segunda-feira, 24 de maio de 2004

Spam Fiction (2)

Flor do Trovão


Baseado num spam intitulado "Thunderflower"


Flor do Trovão nasceu quando o trovão se enrolava nos picos das montanhas, ao fim de um dos primeiros dias depois do inverno. Quebrou a casca do seu ovo no instante preciso do relâmpago, e assomou a ponta da primeira garra logo após o estrondo. Começou assim a sua lenda. No dia seguinte já todo o povo tuu sabia do seu nascimento. Flor do Trovão nasceu célebre e célere, pois de todos os recantos das montanhas chegavam oferendas, todos os tipos de alimento, sempre da melhor qualidade. Flor do Trovão nunca teve mais do que um momento de fome e cresceu, saudável e bem alimentada, maior e mais forte que qualquer outro tuu. Olhá-la era um regalo, e os privilegiados que tinham a sorte de tocá-la voltavam para as suas tocas com a felicidade estampada nos opérculos.
A profecia era clara: um dia nasceria uma fêmea tuu quando um só sol pairasse sobre o horizonte e o trovão se enrolasse nos picos das montanhas. Nasceria entre o relâmpago e o estrondo, e teria uma vida abençoada pelas deusas. Seria ela a primeira a atravessar a névoa dos miasmas, que empurra o ar para fora das covas respiratórias, sendo assim a primeira a encontrar um caminho para sair das montanhas. Aquela que Sai, seria o seu nome secreto, dito apenas em surdina, de abdómen em abdómen. E seria ela quem, finalmente, lideraria o povo tuu na longa viagem de que falavam todas as lendas para a terra que, também segundo as lendas, fica para lá do mar de névoa.
A vida era dura nas montanhas. Havia doenças, havia tempestades muito fortes que levavam consigo tudo o que conseguissem agarrar, havia secas, havia os koo e os tnee, que montavam emboscadas nos recantos dos penhascos mais alcantilados e devoravam tudo o que conseguissem trincar, havia a névoa dos miasmas, que por vezes subia as ladeiras menos inclinadas dos vales e ficava por lá, pairando, até que a luz dos dois sóis a fazia retirar-se, deixando para trás, tantas vezes, os cadáveres dos tuu que não conseguissem fugir a tempo. Havia então que disputá-los aos kráá, e os kráá eram umas bestazinhas viciosas.
E havia os terríveis invernos das montanhas, quando um dos dois sóis morria e era devorado pelo outro. Era um fenómeno necessário, bem se sabia, pois só assim o sol que era alimentado poderia gerar um novo sol algum tempo depois, mas o preço que os tuu pagavam pelo ciclo de nascimento e morte dos seus sóis era terrível. Mais que terrível. Era a única altura em que a névoa dos miasmas parecia desistir de subir as montanhas, mas não servia de nada, porque estas ficavam cristalizadas numa capa de gelo, que parecia chegar de todos os lados ao mesmo tempo, depressa demais para se conseguir fugir. E, oh, sim, muitos tentaram. Nenhum regressou.
Nesses invernos, tuu que não se encasulasse, morria. Era tão simples como isso. E muitos dos que se encasulavam morriam na mesma, se não conseguissem tecer o casulo perfeitamente, se deixassem falhas, portas entreabertas por onde o gelo pudesse entrar. E os tuu tinham plena consciência de que as coisas eram assim. Aldeias inteiras faziam os seus casulos numa tristeza sem nome. As montanhas já cheiravam a saudade mesmo antes do inverno começar, tanto era o odor que os tuu exalavam nessa época. Depois o cheiro congelava, como tudo o resto, e como quase tudo o resto, descongelava no fim do inverno quando os sobreviventes saíam dos seus casulos e olhavam com espanto os que não saíam. Havia sempre espanto, sempre. Nunca ninguém teve bem a certeza se por se estar vivo, se por os outros não estarem.
Sim, a vida era dura nas montanhas. E por isso nas lendas tuu havia sempre alguém que delas saía e encontrava para si paisagens mais amenas. A maior dessas lendas falava da vida de Aquela que Sai.
Flor do Trovão.
A que nasceu no fim do inverno, quando o trovão se enrolava nos picos das montanhas e o ar cheirava a saudade.

Flor do Trovão cresceu ignorante. Sabia que tinha mais que os outros tuu, mais um pouco de todas as coisas. Sabia que a sua vida era diferente, mas nunca perguntou a ninguém, nem mesmo a si própria, porquê. Para ela, era natural. Cresceu a pensar que as coisas eram assim porque assim tinham de ser, que ela era o que era e os demais estavam apenas no mundo para servi-la, alimentá-la e resolver-lhe os problemas. Só quando ultrapassou toda a gente que conhecia quer em peso quer em altura, ficando diferente de uma forma diferente, não já aquela pessoa pequena porque jovem, à espera que o tempo passasse e o crescimento se completasse, só então começou a fazer perguntas a si própria. Seria ela também uma tuu? Pertenceria mesmo àquele povo? O sangue branco dos que a rodeavam seria igual ao seu próprio sangue branco? Mesmo igual?
Sempre confiara no espelho das águas para lhe dizer quem era, mas agora o espelho em vez de responder levantava mais perguntas, muitas perguntas. E se afinal não fosse uma tuu, se fosse um alguém outro, um ser à parte, talvez especial? Poderia confiar nos tuu? Nos outros tuu? Poderia fazer-lhes perguntas e confiar nas respostas que eles dessem a essas perguntas?
A partir dessa altura, Flor do Trovão andou ensimesmada. Não falava, pouco comia, isolava-se no topo do seu penhasco favorito, de onde podia ver duas aldeias e um mar de névoa das miasmas, ao longe. Dali, assistia às idas e vindas dos seus dissemelhantes e pensava, em silêncio.
Todos os dias vários tuu iam procurá-la e tentavam entabular conversa, exalando odores suaves e calmantes. Mas Flor do Trovão mantinha o opérculo fechado, desconfiada, e raramente respondia.
Nas aldeias, os tuu inquietavam-se. As conversas só tinham quatro temas, os três do costume e um novo: o alimento, a névoa das miasmas, o próximo inverno e Aquela que Sai. E, a pouco e pouco, o último tema foi-se sobrepondo aos outros três até quase monopolizar todas as palavras trocadas nas aldeias. Pois, se bem que a princípio se tivesse pensado que aquele isolamento iria ser passageiro, à medida que o tempo passava e nada mudava os sussurros foram passando a ter um tom mais agudo, mais preocupado. Tentando compreender o que se passava com Flor do Trovão, os tuu desenvolveram opiniões diversas e desencontradas, e foram deixando a pouco e pouco de se compreender uns aos outros, embora a opinião mais popular (ainda que em múltiplos cambiantes) fosse que talvez se estivesse perante uma qualquer metamorfose, uma tomada de consciência, enfim, qualquer coisa que levasse a jovem a transformar-se, de facto, em Aquela que Sai.
Mas o grande pomo de discórdia era se se devia ou não contar-lhe das lendas.
Nunca ninguém contara as lendas do povo a Flor do Trovão. Ela não frequentara o centro de ensino, como os outros jovens, e como ninguém teve algum dia a certeza de saber como dizer àquela jovem que, segundo as lendas, era predestinada, foi-se adiando esse momento para mais tarde e, de preferência, para outros tuu. Além disso, havia, também, a ideia de que o conhecimento da profecia poderia de alguma forma influenciar a sua concretização. E os tuu não queriam de forma nenhuma que a profecia não se concretizasse. A vontade de sair das montanhas era demasiado forte.
Mas agora...

O impasse prolongou-se. Flor do Trovão pouco comia e ia emagrecendo, ao mesmo tempo que a preocupação do seu povo aumentava e as suas discussões iam azedando e subindo de tom. De murmúrios passou-se a latidos, destes chegou-se aos rosnidos e até mesmo aos grasnidos inarticulados, sinal claro de raiva. Quanto a Flor do Trovão, estava alheia ao que se passava, encerrada que estava nos seus próprios pensamentos desencontrados. Foi só quando o som agudo dos grasnidos começou a ecoar nos picos das montanhas que começou a aperceber-se de que qualquer coisa se passava. Mas nada fez, claro: não devia ser coisa que lhe dissesse respeito. Que tinha ela a ver com os assuntos dos outros? Nada.
Até que chegou um dia em que foi acordada por um concerto de rosnidos que soavam muito próximos e muito irados. Levantou-se e debruçou-se do seu penhasco, com a curiosidade despertada. Lá em baixo, junto à curva do rio, dois grupos de tuu dançavam um contra o outro, mostrando os pêlos das costas, eriçados em afronta. Flor do Trovão instalou-se na beira do penhasco, a assistir, um pouco divertida, um pouco curiosa, enquanto os dois grupos iam passando lentamente da dança ritual à violência. Um dos grupos era mais numeroso, mas como o outro parecia mais determinado, a luta foi equilibrada e só terminou quando o vermelho da relva se tinha já tornado cor de rosa com o sangue derramado, e começavam a chegar kráá de todos os lados para disputar os corpos dos feridos aos grupos em confronto, que gastavam já mais tempo e energia a manter os necrófagos afastados dos seus companheiros do que a combater os adversários. Flor do Trovão não gostava dos kráá, nisso era igual a todos os outros tuu, e sabia-o. E quando viu um dos combatentes ser arrastado, debatendo-se, por um dos animais, desgostou-se com o espectáculo e regressou ao seu recolhimento, fechando todos os sentidos ao burburinho.
Só soube que a contenda tinha tido um desfecho qualquer quando, no dia seguinte, viu aproximar-se do seu penhasco uma grande comitiva, encabeçada por dois tuu muito feridos, repletos de manchas esbranquiçadas, que se apoiavam um ao outro para conseguirem vencer o caminho que levava até ali.
Ao chegarem, explicaram que eram os dois chefes dos grupos que se tinham confrontado na véspera, no sopé do penhasco, que da luta tinha saído um deles vencedor, que por esse motivo as suas ideias seriam postas em prática e que isso significava que tinham uma coisa muito importante a dizer a Flor do Trovão o que, se fosse possível, queriam fazer imediatamente.
Flor do Trovão não respondeu mas sentou-se, deixando claro que tinha ficado curiosa e que aceitava ouvir o que aqueles dois traziam para lhe dizer. Os dois tuu instalaram-se perto dela, murmurando de dor, imitados pela multidão que, entretanto, continuava a chegar e se tentava apinhar o melhor possível em todas as reentrâncias que a rocha proporcionava.
E depois contaram-lhe as lendas. Todas as lendas.

Demorou o resto daquele dia, o dia seguinte inteiro e ainda parte do outro a seguir. Não que houvesse assim tantas lendas para contar, nem que elas fossem muito compridas, mas, quando compreendeu que algumas daquelas histórias talvez lhe dissessem respeito, Flor do Trovão abandonou o seu mutismo passivo e começou a fazer perguntas. Muitas perguntas.
Quando, por fim, Flor do Trovão esgotou as perguntas e os outros esgotaram as respostas, o silêncio desceu sobre o penhasco, instalando-se como uma capa de veludo sobre cada pedra. Por essa altura, já eram poucos os tuu que resistiam por ali: eram histórias que já todos conheciam, e o interesse que a reacção de Aquela que Sai despertara, escoara-se quando se tornara claro que seria só composta de perguntas. Agora, ao chegar o silêncio, debandavam também os últimos resistentes e Flor do Trovão ficou só, com os dois líderes, numa imobilidade interrompida de vez em quando pelo fluxo de oferendas que recomeçava.
Passou-se de novo muito tempo, vários dias.
Nos vales, as conversas terminavam sempre na mesma pergunta, envolta em esperança e angústia: que vai decidir Aquela que Sai?
À mesma pergunta procurava Flor do Trovão dar uma resposta. Sentia-se ainda mais confusa que antes, pois se por um lado a vida que vivera até ali fizera finalmente sentido, se enfim compreendera exactamente quem era e qual o seu lugar no grande esquema das coisas, a verdade é que a sensação de ter uma responsabilidade sobre o dorso era inteiramente nova e não sabia bem como reagir-lhe.
Mas a indefinição não podia prolongar-se para sempre. Os dois tuu que tinham ficado consigo começavam a fazer perguntas subtis, a insistir, cheios de tacto, que o seu povo esperava uma resposta sobre se se iria mesmo, ou não, ter um líder que o levasse para fora da montanha.
Flor do Trovão finalmente decidiu. Ela era especial. Não tinha dúvidas quanto a isso. E, portanto, se a profecia falava num alguém especial que era capaz de levar os tuu para outro lugar, esse alguém só podia ser ela.
"Está bem", acabou por dizer.

Houve festa nas montanhas. Ao longo de vários dias, de todos os recantos saíam trinados de conjunto, enquanto os tuu se preparavam para abandonar as suas casas e enfrentar a névoa dos miasmas em busca de um lugar mais suave onde viver.
Flor do Trovão escolheu um dia e um local como ponto de reunião. O dia, era um dos dias de festa do calendário do seu povo. O local era um vale, plano e amplo, mas bastante inclinado, que era regularmente invadido pela névoa dos miasmas e desembocava perpetuamente no mar de névoa. Dali, a névoa só se retirava quando o inverno ia chegando, e era do que viam nos poucos dias que mediavam até que o gelo invadisse as montanhas, que os tuu sabiam que lá em baixo havia um outro vale que se cruzava com aquele, do outro lado do qual o terreno subia de novo muito, muito lentamente, ao longo de uma longa distância, para aquilo que poderia ser um planalto, situado para lá do horizonte.
No dia escolhido, a névoa apresentava-se revolta. Os ventos que sopravam no vale agarravam nela e enrolavam-na em espirais que percorriam trajectos imprevisíveis e iam desfazer-se nas paredes do vale.
Os tuu reuniram-se no topo do vale, olhando a névoa venenosa com o medo a causar-lhes espasmos nos opérculos.
Flor do Trovão, já inteiramente compenetrada da sua nova condição e do seu novo papel enquanto Aquela que Sai, passeou entre a multidão, deixando-se tocar, acalmando-a, dando-lhe alento. Exalava o cheiro mais doce que algum tuu tinha algum dia exalado, murmurava-se, e o seu povo deixou-se enfeitiçar por esse odor. E foi conduzido por ele que foi avançando devagar para o fundo do vale.
Nem todo, no entanto. Um pequeno grupo de tuu, talvez aqueles que nunca se tinham deixado convencer inteiramente de que Flor do Trovão era mesmo Aquela que Sai, ou os que não acreditavam por inteiro na realidade da profecia, foi-se deixando ficar para trás, e quando os primeiros pseudópodes da névoa tactearam os cascos da multidão, partiram de regresso às suas casas, confusos, desapontados e tristes.
Mas esses eram uma pequena minoria, e os outros foram avançando pela névoa dos miasmas adentro, seguindo uma Flor do Trovão que agora avançava em frente com resolução. Fosse por causa dos movimentos de ida e vinda normais da névoa que, por coincidência, acompanhavam os movimentos de Flor do Trovão, fosse porque Aquela que Sai tinha realmente o poder de controlar a névoa, como pretendiam algumas intepretações mais literais da profecia, o certo é que os farrapos brancos do veneno se iam retirando quase tão depressa como Flor do Trovão por eles avançava.
Ao ver aquilo, a multidão encheu-se de alegria e todas as dúvidas que, apesar de tudo, ainda permaneciam em muitos espíritos, dissiparam-se num mar de trinados. Em breve, apesar das pernas mais longas de Flor do Trovão, era esta que eram empurrada em frente pelo seu povo, mais do que liderava o seu avanço, também empurrada por um vento razoavelmente forte que soprava do topo do vale.
A névoa, entretanto, acumulava-se na frente dos tuu, alcantilando-se em contrafortes com uma altura considerável. Era como se uma montanha de vapores tivesse decidido rivalizar em altura com as montanhas de pedra que ladeavam o vale, apresentando o seu branco amarelado como arma contra o cinzento pintalgado de vermelho dos penhascos.
Até que o vento parou. Nesse momento, a névoa começou a desabar sobre Flor do Trovão e os seus companheiros, empurrando o ar para fora das covas respiratórias e arrancando da multidão um grasnido de susto.
Os mais pequenos, os mais magros, os mais fracos tombaram muito depressa. Depois, alguns já mortos, outros ainda vivos, foram espezinhados por uma multidão que num instante se esqueceu de toda a alegria e recuou em massa e em pânico, abandonando amigos e conhecidos, abandonando Flor do Trovão, que gritava, ainda convencida de ser capaz de ultrapassar a névoa, ainda imbuída da certeza de ser Aquela que Sai, tentando incutir aos outros uma confiança que ainda não começara a fugir-lhe.
Em vão. A debandada foi geral, deixando para trás os restos irreconhecíveis dos espezinhados, cadáveres de onde o sangue branco saía em golfadas.
Mas aquela fuga precipitada teve pelo menos o condão de poupar Flor do Trovão à visão completa do desastre. Um a um, dez a dez, cem a cem, todos os tuu caíram, sufocados, estrebuchando num chão onde espécies de ervas que não conheciam tentavam resistir aos seus movimentos descoordenados, até ficarem imóveis em posições contorcidas, e sempre, sempre, sempre, com as covas respiratórias abertas quase até à destruição dos esfíncteres. Flor do Trovão foi a última a cair, mas não viu isto, porque não chegou a fugir e porque a névoa se fechou à sua volta como um túmulo amarelado.
Só quando começou a perder o controlo dos esfíncteres compreendeu que a profecia não se iria realizar. E à medida que o corpo ia tomando conta dos seus reflexos, numa busca sem esperança por ar, empurrando a consiência para o interior mais profundo do seu cérebro, Flor do Trovão foi mudando a sua maneira de olhar para si própria até chegar, de novo, à incompreensão. Morreu à procura de resposta a uma pergunta que fizera a si própria muitas vezes no passado:
"Quem sou eu, afinal?"

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