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domingo, 7 de abril de 2019

Crescer receita fiscal com taxas de impostos mais baixas? Sim, é possível.

Não sou economista, mas quanto mais o tempo passa mais me convenço de que percebo melhor como funciona a economia (pelo menos certas partes da economia, que há coisas que continuam a ser para mim puro chinês) do que muita gente que diz que é economista, ou jornalista económico ou por aí fora. Por um motivo simples: consigo compreender as relações de causa e efeito de que a grande máquina económica se compõe e eles, claramente, não.

Ou isso ou são uns grandes aldrabões. É a outra possibilidade.

A última dessa gente é a "enorme" carga fiscal que, dizem, está em cima dos portugueses.

Numa coisa têm razão: poderíamos não pagar demasiados impostos se realmente víssemos o dinheiro daqueles que pagamos a ser-nos útil em investimentos dos sistemas públicos que nos melhoram e facilitam a vida, em vez de só o vermos a ser entregue a bancos e a parcerias público-privadas perfeitamente ruinosas. Sim, exagero, mas é para vincar um ponto: é absolutamente vital que a população realmente veja o dinheiro dos impostos a servir para coisas úteis; quando isso não acontece, abre-se a porta à conversa de qualquer aldrabão de feira que se saia com meia dúzia de patacoadas vagamente verosímeis.

Mas a verdade é que este governo baixou globalmente as taxas dos impostos. Desapareceram as milhentas sobretaxas que foram impostas pelo governo do Passos, para começar, desceram alguns IVAs e a reestruturação dos escalões do IRS levou a que a esmagadora maioria das pessoas passasse a pagar menos IRS, embora também tenha havido alguns movimentos em sentido contrário. Houve dois ou três impostos que surgiram (o chamado "imposto Mortágua", por exemplo), invariavelmente a apanhar universos muito restritos, ora de gente particularmente endinheirada, ora de atividades económicas que tinham até aqui uma capacidade de fuga ao fisco bem superior à do comum dos mortais. Também diminuíram as contribuições de muita gente para a Segurança Social o que, não sendo propriamente imposto, também pesa na carteira (agora menos) e serve para financiar o Estado.

Ao mesmo tempo que esta diminuição acontecia, aumentou o total de receita arrecadada pelo Estado por via dos impostos. E quem não percebe patavina de economia não consegue perceber como é que isto é possível, o que é muitíssimo útil aos charlatães de feira. Menos taxa de imposto e mais receita?! Como?!

Simples. Através da melhoria da economia.

E por três vias.

1- Subida nos rendimentos;
2- Aumento na atividade económica;
3- Redução do desemprego e aumento do emprego

A subida nos rendimentos pode levar a um aumento de receitas mesmo com uma redução nas taxas. Se alguém tem 1000 euros de rendimento bruto e paga 20% de IRS sobre esse rendimento, paga 200 euros ao Estado. Se esse alguém tem o rendimento aumentado para 2000 euros e a taxa de IRS se reduz para 15%, passa a pagar 300 euros ao Estado. Menos taxa de IRS, mais dinheiro que entra nos cofres do Estado. E, claro, muito mais dinheiro que fica no bolso do cidadão (de 800 passa a 1700).

A subida nos rendimentos também pode levar a um aumento de receitas quando pessoas que não ganhavam o suficiente para pagarem IRS, ficando abaixo do mínimo, passam a ganhar mais que esse mínimo e portanto entram no sistema. Idem para os profissionais liberais que pagam IVA; quando os seus rendimentos não chegam a um mínimo anual estão isentos de IVA; quando o ultrapassam passam a pagar. Não vamos mais longe: aconteceu isso comigo. Em dois dos anos do Passos estive isento de IVA porque não tive trabalho suficiente para atingir o mínimo. Desde a Geringonça que o ultrapasso todos os anos.

E o IVA leva-nos ao aumento da atividade económica. A taxa pode baixar, mas se a economia crescer, se houver mais empresas, mais gente e entidades a fazer compras e compras de maior montante, a receita aumenta. A subida dos rendimentos tem aqui um impacto evidente e a diminuição nos descontos para a segurança social também: é mais dinheiro que fica disponível para transações, e portanto para fazer crescer o bolo do IVA. E fazer-se subir mais os rendimentos de quem menos tem do que os de quem tem mais também ajuda, porque quanto maiores as dificuldades por que as pessoas passam mais provável é que gastem esse dinheiro extra no que lhes faz falta em vez de o enterrarem no banco (ou em paraísos fiscais). E quem diz IVA diz outros impostos sobre o consumo como o que incide sobre os combustíveis. O mecanismo é igual. E há ainda os lucros das empresas que quando crescem aumentam o bolo do IRC, e por aí fora.

É também esse basicamente o efeito da redução do desemprego, e mais ainda o do aumento do emprego (não é bem a mesma coisa; há gente que não está a trabalhar e não conta como desempregado, mas passa a contar como empregado quando... bem, quando se emprega). Quem não está no mercado de trabalho não paga impostos (geralmente; há situações em que paga, mas são pontuais); se entra passa a pagá-los, o que aumenta as receitas do Estado, além de ter normalmente mais dinheiro no bolso para gastar e ir fazer crescer o bolo do IVA e quejandos.

Ou seja: com mais gente a trabalhar, com mais rendimento disponível, com mais transações económicas, com mais empresas a pagar IRC, a quantidade de dinheiro arrecadada pelo Estado sobe mesmo que as taxas de impostos desçam.

A direita não percebe isto. Daí a parvoíce das contas de merceeiro para "explicar" política económica, como se o traseiro tivesse alguma coisa a ver com as calças. Daí a política cretina do Passos Coelho y sus muchachos e os orçamentos nunca baterem certo, nem com o Vítor Gaspar, nem com a Maria Luís Albuquerque, essas máquinas de orçamentos retificativos. Em contraste, a Geringonça vai chegar ao fim sem um único retificativo, mesmo com todo o dinheiro enterrado (ainda) nos bancos e as outras insuficiências. Pudera: todo o projeto económico daquelas nulidades era destruir a economia, causar desemprego, comprimir os rendimentos, levar empresas à falência, e etc. Depois faziam enormes aumentos de impostos que não geravam o dinheiro que esperavam gerar, porque pura e simplesmente não compreendiam, e continuam sem compreender, que por mais que espremam laranjas secas elas não vão dar sumo.

Pode-se acusar o governo do Costa de muitas coisas, do investimento muitíssimo insuficiente para reparar o estrago feito nos anos anteriores, de casmurrice quase indecente em questões como a do tempo de serviço dos professores, de continuar a alimentar os tubarões da banca com dinheiro que devia ser investido no país, de achar mais importante que o Centeno faça brilharetes com o défice em Bruxelas do que arranjar médico de família para todas as famílias portuguesas (de novo não vamos mais longe: eu, que sempre tive médico de família, deixei de ter há quase um ano) ou resolver os milhentos outros problemas que este país continua a ter. Pode-se achar que teria sido melhor se os impostos tivessem descido mais do que desceram, mesmo que isso fizesse o défice descer mais devagar. Mas não se pode acusá-lo de ser o oceano de ignorância económica que a direita deu mostras de ser ao longo de quatro anos e continua ainda hoje a dar mostras de ser.

E por que raio escrevi eu isto?

Porque estou farto de tanta treta. A partir de agora, posso mandar para aqui sempre que me vierem com certas conversas. E sim, há aqui imprecisões e explicações incompletas, e sim, ficou nesta explicação muita coisa pela rama, e sim, preocupei-me mais em explicar em linhas gerais o funcionamento das coisas do que ir buscar dados sólidos, e não, isto não é um post técnico, com toda a precisão técnica e patati, e patata. Querem disso, vão procurar a outro sítio, a algum lugar com gente mais preparada do que eu. Vão ao Ladrões de Bicicletas, por exemplo, ou ao Vento Sueste.

Escusam é de ir ler os direitolos, incluindo os que escrevem nos jornais, que aí não se aprende nada que preste.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Pensando ao vivo e em direto sobre o RBI

Acabou de me aparecer no facebook o seguinte texto, tradução parcial de um artigo de Yannis Varoufakis que pode ser encontrado aqui:

"É insuportável a ideia de uns trabalharem no duro e pagarem impostos enquanto outros escolhem não trabalhar e viver à pala da bondade legal.
Para ser legitimado, o RBI (rendimento básico incondicional) não pode ser financiado por "Jill que paga ao Jack". Por essa razão o RBI não deve ser financiado pelos impostos, mas sim pelos ganhos sobre o capital.
Um mito urbano, promovido pelos ricos, é o de que a riqueza é produzida individualmente antes de ser coletivizada pelo Estado, através dos impostos. Na realidade a riqueza é sempre produzida coletivamente e privatizada por aqueles que detêm o poder para o fazer : a classe que vive do rendimento de bens móveis e imóveis. As terras de cultivo e as sementes, formas pré-modernas de capital, foram coletivamente desenvolvidas ao longo de gerações de esforço por parte dos agricultores, antes de terem sido apropriadas por furto pelos proprietários fundiários. Hoje em dia qualquer smartphone inclui componentes desenvolvido por algum subsídio governamental, ou então através do "bem comum" que é a partilha de ideias, para as quais nenhum dividendo foi alguma vez pago à sociedade.
Como poderia então a sociedade ser compensada? Os impostos são a resposta errada. As empresas pagam impostos pela troca de serviços fornecidos pelo Estado, não pelo capital injetado que tem de gerar rendibilidades. Assim pode-se defender que "o bem comum" tem direito a uma fatia do capital social e dos dividendos associados, refletindo o investimento que a sociedade faz nos capitais das grandes empresas. E como é impossível calcular a dimensão do estado e do capital social cristalizado em qualquer empresa, só através de um mecanismo político podemos decidir quanto do capital da empresa deve ser afetado ao domínio público. Algo simples poderia ser o requisito legal em cada OPA de canalizar uma percentagem das ações da empresa p/ uma Caixa de Capital Bem Comum, cujos dividendos financiassem o RBI. O Rendimento Básico Incondicional deve e pode ser totalmente independente das prestações de segurança social, subsídio de desemprego, etc. mitigando assim a preocupação de que viria substituir a segurança social, (segurança social que comporta em si o conceito de reciprocidade entre trabalhadores assalariados e desempregados). " (…)
Isto parece-me uma ideia interessante. Mas preocupa-me a volatilidade associada ao financiamento da tal Caixa de Capital Bem Comum através das ações das empresas (imagino que cotadas em bolsa, portanto inerentemente voláteis). O que acontece quando, em situação de crise ou crash, os dividendos caem a pique, sem que deixe de existir um gasto mensal fixo com o RBI, bem mais importante numa situação dessas do que em outra qualquer? Entra o Estado a pagar o défice do sistema via impostos? E isso não faz com que volte tudo ao princípio?

E é ideia que continua a não dar resposta à minha preocupação número um: a quantidade brutal de dinheiro que é necessário para que o RBI seja mais que simbólico. Em Portugal, um RBI de 200 €/mês (bastante baixo), que fosse distribuído pelos cerca de 9 milhões de adultos que cá temos, custaria cerca de 22 mil milhões de euros. É, em linguagem técnica, uma gigantesca batelada de massa. Bem mais que 10% de todo o Produto Interno Bruto. Mais ou menos a mesma quantidade de dinheiro de todos os impostos indiretos cobrados pelo Estado segundo o orçamento para 2018. Todos.

Eu até gosto da ideia RBI, em abstrato. Mas quando olho para os detalhes não gosto do que vejo. Não estou a ver como isto possa ser minimamente viável. Mesmo com as sugestões do Varoufakis.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

À atenção das pessoas que me querem enviar coisas...

... e só têm como endereço o meu apartado.

Informo que, a partir de 1 de janeiro, esse apartado vai deixar de ser meu e, portanto, não devem enviar nada para lá. O meu endereço volta a ser só um, o de casa.

Arranjei o apartado porque os CTT privatizaram o serviço de entrega de encomendas em casa e ele tornou-se péssimo (papéis enfiados debaixo da porta do prédio, encomendas que nunca chegavam — talvez por causa disso — etc.), a caixa postal não ficava muito longe de casa e o preço não era muito alto.

Mas começaram por fechar a estação de correios mais próxima de casa, transferindo a caixa postal para o centro da cidade, depois privatizaram os CTT e a primeira coisa que os CTT-empresa-privada fizeram foi subir de surpresa, no fim do ano e muito o preço do apartado. Por fim, o serviço de entrega de encomendas teve algumas melhorias — ao mesmo tempo que o serviço postal normal ia de mal a pior — portanto vou mandá-los pastar.

Em suma: quem quiser enviar-me coisas e não saiba para onde, pergunte-me.

Ah, sim, e claro: viva a iniciativa privada! Nada é mais eficaz e amigo do cidadão do que a iniciativa privada! Empresas públicas? Que horror!

domingo, 10 de agosto de 2014

Tuitos da semana, nº 2

Olha, lembrei-me. Como é domingo, cá estão os tuitos da semana passada, dominados, como talvez fosse inevitável, pelo Espírito Santo. Amém.
— Diga 1 2 3!
— BPN BPP BES.
——
"Com a habitualidade com que estão habituados". Uau. O homem é bom nisto.
Esta é comentário à comunicação do Carlos Costa, o do Banco de Portugal. Ou fui eu que ouvi mal, ou ele disse mesmo isto. E muitos "repito"s. Muitos "repito"s.
——
O fundo não inclui fundos públicos. O fundo contraiu um empréstimo temporário junto do Estado. Mas não são fundos públicos. Mas são.
——
Não sei porquê, mas a palavra que eu ouvi mais o Carlos Costa dizer foi "bullshit". Ele falou em inglês?! Não percebo isto.
——
Já ninguém trabalha neste país. Só se "colabora".
——
O que fariam as "contribuições periódicas" do fundo de resolução se não estivessem enfiadas aí? Financiavam a economia, não era? Pois.
——
Previsões para os próximos dias: amanhã há uma corrida ao "banco bom" para fechar contas. Antes de acabar a semana já há processos.
A primeira previsão cumpriu-se; a segunda não, mas só porque os advogados são uns molengões. Eles estão a tratar disso, mas levam tempo. Ou seja: como eu disse também noutro tuito passados uns dias:
O que vale é que eu não percebo nada disto e voto em malucos que percebem ainda menos.
Não é?
——
Ninguém me tira da cabeça que aquela coisa da Dona Inércia era boca ao Banco de Portugal.
——
Olha, olha. E não é que nem lá fora se acredita na mais recente aldrabice?
——
Coisas que me irritam assim um bocadinhozinho: quando brasileiros arranjam Argonautas que eu não tenho. Humpf. Ainda por cima aquilo tinha sempre escrito algures "venda interdita na República Federativa do Brasil".
——
Coincidências... puras coincidências...
——
"Porque assim se finge que não há nacionalização do banco." Pois.
——
Olha, giro. Parece que fui nomeado para um prémio.
Vou escrever um pouco mais sobre isto um destes dias.
——
Sabem quem não tem papas na língua? Os estrangeiros.
——
Malta que não sabe a diferença entre eminente e iminente: dicionário, tá?
——
O que o Baptista Bastos aqui não diz é que o seu "sistema" tem nome: capitalismo.
——
Não, queridos dedos, fritar não é o mesmo que gritar.
——
Ironias: o momento em que os banqueiros privados passaram anos a dizer como "tem de ser" mas o único banco saudável é o banco público.
——
Islândia: um "case study" sobre as consequências da traição.
——
Isto de dizerem que querem vender depressa o novo banco "para não perder valor" é giro. Estão a dizer que não vale o que pedem por ele.
——
Ah a internet voltou a matar o Jô Soares? Em quantas vezes já vai?
——
De acordo com isto. Mas acho que os partidos devem democratizar-se mais. Todos. Como consegui-lo é a questão.
——
Uma visão interessantre sobre a dimensão ideal do Estado. Não concordo por completo, mas...
——
Que bom que é ter um telemóvel com bateria que dure mais que 5 minutos.
Esta não tuitei, mas podia ter tuitado: no momento em que escrevo isto, o telemóvel que tive de comprar porque o antigo entregou a alminha ao criador está ligado há 80 horas desde o último (e primeiro) carregamento. Oitenta. E tem 42% da carga. Estou devidamente impressionado.
——
E tudo se começa a conjugar para a brilhante solução adotada para o BES vir a ser muitíssimo pior que a do BPN.
——
Não consigo evitar. É mais forte que eu. Sempre que vejo mensagens revolucionárias "enviadas do meu iPhone" parto-me a rir.
——
O Monteiro Lobato tinha uma das mais impressionantes monossobrancelhas que eu vi na vida. Aquilo era um albatroz negro.
Não conhecem? Então fiquem a conhecer.
——
Marques Mendes crítica a demagogia dos partidos da maioria. Um minuto depois faz demagogia sobre a subserviência de "todos os partidos" para com Ricardo Salgado.
"Esqueceu-se" dos alertas que Bloco de Esquerda e PCP (principalmente o primeiro; veja-se aqui) lançaram há montes de tempo, coitado.
——
Quando estou com sono (tipo agora) falo muito bem wookie. Serei só eu?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Explicando redistribuição e transferências sociais às criancinhas

O nosso inteligentíssimo primeiro-ministro, coadjuvado pelos seus inteligentíssimos ajudantes, deputados e demais alaranjados parasitas, anda numa furiosa campanha para tentar acabar com tudo o que cheire vagamente a solidariedade social neste país. Porque não percebe como a coisa funciona, portanto deve ser má. Afinal, ele é inteligentíssimo. E se um crânio como sua alteza não percebe a coisa, só pode ser algo vindo direitinho das garras do Demo. T'arrenego!

O último exemplo do que digo vem de umas afirmações que passo a citar:
“A taxa de pobreza é inferior à média europeia”, antes de se considerar as prestações sociais, diz ele. E acrescenta: “Mas depois das transferências sociais, a taxa cai menos do que noutros países, de tal forma que se torna superior à média europeia. O que devemos concluir? O nosso Estado social não é suficientemente eficaz. Não faz o que deveria fazer.”
O ponto de partida para tal teoria são dados do CIES, segundo os quais, em 2010, a taxa de risco de pobreza em Portugal era, antes de transferências sociais, de 25,4% e, na UE a 27, de 26,1%, para passar depois de transferências sociais a ser de 18,0% em Portugal e 16,9% na UE-27.

Como acho que até as criancinhas devem saber alguma coisa de economia, eis-me aqui, quixotescamente (até porque não sou economista... mas tenho cérebro, o que só me dá problemas), a tentar explicar a coisa de uma forma que até as criancinhas a entendam.

Imaginem um país imaginário (ah pois) chamado Coelhistão. O Coelhistão tem 100 habitantes, nem mais, nem menos. Dos 100, 25 correm risco de pobreza antes das transferências sociais. Agora imaginem que, pelas transferências sociais, cada lingote de prata permite tirar 5 desses habitantes da pobreza e o governo coelhistanês gasta um. Quantos ficam em risco de pobreza após transferências sociais? Muito bem: 20.

Agora imaginem que o Coelhistão tem como vizinho outro país imaginário, o Lebristão. É quase igualzinho: tem 100 habitantes, 25 correm risco de pobreza antes das transferências sociais, e estas arrancam 5 a esse risco por cada lingote de prata gasto. O governo do Lebristão, no entanto, tem mais olho que o do Coelhistão e gasta dois lingotes em vez de um. Quantos habitantes ficam em risco de pobreza depois de transferências sociais? Isso mesmo: 15.

Conclusão estúpida: as transferências do Lebristão são mais eficientes do que as do Coelhistão. E a conclusão é estúpida porque a diferença está no dinheiro gasto, não na eficiência. Quem tira tais conclusões está a cometer asneira da grossa? Aldrabice? Incompetência? Cretinice? Podem escolher a explicação que mais vos agrade.

Mas esperem, eu ajudo a perceberem ainda melhor. Imaginem que o Lebristão é tal como descrito acima, mas no Coelhistão um lingote de prata tira 6 habitantes da pobreza em vez de 5. Imaginem que o Coelhistão gasta um lingote e o Lebristão gasta dois, como acima. Quantos ficam em risco de pobreza? Pois. 19 no Coelhistão, 15 no Lebristão.

Conclusão MUITO estúpida: as transferências no Lebristão são mais eficientes do que as do Coelhistão. Na verdade, as transferências no Coelhistão são mais eficientes (retiram 6 habitantes da pobreza contra 5 pelo mesmo preço), mas de novo a quantidade gasta é menor, logo a quantidade de gente resgatada também é menor. Este exemplo dá cabo das explicações mais benévolas para quem afirma coisas destas, não é? Só restam mesmo as fortes.

Ainda pensei escrever que achava que assim qualquer idiota perceberia isto, mas estaria a ser demasiado otimista. O Passos, por exemplo, nem assim lá chegaria.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Comentário acerca do comentário

Bolas, que a minha dislexia cada vez está pior.

Peço imensas desculpas, meus amigos. Não era bando; era banco. E não era cleptocracia, era democracia. Uma pessoa pensa uma coisa e os dedos escrevem outra, influenciados sabe-se lá por que eflúvios subversivos vindos ninguém sabe bem de onde.

A verdade é que acho muitíssimo bem que quando eu estive desempregado não tenha tido direito a subsídio de desemprego, afinal ninguém me manda trabalhar sem contrato, a recibos verdes, e sinto-me feliz ao ver que o dinheiro que o estado não teve para ajudar a manter-me à tona de água nessa altura já vai ter agora para evitar que um banco que gere grandes fortunas e as perde no casino das b... ah... no mercado, no mercado, vá à falência. Acho muitissimíssimo bem. É algo que me enche de vontade de cumprir rigorosamente as minhas obrigações fiscais, e principalmente de, chegado o dia das eleições, votar em todos os partidos directamente envolvidos na governação desta terra ao longo dos últimos vinte anos. É uma tragédia que não se possa votar em mais do que um ao mesmo tempo, porque, se pudesse, teriam desde já o meu voto, todos eles, do PS ao CDS passando pelo do meio.

Palavra de disléxico.

Comentário acerca do Bando Privado Português

Ah, que bom que é viver em cleptocracia!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Os milionários pobrezinhos

Não confundir com os pobrezinhos milionários, designação sarcástica que traz consigo logo toda uma carga de desprezo pelos milionários que o são de facto. Não, não é disso que quero falar. Esta é mais uma para o departamento de coisas que não se pode pôr em histórias porque toda a gente acha que se está a esticar a corda da inverisomilhança: milionários pobrezinhos. Mesmo pobrezinhos.

Falo do Zimbabwe, país de muitas bizarrias (a começar pelo presidente), no qual uma crise económica absoluta levou a uma inflação monumental. Consequência: hoje, todos os zimbabueanos são milionários e uma refeição custa quinhentos milhões de dólares. Pois: quinhentos milhões de dólares por um bife com batatas frias, ou o que faz as vezes de bife com batatas fritas lá por aquelas bandas.

Claro que não são dólares daqueles que a gente costuma ouvir falar. São dólares deles, zimbabweanos, a moeda que menos valor tem no mundo inteiro.

Mas seja como for, se um de nós enfiasse numa história uma situação em que se alguém quisesse ir às compras de algo mais substancial teria de sair de casa com maços de notas empilhados num carrinho de mão, totalizando muitos milhões de milhões de dólares, não faltaria certamente quem empinasse o narizinho sabichão e opinasse de imediato algo como "pronto, lá está este com os seus sarcasmos e piadolas. Quando será que há alguém a fazer ficção científica a sério neste país?"

Quando a verdade, a deprimente e divertida verdade, é que há poucas coisas inverosímeis demais para poderem acontecer, pelo menos enquanto não se entra no reino das varinhas de condão. O insólito que acontece quotidianamente neste planeta está constantemente a tentar explicar-nos esse facto, mas nós parecemos ter uma enorme dificuldade em compreendê-lo.

O que não deixa de ter o seu quê de... insólito.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Os pequenos e médios "empresários" que nós temos

Parece que os "pequenos e médios empresários" andam muito chateaditos por causa de um aumento do salário mínimo de 436 para 450 euros por mês, e ameaçam não renovar contratos por causa disso. Para se ver até que ponto chega a canalhice de tal posição, faça-se umas contas.

Um trabalhador que ganhe o salário mínimo depois do aumento passa a custar ao "empresário" (e empresário vai com aspas porque há melhor designação do que essa para esta gentalha) mais 14 euros por mês. 14 reles euros, que ao fim de um ano somam 196, já contando com subsídio de férias e décimo terceiro mês. 196 euros num ano. Tanto dinheiro como aquele que o pequeno e médio "empresário" típico arrecada num dia, ou no máximo em dois.

Que pena que eu tenho deles! Está-se mesmo a ver que o aumento de 14 euros por trabalhador e por mês vai levá-los a todos à falência, não está? Claro que só podem pôr toda a gente na rua. É que não têm mesmo outra hipótese.

Que nojo de gente!...

Edit: Ops... enganei-me num dado de base, o que faz com que todas as contas estejam erradas: o salário mínimo actual não é de 436, mas sim de 426 euros por mês. Ou seja, o aumento seria de 24 euros, ou, ao fim de um ano, 336 euros. Ou 376, contando com os descontos para a segurança social. Sempre é menos insignificante do que parecia à partida. Em vez de um ou dois dias, o pequeno-e-médio-empresário típico tem de esperar três ou quatro para arrecadar esta quantia. Fico na mesma com pena dele.

sábado, 11 de outubro de 2008

Dos estados da matéria financeira

Serei só eu a achar bizarro que um mercado sólido seja aquele que tem muita liquidez?

Faz pensar que tudo isto é capaz de ser um bocado gasoso, não faz?

terça-feira, 18 de julho de 2006

Opelarias

Se bem estão lembrados (partindo do princípio que o caro amigo que está a ler isto neste preciso momento - seja ele, o momento, qual for - é leitor habitual da Lâmpada e não alguém que aqui aterrou por um acaso qualquer), já aqui falei da Opel. Disse umas coisas mais ou menos interessantes, espero. O giro é que muitas desas coisas me chegaram há dias por intermédio de um email assinado por um tal Manuel F. Ribeiro (que eu não conheço, mas é blogueiro) que já faz, parece, parte de uma campanha. Transcrevo-o de seguida na íntegra:

A postura da Opel e o seu abandono das instalações em Portugal, deixando centenas de pessoas no desemprego, é um comportamento inaceitável.

O Governo português vai fazer accionar e muito bem todos os mecanismos legais de modo a sancionar este comportamento e devolver ao Estado Português todos os incentivos recebidos.

Considero que todos devemos apoiar esta medida.

Os portugueses têm dado exemplos magníficos de união como exemplo a movimentação para o Euro e o Mundial.

Aproveitemos esse movimento, façamos uma cadeia para demonstrar a nossa força: façamos correr por todos os nossos contactos esta mensagem:

OS PORTUGUESES NÃO COMPRAM AUTOMÓVEIS OPEL!

Talvez assim, apesar de sermos pequenos no mercado ibérico, motivo pelo qual se mudam para Espanha, sirva de exemplo para esta e outras empresas com estes comportamentos.

Os trabalhadores da Opel e suas famílias precisam da tua ajuda.

sexta-feira, 23 de junho de 2006

O caso da Opel

Verdade, verdadinha, a presença em Portugal da General Motors era estranha. Afinal de contas, quantos Chevrolets, Buicks, Pontiacs, GMCs, Saturns, Hummers, Saabs, Cadillacs, Holdens, Opels ou Vauxhalls se vêm pelas nossas estradas? Poucos, não é verdade?

Seja como for, o que se espera agora é que o número destes carros entre nós tenda a descer a zero. Que nunca mais ninguém os compre. É que a única língua que estas sanguessugas das multinacionais entendem é o dinheiro, portanto o que temos a fazer se não queremos que o país se esvazie por completo é dá-lo a quem investe em nós, e não o entregar nunca a quem recebe subsídios estatais para depois se pôr na alheta à primeira oportunidade(*).

Que se comprem Volkswagens com fartura. Que se comprem outros carros do grupo VW. Que se comprem Audis, Seats, Skodas, Bentleys, Bugattis ou Lamborghinis. Mas que se mande a General Motors em Portugal para um caixote do lixo definitivo.

* E o que se diz do mercado automóvel, pode também dizer-se de todas as áreas industriais que sofrem a tentação da "deslocalização". Falta a Portugal chauvinismo económico.