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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Lido: Os Dois Mentirosos

Os Dois Mentirosos é mais uma historinha sem nenhum elemento fantástico, as quais, como de resto já disse por aí, parecem tornar-se mais abundantes à medida que este livro se encaminha para o fim. E esta é das que trazem consigo um certo sabor a coisa acontecida, a episódio verdadeiro.

Conta como dois irmãos muito pobres arranjaram maneira de vigarizar os povos das aldeias, fingindo um trazer grandes novidades, que contaria a troco de dinheiro, e confirmando o segundo essas novidades depois do primeiro se ir embora. E é só isso. Nada sobre o destino que levaram os irmãos, nenhum moral na história, apenas menos de uma página sobre uma vigarice campestre que podia perfeitamente ter acontecido, apesar da extravagância das histórias que os irmãos teriam contado.

Este é mais um conto com potencial para expansão; poderia resultar num conto interessante, coisa que não é tal como aqui está.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Lido: A Senhora da Graça

A diferença entre conto popular e anedota nem sempre é fácil de avaliar, mas este A Senhora da Graça, recolhido por Adolfo Coelho em Coimbra, parece-me cair claramente na segunda categoria. Trata-se de uma daquelas anedotas que só funcionam porque os seus protagonistas são hilariantemente estúpidos, pois conta a história de um homenzinho que se deixa enganar pela mulher bêbada, a qual teimava que não tinha sido ela mas a gata a beber uma garrafa de vinho e o convenceu de que a Senhora da Graça haveria de lhe contar a verdade. Nem vos conto como.

Com menos de uma página, como qualquer anedota que se preze, é uma historinha sem quaisquer elementos fantásticos, por mais que o parvo que a protagoniza possa julgar o contrário. Razoável.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Lido: Ciência, Sabedoria e Capacidade

Comediazinha de costumes de uma página, este Ciência, Sabedoria e Capacidade tem um nome demasiado pomposo para o que é, embora até faça sentido depois de se ler a história. Recolhido, mais uma vez, por Adolfo Coelho em Lisboa junto de alguém oriundo de Almeida, parece um enredo daqueles teatrinhos revisteiros que continuam até hoje a divertir quem gosta dessas coisas. Fala de um marido espertalhão com uma mulher linda e cobiçada, que arranja maneira de envergonhar os cobiçadores (pelo menos três deles) com a cumplicidade da mulher. Suponho que divirta quem gosta destas coisas, apesar da sua extrema brevidade. Pessoalmente, dispenso.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Lido: O Burro do Azeiteiro

Mais anti-intelectualismo. Neste conto recolhido por Adolfo Coelho em Lisboa junto de alguém oriundo de Almeida, temos dois estudantes sem dinheiro que resolvem passar a perna a um azeiteiro que se revela tão idiota como os estudantes são desonestos. A ideia é roubarem O Burro do Azeiteiro, vigarizando o dito azeiteiro e vendendo depois o burro, o que só conseguem fazer porque o azeiteiro não tem dois neurónios a que possa chamar de seus. Sim, o conto pretende ser divertido, uma comédia de costumes sem qualquer elemento fantástico, mas a mim mais depressa levanta questões do que os cantos à boca.

Parece-me claro que existe uma componente de classe nestas histórias em que os estudantes são sistematicamente retratados ora como estúpidos, ora como desonestos. Um fundo de contestação surda aos privilegiados que estão a caminho de ser doutores. Também há um fundo de verdade nelas, pois a típica (e secular) boémia estudantil presta-se a certo tipo de comportamentos, como bem sabe qualquer pessoa que tenha passado por uma universidade. Mas a boémia não é, nem nunca foi, exclusiva da classe estudantil. E julgar-se-ia que à medida que a educação se fosse aproximando da universalidade (e hoje está-o muito mais do que estava no século XIX, apesar de propinas e outros escolhos no caminho) esta tendência anti-intelectual se fosse atenuando e sendo substituída por outras formas mais racionais de luta de classe. Mas tudo indica que não, que só tende a incentivar-se. E a questão é: porquê? O que leva tanta gente a ter autêntico ódio (francamente perigoso porque promove todos os tipos de estupidez) de quem tem alguns conhecimentos técnicos?

Esta é uma questão a que conviria dar resposta com a máxima rapidez.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Lido: A Velha Fadada

Mais uma história cheia de bons sentimentos, esta A Velha Fadada, recolhida por Adolfo Coelho em Coimbra. E se julgam que estou a falar a sério, pois saibam que estou, da forma mais sarcástica possível.

Pois que há duas velhas manas que queriam casar, vá-se lá saber porquê. Mas ninguém as queria, porque não só eram velhas como eram muito feias. Uma delas, desesperada, enche-se de coisas postiças e lá consegue levar um homenzinho ao engano. Mas ele, como era boa pessoa, assim que percebeu que a velha com que tinha casado era feia como tudo, atirou-a da janela abaixo. Claro. E lá fica a velha pendurada a noite inteira, que pelos vistos não era por ser velha que não tinha força nos braços. Vai daí, duas fadas têm pena dela, as cabras, e dão-lhe uma cara linda, linda, linda. E claro que o marido agora já a quer e catrapumba. A irmã é que achou aquilo espantoso e também quis. Pergunta à irmã ex-feia o que lhe aconteceu, ela responde baixinho que foi fadada, a mana velha e surda percebe esfolada e lá vai ao barbeiro para que a esfole, o que ele faz e ela morre. E acham que a mana ex-feiosa sofre com isso? Ná! Agora tem marido, quer lá saber.

Um conto de fadas ternurento, portanto, cheio de romance e coraçõezinhos palpitantes. Uma doçura pegada. Tirando isso, está razoavelmente bem estruturado, com início meio e fim, o que não deixa de ser um ponto a seu favor. E, espremendo-o, é capaz de dar algum sumo, embora eu não garanta a palatabilidade desse sumo. Podia ser pior.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Lido: Comera um Bocadinho se Tivera Limão...

Um dos aspetos daninhos mais duradouros dos contos de fadas é a tendência que tantos deles mostram para apresentarem o amor como um arrebatamento instantâneo gerado pela mera beleza, quase sempre das donzelas, muitas vezes também dos donzéis. À conta disso, não só gerações de coraçõezinhos românticos se gastaram na espera por um príncipe ou princesa encantada capaz de os levar a tal arrebatamento, como a ideia transbordou dos contos de fadas, infetando muitos outros géneros narrativos com amores instantâneos. E nem é preciso juntar água.

Pelo introito acima já se percebe que este Comera um Bocadinho se Tivera Limão..., conto recolhido por Adolfo Coelho em Lisboa e significativamente mais elaborado do que é frequente encontrar-se neste livro, é um conto de amor instantâneo à Cinderela.

E claro que tem de haver dificuldades. A donzela tem de ultrapassar a oposição do pai conde, que a pretende guardar para si, e o donzel príncipe só consegue encontrar a sua amada graças aos bons ofícios (bons, mas bem pagos) de uma fada. Não há aqui sapatinhos de cristal nem coches de abóbora, mas há um discretíssimo transporte da rapariga até junto do príncipe e depois um jogo de sedução feito de rimas, o qual acaba com um beija-mão coletivo, durante o qual o príncipe reencontra a sua amada. É uma história diferente, portanto, embora os pontos de contacto sejam numerosos e evidentes. E é boa: soa a história completa, o que neste livro nem sempre acontece, e está bem amarrada, narrativamente falando. Interessante.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Lido: Os Três Estudantes e o Soldado

Quem julgue que o anti-intelectualismo é tendência recente, das sociedades pós-modernas, não tem mais que pegar neste conto, recolhido por Adolfo Coelho em Lisboa junto de alguém oriundo da Beira Baixa, para perder tais ideias.

Como é comum acontecer neste tipo de conto, o título não tem mistério nenhum. Os Três Estudantes e o Soldado são, precisamente, três estudantes e um soldado, e a história resume-se a ver qual, entre eles, fica com um lobo que encontram morto no caminho. Como? Versejando, pois então.

E já estão a ver, não estão? Os estudantes são ao mesmo tempo cobiçosos e idiotas, e quem se vai revelar espertalhão e levar a palma aos demais é o soldado.

Há um ressentimento secular, nutrido por aqueles que não têm instrução contra os que a têm e esta história é disso prova. O que achei mais curioso nela é ela ter posto um pouco em causa uma ideia feita que eu tinha (e na verdade continuo a ter), de que esse ressentimento é em parte alimentado pela arrogância com que os instruídos tratam os que não o são. Os estudantes, que poderiam tê-la exibido, não a exibem. São apenas retratados como jovens que tentam passar a perna a outro jovem, o qual acaba por lhes passar a perna a eles.

Não é grande coisa, este conto, que além do mais não inclui nenhum elemento fantástico. Mas fez-me pensar.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Lido: História do Compadre Pobre e do Compadre Rico

Já disse em algumas das outras opiniões a contos deste livro que uma das coisas que os parece distinguir dos contos dos Grimm é um certo caráter subversivo que por vezes nele se encontra. Não em todos, é certo, pois também aqui temos contos muito bem comportados (por vezes demasiado), mas em algumas destas histórias acha-se uma mal ou nada disfarçada troça de figuras de autoridade ou justificação de malandrices cometidas contra aqueles que, apesar de ricos, não mostram pelos menos bafejados pela fortuna a desejável solidariedade.

É o caso desta História do Compadre Pobre e do Compadre Rico, mais uma história recolhida por Adolfo Coelho em Lisboa, junto de alguém oriundo das Beiras. O título é em grande medida autoexplicativo: conta a história de dois compadres, um pobre e o outro rico mas avarento em extremo, e como o pobre conseguiu levar o rico à certa, roubando-o, sem que esse roubo mereça qualquer espécie de condenação, muito pelo contrário.

Vazio de elementos fantásticos, este conto é interessante, com um enredo invulgarmente bem amarrado para o que é costume nestas histórias e o já mencionado caráter subversivo a torná-lo também menos previsível do que é habitual: o leitor está a contar que os candidatos a ladrões sejam apanhados e castigados mas não é isso o que acontece.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 20 de janeiro de 2019

Lido: As Filhas dos Dois Validos

Mais uma história sem nenhum elemento fantástico, este As Filhas dos Dois Validos, recolhido por Adolfo Coelho junto de alguém oriundo de Almeida, é um conto exemplar a apelar à virtude das donzelas e à modéstia. Para isso serve-se do contraste entre as atitudes de dois favoritos de um rei no que toca às filhas: um que nunca delas fala, o outro que não para de as gabar. Inevitavelmente, as virtudes das filhas do favorito que muito as gaba são inexistentes, ao passo que a filha do homem que a cala é recatada e piedosa.

Pelo que acima ficou escrito fácil se torna perceber que este é um conto profundamente conservador, o que de resto é característica comum nas histórias tradicionais, feitas para uma sociedade e um tempo que já não são os nossos. É em parte por isso que talvez seja bom ter alguma prudência quando deparamos com uma certa tendência para os analisar sob o prisma dos arquétipos universais. Convém não perder de vista que os contos tradicionais portugueses, e europeus em geral, estão amarrados aos valores da sociedade patriarcal rural. Seja como for, esta é uma história bem feita, o que nem sempre acontece, embora não haja nela grande rasgo imaginativo, o que é pena.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Lido: A Princesa Abandonada

Um conto com quatro páginas e meia, mais a mais quando todas essas páginas consistem de um único parágrafo é, neste livro, um gigante.

Recolhido em Abrantes, mais a sul do que é habitual em Adolfo Coelho, que raramente sequer se aproximou do Tejo, A Princesa Abandonada é um conto particularmente elaborado, ainda que invulgarmente pobre no que toca às suas características puramente literárias. Este é outro dos tais contos que mostram bem como Coelho pouco ou nada retocou as histórias que recolheu (ao contrário dos Grimm, por exemplo), e quando conjugamos isso com o facto de o enredo desta história ser particularmente complexo fácil se torna perceber o quanto de mangas se poderia criar com o pano que ela apresenta.

Trata-se de mais um dos muitos contos em que um jovem é obrigado a passar por uma série de provas mais ou menos mágicas (e neste caso é mais, pois há poções e gigantes) para demonstrar o seu valor, acabando recompensado por isso. O jovem é filho duma princesa caída em desgraça (por completo; posta na rua pelo rei seu pai) por ter dormido e engravidado de um camareiro, e é o filho que ela dá à luz quem vai fazer provas de valentia e desembaraço, acabando casado com uma princesa.

Este é um conto interessante, muito mais pelo potencial que mostra do que pela sua realização em texto.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 12 de janeiro de 2019

Lido: O Menino e a Lua

Para confirmar o que disse há dias sobre histórias tradicionais e crueldade, eis mais um continho com pouco mais de uma página em que a primeira coisa que um pai faz quando o filho lhe diz que a lua profetizou que o pai ainda haveria de lhe querer deitar água nas mãos e ele recusar é... deitá-lo ao mar dentro de um caixão. Pois.

O Menino e a Lua, assim se chama o conto recolhido por Adolfo Coelho em Coimbra, é mais uma daquelas histórias cuja moral parece ser "não se brinca com o destino". Que o que está predeterminado acontece, quer se queira, quer não. E é também mais uma história com pano para muitas mangas, que de resto são mesmo necessárias para que a história realmente resulte uma vez que tal como está aqui contada não só padece de forte inverosimilhança (o miúdo acaba como filho adotivo de um rei, por exemplo) como tem também buracos na lógica interna que seria aconselhável colmatar (o rei que o adota, que em princípio só deveria saber que ele tinha sido encontrado à deriva no mar dentro de um caixão, no final da história já sabe quem eram os pais). Ou seja, este não é grande exemplo do talento narrativo dos contadores de histórias populares, mas tem potencial para muito mais.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Livros de 2018

E porque é que eu só faço balanços do ano depois do ano acabar, ao contrário de tantos outros que começam a fazê-los, às vezes, ainda no início de dezembro? Porque até ao lavar dos cestos é vindima, o que quer dizer que até ao fim do ano acontecem coisas. Este ano, por exemplo, acabei de ler o último livro do ano a... 31 de dezembro.

E foi isso o que fez com que tenha acabado o ano com o mesmo número de publicações lidas do ano anterior: 28. Mais uma vez houve este ano extensos períodos em que li muito pouco, ou quase nada, embora este ano a causa tenha sido mais o trabalho do que problemas pessoais como em 2017. Como o meu trabalho consiste em ler e (re)escrever, sempre que entro em sobrecarga não consigo descansar se me puser a ler nos tempos livres. Quando o faço sinto-me quase como se ainda estivesse a trabalhar, e por isso tendo a ir fazer outras coisas. A leitura, claro, ressente-se. Só quando tenho pausas, períodos de descanso, é que leio mais demoradamente.

E não foi só esse número a ser muito semelhante ao ano passado. Tal como em 2017, em 2018 também li 22 livros por lazer, sendo a maioria, 14 (em 2017 tinham sido 18), lusófona, e não só portuguesa e brasileira, mas incluindo também ficção angolana.

A lista completa é a seguinte:

1- Os Informadores, de Bret Easton Ellis (romance em mosaicos com toques fantásticos);
2- Phenomenae, de Ricardo Lopes Moura (coletânea de horror);
3- Sozinho no Deserto Extremo, de Luiz Bras (romance de ficção científica);
4- Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon (romance com toques fantásticos e de ficção científica);
5- Maelstrom, de Peter Watts (romance de ficção científica);
6- Amo-te Para Sempre, de Fernando Alvim (conto mainstream);
7- Invasão Alienígena, org. Ademir Pascale (antologia temática de ficção científica);
8- Kapapa, de Luandino Vieira (conto mainstream);
9- Laços de Família, de Ruy Sant'Elmo (conto mainstream);
10- O Jogo Final, de Orson Scott Card (romance de ficção científica);
11- Na Teia dos Meus Segredos, de Maria Jacinto Uva (conto mainstream);
12- O Boitatá com Olhos de Césio, de Lúcio Manfredi (artigos e críticas fundamentalmente sobre ficção científica);
13- Solarpunk, org. Gerson Lodi-Ribeiro (antologia temática de ficção científica);
14- Xochiquetzal, de Gerson Lodi-Ribeiro (romance em mosaicos de história alternativa);
15- A Corte do Ar, de Stephen Hunt (romance de fantasia steampunk);
16- Pequena Coleção de Grandes Horrores, de Luiz Bras (contos de ficção científica, horror, humor e fantástico, sobretudo);
17- O Engenho dos Sonhos, de Carina Portugal (contos sobretudo de horror, mas também com ficção científica, humor e fantasia);
18- O(s) Fantasma(s) de Fernando Pessoa em O Ano da Morte de Ricardo Reis, de Barbara Juršič (tese de mestrado em literatura portuguesa);
19- Remix, de Lawrence Lessig (ensaio sobre os problemas em volta do copyright);
20- Yazik, de Emanuel R. Marques (conto de horror, com toques de ficção científica);
21- Caminhos do Espaço, de Charles Eric Maine (romance de ficção científica);
22- 100 Livros Portugueses do Século XX, de Fernando Pinto do Amaral (divulgação e crítica literária).

Também li periódicos:

23- Ficções de Guerra, ed. Luísa Costa Gomes (contos fundamentalmente mainstream);
24- Megalon, nº 7, ed. Marcello Simão Branco (contos, artigos e resenhas de e sobre ficção científica e fantástico);
25- Megalon, nº 13, ed. Marcello Simão Branco (contos, artigos e resenhas de e sobre ficção científica e fantástico);
26- Pulp Feek, nº 2, ed. Lucas Rueles e Rafael Marx (contos de ficção científica e artigos sobre FC e técnicas de escrita);

E por obrigação laboral foram lidos:

27- Assassin's Fate, de Robin Hobb (romance de fantasia);
28- Fire and Blood, de George R. R. Martin (romance de fantasia);

Tal como no ano passado a ficção científica predomina, apesar de ter lido poucas obras de FC "pura". A maioria foram obras com alguma FC misturada com outras coisas, por vezes de forma muito minoritária. Mas essas outras coisas, e as que existem nas obras sem qualquer FC, foram mais uma vez bastante variadas, indo de textos académicos sobre literatura ao horror, passando por histórias inteiramente mainstream e por fantasia (ainda que esta se tenha restringido sobretudo aos livros que li como preparação para os traduzir).

E tal como ano anterior, também neste que acabou de acabar não houve nenhum livro que me tenha deixado de queixo caído. Embora tenha havido algumas boas leituras, a maioria foram leituras que não ultrapassaram a mediania e houve umas quantas entre fracas e más. Em parte por isso, este ano tenho real dificuldade em decidir-me pelo habitual top-3 de leituras, porque houve 6 livros que se destacaram dos demais, por motivos diferentes, e não me está a ser nada fácil escolher três entre eles. Acho que vai ter de ser o prazer de leitura a desempatar, e aí ganha a Pequena Coleção de Grandes Horrores, do Luiz Bras, seguido por Maelstrom, do Peter Watts, e por O Jogo Final, de Orson Scott Card. Tudo livros de e com ficção científica, curiosamente. Ou talvez não tão curiosamente.

Os outros três, já agora, foram Remix, de Lawrence Lessig, Xochiquetzal, de Gerson Lodi-Ribeiro, e Sozinho no Deserto Extremo, de Luiz Bras. Sem nenhuma ordem especial. Este último autor, de resto, pode ser encarado como o autor do ano: li dois livros dele e gostei bastante de ambos. Esta listinha de três também dá pistas para se perceber quais foram as três melhores leituras lusófonas do ano, i.e., a Pequena Coleção de Grandes Horrores em primeiro, Xochiquetzal em segundo e Sozinho no Deserto Extremo em terceiro. Tudo brasileiro; este ano li muito poucas coisas portuguesas e as que li estiveram longe de se destacar (umas mais, outras menos). No próximo ano vou ler bastante mais material português, e espero que pelo menos parte dele seja significativamente melhor.

Pelo lado negativo, houve um livro (bem, um livrinho) que se destacou claramente dos demais. A pior leitura do ano foi, pois, Na Teia dos Meus Segredos, de Maria Jacinto Uva. Decidir a segunda e terceira pior foi mais difícil, mas a segunda pior também é relativamente clara: o número 2 do fanzine Pulp Feek. Para a terceira pior a competição foi aguerrida e abundante, reunindo quase uma dezena de livros e outras publicações, mas acabei por escolher outro fanzine brasileiro: o número 7 do fanzine Megalon. Tudo leituras lusófonas, tal como no ano passado, embora neste grupo que lutou por (não) ser a terceira pior leitura também houvesse dois livros traduzidos: A Corte do Ar e Caminhos do Espaço.

E para o ano há mais. Muito mais, na verdade, pois vou ver se leio em 2019 o que falta dos contos DN (aquela coleção de ebooks que inclui o Amo-te Para Sempre, do Alvim, que li este ano), o que só por si já dará uma lista jeitosa de títulos. Até lá.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Lido: 100 Livros Portugueses do Século XX

Um dos paradoxos do estado atual dos meus projetos é continuar a pegar em livros que arranjei para ver se encontrava neles alguma coisa que tivesse interesse para o Bibliowiki, ao mesmo tempo que o próprio Bibliowiki se encontra parado por falta de tempo para lhe dedicar. E assim deverá continuar até que a atual carga de trabalho termine, em fevereiro.

Este 100 Livros Portugueses do Século XX, edição bilingue (português/inglês) do Instituto Camões, preparada por Fernando Pinto do Amaral, cujo objetivo foi apresentar a potenciais interessados estrangeiros a melhor ou mais relevante (no critério do autor, bem entendido) literatura portuguesa do século passado, foi um desses livros. Peguei nele para ver se encontraria aqui alguma obra que eu desconhecesse que podia interessar ao Bibliowiki, i.e., que podia integrar-se na literatura fantástica. E à parte as que já conhecia (de Saramago, por exemplo, ou de Branquinho da Fonseca) até encontrei, pelo que por esse lado esta leitura foi proveitosa. Resta saber é quando conseguirei traduzir isso em conteúdo de wiki propriamente dito.

Mas claro que aqui as ditas paraliteraturas (que são tão literaturas como as outras, mas deixem-nos lá brincar à sobranceria) não entram, entreabrindo-se apenas uma breve exceção à literatura infanto-juvenil. Nada de policial, nada de fantasia e quanto à ficção científica, então, nem pensar em tal coisa. Que só se perceba realmente a abrangência e variedade de uma literatura tendo em conta todas as suas facetas e as várias formas de criação literária que ela inclui nem passa pela cabeça de quem faz listas deste género. Sobre alguns autores menciona-se que estiveram ativos nos malfadados géneros, mas a obra que aqui se apresenta, obviamente, nada tem a ver com eles. Dinis Machado assinou ótimos livros policiais como Dennis McShade? Tá bem, mas o que interessa é O que Diz Molero. A Natália Correia escreveu contos de FC? Chhh... não falem disso que é pecado.

Outra coisa a que achei particular graça, especialmente envergando o meu chapéu profissional de tradutor, é a forma como se tenta promover certas obras sublinhando o seu caráter regionalista, em especial em termos de linguagem. É que se há coisa que não passa numa tradução são os regionalismos de linguagem. Porque uma tradução pressupõe sempre a alteração profunda da linguagem. Podem encontrar-se aproximações na língua de destino, truques para se fazer o leitor evocar alguma região do seu próprio espaço linguístico, na esperança de que isso o faça compreender o regionalismo do original, mas esses truques não passam disso mesmo. Nunca é a mesma coisa.

Diverti-me também com a forma como o autor apresentou os livros integrados na corrente do neorrealismo. Tudo (ou quase) é descrito como "esquemático", o que é uma maneira mal disfarçada de chamar a esses livros simplistas. A ideia que passa é que ele se achou obrigado a referir essas obras e autores, pela relevância que umas e outros tiveram na literatura portuguesa de meados do século, mas muito a contragosto e com grande ranger de dentes, provavelmente ideológico, que o neorrealismo é uma corrente artística de inspiração marxista e isso é palavra que, imagino por algumas frases que foi deixando aqui e ali, causará alguma indigestão ao autor.

Dito isto, este livro é útil. Não só para estrangeiros tomarem conhecimento com uma parte da literatura portuguesa do século XX, mas também para portugueses e não só para aqueles que pegam nele com o objetivo de alimentar um site bibliográfico, que provavelmente são um conjunto de um só. É uma visão do que é relevante que, apesar de assumidamente ser pessoal — o autor deixa-o explícito na introdução — é fruto das escolhas de alguém que está de tal forma mergulhado no pensamento literário dominante que na realidade pouco de pessoal aqui existe. São precisamente as escolhas espectáveis de alguém com o percurso de Fernando Pinto do Amaral e seriam as feitas, com pouquíssimas diferenças, por outro Fernando Pinto do Amaral qualquer. E isso marca um momento, não necessariamente da literatura portuguesa propriamente dita, mas com certeza do pensamento português sobre literatura. Caberá a cada um decidir se as acha relevantes ou não.

Se bem me lembro, descarreguei este livro em PDF do site do Instituto Camões, mas parece já não estar disponível.

Lido: Maria Silva

Apesar de tenderem a sofrer adaptações delicodoces quando são apresentados às criancinhas, muitos dos contos populares nas suas versões originais são violentamente cruéis. Ora são reis que mandam matar toda uma população de crianças porque um oráculo lhes diz que entre essas crianças está uma que os vai matar décadas mais tarde, ora são maus que são castigados das formas mais hediondas que se possa imaginar, ora são feitiços ou provas que forçam quem fica sob a sua alçada a sofrimento prolongado, ora é uma série de outras coisas desagradáveis, estes contos estão repletos de atos e sacrifícios que parecem saídos diretamente das catacumbas mais sombrias da imaginação humana.

É muito o caso deste Maria Silva, mais um conto recolhido por Adolfo Coelho em Coimbra. Trata-se de mais um daqueles contos de profecia em que o alvo da profecia tenta de tudo (ou quase) para evitar que ela se cumpra, quase sempre em vão. Neste caso, trata-se de um príncipe que um dia na floresta ouve choros e uma voz a dizer-lhe que a que chora haveria de ser dele. E que faz? Procura a criança que chora e marca-a na testa com um ferro em brasa, corta-lhe um dos mindinhos e abandona-a numas silvas. Um amor de pessoa, não é? Mas o destino é o destino e depois de crescer rodeada de prodígios mais ou menos impossíveis, a bebé acaba mesmo casada com o príncipe.

Este é mais um dos contos com pano para muitas mangas que se podem encontrar neste livrinho. E dá para ser adaptado de formas muito diferentes.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Lido: Caminhos do Espaço

O leitor que já tenha alguma experiência destas coisas, já sabe de antemão parte do que vai encontrar sempre que pega num livro de ficção científica publicado nos anos 50 ou 40, especialmente os que foram escritos por homens brancos e anglos — ou seja, quase todos os que eram publicados na época. Por isso não foi nenhuma surpresa encontrar neste Caminhos do Espaço (bibliografia) do inglês Charles Eric Maine a habitual combinação de misoginia e conservadorismo social tão típicos da época e do género. Mas foi surpresa, e não das agradáveis, encontrar aqui um enredo de telenovela.

Trata-se de um livro de FC de futuro próximo, não o nosso, mas o do autor na época em que escreveu. Imagina como se realizariam os primeiros passos humanos no espaço e, sendo o autor inglês, situa com toda a naturalidade a ação nos EUA. A realidade trocou-lhe as voltas, tendo os primeiros passos sido dados pouco mais tarde na URSS, tanto os não tripulados como os tripulados. Mas há bastantes aspetos em que Maine até acerta na antecipação ou pelo menos na verosimilhança: o foguetão da (boa) capa corresponde aos foguetões que o texto nos traz, claramente descendentes dos mísseis alemães do tempo da II Guerra Mundial, e frutos de um projeto de investigação liderado por um cientista alemão fugido para os EUA, a investigação e o lançamento, secretos e militarizados, têm lugar no deserto do Nevada, na mesma zona em que têm lugar os ensaios nucleares e outras atividades secretas das forças armadas norte-americanas, e por aí fora.

Infelizmente, pouco mais há neste livro de bem conseguido. O que faz mover a história é quase por inteiro um enredo telenovelístico de amores cruzados, completados com crimes (reais ou suspeitados) e tragédias de faca e alguidar, muitíssimo desinteressante, e a prosa não passa de razoavelmente competente, muito prejudicada por uma tradução horrenda, cheia de erros e calinadas, até mesmo ortográficos.

O protagonista é um oficial de segurança que acaba como que desterrado para o Nevada, completamente a contragosto, porque... teve uma relação com uma mulher casada, e se calhar vermelhusca, e andava doente de amores. Aí chegado, depara com uma comunidadezinha de técnicos e cientistas que se dedicam a construir o primeiro foguetão orbital da humanidade e... é sucessivamente apanhado de surpresa por tudo o que vai acontecendo. Não, o que acontece nada tem a ver com a construção ou operação do foguetão. Tem a ver com uma secretária que se embeiça por ele e com um triângulo amoroso entre dois dos técnicos e a caprichosa e egoísta mulher de um deles. E depois acontece o lançamento e os amantes desaparecem e o marido chifrudo é suspeito de assassínio. E o drama, e o horror... e a patetice de tudo isto é qualquer coisa de superlativo.

No meio de toda esta telenovela, a ficção científica é secundária. O foguetão é lançado, mas aparentemente esse facto não provoca nenhum impacto na sociedade, apesar do lançamento ter sido difundido. O que tem impacto na sociedade é o julgamento do marido chifrudo suspeito de homicídio. Vá que o homicídio, a ser real, tem algo de insólito, pois as suspeitas — completas com cálculos matemáticos e uma trajetória diferente da antecipada — apontam para ele ter enviado os cadáveres do casal assassinado para órbita dentro do foguetão, o que será a parte mais interessante de toda fração telenovelística do enredo. Por isso, ele só se defende pedindo para ser enviado num segundo foguetão que possa ir recuperar o primeiro e demonstrar que não há nenhum cadáver lá dentro. O que não tem grande lógica, mas enfim. E realmente acaba por não correr bem.

Resumindo e concluindo: este é um livro bastante fracote, e só não o acho realmente mau porque o ramalhete que o compõe contém dois ou três elementos bem concebidos. E porque lhe faço o favor de dar o desconto devido à edição portuguesa, que consegue piorá-lo ainda mais.

Este livro foi comprado.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Lido: Patranha

À medida que este livro se aproxima do fim, parecem tornar-se mais comuns os contos mais mundanos, mais desprovidos de elementos fantásticos, contos que parecem mais histórias realmente acontecidas (e há relativamente pouco tempo) do que velhas ou velhíssimas lendas ou contos exemplares, mais ou menos adulteradas pelo tempo. É o caso deste Patranha.

Recolhido por Adolfo Coelho em Ourilhe, mais uma, esta é uma história divertida sobre um caseiro de fidalgo que não tinha como pagar ao fidalgo o que lhe devia, o que o levou a ser desafiado pelo fidalgo: se conseguisse contar-lhe uma patranha "do tamanho do pai-nosso" a dívida seria perdoada. A sorte do caseiro era ter um "filho tolo" (que não me parece nada tolo, na verdade), o qual foi contar uma tal patranha ao fidalgo que conseguiu livrar o pai da dívida. A patranha é divertida e cheia de fantasia. O "filho tolo", se fosse alfabetizado e vivesse nos dias de hoje, seria certamente um dos nossos.

Um continho de menos de página e meia divertido e interessante.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Lido: Remix

Há livros que são leitura obrigatória nas escolas. Tenho sobre isso uma opinião iconoclástica, de que esse facto faz mais mal do que bem ao objetivo de termos um povo de leitores, embora reconheça a sua utilidade para outras finalidades, e este último facto deve explicar desde logo que a minha oposição a leituras obrigatórias é mais pragmática do que ideológica. Apoio-as quando me parecem úteis, oponho-me a elas quando as acho inúteis ou prejudiciais.

E depois de ler este Remix fiquei com a firme convicção de que ele devia ser leitura absolutamente obrigatória para qualquer pessoa que queira opiniar sobre direitos de autor em particular e sobre as formas de divulgação e comercialização da arte em geral, tanto nos dias que correm quanto num futuro mais ou menos próximo.

Não que esteja à espera que toda a gente vá concordar com tudo o que aqui vem escrito. Nem vamos mais longe: eu não concordei, e até suspeito que o próprio Lawrence Lessig, se relesse hoje este seu livro, tampouco concordaria. Ele foi publicado em 2008, há dez anos, e dez anos na internet é uma eternidade. Em 2008, só para dar um exemplo, ainda nem se suspeitava que a mentira e a falsificação meticulosas e sistemáticas via internet viriam a ter um tão grande impacto na sociedade. O livro está datado, por esse motivo e por mais alguns detalhes. Se fosse reeditado hoje precisaria de uma atualização razoavelmente extensa.

Mas mesmo assim, a análise que ele faz sobre os vários tipos de produção e consumo de cultura e seus aspetos legais, éticos e económicos, e a defesa que é aqui feita do hibridismo cultural são francamente interessantes e cheios de sumo. Mesmo sendo o ponto de partida o de um social-democrata com algumas tendências libertárias (não sei se ele se identificaria politicamente assim, mas foi a ideia com que fiquei), e mesmo não sendo possível concordar parágrafo a parágrafo com o que ele defende, parece-me um facto puro e duro que qualquer pessoa que não seja especialista do tema, depois de ler este livro, fica bastante mais apetrechada para pensar sobre ele.

Daí eu dizer que o livro devia ser de leitura obrigatória. Os autores e artistas, em particular, tantas vezes levados ao engano por intermediários que não têm realmente os seus interesses em mente quando desenvolvem as ações que desenvolvem, lucrariam imensamente em ler este livro. Quanto mais não seja para ficarem com ideias mais firmes sobre onde se enquadram e onde e como pretendem enquadrar-se no vasto espectro da produção cultural. Porque é essa a principal ideia que aqui vem expressa: a de que a produção cultural é um espectro muito multifacetado e que portanto tentar enquadrá-la toda por igual é um disparate tantas vezes castrador da criatividade e da própria produção cultural. E isto, além do mais, entronca diretamente na atual discussão sobre copyright a decorrer na Europa, e muito em particular nos famigerados artigo 11 e artigo 13. Dificilmente seria mais atual, portanto.

Não é um livro perfeito, mas é francamente bom.

Este livro está à venda em vários sítios (incluindo a Wook), mas também é possível obtê-lo legalmente em ebook no archive.org, aqui. Foi o que eu fiz.

Lido: Yazik (#leiturtugas)

Ao longo dos anos fui acumulando uma enorme quantidade de ebooks que, como sempre detestei ler no écran do computador, ficaram quase sempre guardados sem ser lidos. Foi só quando comprei o primeiro tablet que comecei finalmente a lê-los, e entretanto já tinha acumulado tantos livros virtuais (para terem uma ideia: uso o Calibre para os organizar, e as minhas bibliotecas do Calibre contém mais de mil; livros que ainda nem tive tempo para organizar são significativamente mais que isso) que nem me lembro já de como, quando ou porquê muitos deles vieram parar ao meu disco rígido. É o caso deste Yazik, de Emanuel R. Marques.

Publicado em 2012, ajuizando pelos vestígios virtuais que deixou na internet, por uma tal "Editora Online Corujito" que parece não ter passado de uma iniciativa individual de alguém no Brasil, que criou um blogue no blogspot e publicou algumas coisas em PDF em 2011 e 2012, fechando o blogue em seguida e aparentemente transferindo-se para o Facebook, este livro é um conto de horror onírico com levíssimas pitadas de ficção científica a apimentar-lhe o final. O autor, porém, é português.

E cuidado que vêm aí spoilers.

Tudo gira em volta de um homem que é atormentado por uma criatura que designa como duende e lhe invade os sonhos dedicando-lhe versos enigmáticos. E quem diz sonhos diz pesadelos. A vida do protagonista, que já não estava a correr lá muito bem antes de lhe começar a aparecer o duende, cai depois na espiral de destruição que é praticamente inevitável em histórias deste género e que nos é contada com abundância de pormenores. E de adjetivos. Só no final, quando somos de súbito lançados para um futuro distante em que a humanidade já se extinguiu e quem domina o planeta é a espécie do duende, invertendo-se os papéis, o conto ganha realmente algum interesse.

E esse é o principal problema que aqui encontrei. A sucessão de excertos oníricos, intercalada por cenas de degenerescência no ambiente pessoal e social do protagonista, depressa se torna cansativa por obedecer sempre à mesma estrutura e conter muito pouca novidade de capítulo em capítulo. A piorar as coisas, há um português que não me pareceu particularmente estimulante, muito pelo contrário, em boa medida devido à superabundância de adjetivos (é um estilo de que os escritores de horror às vezes gostam. Eu detesto. É das coisas que mais me afastam de Lovecraft, por exemplo). Tudo somado já estava a preparar-me para encerrar a leitura com um rotundo "não gostei" quando aquele final surpreendente e eficaz fez a minha opinião sobre o conto melhorar repentinamente.

Mas não chegou para passar ao "gosto". O conto não me pareceu mau, é certo, mas tampouco me pareceu mais que medíocre, um esforço honesto de um escritor com alguma criatividade mas que há sete anos ainda tinha muito a aprender e fazia escolhas estilísticas que me repelem enquanto leitor. Esta foi uma leitura fraca.

Este livro esteve disponível na internet para descarga gratuita mas parece já não o estar em lado nenhum.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Lido: O Rabil

O Rabil, outra história recolhida por Adolfo Coelho em Coimbra, é mais um pequeno conto de pouco mais de uma página sobre o valor da lealdade dos subalternos aos seus superiores hierárquicos. Sem elementos fantásticos, se não considerarmos como tal a ideia de que um lavrador rico aceita de bom grado que a filha se case com um criado, por mais demonstrações de lealdade que este lhe dê (tenho na família direta um caso bem demonstrativo do que acontecia quando havia situações destas, e não era o que esta história conta), é um continho eficaz a transmitir os valores que pretende transmitir: os valores conservadores do conformismo social e da ascensão via bajulação. Para isso serve-se de um dilema aparentemente insolúvel apresentado ao criado, segundo o qual este teria de ser de alguma forma desleal ao amo, coisa que se recusa a ser. Mas lá se safa e a coisa acaba em bem, como não podia deixar de ser.

Estão a perguntar o que raio quer dizer "rabil"? Nada de especial. É apenas o nome de um boi que a filha do agricultor insiste para o criado matar. Ah, sim e o conto é bom? É eficaz, como já disse. Um pouco desagradável, também. Bom? Não.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Lido: O Menino Açafroado

Era uma vez um rei que era casado mas não tinha filhos. E assim começam dezenas de contos populares, este incluído, embora nem sempre se trate de um rei. Invariavelmente, segue-se um milagre qualquer, uma intervenção divina ou de alguma espécie de espírito ancestral, e o infeliz rei (ou não) lá obtém o filho tão desejado. Mas este vem sempre com um senão qualquer.

Com um título como O Menino Açafroado, está bem de ver que este conto recolhido por Afonso Coelho em Coimbra inclui artes mágicas e feitiços. Mesmo que não se perceba de imediato o que raio quer dizer "açafroado". Mas contrariamente ao que se possa supor, não é o menino o filho do rei. A história é mais complexa do que isso.

Sim, este é dos tais contos que dão pano para muitas mangas, com um enredo que percorre três gerações de uma família e uma maldição (o tal senão ali do primeiro parágrafo) que está relacionada com água de açafrão (e cá está a origem da bizarra palavra). Tudo resumido em três páginas, que apesar de tudo até acabam por transformá-lo num dos contos mais extensos deste livro. Os contos populares estão sempre reduzidos ao osso. Enchendo este de carne poderia ficar-se com um texto de fantasia razoavelmente longo... e basta isso para o tornar interessante.

Ah, sim, e no final tudo acaba em bem, claro. Nem precisavam de perguntar.

Contos anteriores deste livro: