Aquele que já foi em tempos um jornal de referência mas se vai transformando aos poucos em mais um desperdício de celulose, o Público, achou por bem abrir hoje as suas páginas a uma iniciativa contra o acordo ortográfico promovida por intermédio do facebook. O artigo é típico artigo de pasquim: nos antípodas do equilíbrio que o jornalismo a sério exige, só dá voz a uma parte, funcionando não como um artigo informativo mas como uma peça de propaganda. E as coisas que nele se dizem...
Deuses!
Afirmam-se coisas como "os tradutores vão perder trabalho porque os brasileiros são mais baratos", por exemplo. Nem pergunto de que bola de cristal o autoproclamado zé-ninguém (a acreditar no artigo, é ele que afirma que não é ninguém, que é um anónimo) que é entrevistado para fazer aquela peça desencantou tal certeza futurológica. Digo apenas que este tradutor que aqui escreve não está nada preocupado. Porque este tradutor que aqui escreve sabe qual é a diferença entre língua e ortografia, e sabe que não é por alterarem-se algumas regras na forma de se escrever a língua que desaparecem os seus dialetos. Por isso, com exceção de algumas áreas muito particulares e extremamente restritas em que o facto de Portugal e Brasil falarem dialetos diferentes da mesma língua não tem importância, o mais certo é que o AO não tenha absolutamente nenhum impacto sobre o trabalho que os tradutores venham a ter no futuro.
Aliás, dá-me uma grande vontade de rir sempre que vejo este tipo de panicozinhos mais ou menos corporativos. Diz muito sobre as pessoas que são por eles assaltadas que em vez de acharem que uma abertura abre um potencial de crescimento até aí fechado, partam sistematicamente do princípio de que a única consequência possível dessa abertura é serem submersos pela invasão. Diz, nomeadamente, que se acham piores que os outros. Que sabem que não têm qualidade suficiente para competir. Que se veem medíocres, incapazes de apresentar um trabalho com qualidade suficiente para resistir às investidas, sejam elas reais ou imaginárias.
Mas há coisas mais ridículas. O homem afirma que esta alteração ortográfica é "profundíssima", dando a entender que não tem comparação com as anteriores. Para azar dele, a profundidade é contabilizável. O "profundíssimo" dele corresponde a 1,6% das palavras que escrevemos. Em cada 100 palavras, há entre uma e duas que sofrem alterações. Num romance de tamanho razoável, com cem mil palavras, haverá cerca de mil e seiscentas que se alteram. Ou menos ainda, pois as palavras que são alteradas são na sua grande maioria palavras pouco utilizadas. Isso pode, aliás, verificar-se com algum rigor, contando as palavras que mudam em textos escritos com o acordo implementado. Este post, por exemplo. Ele talvez seja demasiado pequeno para obter um resultado estatisticamente válido — para isso convém que os números não sejam pequenos demais — mas pode servir como indicação. Portanto vamos lá: o post tem 779 palavras; O AO altera um total de 11 delas. 1.41%, portanto.
Ui, que profundidade!
E quem saiba alguma coisa sobre como foi a reforma ortográfica de 1911, quem tenha alguma vez lido um texto escrito com a ortografia anterior, parte-se a rir quando vê chamar "profundíssima" a esta. Isto é uma reforma pouco mais que insignificante, mesmo comparando-se à de 1911. E outras línguas há que passaram por alterações ortográficas muito mais "profundíssimas" do que aquela por que a nossa passou em 1911. Mudando, por exemplo, de alfabeto. Isso é um pouco mais profundo do que tirar umas letras não pronunciadas daqui e uns acentos dali, não?
Mas o pior é mesmo que usem a mentira para apelar ao mais rasca sentimento patrioteiro de quem não tem conhecimentos suficientes para saber que é mentira. O pior é mesmo a desonestidade sistemática de que os mais histéricos anti-AO têm dado bastas provas. E este artigo do Público não é exceção, quando o tal autoproclamado zé-ninguém afirma que o AO afeta "exclusivamente um lado". Isto nem sequer é uma meia verdade: é factualmente falso, uma mentira completa. O AO não afeta exclusivamente um lado; afeta todas as pessoas que se exprimem em português escrito.
Uma oposição minimamente séria ao acordo poderia dizer que o AO afeta três vezes mais a escrita euro-africana do que a escrita brasileira, visto que esta tem 0,5% das palavras alteradas. Claro que quem é favorável ao dito poderia contrapor com a cedência brasileira durante as alterações de 1971-1973, por exemplo, que foi muito maior do que isso. Mas uma oposição que falasse a verdade ao menos seria séria. Esta, que aquele lamentável simulacro de artigo no Público propagandeia, não é séria. É mentirosa. E mais lamentável ainda do que o próprio artigo.
PS (escrito mais tarde e por isso fora das contas acima): Já agora, no facebook há também uma página exclusivamente sobre o acordo ortográfico, aqui, um grupo de gente favorável ao AO, aqui, uma página sobre a língua portuguesa, aqui. Até há uma "causa", pequena, é certo (e quem é que precisa duma causa a defender uma lei aprovada e promulgada? Nem eu aderi a ela.), a favor do acordo ortográfico. Aqui. Mas nada disto interessa ao Público.
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segunda-feira, 1 de março de 2010
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Sobre uma série de coisas homo. E hetero.
No último par de semanas vi-me por várias vezes forçado a explicar umas coisas que julgava básicas sobre as relações que pode haver entre as palavras, sua pronúncia e suas grafias. A pessoas diferentes, bem entendido; acho que todas aquelas a quem expliquei ficaram esclarecidas. A última sessão foi hoje. Mas chateia estar a repetir as mesmas coisas uma e outra vez, além de haver sempre alguma dificuldade com os exemplos, que nem sempre estão tão na ponta da língua como seria desejável. De modo que decidi fazer um post. Para a próxima, a resposta será: "olha, fiz um post sobre isso na Lâmpada", seguida de um link se a conversa for eletrónica, seguida de um "vai lá ver" (e provavelmente dum resumo) se for presencial.
Então vamos lá.
A esmagadora maioria das palavras, como todos sabemos, são diferentes umas das outras, tanto na grafia como na pronúncia. Mas há grupos de palavras, comparativamente pequenos, que têm relações especiais com outras palavras. Essas relações podem ser de homografia, homofonia ou homonomia. Sim, engraçadinhos, é tudo muito homo. Mas as que não são homógrafas são heterógrafas, as que não são homófonas são heterófonas, e as que não são homónimas são heterónimas. De modo que também é tudo muito hetero. Embrulhem. Termos apresentados, passemos a explicá-los e a exemplificá-los.
As homónimas são as mais simples de explicar: são aquelas palavras que são ao mesmo tempo homógrafas e homófonas. Sempre que abrirem um dicionário e encontrarem duas entradas seguidas e idênticas, estão a olhar para duas palavras homónimas. A frase "fui dar uma fatia de manga ao Luís, e enfiei a manga na sopa" contém duas palavras homónimas: manga (parte duma peça de roupa) e manga (fruta). A frase "Penso que tenho de pôr um penso no calo, mas depois enfio-me num canto, rebento em canto e nunca mais me calo" tem o belo número de três: penso (verbo pensar e coisa que se põe nas feridas), calo (verbo calar e o mesmo que calosidade) e canto (verbo cantar e ponto de junção de duas paredes).
Palavras homógrafas são palavras cuja ortografia é idêntica. Muitas são aparentadas (isto é: possuem a mesma raiz; descendem do mesmo ancestral lexical), mas nem sempre assim é. Na frase "eu jogo um jogo" encontramos duas palavras homógrafas: uma forma do verbo jogar e o substantivo jogo. A frase "primeiro rego ao longo de todo o rego, ensopando aquilo tudo, depois obrigo o gajo a ir colher as ervilhas com uma colher; vai ser lindo!", além de ser francamente sádica, contém dois pares de palavras homógrafas: uma forma do verbo regar e o substantivo rego, e o infinitivo do verbo colher e o substantivo colher.
Como já devem ter deduzido, as palavras homófonas são palavras cuja pronúncia é idêntica. A frase "ele foi à sede do concelho dar um conselho ao presidente da câmara" tem um desses casalinhos. "Vós, cada um dos cem, se fizerdes isso ficareis sem voz" tem dois. Uma frase que pus ontem no twitter para tentar levar o pessoal a não acentuar aquilo que nunca levou acento, "não se põe o acento no "cú", mas sim o cu no assento", tem mais um. E "Não sejas uma seca e ouve: houve uma denúncia de que a pia está seca, de modo que trata de enchê-la e não pia!" é, além de autoritária, uma tripla: tem um par de homógrafas (seca e seca), um par de homófonas (houve e ouve) e um par de homónimas (pia e pia)!
O que é que acontece a tudo isto com o acordo ortográfico? Pouca coisa. As categorias, obviamente, mantêm-se idênticas, mas há um conjunto de palavras que se transferem dumas para as outras. O imperativo do verbo "parar", por exemplo, perde o acento e torna-se homógrafo da preposição "para". O sinónimo de ação, "ato", perde a consoante muda e, como já era homófono da forma do verbo "atar", torna-se homónimo da mesma forma. O (muito incomum) sinónimo de assumido, "assumpto", perde o p mudo e torna-se homónimo de assunto. E mais alguns casos, que duma maneira geral transformam palavras heterógrafas em homógrafas e palavras homófonas em homónimas. Mas poucas. Nenhuma destas listas de exemplos é exaustiva, mas esta é provavelmente a que mais se aproxima de o ser.
De modo que aí têm. Já podem dizer aos amigos que estas coisas não têm segredos para vocês.
Então vamos lá.
A esmagadora maioria das palavras, como todos sabemos, são diferentes umas das outras, tanto na grafia como na pronúncia. Mas há grupos de palavras, comparativamente pequenos, que têm relações especiais com outras palavras. Essas relações podem ser de homografia, homofonia ou homonomia. Sim, engraçadinhos, é tudo muito homo. Mas as que não são homógrafas são heterógrafas, as que não são homófonas são heterófonas, e as que não são homónimas são heterónimas. De modo que também é tudo muito hetero. Embrulhem. Termos apresentados, passemos a explicá-los e a exemplificá-los.
As homónimas são as mais simples de explicar: são aquelas palavras que são ao mesmo tempo homógrafas e homófonas. Sempre que abrirem um dicionário e encontrarem duas entradas seguidas e idênticas, estão a olhar para duas palavras homónimas. A frase "fui dar uma fatia de manga ao Luís, e enfiei a manga na sopa" contém duas palavras homónimas: manga (parte duma peça de roupa) e manga (fruta). A frase "Penso que tenho de pôr um penso no calo, mas depois enfio-me num canto, rebento em canto e nunca mais me calo" tem o belo número de três: penso (verbo pensar e coisa que se põe nas feridas), calo (verbo calar e o mesmo que calosidade) e canto (verbo cantar e ponto de junção de duas paredes).
Palavras homógrafas são palavras cuja ortografia é idêntica. Muitas são aparentadas (isto é: possuem a mesma raiz; descendem do mesmo ancestral lexical), mas nem sempre assim é. Na frase "eu jogo um jogo" encontramos duas palavras homógrafas: uma forma do verbo jogar e o substantivo jogo. A frase "primeiro rego ao longo de todo o rego, ensopando aquilo tudo, depois obrigo o gajo a ir colher as ervilhas com uma colher; vai ser lindo!", além de ser francamente sádica, contém dois pares de palavras homógrafas: uma forma do verbo regar e o substantivo rego, e o infinitivo do verbo colher e o substantivo colher.
Como já devem ter deduzido, as palavras homófonas são palavras cuja pronúncia é idêntica. A frase "ele foi à sede do concelho dar um conselho ao presidente da câmara" tem um desses casalinhos. "Vós, cada um dos cem, se fizerdes isso ficareis sem voz" tem dois. Uma frase que pus ontem no twitter para tentar levar o pessoal a não acentuar aquilo que nunca levou acento, "não se põe o acento no "cú", mas sim o cu no assento", tem mais um. E "Não sejas uma seca e ouve: houve uma denúncia de que a pia está seca, de modo que trata de enchê-la e não pia!" é, além de autoritária, uma tripla: tem um par de homógrafas (seca e seca), um par de homófonas (houve e ouve) e um par de homónimas (pia e pia)!
O que é que acontece a tudo isto com o acordo ortográfico? Pouca coisa. As categorias, obviamente, mantêm-se idênticas, mas há um conjunto de palavras que se transferem dumas para as outras. O imperativo do verbo "parar", por exemplo, perde o acento e torna-se homógrafo da preposição "para". O sinónimo de ação, "ato", perde a consoante muda e, como já era homófono da forma do verbo "atar", torna-se homónimo da mesma forma. O (muito incomum) sinónimo de assumido, "assumpto", perde o p mudo e torna-se homónimo de assunto. E mais alguns casos, que duma maneira geral transformam palavras heterógrafas em homógrafas e palavras homófonas em homónimas. Mas poucas. Nenhuma destas listas de exemplos é exaustiva, mas esta é provavelmente a que mais se aproxima de o ser.
De modo que aí têm. Já podem dizer aos amigos que estas coisas não têm segredos para vocês.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
(De novo) segundo o acordo
Em tempos que já lá vão, decidi passar a escrever a Lâmpada segundo as regras do acordo ortográfico. Fi-lo para dar o exemplo, mostrando que o que muda, vistas bem as coisas, é quase nada. Mas entretanto a minha vida profissional tornou-se cada vez mais ligada ao uso escrito da língua portuguesa e, para evitar usá-la duma forma esquizofrénica, com umas regras aqui e outras nos livros que traduzo, abandonei o uso do português do acordo até ao momento em que me passassem a pedir as traduções feitas segundo essas regras.
Esse momento é agora. E por isso, a partir de hoje, a Lâmpada volta a ser escrita segundo as novas regras ortográficas da língua portuguesa.
Esse momento é agora. E por isso, a partir de hoje, a Lâmpada volta a ser escrita segundo as novas regras ortográficas da língua portuguesa.
sábado, 18 de abril de 2009
The stars, my destiny
OK, o título do post é uma brincadeira que reutiliza o título de um belíssimo romande de ficção científica de Alfred Bester, publicado em Portugal em duas traduções diferentes em 1977 e 1985. Ou de um dos títulos, porque teve dois, sendo o outro Tiger! Tiger! Vivamente recomendável. Mas não é disso que vos quero falar; é do Nuno Galopim.
O Nuno Galopim resolveu fazer uma breve visita ao centro russo de treino de astronautas, e eu acho muitíssimo bem, ainda por cima por ter feito também uma brincadeira com o título de outra obra marcante na ficção científica duma certa geração: a série Espaço: 1999.
O que já não me parece bem é ter-lhe chamado "Star City".
Não, Nuno, aquilo não se chama Star City. Se quisermos ser pernósticos e dar-lhe um nome em estrangeiro, então chamemos-lhe pelo seu nome russo: Звёздный городок, o que se poderia transcrever em português como Zviozdni Gorodok. Star City é, tão-só, a tradução inglesa desse nome, e se vamos usar uma tradução pois que se use a portuguesa, já que o resto do texto é em português. Sim, embora Звёздный городок não signifique precisamente Cidade das Estrelas, é esse o nome comum do lugar em português, provavelmente por adaptação da designação inglesa. Portanto é essa a designação que se deve usar em textos portugueses. Cidade das Estrelas, não Star City.
Mesmo no caso de não haver já uma designação comum na nossa língua, nunca seria boa ideia chamar ao lugar Star City. A Rússia não é um país anglófono. Ou se usava a transcrição do russo, ou então traduzia-se directamente para português. E a tradução mais correcta, nesse caso, seria "Vila das Estrelas", visto que cidade em russo é город (gorod), não городок (gorodok). Городок quer dizer, textualmente, "cidadezinha".
Tá bem?
O Nuno Galopim resolveu fazer uma breve visita ao centro russo de treino de astronautas, e eu acho muitíssimo bem, ainda por cima por ter feito também uma brincadeira com o título de outra obra marcante na ficção científica duma certa geração: a série Espaço: 1999.
O que já não me parece bem é ter-lhe chamado "Star City".
Não, Nuno, aquilo não se chama Star City. Se quisermos ser pernósticos e dar-lhe um nome em estrangeiro, então chamemos-lhe pelo seu nome russo: Звёздный городок, o que se poderia transcrever em português como Zviozdni Gorodok. Star City é, tão-só, a tradução inglesa desse nome, e se vamos usar uma tradução pois que se use a portuguesa, já que o resto do texto é em português. Sim, embora Звёздный городок não signifique precisamente Cidade das Estrelas, é esse o nome comum do lugar em português, provavelmente por adaptação da designação inglesa. Portanto é essa a designação que se deve usar em textos portugueses. Cidade das Estrelas, não Star City.
Mesmo no caso de não haver já uma designação comum na nossa língua, nunca seria boa ideia chamar ao lugar Star City. A Rússia não é um país anglófono. Ou se usava a transcrição do russo, ou então traduzia-se directamente para português. E a tradução mais correcta, nesse caso, seria "Vila das Estrelas", visto que cidade em russo é город (gorod), não городок (gorodok). Городок quer dizer, textualmente, "cidadezinha".
Tá bem?
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Erras-te
Há dias mandei para o meu twitter a seguinte perplexidade:
Seguiu-se uma breve troca de impressões com outros twitters, da qual não saiu conclusão alguma (àparte isto ser algo com uma certa tendência para causar "MEDO" às pessoas), claro. O twitter não se presta para tirar conclusões.
Também tenho lido com alarmante frequência, nos últimos tempos, desabafos apocalípticos acerca do estado miserável do português escrito em 2009. Que cada vez se escreve pior, diz-se. Que já ninguém sabe conjugar verbos, lamenta-se. Que está tudo entregue à escrita SMS, chora-se, entre baba e ranho. E a verdade é que a rapidez e imediatismo da escrita que acontece na maioria dos veículos modernos para o texto escrito não é propriamente amiga de uma grande reflexão sobre as palavras que se usam ou deixam de usar. Não se coaduna bem com preocupações estilísticas. É rápida, viva e dinâmica, aproximando mais o discurso escrito ao oral do que alguma vez esteve no passado. E, obviamente, sofre de gralhite galopante, como este blogue exemplifica na perfeição.
Mas já estão mesmo a ver que vai haver aqui um "mas", não estão?
Tenho uns leitores tão inteligentes que chega a ser ternurento.
O mas é que li ontem um conto. Quinze páginas de texto traduzido do francês e publicado, profissionalmente, em 1976. Há 33 anos, portanto. Antes de todas estas inovações, numa época em que havia em Portugal mais de 10% de analfabetos e a língua escrita era encarada com uma reverência que hoje não existe. E em que não existia nem SMS, nem twitter, nem chats, nem blogues, nem nenhum destes modernos promotores da escrita rápida. E no entanto...
No entanto, o conto contém palavras como "esforçei-me". Contém palavras como "sentar-mo-nos". Contém palavras como "tocar-mo-nos". Entre outras que, como não anotei, agora não encontro. Palavras escritas pelo tradutor e deixadas passar pelo revisor, publicadas e postas à venda. Em 1976.
Conclusões? Que se calhar uma parte importante da escrita-cada-vez-pior de hoje se deve a uma memória deficiente. A malta esquece-se das asneiras de ontem, e quando vê as de hoje parecem-lhe novas. Se calhar não são. E que, se até profissionais de escrever se saem com bacoradas deste calibre, não me devia espantar que gente que até pode ler, mas não está necessariamente habituada a escrever, as cometa.
Apesar disto, acho que continuará sempre a espantar. Ninguém me paga para ser coerente.
Não percebo porque raio pessoas que lêem habitualmente escrevem coisas como "fizes-te"
Seguiu-se uma breve troca de impressões com outros twitters, da qual não saiu conclusão alguma (àparte isto ser algo com uma certa tendência para causar "MEDO" às pessoas), claro. O twitter não se presta para tirar conclusões.
Também tenho lido com alarmante frequência, nos últimos tempos, desabafos apocalípticos acerca do estado miserável do português escrito em 2009. Que cada vez se escreve pior, diz-se. Que já ninguém sabe conjugar verbos, lamenta-se. Que está tudo entregue à escrita SMS, chora-se, entre baba e ranho. E a verdade é que a rapidez e imediatismo da escrita que acontece na maioria dos veículos modernos para o texto escrito não é propriamente amiga de uma grande reflexão sobre as palavras que se usam ou deixam de usar. Não se coaduna bem com preocupações estilísticas. É rápida, viva e dinâmica, aproximando mais o discurso escrito ao oral do que alguma vez esteve no passado. E, obviamente, sofre de gralhite galopante, como este blogue exemplifica na perfeição.
Mas já estão mesmo a ver que vai haver aqui um "mas", não estão?
Tenho uns leitores tão inteligentes que chega a ser ternurento.
O mas é que li ontem um conto. Quinze páginas de texto traduzido do francês e publicado, profissionalmente, em 1976. Há 33 anos, portanto. Antes de todas estas inovações, numa época em que havia em Portugal mais de 10% de analfabetos e a língua escrita era encarada com uma reverência que hoje não existe. E em que não existia nem SMS, nem twitter, nem chats, nem blogues, nem nenhum destes modernos promotores da escrita rápida. E no entanto...
No entanto, o conto contém palavras como "esforçei-me". Contém palavras como "sentar-mo-nos". Contém palavras como "tocar-mo-nos". Entre outras que, como não anotei, agora não encontro. Palavras escritas pelo tradutor e deixadas passar pelo revisor, publicadas e postas à venda. Em 1976.
Conclusões? Que se calhar uma parte importante da escrita-cada-vez-pior de hoje se deve a uma memória deficiente. A malta esquece-se das asneiras de ontem, e quando vê as de hoje parecem-lhe novas. Se calhar não são. E que, se até profissionais de escrever se saem com bacoradas deste calibre, não me devia espantar que gente que até pode ler, mas não está necessariamente habituada a escrever, as cometa.
Apesar disto, acho que continuará sempre a espantar. Ninguém me paga para ser coerente.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
terça-feira, 22 de abril de 2008
A origem das espécies linguísticas
A-ha! Mais um dia em que o trabalho acaba e a minha cabeça ainda não está em pleno toque de finados! Devia aproveitar para saboreá-lo, pois tem sido coisa rara. Mas não. Em vez disso venho para aqui mandar mais uma posta de pescada.
Desta vez não é sobre o acordo, mas tem a ver com aquilo que lhe subjaz: a própria língua. E tem a ver com umas contestações que apareceram na caixa de comentários, principalmente com esta:
Nunca afirmei que a diversidade dialectal fosse função da vastidão geo ou demográfica. O que afirmei foi:
O que eu queria dizer com isto, e pelos vistos não fui suficientemente claro, é que só é possível criar uma ortografia fonética em línguas que obedeçam simultaneamente a todas aquelas condições. Isto é, línguas que: 1) sejam pequenas, 2) sejam faladas por pouca gente, 3) estejam concentradas em territórios restritos e 4) tenham pouca variação fonética. Estas condições estão interligadas, influenciam-se, mas não se determinam umas às outras. E se referi estas condições foi para deixar claro que a língua portuguesa, por não obedecer a nenhuma delas, não poderá nunca ter uma escrita fonética; terá sempre de ter uma escrita que resulte de um equilíbrio entre as várias fonéticas que incorpora, a história das palavras e a pura convenção.
Estamos de acordo?
Já agora, visto que me desviei do caminho principal para uma estrada secundária que tem pouca relevância para o acordo em concreto, vou segui-la até um pouco mais à frente. Tenho umas ideiazitas extra a deixar aqui. Não as vou explorar muito, que nem tenho tempo nem este é o lugar certo, mas é capaz de valer a pena esboçá-las.
Como é que se originam as línguas? Salvo casos especiais, em que existe uma intervenção criadora de um pequeno grupo de indivíduos que depois se espalha para grupos maiores (caso das línguas construídas, basicamente), as línguas têm uma evolução muito semelhante à das espécies biológicas (e a maior parte de vocês acabou neste momento de entender o título do post). Evoluem naturalmente umas das outras, através de uma sucessão de pequenas mudanças que se vão acumulando com o tempo até gerar grandes diferenças. Uma diferença importante relativamente à analogia biológica é que as línguas, salvo em circunstâncias muito particulares, estão constantemente em processo de fertilização cruzada, transferindo conceitos e fenómenos linguísticos de umas para outras, o que em geral não acontece com a vida. Mas a maior parte dos motores da evolução são idênticos. As línguas, tal como as espécies, também necessitam de isolamento para se diferenciarem, o que aliás é óbvio se olharmos para um mapa das línguas do mundo e constatarmos que as regiões onde existe um número maior de línguas por unidade de área são regiões que dificultam os movimentos ao bicho-homem, nomeadamente regiões montanhosas, florestas densas, etc. O mesmo acontece, em menor escala, dentro das línguas, com os seus dialectos, subdialectos e sotaques.
Ou seja, historicamente, quando uma determinada população se isolava de outras populações que lhe eram afins, geravam-se as condições para a divergência. Foi isso, aliás, que aconteceu com as línguas latinas, todas elas derivadas do latim comum que se falava há dois mil anos ao longo da vastidão do Império Romano. Com o fim deste, com a criação de uma multiplicidade de estados independentes, a limitação de contactos entre eles e o desaparecimento da elite romana que tendia a uniformizar a língua no Império, os vários latins vulgares começaram a divergir (provavelmente a partir de sotaques e dialectos existentes ainda nos tempos romanos) e resultaram neste grande grupo de línguas que conhecemos hoje (e mais algumas que entretanto se extinguiram), que segundo o Ethnologue são 48, faladas hoje por cerca de setecentos milhões de pessoas um pouco por todo o planeta, mas essencialmente na Europa, nas Américas e em África.
Foi também assim que surgiram as variantes do português. Todas elas, não apenas a dicotomia mais básica entre o português de Portugal e o do Brasil. Mais básica e mais preguiçosa, pois não só existem variantes de português fora dos dois principais países da lusofonia, também é facto que quer num quer noutro existem vários dialectos, muitas vezes incorporando construções linguísticas que se costuma imaginar serem características da língua falada do outro lado do oceano.
E se assim surgiram, dir-se-ia, assim continuariam a divergir até que, algures no futuro, se transformariam em línguas diferentes com uma raiz comum, como aconteceu com o latim. Há muita gente, incluindo, receio, a generalidade dos linguistas, que dá por adquirido que assim será.
Pois é, mas eu acho que não.
É que vivemos hoje num mundo que, em termos de comunicação, não tem rigorosamente nada a ver com aquele em que as variantes do português se desenvolveram. Hoje já não é necessário o contacto físico para haver transferência de padrões linguísticos entre as pessoas. Hoje, a comunicação é global e praticamente instantânea. A língua que falamos é tão determinada pela televisão como pelos nossos pais, família e vizinhos, e começa também a ser determinada pela internet. Hoje, os falantes de português em todo o planeta, por mais afastados que estejam fisicamente, estão mais próximos do que nunca, e tenderão a aproximar-se ainda mais no futuro.
É por isso que eu penso que a tendência, longe da diversificação, será a longo prazo de reunificação e uniformização. Já vejo isso a acontecer com a atenuação dos sotaques e falares regionais no português de Portugal, e também com uma aproximação visível do português de Portugal ao do Brasil desde que as telenovelas brasileiras passaram a fazer parte do dia-a-dia das nossas famílias. E julgo que é um fenómeno inevitável e imparável, precisamente devido ao desaparecimento do isolamento que é necessário à diversificação.
Que tem isto a ver com o acordo ortográfico? Muito pouco. Mas se procurarem bem, verão que até tem alguma coisa. Em todo o caso, prometo regressar a coisas que dizem respeito mais directamente a ele no próximo post.
Desta vez não é sobre o acordo, mas tem a ver com aquilo que lhe subjaz: a própria língua. E tem a ver com umas contestações que apareceram na caixa de comentários, principalmente com esta:
A diversidade dialectal não é função da vastidão geográfica ou demográfica. Veja-se o caso basco, p.ex.: Apesar de haver, feliz e finalmente, uma ortografia única — o euskera batua (que é eficiente, coerente, e vastamente utilizada), existe (e continua a existir, também felizmente) uma diversidade dialectal muito grande.
Nunca afirmei que a diversidade dialectal fosse função da vastidão geo ou demográfica. O que afirmei foi:
Embora uma ortografia seja sempre um compromisso entre a história da língua escrita e o estado actual da língua falada, em línguas pequenas, faladas por pouca gente concentrada em territórios restritos e com pouca variação fonética, a ortografia pode seguir a fonética de perto, se bem que nem sempre o faça. Porém, é fácil compreender que em línguas maiores, e em especial nas grandes línguas de dimensão planetária como a nossa, isso é totalmente impossível.
O que eu queria dizer com isto, e pelos vistos não fui suficientemente claro, é que só é possível criar uma ortografia fonética em línguas que obedeçam simultaneamente a todas aquelas condições. Isto é, línguas que: 1) sejam pequenas, 2) sejam faladas por pouca gente, 3) estejam concentradas em territórios restritos e 4) tenham pouca variação fonética. Estas condições estão interligadas, influenciam-se, mas não se determinam umas às outras. E se referi estas condições foi para deixar claro que a língua portuguesa, por não obedecer a nenhuma delas, não poderá nunca ter uma escrita fonética; terá sempre de ter uma escrita que resulte de um equilíbrio entre as várias fonéticas que incorpora, a história das palavras e a pura convenção.
Estamos de acordo?
Já agora, visto que me desviei do caminho principal para uma estrada secundária que tem pouca relevância para o acordo em concreto, vou segui-la até um pouco mais à frente. Tenho umas ideiazitas extra a deixar aqui. Não as vou explorar muito, que nem tenho tempo nem este é o lugar certo, mas é capaz de valer a pena esboçá-las.
Como é que se originam as línguas? Salvo casos especiais, em que existe uma intervenção criadora de um pequeno grupo de indivíduos que depois se espalha para grupos maiores (caso das línguas construídas, basicamente), as línguas têm uma evolução muito semelhante à das espécies biológicas (e a maior parte de vocês acabou neste momento de entender o título do post). Evoluem naturalmente umas das outras, através de uma sucessão de pequenas mudanças que se vão acumulando com o tempo até gerar grandes diferenças. Uma diferença importante relativamente à analogia biológica é que as línguas, salvo em circunstâncias muito particulares, estão constantemente em processo de fertilização cruzada, transferindo conceitos e fenómenos linguísticos de umas para outras, o que em geral não acontece com a vida. Mas a maior parte dos motores da evolução são idênticos. As línguas, tal como as espécies, também necessitam de isolamento para se diferenciarem, o que aliás é óbvio se olharmos para um mapa das línguas do mundo e constatarmos que as regiões onde existe um número maior de línguas por unidade de área são regiões que dificultam os movimentos ao bicho-homem, nomeadamente regiões montanhosas, florestas densas, etc. O mesmo acontece, em menor escala, dentro das línguas, com os seus dialectos, subdialectos e sotaques.
Ou seja, historicamente, quando uma determinada população se isolava de outras populações que lhe eram afins, geravam-se as condições para a divergência. Foi isso, aliás, que aconteceu com as línguas latinas, todas elas derivadas do latim comum que se falava há dois mil anos ao longo da vastidão do Império Romano. Com o fim deste, com a criação de uma multiplicidade de estados independentes, a limitação de contactos entre eles e o desaparecimento da elite romana que tendia a uniformizar a língua no Império, os vários latins vulgares começaram a divergir (provavelmente a partir de sotaques e dialectos existentes ainda nos tempos romanos) e resultaram neste grande grupo de línguas que conhecemos hoje (e mais algumas que entretanto se extinguiram), que segundo o Ethnologue são 48, faladas hoje por cerca de setecentos milhões de pessoas um pouco por todo o planeta, mas essencialmente na Europa, nas Américas e em África.
Foi também assim que surgiram as variantes do português. Todas elas, não apenas a dicotomia mais básica entre o português de Portugal e o do Brasil. Mais básica e mais preguiçosa, pois não só existem variantes de português fora dos dois principais países da lusofonia, também é facto que quer num quer noutro existem vários dialectos, muitas vezes incorporando construções linguísticas que se costuma imaginar serem características da língua falada do outro lado do oceano.
E se assim surgiram, dir-se-ia, assim continuariam a divergir até que, algures no futuro, se transformariam em línguas diferentes com uma raiz comum, como aconteceu com o latim. Há muita gente, incluindo, receio, a generalidade dos linguistas, que dá por adquirido que assim será.
Pois é, mas eu acho que não.
É que vivemos hoje num mundo que, em termos de comunicação, não tem rigorosamente nada a ver com aquele em que as variantes do português se desenvolveram. Hoje já não é necessário o contacto físico para haver transferência de padrões linguísticos entre as pessoas. Hoje, a comunicação é global e praticamente instantânea. A língua que falamos é tão determinada pela televisão como pelos nossos pais, família e vizinhos, e começa também a ser determinada pela internet. Hoje, os falantes de português em todo o planeta, por mais afastados que estejam fisicamente, estão mais próximos do que nunca, e tenderão a aproximar-se ainda mais no futuro.
É por isso que eu penso que a tendência, longe da diversificação, será a longo prazo de reunificação e uniformização. Já vejo isso a acontecer com a atenuação dos sotaques e falares regionais no português de Portugal, e também com uma aproximação visível do português de Portugal ao do Brasil desde que as telenovelas brasileiras passaram a fazer parte do dia-a-dia das nossas famílias. E julgo que é um fenómeno inevitável e imparável, precisamente devido ao desaparecimento do isolamento que é necessário à diversificação.
Que tem isto a ver com o acordo ortográfico? Muito pouco. Mas se procurarem bem, verão que até tem alguma coisa. Em todo o caso, prometo regressar a coisas que dizem respeito mais directamente a ele no próximo post.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Acordo ortográfico - orto grafias
Ora bem, cá estamos de novo, com algum tempo livre e a cabeça razoavelmente desanuviada.
Antes da breve interrupção zinkiana, tínhamos ficado na candente questão de as mudanças na oralidade implicarem, ou não, mudanças na ortografia. Mas ainda antes de tratarmos da candência, vamos fazer mais um pequeno desvio para mais alguns factos.
Já vimos que uma ortografia é um conjunto de normas altamente abstractas para exprimir uma determinada oralidade. Mas, em parte porque são abstractas, nem todas as formas de escrever seguem a mesma filosofia. Algumas formas de escrever, como os ideogramas chineses, por exemplo, nem sequer representam sons, preferindo-se a representação de conceitos e ideias (daí o nome, né?). Outras formas de escrever representam sílabas, noutras, como o hebraico, escrevem-se apenas as consoantes deixando as vogais subentendidas, etc. Nas línguas escritas em alfabetos derivados do grego, como a nossa, cada letra tende a representar um som, embora haja, como todos sabemos, sinais especiais que alteram o significado básico da letra, combinações de letras que representam um único som... ou letras que não representam som algum.
Além disso, línguas diferentes têm abordagens diferentes quanto à adaptação da escrita à fala. Embora uma ortografia seja sempre um compromisso entre a história da língua escrita e o estado actual da língua falada, em línguas pequenas, faladas por pouca gente concentrada em territórios restritos e com pouca variação fonética, a ortografia pode seguir a fonética de perto, se bem que nem sempre o faça. Porém, é fácil compreender que em línguas maiores, e em especial nas grandes línguas de dimensão planetária como a nossa, isso é totalmente impossível. O compromisso tem, pois, de existir sempre.
Algumas dessas línguas, como o inglês e o francês, resolveram esse problema adoptando uma ortografia mais atenta à origem e história escrita das palavras, à sua etimologia, do que à fonética. É por isso que em francês algo que se diz "uázô" se escreve "oiseaux", algo que se diz "ô" se escreve "eau" e "pré" se escreve "prêt". E é por isso que palavras inglesas tão diferentes como "dou" e "taf" se escrevem "though" e "tough", respectivamente, é por isso que "tchec" se escrever "czech" enquanto que "china" não se diz "caina" mas sim "tchaina", entre muitas, muitas outras rasteiras que a língua inglesa nos reserva.
Esta abordagem tem a vantagem de exigir mudanças na ortografia mínimas e espaçadas no tempo, embora tenha a clara desvantagem de ir tornando a escrita crescentemente incoerente, de modo que ao fim de algum tempo acaba à mesma por ser preciso fazer reformas ortográficas, a menos que se queira continuar a escrever numa língua que na prática é uma língua diferente daquela que se fala (e isto acontece em algumas línguas, como o grego).
O português que se escrevia no século XIX seguia também esta abordagem. Era devido à etimologia de "farmácia" que a palavra se escrevia "pharmacia". Era por causa da etimologia que nunca ninguém praticava a escrita, mas sim a "escrypta". Era devido à etimologia que os campos se cobriam de "hervas" na primavera. E etc., e etc., e etc. Pegue-se numa publicação anterior a 1911 e encontrar-se-ão páginas e mais páginas de etimologias que hoje têm um sabor positivamente arcaico. Porquê?
Porque a implantação da República, em 1910, trouxe com ela a vontade de simplificar a escrita do português, tornando-a mais consentânea com a sua fonética, que não fazia distinção entre os f expressos com "f" e expressos com "ph", os i expressos com "i" ou com "y" ou os p expressos com "p" ou com "pp", que emudecera uma quantidade razoável de consoantes, que não pronunciava nada que se parecesse a um z em Portuguez, etc., etc. E assim, a ortografia do português foi pela primeira vez afastada da abordagem etimológica clássica, e foi pela primeira vez quebrada a unidade ortográfica da língua, porque o Brasil, nem tido nem achado na reforma de 1911, continuou ainda a escrever à antiga.
Mas isso ficará para uma próxima oportunidade, que hoje já se foram bem mais do que cinco minutos e a hora começa a pesar.
Antes da breve interrupção zinkiana, tínhamos ficado na candente questão de as mudanças na oralidade implicarem, ou não, mudanças na ortografia. Mas ainda antes de tratarmos da candência, vamos fazer mais um pequeno desvio para mais alguns factos.
Já vimos que uma ortografia é um conjunto de normas altamente abstractas para exprimir uma determinada oralidade. Mas, em parte porque são abstractas, nem todas as formas de escrever seguem a mesma filosofia. Algumas formas de escrever, como os ideogramas chineses, por exemplo, nem sequer representam sons, preferindo-se a representação de conceitos e ideias (daí o nome, né?). Outras formas de escrever representam sílabas, noutras, como o hebraico, escrevem-se apenas as consoantes deixando as vogais subentendidas, etc. Nas línguas escritas em alfabetos derivados do grego, como a nossa, cada letra tende a representar um som, embora haja, como todos sabemos, sinais especiais que alteram o significado básico da letra, combinações de letras que representam um único som... ou letras que não representam som algum.
Além disso, línguas diferentes têm abordagens diferentes quanto à adaptação da escrita à fala. Embora uma ortografia seja sempre um compromisso entre a história da língua escrita e o estado actual da língua falada, em línguas pequenas, faladas por pouca gente concentrada em territórios restritos e com pouca variação fonética, a ortografia pode seguir a fonética de perto, se bem que nem sempre o faça. Porém, é fácil compreender que em línguas maiores, e em especial nas grandes línguas de dimensão planetária como a nossa, isso é totalmente impossível. O compromisso tem, pois, de existir sempre.
Algumas dessas línguas, como o inglês e o francês, resolveram esse problema adoptando uma ortografia mais atenta à origem e história escrita das palavras, à sua etimologia, do que à fonética. É por isso que em francês algo que se diz "uázô" se escreve "oiseaux", algo que se diz "ô" se escreve "eau" e "pré" se escreve "prêt". E é por isso que palavras inglesas tão diferentes como "dou" e "taf" se escrevem "though" e "tough", respectivamente, é por isso que "tchec" se escrever "czech" enquanto que "china" não se diz "caina" mas sim "tchaina", entre muitas, muitas outras rasteiras que a língua inglesa nos reserva.
Esta abordagem tem a vantagem de exigir mudanças na ortografia mínimas e espaçadas no tempo, embora tenha a clara desvantagem de ir tornando a escrita crescentemente incoerente, de modo que ao fim de algum tempo acaba à mesma por ser preciso fazer reformas ortográficas, a menos que se queira continuar a escrever numa língua que na prática é uma língua diferente daquela que se fala (e isto acontece em algumas línguas, como o grego).
O português que se escrevia no século XIX seguia também esta abordagem. Era devido à etimologia de "farmácia" que a palavra se escrevia "pharmacia". Era por causa da etimologia que nunca ninguém praticava a escrita, mas sim a "escrypta". Era devido à etimologia que os campos se cobriam de "hervas" na primavera. E etc., e etc., e etc. Pegue-se numa publicação anterior a 1911 e encontrar-se-ão páginas e mais páginas de etimologias que hoje têm um sabor positivamente arcaico. Porquê?
Porque a implantação da República, em 1910, trouxe com ela a vontade de simplificar a escrita do português, tornando-a mais consentânea com a sua fonética, que não fazia distinção entre os f expressos com "f" e expressos com "ph", os i expressos com "i" ou com "y" ou os p expressos com "p" ou com "pp", que emudecera uma quantidade razoável de consoantes, que não pronunciava nada que se parecesse a um z em Portuguez, etc., etc. E assim, a ortografia do português foi pela primeira vez afastada da abordagem etimológica clássica, e foi pela primeira vez quebrada a unidade ortográfica da língua, porque o Brasil, nem tido nem achado na reforma de 1911, continuou ainda a escrever à antiga.
Mas isso ficará para uma próxima oportunidade, que hoje já se foram bem mais do que cinco minutos e a hora começa a pesar.
terça-feira, 8 de abril de 2008
Acordo ortográfico - Tipo, a cena evolui, tás a ver?
Olá. Como os mais atentos ou astutos terão já entendido, voltei a ter cinco minutos de liberdade com a cabeça razoavelmente funcional, e consequentemente aqui estou a falar-vos do malfadado acordo ortográfico. Mas antes, permitam-me que chame um homem tantas vezes desconsiderado, tão escarnecido, mas que às vezes se faz tão necessário. Apresento-vos Jacques II de Chabannes, aristocrata francês do século XVI mais conhecido por Monsieur de La Palisse. Jacques, voici mes lecteurs.
Apresentados que estão um aos outros e vice-versa, vamos ao que interessa.
A lapalissada da noite é: epá, tipo, a cena evolui, tás a ver? A cena, tipo, a língua, topas? Iá.
Dito isto de outra forma, pode parecer uma evidência tão grande que dispensa ser expressa, mas a verdade é que as línguas evoluem, que o digam os velhos imperialistas romanos que se se apanhassem um dia a tentar decifrar a algaraviada que falam estes seus longínquos descendentes se veriam decididamente em palpos de aranha e protestariam exuberantemente, como era seu timbre, não sei bem é em que declinação.
Porque é que vale a pena dizer isto? Ora, elementar, meus caros: porque a esmagadora maioria das pessoas que têm participado da discussão sobre o acordo ortográfico parece partir do princípio de que uma língua é uma coisa estática e imóvel. Não é, e isto não é opinião: é facto. Hoje não se fala como há 50 anos, há 50 anos não se falava como há 100 anos, e assim sucessivamente.
Mas que tem isto a ver com o acordo ortográfico?
Nada.
E tudo.
Mais alguns factos: a ortografia é uma forma altamente abstracta de colocar em símbolos gráficos a linguagem oral, que já de si é uma coisa bastante abstracta. É porque a linguagem é abstracta que os significados das palavras mudam com o tempo e/ou que as mesmas noções vão sendo expressas por associações diferentes de sons. E quando se passa do oral para o escrito, é colocada uma nova camada de abstracção sobre a abstracção pré-existente. Porque é que o símbolo "a", em português, corresponde ao naipe de sons que conhecemos? Por nenhum motivo além de alguém ter determinado que assim seria. Uma sucessão de alguéns, mais propriamente, que vai do longínquo e anónimo inventor do alfabeto até quem fez a última reforma ortográfica antes desta (que não tocou no valor do a, já agora; tal como esta não tocará). O símbolo, em si, não tem nenhum significado intrínseco: tem apenas o significado que nós lhe damos, por pura convenção.
Ora bem, se a língua oral evolui e se a ortografia é uma convenção que serve para exprimir essa língua oral, será que a ortografia evolui quando a oralidade evolui?
Pode evoluir e pode não evoluir, depende. Mas isso vai ter de ficar para outro dia, que os meus cinco minutos já chegaram e já partiram. Até lá, rapazes. Jacques, a bientôt. On aura encore besoin de toi, j'en suis sûr.
Apresentados que estão um aos outros e vice-versa, vamos ao que interessa.
A lapalissada da noite é: epá, tipo, a cena evolui, tás a ver? A cena, tipo, a língua, topas? Iá.
Dito isto de outra forma, pode parecer uma evidência tão grande que dispensa ser expressa, mas a verdade é que as línguas evoluem, que o digam os velhos imperialistas romanos que se se apanhassem um dia a tentar decifrar a algaraviada que falam estes seus longínquos descendentes se veriam decididamente em palpos de aranha e protestariam exuberantemente, como era seu timbre, não sei bem é em que declinação.
Porque é que vale a pena dizer isto? Ora, elementar, meus caros: porque a esmagadora maioria das pessoas que têm participado da discussão sobre o acordo ortográfico parece partir do princípio de que uma língua é uma coisa estática e imóvel. Não é, e isto não é opinião: é facto. Hoje não se fala como há 50 anos, há 50 anos não se falava como há 100 anos, e assim sucessivamente.
Mas que tem isto a ver com o acordo ortográfico?
Nada.
E tudo.
Mais alguns factos: a ortografia é uma forma altamente abstracta de colocar em símbolos gráficos a linguagem oral, que já de si é uma coisa bastante abstracta. É porque a linguagem é abstracta que os significados das palavras mudam com o tempo e/ou que as mesmas noções vão sendo expressas por associações diferentes de sons. E quando se passa do oral para o escrito, é colocada uma nova camada de abstracção sobre a abstracção pré-existente. Porque é que o símbolo "a", em português, corresponde ao naipe de sons que conhecemos? Por nenhum motivo além de alguém ter determinado que assim seria. Uma sucessão de alguéns, mais propriamente, que vai do longínquo e anónimo inventor do alfabeto até quem fez a última reforma ortográfica antes desta (que não tocou no valor do a, já agora; tal como esta não tocará). O símbolo, em si, não tem nenhum significado intrínseco: tem apenas o significado que nós lhe damos, por pura convenção.
Ora bem, se a língua oral evolui e se a ortografia é uma convenção que serve para exprimir essa língua oral, será que a ortografia evolui quando a oralidade evolui?
Pode evoluir e pode não evoluir, depende. Mas isso vai ter de ficar para outro dia, que os meus cinco minutos já chegaram e já partiram. Até lá, rapazes. Jacques, a bientôt. On aura encore besoin de toi, j'en suis sûr.
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Acordo ortográfico - Ah, parece que há um "estudo"
Exibindo mais um pouco do estado catatónico em que mergulhou há décadas parte significativa da nossa intelligenzia, eis que surge um "estudo" que, comparando uma tradução portuguesa de um dos livros do Harry Potter com uma outra tradução, brasileira, do mesmo livro conclui que as diferenças são enormes.
O meu comentário?
Só quem pensa que a tradução é uma actividade automática com uma intervenção mínima do tradutor é que pode levar isto minimamente a sério.
A tradução é uma recriação literária de uma obra numa língua diferente. Pegue-se em duas traduções de dois tradutores diferentes e irão encontrar-se inevitavelmente diferenças significativas, seja qual for a sua nacionalidade. Especialmente quando uma tradução parece ser boa e outra tem ar de ser duvidosa, como neste caso. Qual a que parece ser boa? Verifiquem vocês. Mas a mim parece que é a brasileira.
Este "estudo" é duma irrelevância total. Para o acordo, para a linguística, para tudo... embora, talvez, seja um sintoma do desprezo que a generalidade da edição portuguesa sente pela profissão de tradutor.
O meu comentário?
Só quem pensa que a tradução é uma actividade automática com uma intervenção mínima do tradutor é que pode levar isto minimamente a sério.
A tradução é uma recriação literária de uma obra numa língua diferente. Pegue-se em duas traduções de dois tradutores diferentes e irão encontrar-se inevitavelmente diferenças significativas, seja qual for a sua nacionalidade. Especialmente quando uma tradução parece ser boa e outra tem ar de ser duvidosa, como neste caso. Qual a que parece ser boa? Verifiquem vocês. Mas a mim parece que é a brasileira.
Este "estudo" é duma irrelevância total. Para o acordo, para a linguística, para tudo... embora, talvez, seja um sintoma do desprezo que a generalidade da edição portuguesa sente pela profissão de tradutor.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Acordo ortográfico - chega de parvoíce, não?
Tenho andado a assistir, entre o impávido, o divertido e o horrorizado, ao monumental manancial de disparate e burrice que esta celeuma sobre o acordo ortográfico desencadeou. Volta e meia, sinto-me tentado a entrar na bagunça, e cinco voltas e um quarto tenho mesmo entrado, quase sempre com textozitos rápidos deixados por aí. Não há tempo para mais, infelizmente. Se houvesse, encheria nas calmas vinte páginas ou mais. Em times new roman, tamanho 12, espaço e meio, como é de praxe. Mas como se vão arranjando 5 minutos de vez em quando para ir deixando por aí umas bocas, já agora deixo de as deixar por aí e passo a deixá-las aqui na Lâmpada, separando muito bem, porque é necessário e não vejo muita gente a fazê-lo, aquilo que é facto daquilo que é opinião.
Começo hoje, com a seguinte opinião:
Meus caros amigos, toda esta discussão é profundamente idiota.
E é idiota por dois motivos. O primeiro, e fundamental, é o facto de que Portugal já ratificou o bendito acordo ortográfico. Fê-lo logo em 1991 e foi, aliás, o único país a fazê-lo dentro dos prazos estipulados. Os outros três países que ratificaram (Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) só o fizeram mais tarde. Portugal, tal como estes três países, também ratificou o primeiro protocolo modificativo ao acordo, que se limitava a remover os prazos, passando a exigir apenas a ratificação dos países signatários. O que isto significa é que bastará que os países que faltam ratifiquem o acordo e este primeiro protocolo para que Portugal esteja por ele obrigado. Sem ter de fazer nada além do que já fez.
Ou seja: esta discussão é idiota porque é extemporânea. Deveria ter acontecido há quase 20 anos, aquando da ratificação original, não agora.
E é idiota devido à atitude da esmagadora maioria dos opinadores que pipocaram por todo o lado, que não se coíbem de dar opiniões apesar de não terem a mais pequena noção daquilo que o acordo é, de quem assinou ou ratificou e quando, daquilo que muda ou deixa de mudar, etc., etc., etc. Há até quem faça gala de não ter lido o acordo, nem tencionar lê-lo, e ser contra. É-se contra porque "não se está para mudar a forma como se fala" ou porque "não se quer passar a escrever em português do Brasil" ou porque "só o Brasil e Cabo Verde ratificaram e por isso não vale", ou por tantas outras cretinices que têm sido postas em letra de imprensa por este país fora, até por membros destacados da nossa intelligenzia. Da nossa mui deprimente intelligenzia.
Entendamo-nos: há bons motivos para se ser contra o acordo, tal como há bons motivos para se ser a favor. Mas nem uns nem outros dispensam que as pessoas que querem ter e emitir opinião saibam alguma coisa sobre aquilo que opinam. Até porque a informação está aí, disponível, e apesar do acordo estar redigido em gramatiquês não é propriamente física quântica. Quem, apesar disso, insiste em alardear à primeira oportunidade a sua completa ignorância, coloca-se numa posição semelhante à dos criacionistas, que querem discutir biologia sem a mínima noção sobre o funcionamento dos seres vivos ou à daquelas pessoas muito senhoras do seu nariz que não se coíbem de emitir opinião sobre livros (ou géneros literários inteiros) que nunca leram. Estúpido, não? Pois é. Mas tem solução: calem-se por um bocadinho, vão informar-se e depois voltem sabendo finalmente daquilo que falam.
Acabaram-se os 5 minutos de hoje. Continua um destes dias.
Começo hoje, com a seguinte opinião:
Meus caros amigos, toda esta discussão é profundamente idiota.
E é idiota por dois motivos. O primeiro, e fundamental, é o facto de que Portugal já ratificou o bendito acordo ortográfico. Fê-lo logo em 1991 e foi, aliás, o único país a fazê-lo dentro dos prazos estipulados. Os outros três países que ratificaram (Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) só o fizeram mais tarde. Portugal, tal como estes três países, também ratificou o primeiro protocolo modificativo ao acordo, que se limitava a remover os prazos, passando a exigir apenas a ratificação dos países signatários. O que isto significa é que bastará que os países que faltam ratifiquem o acordo e este primeiro protocolo para que Portugal esteja por ele obrigado. Sem ter de fazer nada além do que já fez.
Ou seja: esta discussão é idiota porque é extemporânea. Deveria ter acontecido há quase 20 anos, aquando da ratificação original, não agora.
E é idiota devido à atitude da esmagadora maioria dos opinadores que pipocaram por todo o lado, que não se coíbem de dar opiniões apesar de não terem a mais pequena noção daquilo que o acordo é, de quem assinou ou ratificou e quando, daquilo que muda ou deixa de mudar, etc., etc., etc. Há até quem faça gala de não ter lido o acordo, nem tencionar lê-lo, e ser contra. É-se contra porque "não se está para mudar a forma como se fala" ou porque "não se quer passar a escrever em português do Brasil" ou porque "só o Brasil e Cabo Verde ratificaram e por isso não vale", ou por tantas outras cretinices que têm sido postas em letra de imprensa por este país fora, até por membros destacados da nossa intelligenzia. Da nossa mui deprimente intelligenzia.
Entendamo-nos: há bons motivos para se ser contra o acordo, tal como há bons motivos para se ser a favor. Mas nem uns nem outros dispensam que as pessoas que querem ter e emitir opinião saibam alguma coisa sobre aquilo que opinam. Até porque a informação está aí, disponível, e apesar do acordo estar redigido em gramatiquês não é propriamente física quântica. Quem, apesar disso, insiste em alardear à primeira oportunidade a sua completa ignorância, coloca-se numa posição semelhante à dos criacionistas, que querem discutir biologia sem a mínima noção sobre o funcionamento dos seres vivos ou à daquelas pessoas muito senhoras do seu nariz que não se coíbem de emitir opinião sobre livros (ou géneros literários inteiros) que nunca leram. Estúpido, não? Pois é. Mas tem solução: calem-se por um bocadinho, vão informar-se e depois voltem sabendo finalmente daquilo que falam.
Acabaram-se os 5 minutos de hoje. Continua um destes dias.
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Sotaques
Esta história dos sotaques é curiosa. Acabei de ouvir na televisão uma moça inglesa mas criada no Algarve, e achei piada a detetar nas palavras dela (em português) uma curiosa mistura dos dois sotaques, o inglês e o algarvio, uma mistura que nunca antes tinha ouvido, e que se não os conhecesse bem a ambos provavelmente teria grande dificuldade em identificar.
E é curiosa, esta coisa dos sotaques, por serem completamente involuntários. Uma pessoa cresce mergulhada num determinado ambiente linguístico e é esse ambiente que determina o seu modo de falar, sem que ela tenha voto na matéria. Se mais tarde muda de ambiente, ou se toma a decisão consciente de mudar o modo de falar (por uma questão de prestígio, por exemplo, ou por obrigação profissional) é raro que o sotaque secundário soe puro, livre das influências do original. Quando a decisão é consciente, o que envolve um esforço também consciente e uma auto-vigilância constante, assim que essa vigilância abranda, seja por que motivo for, eis que o sotaque original surge em todo o seu esplendor, ou quase.
Li ou ouvi algures que isto tem a ver com a maneira como a parte interior da boca é em parte moldada pela(s) língua(s) que se aprende(m) a falar na infância. Suponho que haja também uma moldagem semelhante nos circuitos linguísticos do cérebro, mas estou longe de ter a certeza.
Seja como for, os sotaques são fonte de infinito divertimento. Quem ainda não tentou pôr um brasileiro a falar com sotaque português? E quem não se divertiu com os resultados, invariavelmente um falhanço completo? E as infinitas piadas que envolvem a troca nortenha "dos bês pelos bês". Ou o arrastado do falar alentejano? Ou o falar típico dos ciganos... ou de Cascais? E como soaria um cigano criado em Cascais? Ou o gozo que é com os lisboetas à conta do seu "treuze" ou dos seus trejeitos repletos de fadistice?
Pena é que tendam a desaparecer, pelo menos dentro de um mesmo país, com a homogeneização criada pela televisão. Hoje, temos quase todos um sotaque híbrido, meio determinado pelo lugar onde nascemos, meio determinado por aquilo que a televisão decidiu, de forma bastante totalitária diga-se de passagem, que devia ser o "sotaque-padrão", contra o qual todos os outros perdem prestígio. Seria bom que não fosse assim. Não só para a manutenção da pluralidade cultural (porque o modo de falar também é cultura) de um país, mas também em nome do hom humor.
Pessoalmente, tenho um sotaque algarvio ligeiro: a minha mãe, embora nascida em Portimão, aprendeu a falar em Lisboa e o sotaque dela já era híbrido antes mesmo da televisão, e o meu pai é de uma aldeia cujo sotaque local é bastante menos marcado do os que o rodeiam, de modo que o meu acaba por ser também pouco marcado. Mas acarinho-o, e hei-de acarinhá-lo para sempre. Nunca farei nenhum tipo de esforço por não dizer "na" em lugar de "não", nas situações em que no falar algarvio a negativa se faz com "na" ("na sê" e não "não sei", por exemplo; comigo, hibridamente qb, é mais "na sei"), ou por pronunciar as vogais mudas do fim das palavras, em especial nos plurais terminados em "es".
É que, como grande parte dos outros fragmentos de que é composta a identidade, este também poderá ser involuntário, mas é parte daquilo que sou. Sem o meu sotaque, por ligeiro que seja, ficaria um pouco menos eu. E não me apetece que isso aconteça.
E é curiosa, esta coisa dos sotaques, por serem completamente involuntários. Uma pessoa cresce mergulhada num determinado ambiente linguístico e é esse ambiente que determina o seu modo de falar, sem que ela tenha voto na matéria. Se mais tarde muda de ambiente, ou se toma a decisão consciente de mudar o modo de falar (por uma questão de prestígio, por exemplo, ou por obrigação profissional) é raro que o sotaque secundário soe puro, livre das influências do original. Quando a decisão é consciente, o que envolve um esforço também consciente e uma auto-vigilância constante, assim que essa vigilância abranda, seja por que motivo for, eis que o sotaque original surge em todo o seu esplendor, ou quase.
Li ou ouvi algures que isto tem a ver com a maneira como a parte interior da boca é em parte moldada pela(s) língua(s) que se aprende(m) a falar na infância. Suponho que haja também uma moldagem semelhante nos circuitos linguísticos do cérebro, mas estou longe de ter a certeza.
Seja como for, os sotaques são fonte de infinito divertimento. Quem ainda não tentou pôr um brasileiro a falar com sotaque português? E quem não se divertiu com os resultados, invariavelmente um falhanço completo? E as infinitas piadas que envolvem a troca nortenha "dos bês pelos bês". Ou o arrastado do falar alentejano? Ou o falar típico dos ciganos... ou de Cascais? E como soaria um cigano criado em Cascais? Ou o gozo que é com os lisboetas à conta do seu "treuze" ou dos seus trejeitos repletos de fadistice?
Pena é que tendam a desaparecer, pelo menos dentro de um mesmo país, com a homogeneização criada pela televisão. Hoje, temos quase todos um sotaque híbrido, meio determinado pelo lugar onde nascemos, meio determinado por aquilo que a televisão decidiu, de forma bastante totalitária diga-se de passagem, que devia ser o "sotaque-padrão", contra o qual todos os outros perdem prestígio. Seria bom que não fosse assim. Não só para a manutenção da pluralidade cultural (porque o modo de falar também é cultura) de um país, mas também em nome do hom humor.
Pessoalmente, tenho um sotaque algarvio ligeiro: a minha mãe, embora nascida em Portimão, aprendeu a falar em Lisboa e o sotaque dela já era híbrido antes mesmo da televisão, e o meu pai é de uma aldeia cujo sotaque local é bastante menos marcado do os que o rodeiam, de modo que o meu acaba por ser também pouco marcado. Mas acarinho-o, e hei-de acarinhá-lo para sempre. Nunca farei nenhum tipo de esforço por não dizer "na" em lugar de "não", nas situações em que no falar algarvio a negativa se faz com "na" ("na sê" e não "não sei", por exemplo; comigo, hibridamente qb, é mais "na sei"), ou por pronunciar as vogais mudas do fim das palavras, em especial nos plurais terminados em "es".
É que, como grande parte dos outros fragmentos de que é composta a identidade, este também poderá ser involuntário, mas é parte daquilo que sou. Sem o meu sotaque, por ligeiro que seja, ficaria um pouco menos eu. E não me apetece que isso aconteça.
terça-feira, 23 de janeiro de 2007
Ainda os dias solarengos
Isto era suposto ser um comentário a um comentário, mas foi crescendo e achei melhor subi-lo a post. Origina-se num comentário do Zarolho ao post O prazer da língua também é errar, onde ele me espanca sem contemplações e com uma série de argumentos que me parecem, na generalidade, errados. Começa logo pela sugestão de que o novo significado de solarengo se origina por paronímia com soalheiro.
Paronímia entre solarengo e soalheiro?!
Credo!
Que haja paronímia entre soalheiro e soalho, muito bem; que haja paronímia entre solarengo e, sei lá, mulherengo, enfim, ainda vá, agora a única semelhança entre soalheiro e solarengo está nas duas letras com que as palavras se iniciam. Chamar a isto paronímia é o mesmo que dizer que há paronímia entre "pitecantropo" e "pilinha".
Ná! O novo significado da palavra nasceu por causa da polissemia da palavra solar, que pode ser substantivo (agora diz-se o quê? Nome?) para o casarão rural ou adjetivo, relativo ao sol. Nada tem a ver com paronímias.
Quanto à legitimidade da intervenção de qualquer falante, completamente de acordo. Daí o meu post. No momento em que os puristas tentar parar esta mudança em concreto, eu, que acho muito bem que ela aconteça, procuro pôr um bocado de areia nos travões. Pelos motivos expostos no post original e também por mais um:
Eu gosto de sinónimos. Enriquecem a língua, dão-lhe novas camadas de complexidade e fornecem-lhe novos instrumentos. E numa língua que lida tão mal com as repetições como a nossa, quantos mais sinónimos houver, melhor.
E mais um ainda: é da ambiguidade que nascem os melhores jogos de palavras, matéria-prima essencial para qualquer pessoa que lide criativamente com a língua. E não há melhor gerador de ambiguidade do que a existência de significados múltiplos para a mesma palavra ou para palavras muito semelhantes. A língua inglesa, nisso, é exemplar, e é precisamente nisso que baseia boa parte da sua força enquanto instrumento de criação literária.
Nisso e na facilidade que tem na geração de neologismos e na adoção de novos usos para palavras antigas. É, para seu grande proveito, uma língua muito plástica. Que a nossa o fosse igualmente, seria melhor para todos os que a usamos. Em vez disso temos um gigantesco manancial de arcaísmos e uma renovação que se baseia quase exclusivamente em palavras de importação.
De certeza que também há puristas por lá, mas é aparente que têm muito menos força do que os nossos. Sorte deles, azar nosso.
(E acabei de ter uma ideia para dar vida nova a este blog, que até a mim tem aborrecido)
Paronímia entre solarengo e soalheiro?!
Credo!
Que haja paronímia entre soalheiro e soalho, muito bem; que haja paronímia entre solarengo e, sei lá, mulherengo, enfim, ainda vá, agora a única semelhança entre soalheiro e solarengo está nas duas letras com que as palavras se iniciam. Chamar a isto paronímia é o mesmo que dizer que há paronímia entre "pitecantropo" e "pilinha".
Ná! O novo significado da palavra nasceu por causa da polissemia da palavra solar, que pode ser substantivo (agora diz-se o quê? Nome?) para o casarão rural ou adjetivo, relativo ao sol. Nada tem a ver com paronímias.
Quanto à legitimidade da intervenção de qualquer falante, completamente de acordo. Daí o meu post. No momento em que os puristas tentar parar esta mudança em concreto, eu, que acho muito bem que ela aconteça, procuro pôr um bocado de areia nos travões. Pelos motivos expostos no post original e também por mais um:
Eu gosto de sinónimos. Enriquecem a língua, dão-lhe novas camadas de complexidade e fornecem-lhe novos instrumentos. E numa língua que lida tão mal com as repetições como a nossa, quantos mais sinónimos houver, melhor.
E mais um ainda: é da ambiguidade que nascem os melhores jogos de palavras, matéria-prima essencial para qualquer pessoa que lide criativamente com a língua. E não há melhor gerador de ambiguidade do que a existência de significados múltiplos para a mesma palavra ou para palavras muito semelhantes. A língua inglesa, nisso, é exemplar, e é precisamente nisso que baseia boa parte da sua força enquanto instrumento de criação literária.
Nisso e na facilidade que tem na geração de neologismos e na adoção de novos usos para palavras antigas. É, para seu grande proveito, uma língua muito plástica. Que a nossa o fosse igualmente, seria melhor para todos os que a usamos. Em vez disso temos um gigantesco manancial de arcaísmos e uma renovação que se baseia quase exclusivamente em palavras de importação.
De certeza que também há puristas por lá, mas é aparente que têm muito menos força do que os nossos. Sorte deles, azar nosso.
(E acabei de ter uma ideia para dar vida nova a este blog, que até a mim tem aborrecido)
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
O prazer da língua também é errar
Hoje, no Cuidado com a Língua, a malta do Ciberdúvidas voltou a um tema de que já tinham falado no site pelo menos uma vez: a correção, ou não, de usar-se "solarengo" para querer dizer "soalheiro". Dizem eles, e com toda a razão, que soalheiro é que é a palavra que tem como significado "cheio de sol", referindo-se a palavra solarengo aos solares, esses velhos e tantas vezes decrépitos edifícios da paisagem rural portuguesa (e não só).
Eles têm razão, mas há um mas por aí, algures. E o mas é, claro, que a língua evolui e sempre tem evoluído por meio dos erros que se disseminam, gerando palavras novas e novos significados para palavras antigas. Para uns hipotéticos ciberduvidosos do latim, o português estaria errado de cima a baixo, e o mesmo aconteceria com todas as outras línguas neo-latinas, por mais palavras derivadas por via erudita que contenham.
Pois bem, este parece-me um caso típico de uma palavra que está em processo de mutação de significado. Não só se ouve nas bocas de gente inculta, como se escuta na comunicação social e dita pelas elites, de tal modo que até já encontrou o seu caminho até se tornar verbete de um dicionário como o próprio Ciberdúvidas admite. E além disso, é uma palavra bonita. Enche-se a boca ao dizer solarengo. é uma palavra seca e brilhante como as coisas soalheiras devem ser, o que contrasta com a humidade gotejante da palavra mais correta. Solarengo tem mais sol que soalheiro, por paradoxal que pareça. E é provavelmente por isso que tanta gente a adotou como sinónimo.
Por isso e também, quer-me parecer, pela erosão do significado primário da palavra. Quem se importa com solares hoje em dia? Quantas vezes se fala deles ao longo de um ano? Uma? Duas? A verdade é que ao mesmo tempo que a realidade social que gerou os solares vai entrando nos estertores finais, o mesmo acontece aos próprios solares, que de locais de vida vão transitando cada vez mais para a ruína ou a morte suave do "património arquitetónico", com um punhado de exceções transformadas em locais de turismo rural. E essa morte lenta dos solares é acompanhada por um caminho idêntico percorrido pelos termos que lhes dizem respeito. Solarengo entre eles.
Salvo, claro, se mudarem de significado. Salvo se o erro se transformar em variante e a língua a acolher. Salvo se solarengo passar a significar, também formalmente, como tantas vezes já o faz na informalidade, algo cheio de sol. Pois neste país solarengo não teremos nunca falta de oportunidade para usar essa palavra, e até a poderemos usar em cunjunto com a outra, a certa, a que diz que o dia hoje esteve soalheiro pelo menos por estas bandas.
O prazer da língua também está em errá-la, desde que a erremos de modos esteticamente agradáveis e úteis e que não propiciem confusões. E, a meu ver, este erro em concreto possui todas estas qualidades.
Eles têm razão, mas há um mas por aí, algures. E o mas é, claro, que a língua evolui e sempre tem evoluído por meio dos erros que se disseminam, gerando palavras novas e novos significados para palavras antigas. Para uns hipotéticos ciberduvidosos do latim, o português estaria errado de cima a baixo, e o mesmo aconteceria com todas as outras línguas neo-latinas, por mais palavras derivadas por via erudita que contenham.
Pois bem, este parece-me um caso típico de uma palavra que está em processo de mutação de significado. Não só se ouve nas bocas de gente inculta, como se escuta na comunicação social e dita pelas elites, de tal modo que até já encontrou o seu caminho até se tornar verbete de um dicionário como o próprio Ciberdúvidas admite. E além disso, é uma palavra bonita. Enche-se a boca ao dizer solarengo. é uma palavra seca e brilhante como as coisas soalheiras devem ser, o que contrasta com a humidade gotejante da palavra mais correta. Solarengo tem mais sol que soalheiro, por paradoxal que pareça. E é provavelmente por isso que tanta gente a adotou como sinónimo.
Por isso e também, quer-me parecer, pela erosão do significado primário da palavra. Quem se importa com solares hoje em dia? Quantas vezes se fala deles ao longo de um ano? Uma? Duas? A verdade é que ao mesmo tempo que a realidade social que gerou os solares vai entrando nos estertores finais, o mesmo acontece aos próprios solares, que de locais de vida vão transitando cada vez mais para a ruína ou a morte suave do "património arquitetónico", com um punhado de exceções transformadas em locais de turismo rural. E essa morte lenta dos solares é acompanhada por um caminho idêntico percorrido pelos termos que lhes dizem respeito. Solarengo entre eles.
Salvo, claro, se mudarem de significado. Salvo se o erro se transformar em variante e a língua a acolher. Salvo se solarengo passar a significar, também formalmente, como tantas vezes já o faz na informalidade, algo cheio de sol. Pois neste país solarengo não teremos nunca falta de oportunidade para usar essa palavra, e até a poderemos usar em cunjunto com a outra, a certa, a que diz que o dia hoje esteve soalheiro pelo menos por estas bandas.
O prazer da língua também está em errá-la, desde que a erremos de modos esteticamente agradáveis e úteis e que não propiciem confusões. E, a meu ver, este erro em concreto possui todas estas qualidades.
terça-feira, 28 de novembro de 2006
Outra coisa que não percebo no Toni Vitorino...
É porque é que ele faz questão de pronunciar todas as consoantes mudas. Não é tanto o caso de "eurocéptico", cujo p muita gente pronuncia, mas quem, além do Vitorino, pronuncia o c de "acção"?! É mais esquisito ouvi-lo dizer "akção" do que escrever "ação", juro.
sábado, 11 de novembro de 2006
Este blogue passa a ser escrito no português do acordo
A partir de hoje, a partir deste post, este blogue passa a ser escrito no português do acordo ortográfico. Por vários motivos: porque parece que só quando a sociedade civil se mexer é que o raio dos políticos (e os senhores linguistas que estão à espera não sei de quê para porem cá fora o Vocabulário Geral) desempacam esta obra de Santa Engrácia. Porque a resistência passiva de muita gente deste lado do Charco tem a ver com uma ideia errada que se gerou de que ia mudar muita coisa no modo de escrever português. E porque eu quero já estar completamente adaptado quando chegar a hora de ver o acordo finalmente adotado e em uso.
Adeus consoantes mudas!
Para os curiosos, imperfeitamente informados e desejosos de mais informação, o acordo pode ser encontrado, por exemplo, aqui.
(é provável que cometa algumas gafes. Corrijam-mas, sim?)
Alguém se junta a esta espécie de "movimento"?
Adeus consoantes mudas!
Para os curiosos, imperfeitamente informados e desejosos de mais informação, o acordo pode ser encontrado, por exemplo, aqui.
(é provável que cometa algumas gafes. Corrijam-mas, sim?)
Alguém se junta a esta espécie de "movimento"?
segunda-feira, 30 de outubro de 2006
Pato de internet
De vez em quando surge-nos à frente uma expressão tão genial que dá vontade propagar. Esta apareceu-me ontem e tem origem brasileira. "Já que pato é aquele bicho que nada, mas nada mal, anda, mas anda mal, canta, mas canta mal", escreve o amigo de quem li a expressão, assim o pato de internet seria aquele "tipo de pessoa que se mete a dar palpite no que lhe dá na cacholeta, mesmo que não entenda nem medianamente do assunto (o que costuma ser a regra)".
É brilhante.
Mas atenção: o verdadeiro pato de internet não deve ser confundido com aproximações parciais e pontuais, como a do Nuno Seabra Lopes quando se mete a discorrer sobre o caso de takeover do bloque freedomtocopy, blogue que ou foi fechado pelo seu criador e reaberto, no mesmo endereço, por outra pessoa - o que custa a crer - ou foi simplesmente roubado, chamando-lhe "reencaminhamento para um outro blogue promocional da obra Equador". E apetecer-me-ia perguntar por que motivo um acto que será pouco ético caso se confirme (a denúncia de plágio feita com base em manipulação da realidade) é condenável ao passo que um outro acto pouco ético (o roubo de um endereço electrónico com substituição de conteúdo) já é "genial" e digno de aplauso.
Não, o Nuno Seabra Lopes não é um pato de internet. Limitou-se a fazer figura de pato de internet naquele post. São coisas diferentes.
É brilhante.
Mas atenção: o verdadeiro pato de internet não deve ser confundido com aproximações parciais e pontuais, como a do Nuno Seabra Lopes quando se mete a discorrer sobre o caso de takeover do bloque freedomtocopy, blogue que ou foi fechado pelo seu criador e reaberto, no mesmo endereço, por outra pessoa - o que custa a crer - ou foi simplesmente roubado, chamando-lhe "reencaminhamento para um outro blogue promocional da obra Equador". E apetecer-me-ia perguntar por que motivo um acto que será pouco ético caso se confirme (a denúncia de plágio feita com base em manipulação da realidade) é condenável ao passo que um outro acto pouco ético (o roubo de um endereço electrónico com substituição de conteúdo) já é "genial" e digno de aplauso.
Não, o Nuno Seabra Lopes não é um pato de internet. Limitou-se a fazer figura de pato de internet naquele post. São coisas diferentes.
sábado, 16 de setembro de 2006
Picuinhices da língua
Há coisas que eu, realmente, não percebo. Será que o Fernando Venâncio nunca pensou uma coisa e escreveu outra? Será que não sofre também daquela peculiar forma de dislexia tão comum nesta era de computadores que advém de não sermos capazes de dactilografar à mesma velocidade a que nos surgem os pensamentos e de, portanto, os dedos nos fugirem para teclas erradas? Será que não confia implicitamente, como todos nós, nos correctores ortográficos para detectar esses erros? Será que nunca deixou passar gralhas nos textos que reviu, uma e outra vez e outra ainda? Será que nunca mudou de ideias a meio de uma frase, nomeadamente quanto à estrutura que ficaria melhor e às melhores palavras para exprimir a ideia, e teve como resultado uma frase híbrida e, portanto, completamente disparatada? É que eu sim. E, ajuizando pelo que tenho visto ao ler blogues, emails, submissões literárias e etc., estou muito, muito, muito longe de ser o único.
Outra coisa que eu não percebo é que se dê importância a um texto publicado na Bola. Mas esse já é outro assunto...
Outra coisa que eu não percebo é que se dê importância a um texto publicado na Bola. Mas esse já é outro assunto...
sábado, 5 de agosto de 2006
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