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sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

E mais um continho em ingl... não, espera... em espanhol, agora é em espanhol

Para quem anda a escrever tão pouco (ha! pouco, diz ele, quando devia dizer nada), até tenho publicado bastante, e sempre fora de portas. Desta feita foi em espanhol e, ao contrário das coisas que publiquei em inglês, não fui eu a traduzir.

(A propósito, abro um parêntesis para dizer que as coisas em inglês passaram por um hiato por falta de tempo para fazer as traduções, e também porque os temas que a SciFanSat tem tido não têm combinado bem com nada que eu tenha aqui, mas tenciono voltar a mandar-lhes coisas assim que esses dois empecilhos se afastem. Fecha parêntesis.)

O conto é ficção científica, chama-se no original O Jogo dos Deuses, foi publicado no Em Órbita há já uma carrada de anos, em espanhol ficou, claro, El Juego de los Dioses, vem ilustrado com a imagem que veem ali em cima (um tanto ou quanto infiel à história, aviso desde já) e está disponível aqui, no Microficciones y Cuentos onde uma vista de olhos rápida à lista de autores informa que também se podem encontrar coisas do João Ventura, de vários brasileiros e de uma multiplicidade de escritores um pouco de todo o planeta, alguns deles com nomes sonantes.

domingo, 13 de julho de 2025

E mais um continho em inglês

Já saiu há mais de duas semanas, o que serve bem para mostrar em que pé têm estado as coisas por aqui, mas sim, voltei a traduzir um conto para inglês e voltaram a aceitá-lo e a publlicá-lo na SciFanSat, no último sábado de junho.

E de novo é um conto que foi publicado em português aqui na Lâmpada. Este é um bocadinho mais extenso, e foi bastante mais exigente em termos de tradução. Confesso que não gostei muito do resultado — sinto que não consegui fazer com que a versão inglesa cumprisse tão bem como a portuguesa todos os objetivos que tentei alcançar com o conto. Mas eles gostaram, pelo menos o suficiente para mo publicarem, portanto suponho que não me saí inteiramente mal da empreitada.

Ficou a chamar-se em inglês "Ripples Upon the Cosmic Background", e pode ser lido aqui. Se preferirem descarregar a revista e ler offline, vão à página principal, em scifansat.com, puxem para baixo e cliquem no botãozinho que diz "download".

Quem o prefira em português, ou queira comparar uma versão com a outra, tem-no disponível aqui, como "Ondulações Sobre o Fundo Cósmico".

E agora volto a mergulhar na toca. Quando conseguir voltar à tona, apareço por aí. Até lá.

domingo, 1 de junho de 2025

Outro continho em inglês

Ando sem tempo absolutamente nenhum, entre um livro muito grande e com prazo apertado em tradução e chatices familiares daquelas que roubam não só o tempo propriamente dito, mas sobretudo disponibilidade mental para fazer seja o que for de criativo. Daí mais uma longa pausa neste blogue bissexto que é o meu, pausa essa que vai continuar ainda durante mais um par de meses, provavelmente. Pelo menos.

Mas não quis deixar passar isto. É que o escassíssimo tempo disponível ainda me vai dando para ir traduzindo uns continhos meus para inglês. E, depois de um conto minúsculo apresentado, aceite e publicado, um conto um pouco maior apresentado mas rejeitado e uns meses em que não achei correspondência entre os temas e coisas que tivesse escritas com um tamanho suficientemente pequeno para que valesse a pena e eu tivesse oportunidade de tentar traduzi-las, eis que voltei a mandar uma historinha à SciFanSat, e ei-la publicada no último número.

O tema é "desastre", o que me calha mesmo bem para umas coisinhas de FC distópica que fui escrevendo ao longo dos anos. Esta, de resto, é uma versão levemente alterada (e em inglês, obviamente) de um conto publicado aqui mesmo na Lâmpada, em 2020. Chama-se A Gargalhada, e está aqui. E quanto à SciFanSat, se preferirem ler em ingês ou tiverem curiosidade de ver quais são as alterações, está aqui. Podem ir diretamente para o número atual e ler online, aqui, ou podem puxar um bocadinho para baixo e descarregar este número da revista (e todos os outros), em PDF ou em EPUB.

Divirtam-se. Ou não. É convosco.

domingo, 26 de janeiro de 2025

Um continho em inglês

Ganho a vida com a língua inglesa já vai a caminho de duas décadas. Apesar disso, nunca me senti competente para fazer traduções de português para inglês, pelo que nunca tentei traduzir nada do que fui escrevendo para apresentar a publicações do legendário "lá fora". Os créditos de publicação em inglês que tenho chegaram por intermédio de traduções alheias, particularmente a do Luís Rodrigues para o conto que publiquei na Nemonymous, uma das primeiras publicações pagas que tive, se não mesmo a primeira (francamente, agora de repente não me lembro e não tenho tempo para ir investigar). Houve algumas coisas que escrevi diretamente em inglês, mas sempre achei isso mais fácil do que fazer a tradução do português, o que pode parecer não fazer grande sentido mas para mim faz.

Fast-forward (pá, está-se a falar de cenas em inglês, deixem-me lá) para finais do ano passado, quando descobri a SciFanSat, uma publicação que publica material desde os mais minúsculos minicontos até histórias de bom tamanho (e poemas, também) em edições temáticas mensais.

E eu pensei qualquer coisa do género: "olha, estes tipos publicam coisinhas minúsculas... e se eu experimentasse traduzir alguma das minhas?" Sim, porque se eu fosse experimentar fazer a tradução das minhas coisas para inglês começaria sempre por qualquer coisa pequena. Para testar as águas, para ver como me saía. Para verificar se os anos de trabalho com a língua me deixaram mais capaz de o fazer do que da última vez que tentei, sem que com isso gastasse demasiado tempo. Ou perdesse demasiado tampo, para o caso da empreitada não ter o sucesso desejável.

Vai daí, quando apareceu o tema do tempo eu lembrei-me de um continho minúsculo e inédito que aqui tinha. Traduzi-o (foi rápido e indolor), apresentei-o. Fiquei à espera.

E foi publicado ontem.

Uma História de Falta de Tempo, no título original; A Story of Lack of Time, assim ficou a chamar-se em inglês.

O site da revista, para quem quiser verificar, está aqui. E este é o link direto para o número 18.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Interruptores? Não: injeções

Ao contrário do que dizia o Herman (através de que personagem? Alguém se lembra? Estou aqui a ter uma branca), a vida não será propriamente como os interruptores, mas é certo que tende a vir em ondas. Pelo menos a minha. Às vezes parece parar, só para passados uns tempos me cair toda em cima como se tivesse pressa de acontecer.

Podia estar mais bem distribuída, convenhamos, no que de resto está longe de estar sozinha. Há carradas de coisas por aí que podiam e deviam estar mais bem distribuídas.

Mas é o que temos, e é com o que temos que temos de lidar.

Com a catadupa de vida que me caiu em cima agora — e logo agora, raios partam! — tenho lidado pondo algumas coisas em espera. Mas hoje tive uma abertazinha, portanto vamos lá despachar um bocadinho do expediente.

Lembram-se de A Injeção Financeira? Uma microficção cuja vida começou aqui mesmo na Lâmpada ainda nos tempos da ortografia antiga e depois se pôs a passear por outros lados já no tempo da nova? Pois agora não se limitou a mudar de ortografia; mudou de língua. Mudou de língua, para castelhano, e vestiu-se de Una Inyección Financiera. E foi publicada na Argentina (ou melhor: na web argentina), num apanhado de microficções que inclui não só um dos primeiros autores que traduzi, ainda amadoríssimo no ofício de pôr em português textos estrangeiros, mas outros dois lusófonos, um português e uma brasileira. O meu antigo traduzido é o Frank Roger, holandês (aliás, uma das histórias que traduzi nessa altura foi o conto que dá título a este livro dele, curiosamente). O português é o inevitável João Ventura. E a brasileira a Ana Cristina Rodrigues. E há mais uma porção de gente, alguma da qual conheço pelo menos de nome (o Gareth D. Jones, o Oscar de los Ríos, o Federico Schaffler, o José Luís Zárate, o Sergio Gaut vel Hartman), a maioria que me é desconhecida. O que não surpreende: a maioria são autores de língua espanhola, e já se passaram muitos anos desde que andei a passar os olhos por aquilo que se ia fazendo na língua hermana.

E era isso o que vos queria dizer hoje. Hasta luego, pues.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Mais companhia para "Decisión"

Como expliquei aqui, a lista de histórias selecionadas para a antologia Nanocuentos del Planeta Tierra (não vo-lo tinha dito, mas o título parece ser este) vai ser divulgada aos poucos, imagino que numa tentativa de causar paragens cardíacas aos pobres autores ansiosos, e até ao fim desta semana estava previsto atingir-se o número de 100 minificções apuradas. E foi: hoje saiu mais uma lista de 50, a acrescentar às duas listas anteriores de 10 e de 40, muito centrada em autores de língua espanhola (embora não exclusivamente) e, consequentemente, muito cheia de nomes que eu não conheço.

Esta última lista encerra a coisa para quem escreveu originalmente em espanhol; os que não constam até agora ficam de fora da antologia. Mas ainda devem ser aceites cerca de 200 títulos escritos originalmente em outras línguas, o que mantém em pleno a esperança de que venham a aparecer mais nomes oriundos de países lusófonos. Da nova lista não consta nenhum.

Apesar de a vasta maioria me ser desconhecida, entre os 50 novos nomes há alguns que reconheço: Steve Rasnic Tem, americano, Daniel Salvo, peruano, Salik Shah, indiano, Fernando Sorrentino, argentino, e Antonio J. Cebrián, espanhol. Há mais alguns nomes que julgo reconhecer mas, como não tenho certeza (especialmente se realmente li ficções suas ou só troquei impressões com eles nos tempos em que frequentei fóruns de língua espanhola na internet, há mais de 10 anos), não os mencionarei aqui.

Não sei ao certo quando serão divulgados mais títulos e autores, agora todos em tradução, mas quando forem dir-vos-ei. Especialmente se houver mais pessoal lusófono por lá.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Decisión

Lembram-se disto? Do que está dito na introdução ao conto, não propriamente do conto em si? Pois bem: os prazos foram mais uma vez postergados, por atrasos na tradução, e os contos aceites não serão todos divulgados ao mesmo tempo. Mas já começam a sê-lo. Foram divulgados 10 há dias, ontem saíram mais 40, e até ao fim da semana deverão sair outros 50, somando um total de 100 minificções, o que deverá corresponder a cerca de um terço do total de ficções aceites e é menos de um décimo do total de propostas. A coisa está a ser divulgada na página de facebook da editora espanhola que irá publicar o livro, a qual tem o curioso nome de La Máquina que Hace Ping.

Não conheço muitos dos 50 nomes já divulgados, o que seria de esperar. Conheço o do mexicano José Luis Zárate, o do australiano Jay Caselberg, o do argentino (e antologista) Sérgio Gaut vel Hartmann, o do americano John Paul Allen (mas deste creio que nunca li nada), o do mexicano Alberto Chimal, o do cubano Juan Pablo Noroña, e os de mais ninguém. Ah sim, claro, também conheço os nomes de três portugueses: João Ventura, José Eduardo Lopes e Jorge Candeias.

Pois é, o meu outro conto, o que sobrou depois da recusa de Revolucionário, foi aceite. Intitulado Decisão na língua original e Decisión na tradução espanhola, é um conto de ficção científica integrado no mesmo universo de Miel Lê, e que explora fugazmente uma das ideias básicas desse universo. Não é FC hard (o universo dá para muitos tipos de histórias, da FC hard a histórias que nem parecem FC) e os elementos de ficção científica que contém são razoavelmente subtis, mas eles estão lá.

É animador ver aceite para publicação o primeiro conto que escrevi depois de uma pausa de mais de ano e meio, durante a qual não só não acabei nenhuma história, como não escrevi nada, nem uma linha, nem uma palavra. Sobretudo porque essa pausa foi provocada mais por desmotivação do que por deixar de ter histórias para contar. Elas sempre cá estiveram; passá-las a papel (ou, vá, a bits) é que parecia não valer minimamente a pena.

Também é interessante constatar que todos os três nomes portugueses aceites até ao momento publicaram no Infinitamente Improvável. Mas é provável que não nos fiquemos por aqui; afinal, ainda falta revelar a vasta maioria das ficções aceites. Depois conto-vos mais coisas.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Será recomendável, mandar assim embaixadores às pessoas?

O Goodreads tem um serviço interessante para quem quer promover um livro: pode-se recomendá-lo a amigos ou contactos, e essas recomendações permitem que os que se deixarem interessar adicionem o livro a listas ao estilo de "quero ler" ou "vou comprar" ou até mesmo "coisinha apetitosa do papá."

Quando publiquei Por Vós lhe Mandarei Embaixadores depressa adicionei o livro ao Goodreads e foi com igual velocidade que senti vontade de fazer uso desse serviço de recomendações. No entanto não o fiz, pelo menos por enquanto.

Porquê?

Porque tenho estado a tentar decidir a que tipo de leitor recomendaria este livro.

Provavelmente, não serão poucos os marqueteiros que chegados aqui pensariam: Mas que está este parvalhão a dizer? Como quer vender livros assim? É claro que tem de o recomendar, caraças! No entanto, eu não consigo deixar de duvidar. De que me serve recomendar o livro a alguém que sei à partida que não vai gostar dele? Que utilidade teria fazê-lo? Vender mais livros? Mas para que quero eu vender livros com recomendações inadequadas, correndo assim o risco de alienar prováveis futuros leitores de outros livros meus, dos quais poderiam gostar bastante mais do que deste?

Sim, que eu não escrevo só maluquices...

E assim pensando, cheguei à sequência lógica desta cadeia de dúvidas: ao certo quem teria mais hipóteses de dar por bem empregues as horas gastas a ler este romance?

E cheguei a uma espécie de resposta.

Este romance foi escrito para mim, para me divertir a escrevê-lo. E divertiu. Mais: continua a divertir-me, anos mais tarde, apesar de já o ter relido tantas vezes, à conta das múltiplas revisões que lhe fiz, que quase seria capaz de recitá-lo (bem, há aqui um ligeiríssimo exagero... coisa pouca). Portanto, julgo que há uma elevada probabilidade de que quem se divirta com aquilo que me diverte leia isto com um sorriso nos lábios e talvez até vá soltando de vez em quando umas gargalhaditas. Especialmente se for como eu e, ao olhar para o cerimonial mais ou menos pomposo que está inerente a boa parte da política, o ache fundamentalmente ridículo. Especialmente se acha que boa parte das declarações solenes que por aí se fazem não passam de chachadas sem pés nem cabeça. Especialmente se consegue ver os interessezinhos escondidos por trás dos "valores" de que tanto hipócrita se faz paladino. Especialmente se tiver em si um núcleo de irreverência e subversão. Especialmente se algures no corpo tiver uma costelinha anarca. E muito em particular se costuma achar piada às maluquices que vou debitando ou partilhando nas redes sociais (aqui no blogue nem tanto).

O meu problema quando toca a fazer recomendações é não saber, na maioria dos casos, se a pessoa a quem eventualmente o recomendaria partilha deste tipo de atitude. Desta forma de encarar a parte mais solene e sisuda do mundo como uma grande e mascarada farsa. Daí a hesitação.

Se soubesse que sim, pois recomendaria sem reservas. O livro não será nenhuma obra prima literária, que não é (eu próprio já escrevi coisas literária e conceptualmente mais fortes do que esta) e de resto nunca pretendeu ser, mas é um livro escrito com correção no uso do português — a que, diga-se de passagem, a versão que se mantém online não faz inteira justiça; a do livro físico é francamente melhor — e está carregadinho de referências, piscadelas de olho, subcaricaturas da grande caricatura que nele fiz. Tantas que duvido mesmo muito que alguém as apanhe todas à primeira.

Se não, se não têm sentido de humor ou o têm mas muito diferente do meu, se até gostam de pompa e circunstância, se acham os políticos gente cheia de qualidades, se acham demasiado parva a ideia de terem um ET a ventosar por aí sem que ninguém lhe ligue peva, se consideram um crime de lesa-cultura-pátria que se brinque com Os Lusíadas, se, enfim, acham o respeitinho muito bonito, então aconselho-vos a passarem ao largo. De certeza quase absoluta não irão gostar do meu livrinho. Não percam tempo nem dinheiro com ele. Esperem pelo próximo, que talvez seja mais a vosso gosto.

E isto, reparo agora, deixa-me precisamente na mesma quanto a recomendar, ou não, o livro à maioria do pessoal a que estou ligado lá pelo Goodreads.

Ora bolas.

Já sei! Vou recomendá-lo ao Artur Coelho. Boa! Vamos lá então a ver onde é q... olha, ele já o leu e tudo?! Humpf! Assim não vale.

Adendinha melhor informada - Pois calha que sim, o Goodreads tem um sistema para recomendar livros às pessoas, mas não, os autores não podem usá-lo para recomendar os próprios livros. Desconhecia este piqueno detalhe. O que vale é que a ideia de usar o Goodreads para recomendar o meu livrinho à malta não está no centro deste post. Imaginem se estivesse. Imaginem só.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Pandorama nos Contos de Litfan

Já foi há uns dias, mas não faz mal, digo-vos na mesma. O meu conto Pandorama, inicialmente editado no Infinitamente Improvável, foi republicado no site brasileiro Contos de Litfan, inuaugurando por lá uma secção nova, Insólitos. Link direto para o conto? Ei-lo.

terça-feira, 2 de abril de 2013

A FC no II

... ou, para quem anda mal de siglas, a ficção científica no Infinitamente Improvável.

Sim, o II continua ativo. Sem submissões há bastante tempo, visto que o último conto que foi publicado, em meados de fevereiro, chegou logo a abrir o ano, há três longos meses, mas o site continua ativo. Na expetativa do que possa eventualmente aparecer.

Mas não é disso que quero aqui falar. É de FC.

Quando escrevi a proposta, deixei mais ou menos subentendido que haveria alguma preferência por contos próximos da ficção científica. Fi-lo de propósito, não só por preferência pessoal minha, mas também como desafio aos autores. Porque se é razoavelmente fácil escrever contos mágicos, em que se postulam mundos cujas regras de funcionamento estão limitadas apenas pela imaginação do autor, e se é algo mais difícil escrever contos que projetam para futuros ou outras realidades o que a ciência determinou ser plausível, ou pelo menos verosímil, escrever contos próximos da FC que lidem com o impossível parece situar-se numa estreita inteseção de mundos pouco compatíveis, exigindo bastante de quem escreve.

Foi em parte para despoletar essa exigência, para as pessoas não pensarem que eu iria querer coisas do género, que procurei estabelecer um intervalo razoavelmente amplo com os contos meus que escolhi para servir de balizas. A Injeção Financeira é um continho absurdista que sorri da linguagem, e Testemunhas também anda por essas zonas, ainda que seja um pouco mais chegado ao surrealismo e à fábula. Ambos tentam fazer humor, e ambos foram buscar inspiração a Mário-Henrique Leiria, que aliás é, também assumidamente, uma inspiração genérica para toda a ideia.

Mas decidi também mostrar mais ou menos que tipo de conto mais gostaria de receber com Pandorama. Este já mete uma criatura de outro universo, cosmologia, um contacto com outra inteligência e as dificuldades que ele acarreta. Tudo temas típicos da ficção científica. E, claro, o infinitamente improvável sob a forma da queda cosmológica, da transição entre universos.

Depois, recostei-me, à espera de ver o que apareceria. À espera de ver se me surpreenderiam. Foi sem grande surpresa que vi aparecer o terror sobrenatural de O Pacto Macabro da Velha Antonha, ou o realismo mágico de A Rapariga de Areia, etc. Contos que respeitam a proposta do II mas se enquadram em géneros ou subgéneros bem estabelecidos. Contudo, já foi com surpresa que vi chegar ficções científicas bastante clássicas, nas quais a improbabilidade infinita da proposta é usada de forma astuciosa pelos autores. Em especial duas.

A primeira foi Variável da Imponderabilidade, de Tibor Moricz, que postula uma sociedade impossivelmente misógina e centra nesse facto o conflito que faz mover o conto, mas depois desenrola a história segundo as regras da solidez conceptual e de verosimilhança típicas da FC pura e razoavelmente dura. A segunda foi ainda mais subtil, a tal ponto que senti necessidade de perguntar ao autor por que motivo achava que o conto se adequava à proposta do webzine — e também foi depois dela me aparecer que comecei a pensar neste artiguito. É que a história em questão, Para Cada Verdade as Suas Consequências, do Miguel Hernâni Guimarães é, toda ela, uma distopia de Lisboa em guerra, bastante sólida e totalmente verosímil no caso de toda esta coisa do euro e da União Europeia dar o berro com violência, uma história de FC de futuro próximo de um tipo que João Barreiros, por exemplo, já produziu algumas vezes. Guimarães respondeu-me que uma das personagens do conto nunca se deixaria apanhar numa situação como aquela, e que aí residia a sua obediência à proposta. E eu sorri, pensei com os meus botões "bem jogado, pá!", e aceitei-o. Mas aceitei-o com a consciência de que estava a aceitar o que é basicamente uma FC clássica, algo distante da minha ideia inicial para o zine. Ajudou eu ter gostado bastante do conto.

Estas histórias, no entanto, não são as únicas em que a ficção científica está presente. Há o já citado Pandorama, há um outro conto meu, Uma História Verdadeira, Segundo Quem a Contou, cuja ideia básica é inverter o velho chavão do bug-eyed monster que tanta escola fez na FC da Golden Age, pondo um insignificante mosquito como piloto aviador regressado duma catastrófica missão de ataque a um horrendo monstro com dois braços, duas pernas, instintos assassinos e uma gruta privativa (e que é baseada em factos reais, comigo no papel de monstro horrendo), há Terra Brasilis do Gerson Lodi-Ribeiro, conto ambientado num planeta Terra que se vê subitamente alterado de tal forma que todos os países, à exceção do Brasil, se esvaziam de homens e civilização e que também se desenrola como FC pura e dura após a infinita improbabilidade que dá o pontapé de saída ao enredo, há Decepções da Paternidade, também do MH Guimarães, que se passa num futuro (embora troce venenosamente do presente) em que a aprendizagem é praticamente instantânea e os professores foram substituídos por androides, há dois contos do João Ventura, que até são os que mais se aproximam do tipo de material que eu contava receber no zine, Sem Maneiras, conto que anda em volta de conceitos tão científicos como a explosão de conteúdos informativos e os buracos negros, e a piscadela de olho a Flatland que é Uma Notícia Geométrica, e há Cientista, de Fernando Soromenho, que recupera outro velhíssimo chavão da FC, o cientista louco, e as consequências imprevistas e altamente nefastas da sua atividade.

Estas sete histórias são as que melhor correspondem ao que eu esperava receber. Eu não chamaria FC a todas, mas a FC é em todas uma componente. Somando-lhes as duas de que falo acima, são nove histórias em que a ficção científica está presente, de um total de 17 histórias publicadas no zine. Basicamente metade, embora bastante mais de metade se em vez de número de histórias pensarmos em número de palavras. É que, para além do mais, são precisamente as histórias próximas da FC que são as mais extensas, o que não deixa de ser curioso.

E eu gosto que assim seja. Gosto de ser surpreendido, gosto de FC, gosto de quem aplica inteligentemente premissas e limites. Só tenho pena de, aparentemente, o poço ter secado. Se é seca provisória ou definitiva só adiante se verá.

Seja como for, é a vida.

domingo, 10 de julho de 2011

Sou um autor de best-sellers e nem sabia


Isto que estão aqui a ver é um print screen de algo que nunca pensei ver em dias da minha vida. Tirado do site da Bertrand. Eu sei, é pequeno, mas acho que dá para ver em maior. Tentem clicar na imagem. E, de resto, se forem rápidos talvez ainda consigam ver a coisa a decorrer, aqui. O site é o da Bertrand, como o logotipo sugere. A lista é a dos livros de ficção científica que nele estão disponíveis. A ordenação? Por ranking de vendas. Por ranking de vendas!

Sim, isso mesmo. Ou há algum bug estranho lá no sistema da Bertrand, ou o meu Sally é o livro de FC mais vendido de momento na loja online. Suponho que só na loja online. E eu estou com os olhinhos todos trocados. Assim mesmo, ó: O_o

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Dagon, opinião zero vírgula cinco: as minhas coisas

Não, ainda não comecei a ler a Dagon, mas lembrei-me de que já conheço parte do seu conteúdo: a parte que me diz diretamente respeito. E já agora que também posso dizer o que eu acho sobre essa parte. Pode ser que alguém se interesse por saber. Se for esse o caso, venham daí.

Começando pelo princípio: a entrevista. Não tenho muito a dizer. É uma entrevista que me satisfez. Achei as perguntas relevantes e interessantes, e respondi-lhes o melhor possível. Houve partes das respostas que me deixaram um pouco insatisfeito, porque para realmente expressarem as minhas ideias do princípio ao fim exigiriam artigos completos, e não respostas de dois ou três parágrafos. Mas embora ninguém me tivesse imposto limites ao tamanho das respostas, eu sei que não se pretende obter com uma entrevista um conjunto de artigos. Afinal, já trabalhei como jornalista. De modo que é uma insatisfação inevitável. Mas talvez escreva um dia os artigos.

Segue-se o artigo. Como nele afirmo, trata-se de algo que sai duma reflexão que está iniciada mas não concluída e, embora seja bastante longo, a reflexão ramifica-se de tal modo que houve coisas que tive de simplificar, o que também fiz para tentar mantê-lo interessante. Bem sei como por vezes é aborrecido ler coisas longas no monitor... e se forem chatas então, ui! O facto da reflexão não estar concluída significa que o mais provável é que eu próprio não concorde por inteiro com ele daqui a algum tempo. É uma opinião em processo de construção, e portanto também em mutação. Mas é uma opinião honesta no momento em que foi escrita, e acho que levanta alguns problemas em que vale a pena pensar a sério, com boa fé e honestidade, mesmo que as conclusões a que depois se chega sejam diametralmente opostas às minhas. O que me parece inevitável, sabendo como sei como pensam certas pessoas. À parte isso, talvez haja por lá uma ou outra coisa que gostaria de ter explicado melhor, mas em geral o que lá está é o que lá deve estar.

E por fim, o conto. É uma brincadeira e uma experiência. Não é um grande conto, talvez nem sequer o ache um bom conto, mas acho-o um conto divertido, que é o que pretendeu ser. A experiência consiste em tentar contar uma história de FC recorrendo apenas a diálogos e sem cair na velha armadilha do "como sabes, Bob" que tanto fez sofrer a FC ao longo das décadas. Sendo composto apenas de diálogos, e sendo eu de opinião que os diálogos se querem razoavelmente naturais, não há nele um tratemento cuidado da língua. Para muita gente, talvez, antes pelo contrário, especialmente nas falas dos "chavalos". De modo que quem não tiver sentido de humor, ou quem o tiver pouco compatível com o meu o mais certo é que não goste. Quanto aos outros, se o lerem com um sorriso e acabarem com uma gargalhadinha já me deixam satisfeito.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Dagon, opinião zero: o visual

Tenciono ler a Dagon. Devagarinho e aos poucos, como não podia deixar de ser. Ainda não comecei, de modo que não vou dizer nada sobre o texto, mas já a "folheei" virtualmente e já posso dizer umas coisas sobre o aspeto.

Tem bom aspeto. A capa está gira, as ilustrações também. Essa parte está inteiramente aprovada. O tipo de letra neste tipo de publicação é sempre um problema: no computador lê-se melhor quando a letra não é serifada, em papel quando é serifada, e o PDF é uma espécie de híbrido, pois embora se destine teoricamente a ser lido em computador, pode também ser impresso sem perda de formatação, o que faz com que muito frequentemente seja isso mesmo que acontece. Consequência: seja qual for a escolha que se faz tem sempre problemas, e a consequência disso é que desde que o tipo seja legível as escolhas estão todas certas. Neste caso temos legibilidade, logo está certo. Pessoalmente, teria preferido uma uniformidade maior na estruturação dos textos a nível de parágrafos (sem espaço entre eles, a não ser quando o texto os pede), mas isso é preferência minha. Também é preferência minha, embora aqui já ache que não é preferência minha, que não haja espaços vazios a seguir aos textos — prefiro-os preenchidos com alguma coisa, uma ilustração, um anúncio, um mini-conto ou poema, algo assim.

Reparos tenho em relação ao tamanho do texto, às colunas, etc., pois aí creio que foi cometido um erro que prejudica a leitura. Normalmente, um texto é agradável de ler quando a linha média tem à volta de 8 - 13 palavras. Menos, faz com que o ritmo se quebre com os saltos contínuos dos olhos para trás e para diante; mais, e torna mais fácil que o leitor se baralhe com a linha, especialmente quando volta ao início para ler a linha seguinte. Ora, o tamanho de letra que foi escolhido para as colunas da Dagon reduz substancialmente esse número. Não fiz as contas, mas acho que não erraria por muito se as estimasse, por alto, em 5. Creio que a leitura no computador não seria prejudicada em nada se o tamanho da letra fosse reduzido, mesmo que se tenha monitores dos mais pequenos. Isso, caso se queira manter as duas colunas, porque existe a alternativa de manter aquele tamanho de letra, que é de facto muito fácil de ler no monitor, mas usar apenas uma coluna como se faz nos livros (e em revistas como a Ficções, a Asimov's, etc.). Qualquer destas alternativas, parece-me, é melhor do que o formato adotado no número zero. Pensem nisso para o número 1.

E é isto, para já. À medida que a for lendo irei dizendo mais coisas.