quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

2003 em substantivos e alguns adjectivos - uma visão semi-umbigal

- guerra
- desemprego
- incêndios
- pedofilia
- blogs
- Operação Triunfo
- inundação
- spam
- braço partido
- spamesia
- tradução
- E-nigma
- novos amigos
- crise económica
- terrorismo

Outras coisas houve. Mas estas são as que se destacam de um ano que, no geral, não deixa saudades nenhumas. Entre a mais fascizante administração americana de que tenho memória, o mais incompetente (e salazarento) governo português desde o 25 de Abril, as pequenas, por comparação, derrotas e vitórias de 365 dias de vida minha e dos que me rodeiam, e as consequências de tudo isto, fica um ano que melhor seria que não tivesse existido. As coisas boas não compensam as más, muito longe disso.

Que 2004 seja melhor, é a única coisa que é possível desejar.

Mesmo sem grande esperança de que o seja mesmo...

Historinhas Ene III

Depois das palavras mais belas teriam necessariamente de chegar as mais indesejadas, escolhidas democraticamente pelos próprios visitantes do Ene Coisas. Quem as escolheu optou pelas palavras: obnubilar, perscrutar, interstício, Cornualha, entrefolhos, morte, solidão, prazer, fugaz e cona. E eu escrevi uma historinha de fantasmas:

Foi nos entrefolhos da cona da morte que encontrei o mais fugaz prazer da minha vida. Morri, naturalmente, na solidão que me obnubila os interstícios da consciência, uma solidão húmida como a das charnecas da Cornualha, onde corvos perscrutam o interior de cadáveres de pele sedosa em busca de alimento. E agora aqui estou, imóvel e lívido, percorrido por frémitos e por bicos de corvos. Agora aqui estou a olhar para vocês com as minhas órbitas vazias.

Spamesia (240)

Terça-feira, 30 de Dezembro de 2003. Esta é a data de recepção do spam que vai servir para criar o último spamema do ano. Os spammers resolveram oferecer-me 77 mensagens, e algumas tinham títulos curiosos, como "flap". Suficientemente curiosos, na verdade, para fazer um spamema que é também uma espécie de balanço do ano:

Palmada

A palmada dada
não se olha a moral

Se todas as histórias
têm uma moral
então é esta a moral
da história recente
deste nosso quintal

terça-feira, 30 de dezembro de 2003

Historinhas Ene II

O segundo desafio era construir uma história que contivesse mais dez "palavras mais belas", desta vez sempre iguais e escolhidas pelo Luís. Eram elas: "besouro", "sussurro", "silêncio", "noite", "espinho", "alma", "muro", "ziguezague", "serpentear" e "nada". E eu, como achei o desafio pequeno, resolvi usá-las por ordem. O resultado é a minha historinha de que mais gosto:

Um besouro esvoaça num sussurro de segredos, rompendo com cuidado o silêncio da noite. Quando o mocho acorda, o besouro pousa num espinho de um velho cacto carcomido, rodeando a sua alma assustada de um muro de sossego. Passa uma aragem, em ziguezague, e o besouro aproveita para levantar voo de novo, serpentear pelo ar fora, para longe dos olhos do mocho, que o seguem. Que o fitam. Que não largam o fio que prenderam nas suas asas de besouro enquanto o mocho por sua vez bate as asas de penas de seda. O besouro ainda tem tempo para assustar-se quando vê que aqueles olhos gigantescos se aproximam como duas luas feitas míssil. Mas depois, não tem tempo para mais nada.

Criticaram-me a Sally!

Acabou de ser publicada no E-nigma uma crítica de Octávio Aragão (o sr. Intempol, para quem não sabe) ao meu livrito, Sally. Uma crítica honesta, em que o Octávio fala daquilo que, a seu ver, são os pontos positivos e os pontos negativos daquela história. Uma crítica sem bajulações nem arrasos, que mostra que quem a escreveu leu o livro e reflectiu sobre ele, algo que tantas vezes está ausente até da crítica mais profissional, na imprensa.

Assim dá gosto! Muito obrigado, Octávio!

Spamesia (239)

Ontem, segunda-feira, chegaram-me 69 mensagens-lixo. Curiosamente, até houve alguns títulos desafiantes e/ou interessantes, e tive alguma dificuldade de escolha. Acabei por optar pelo lugar-comum mais absoluto de "ANO NOVO VIDA NOVA", e escrevi isto:

Ano novo vida nova

Ano novo
vida nova
bota o ovo
para a cova

Dorme o povo
e não acorda
porque o polvo
se renova

Ano novo
vida nova?
Uma ova!

Historinhas Ene I

Em Outubro, o Luís Ene andou a brincar com os seus visitantes, apresentando-lhes uma série de desafios literários que eles (isto é, nós) teriam de ultrapassar para chegarem ao prémio: milhares de euros em barras de satisfação pessoal. Eu por lá andava de vez em quando, e resolvi quase sem dar por isso meter mãos ao teclado. Umas historinhas saíram melhores que outras, como é natural, mas ainda saíram umas quantas.

A primeira das minhas Historinhas Ene tinha como regras a elaboração de um texto que incluísse todas as dez "palavras mais belas" que tínhamos escolhido uns posts antes. Cada um de nós usaria as suas, e as que me tinham vindo parar aos dedos tinham sido: "recordação", "Cláudia", "circunferência", "miosótis", "esfinge", "formaldeído", "organelo", "literatura", "sílaba" e, violando as regras com motivo, "amanhã serão outras".

E o que escrevi, foi:

A recordação da Cláudia deita-se na minha memória, rodeando-a com uma circunferência de miosótis. Olha-me com o seu rosto de esfinge, imóvel, como se fixado em formaldeído. A recordação da Cláudia constrói-se na minha memória organelo a organelo, como se a memória fosse uma fábrica de biologias. Mas não é, porque em vez da Cláudia em forma de gente, dela nasce apenas literatura, sílaba a sílaba.

O que me entristece é que se hoje as recordações da Cláudia são suaves e sorriem, amanhã serão outras bem diferentes...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2003

Spamesia (238)

E no domingo houve 66 spams, quase todos com uns títulos muito maus. Salvou-se um que dizia "Don't worry taurus, I won't tell", que deu para fazer isto:

Descansa, touro, eu não digo a ninguém

Descansa, touro, eu não digo a ninguém
que tu no fundo tens medo que as vacas
fujam da pastagem que conquistaste
e por isso estás grato àqueles animais
estranhos que erguem paliçadas
por mais que lhes mostres a tua rebeldia

Descansa, touro, eu não digo a ninguém
que já ouviste falar da arena e do matadouro
mas não acreditas porque achas
que não pode ser assim tão mau
e quando te vêm chamar, escavas a terra
e resfolegas por uma questão de tradição
mas no fundo partes de bom grado

Descansa, touro, eu não digo a ninguém
que tens cérebro de galinha e penas nos cascos

domingo, 28 de dezembro de 2003

Spamesia (237)

Ontem, sábado, chegaram-me 64 spams, um valor bem menor do que o fluxo de antes do natal. De todos os títulos (que não eram 64, devido a repetições e a spams com títulos em branco) o melhor pareceu-me ser o que dizia "super loads". E lá saiu um:

Super cargas

Há pessoas que têm rostos feitos palha
e cabelos como juncos, estaladiços e crespos
rodeando olhos que são écrans para planícies
Vemo-las sentadas sobre os calcanhares
nas bermas das estradas dos países pobres
fundindo-se com a terra como se cobertas
de uma pele mimética como a de um polvo
Vemo-las e quase que nos apercebemos
de que poderíamos também nós estar ali
reduzidos à condição de excrescências
de um planeta que nos põe nos ombros
a responsabilidade pela própria sobrevivência
Bastaria sermos forçados a carregar nos ombros
as super cargas da fome e da miséria

Repararam?

Repararam que aqui a Lâmpada tá mais gordinha? Não, não foram os bolos do natal. Sou eu que estou a fazer experiências de alteração de template ao vivo, em directo e devagarinho pra não chatear (o tempo livre também não abunda). De vez em quando contem com mais uma mudançazita por aqui, para o futuro.

Alguém por aí sabe o que se passa com o Blogger?

Pois, que raio se passa com o blogger? Aqui há um par de semanas foram quebras de serviço atrás de quebras de serviço, e desde então deixou de pingar o blo.gs e não responde às perguntas que lhe são feitas, pelo menos a acreditar no que dizem deste último serviço. Citando um comentario na página deles, datado de dia 20: "the feed of updates from blogger.com appears to have disappeared. we’ve sent a help request into blogger to find out where it’s gone off to, but haven’t heard back yet. until it reappears, updates to blogger-powered blogs that don’t ping us directly (or weblogs.com) will not be noticed."

Entetanto parece que a única forma de aparecermos nas listinhas, caros companheiros de infortúnio, é pingá-los à unha. Aqui explica como, se bem que não de uma forma muito didáctica...

sábado, 27 de dezembro de 2003

<-------- Os livros que estão ali

Há já montes de tempo que não vos falo dos livros que vão atravessando ali a coluna do lado. É que a falta de disponibilidade tem sido de tal maneira grande que até as leituras sofrem, não há grande renovação na pilha de livros em leitura e não há tempo para falar deles.

Mesmo assim, vai-se lendo qualquer coisinha. E desde a última vez que vos falei deles, passaram à estante das leituras concluídas Crónicas do Caos — O Mar Infinito (um bom bocado chatinho. E de novo com uma tradução cheia de detalhes irritantes, ainda que melhor que a do primeiro volume), Blogs (para este blogger, a parte das entrevistas vale o livro) e A Morte é um Acto Solitário (um magnífico romance de Ray Bradbury, bem traduzido, sem nada de FC e só com um levíssimo odor a fantástico e a terror a lembrar o pedigree do autor no género). Para o lugar destes, entraram:

- O Verão dos Dinossauros, de Greg Bear, é uma sequela para O Mundo Perdido de Arthur Conan Doyle. Quem gosta de obras auto-referenciais deve gostar bastante, mas quem não tem grande paciência para fanfics (mesmo para fanfics de luxo, como esta) deve ficar indiferente. Edição das Publicações Europa-América, 337 páginas (2000)
- Um Destes Dias de Jorge Eusébio, é a primeira menção honrosa do Prémio Revelação Manuel Teixeira Gomes. Edição das Edições Colibri e da Câmara Municipal de Portimão, 15 páginas (2000)
- A Teia é o quarto e até agora último romance de FC de João Aniceto, autor que venceu o primeiro Prémio Caminho de ficção científica. Edição da Editorial Caminho, 259 páginas (1993)

Spamesia (236)

Ontem, sexta-feira, houve 73 spams, mas quase todos com uns títulos muito maus. O mais razoável foi o que dizia "It's the PERFECT". Pelo menos deu um spamema estruturado com um mau título:

É o Perfeito

O Perfeito início é
um primeiro passo num caminho sem pó
que se estende até ao fim do espaço e do tempo

O Perfeito tempo é
uma sucessão de momentos
cada um deles contendo o tempo inteiro

O Perfeito inteiro é
dois olhos que se afundam nas profundidades
repletas de sonhos de outros dois olhos

Os Perfeitos olhos são
janelas repletas de estrelas e de centelhas
e de sinais de um universo pequeno mas infinito

O Perfeito infinito é
o espanto pelas ondas do mundo
ou então todo e qualquer verdadeiro início

sexta-feira, 26 de dezembro de 2003

Spamesia (235)

No dia de natal, que foi quinta-feira, parece que houve uns quantos spammers que estiveram com as famílias porque o número de spams voltou a cair para 51. Nenhum problema, a não ser que os títulos desses spams foram quase todos uma bela porcaria. Salvou-se, por muito pouco, o que dizia "useful oil". Por muito pouco mesmo. Consequência: lá tive de escrever a palermice que se segue. Um daqueles poetas presunçosos que parece que andam por aí, viajando de café em café só para mostrar ao mundo a sua erudição, chamaria a isto algo como extravaganza; eu, que não percebo nada disto, prefiro chamar-lhe apenas uma ganza...

O útil óleo

O útil óleo pinga pingo a pingo
da parte que mais perto fica
do tecto da casa rica que produz
o útil óleo num clamor de estrondos
(catrapum, crás trás truz)
à porta, uma rapariga bonita
prega um prego numa fita
embebida de útil óleo até ficar
bêbada com o cheiro do gasóleo
e é assim que tudo fica
até vir a mulher da fava rica
e levar o tal óleo que é tão útil
para quê, ninguém sabe, mas é útil

Spamesia (234)

Na quarta-feira, talvez para aproveitar o ímpeto natalino de última hora, houve mais spams: 68. Destas quase sete dezenas de mensagens-lixo, a que trazia melhor título era a que anunciava: "It's me":

Sou eu

Sabes?
Aquela aragem que passa
e atravessa
os teus cabelos
fazendo estremecer a penugem
quase invisível
que te cobre o rosto
afagando-a com mãos de vento
e depois fica a olhar-te
de longe
para lá do limite da tua
percepção
sabes?
Essa aragem, amor
sou eu

Spamesia (233)

Na terça-feira, o número de spams reduziu-se ainda mais, regressando ao nível de há alguns meses: 51. Mesmo assim, apareceram alguns títulos razoáveis, incluindo um "travel you can afford" que eu traduzi para:

Viagens dentro do orçamento

Tenho um amigo que tem na vida o sonho
de um dia entrar num navio
com destino às Maldivas
(tem mesmo de ser um navio
diz ele que as viagens se fazem mais vivas)
Estava há dois anos a juntar dinheiro
de dez em dez euros numa conta no banco
quando perdeu o emprego
Comprou três livros sobre as Maldivas
e cinco cassetes de vídeo
(o dinheiro não chega para dêvêdês)
e agora, todos os fins de semana
embarca para o seu paraíso solarengo
sentado no sofá e rodeado
de sonhos tristonhos e garrafas de cerveja

quarta-feira, 24 de dezembro de 2003

Spamesia (232)

Na segunda-feira houve bastante menos spam: 57, apenas. Lá no meio da floresta de assuntos, decidi-me por um "Ideas for HIM And HER -->" e escrevi:

Ideias para ele e para ela

Para ele:
Abre as asas e lança-te ao vento
deixando ao vento as decisões principais
sobre se há-de levar-te para o alto
se para o fundo
assim como assim, a vida é um momento
e não há tempo para mais indecisões

Para ela:
Despe as asas, não precisas delas
tu voas só com a força do teu olhar
não há perigo, não podes falhar

Spamesia (231)

No domingo, foram 91 spams a atravessar os filtros. Outra vez. Os títulos foram piores que os de sábado, mas mesmo assim ainda recebi um "Games 241232". O resultado é longo:

Jogos

Numa sala um homem grita em tamanha euforia
que até a gravata lhe dança e salta em torno do pescoço
Dias depois vinte e três homens e setenta e cinco mulheres
recebem uma carta em casa a informá-los
de que podem ficar em casa porque o lugar onde trabalham
já não existe
Um dos homens aparece morto dias mais tarde
espalhados pelo chão os restos rasgados das contas
dos empréstimos para a casa e para o carro
lembram neve e são frios
Os outros choram um pouco
e há alguns que lhe invejam a coragem

Numa sala dois homens abraçam-se num amplexo viril
que faz tilintar as medalhas que forram os seus uniformes
Dias antes quarenta e dois adultos e treze crianças
tinham ficado espalhados pelo monte de entulho em que se transformou
o bloco de apartamentos em que viviam
numa cidade em guerra
Foram as primeiras vítimas de um ataque-relâmpago
destinado a destruir infra-estrutura e incapacitar canais logísticos
por forma a não deixar lançar os dois ou três mísseis balísticos
escondidos na periferia da cidade
Duas famílias desapareceram para sempre
as outras ficaram apenas um pouco mais pobres

No teu quarto, tu jogas à bolsa e ganhas
numa simulação de computador
e quando te fartas, vais tratar de aniquilar o inimigo
varrendo-o da superfície da terra virtual em que mergulhas
quando queres esquecer que à superfície da terra real
há quem jogue os mesmos jogos em tempo real
vitimando realmente gente de carne, osso e principalmente sangue
bem real

terça-feira, 23 de dezembro de 2003

Spamesia (230)

No sábado atravessaram os meus filtros 91 spams, e vários deles vinham com títulos interessantes. Escolhi um de um tal Robbie Marino, que me escreveu, segundo dizia o computador dele, de 27 de Julho de 1981, algo chamado "RE: Time is of the Essence!!". OK, então dizes tu que o tempo...

O tempo é da essência

O tempo passa
pela praça
dos sonhos
risonhos
passa e parte
partindo em partes
a realidade
uma coisa o passado
outra o presente
que é quase
inexistente
outra ainda
o futuro
esse furo inseguro
um muro desconhecido
à nossa frente

Esta é parte
da essência
do universo
que se constrói
verso a verso
parte a parte
tempo a tempo

sábado, 20 de dezembro de 2003

Spamesia (229)

Finalmente, cá estou a falar do spam de ontem, sexta-feira, dia em que o fluxo se reduziu a 70. Um deles, cujo remetente se disfarçou de mim próprio, vinha intitulado "So sweet ...", e vai daí:

Tão doce...

Tão doce é viver num casulo de algodão-doce
e esperar nele a metamorfose
que transformará este bicho da seda sem seda
que se alimenta dos vícios do mundo
num ser cego e alado
capaz de ver as coisas apenas de um lado
cego para tudo o que não seja
tão doce

Só é pena que a vida dessa particular borboleta
seja tão curta
uma semana, e ei-la morta de enjoo

Spamesia (228)

Com filtros e tudo, a quinta-feira foi recordista. Pela primeira vez (e tenho cá uma suspeita de que não será a última), o número de spams que me chegou em cerca de 24 horas, fora os que foram apanhados pelos filtros, chegou a 100. Cem, certinhos. No meio de toda esta fartura houve alguns títulos recuperáveis, como por exemplo "Worried?"

Preocupado?

Estás preocupado?
Estás pré-ocupado
com coisas que virão
ou talvez não?
Talvez tenhas razão
mas por outro lado
atrás de um inverno
vem sempre um verão

Spamesia (227)

Na quarta a enxurrada constou de 81 mensagens, também com uns títulos muito pouco inspiradores. Acabei por pegar num "Fw: Ler para reflectir", que nem sequer era spam (era só uma mensagem não solicitada, bastante acertada por sinal, acerca do contraste de tratemento entre a Maria João Ruela e todos os trabalhadores de construção civil portugueses que têm acidentes de trabalho por esse mundo fora). E escrevi:

Ler para reflectir

Quando a literatura não é campos em flor
noites escuras e tempestuosas
lugares comuns vazios de significado
leio para reflectir na natureza do que me rodeia
para tomar do mundo uma fracção
feitas de palavras
e torná-la parte do que sou
Leio, em suma, para pensar
ou pelo menos para pensar que penso

sexta-feira, 19 de dezembro de 2003

Spamesia (226)

Na terça-feira houve 86 spams, quantidade que não teve paralelo na qualidade dos títulos que eles traziam. Lá tive de pegar num "Get in Shape for the Holidays." e resolver o assunto com isto:

Fique em forma para as festas

Fique em forma para as festas
erga o focinho
abane a cauda
e lance um ganido, fininho, ao seu dono

Além das festas
pode até ganhar uma
comissãozita

Spamesia (225)

Segunda-feira recebi 72 spams, incluindo uma daquelas mensagens que pretendem atrair a curiosidade do receptor pelo mistério do subject-line. Comigo não resulta, lamento imenso. Mas até que é um desafio interessante transformar em spamema um título como "u":

U

Há letras que se equilibram por si mesmas
donas de uma simetria bem assente nas linhas
sólidas ou virtuais de quase todos os textos
mas há outras que parecem balançar
ao ritmo das palavras, nas ondulações da frase
num equilíbrio instável, que parece sempre
quase a desfazer-se.

Uma dessas letras é o U
Uma base redonda da qual nascem
duas colunas que tantas vezes suportam mundos
como na palavra futuro
ou na palavra tu

quinta-feira, 18 de dezembro de 2003

Spamesia (224)

No domingo, dia que as religiões cristãs elegeram para não se fazer nada (além de ir às missas, naturalmente), recebi 83 spams, um dos quais intitulado "RE:Vacation time...". Pelos vistos há quem trabalhe e sonhe com as férias. Quanto a mim, como há muito tempo que não escrevia um spamema de FC e estava com saudades, fiz isto:

Tempo de férias

Abri aqui uma bolsa de tempo de férias
para não fazer nada durante uns dias
de tempo subjectivo basta entrar nela
e digitar o código do seu cartão de crédito
amanhã estará pronto para regressar ao trabalho
revigorado e até, se quiser, com um belo bronzeado

Spamesia (223)

No dia seguinte, sábado, houve 73 spams, incluindo um que anunciava "A little elf has a message for you.i". Não sei qual era a mensagem, que nunca abro os spams. Mas imagino:

Um pequeno duende tem uma mensagem para ti

Estava eu calmamente sem fazer nada
(tarefa desgastante que me consome a vida
como que a corroendo com o ácido da imobilidade)
quando me aparece no écran do computador a frase
«um pequeno duende tem uma mensagem para ti»

Fui ver qual era, evidentemente, que isto
quando mete duendes é caso para ter cuidados

Dizia assim:
«Meu caro amigo,
chegou ao meu conhecimento, por vias que não interessa
estar agora a especificar, que o caro amigo leu de fio
a pavio a obra do malandro do velho Tolkien.
Espero que não tenha acreditado em nada.
Aquilo é uma resma de patranhas
ainda mais mentirosas que as patranhas antigas
com que o meu povo submergia o seu nos tempos antigos.
Quando nos abordou, o velho, que na altura ainda não era
assim tão velho, embora já o fosse
se compreende o que quero dizer
achámos que não fazia mal contar-lhe algumas coisas
mas o filho da mãe ou não percebeu nada
ou fingiu que não percebeu
e escreveu aquilo.
Só demos agora por aquilo, que o nosso tempo é diferente do vosso
(nalguma coisa o diabo inglês teria de acertar)
e estamos agora a tentar, por todos os meios que for possível
repôr a verdade dos factos.
Não está a ser nada fácil.
Vocês estão de tal maneira habituados às mentiras
que já nem reconhecem a verdade quando ela acorda.
Obrigado pela atenção
Disponha sempre»

Querem um comentário à mensagem do duende?
Então cá vai: o tipo é um doente!
Claro que nós reconhecemos a verdade!
Não é verdade?

Spamesia (222)

Na passada sexta-feira chegaram cá 81 spams, uma conta jeitosa. Também jeitosos foram alguns dos títulos que eles traziam, nomeadamente o que dizia "No mínimo,". Deitei fora a vírgula e:

No mínimo

No mínimo um mimo
que ponha um pouco de verde
na vastidão cinzenta
destes dias queimados

Já não peço mais nada

D'ya know The Idiot Son of an Asshole?

Precisa de flash. E de sentido de humor.

Intervenção cívica

Durante a sabática, não abandonei os blogs por inteiro. De vez em quando, aproveitava um intervalo breve no que tinha a fazer e vinha espreitar as novidades. Por vezes deixava um comentário breve. Uma vez deixei um comentário longo à relação entre o mercado e a edição. É um itálico intitulado O Deus-Mercado e a Edição, no Blog de Esquerda. Podem comentar à vontade.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2003

Spamesia (221)

Nestes entretantos de ausência, o spam marcou a sua habitual presença. Resultado: uma semana inteira de spam acumulado. O de quinta-feira foi curto, só 59 mensagens, e nestas uns títulos muito chungosos. Peguei no que dizia "Impress the daylights out of her! bwjr", deitei fora o "bwjr", aldrabei a tradução do resto e escrevi:

Impressione-a como a luz do dia

Impressione-a como a luz do dia
basta fazer dois passes de magia
e dizer daquelas coisas
falsas mas doces
com os olhos semi-cerrados em sorrisos doces
e as mãos entrecruzadas numa timidez doce
tudo muito suave, muito doce
Basta fazer de conta que se é um sol
brevemente passeando pelo rés da terra
a mesma táctica que já resultava na adolescência
mas que parece que nunca atinge a obsolescência

Porque ela tem um sexto sentido,
diz ela, que está sempre em sentido,
raramente tem dúvidas e nunca se engana
nem mesmo das vezes que se engana

Regresso

Até parece que foi de propósito. No sábado, o Luís Ene (e aí, mermão... tudo jóia?) anunciava perante uma plateia de algumas dezenas de semi-interessados que este meu blog tinha actualizações diárias, e eis que fica quase uma semana sem tugir nem mugir.

Coisas da vida...

Não que ele habitualmente seja pródigo em mugidos, note-se. Habitualmente vagueia entre o rosnido e o zurro, com um cacarejo ocasional a espreitar dos interstícios. Mas nos últimos dias foi o silêncio, e isso, realmente, é coisa rara.

Mas agora acabou. E antes de retomar a actividade normal, vou falar um bocadinho do umbigo.

Pois no tal sábado houve festarola no Marginália (mexam-me esse blog, ó meus!), aqui na terrinha, a pretexto da apresentação do livro do Luís N e do Paulo Querido. Blogueiros confessos estavam os autores, eu, a Paula e o Baeta que, como chegou a horas e tinha de estar noutro sítio não muito tempo mais tarde, acabou por não assistir a nada. Baeta, se há coisa em que os algarvios são piores que os (outros) portugueses é na pontualidade. Prá próxima não te esqueças... O resto dos blogueiros do Al Gharb tiveram uma honrosa falta de comparência, os malçoados. Mas ninguém se marafou com isso, na há que almariar.

E como já se disse noutros sítios, a noite acabou com uma amena e divertida cavaqueira sobre blogs e assuntos conexos (isto é: tudo e mais alguma coisa) entre o Jorge, o Paulo e a Paula. Se mais alguém tivesse estado, mais alguém teria entrado. A cavaqueira acabou por desembocar naquele sacrossanto tema a que vão dar tantas conversas: o que raio querem ou deixam de querer os homens das mulheres e vice-versa. Não chegámos a conclusão nenhuma, como é evidente. É conversa que já devia existir à porta das cavernas, quando a Lua e as estrelas das noites de verão primitivas apelavam ao espírito reflexivo, e que provavelmente continuará a existir quando homens e mulheres se encontrarem sob a luz de outros sóis e de outras constelações. A heterossexualidade é assim.

Por isso, só tenho a dizer o seguinte: pois é, Paula, realmente gostei da tua última frase. E até acho que as verdades nela expressas se aplicam que nem dedos duma luva à penúltima das tuas frases.

E se o caro visitante não entendeu esta, paciência. Nem tudo na vida é para entender.

Fim do interlúdio umbigal. O blog segue como habitualmente dentro de momentos.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2003

Spamesia 220

Na quarta-feira chegaram-me 69 spams, e entre eles vinha um a falar de dois dias antes: "monday".

Segunda-feira

Toca o despertador
desperto com a dor
de cabeça de todas
as segundas-feiras

Visto-me à pressa
e tomo depressa
o pequeno-almoço
quando saio está frio
e encolho o pescoço
para dentro do casaco

Passo o tempo
debruçado sobre o
amolgado tampo
de uma secretária
faço coisas e mais coisas
pensando noutras coisas

Uma pausa para comer
um qualquer
bocado insípido
de combustível

Depois faço mais coisas
e mais coisas
pensando noutras coisas

Reentro em casa
e a noite já caiu
janto qualquer coisa
e desligo o cérebro
estendido no sofá

Vou deitar-me resmungando
por ser ainda segunda-feira
e desejando poder mandar
esta vida para a puta que a pariu

quarta-feira, 10 de dezembro de 2003

Spamesia 219

Na terça-feira, ou seja, ontem, houve 78 spams, dos quais um apregoava-se "Messy":

Desarrumado

Hoje sinto-me desarrumado
procuro a mão direita
e lembro-me que a deixei no meu último emprego
a mão esquerda segura a máquina de lavar
tentando evitar que ela trema tanto
os olhos estão algures a tentar ver um pôr-de-sol
a boca, esqueci-me dela colada aos teus lábios
e não sei que lhe terá acontecido desde então
e o cérebro está arrumado na estante
junto de todos os outros livros

O mais estranho
é que só dou conta desta desarrumação
porque me chegou pelo correio
um pacote contendo o meu coração

Tinha tentado enviá-lo, já não me lembro a quem
mas veio devolvido com a indicação
de que naquele endereço não mora ninguém

Spamesia 218

Na segunda-feira houve 81 spams, incluindo um chamado "afrodisíaco":

Afrodisíaco

Um dia Afrodite saltitava pelos campos
os pés nus afundando-se na relva
os olhos baixos sob pálpebras semelhantes a pétalas
e os cabelos entretecidos com as lianas da selva
não estava nua, Afrodite, mas era como se estivesse
pois chovera e a toga de fino tecido
colava-se ao seu corpo como se lhe pertencesse
e a face brilhava de humidade e de cor
cheia de gotas de chuva, ou de suor

Estava linda, Afrodite, quando assim a vi
numa promessa de prazer quase dionisíaco
e foi assim que percebi porque se chama o que se chama
ao afrodisíaco

segunda-feira, 8 de dezembro de 2003

Spamesia 217

Ontem foi domingo, e chegaram-me 67 spams, dos quais resolvi reaproveitar um que vinha intitulado "note":

Nota

Escrevo esta nota no dia do meu vigésimo aniversário
e determino que ela me seja entregue de volta
daqui a sessenta anos

«Olá, velha carcaça
ainda te lembras de que já foste novo?
Lembras-te dos sonhos em que embrulhaste o teu futuro?
Não cumpriste nenhum, pois não?
Imagino-te como um tronco de árvore, seco
e já um pouco oco
e também um pouco louco
encurralado num mundo de tecnologia que já não entendes
Imagino-te igual aos velhos que vejo à minha volta
igual aos velhos que andam às voltas sem rumo
numa cidade de que já não conhecem as nascentes.

Olha, velho eu velho
comecei esta nota desejando aconselhar-te a morrer
porque não me imagino vivo com a vida coberta de rugas
porque não me imagino vivo com dores como as tuas
porque não me imagino vivo com saudades da vida
mas agora que aqui estou, de qualquer forma vivo
já não sei bem

Mesmo que já não haja esperança
é certo que enquanto há vida, há vida»

domingo, 7 de dezembro de 2003

Spamesia 216

Isto de ter sites temáticos tem algumas consequências no spam, pois existem spammers que já vão direccionando o "produto" para recipientes que possam mostrar mais interesse por ele, recolhendo preferencialmente os endereços disponíveis nesses sites. E assim se explica que, no meio dos 89 spams que me chegaram no sábado, tenha vindo um com o título de "Ficção científica":

Ficção científica

O extraterrestre saiu da nave no mundo morto
e rebolou-se na poeira em sinal de tristeza
verteu algumas escamas, o que na sua espécie
significa o mesmo que na nossa verter lágrimas
depois retirou de um bolso do fato estanque
a perfeita reprodução de um velho livro
cuja capa mostrava uma paisagem quase igual
ao poeirento deserto sem vida que o rodeava
O extraterrestre colocou o livro sobre uma pedra
e ergueu os olhos ao horizonte em sinal de respeito
depois disse numa língua de rangidos e estalos
«Não ligaram aos avisos, e agora é tarde»
O extraterrestre ficou muito tempo naquele local
já a tarde findava quando regressou à nave e partiu
espalhando vento, levantando nuvens de pó
e fazendo com que o livro se abrisse sozinho
e se fosse folheando até à última página
onde o último parágrafo dizia inutilmente
pois já não restava ninguém que o soubesse ler
«Não ligaram aos avisos. E agora é tarde»

Spamesia 215

Na sexta-feira houve uma estreia: spam em russo. O mais curioso foi que recebi logo vários spams e um deles foi publicidade ao partido Yabloko, cujo principal financiador está na prisão acusado de corrupção. É que hoje vota-se na Rússia. O outro dizia "Подарок любимой женшине" (podarok lyubimoy jenshine), e eu resolvi aceitar essa proposta, entre as 76 que me chegaram:

Presente para a mulher que se ama

O melhor presente possível
para dar à mulher que se ama
é dado na cama

Não, não falo do momento
em que a tempestade desaba
e o mundo se preenche
de raios e trovões

Falo do antes
da lenta construção de um universo separado
daquele onde vive o comum dos mortais
e do momento dos suspiros
depois
quando lá fora só se ouvem cantos de andorinhas

sábado, 6 de dezembro de 2003

Spamesia (214)

Na quinta-feira a pilha estava menos ordenada, mas havia menos spam: 56 mensagens. Poucos títulos interessantes desta vez, acabei por pegar em votos da época: "Desejamos-lhe um Feliz Natal"

Desejamos-lhe um feliz Natal

Desejamos-lhe um feliz Natal
este é o tempo da boa vontade
entre todas as pessoas
e os seus comerciantes
Não saia de casa sem o seu cartão de crédito
ou de débito
e não se esqueça
que se não oferecer aos amigos
tudo o que eles nunca desejaram
(peúgas, bibelôs, tachos e abajures)
eles deixarão de ter respeito por si
e abandoná-lo-ão à porta do centro comercial
como qualquer trapo inútil
vazio e triste

Spamesia (213)

De regresso da Conflitolândia, encontro o spam de quarta-feira numa ordenada pilha de 84 itens. Andou por aqui a mulher-a-dias, porque se fosse eu, era o caos. Procurei e escolhi: "Just for dad"

Só para o pai

Só para o pai
um raio de sol em forma de gaivota
que chega e sobrevoa
as caudas verticais de gatos felizes
os gritos estridentes de petizes
e as sombras fugidias de andorinhas

Só para o pai
os tesouros esquecidos nas gavetas
poeira de cometas

quinta-feira, 4 de dezembro de 2003

quarta-feira, 3 de dezembro de 2003

As curiosas noções de respeito dos peluches

Ali os bonecos de peluche têm uma noção de respeito (absoluto, dizem eles a negrito) curiosa. Permitam-me uma citação: "Alguém insultou um de nós. E apesar de reconhecermos que temos um mau feitio do caraças, temos a noção dos limites. Não vamos à casa dos outros para os insultar: aplaudir, sim; discordar, sim; contrapor, com certeza. Mas com a consciência que somos visitas, e que devemos respeito ao anfitrião. Respeito absoluto [era aqui o negrito - NdoE]. E é exactamente esse respeito que esperamos de quem nos visita.".

Ou seja, trocando por miúdos: eles, como são os "anfitriões com noção dos limites" podem escrever coisas como "É a chamada simpatia do caralho. Ora, meu caro, vai-te foder.". Assim está tudo bem. Mas se quem é assim tratado responde à altura (sem dizer um palavrãozinho para amostra — O Statler não sabe, mas pode-se insultar sem se ser carroceiro) já está mal. A primeira parte é "respeito absoluto"; a segunda é sabe-se lá o quê, crime de lesa-marreta no mínimo. Enfim, os tipos são uns cómicos.

A seguir afirmam a firme intenção de me passarem a ignorar. Óptimo. É bem mais agradável ser ignorado do que mandado foder. E de minha parte, esse foi blog que já saiu ali das listas (com pena pelo Animal e pela metade bem educada da dupla de velhos ranhetas, mas é a vida — juntam-se a ovelhas negras, pagam as favas) e a que continuarei a ir provavelmente durante dois ou três dias, por inércia e curiosidade mórbida, mas depois chapéu. Não só a vida é mais do que blogues, como com alguns 2000 por onde escolher, bonecos de peluche malcriados não fazem falta nenhuma.

Spamesia (212)

Ontem foi terça-feira e houve spam, muito spam, 80 spams. Um deles veio da Stacy e chamou-se "Re[8]: violin". E eu escrevi, enquanto ouvia no Mezzo o grande, o enorme, o gigantesco Keith Jarrett:

Violino

Piano pauta pino
toca troca violino
nota acorde forte
vida a fugir da morte
com som com sorte
grave mudo agudo
no fim o fino
som de sino
piano pauta violino
piano flauta violino
no fim de tudo
fica a fala


(aqui as palavras têm menos importância que o som que fazem em conjunto — consequência de estar cheio a transbordar de música ao escrever)

Blogue dos Marretas

Não percebo o blogue dos Marretas

Decididamente, não percebo o Blogue dos Marretas. Tem um tipo bestial, de esquerda, cheio de piada, que assina como Animal, depois tem um tipo de direita que assina como Waldorf, que também tem piada embora intervenha menos que os outros dois (tem assim daquelas piadas direitinhas que um tipo lê e se ri, pensando "ah! meu sacana, que tás a gozar comigo mas tens piada"), e depois tem uma completa besta que assina como Statler, que não tem nem ponta de piada e como qualquer besta que se preze a maior parte das vezes limita-se a ser insultuoso. Decididamente não percebo como é que os outros dois conseguem aturar aquilo. É que lhes estraga completamente o blog. Sob todos os aspectos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2003

Spamesia (211)

Segunda-feira (i.e., ontem) chegaram-me mais 71, uncluindo um simpático de um tal Adam Burns, que diz "I Believe in You ruqmynyvizr". Não percebi lá muito bem a parte do "ruqmynyvizr", mas do resto gostei:

Acredito em ti

Se me disseres que podes parar o tempo
eu acredito em ti
pois nunca dei pelo tempo dentro de ti

Spamesia (210)

(Aqueles números ali em cima começam a fazer-me alguma impressão. Olho para eles e só consigo pensar coisas como "bolas!" Mas basta de parêntesis) Domingo foi, uma vez mais, dia de spam, com 80 mensagens a forçar a entrada na minha inbox, através dos filtros. Um deles chamava-se "Free Food 5419", e foi esse o feliz escolhido para eu adulterar:

Comida livre

Quando éramos tão novos que não passávamos
de potencialidades encerradas no código genético
de uma humanidade recém-nascida, a comida
que comíamos crescia livre pelos campos.

Hoje, tudo o que comemos nasce numa caixinha
ou num pacote, e cresce alimentado à força
entre varões metálicos e comida feita em fábricas
ou adubado em longas linhas rectas sob o sol
(o único sinal de natureza que ainda vai restando)

Se a biologia dita que cada homem é o que come
que dizem do que somos os nossos alimentos?

Ah! Então é por isso!

Andava eu a matar a cabeça, tentando entender porque razão estava esta gente toda a mudar-se de armas e bagagens para o weblog.com.pt quando hoje, de repente, se fez luz: quando um tipo não consegue aceder ao seu próprio blog durante horas por causa duma falha qualquer nas bases de dados do blogspot, fica ligeiramente irritado...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2003

Spamesia (209)

No sábado, houve bastante menos: 57. Mas também houve títulos interessantes. Escolhi um "joreis Poor Memory", deitei fora o "joreis", que é a primeira parte do endereço de um desgraçado qualquer que, desde que a IOL vendeu a spammers a base de dados dos assinantes netc, passou a receber tanto spam como eu (morra a IOL, a maior bosta que em Portugal se disfarça de ISP!), e escrevi:

Má memória

Lembro-me como se fosse ontem
do dia em que os teus lábios murmuraram
que sempre que olhavas o futuro
ele tinha como sol a luz dos meus olhos
mas esse também pode ter sido o dia
em que te afastaste como uma nuvem
sem remorso, sem me deixar uma gota
de chuva salgada, dizendo-me apenas
adeus, num murmúrio que soa a aragem

Spamesia (208)

Na sexta-feira o número de spams voltou a subir muitíssimo: só os que atravessaram os filtros foram 81. E, como é hábito nestas situações, apareceu um daqueles títulos que titilam qualquer coisa cá por dentro: «A "loja do vidro"». Só lhe tirei as aspas:

A loja do vidro

A loja do vidro vendia cigarros
que tiniam quando o lume alumiava
a sua ponta e a punha em brasa

A loja do vidro vendia carpetes
translúcidas feitas de fios pontiagudos
e quebradiços que voltavam a crescer

A loja do vidro vendia vassouras
que varriam com um som de violinos
que dominavam o pó como pastores

A loja do vidro vendia mulheres
de vidro. Comprei uma, enchi-a dos meus
sonhos transparentes e perdi-me nela
para sempre

Isto não é um parabéns a você...

O meu pai detesta dias de anos, datas festivas, efemérides. Eu percebo porquê — se há noção deprimente é a de divertimento ou alegria com data e hora marcada, festa burocrática definida pelo relógio e calendário. De que vale a alegria que não nasce espontânea do fluir da vida? Mas quando mais um ano passa, especialmente quando é um ano cheio de problemas, a celebração tem de ser feita, como quem diz ao Aziago: "Toma lá, minha besta, para aprenderes! Resistimos mais um ano!"

Por isso, pai, vou pregar-te a partida de pôr aqui um poema teu. E não protestes, que o 68º aniversário foi ontem, logo isto não é nem data marcada nem festejo obrigatório. É só festejo.

E de mim para ti não há distância
há apenas o impulso dos meus dedos
arco mordido na prisão da pele

Nas esquinas rectilíneas desta rua
arde o sol e de mim para ti passam as sombras
da angústia
feros forjados varandim suspenso
sobre os teus seios Arde o Sol nas esquinas rectilíneas
sacos de roupa branca felicidade doméstica
gatos felizes purificando a sombra

E de mim para ti não há distância
uma nesga de escada
meia porta ensolarada alguidar de roupa branca
portas abertas à música
rádios cúmplices de felicidade triste
ali em baixo uma vela que me espreita
com os seus olhos de gaivota
lá em cima andorinhas pombos brancos raparigas
e aqui o mar escoado rochas à flor da pele

Mas de mim para ti não há distância
sinto-me alegre e doce tenho sol nos teus flancos
bebo luz dos teus dedos
purifico-me de todos os remorsos
ardo dentro deste globo de quietude
numa tristeza serena
num inconsolo de escárnio e de espuma

Nesta nesga de escada permitida
irmão dos trastes domésticos
suportando nos ombros as esquinas rectilíneas
dentro desta onda serena de incertezas
pesada de memória e permanência
irrompo como uma flor e existo

porque de mim para ti não há distância
poesia