que tivesse ficado ficou imóvel e silenciosa, a observar a sua filha. Primeiro a dormir, depois a acordar, a comer durante algum tempo e a ir-se embora, túnel adentro, sem chegar a dar-se conta de que tivera a mãe muito próxima de si. E durante todo aquele tempo, pensava, absorvida nessa ideia fixa como é hábito da sua espécie, que ali tinha uma vida que nascera da sua vida mas que nunca lhe diria nada sobre isso. Para quê? De que serviria? E como lhe poderia transmitir essa informação, visto que na sua espécie a comunicação era uma questão acessória da troca de fluidos?
Mas a sensação era estranha. Uma espécie de confusão maravilhada ou de maravilhamento confuso, uma coisa assim. Ali, na sua frente, estava uma grande toupeira-furadora que nascera apenas porque ela própria passara pelos túneis. Que se poderia sentir em casos desses?
Ficou ainda muito tempo imóvel, a matutar neste problema. Mas por fim trincou a uma das primeiras patas em sinal de indiferença: não eram estas perguntas sem resposta que a iriam alimentar.
Uma coisa, no entanto, era certa: não iria prosseguir o seu caminho pelo túnel por onde seguira a sua filha. Então, verificou a consistência da parede da esquerda e saboreou-a, verificou a consistência e saboreou a parede da direita, comparou uma e a outra e pôs-se a escavar um novo túnel na parede da esquerda. Tinha a certeza de que por ali, não muito longe e um pouco mais acima, iria encontrar raízes saborosas, e os três estômagos contorciam-se-lhe com a fome.
Não passou muito tempo até encontrar as raízes, e pôs-se de imediato a mastigá-las. Não demorou muito mais até esquecer-se da perseguição e da descoberta que se lhe seguiu, guardando tudo naquela zona adormecida dos seus cérebros onde ficam guardadas as recordações que não serão necessárias durante muito tempo. E não muito depois foi a sua vez de adormecer, ainda com um resto de raiz preso entre as placas trituradoras.
Afinal, estava muito cansada. Não sabia era porquê.

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

Spam fiction (9)

Relatório de Activos do Sistema de Epsilon Indi


Baseado num spam intitulado "Stellar Stock Report"


De: Companhia Import-Export Ansibilina (CIEA), delegação de Epsilon Indi
Para: Sociedade Interestelar de Exploração e Transporte
Assunto: Relatório de Activos do Sistema de Epsilon Indi e Expectativas de Crescimento Futuro
REF: Comunicação Ansible nº 45552 - R - 77231 SIET



Em resposta à vossa solicitação datada de 235/2331, Calendário Padrão Universal, temos a informar o seguinte:

O relatório de activos armazenados nos porões do terminal Ansible do sistema de Epsilon Indi, em situação de pré-trânsito para o sistema Sol é o seguinte:

- Trinta e duas toneladas de bulbos optico-faríngicos de quimera-prateada em estado de preservação criogénica, com prazos de validade variáveis entre 21/2332 e 180/2335 CPU;
- Três gemas azuis de grandes dimensões, totalizando setecentas e vinte e quatro toneladas;
- O Circuito Central de Reprogramação de um robot exploratório Mitsudai. Este item tem reservada passagem de ida e volta;
- Oitenta e cinco painéis de dados pessoais, de peso padrão;
- Sete painéis de dados pessoais com protecção tipo 1 (metapersonalidades) de peso padrão;
- Cento e noventa e nove painéis de dados administrativos de peso padrão;
- Vinte e quatro painéis de dados científico-técnicos de peso padrão;
- Dois contentores com carga classificada, à responsabilidade da Central Interestelar de Alimentação. Os contentores são propriedade da CIEA e têm também reservadas passagens de ida e volta. Têm ainda restrições ao manuseio de tipo 2. O peso total é de duas toneladas e meia;
- Dois exemplares de Heptapedia indiea em hibernação induzida, armazenados em dois Recipientes de Bioamostragem EI 2 com respectivos sistemas de apoio de vida, cápsulas de emergência e técnicos agregados. Os técnicos agregados, em número de quatro e de espécie humano-terrestre, encontram-se em estado de armazenamento para fins de inventário e optimização de carga, mas na realidade estão sujeitos ao sistema-padrão de prontidão de 100 impulsos. Levando em conta a carga pessoal dos técnicos agregados, este item totaliza sete toneladas;
- Duzentos e quarenta e três carregamentos-padrão de biopetróleo;

Mais se informa que é expectável que a quantidade de activos em situação de espera nos porões do terminal Ansible de Epsilon Indi sofra um aumento de 5,8% durante o próximo ano-padrão (4,9% em volume e 6,4% em massa), o que causa preocupações quanto à logística futura do armazenamento, tendo em conta que, segundo o relatório nº 23/2331 SIET, os porões se encontram com 87% da sua capacidade ocupada e os nossos concorrentes, segundo dados do mercado, prevêm taxas de crescimento semelhantes às nossas.
Tem-se entretanto assistido a algumas situações que nos causam preocupação, nomeadamente nas prioridades atribuídas aos produtos perecíveis. Chegou ao conhecimento da nossa empresa que um grifo-de-membranas, propriedade da Indianacom, foi transmitido a 211/2331 CPU, dia em que o transmissor estava em manutenção, de acordo com a comunicação Ansible nº 43687 - T - 12596 SIET, que nos dava conta do adiamento sine die da transmissão de uma remessa dos nossos bulbos de quimera-prateada, transmissão essa já devidamente paga através dos canais oficiais. Há rumores não confirmados de outras situações do mesmo género envolvendo não só a Indianacom, mas também a Intersol e a Companhia de Desenvolvimento das Anãs Vermelhas. Ao certo sabemos que o número de impulsos em que o terminal de Epsilon Indi esteve oficialmente encerrado devido a problemas técnicos subiu 10,2% este ano, o que é um valor muito elevado em condições normais de operacionalidade.
Gostaríamos de solicitar a máxima atenção e o máximo cuidado com este tipo de situação, visto que a fiscalização se tem revelado permeável. Lembramos que temos sido desde sempre o principal cliente da SIET, e faremos todos os possíveis para manter essa condição, no respeito escrupuloso, claro está, das leis da concentração empresarial. Para tal contamos com a vossa compreensão e solicitamos a transmissão prioritária, de preferência durante os próximos três dias, dos Heptapedia que se encontram em armazém. Um prémio de boa vontade já se encontra, para o efeito, depositado na vossa conta no off-shore do Habitat Lagrange Vénus-2.
Caso nos seja fornecida uma compensação adequada para os prejuízos decorrentes do caso Indianacom, estamos preparados para fornecer um novo prémio de igual valor, a depositar noutra das vossas contas off-shore. Sabemos da existência, nos armazéns de Epsilon Indi, de um contentor funerário em más condições, pertencente à Indianacom, cujo nível de prioridade é urgente. Sem querer sugerir um adiamento, por respeito à dor da família, sem queremos contribuir para a degradação da imagem da Indianacom junto dos seus clientes, por uma questão de lealdade comercial, e no respeito absoluto pelo princípio do tempo de espera para prioridades iguais, gostaríamos, todavia, de ver pelo menos duas das nossas gemas azuis, que já estão em depósito há bastante tempo, tratadas com o mesmo nível de prioridade do contentor da Indianacom.
Sem mais de momento, e na esperança da continuação de uma relação comercial que vem sendo mutuamente benéfica, subscrevo-me,
Nicolao Han
director-executivo da CIEA, delegação de Epsilon Indi

segunda-feira, 13 de setembro de 2004

Spam fiction (8)

Caio


Baseado num spam intitulado "Try again.........."


Caio está de novo no apartamento. Caio abre a porta para a rua com violência (blã!). Caio sai. Caio corre pela calçada neoclássica o mais rápido que consegue (tump-tump-tump-tump-tump-tump). Caio chega ao atravessa-rua. Caio entra no atravessa-rua e fecha a porta com violência (cltung!). Caio é soprado para o outro lado da rua (fuuch!) respirando com difuculdade. Caio cai do atravessa-rua já a correr. Caio corre, calçada fora o mais rápido que consegue. Enquanto corre, caio só tem um pensamento (mais rápido! Tenho de ser mais rápido! Tenho de ser). Caio chega à escadaria. Caio sobe as escadas quatro a quatro. Caio chega ao topo exausto (auch!) sem saber como conseguiu. Caio tem de parar dois segundos porque o coração parece querer saltar-lhe do peito. Mas não pode (não posso!) descansar e põe-se de novo em movimento. Caio penetra no parque, já em corrida. Caio corre pela relva o mais rápido que consegue (flut-flut-flut-flut-flut-flut). Caio esbarra contra a velha que sai de repente de trás duma árvore. Caio cai. A velha grita. Caio rebola. A velha grita e gritam as pessoas que rodeiam a velha. Caio levanta-se num salto. As pessoas no parque começam a correr atrás dele (agarra que é ladrão!). Caio é forçado a fintar uma floresta de mãos que se erguem para si (agarra que é gatuno!) e escudos pessoais que se erguem em defesa. Mas Caio corre, corre sempre. Caio penetra mais fundo no parque, deixando os perseguidores para trás. Caio já está com a cara muito vermelha do esforço e a camisa empapada de suor. Caio chega ao topo do parque. Caio desce as escadas seis a seis. Caio chega à avenida. Caio não sabe como não torceu um tornozelo vinte vezes. Caio corre pelo passeio. Caio vê-a, lá ao fundo, na paragem do jactocarro. Caio vê o assassino que se aproxima, com as mãos enfiadas nos bolsos do blusão. Caio grita (Susana!), mas ela não o escuta. Caio corre pelo passeio o mais rápido que consegue (tomp-tomp-tomp-tomp-tomp-tomp). Caio tropeça numa raiz que tenta furar o revestimento de cimento do passeio. Caio desequilibra-se e falha um passo. Caio cai (ai!) batendo com o joelho no chão. Caio levanta-se com uma faca espetada no joelho. Pelo menos é o que parece. Caio tenta correr, mas só coxeia. Caio vê o assassino que se aproxima, começando a retirar as mãos dos bolsos do blusão. Caio grita de novo (Susana!), mas ela não o ouve. Caio percebe que ela está ligada ao canal e só os olhos funcionam como interface com o mundo exterior. Caio tenta correr, mas só coxeia. Caio chega ao último (o único) cruzamento. Caio vê que o assassino já tem a arma apontada para a cabeça dela. Caio procura o atravessa-rua. Está muito longe, Caio não tem tempo. Caio tenta atirar-se a correr por entre o tráfego, mas só coxeia. Caio grita (Susana!), mas ela não repara nele. Caio é atingido pelo jactocarro. Caio pressiona o botão da máquina do tempo. O assassino dispara. Ela morre. Caio morre, atropelado.
Caio está de novo no apartamento.

quarta-feira, 8 de setembro de 2004

Spam fiction (6)

Avaria


Baseado num spam intitulado "Urgent - Call me"


Por favor, telefona-me quando chegares a casa. O carro avariou. Estou aqui perdido no meio do nada e sem dinheiro para o reboque. Não sei a quem ligar. Um beijo.
Olá, sou eu outra vez. É só para te pedir que telefones ao Zé, o de Serpa, antes de me telefonares a mim. Diz-lhe que tenho o carro avariado e não vou chegar a tempo. Ele que me ligue mais tarde, se quiser. Eu telefonava-lhe, mas esqueci-me de memorizar o número aqui no telelé. Merda de cabeça a minha. Enfim... já sabes como é. Olha, não demores em chegar a casa, ok? Um beijo.
Tou? Não acredito! Ainda o atendedor? Era só para ver se não te tinhas esquecido de ver as mensagens, mas estou a ver que ainda não chegaste a casa. Bolas. Bom, olha, não tem nada a ver com nada, mas o céu está-se a pôr feio. Ainda chove. Até logo.
Bolas! Quando voltar a casa, a primeira coisa que faço é mudar essa mensagem. Onde te meteste, Joana? Preciso de ti. Telefona-me. Chau. Ah, começou a chover, e o céu está a ficar preto. Mas preto. É só isso.
Tá? Tás-me a ouvir? Tás a ouvir esta barulheira? Trovoada. Tou com o sacana do carro avariado no meio duma trovoada enorme. Não sei se saia se fique cá dentro. E não passa ninguém por aqui, parece uma estrada fantasma. Telef... (ouviste? Este ainda foi longe)... Telefona-me com urgência. Até já.
Foda-se, Joana! Atende-me essa merda, se fazes favor! Tenho de falar contigo com urgência! Com urgência! Ur-gên-ci-a! E desculpa estar a gritar, mas começou a cair granizo há bocado. Isto está muito feio. E acho que o sol se está a pôr, mas não consigo ter certeza com este tempo. Merda!
Olha, Joana, é só para te dizer que já não é preciso telefonares-me. Resolvi ligar ao 112 e eles dizem que vem uma viatura a caminho. Ah, o granizo parou entretanto. É isso.
Tou? Sou eu outra vez. A tal viatura do 112 não há meio de chegar. Se calhar é melhor telefonares na mesma. Mas onde diabo te meteste? Começo a ficar seriamente preocupado contigo, sabias? E acho que a trovoada vem de volta. Bom. É melhor poupar bateria. Até logo.
Joana, por favor telefona-me! Estou no banco de trás do carro depois de ser corrido do banco da frente por uma granizada tão grande que partiu o pára-brisas. Agora está mais calmo, mas ainda se ouvem trovões ao longe, e o céu está cheio de clarões. Estou ensopado e cheio de vidrinhos e de frio. Não estou ferido, felizmente, mas ainda apanho uma pneumonia aqui. Ninguém atende do 112, por qualquer motivo que não consigo perceber. Começo a ficar com medo, Joana. Medo. Que raio de viagem! Telefona-me.
Nada? Continuas sem chegar a casa? Raios partam! Se tivesse aqui uma lista telefónica, era agora que começava a telefonar para os hospitais. Se tivesse uma lista telefónica ou então se alguém atendesse do 112. Que país, este, em que nem os números de emergência funcionam! Porra pra isto!
Pois, já esperava. Nem sei porque continuo a tentar... olha, agora só à meia-noite.
Joana? Joana? Atende o telefone. Merda! Será que vou ter de passar a noite aqui? Olha, ao menos já não chove. Este é o último telefonema que faço, que já percebi que isto é perda de tempo. Se ainda ouvires isto hoje, até amanhã. Não! Que raio estou eu práqui a dizer? Se ainda ouvires isto hoje, telefona-me logo, por favor. O telemóvel vai ficar ligado. Até logo.
Não é nada. Precisei de ouvir uma voz humana, mesmo gravada, foi só isso. Passar uma noite sozinho no meio de coisa nenhuma é muito esquisito. A cabeça começa a pregar partidas. Amanhã logo te conto. Agora vou desligar.
Se tiveres alguma coisa ligada, a televisão ou a aparelhagem, uma coisa dessas, desliga-a. Agora escuta. Parou. Ah! Ouviste? Um som que parecem gritos ao longe? Ali está outra vez. Ouviste? Sempre gostava de saber que animal faz um som daqueles. É de pôr os cabelinhos da nuca em pé. Começa-me a parecer que não vou conseguir pregar olho a noite inteira. Ao menos parou de chover. Lá está. Ouviste? Estranhíssimo. Vou desligar.
Tou. Olha, mudei de ideias quanto à compra de um rádio para o carro. Tinhas razão: devíamos ter um. Queria só dizer-te isso. Chau.
Sim. Espero que me consigas ouvir. Estou a falar baixinho porque anda qualquer coisa lá fora. Ouço-a a remexer nos arbustos da berma da estrada. Parece... ouviste? Agora ouviste o guincho, de certeza. Tem vindo a tornar-se mais forte ao longo da última hora e agora parece que está mesmo aqui ao lado. Acho que vou sair do carro. Estou-me a sentir encurralado aqui dentro. Só consigo ver alguma coisa de jeito através do vidro partido, que os outros estão todos embaciados. Além do mais, agora não chove. Vou sair. E vou pôr o telemóvel em modo silêncio, também. Sim, é isso mesmo que eu vou fazer.
A Lua nasceu, e de vez em quando espreita entre as nuvens, como agora. Não acreditas no que eu estou a ver. Nem eu acredito. É um... acho que olhou para cá. Desligo.
Olá, Joana. Se chegares algum dia a ouvir isto, fica sabendo que te amo. Eu sei, eu sei, sempre disse que estas conversas são lamechices inúteis, mas olha, hoje deu-me para aqui. Ver certas coisas muda um bocado as perspectivas das pessoas, sabes? Ver ou sentir, que agora que aquilo se foi embora não consigo ter a certeza de não ter sido um delírio qualquer. Não sei o que será mais assustador, aquilo ser real ou não ser. Ser ou não ser, que pensamento tão original! Chiu! É aquilo outra vez. Desligo.
Bem, são quase cinco da manhã. Provavelmente vou conseguir ver a luz do dia, mas caso não consiga, aqui vai. Tenho de aproveitar enquanto ainda tenho bateria no telemóvel, agora que aquilo se foi embora, para te dizer algumas coisas. Vi esta noite uma coisa inacreditável. Um monstro. É a única palavra possível: monstro. Nem sei descrevê-lo (até porque nunca o consegui ver bem - só um vulto escuro num luar fraco). Mas é enorme. Como um cruzamento entre um dinossauro e uma rã, ou coisa do género. Enorme. Anda pelos montes soltando aquele guincho que deves ter ouvido. Nunca percebi tão bem o velho cliché de "fazer gelar o sangue" como esta noite. Passou a noite inteira dum lado para o outro (ou então eram vários, não faço ideia), e fez várias visitas ao carro. Tenho a certeza de que se não me tivesse escondido nesta moita, não estaria agora a falar para ti. Aquilo chegou até a pegar no carro e a metê-lo na boca! Acho que tem andado à minha procura, mas nunca se aproximou muito, felizmente. Acho que não ia aguentar. Ia desatar a correr, e provavelmente a coisa apanhava-me com toda a facilidade. Claro, há a hipótese de eu estar a imaginar tudo isto. Se não ouviste guincho nenhum nas gravações, é provável que seja isso mesmo que se... olha... lá está ele outra vez. Agora está longe, se calhar não ouves. Por que gritará aquilo daquela maneira? Olha... outra vez, mais alto. Deve estar a aproximar-se. Queria dizer-te... queria dizer-te qualquer coisa, mas esqueci-me. Qualquer coisa importante. Bolas! Que... lá está ele. Esta já deves ter ouvido. Deve vir fazer outra verificação ao carro. É metódico. Até quase parece inteligente, mas provavelmente não é, é só um animal. Isto não tem importância nenhuma, eu sei. Estou aqui a falar só para ver se me lembro do que te queria dizer. Não consi... olha... está mesmo mais próximo... acho que vou calar-me.
Ele viu-me! Ele viu-me! Joana, ele viu-me! Fugi e consegui esconder-me melhor noutro sítio, mas aquilo quer mesmo apanhar-me. Veio atrás de mim. Agora está a bater o terreno com todo o cuidado. É por isso que estou a segredar. Tenho tanto medo! Porra! Isto não é hora de ser cobarde, mas tenho tanto m... merda! A bateria apitou! Espero que o monstro não tenha ouvido! Espero que... isto vai... isto vai desligar a qualquer momento. Joana, desculpa-me por tudo o que de mal te possa ter f...

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

Spam fiction (5)

O teu dia


Baseado num spam intitulado "Your day"


Acordas com o sol a bater-te na cara. É sempre a mesma coisa, pensas, farto de levar estaladas com mãos onde os dedos se escoam em labaredas. Dás um grito que ecoa nas vidraças. O sol assusta-se e foge, amarelo de medo.
Voltas-te para o outro lado. A tua mulher ressona, de boca aberta, fazendo estremecer as orelhas que se enrolam na cabeceira da cama, como todas as noites. Nunca conseguiste entender, nem nunca conseguirás (digo-to eu, que sei), como é possível que ela se sinta confortável com as orelhas naquela posição. Mas anos de ressonar em harmonia e uma série de conversas sobre o assunto ensinaram-te que sente. Fazer o quê?
Resmungas qualquer coisa que nem tu entendes. Depois suspiras tão profundamente que da boca te saem mosquinhas pequeninas. Esticas um olho, no topo de um pedúnculo, até conseguires espreitar o relógio despertador que se esconde por trás da massa cinzenta da tua mulher. Consegues assim apanhá-lo desprevenido, sem lhe dar tempo para fugir. Fixas o olho no despertador, tão frio que congela o ar em volta em flocos de neve que esvoaçam em direcção da janela, soltando trinadozinhos quase inaudíveis de tão agudos. O despertador faz estremecer a sua cara de números vermelhos, e murmura:
— São horas menos dez — acrescentando depois, em baixo volume — palerma! — pensando que tu não o ouvirias.
Ouves, mas não ligas. Suspiras de novo. Pensas, como todas as manhãs, se o que se segue valerá o esforço de saíres da cama. Não chegas a nenhuma conclusão. Nunca chegas. Mas tomas duas drageias.
O sol, entretanto, volta a espreitar da janela, com sorrisos tímidos pendentes dos raios.
— O senhor dá licença? — pergunta-te.
Encolhes os ombros numa indiferença tão grande que os braços se te recolhem e ficas com duas mãos agitadas a sair directamente do pescoço. Custa-te respirar. O ar sabe-te a gelatina de morango e estremece quando lhe tocas, espalhando raios de luz distorcida em todas as direcções. É assim que reparas que o sol continua à espera de uma resposta, meio escondido por trás do reposteiro.
— Ó homem, entre duma vez, não fique aí especado! Tenha só cuidado para não acordar a minha mulher. Ela teve uma noite má. A cabeça até dormiu bem, mas as pernas andaram a passear pela casa a noite inteira.
— Muito obrigado. Com licença. — diz-te o sol, entrando, mas afastando-se com cuidado da tua cara. — Desculpe lá aquilo de há pouco. Foi uma distracção.
Tentas não voltar a encolher os ombros (precisas das mãos) mas é mesmo isso que te apetece fazer.
— Tá bem — dizes apenas.
Com alguma dificuldade, levantas-te da cama. Está calor, e suor irrompe-te de todos os poros, juntando-se num pequeno charco em volta do teu umbigo. Minúsculas rãs saltitam em torno do charco, coaxando alto demais.
— Calem-se — resmungas, arriscando uma palmada na barriga.
As rãs, com a palmada, ganham asas repletas de furúnculos, e erguem-se no ar, coaxando impropérios. Não ligas. Nunca ligas. Se não fosse essa impenetrável indiferença, a tua vida seria um inferno, por isso, todos os dias de manhã, tomas duas drageias de impenetrável indiferença que te duram o resto do dia. Só à noite passas a sentir uma penetrável diferença, mas isso é porque quando o sol se põe te crescem uns bigodes muito longos e fininhos.
Olhas para o espelho, na casa de banho. Os bigodes muito longos e fininhos pendem, com ar triste, das narinas. Ainda pensas em perguntar-lhes o porquê de tamanha melancolia, mas desistes. Impenetrável indiferença.
Fechas o ralo, pões água a correr, mostras ao espelho um esgar. O espelho estremece, principalmente os dentes. Será susto? Não te interessa. Também os teus estremecem nos alvéolos, gerando tornados de comichão por toda a tua boca. Abre-la. Deixa-los sair.
Os dentes mergulham na bacia, um a um, em trajectórias acrobáticas. Os azulejos aplaudem, fazendo soar trombetas numa estridência de piscina coberta. Depois, lavam-se uns aos outros, percorrendo atentamente raízes e coroas, removendo com cuidado os mais ínfimos sinais de tártaro. Só um fica de lado, um molar cariado que é ostensivamente ignorado pelos demais.
Não sabes porquê, nunca saberás porquê, mas gostas muito daquele molar. Se não estivesses desdentado, terias dito isso mesmo naquele instante.
Quando achas que já chega, deixas cair o maxilar, que entra na água com um ploft satisfatório. É o teu oráculo quotidiano, aquele ploft. Pela sua intensidade, duração e harmonia, e pelo número de gotinhas que levanta, sabes como vai ser o teu dia. Os teus dias só existem por via daquele ploft. Aprendeste isso da pior maneira, num dia em que te esqueceste de deixar cair o maxilar com um ploft, não tiveste dia e passaste directamente para o seguinte. Foi mau. Tiveste falta no serviço e um processo disciplinar que, para tua sorte, acabou por se revelar tão indisciplinado que o despediram duas semanas mais tarde.
Esperas, com o maxilar em baixo, que os dentes se acomodem, os de baixo nos alvéolos respectivos, os de cima sobre a língua, em duas longas filas. Recolhes o maxilar, e ao longo da subida os dentes entoam um canto alentejano, oscilando uns de encontro aos outros, criando assim um insólito acompanhamento de rangidos.
Canto alentejano acompanhado a ranger de dentes...
É assim todas as manhãs. Já conheces de cor aquele coro. Já esperas cada uma das desafinações. O friso de baixos não é mau, mas o tenor — um canino, por estranho que possa parecer — é esganiçadíssimo. Um horror.
Em todo o caso, se não estivesses com atenção e cuidado terias encolhido de novo os ombros.
Impenetrável indiferença.
Depois da cara recomposta, ordenas aos cabelos que se ajeitem e acomodem e sais da casa de banho. Já sabes que os quinze minutos seguintes da tua cabeça serão passados em gritaria, enquanto os cabelos se desempeçam sozinhos, insultando-se uns aos outros, por vezes envolvendo-se em breves cenas de pancadaria, que terminam abruptamente assim que os nós de desfazem ou um cabelo se solta ou se parte. Como todas as manhãs, os bigodes muito longos e fininhos vão-se embora, ofendidos, insurgindo-se em francês contra aquela vulgaridade, oh-là-là, sacré bleu! Suspiras. O tédio é tanto que te envolve como um casulo de seda. Já estavas preparado para ele, e sacas da tesoura que tinhas escondida numa cova da pele que te cresce como um coldre, à ilharga. Em gestos hábeis, recortas a seda do casulo, transformando-a numa camisola e numa espécie de calças sem aberturas para os pés. Não há costuras. A seda de tédio tem por supremo valor de existência envolver-te o melhor que é capaz, e és por isso forçado a enrolar as extremidades das duas peças para que a seda não continue a crescer até te cobrir por completo outra vez.
A seda hoje é esverdeada, com minúsculas risquinhas negras. Não gostas, mas não podes fazer nada. Não é como se pudesses substituir tédio verde às risquinhas pretas por tédio branco às florinhas, ou tédio liso azul-metálico. O teu tédio é o que é, embora mude todos os dias.
Regressas ao quarto. A tua mulher já começou a acordar, e tu atiras-lhe um beijo com força e boa pontaria. O beijo vai esmagar-se sobre a boca dela, um pouco descaído para o lado direito, e depois escorre devagar para a almofada.
— Ai! — grita ela, assustada, mas depois a expressão suaviza-se e as orelhas enrolam-se-lhe sobre a testa — Oh, és tu, querido? — um bocejo, devidamente acompanhado pelo sol que estende dois raios e lhe faz tilintar a úvula.
— Sou. Acorda, que está na tua hora.
A tua mulher aninha-se melhor na cama, recobrindo-se de gravetos e pedacinhos de terra, e chilreia:
— Ãin, que não me apetece nada levantar...
— Eu sei — respondes. Tu sabes. Aquele "ãin, que não me apetece nada levantar" é a frase mais típica das manhãs da tua mulher, e reverbera nas paredes daquele quarto em três quartos das manhãs. O quarto restante, a que tu chamas com ironia "quarto minguante", é composto por variações mais ou menos imaginativas da mesma ideia-base. Só uma vez, que te lembres, em todos os anos de acordar no mesmo sítio, mas em separado, a tua mulher acordou cheia de vontade de se levantar.
Foi um dia inesquecível, esse dia. Ainda hoje, tantos anos passados, sentes uma pontada de pânico quando o recordas.
— Vou comer — anuncias. — Vê se te levantas. — E sais, direito à cozinha. O nariz já tinha seguido à frente, enviado pelo estômago vazio que se procurava atapetar de odores antes de receber a sanduíche.
É mais ou menos por esta altura que o teu dia começa a parecer-se mais com o dia de uma pessoa que não tem uma vida surrealista. Sentas-te placidamente à mesa da cozinha a comer a sanduíche com um olhar contemplativo de bovino no rosto. Contrariamente ao que talvez fosse de esperar, não te crescem cornos nem manchas pretas na pele branca e as costas não se te encurvam num garrote. A comida não protesta, nem se transforma em sinais de tempo. Só os cabelos continuam a sua guerrilha, embora cada vez mais compostos e cada vez mais sossegados.
A dada altura, chega o silêncio, interrompido pelo tic tac do relógio na parede e por um monumental bocejo da tua mulher, no quarto. É nessa altura que os cabelos finalmente se aquietam, dispostos em risca ao meio e atirados para trás. Passas a mão por eles, num agradecimento, que eles recebem com sussurros de prazer, depois de acabares a sanduíche e de limpares as mãos a um guardanapo. Levantas-te, vais até à sala, à procura da maleta. Quando chegas, estás vestido de fato e com uma gravata de dez metros pendurada do pescoço. Pensas, como todas as manhãs, que tens de comprar uma gravata nova, enquanto enrolas no pulso a porção em excesso. Sentes-te como um cão que segura a sua própria trela e o teu focinho subitamente distendido capta com absurda nitidez todos os cheiros dos dois quarteirões mais próximos. Soltas um leve ganido, mas depressa regressas à tua forma habitual de funcionário.
É tempo de sair de casa.
Sais de casa aos poucos, peça a peça, com cada bocadinho a integrar-se na longa fita que é o tempo no mundo lá fora. A fita leva-te, sem sobressaltos, directamente até à porta do escritório, e deposita-te aí, na ordem exacta em que nela entraste. É um pouco estranho ver surgir no passeio primeiro um dedo da mão direita, depois outro, e de seguida mais três, e depois ver um braço construir-se no chão e depois erguer-se quando o tronco aparece, quase de repente (e assim voltas a ter braços, o que é sempre boa notícia), e continuarem a juntar-se órgãos àquele corpo em crescimento até estares de novo inteiro e imaculado, com maleta e tudo. Só a gravata fica presa da fita, como todos os dias, e és obrigado a puxá-la ou a deixá-la ficar. Pensas em desistir duma vez por todas de tão incómoda peça de vestuário, mas acabas por desistir da desistência e puxas. Desistir para quê?, pensas, com um abanão de cabeça.
Impenetrável indiferença. O que é preciso é impenetrável indiferença.
Recomposto, entras no escritório na hora exacta, sentas-te, abres a maleta e a janela e pões-te a trabalhar.
Contas pássaros a manhã inteira.
É para isso que te pagam: contar pássaros.
À hora de almoço interrompes o trabalho. Sabes disso apenas porque num momento o relógio marca meio dia e trinta e um minutos e no momento seguinte já marca uma hora e cinquenta e oito. Poderias pensar que era o relógio que resolvera que era tempo de adiantar o tempo, não fora também o sol se ter deslocado no céu (não o sol que deixaste em casa a acordar melhor a tua mulher; outro), e não fora aquilo te acontecer todos os dias. Os almoços são-te sempre retirados da experiência de vida. É como se o teu corpo abandonasse o cérebro à secretária, no meio dos pássaros, e se fosse alimentar sozinho, regressando depois pelo mesmo caminho. Na verdade é isso mesmo que acontece: chegada a hora de almoço, o cérebro esgueira-se pelos olhos, ouvidos e boca como uma névoa cinzenta, deixando o corpo livre para fazer o que bem entenda. O tempo parece não passar porque, na verdade, não passa. Para um cérebro, o tempo só passa quando existe maneira de medir essa passagem (olhos, ouvidos, sensores de movimento, enfim, sentidos). E como tu és, basicamente, um cérebro agregado a um corpo, o tempo que não passa para o teu cérebro não passa para ti.
Percebeste?
Encolhes os ombros com cuidado, para evitar ficar sem braços outra vez. Não te interessa. Nada te interessa. Explicações e pormenores esbarram na tua impenetrável indiferença como num muro sem alicerces nem ameias. Só te interessas, e mesmo isso vagamente, pelo teu trabalho.
É para isso que te pagam: contar pássaros.
Contas pássaros a tarde inteira.
O fim do dia de trabalho vai encontrar-te na mesma posição de todos os dias. O fim do dia de trabalho não te tem em grande conta, e tu sabes disso porque ele nem tenta escondê-lo. Enxota-te para fora do escritório com um desprezo mal contido. E é já depois de te virar as costas que te diz até amanhã, fazendo acompanhar esta frase do blã da porta a bater, e transformando-a, portanto, em até amablã, coisa que não tem qualquer significado. Nunca chega a olhar-te, o fim do dia de trabalho. Acompanha-te fazendo os possíveis por não dar pela tua consistência.
Verdade seja dita, a tua consistência àquela hora já não é muita. Todo o teu corpo estremece, em equilíbrio precário, gotejando no passeio como manteiga derretida. Sentes-te papo-seco antes de ir ao forno, informe, tosco e vagamente amarelado.
Bem sabes que é do cansaço. Ou então é da massa.
E por isso desfazes-te na fita do tempo no mundo lá fora, onde entras agora de repente, como quem mergulha ou se deixa cair.
E é assim mesmo que sais dela, à porta de tua casa, um jorro líquido que se aglomera num charco multicolorido no passeio. Às vezes, quando queres ficar ainda um pouco a beber a luz do entardecer em copos cheios de cor de laranja, recompões-te ainda cá fora, sentas-te no lancil e fechas os olhos, à espera. Mas hoje não te apetece ganhar tempo perdendo-o, e esgueiras-te por baixo da porta. A casa ainda está vazia a esta hora, a tua mulher só chega mais tarde, e tu passeias por todas as divisões ainda em charco, recolhendo o pó e as migalhas do dia. Essa descamação da realidade que todos os dias deixam cair ao passarem pela tua casa como uma rajada é o teu lanche e tens de admitir, embora relutes fazê-lo em público, que é a refeição que consomes com mais volúpia. Adoras o sabor dos ácaros que se agarram a cabelos perdidos como se eles lhe pusessem proteger as minúsculas vidas. Deliciam-te as colónias de bactérias e bolores que tentam instalar-se nas migalhas de papo-seco que a tua mulher espalhou pela casa toda de manhã. Estalas a língua (pelo menos fazes o equivalente líquido de estalar a língua) com os restos se sol e de vento e de tempo que ficaram esquecidos pelos cantos desde o dia anterior.
Quanto a tua mulher chega, a casa está impecavelmente limpa e tu dormes a sesta dentro de um balde com o fundo coberto por uma espessa mistura de tintas de água, tintas de areia e tintas de esmalte. Gostas do cheiro, e o balde envolve-te como as muralhas de um forte, tapando-te os ouvidos já menos líquidos, já gelificados, pondo os sons de castigo fora de ti. Ficam irritadíssimos, os sons, quando os pões fora de ti, mas tu estás-te nas tintas e encostas-te ao cabo da esfregona, ronronando como um gato.
Impenetrável indiferença.
Ainda resiste, a impenetrável indiferença. Ainda se mantém impenetrável. Indiferença.
A tua mulher chega, ruidosa, arrastando as orelhas atrás de si como um véu. Quando estás acordado, gostas de assistir à sua entrada triunfal, gostas de ver o seu corpo balofo a tentar por todos os meios sair de dentro do vestido às florinhas, gostas de olhar para a nuvem de cheiros que ela carrega sempre consigo, presa às orelhas, adejante na aragem que é ela própria que provoca. É quase o único verdadeiro prazer que resta à tua vida de casado. E só funciona quando estás acordado.
Quando dormes a sesta, nas tintas dentro do balde, os trinados que dela vêm irritam-te profundamente.
— Queridinhoooo! — e tu ranges os dentes que se começam enfim a solidificar, embora os rangidos ainda saiam moles, com o som que melaço faz ao discutir com leite-creme.
— Chegueiiiiiiii! — e os punhos encerram-se em torno do teu tronco, espremendo-o como a uma laranja respingosa.
— Onde estááááááás? — e o cérebro acorda, sacode-se da tinta e aglomera-se no topo da massa gelatinosa em que te transformaste, enrolado à volta do cabo da esfregona, esculpindo-se devagar em circunvoluções, circunvalações e neurocircuncisões, bocadinhos de pele neurológica cortados e desencarapuçados.
— Ah, estás na tua sesta? — e é então que regressas à tua forma habitual de todas as noites (o sol já se pôs, bem mais discreto na partida do que na chegada), um homem de cabelos revoltos e um bigode fininho deitado sobre os lábios, molhado, coberto de pedacinhos de tintas de todas as cores, que tentas sacudir para dentro do balde sem mais sucesso que o de um lançador do disco a correr os 100 metros.
— Estava — resmungas, mal humorado, de cenho carregado como uma camioneta das mudanças, a testa orlada de mesas e cadeiras, uma cama de espaldar onde as tuas ideias dormem a sesta e uma estante coberta de bibelôs e com uma televisão desligada a um canto.
— Dá cá um beijo — exige a tua mulher, pondo-se em bicos dos pés à tua frente. Tu dás-lhe o beijo. Pegas nele com um esgar de asco (nunca gostaste de pegar em beijos, sempre os achaste vagamente asquerosos ao toque) e colocas-lho com indiferença sobre os lábios.
— Bem podias dar-me um beijo com um bocado mais de alma, que diabo! — queixa-se ela, tricotando um beicinho amuado. Era rápida: ficou pronto num instante.
— Desculpa — desculpas-te — tenho andado um bocado seco de alma ultimamente. Deve ser do calor. A alma evapora.
— E por falar nisso — acrescentas, depois duma pequena pausa — vou tomar banho.
Tomas um banho longo e fumegante, a água tão quente que a pele se te encaracola e desprende, deixando-se erodir como areia debaixo de chuva, cavando longos regos, cada vez mais profundos, até cair no fundo do poliban, rodopiar duas ou três vezes como bailarinas, envoltas em tutus de pele de bactéria, e mergulhar ralo abaixo soltando gritinhos de excitação e volúpia.
A lavagem é profunda. Chega-te aos ossos, especialmente os do crânio, que são os que estão normalmente mais próximos do mundo exterior, e em breve estás exangue e branco como uma caveira. Mas manténs o bigode fininho, não já deitado sobre os lábios, mas deitado sobre os dentes do maxilar superior, enroscando as pontas no arco zigomático.
Depois, submerges por completo, esqueleto e fiapos de carne, para que o corpo se te reconstitua envolto em sabonetes e loções. Acabas o banho como novo, limpo e perfumado como um bebé. Bolsas um bocadinho e sentes-te triste e alegre ao mesmo tempo.
É nessa altura que a tua impenetrável indiferença se deixa penetrar por uma penetrável diferença, e recolhes-te em ti mesmo, presa de todos os sentimentos que não tiveste ao longo do dia. Irritas-te ao mesmo tempo que te ris, deliciado, das coisas divertidas que te disseram ou fizeram, choras de tristeza enquanto tentas sem sucesso reprimir um bocejo do mais completo tédio (contar pássaros é uma seca) e ficas de boca aberta durante longos minutos, as cordas vocais em funcionamento contínuo num longo, looongo, looooooongo som, mais semelhante a um urro do que propriamente a um bocejo, que ainda por cima resolve andar a passear de parede em parede como macaco entre ramos, ampliando-se em ecos e reverberações que te põem as orelhas a abanar
Dura algum tempo, o teu momento de penetrável diferença, e quando enfim termina és apenas mais um homem, miserável como todos os homens, rodeado de silêncio, como todos os homens, ainda que no teu caso esse silêncio seja cortado por um zumbido grave, quase inaudível, o zumbido que fazem as tuas orelhas a abanar.
Mas é limpo e rosado que sais da casa de banho. Ouves os ruídos de cozinha que a tua mulher faz na cozinha, presa de um papel feminino que as outras mulheres recusam mas a tua desempenha com vontade e alegria, o de proporcionar ao seu homem bem-estar e segurança à custa do seu próprio bem-estar e segurança. Abanas a cabeça e ela protesta abanando-te a ti e é todo sacudido que pensas, como todos os dias, que não sabes bem se hás-de agradecer-lhe se de sentir pena dela, das barras que a rodeiam sem que ela as veja, uma gaiola em que ela, ave canoira, lança trinados saltitando de poleiro de mármore em poleiro de mármore, entre a bancada, o frigorífico e o fogão.
O pior de tudo ainda são os trinados.
Arrastas-te até à cozinha com dificuldade, deixando um rasto de chão molhado atrás de ti e sentindo-te caracol, com as costas enrugadas numa sugestão de espiral. Paras à porta e respiras fundo. A tua mulher chilreia num espanejar de orelhas, fazendo movimentos ritmados com as penas da crista. No fogão, algo frita, atirando ao ar uma mão-cheia de cheiros que convergem sobre ti como setas. Não resistes. Já aprendeste à tua custa que ao lidar com cheiros agressivos o melhor é não fazer ondas, deixar o soalho liso e fazer tudo o que os cheiros ordenarem. Até porque raramente ordenam coisas mais complicadas do que "senta-te!" ou "aqui!" ou "come!" ou, no fim, "arrota!", e tu estás quase sempre de acordo em fazer precisamente essas coisas. Deixas-te ir. Em breve estás sentado à mesa, de garfo na mão e um relógio a dar horas no estômago (ao segundo sinal serão dezanove horas, vinte e cinco minutos e quarenta e três segundos, piip, piip), enquanto a tua mulher pára de imitar uma sinfonia de melros (finalmente!), perde a penugem, deixa cair o bico na sopa como tempero final, mexe a panela mais um pouco e dá por terminado o trabalho, com um sorriso satisfeito a estender-se pelas bochechas em espirais iridiscentes.
Comes em silêncio, fazendo grandes pausas entre as garfadas e as colheradas, para dar tempo a que os alimentos se te aquietem no estômago. Costuma ser uma regatice pegada sempre que uma nova colherada ou garfada cai do esófago e aterra em cima das garfadas e colheradas que já se encontravam no estômago, indo lá encontrar resmungos, impropérios, aquilo que para o bolo alimentar faz as vezes de cotoveladas e muitos empurrões enquanto não se descobre, algures, um lugar para os recém-chegados que não incomode os que já lá estavam, satisfeitos nas suas saunas de ácido.
Comes em silêncio, salvo a barulheira que vai pelo teu estômago. A tua mulher, por sua vez, come também em silêncio, depenicando a comida como só ela sabe fazer, com uma delicadeza de grou. Em tempos, as perguntas sobre "o teu dia" entrecruzavam-se, abraçando-se no ar que vos separava, soltando gritinhos de reconhecimento (há tanto teeempo!) e apertando as bochechas aos pequerruchos. Mas vocês fartaram-se de ouvir sempre as mesmas respostas, de dar sempre as mesmas respostas, da barulheira cada vez mais falsa, mais postiça, mas irrealista que as perguntas faziam ao se encontrarem, e agora comes em silêncio com o longo bigode fininho a roçar, tristonho, as bordas do prato, ao lado da tua mulher, que come em silêncio, as longas orelhas acachapadas sobre a cabeça como um véu muçulmano.
Allahu akbar.
É ainda em silêncio que acabas de comer, levantas a mesa e segues com ela até à máquina de lavar, onde a sacodes, fazendo cair nos receptáculos respectivos pratos, copos e talheres e enchendo tudo de lixo. Nada se parte. Nada nunca se parte na tua casa, a não ser que seja acidentalmente que o desequilíbrio e a queda acontecem. Se por acaso dás um encontrão num copo, por mais fraco que seja, ele imediatamente se atira da mesa abaixo, guinchando ao longo da queda (ooooooh nãããuuuuuu!) e estilhaçando-se no chão em mil cacos que ficam a ralhar-te, estendidos de costas, esperneando espículas de vidro, enchendo-te os ouvidos com acusações de desastradodesastradodesastrado. Até com os talheres acontece o mesmo: se apanham um encontrão atiram-se para o chão e aí se espatifam numa miríade de bocadinhos quase invisíveis de aço inoxidável. Houve um tempo em que isto te afligia, mas aprendeste a não ligar importância e a voltar costas quando um dia em que algo te chamou a atenção para longe destes pequenos dramas reparaste que bastou deixarem de ser o alvo das tuas dores de cabeça para que as coisas partidas se recompusessem, os cacos maiores a passear dum lado para o outro a agarrar nos mais pequenos e a engoli-los atirando-te impropérios de encontro às costas (cabrão! Tanto que fazemos por ele, e não nos liga nenhuma! Cabrão!). Mas, se é de propósito que as coisas são atiradas ou deixadas cair, permanecem inteiras como se nada fosse.
Na tua vida, é assim que as coisas são.
Quando acabas de tratar da cozinha a tua mulher pendura-se a ti como um badalo e seguem os dois até à sala, tu em passos arrastados e ela a badalar (bloing bloing) de encontro às tuas pernas ao mesmo tempo que te vai lambuzando a cara. Às vezes dá-lhe assim para a ternura e enrola as orelhas no teu pescoço como se se quisesse transformar numa gravata. Tu vais protestando com suavidade (querida... não... vá lá... não... ouve... uff... espera...) enquanto começas a encurvar as costas por acção do peso que carregas. Chegas à sala corcunda e um pouco vesgo, com uma crista dorsal feita de vértebras cuja substância óssea se deslocou para o exterior do teu corpo, por falta de lugar livre de pressão no interior.
Derramas-te depois no sofá numa onda de espuma sólida na qual a tua mulher flutua. Procuras o telecomando às apalpadelas. O telecomando esquiva-se, rindo baixinho o seu riso escarninho. Consegues raspar por ele um par de vezes até que, finalmente um dedo que fizeste crescer desproporcionalmente ao tamanho não só de ti ou do sofá, mas da própria sala, logra apertar num botão, qualquer botão. De súbito obediente, o telecomando aquieta-se e ordena à televisão que se acenda. A atenção da tua mulher sofre uma viragem que já esperavas e ela murmura um que liiindo! e abranda o seu enlace, embora continue deitada sobre ti. Começas então a recompor-te, solidificando na tua forma verdadeira, ou pelo menos naquilo que em ti passa por uma forma verdadeira, meio reclinado sobre o sofá, com os pés assentes na pequena mesa que está no meio da sala precisamente para que tu lá abandones os pés enquanto o teu cérebro se vai apagando devagarinho à medida que as imagens da noite se vão sucedendo no écran.
Começa assim a parte menos surrealista do teu dia.
São três as horas que ficam os dois despejados no sofá, estáveis na forma e nas posições que vão mudando só de longe a longe, como se estivessem na cama, a sonhar com calma, e se virassem de vez em quando de barriga para cima ou de barriga para baixo. Mas para ti é como se fossem quinze minutos, porque desde que se te apaga o cérebro tu desapareces para qualquer lado e o tempo dá um salto sem que nele existas, propriamente. Com a tua mulher, passa-se o mesmo, tanto quanto saibas, e é como se a televisão enchesse a sala de pixels azulados em permanente frenesi de mudança, desalojando de lá tudo o que não fosse feito de pixels azulados em permanente frenesi de mudança. Se calhar, é mesmo isso que acontece. Tu não sabes, e nem tens como saber. A verdade é que nem quererias saber, se pudesses. Simplesmente, não te interessa.
É o regresso da impenetrável indiferença.
O feitiço, se feitiço é, quebra-se com o primeiro grande bocejo da noite. Solta-o um dos dois, nunca se sabe bem qual, mas a esse primeiro sucedem-se outros em cascata, cada vez mais dissonantes, cada vez mais volumosos, cada vez mais absolutos. E a sala, cada vez mais incomodada, começa a rebelar-se contra tal enlouquecimento (enrouquecimento?) de bocejos. Primeiro é o sofá, que desata em ondulações cada vez mais enjoativas; logo depois é a mesa que se esgueira de debaixo dos vossos pés, deixando-os cair e bater no chão com um poft mole. Depois são todos os objectos que cobrem a sala de uma camada de habitação que começam a vibrar, a ranger, a raspar, tentando contrariar dessa forma o vosso ruidoso ataque de tédio. E por fim, é a televisão, que se apaga, obedecendo com relutância às ordens do telecomando, até ele já farto dos vossos bocejos.
É então que a tua mulher se levanta, resmungando:
— Ai, que dor de cabeça! Acho que vou tomar um comprimido.
E se arrasta até à casa de banho, onde ficam as tocas de quase todos os seus comprimidos. Tu ainda ficas mais um pouco em frente da televisão, observando o modo como o écran negro reflecte o contentamento da sala, recém-regressada à sua placidez habitual. Mas também acabas por te levantares e seguires, cambaleante, o caminho do quarto.
Aí chegado, esperas que a roupa se te dissolva num pijama com aspecto velho e muito coçado e deixas-te cair sobre a cama. A tua mulher chega pouco depois, e tu ficas a observá-la pelo único canto de olho que ainda permanece livre de pálpebra, enquanto a roupa dela se dissolve num pijama não menos velho e coçado do que o teu, apenas mais florido. Há muitos anos que aquela visão não te desperta vontade de a ver nua, talvez pelo que vislumbras por baixo do pijama, talvez porque já sabes que não vale a pena, ainda que o teu pénis acorde e te pergunte o que se passa ao que tu respondes que não se passa nada. O teu pénis vira-te as costas, resmungando que nunca se passa nada e libertando depois um par de impropérios contra a puta da vida que lhe havia de calhar, caralho, enquanto que tu encolhes os ombros, segurando bem neles para que os braços não se encolham também.
A tua mulher murmura então um até amanhã e fecha a luz como quem fecha a porta. Tu revês o teu dia durante cinco minutos, pensas ociosamente que foi um dia menos mau e soltas um suspiro, não sabes se de resignação se de desalento.
Depois, deixas-te dormir.

sexta-feira, 4 de junho de 2004

Spam fiction (4)

A vida bela de Klaus Miragata


Baseado num spam intitulado "A vida e bela que por vez cai no cão" (sic)


Klaus sai já quase seco do cubículo a que chama duche. Vem ainda com restos de sabão pegados ao corpo, como todas as manhãs. A água nunca é suficiente, até porque ele aproveita sempre o banho para beber alguma. A água anda cara e escassa; há que aproveitar. Klaus olha para a janela. O remoinho pálido da manhã olha para ele, da janela, dizendo-lhe que é tarde, como de costume, como se fosse necessário. Klaus esfrega-se na toalha imunda, com o vago asco de todos os dias, um asco que já é quase uma segunda natureza, como que uma armadura que lhe reveste os poros para impedir a sujidade de entrar.
Klaus engole à pressa os flocos. Coisas brancas e secas, sem sabor, ou então com sabor a papel temperado com plástico em pó. Uma merda.
Klaus já devia estar habituado. Não está. Não parece haver maneira de se habituar a levantar-se sempre tarde, tomar banhos que nunca chegam a limpá-lo, apressado pelo tiquetaque subjectivo, mas impiedoso, do relógio embutido no pulso, que lhe destila urgência para as veias, passar a vida com sede, ou com fome, ou com sede e fome ao mesmo tempo, enquanto o corpo se desfaz em comichões, como se em vez de pele os seus músculos estivessem cobertos por uma membrana de parasitas.
E se calhar estão mesmo. Há por aí uma nova estirpe de ácaros, diz-se, dez vezes mais agressiva que os velhos causadores de alergias, diz-se.
Diz-se.
Diz-se tanta coisa...
Klaus sai do seu apartamento para o calor húmido da madrugada. Vai a pé até à paragem do electrocarro, mistura-se com a multidão, discreto, procurando passar à frente dos demais sem que ninguém dê por isso. Mas alguém repara no movimento, como sempre acontece. Nas ruas sobrepovoadas, os comportamentos alheios são vigiados com olhos penetrantes como os de falcões, capazes de detectar e interpretar os mais invisíveis dos sinais. Klaus é assediado por insultos, ameaças e cotoveladas e até por uma ponta de um cigarrino de canábis que lhe chamusca o cabelo da nuca. Aos insultos e ameaças, e mesmo às cotoveladas, Klaus responde quase sempre com indiferença. Mas esta é forçada, falsa, pouco mais que máscara e, por isso, por vezes cai, libertando a violência subjacente, especialmente quando aos insultos, ameaças e cotoveladas se acrescenta qualquer coisa.
Como agora. Klaus estende o braço, mão cerrada em punho, e esmurra quem lhe atirou a beata. Uma pancada seca e forte, na boca do estômago, e um olhar furioso, deixam o outro sem resposta, um pouco dobrado sobre si próprio, mas não muito para não dar parte de fraco.
Nas ruas, dar parte de fraco é perigoso.
Klaus sente-se filho de puta. E não gosta nada de sentir-se filho de puta. Nada.
Mas a vida é bela. A vida é bela.
O electrocarro chega, e Klaus consegue entrar. Começa a suar quase de imediato, ou então são os corpos dos vizinhos que suam por ele, enchendo-lhe os poros de gotículas, ajudando a que estas se agreguem em gotas e fazendo com que estas, por sua vez, se transfiram para a camisa de tecido grosseiro, alastrando por ela em grandes manchas escuras que se agarram à pele (aos ácaros?) como cola líquida.
A viagem é longa e incómoda, feita de empurrões e sacolejos, à medida que o electrocarro se vai tentando desviar dos buracos maiores, só para ir cair nos mais pequenos. Klaus agarra-se aos vizinhos para não cair. É sempre assim. As viagens nos electrocarros são uma náusea de encontrões, os passageiros transformados numa mole humana que quase se funde numa massa única de carne, pêlos e piolhos, intercalada de cabeças que tentam manter, a custo, alguma individualidade.
Cada paragem é um alívio para quem sai e uma ocasião para quem fica fornecer um exemplo prático das leis que regem os movimentos dos líquidos, à medida que as novas partículas dos passageiros que entram procuram encontrar maneira de preencher o espaço deixado vago pelos passageiros que saem.
Caos browniano em todo o seu esplendor. E com bónus: fede.
O electrocarro sacoleja por fim até à paragem de Klaus, que fura para a saída com a eficiência de uma vida de prática. Alívio. Mas alívio que não dura: o electrocarro chegou atrasado, como sempre, e Klaus tem menos de um minuto para chegar ao escritório.
Corre.
Depressa abranda.
A língua começa a secar-lhe na boca, e ele sabe que não terá água tão cedo, portanto acaba por parar numa sombra até recuperar o fôlego. O calor é uma manta que sufoca. O ar que lhe entra nos pulmões vem ardente e pesado de cheiros a substâncias insalubres. Não ajuda muito. A sede aperta.
O relógio embutido no pulso começa a estremecer. Está na hora. Deveria estar nesse momento a sentar-se e a estender as mãos para o equipamento.
É a terceira vez esta semana.
Corre.
Minuto e meio depois, de novo respirando com força e suando copiosamente, Klaus senta-se no seu cubículo: um monitor, um teclado, um equipamento de RV e uma cadeira. A paisagem de todos os dias durante dez horas. Mas hoje, preso no teclado, entre duas filas de teclas, está uma novidade. Um cartão de plástico com um garatujo:
"Miragata, favor aprezentesse no xkritório nº 11, logo de manhã"
Klaus relê o recado. Não compreendeu à primeira (favor quê?), mas o jogo de equivalências fonéticas que é obrigado a fazer finalmente dá os seus frutos.
Fica ainda uns minutos sentado, a recuperar completamente o fôlego, à espera que o seu metabolismo deixe de produzir calor em excesso e que as suas glândulas sudoríparas se aquietem. Não é boa ideia chegar ao escritório 11 encharcado. No 11, quanto mais fresco e descontraído se entrar, melhor é.
O ideal, claro, seria não entrar nunca no 11.
Mas a vida é bela.
Pouco depois, Klaus passa os dedos pelos cabelos, alarga a gola da camisa e abana-a, tentando fazer fugir o cheiro e os outros sinais do suor. Mas está muito calor, suar um pouco é natural, e Klaus levanta-se.
O escritório 11 é uma sala ampla, sem janelas, com um écran gigantesco a cobrir duas paredes, parte dele ocupado com uma vista aérea da cidade, a outra parte fragmentada em centenas de imagens individuais de cubículos individuais. Uma mesa enorme, em forma de L, ocupa o centro da sala, e sentado por trás dela, o Shiva parece resumir-se a uma careca enquanto digita qualquer coisa no teclado.
Klaus fica à espera, à soleira, que o outro resolva reparar nele.
Demora.
Mas enfim acontece:
— Ah, Miragata, estava à tua espera. Senta-te, senta-te. É só um pedaço.
Klaus senta-se e espera, em silêncio. O 11 é normalmente um sítio silencioso. Um sítio onde se ouve e não se fala.
O Shiva finalmente termina o que quer que estava a fazer e ergue os olhinhos de rato para Klaus:
— Miragata, imagino que não sabes porque é que te chamámos para aqui.
A língua que este gajo fala é pavorosa, pensa Klaus, e responde-lhe com um sorriso, dúvida e sabedoria de vida ao mesmo tempo, e com um gesto vago com a mão. Tudo em silêncio.
Na vida bela o silêncio é de ouro.
— Óptimo, óptimo — diz o outro, também ele com um sorriso nos lábios cobertos de feridas. — Miragata, és um bom elemento, mesmo de chegares atrasado ao trabalho muitas vezes.
Klaus esboça um gesto vago de desculpas.
— Eu sei, eu sei — atalha Shiva. — Os transportes são maus e nunca chegam a horas. Eu sei. Eu disse que és um bom elemento. Mas a verdade é que a empresa está em reestruturação — continua, de olhos baixos, como se estivesse a ler estas frases de um guião. — O novo software veio diminuir a necessidade de controladores, e estamos a reavaliar a nossa necessidade de pessoal. Além disso, todos os nossos concorrentes trabalham exclusivamente em teletrabalho. Nós escolhemos o método antigo por uma série de razões que não vêm ao caso, mas a administração acha agora que foi uma má ideia e quer mudar tudo. Portanto, estamos a ver alternativas.
Shiva pára de falar, ergue os olhos para Klaus e fica à espera. Este acena mas mantém-se em silêncio.
— Que dizias de ires trabalhar para casa? A companhia empresta-te o teu equipamento e tu fazes todo o teu trabalho em casa, à tua vontade, sem transportes nem chatices.
Era uma pergunta directa. A esta Klaus tinha de responder.
— E qual é a alternativa?
Shiva encolhe os ombros e abre os braços e volta a olhar para baixo:
— Acho que não ias gostar da alternativa. Digo-te só que estas instalações vão fechar para obras e depois serão vendidas para cobrir os custos das viagens deste ano da administração. Segundo os relatórios de desempenho, a representação da empresa nos congressos de Saaremaa, San Andrés e Tokelau saiu cara este ano, e as mais-valias lá obtidas não compensaram. — Shiva volta a erguer os olhos. Atrás deles vinha um sorriso diagonal, com uma ponta de desprezo — É o que acontece quando se leva a administração toda para as ilhas do Pacífico, mais secretariado e electroassistentes, mas pronto...
Klaus fica calado. O teste de lealdade era demasiado óbvio.
— Muito bem, muito bem. Adiante. Como vais passar a não estares presente aqui no escritório, o teu salário vai passar a ser calculado na base dos objectivos, como é natural. Se trabalhares bem, até pode ser que ganhes um bocado mais do que tens ganhado antes.
— Quanto?
A testa do outro franze-se com a pergunta directa. Mas diz quanto.
Klaus faz contas de cabeça. Sem contar com o que ia gastar a mais em energia, água e alimentação, ia ter de passar a trabalhar quase onze horas por dia para ganhar o mesmo.
Negócio de merda.
— Tenho tempo para pensar na proposta?
Shiva volta a baixar a cabeça:
— A administração quer resolver este assunto tão depressa quanto possível, de modo que preferíamos uma resposta já. Até porque isto, no fundo, é uma promoção. Quem não gostaria de ser dono do seu próprio tempo?
Então ele é isso. Querem que não haja tempo para pensar, pesar prós e contras, fazer contas, para que os empregados mordam a isca de serem donos de si mesmos e não se apercebam de que, para a empresa e para eles próprios, o negócio vai muito para além disso.
A vida é dura nas ruas. Mas quando se vive em escravatura voluntária no limiar da sobrevivência qualquer redução nos rendimentos pode pesar mais do que o medo.
Por outro lado, há o medo. Da mudança, do desconhecido, da violência, da fome. Da morte. Da morte dolorosa.
Klaus volta a fazer contas de cabeça, tentando, desta vez, contar com todos os factores.
Sim, é mesmo um negócio de merda.
Mas tem de aceitá-lo. Antes algum rendimento que nenhum, antes comer uma vez por dia papel temperado com plástico em pó do que ter de...
Até pensar nisso é difícil. Parece que o cérebro se recusa, como se alucinasse com flores onde só há lixo, como se bloqueasse o que é desagradável, o que põe em causa a esperança, o que dói.
Tem de ser. Pelo menos durante algum tempo. Pelo menos até arranjar qualquer outra coisa. Pelo menos...
Shiva interrompe-o:
— Então? Estou à espera. Não tenho todo o dia para falar contigo.
Que se lixe, pensa Klaus.
A vida é bela.
— Diz à tua administração, Shiva — diz, enquanto se levanta — que pode enfiar a promoção no olho do cu. De preferência num congresso qualquer no Taiti.
E sai, fechando com cuidado a porta atrás de si.

sexta-feira, 28 de maio de 2004

Spam Fiction (3)

A triste sina de uma rapariga triste


Baseado num spam intitulado "I'm a sad girl..."


Sou uma rapariga triste.
O Robinho não gosta de mim.
Oh, sim, já fiz tudo. Mandei-lhe mensagens animadas, comigo a ser simpática para ele, só para ele. Não resultou. Mandei-lhe mensagens de corpo inteiro para ver se ele via no meu corpo o que não tinha visto em mim. Não resultou. Até lhe mandei mensagens só de texto, porque podia ser que ele fosse daqueles que têm o fetiche das letras. Não resultou. Tentei depois ser sedutora e comprei num leilão online um body estranhíssimo — mas a Paty disse-me que os homens gostam — e vermelho — isso eu já sabia que os homens gostam —, vesti-o por baixo de um fatinho transparente e fui ter com ele fazer-lhe olhinhos e boquinhas. Não resultou. Depois, tentei o recato e o embaraço, pensando em coisas que me fazem corar e desfazendo-me em risinhos ao pé dele. Não resultou. Pintei-me muito. Não resultou. Fui ter com ele com a cara que vejo ao espelho depois de acordar (bem, mais ou menos). Não resultou.
O Robinho não gosta de mim.
Mas eu não sou mulher para desistir assim, por dá cá aquela palha.
Ainda se o Robinho fosse homossexual... mas não é, que eu bem o vi com a serigaita da Amélia aos beijinhos e abracinhos e ela a derreter-se toda junto dele.
Grande puta!
Mas ela há-de ver. Eu não sou mulher para desistir assim, por dá cá aquela palha. Eu sei das coisas. Vejo filmes e novelas e falo com as minhas amigas, até mesmo em pessoa. Ela há-de ver.
A Amélia é minha amiga, pensa ela. Fizemos amizade há semanas, na sala virtual da Cosmo. Ela, com o corpo dela própria, vestia um modelo exclusivo de um estilista qualquer japonês, e eu, disfarçada de Sófi, também. Quer dizer: não o mesmo modelo, claro. Mas parecido. Ela achou engraçado, e veio ter comigo a dizer que nós devíamos tornar-nos amigas porque tínhamos muito em comum. Eu ri-me muito — quando quero, sei bem ser uma vaca hipócrita — e disse que também achava. Se lhe passasse pela cabeça que o que nós tínhamos em comum era eu ter andado a perguntar que tipo de porcaria vestia aquela rameira nas salas virtuais...
Mas pronto, ficámos amigas. Amigas com aspas, está bem de ver. Falámos de roupas, depois de modelos, depois de signos, depois de roupas outra vez, depois de actores giros e finalmente de homens. Tentei não mostrar demasiado interesse quando a conversa passou pelo Robinho, mas não havia perigo, porque foi só de raspão e ela estava distraída.
Nessa noite, saí da sala virtual triste. O meu quarto estava escuro como uma ameaça, e eu corri a acender todas as luzes. Não gosto do escuro. Faz-me pensar em bichos rastejantes e castanhos — vi um, uma vez, e ia morrendo de susto. E depois outra vez, de nojo.
Mas adiante: continuámos a encontrar-nos, sempre na sala da Cosmo, sempre vestidas de quase igual, como as melhores das amigas. Aos poucos, ela começou a contar-me coisas do Robinho, o que o Robinho fazia, o que o Robinho dizia, o que ela sentia quando estava com o Robinho e eu, tentando reprimir a raiva, tentava dirigir a conversa para o que me interessava mesmo: o que o Robinho gostava. Sem grande sucesso. Ou a Amélia não sabia lá muito bem o que é que agrada ao Robinho, ou tentava esconder o que sabia, até mesmo das amigas.
O que vale é que uma ou outra coisa lá ia caindo, quase por acaso.
Foi assim que fiquei a saber que o Robinho gostava do peito com uma certa forma. Parece que, para ele o peito ideal devia parecer-se com metade de um limão. E o meu, que mais parecia uma ervilha...
Pus-me logo a fazer tratamentos, claro. Há agora uns adesivos novos, os Genepor, que te mudam o corpo da maneira que quiseres. A caixa tem uma porção de palavras complicadas, substituição genética, e não sei quê, replicação de ARN, e não sei que mais — eu não percebo nada disso. Mas disseram-me que funcionava, e eu experimentei.
Funciona mesmo, sabiam? E só tive de esperar uma semana até poder ir ter com o Robinho com um vestido de alças e um decote gigantesco para que ele visse tudo.
E quando eu digo tudo, é tudo.
Não resultou.
Mas não desisti. Já vos disse que não desisto assim por dá cá aquela palha, não já?
Voltei para a sala virtual da Cosmo, mas a Amélia não estava e andei por ali horas, meio perdida, a trocar olás e sorrisos com perfeitas desconhecidas. Levei todo esse tempo a perceber que naquele dia não iria sequer conseguir roubar mais algum segredo à Amélia, e quando finalmente o percebi, quase fugi dali para fora, de volta ao meu quarto.
Chorei muito nessa noite.
Com as luzes bem acesas.
Passaram-se vários dias, sempre na mesma. Entretanto, o efeito do Genepor ia passando e o meu peito voltava devagarinho ao seu triste estado normal. Não estou a dizer isto por nada de especial, não pensem que se nota alguma coisa na sala virtual, que eu não tenho instalada aquela parvoíce do espelho virtual. Prefiro ser lá dentro tão voluptuosa quanto quiser. Eu, e a maior parte das pessoas que eu conheço. Até já ouvi histórias bem picantes com raparigas que se fazem passar por homens. Umas esgrouviadas.
Mas às vezes, misturo um bocadinho a vida virtual com a real, e nem sempre consigo agir de um dos lados da fronteira conforme a pessoa que sou desse lado da fronteira. Olhem os seios, por exemplo: na sala virtual, no meu disfarce de Sófi, sou bem fornecida, e já tenho dado por mim a exibir as minhas tristezas na vida real, como se tivesse alguma coisa para exibir. E vice-versa, claro.
É triste ser assim, despassarada.
Mas estou a perder-me. Voltemos ao que interessa.
Passaram-se vários dias, sempre na mesma: eu ia à sala da Cosmo à procura da Amélia e nada de Amélia. Deambulava por lá durante horas, quase sempre sozinha, e depois voltava para a tristeza do meu quarto e para a minha actividade preferida nele: ensopar lencinhos de absorvan. E, durante todo esse tempo, o pensamento que não me largava os sacos lacrimais era só um:
O Robinho não gosta de mim.
Já começava a achar que iria ter de arranjar outra forma de retomar contacto com a Amélia, ou até outra maneira totalmente diferente de saber coisas do Robinho, quando, enfim, dei de caras com a minha rival no sítio de sempre.
Fiz-lhe uma festa. E nem precisei de fingir muito. Logo de seguida, como é evidente, crivei-a de perguntas, intercalando sorrisinhos com beicinho de amuada.
— Então por onde andaste? Não soubeste avisar? Passou-se alguma coisa? Nunca mais ninguém te viu, zangaste-te? E o Robinho?
Sim, perguntei-lhe mesmo pelo Robinho, assim, sem mais nem menos, de chofre.
O que vale é que ela estava distraída, como é hábito.
— Oh, não me digas nada! — respondeu-me — Andei por fora precisamente por causa do Robinho. Então não é que uma vaca qualquer andou a atirar-se ao meu homem? Tive de fazer horas extraordinárias, para reparar os estragos. Se apanho aquela barata, desfaço-a!
Acho que soltei um soluçozinho ou coisa do género.
Pelos vistos tinha quase resultado. Quase. Se não tivesse sido a Amélia...
Grande puta!
— É mesmo assim — consegui dizer. — Se não temos cuidado com os nossos homens, é um ar que se lhes deu. O que não falta por aí é cacatuas prontas a ferrar-lhes o bico.
Claro que a cacatua era ela. E, oh, que prazer foi vê-la a concordar comigo!
Mas com a Amélia as irritações não duravam muito e não demorou até que a nossa conversa regressasse ao normal: roupa, modelos, signos, roupa outra vez, actores giros, homens e, de vez em quando, e de raspão, Robinho. E daí não saímos durante vários dias, eu sempre à cata de alguma informação útil e ela, sem dar por nada, a falar de porcarias.
Oh, claro que eu gosto das minhas conversas sobre trapos, modelos, signos, homens e actores. Mas o que eu queria era saber do Robinho!
Quem espera sempre alcança, dizia-se antigamente, e finalmente lá caiu qualquer coisa de útil nos meus ouvidos sequiosos.
Pelos vistos, o meu Robinho pelava-se por olhos verdes.
E os meus, claro, tinham de ser castanhos.
Comprei mais um pacote de Genepor para os seios e um frasquinho de Oculindo, um produto novo, em aerossol, que se borrifa para dentro dos olhos e lhes faz um tratamento cosmético completo, incluindo uma mudança da cor da íris tão perfeita que é como se tivéssemos nascido com a cor nova. Quando o crescimento do peito se completou, pus outro vestido, ainda mais transparente e decotado que o anterior, obtive magicamente os meus olhos verdes, fiz tudo o que pude para realçá-los à base de maquilhagem, e parti para a caça.
Estava linda. Mesmo linda.
Mas não resultou.
O Robinho não gosta de mim.
Em compensação, passei uma noite esplendorosa com um amigo dele, o Arnaldo. Não tanto pelo sexo, que nisso ele não era grande coisa (ou então era eu que não estava para aí virada, sei lá), mas mais pelo que o Arnaldo me contou do Robinho.
Falámos dele a noite toda.
E nem precisei de puxar a conversa: o Arnaldo parecia ainda mais fascinado pelo meu homem do que eu. E sabia muitas mais coisas dele do que eu, muitas mais.
O Arnaldinho revelou-se uma mina.
Fiquei, portanto, a saber que o Robinho tem um fraco por raparigas de 16, 17 anos, e que gosta delas com pernas longas, estreitas e flexíveis — pernas de gazela, disse o Arnaldo —, que simplesmente adora uma tatuagem atrevida num sítio íntimo, que perde a cabeça por mulheres de voz aguda, desde que não seja estridente, e que gosta de cabelos com reflexos exóticos. Ah, e um cheiro qualquer que o Arnaldo não me conseguiu descrever. Parece que o Robinho fala muito do cheiro das suas mulheres, mas diz que não tem palavras para o descrever. O resto foi óptimo, mas esta última parte deixou-me um bocado frustrada. Ter sido só isto que consegui saber...
Bem, para ser franca não foi: descobri também que ele tem uma tara secreta por buços.
Esta informação fez esmorecer um pouco a minha paixão pelo Robinho. Poderia eu estar mesmo apaixonada por um homem que gosta de... buços? De mulheres de bigode?
Andei um dia inteiro a analisar os meus verdadeiros sentimentos, e tanto os analisei que ao fim da tarde estava pronta, pensava eu, a esquecer todo aquele assunto, esquecer o próprio Robinho, e devolver à minha vida um pouco de serenidade. Mas depois cruzei-me com ele na rua e fiquei especada, a olhar.
A olhar, sim, dirigindo olhares de enlevo ao Robinho e lançando-os furibundos à rameira da Amélia, que se esfregava nele como se fosse uma toalha.
Se os olhos pudessem matar, juro que estaria agora a fugir da polícia.
Aquela puta, puta, puta, puta!...
O pior de tudo foi que o Robinho nem reparou em mim. Pudera: não tenho pernas longas, estreitas nem flexíveis, nem tatuagens, nem nada de exótico no meu cabelo louro, nem buço, nem voz aguda e muito menos 16 anos. Assim, não admira que o Robinho não goste de mim.
Fui logo para casa, ai, tão triste, espalhando pelas ruas um rasto de lágrimas.
Não dormi nessa noite. Mas quando a manhã começou a espreitar entre os prédios da cidade, encontrou-me resoluta, de decisão recém-tomada. É que eu não desisto por dá cá aquela palha, nem mesmo quando depois de uma palha vem outra, e outra, e outra, e um fardo inteiro. Eu não desisto, ponto final.
Liguei-me à minha biutichópe e encomendei uma remessa inteira de pacotes de Genepor, de vários tipos, um frasco novo de Oculindo, uma bisnaga de Courobelo, que é uma pomada que se espalha no couro cabeludo e que transforma, sozinha, a cor dos cabelos, uniformemente, da raiz até às pontas. Mandei vir também dois emplastros de Genetatu, que são assim uns adesivos que vêm com um produto qualquer (DNA? Se calhar...) arranjado aos desenhos, e que, quando se cola na pele, cria uma tatuagem, muito depressa e muito perfeita. Encomendei um coração, para pôr na omoplata, e um escorpião, para pôr... bem... algures. E arranjei também uma carteira de Heliogeias, grageias que se tomam para tornar a voz mais aguda, e um frasco de Pilosan, que estimula o crescimento dos pêlos corporais. E, para rematar, a encomenda ficou completa com um tratamento completo de Filosostone. Custou-me os olhos da cara, o Filosostone mas, se cumprir o que a propaganda anuncia, irá valer bem a pena.
Rejuvenescimento, cá vou eu!...
Assim que as coisas chegaram, fechei-me em casa e tratei de começar imediatamente a aplicar os produtos. Levei quase um mês em alterações, suportei dores e tudo, apanhei uma irritação de pele no sítio onde coloquei um dos emplastros de Genetatu (só depois vi que já estava fora do prazo) que precisou de anti-histamínicos para passar — mas a tatuagem ficou lá, isso é que importa — enfim, passei um mau bocado.
Mas quando tudo aquilo acabou, não reconheci a rapariga que olhava para mim, do espelho, com um sorriso de orelha a orelha a fazer-lhe covinhas nas bochechas.
Era um bocadinho esquisito, mas como já estava habituada a acontecer-me o mesmo nas salas virtuais, não estranhei. Na verdade, já estava à espera.
Do que não estava à espera é de não ter nenhum conjunto que servisse no meu corpo novo. Nada do que tinha me ficava bem: as minhas velhas roupas ficavam-me todas larguíssimas e curtas, além de não jogarem mesmo nada com as novas cores dos meus olhos e cabelo.
Até a roupa interior parecia disforme. Só conseguia vestir o body vermelho, que era ajustável, à antiga, com colchetes e velcro, e um fato de tecido inteligente, o meu fato mais caro, que se ajustava sozinho, à moderna.
Ainda por cima, os tratamentos tinham-me deixado as finanças um bocado em baixo, e portanto não ia poder comprar nada de extravagante. Mas tinha de comprar qualquer coisa! E como não confiava no meu olho para as minhas novas medidas, não podia encomendar nada online, tinha de ir à loja, em pessoa, provar os trapos novos.
Olhem, perdi a cabeça e esgotei o saldo. Fiquei sem saber como iria viver o resto do mês.
Mas foi por uma boa causa. O Robinho vale todos os sacrifícios.
No dia seguinte, vesti-me como a adolescente sofisticada que passara a ser, pus o spray nos olhos e pintei-os à volta, exagerando menos na dose do que da outra vez, espetei um travessão no meu novo cabelo ruivo com uma madeixa arroxeada, passei com a escova dos dentes pelo meu buço recém-nascido, mirei-me e remirei-me, achei-me fabulosa e fui ter com o Robinho.
Não resultou. Oh, não, não resultou!
O Robinho não gosta de mim.
Voltei para o meu quarto e ensopei um carregamento inteiro de absorvan.
O Robinho não gosta de mim.
Pior: tinha esgotado todas as possibilidades. Sim, não sou rapariga para desistir, nem que seja soterrada por um carregamento de palha. Mas se chego a um ponto em que não vejo caminho alternativo nenhum, tenho mesmo que o fazer, por mais que não queira.
Desistir do Robinho?
Oh, tristeza sem fim!
Mas que fazer, se o Robinho não gosta de mim?
E, pior que tudo, depois do Robinho foi o Cristiano, o Alberto, o Xiquinho e o Mané.
Nenhum deles gosta de mim! Nenhum!
Estou reduzida a escrever bilhetes perfumados, cheios de corações e florinhas, que já não tenho coragem para mandar a ninguém, e a passear-me pelas salas virtuais com disfarces de adulta.
É que o pior de todos os piores, pior ainda de nenhum dos meus homens gostar de mim, é que exagerei nos tratamentos que fiz na altura do caso do Robinho.
Eu não sabia que o Filosostone não se podia misturar com o Genetatu. Eu não sabia! Não sabia! Nem sequer fazia ideia alguma de que existia uma coisa chamada "potenciação de efeitos cruzados". Nunca me passou pela cabeça que existisse a possibilidade de efeitos irreversíveis. De efeitos permanentes. Nunca.
Tudo isto se passou há dez anos, mas para mim é como se tivesse sido ontem. Sim, porque continuo igual. As mesmas pernas de gazela, os mesmos seios de limão, as mesmas tatuagens, o mesmo buço, os mesmos cabelos com madeixas que agora são de várias cores.
Só os olhos voltaram ao normal. De resto...
Sou uma rapariga triste, presa numa eterna adolescência.