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quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Reginald Bretnor: Unknown Things

Julgo que nunca tinha lido nada de Reginald Bretnor antes deste conto que, segundo é informado neste Megapack, saiu originalmente em 1989. E confesso que esta data me surpreendeu um pouco. Pelo ambiente, pela forma de escrita, pela abordagem, julguei ser coisa significativamente mais antiga, datada, talvez, dos anos 50 ou 60.

Unknown Things é, pois, uma história muito clássica. Uma daquelas histórias de ficção científica (e fantasia, género onde até talvez sejam mais comuns) centradas na estranheza de uma personagem bizarra, que o protagonista principal, por vezes o narrador, procura decifrar.

Li várias histórias dessas ao longo dos anos e esta, embora esteja contada com eficácia, em nada se destaca das outras.

O protagonista-narrador, aqui, é um vendedor de antiguidades americano que todos os anos passa uma temporada na Grã-Bretanha e na Europa continental à procura de coisas que possa levar para a América para vender. É numa dessas viagens que conhece a personagem misteriosa, um tal Hoogstraten (não me passou despercebido que o apelido dele comece da mesma forma que eu decidi batizar os meus ETs no Embaixadores, o que pode ter tingido um pouco a primeira opinião que a personagem me causou), e o conto prossegue a narrar o que acontece nos encontros entre os dois.

Hoogstraten é aquilo a que se costuma chamar um excêntrico. Podre de rico, aparentemente, paga exorbitâncias por qualquer objeto que lhe caia no goto. Mas procura um tipo muito específico de objeto: coisas de utilidade misteriosa que nem ele, nem os vendedores, consigam determinar qual possa ser.

O conto está construído por forma a preparar o final surpresa, que envolve uma terceira personagem, uma mulher que parece estar nalguma espécie de relação com o excêntrico e deixa o vendedor completamente obcecado. Também o final surpresa é eficaz mas, de novo e para não destoar do resto do conto, não particularmente entusiasmante. Um conto decente, mas apenas isso.

domingo, 26 de janeiro de 2025

Michael Garcia Spring: Path to the Lighthouse

Antes das pausas, dizia com frequência, sempre que me deparava com poemas naquilo que ia lendo, que não percebia grande coisa de poesia. Pois bem: continuo sem perceber.

Apesar disso, achei este poema de Michael Garcia Spring bastante interessante, em grande medida pela capacidade que tem de evocar uma paisagem muito característica de uma geografia onde eu nunca estive mas que até conheço de a ter visto numa variedade de écrans.

Path to the Lighthouse é uma exploração fantasiosa e surreal, até um tanto ou quanto onírica, da costa ocidental da América do Norte, algures entre o norte da Califórnia e a Colúmbia Britânica. Sim, sobre essa paisagem paira a figura fantasmagórica de uma mulher. Mas o importante é mesmo, parece-me, a paisagem propriamente dita.

Mas lá está: posso perfeitamente estar completamente errado. Afinal, eu pouco percebo de poesia.

Textos anteriores desta publicação:

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Andrew L. Wilson: Ariel Sharon's Dream

OK, deste lembrava-me.

Não me lembrava dos pormenores, dos detalhes de enredo, mas sim, lembrava-me de o ter lido e do clima geral desta breve história de Andrew L. Wilson. E também me lembrava de ter gostado, o que foi coisa rara no período que antecedeu o meu piripacozinho. Refiro-me a lembrar-me do que lia e também a gostar do que lia.

Ariel Sharon foi um criminoso de guerra israelita que finalmente deixou o mundo um pouco melhor ao morrer em 2014. Na altura em que este conto presumivelmente terá sido escrito (a revista data de 2004; imagino que a criação literária tenha acontecido nesse ano ou no anterior), Sharon era primeiro-ministro de Israel, e o conto é claramente motivado pela fúria por um monstro daqueles estar naquela posição. Mas apesar disso, não é um conto furioso. É uma história de denúncia branda, servindo-se das técnicas do realismo mágico, da fantasia e de alguma metaliteratura para mostrar Sharon tal como era.

Ariel Sharon's Dream só é sonho na medida em que talvez fosse o sonho de Wilson: ver Sharon morto. Não só vê-lo morto, mas reencarnado na pessoa de uma das suas vítimas, um palestiniano, órfão ao nascer em consequência direta da ocupação israelita da Palestina, da opressão israelita na Palestina, que acaba assassinado, aos dez anos de idade, por uma bala disparada por soldados israelitas na Palestina. Um algoz a viver a breve vida de uma das suas vítimas.

Sim, gostei mesmo deste conto. Quando o li, e agora, ao relê-lo.

E agora ao relê-lo não consegui evitar interrogar-me sobre o que sentirá Andrew Wilson, se ainda andar por aí, ao ver que hoje, vinte anos depois, alguém ainda pior que Sharon dirige um genocídio ainda mais mortífero na mesma terra amaldiçoada por decisões tomadas há muitas décadas em salas aquecidas a milhares de quilómetros de distância.

Textos anteriores desta publicação:

domingo, 5 de janeiro de 2025

Jack Smith: Dread

Começo por uma releitura, e é possível que sejam também releituras as próximas coisas a publicar aqui na Lâmpada. Uma releitura que, atestando o estado em que eu estava quando fiz a leitura inicial, foi quase como ler pela primeira vez; só mesmo no fim do conto se me agitou a memória com uma vaga recordação de já o ter lido.

Sim, Dread é um conto. Um conto de alguém com um nome tão genérico que quase parece pseudónimo: Jack Smith. Um conto muito americano, escrito em inglês (a revista é portuguesa, mas todos os textos finais estão em inglês), com uma atmosfera de realismo mágico cheia de foreshadowing. O protagonista, um vendedor de seguros em plena crise existencial, decide num impulso fazer gazeta ao trabalho (que odeia, embora pareça odiar mais os colegas que o trabalho) para pensar sobre a vida vazia que vive. E é basicamente sobre isso, o conto: o vazio da vida de um trabalhador de colarinho branco, enfiado até ao pescoço nas areias movediças do corporativismo americano. Vale uma tal vida a pena ser vivida? Smith parece achar que não, embora o seu protagonista não tenha grandes certezas. Ele detesta-a, sim, mas que alternativa existe?

O foreshadowing chega ao volante de condutores perigosos, armados daquelas tão americanas aberrações de quatro rodas, aqueles híbridos de SUV e camioneta, enormes, sôfregos de combustível e, aparentemente, de sangue. Numa manhã de viagem entre casa e o trabalho, escapa-se por pouco a pelo menos duas colisões fatais com uma coisa dessas. E depois, bem...

É um conto interessante, este. Não posso dizer que seja a melhor coisa desde a invenção da batata frita, que não é. Mas é interessante.

Textos anteriores desta publicação:

domingo, 28 de janeiro de 2024

Poeiras

Esperando que ninguém aí desse lado sofra de alergia ao pó, e que ninguém venha daí armado de aspirador, espanador ou pano do dito, porque era chato se viesse depois de eu ter o trabalho de deixar aqui estas poeiras, siga.

oOo

Ou há dois estados na Palestina, ou não há nenhum.

Era isto que toda a gente devia estar a dizer com toda a clareza àqueles nazis do governo de Israel.

oOo

Ah. Mais drama nos Hugos.

Como tínhamos todos sentido a falta de um bocadinho de drama nos Hugos.

(e desta vez a coisa parece mais grave do que na época dos "puppies").

oOo

Olha, encontrei um conto de ficção científica. Não é bom, mas escapa como exercício de escrita de alguém que não tem experiência na escrita de FC (e se calhar também na leitura). Já li contos de FC (bem, mais ou menos) de escritores de relativo renome no mainstream que são pouco melhores que isto.

oOo

A aliança facha está a tentar assustar a malta com a repetição do melhor governo que este país teve nos ultimos 100 anos, pelo menos, só que com alguém competente, a Mortágua, no ministério das finanças em vez do tipo que lá está agora, aquele que conseguiu a proeza de perder a câmara de Lisboa.

Eh pá, os fachos às vezes têm boas ideias. Eu quero isto. Onde é que assino?

oOo

Os nazis de Israel parece que ainda não perceberam que o efeito que tem mostrarem fotografias de bebés assassinados pelo Hamas é lembrar as pessoas dos milhares de bebés palestinianos assassinados por eles.

(Isto foi escrito dias antes do Tribunal Internacional de Justiça ser severo com Israel numa decisão preliminar relativa à acusação de genocídio apresentada pela África do Sul. Mas parece que continuam sem perceber.)

oOo

Já agora, qual é a diferença entre um fascista e um facho?

Um fascista... é um fascista.

Um facho é aquele tipo que, se por acaso voltasse a implantar-se um regime fascista em Portugal, não seria perseguido, muito menos preso, muito menos assassinado, e pelo contrário passaria a participar com maior ou menor alegria nas estruturas do regime. Alguns dos fachos, como se tem visto, são mesmo fascistas. Outros não, talvez até prefiram a democracia, mas se vier a ditadura também estão na boa.

oOo

Portimão está coberta por uma densa nuvem de fumo. Parece que há algum grande incêndio a arder aqui perto. Mas desconfio que não é incêndio nenhum, é só resultado da porcaria das lareiras.

Da poluição que aquelas coisas provocam ninguém fala, e é pena.

oOo

Banana for scale? Esqueçam!

Giraffe for scale, essa é que é a cena!

oOo

Quê, o Miguel Albuquerque é arguido? Não posso crer! Um gajo metido até ao pescoço em criptomoedas envolvido em corrupção?! Impossível!

(isto é sarcasmo, caso alguém tenha dúvidas e queira saber)

oOo

Heh. Belo tempo de antena.

Dispensava-se o cultozinho à personalidade, mas o resto é muito, muito bom.

oOo

Estou aqui a ouvir um jurista a discorrer na televisão sobre o processo do marquês e a sensação que me deixa é que esta malta se está completamente nas tintas para a justiça.

Adoram as bizantinices do processo judicial. Mas justiça? Bah. Borrifando!

oOo

A diferença de discurso do PPD quanto ao caso do Costa, que não é suspeito de nada, muito menos arguido, e se demitiu, e o caso do Albuquerque, que até já arguido é mas recusa demitir-se, não só é todo um tratado em si mesma, como mostra com cristalina clareza o regabofe que aí viria se aquele bando de vigaristas vencesse as eleições e formasse governo.

(isto foi escrito, obviamente, antes do PAN tirar o tapete ao Albuquerque forçando-o a demitir-se. Mas não importa: ficou abundantemente claro para toda a gente que sem a pressão do PAN o Albuquerque não se demitia e teria o absoluto respaldo das estruturas nacionais do PPD.)

oOo


O Ingenuity, o primeiro helicóptero a voar noutro planeta, acabou de falecer. Aparentemente, partiu-se uma das pás.

Tinha 5 voos programados, no máximo. Fez 72.

Chapeau, robozinho! Saíste muito melhor que a encomenda.

oOo

O Lucas libertou-se. Parabéns ao Lucas. :)

(É música. E não só)


oOo

Tenho de reconhecer que é simpático da parte do Passos Coelho vir relembrar à malta a porcaria que foram os governos dele.

Depois de ter votado na geringonça, o que terá certamente feito porque ele cumpre sempre todas as promessas que faz, não se esperava menos dele.

(sim, ainda é sarcasmo)

oOo

Da imprensa: "Tesla recalls nearly 200,000 vehicles over faulty backup camera"

LOL!

oOo

Eh pá, se o Marcelo pôde esperar alguns 3 meses para dissolver a AR depois de dizer que ia dissolver a AR, não é o facto de estar mais dois meses sem o poder de dissolver a Assembleia Legislativa da Madeira que quer dizer seja o que for. Só não dissolve a ALM se não quiser. E se não quiser é grave, tendo em conta os antecedentes.

oOo

E foi isto. Não foi uma semana muito divertida, pela minha parte, mas outros trataram da diversão. As partilhas, e mais umas quantas coisas, estão na minha conta de Mastodon, acessível clicando aqui no botãozinho.


quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Ao procurar o que se quer encontrar, encontra-se o que não se procura

Não direi que é sempre assim, mas é frequentemente assim. Uma pessoa procura uma coisa, não a encontra, mas encontra coisas que não procurava. Às vezes até acaba por descobrir que precisava mais destas do que das que procurava.

Não é bem o caso, mas ao procurar nos meus feeds RSS as coisas para aquilo do ET de Algol-7, dei com uma espécie de conto de FC publicado na Comunidade Cultura e Arte já há mais de um ano. É giro. Não como FC, propriamente, e o próprio Leonardo Cruz diz logo a abrir que se trata de um "Interstellar de trazer por casa" para que a ninguém lhe passe pela cabeça que a ideia dele foi fazer uma FC a sério. Mas é um daqueles contos que usam as roupagens da FC para fazer outras coisas e, ao contrário de outros que o fazem desastradamente, este fá-lo engraçadamente.

Se não leram ainda, podem ir ler. Não perdem nada com isso.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

The Dragon and Her Friend



"Do you think", asked the dragon, "they've forgotten the... incident yet? Down there?"
"Hardly," I said. And then, "You did cause a lot of damage. And... other stuff."
A puff of smoke came out of his nostrils, his way of sighing.
"I'm sorry."
"I know."
He waited. I waited.
"You miss them?"
What to say? The truth?
"Sometimes. Yeah."
"You can go back, you know."
"There's nobody there for me. Not anymore."
He didn't answer. And I did all I could do.
I remembered.


No Mastodon existe uma vibrante comunidade de gente que escreve, embora a língua portuguesa esteja fracamente representada, uma comunidade não só numerosa como produtiva. Há desafios, jogos literários, gente a ler e a falar do que lê, vida. E há muito pouco tempo ocorreu-me uma historinha que obedecia às regras de um desses desafios: escrever uma microficção inspirada pela imagem que ilustra este post, uma imagem cujos créditos são atribuídos a Monstermonger. Uma microficção que caiba num toot, i.e., em 500 caracteres.

Escrevi a história diretamente em inglês, e agora mostro-a aqui fora do Mastodon. Em inglês, sim, mas também têm aqui em baixo a tradução para português.

Se ficarem por aí até eu ter finalmente disponibilidade para escrever o tal post, perceberão até que ponto este facto banal de ter escrito uma historinha é significativo.

Até lá, fiquem-se com a história em português.


— Achas — perguntou o dragão — que eles já esqueceram o... incidente? Lá em baixo?
— Dificilmente — disse eu. E depois: — Tu causaste mesmo montes de estragos. E... outras coisas.
Uma nuvenzinha de fumo saiu-lhe das narinas, a sua forma de suspirar.
— Lamento.
— Eu sei.
Esperou. Eu esperei.
— Tens saudades deles?
O que dizer? A verdade?
— Às vezes. Sim.
— Podes voltar, sabes?
— Não há lá ninguém para mim. Já não há.
Ele não respondeu. E eu fiz tudo o que podia fazer.
Recordei.

domingo, 4 de dezembro de 2022

Leiturtugas #181

E eis que novembro termina e começa dezembro. E desta vez temos de dividir as Leiturtugas da semana em dois grupos: as que apareceram até dezembro e as que apareceram a partir de dia 1.

Até dezembro houve quatro, três das quais de participantes oficiais no projeto.

Começou com a Cristina Alves e a sua opinião sobre um romance de fantasia de Nuno Ferreira publicado no ano passado pela Divergência. Intitula-se Embaixada e não parece conter FC, o que leva as sinalefas da Cristina a 1c5s.

Seguiu com a Tita e uma opinião exclusivamente em vídeo sobre um romance de Valentina Silva Ferreira publicado no mês passado por uma editora que eu desconhecia: a Aurora. O romance intitula-se Vertigens e, ao contrário do do outro Ferreira ali em cima, contém FC. E isso significa que a Tita passa a 2c2s.

O último dos oficiais a publicar opiniões em novembro foi o Artur Coelho, com mais uma das suas opiniões curtas sobre BD, mais desenvolvidas noutro lado. A obra lida desta vez foi O Terror Negro, de Jayme Cortez e Fábio Moraes, uma edição deste ano da Polvo. BD, já se sabe, conta como "sem", o que leva o Artur a 3c20s.

Novembro encerra-se com um oficioso, a Adelaide Bernardo, que publicou uma opinião sobre um livro inspirado numa lenda tradicional algarvia, a das amendoeiras em flor. Não cheguei a perceber se a versão de Joana Estrela chega ou não a ter fantástico, mas sendo o material de base lendário parece-me provável que sim, pelo que resolvi incluir o livro aqui. Este intitula-se A Rainha do Norte e foi publicado em 2013 pela Planeta Tangerina. FC é que certamente não terá.

E é assim que a lista dos candidatos a receber em casa um exemplar de Ratazanas e Outros Acepipes fica constituída como consta da tabela que encerra este longo post. Uma curiosidade: este ano estamos todos atrasados. Até o Artur, dada a sua escassez de leituras com FC.

Mas isso é mais à frente. Para já, temos mais leiturtugas a divulgar. Nomeadamente aquelas que aconteceram já em dezembro.

Foram mais três. Uma oficial e duas oficiosas.

A oficial foi do Artur Coelho, mais uma vez uma daquelas opiniões breves sobre BD que ele desenvolve mais noutro lado. É um livro publicado este ano pel'A Seita, cujos autores são André Morgado e Rodolfo Oliveira. O título? O Infeliz Pacto de George Walden. E as sinalefas do Artur passam a 3c21s.

Quanto aos oficiosos, desta vez não há Saramago. Há uma opinião da Maria Manuel Magalhães sobre um livro de um humor surreal cheio de fantástico intitulado A Bienal da Tia Matilde. O autor é António Botto Quintans e o livro é uma edição deste ano da Guerra e Paz. Não parece é ter FC.

E há ainda, por fim, outra opinião exclusivamente em vídeo da Maria João Covas. O autor de que ela fala desta vez é Gonçalo M. Tavares e o livro é mais um livro fantástico publicado este ano, mas agora pela Bertrand. Intitula-se O Diabo. E também não parece haver aqui nenhuma FC.

E é tudo por esta semana, e não é pouco. Até à próxima!

Ah, sim, a tabela. Sigam este link aqui em baixo:

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Leiturtugas #180

Um dia e picos de atraso, e cá estamos de volta com mais um post de divulgação das Leiturtugas. E este é feito sobretudo de participantes oficiais.

Ou melhor, de uma participante oficial, a Cristina Alves. Temos nada menos que quatro posts dela a divulgar, ainda que nem todos sejam desta semana. Dois são; os outros dois são de semanas anteriores, posts em que ela se esqueceu de colocar a etiquetazinha das Leiturtugas, o que me levou a supor que não pretendia incluí-los nestas listas. Mas entretanto soube que pretendia, portanto aqui vão eles:

São dois posts de outubro, ambos sobre banda desenhada. O primeiro debruça-se sobre Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira, uma edição deste ano da Tentáculo.

Já o segundo é sobre O Pescador de Memórias, álbum de Miguel Peres e Majory Yokomizo publicado no ano passado pela Kingpin Books.

Além destas opiniões atrasadas, a Cristina também nos brindou esta semana com mais duas. A primeira teve por alvo Periferia, um romance de Catarina Costa que venceu o Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal. O extraordinário é que é um livro de FC, ainda que para não nos enchermos de esperança há que reconhecer que as distopias de base mais ou menos alegórica até têm conseguido rebentar com alguma frequência a quarentena imposta ao género, sem que isso tenha grandes implicações para o género como um todo. É outra edição deste ano, esta da Guerra e Paz.

A segunda opinião que a Cristina nos apresenta esta semana regressa à BD, mais propriamente a Bestiário da Isa. Publicada também este ano pel'A Seita, esta é uma obra de Joana Afonso. Tudo somado, é um livro de FC e 3 de BD, que contam como sem FC. E é assim que a Cristina, depois de um longo deserto, passa de repente a 1c4s.

E quanto a participantes oficiais estamos conversados. Mas também houve oficiosos.

O primeiro a aparecer, ou antes, a primeira, foi a Maria João, trazendo-nos a sua opinião sobre um romance distópico que já surgiu por aí há muito pouco tempo. Do Outro Lado, edição deste ano da Suma de Letras, foi escrito por Mafalda Santos e sim, tem FC.

Por fim, quem nos traz o inevitável José Saramago é a Daniela. Opina ela sobre Todos os Nomes, um romance publicado originalmente em 1997 pela Caminho mas aqui lido numa das edições recentes da Porto Editora, e que é uma das menos fantásticas obras de Saramago. Tem a atmosfera e um detalhe ou outro de realismo mágico, mas fica-se por aí. No entanto, tem a atmosfera e os detalhes, pelo que conta. Não tem é FC nenhuma.

E é tudo. Para a semana há mais. Até lá.

sábado, 26 de novembro de 2022

Philip K. Dick: Segunda Variedade

Nada como um conto (ou melhor, uma novela) profundamente dickiano para abrir uma coletânea de contos de Philip K. Dick.. Mas só mesmo com uma máquina do tempo quem escolheu esta história para abrir este volume poderia saber que se tornaria tão relevante para os tempos que estamos a viver neste momento. Sim, que ler hoje este Segunda Variedade (bibliografia) tem um impacto bem diferente, e bastante maior, do que teria se a novela fosse lida em 2017, o ano em que este livro foi publicado.

Porquê?

Por causa da guerra.

É que esta é uma história de guerra. Uma guerra longa que opõe as Nações Unidas à União Soviética, por motivos que os combatentes que a protagonizam já nem conhecem. E quando hoje olhamos em volta e vemos uma Rússia fascista a lançar, por interposta Ucrânia, uma guerra contra as regras internacionais corporizadas pelas mesmíssimas Nações Unidas, o arrepio de contemporaniedade é inevitável. E pior se torna quando nos lembramos que esta guerra do mundo real é em grande medida travada através de drones, veículos não tripulados de vários tipos, e a história de Dick se centra no perigo constituído por máquinas auto-replicantes que os americanos criaram para tentarem defender-se dos ataques russos... e que depois lhes fugiram completamente ao controlo.

Há muito em comum entre este enredo e as ideias que estão na base dos filmes do Terminator, embora aqui esteja ausente o elemento de viagem no tempo presente na obra de Cameron. Mas o mundo descrito por Dick é muito parecido ao mundo futuro de onde a personagem de Swarzenegger vem: um mundo arruinado, uma distopia absoluta, onde uma Terra devastada é palco de uma guerra de extermínio movida por máquinas contra os últimos resistentes da espécie humana. Que aqui não exista Skynet pouco importa. Que nesta novela haja três lados e não dois, por mais difusas que sejam as fronteiras entre esses três lados, importa ainda menos. Mas já tem mais importância que o fulcro do enredo, aquilo que o faz mover, seja outro. Ou seja: o cenário é muito semelhante, mas as histórias contadas são diferentes.

Os filmes da franquia Terminator centram-se na tentativa de salvar um combatente da guerra futura, sem o qual a derrota face às máquinas seria inevitável. Mas, fiel a si próprio, Dick centra-se na própria infiabilidade daquilo que os olhos nos dizem, na impossibilidade de certezas quanto à natureza das coisas. É que as máquinas nesta história arranjaram uma forma infalível para se infiltrarem nos bunkers russos (e será que só russos?): transformaram-se em androides praticamente indistinguíveis de pessoas comuns, salvo pelo facto de serem produzidos em massa, em séries de "pessoas" todas iguais. As variedades de que o título fala. E resulta. A guerra está prestes a terminar quando, a um muito delapidado bunker de tropas da ONU, chega um soldado russo com uma mensagem: a guerra está quase a ser perdida. Não por eles, russos, mas por toda a humanidade. Os da ONU desconfiam, mas vão investigar. E assim arranca um enredo dickiano no qual nada é realmente o que parece.

Ler esta história em tempo de guerra é particularmente terrível. Não que já existam androides assassinos a exterminar combatentes humanos, mas a desumanidade nas trincheiras é tal que é quase como se houvesse. E há evoluções tecnológicas que vão nesse sentido. Parece ser apenas questão de tempo até se chegar a este ponto, e isso é de arrepiar o mais fleumático.

Este é uma história invulgarmente política para o que é hábito em Dick. É uma novela antiguerra, cuja mensagem principal, além da ideia habitual de não se dever acreditar naquilo que à primeira vista parece ser real, é que da guerra não saem realmente vencedores, só derrotados, e que em última análise derrotados seremos todos.

É uma ótima história. Uma história perturbadora e de toda a relevância para os dias que vivemos.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Leiturtugas #179

Olá, sejam bem-vindos a mais uma nota de divulgação das Leiturtugas. Esta é uma boa semana: temos uma Leiturtuga por cada dia da semana. E no fim temos um anúncio.

E também temos Leiturtugas por participantes oficiais e por participantes oficiosos. Começando pelos primeiros, como sempre...

... é mais uma vez o Artur Coelho a fazer as honras da casa, e logo com duas leituras. A primeira, mais uma das suas opiniões muito curtas sobre obras de BD que desenvolve mais noutro sítio, debruça-se sobre o nº 5 (e último) de Holy, uma obra de Rafael Marques e Katiurna. Edição deste ano da RK Comics, provavelmente um selo criado pelos próprios autores, esta BD leva o Artur a 3c18s.

A segunda muda completamente de género, saltando para o romance mainstream. O autor é Raul Brandão, o título é Húmus e o ano em que este livro foi dado ao público é 1917, embora a edição lida tenha sido a da Bookcover, de 2020. Sem nada de FC, este livro faz subir mais um pouco os números do Artur. Para 3c19s.

Mas desta vez as honras da casa não se ficaram pelo Artur, e um tal Jorge Candeias também apareceu por aí com uma opinião sua. Também sem FC, o livro lido foi O Fim Chega Numa Manhã de Nevoeiro, o autor é Renato Carreira e o livro foi publicado pela Saída de Emergência no já algo distante ano de 2011. As minhas leituras e os seus característicos atrasos. Seja como for, as sinalefas passam a 4c5s.

Quanto aos oficiosos, começaram pelo inevitável José Saramago, em ano de centenário. Quem no-lo trouxe foi a «Charneca em Flor», e o livro sobre o qual a opinião se debruça é Caim, um romance fantástico de 2009 lançado pela Caminho, edição essa que parece ter sido precisamente aquela que foi lida. Não há aqui qualquer FC.

Depois passaram à quase igualmente inevitável literatura infanto-juvenil, trazida pela mão da Anabela Risso. Trata-se de uma fabulazinha curiosa, e aparentemente boa, visto ter sido nomeada para um prémio, publicada em 2020 pela Tigre de Papel, e intitulada Inácia, a Galinha Sindicalista. Sim. A autoria é de duas mulheres: Dora Santos Rosa é responsável pelo texto e Felisbela Fonseca pelas ilustrações. Nada de FC, claro.

Quase a acabar a semana, a Raquel fala-nos de uma coletânea que se bem me lembro já apareceu por aí há algum tempo, até porque é uma edição de 2020 da Cultura: Alice do Lado Errado do Espelho. Trata-se de um conjunto de contos de Pedro Rodrigues que vão buscar algumas personagens de histórias fantásticas bem conhecidas para as modernizar. Mas não as leva para algo que tenha a ver com FC, pelo que por aí continuamos a seco.

Mas quem conclui mesmo a semana é o Paulo Nóbrega Serra com a sua opinião sobre um livro que tem elementos, ainda que um tanto ou quanto ténues, de realismo mágico. Tornado, romance de Teresa Noronha, é uma edição de 2021 de uma editora que eu desconhecia, a Exclamação. E terminamos a semana sem nenhuma FC, o que é sempre desagradável.

Mas não a terminamos sem um anúncio: vai haver um sorteio.

O livro a sortear é este que está aqui ao lado, a antologia Ratazanas e Outros Acepipes, que organizei e publiquei no mês passado, e já conhecem o processo. Mas eu repito: a lista de candidatos é composta por todas as publicações (i.e., os blogues e afins) que têm aparecido aqui nas Leiturtugas, às quais são atribuídos coeficientes com base na quantidade de opiniões publicadas sobre material relevante. O momento de cristalização desses coeficientes é o fim deste mês, e algures durante o mês de dezembro farei um sorteio no excel, e publicarei o respetivo vídeo. O resultado do sorteio é uma lista ordenada, e os autores dos blogues serão contactados um a um até que algum queira o livro. Eu também participarei no sorteio, porque sim, mas aviso desde já que vou recusar a oferta. O livro só será enviado já em 2023, porque estar a usar os correios na altura do natal, ou mesmo logo a seguir, é coisa que só se deve fazer se não houver maneira de o evitar. E neste caso há.

E é isso. Vamos em frente que o tempo não para. Até para a semana.

domingo, 20 de novembro de 2022

Renato Carreira: O Fim Chega Numa Manhã de Nevoeiro

Dizer-se que não há regra sem exceção é um lugar-comum dos mais aborrecidos, mas não deixa de tender à verdade, especialmente quando essas regras e exceções se referem a conjuntos alargados de elementos. E a literatura pulp é um conjunto alargado de elementos, pelo que quando eu digo que não gosto de pulp, coisa que faço com regularidade e verdade, fica sempre entreaberta a porta para a chegada de alguma exceção que contrarie a regra.

Este romance de Renato Carreira quase foi essa exceção. Quase.

Se se tivesse mantido até ao fim com as características que mostrou no início, tê-lo-ia sido. De início, até chegar talvez a metade do livro, O Fim Chega Numa Manhã de Nevoeiro é uma ficção pulp de uma forma muito assumida e consciente, mas que não se leva a sério, mostrando uma autoironia bastante interessante. Com as características boas do pulp — a prosa ágil, o enredo movimentado, etc. — mas sem que os seus defeitos — clichés, caráter formulaico, personagens unidimensionais, por aí fora — sobressaíssem demasiado, ou pelo menos envolvendo esses defeitos em ironia, como quem diz "eu sei que vocês sabem que isto é uma treta, mas estou-me a divertir e espero que vocês também estejam". E a leitura flui entre sorrisos.

Mas com o avanço do romance, essa frescura vai-se perdendo.

Será isso que explica que quando a leitura se encerra a sensação que fica é que qualquer coisa se perdeu pelo caminho. Que se acabou de ler uma história pulp com algum interesse, mas apenas uma história pulp, tão repleta de clichés e tão formulaica como qualquer outra. Fica de mais positivo a ironia de desconstruir o mito de D. Sebastião, desfazendo séculos de exaltação do rei-herói pátrio que um dia haveria de regressar para pôr ordem nesta bandalheira e retratando essa figura como um velho e poderoso taumaturgo pronto para instaurar o seu reino maligno, matando mundo e meio ao fazê-lo. E fica a pena por tão promissora ironia não ter conseguido soltar-se do lastro de clichés criado pelo ambiente de fantasia urbana, cheio de vampiros e feiticeiros e mais ou menos discretas criaturas mágicas, escondidas de olhos indiscretos nos interstícios do mesmo mundo que nós, simples mortais, habitamos e por o protagonista que Carreira vai buscar ao policial negro também ter trazido consigo todos os clichés do género, incluindo a inevitável femme fatale que o deixa embeiçado e acaba por traí-lo.

Se Renato Carreira tivesse querido ou conseguido subverter a estrutura narrativa que escolheu para o seu romance, talvez todos estes clichés servissem como efeitos poderosos de prestidigitação literária, elementos de reforço de um truque que leva o leitor a instalar-se confortavelmente no sofá do que já conhece para no fim lhe tirar o tapete, mergulhando-o em algo de novo. Durante a primeira parte do romance pareceu-me (ou nutri a esperança de) que era precisamente para aí que a história se encaminhava. Mas não, ou pelo menos não de uma forma eficaz. Há no desenlace do enredo uma certa subversão da jornada do herói, mas é uma subversão tão ambígua que não tem o poder necessário para criar esse efeito de "ha, por esta não esperavas tu!" E assim, o romance termina como uma mera história pulp.

Será uma história pulp genericamente bem feita e com alguns elementos realmente interessantes, mas é apenas uma história pulp. É muito provável que agrade a quem goste de histórias pulp, mas quem tiver alergia a clichés o mais certo é não gostar. É um livro que entretém; se foi apenas esse o objetivo, ele foi alcançado. É também um livro que teria potencial para ser bastante mais e pela parte que me toca tenho pena que não tenha querido ou conseguido sê-lo.

Não é mau. É pelo menos razoável, talvez um pouco mais que isso. Mas podia ter sido bem melhor.

Este livro foi comprado.

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Leiturtugas #178

Com um dia de atraso, que ontem quando me lembrei de que era dia de fazer isto já passava largamente da meia-noite e acabei por resolver deixar para hoje, eis o que apareceu por aí de Leiturtugas na semana passada.

E não foi grande coisa, embora tenha sido mais que nas semanas anteriores. Tivemos oficiais e oficiosas, mas em pequena quantidade.

Entre os oficiais, coube mais uma vez ao Artur Coelho fazer as honras do convento, com mais uma das suas opiniões sobre BD, que desenvolve melhor noutro sítio. Desta vez a obra lida foi A Polaroid em Branco, uma criação de Mário Freitas com recurso ao sistema de inteligência artificial Midjourney. Edição deste ano da Kingpin Books e, claro, sendo BD conta como "sem FC", pelo que o Artur passa a 3c17s. Se tivesse lido mais FC, já tinha cumprido os mínimos há meses.

Quanto a oficiosos, esta semana houve três.

Começou pela «Kou Seiya Girl» (ela assina assim, apesar de ter o nome verdadeiro no blogue, portanto assim fica), que leu e comentou um livro fantástico de Gonçalo M. Tavares sobre o diabo. De resto, é mesmo assim que se intitula, O Diabo, e é uma edição deste ano da Bertrand. Não parece ter nenhuma FC.

A mesma «Kou Seiya Girl» comentou também um outro livro esta semana, este de Mafalda Santos. Intitulado Do Outro Lado, parece tratar-se de uma distopia, logo ter pelo menos alguns elementos de FC, e foi publicado também este ano pela Suma de Letras.

Quem pôs o laçarote na semana, no entanto, foi a Raquel, que leu e comentou um livro que já apareceu por aqui algumas vezes, nomeadamente a fantasia de M. G. Ferrey intitulada Inspira. É outra edição da Suma de Letras, mas esta data do ano passado.

E por esta semana é só isto. Agora tratem de ler e comentar coisas para termos material para acompanhar uma novidade que vou dar na semana que vem. Até lá.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Philip K. Dick: O Impostor

Toda a gente sabe que há autores que ficam conhecidos por um determinado tipo de história, ou de abordagem à arte de contar histórias. Mas o que nem toda a gente sabe é que por vezes as histórias que corporizam esse tipo ou essa abordagem de forma mais perfeita nem são as mais lidas ou famosas.

Olhem o Philip K. Dick, por exemplo. Ficou conhecido pelas suas ficções convolutas, cheias de reviravoltas, que traduzem uma visão paranoica do mundo e muito duvidosa da consistência da realidade ou da identidade. E de facto, as suas obras mais conhecidas traduzem em grande medida essa visão. Mas este conto, O Impostor (bibliografia), apesar de não ser dos seus contos mais conhecidos, é capaz de ser o conto mais dickiano de todos os contos de Dick que eu conheço. E se não for mesmo o mais dickiano, está com toda a certeza no topo.

A humanidade está em guerra com uns alienígenas de Alfa do Centauro. O protagonista é Olham, um homem envolvido no esforço de guerra, que um belo dia é surpreendido em casa por uma visita inesperada. Alguém vem prendê-lo, acusando-o de ser alguém que ele sabe perfeitamente que não é. Alguém, ou por outra, algo: um robô criado pelos centaurianos e enviado para a Terra com uma bomba rebenta-planetas nas entranhas. E o bom do Olham vai ter de arranjar alguma maneira de provar que os que o rodeiam estão enganados, e ele é simplesmente quem sabe ser, não um robô assassino qualquer.

O enredo é conhecido. Não só o lemos várias vezes nas ficções de Dick como o encontrámos nas numerosas adaptações cinematográficas que as histórias dele sofreram. Mas aqui está como que destilado até à sua expressão mais pura. E está cá tudo aquilo que faz de Dick Dick.

Este conto não será tão bom como alguns dos outros contos do seu autor, talvez. Mas é Dick em estado puro. E é bom.

Conto anterior deste livro:

Irmãos Grimm: O Dinheiro das Estrelas

Um fã de ficção científica alimentado a livros da Argonauta provavelmente olha para um título como O Dinheiro das Estrelas e passa-lhe pela cabeça a possibilidade de se tratar de uma história de FC, especialmente se não vir ao lado o nome dos Irmãos Grimm. Mas não é nada disso. É mais uma historinha muito curta, milagreira, sobre as coisas boas que acontecem às pessoas generosas.

É uma história de fundo muito cristão, mas não sei ao certo se será mesmo cristã ou as suas origens são outras. Para variar, a nota dos Grimm é curtíssima, dizendo apenas que o conto foi "escrito a partir de uma recordação muito ténue" (isto é: é mesmo deles), pedindo também que quem a conhecer completa a complete, o que implica que a consideram um mero fragmento. Pode ser que o seja, mas a verdade é que contém um arco narrativo completo, apesar da brevidade: menina parte pelo mundo e vai entregando tudo o que possui a quem pede, ficando absolutamente sem nada, após o que as estrelas se transformam em moedas, enriquecendo-a para o resto da vida.

Não, não é nada de especial. Mas há piores.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 6 de novembro de 2022

Leiturtugas #177

Mais uma semana que se despacha num ápice, aqui no reino das Leiturtugas. O que só é bom para a minha preguiça, mais nada.

É uma semana em que só temos uma opinião a mencionar. Mais: em que essa opinião não é sobre um livro de FC, fantasia ou fantástico, mas sim um livro técnico cuja relevância consiste no potencial que contém para emprestar ideias a escritores de FC. Chegou-nos pela mão do Nuno Coelho e debruça-se sobre Inteligência Artificial, um livro de Arlindo Oliveira publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos em 2019. Não vou contá-lo como "com FC" pelo mesmo motivo por que não conto a BD como "com FC", mas é adjacente.

E por esta semana é só isto. Esperemos que a próxima seja melhorzinha. Até lá.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Irmãos Grimm: Os Doze Criados Preguiçosos

Mais preguiçosos, com a diferença de agora não serem príncipes, mas criados. Isso muda algumas coisas: este conto é significativamente menos subversivo que o anterior. Na verdade não é nada subversivo; se o outro reflete o ponto de vista do povo sobre os poderosos, este reflete o ponto de vista dos poderosos sobre o povo. É a visão inversa.

Mas fora isso, este Os Doze Criados Preguiçosos, que os Irmãos Grimm também parecem não ter alterado por aí além, é tão semelhante a Os Três Preguiçosos que facilmente pode ser considerado uma variante desse conto. Também se trata de uma faceciazinha, na qual os intervenientes competem uns com os outros para ver quem é dotado da preguiça mais prodigiosa e, como sempre, é o último que ganha. Nem a maior extensão deste conto, natural dado o maior número de preguiçosos, contribui muito para os separar; são basicamente a mesma coisa.

Contos anteriores deste livro:

Irmãos Grimm: Os Três Preguiçosos

Era uma vez um rei que tinha três filhos e não sabia a qual havia de deixar o reino. Na hora da morte decidiu deixá-lo ao mais... preguiçoso? Espera, estou a ler bem?

OK, estou. Esta história dos Irmãos Grimm é uma faceciazinha, está visto, e não só o título de Os Três Preguiçosos não é dado em vão, como o "zinha" na facécia se aplica por inteiro, visto que o texto pouco passa da meia página (em compensação, as notas ocupam duas páginas de letra miudinha). E consiste basicamente dos três filhos a competir uns com os outros na reivindicação de preguiças. São todas prodigiosas. O que não deixa de ter o seu interesse sob um ponto de vista sociológico; tratar os poderosos como prodígios de preguiça não deixa de ser subversivo. Esse interesse o conto tem, portanto. Mas pouco mais.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Carla Ribeiro: A Balada do Executor

Se me pedissem para definir este conto de Carla Ribeiro numa frase, o resultado seria qualquer coisa como "um conto gótico sobre crime e castigo com uma femme fatale como vilã principal".

O protagonista de A Balada do Executor (bibliografia) é um carrasco caído em desgraça. Numa sociedade teocrática não identificada (provavelmente em mundo secundário, i.e., sem tentar ir buscar algo de semelhante ao mundo real), a autora apresenta um homem amargurado depois de tomar consciência de que todos os crimes que cometera em nome de uma deusa igualmente não identificada tinham sido fruto de uma paixão não correspondida pela inquisidora que alegadamente representaria essa deusa junto dos mortais. Na realidade, segundo acaba (e nós com ele) por perceber, fora apenas um instrumento da ambição de poder de uma mulher cruel, utilizado enquanto útil e descartado assim que a utilidade termina.

O estilo é o da literatura gótica, muito devedora das técnicas narrativas dos autores do romantismo. Não me agradam por aí além, como quem costuma ler o que eu vou aqui escrevendo já deve saber, mas Carla Ribeiro consegue evitar resvalar para aquilo que o melodramatismo inerente a tipo de ficções tem de pior, o que é um ponto a seu favor. Por exemplo, o texto é adjetivado, sim, mas não em excesso.

E outro ponto a seu favor é ter tratado o conflito que faz mover o conto com base em relações de poder e não na maldade ou bondade intrínsecas às personagens, o que confere ao todo um grau de realismo que este tipo de fantasias sombrias nem sempre consegue (ou sequer tenta) ter.

Em suma, este é um conto interessante. As suas características mais próximas do romantismo impedem que eu tenha realmente gostado dele, mas tem várias qualidades que é bem menos comum encontrar do que seria desejável, o que por seu turno me impede de não gostar dele. É leitura que vale a pena.

Conto anterior desta publicação:

Algernon Blackwood: Luzes Antigas

As velhas lendas das Ilhas Britânicas, um pouco ao contrário das nossas, que sobreviveram com dificuldade (as que sobreviveram) a séculos de catolicismo muitas vezes violentamente intolerante com tudo o que saísse do estrito cânone bíblico, mantiveram-se vivas o suficiente para servirem de matéria-prima a centenas de escritores que, sobretudo a partir do século XIX, as exploraram das formas mais diversas. Uma dessas lendas é a do bosque encantado, protegido pela magia dos povos antigos, duendes e fadas e coisas do género, onde tudo é natural ao mesmo tempo que tudo é sobrenatural. E este Luzes Antigas (bibliografia) explora precisamente essa ideia.

O protagonista é um agrimensor que é chamado a uma propriedade no noroeste de Inglaterra cujo proprietário quer fazer alterações na paisagem. O conto é curto; Algernon Blackwood não tem muita história para contar, pelo que não precisa de se estender. Mas a que tem é quase surreal, e certamente muito onírico, pois o pobre do agrimensor vai ter contacto com a magia dos tais lugares protegidos de que falei acima; um bosque em que nada é como se esperaria que fosse e tudo parece consequência da travessura intrínseca às criaturas das florestas. Uma travessura ameaçadora, potencialmente perigosa.

Não é um conto particularmente memorável, este; talvez seja demasiado curto para isso (e daí... conheço vários contos curtos basicamente inesquecíveis), ou talvez seja o facto de seguir caminhos que já vi seguidos noutros textos que o impeça de o ser. Mas é um bom conto. Blackwood, mais uma vez, cria muito bem o ambiente que pretende criar, no que cada vez mais me parece ser a sua melhor qualidade.

Contos anteriores deste livro: