domingo, 19 de setembro de 2021

Leiturtugas #120

Sintam-se bem-vindos a mais uma semana cheia de Leiturtugas.

Começando, como sempre, pelos participantes oficiais no projeto, temos esta semana dose dupla de Artur Coelho.

O primeiro livro sobre o qual ele opinou é mais uma obra de Altino do Tojal, desta feita o romance O Oráculo de Jamais, numa edição de 1979 da Sá da Costa (que curiosamente está ausente do Bibliowiki, onde consta uma edição do mesmo ano do Círculo de Leitores). É um livro sem nada de FC, pelo que o Artur somaria 5c9s caso não tivesse publicado também uma segunda opinião.

Mas publicou, ainda que também essa opinião se tenha debruçado sobre outro livro sem nada de FC. E pelos vistos com pouco fantástico no geral, apesar do título fantasmagórico. É outro romance, este de F. C. Melim, intitula-se A Cripta, e foi uma edição de 1986 da Europress. Soma assim o Artur 5c10s.

Quanto a oficiosos, também tivemos dois, começando pela Ana Catarina, que publicou um post só com um vídeo, no qual opina, entre outros livros, sobre Prisioneira do Tempo, o romance "outlanderesco" de Patrícia Madeira publicado este ano pela Cultura. De resto, a Ana Catarina já tinha sido descoberta por mim graças a outro post em que fala desse mesmo livro, aqui num vídeo dedicado só a ele e também em texto.

Por seu lado, a Inês Pereira dedicou-se a José Saramago e opinou sobre As Intermitências da Morte, livro de 2005 que ela parece ter lido na edição recente da Porto Editora.

E pela penúltima vez (julgo eu; pode ser antepenúltima), temos também mais alguns resultados da minha revisão da matéria dada.

Temos, por exemplo, a Rosarinho e a sua opinião (mais uma) sobre Segredo Mortal, o tecnothriller de Bruno M. Franco. Edição da Cultura, como já deverão estar fartos de saber.

Temos a Joana, também com uma opinião sobre Segredo Mortal de Bruno M. Franco. Soma e segue.

Temos a Despenteada, com a sua opinião sobre Prisioneira do Tempo, de Patrícia Madeira.

Temos a Rita Costa e a sua opinião sobre Deus Pátria Família, o romance de HA de Hugo Gonçalves, publicado pela Companhia das Letras.

E para terminar, por hoje, temos a opinião de Carlos Fiolhais sobre Os Canibais e Outros Contos, de Álvaro do Carvalhal, um fantástico inclinado para o horror e o bizarro que ele leu numa edição da Livros do Brasil.

Vá. Chega por hoje. Fiquem bem. Para a semana cá nos encontramos.

sábado, 18 de setembro de 2021

Fernão Mendes Pinto: Zeimoto Dá Primeira Espingarda aos Japões

O meu pai passou a vida a recomendar-me livros. Foi ele, de resto, quem me passou para as mãos os primeiros livros de ficção científica, o que o torna responsável por tudo isto, do blogue à vida que vivi até ao ano passado. Mas houve alguns livros que ele me recomendou e eu nunca li, por um motivo ou por outro. Na verdade era inevitável: as recomendações foram muitas e variadas. Mas alguns dos livros em falta são livros que eu sempre tive nos meus planos ler, mas por alguma razão nunca cheguei a transformar os planos em prática. Um desses livros é a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto.

Bem, agora não posso dizer que já tenha lido o livro, mas pelo menos já não está todo por ler. É que este Zeimoto Dá Primeira Espingarda aos Japões é um excerto da Peregrinação, não só sobre o episódio a que o título faz referência, mas também sobre os acontecimentos que a ele levaram.

Não sei é se é representativo da Peregrinação como um todo, o que ajuda a fazer com que o livro do velho Fernão vá continuar nos planos de leitura. Trata-se de um excerto muito focado em acidentes de navegação, em batalhas e em desventuras, escrito em jeito de crónica de sucedidos verdadeiros ainda que por vezes a improbabilidade pareça ser muita, o que suponho que explique o título daquela peça que esteve em cena aqui há uns anos, Fernão, Mentes? Certo é que o que aqui se encontra é uma autêntica montanha-russa de sortes e azares, alianças feitas e desfeitas, diplomacias bem e mal sucedidas, piratarias e tempestades. E no fim, o episódio que dá título ao livro.

Aqui chegado eu, que já tinha lido o relato do primeiro encontro entre japoneses e portugueses visto pelo lado japonês, o qual retrata os nossos bravos lusitanos como um bando de bárbaros fedorentos e sem maneiras (mas com uns paus-de-fazer-fogo muito especiais), não consegui evitar o sorriso com as descrições de Fernão "Mentes" Pinto e a forma como ele apresenta os encontros como cerimónias obsequiosas em que os japoneses se vergam à natural superioridade dos marinheiros portugueses, "emissários d'el-Rei". Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto, sem dúvida, mas cheira-me (sim, é piadola) que existem também aqui diferenças de ponto de vista a influir na história, pois quem está convicto da sua superioridade, mesmo se malcheiroso, facilmente parte do princípio de que os demais a reconhecem tão claramente como ele próprio. O que é com grande frequência uma enorme ilusão.

Foi uma leitura curiosa, embora não rápida, que o português quinhentista tende a ser bastante enovelado, cheio de frases longas e sinuosas. E creio também que não foi uma boa representação do livro de Fernão Mendes Pinto, pois a sua natureza de conjunto de extratos dá-lhe um caráter um tanto ou quanto desconexo que suspeito que a obra completa não terá. Mas foi curiosa, sim, e percebi o fascínio que este livro tem exercido em gerações de leitores. Mesmo com exageros e visões enviesadas... ou talvez também por causa deles.

Este livro foi obtido, em PDF, no site da Biblioteca Digital Camões, aqui. Mas desde a época em que o obtive apareceram outras edições eletrónicas, melhores e relativamente fáceis de encontrar, tanto em PDF como em epub. É só procurar.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Irmãos Grimm: Os Três Passarinhos

Eis outra história que os Irmãos Grimm não parecem ter alterado de todo, pois até inclui alguns apartes típicos da narrativa oral, como opiniões do narrador que se intrometem na história propriamente dita. Quem sabe se por não encontrarem neste Os Três Passarinhos qualidades suficientes para se dedicarem a desenvolvê-lo, uma vez que se trata de uma história muito semelhante a tantas outras, visto fazer uso de uma série de elementos que se encontram muito difundidos nestes contos populares.

Quem conheça a história da Cinderela (e quem não conhece?) vai reencontrar aqui parte dos seus ingredientes. A história tem a ver com três irmãs, uma das quais se casa com o rei de um reino antigo. Essa é a boazinha; já as outras duas são más e invejosas. Invejosas, por exemplo, da fertilidade da irmã boa, pois ambas parecem ser estéreis. Vai daí, raptam-lhe os filhos recém-nascidos e substituem-nos por cães, acabando por convencer o rei de que a mulher só dá à luz monstros, o que tem as consequências que facilmente se adivinham. Mas este não seria um conto de fadas se não houvesse final feliz, e os três passarinhos do título vão ser os veículos desse final.

Em suma, esta é mais uma história com pouco que a distinga de muitas outras. Um banal pinheiro num pinhal.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 12 de setembro de 2021

Leiturtugas #119

E aqui começa mais um post longo, devido ainda à minha ronda pelas obras de que se falou neste ano de Leiturtugas e a todas as opiniões (e publicações) adicionais que essa ronda me levou a conhecer.

Mas não só devido a isso, claro, pois também tivemos esta semana o fluxo habitual de opiniões, vindas dos participantes oficiais neste projeto e também dos oficiosos.

Entre os primeiros tivemos mais uma vez uma opinião do Artur Coelho sobre mais um livro sem nenhuma FC e provavelmente também sem qualquer fantástico: Relação do Reino do Congo e das Terras Circunvizinhas. Trata-se de um livro de autoria dupla, fruto do labor de Filippo Pigafetta, matemático e explorador italiano do século XVI, e ao ler isto estarão decerto a perguntar aos vossos botões o que raio tem este livro a ver com leituras tugas. Mas tem, porque falta o outro autor, o navegador português Duarte Lopes, que tinha narrado a Pigafetta as suas viagens pelo Congo e o que lá encontrou. Sem FC, o Artur passa a 5c8s.

Quanto aos segundos, tivemos uma opinião da Marta sobre um livro de Célia Fernandes publicado pela Chiado em julho último, que parece ser um conto de fantasia infantojuvenil de fundo ecológico. O título é Terra Azul.

E também em maré infantil, tivemos a opinião da Anabela Risso sobre Greve, um livro de Catarina Sobral que imagina uma greve dos sinais de pontuação, publicado em 2019 pela Orfeu Negro. Zero de FC, tal como no anterior.

Por fim, há ainda uma lista razoável de material encontrado nas minhas pesquisas. Razoável ao ponto, na verdade, para ainda não ficar despachada hoje. Mas algum desse material vai ficar.

Vai ficar, por exemplo, a opinião da Manuela Santos sobre Segredo Mortal, o tecnothriller de Bruno M. Franco que tantas opiniões rendeu. Já sabem como é: edição da Cultura e com FC.

Igualmente fica a opinião da Cris, também sobre Segredo Mortal. Bruno M. Franco soma e segue.

E o Bruno M. Franco continua a somar e a seguir com a opinião da Inês, também sobre Segredo Mortal.

Para variar, fica também a opinião da Despenteada sobre O Livro Sagrado da Factologia, de Rui Zink, outro livro que não é de FC mas tem lá alguma, este publicado pela Teodolito em 2017.

A rematar a semana, para isto não ficar demasiado extenso, fica a opinião do Paulo Serra sobre Palavra do Senhor, o romance fantástico de fundo cristão que Ana Bárbara Pedrosa publicou este ano na Bertrand.

Irmãos Grimm: O Velho Hildebrando

Mais um conto sem nada de fantástico, este O Velho Hildebrando, a menos que se ache que um homem enfiar-se num cesto de ovos e ser carregado por outro é coisa mágica (e eu não acho, que há cestos de ovos bem grandes e há homens pequeninos e leves). Trata-se de um conto maroto, até com o seu quê de anticlerical, mostrando que os contos beatos que os Irmãos Grimm incluíram no livro não são necessariamente resultado das suas ideias religiosas.

A história é a do velho Hildebrando, homem bom mas crédulo, cuja mulher anda com vontade de o presentear com uma valente parelha de cornos. Com quem? Com o padre, vejam só, e ainda por cima o sacana do padreco está pelos ajustes, pelo que os dois se combinam para que ela se faça de doente e ele declare no sermão que um homem tem a obrigação de partir em busca de cura para quaisquer familiares doentes, nem que seja para bem longe. E o velho Hildebrando cai como um patinho. E lá vai ele.

A sorte é encontrar pelo caminho um amigo, que lhe explica o que se passa e lhe sugere uma artimanha para que o veja com os seus olhos. E lá acaba a história em bem, com o bom vingado e os maus punidos. Que entre os maus se conte aqui um padre é detalhe. Detalhe curioso, mas detalhe.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Irmãos Grimm: A Filha Esperta do Camponês

E eis que, após uma série de contos bastante parecidos uns com os outros, temos nesta coletânea dos Irmãos Grimm um conto completamente diferente. Para começar é puramente realista, ou quase, nada (ou quase) tendo de fantástico. Depois, não é uma história de trabalhos mais ou menos hercúleos com muitos feitiços à mistura mas sim uma pequena farsa, ainda que o prémio final seja basicamente o mesmo: um casamento real.

Como o título de A Filha Esperta do Camponês indica, trata-se da história de uma rapariga camponesa que, por meio de inteligência e astúcia, consegue subir na vida até ao topo da hierarquia. O que esta história tem de mais curioso, ou até surpreendente, é afastar-se decididamente do arquétipo da jovem mais ou menos incapaz, vítima de maldades várias, quer sejam feitiços ou simples maldade humana, à espera que algum candidato a cavaleiro andante a venha salvar. Esta camponesa não: arregaça as mangas e trata de fazer ela própria o que é preciso, e sem que para isso tenha de atropelar muita gente.

Quê?, perguntarão com maior ou menor espanto. Um conto feminista no livro dos manos Grimm? Sim, parece ser isso mesmo o que aqui temos.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 5 de setembro de 2021

Leiturtugas #118

Olá, olá, a todos os que querem saber de que andaram as pessoas que leem livros portugueses de FC e fantástico a falar esta semana. Sim, o nome da coisa é Leiturtugas, e a lista vem já a seguir.

E nesta primeira semana pós agosto temos de tudo: oficiais, oficiosos e publicações atrasadas dos encontrados de fresco. Por esta ordem, o que nos chegou dos participantes oficiais foi:

Um livro de contos de Altino do Tojal, lido e comentado pelo Artur Coelho. Orvalho do Oriente é uma edição já razoavelmente antiga (1981), da Sá da Costa, e não mostra nenhum sinal de FC. O Artur passa assim a 5c7s.

Entre os oficiosos temos a Maria João Covas, que publicou um vídeo em que fala do conto Hospital Einstein, autoeditado por Rui Pinto Ferreira via Amazon. Este é FC.

E depois há carradas de material mais antigo. Esta semana encerrei as buscas, mas o que encontrei vai dar para várias notas destas.

Por exemplo, temos a Ana Rute Primo a opinar sobre Segredo Mortal, o tecnothriller de Bruno M. Franco que já fez várias aparições por aqui. Edição da Cultura, e sim, tem FC.

Temos também a "Despenteada", que opina igualmente sobre Segredo Mortal de Bruno M. Franco.

Também encontrei a opinião da Karina Padilha sobre A Rainha Desejada, o tal romance autoeditado por Telma Monteiro Fernandes que faz lembrar Outlander. Continua a contar como com FC.

E descobri também outra opinião da Liliana Raquel sobre outro livro de Andreia Ramos. Intitulado A Defensora do Oculto, é outro romance de fantasia publicado pela Chiado.

Que mais? Bem, temos a opinião da Silvana sobre Encontro em Itália, um romance de fantasia de Liliana Lavado publicado pela Marcador.

E temos também a opinião da anónima que escreve os Livros de Vidro (como tenho de lhe chamar alguma coisa, por uns quinhentos cá meus, vou chamar-lhe "anónima de vidro") sobre O Deus das Moscas Tem Fome, o livro de contos de fantasia pulp de Luís Corte Real publicado pela Saída de Emergência.

E aiinda há mais, mas por esta semana chega, que isto já vai outra vez bastante longo. Até domingo.

Escrita de agosto


E eis que a pausa acabou. Três meses depois, estou outra vez a escrever ficção.

Não muita ainda, é certo, que tenho andado a fazer primordialmente outras coisas, parte do mês foi ainda passado nas revisões de que tinha aqui falado na última destas notas e ao retomar o romance lembrei-me do motivo porque o tinha interrompido (tinha chegado a um ponto de onde não sabia bem como sair, basicamente), pelo que tive de pensar bem no rumo que queria dar à história para a levar para onde tem de ir antes de pôr as mãos na massa, mas sim, a pausa acabou.

O saldo, curto, é de oito páginas. Cerca de 2500 palavras. Mesmo assim ultrapassa de longe os três meses anteriores, somados. Mas em setembro já deverá ser bastante maior, e tenderá a crescer mais à medida que eu vá recuperando o ritmo... é o que costuma acontecer, pelo menos.

Sim, que há sempre a possibilidade de atingir outra parede e ter de arranjar maneira de a contornar ou deitar abaixo. Para já não me parece que vá acontecer, mas nunca se sabe. Isto de criar não é propriamente ligar um interruptor e já está. É coisa sinuosa e muitas vezes muito indireta. Mas faz-se. Com tempo.

Enfim, no fim de setembro já saberei como foi e logo vos digo. Até lá.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Irmãos Grimm: O Corvo

Mais um conto dos Irmãos Grimm, e muitas das reflexões que o anterior me tinha causado podiam perfeitamente ter sido causadas por este. Há muito de semelhante entre os dois, uma vez que este O Corvo é outra história carregadinha de magia na qual o protagonista terá que desfazer feitiços para conquistar a mão de uma princesa. E para isso, claro, tem de ter fé na verdade do que lhe dizem sobre os feitiços e sobre a forma de os quebrar.

Mas este conto é mais interessante que o anterior. Sim, continua a ser algo desconexo, o que pode indicar ter sido feito, pelo menos em parte, de pedaços retirados de outras histórias, algo que é muito comum na literatura popular, mas há nele algum conteúdo que ultrapassa a mera fé ingénua nos caminhos da magia ou aquele velhíssimo tropo do valor da persistência (o que não deixa de ter o seu interesse sociológico, reconheça-se). Há por exemplo um alerta sobre o poder que podem ter os desabafos impensados, e há também o seu quê de farsa que se por um lado contribui para a sensação de desconexão, uma vez que está basicamente limitada a uma cena em que três (claro que tinham de ser três) ladrões andam à pancada, por outro até o torna razoavelmente divertido.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Publicar? Sim. Mas a qualquer custo, não.


Há pessoas para as quais escrever só faz sentido se o que é escrito for publicado. Não tenho nada contra, mas não sou assim. Para mim, escrever é coisa pessoal, que acontece porque há histórias a querer sair. Depois de elas saírem, publicar é coisa que pode acontecer ou não. Se é certo que o escrito quer ser lido, normalmente, não é menos certo que quando o que nos move é o ato de escrever propriamente dito a leitura por outros é apenas um sucedâneo razoavelmente desimportante. E a gaveta transforma-se num reservatório de histórias de que nos livrámos.

Isto, de um modo geral. Há casos particulares em que as coisas mudam de figura. Quando aparece um convite para participar de alguma publicação, por exemplo, ou quando há um prémio a dar dinheiro, esse dinheiro faz falta e se tem alguma ideia que parece adequada. Ou quando se quer levar um projeto avante. Quando resolvi pôr em prática o Infinitamente Improvável, por exemplo, escrevi para o II algumas histórias que de outra forma nunca teria escrito. Olhando agora a minha produção, recente e antiga, calculo que esse tipo de escrita feita para publicação ande no máximo por cerca de um sétimo ou um oitavo de tudo o que escrevi, embora a percentagem seja bastante mais elevada quando se contar só o que publiquei (em número, pelo menos; em extensão nem tanto, que o Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, o único romance que publiquei até hoje, foi escrito para me divertir e só para isso) e também quando se contam só as coisas que tenho completas. Na gaveta quase não tenho coisas escritas para publicar e, por outro lado, há lá muita coisa incompleta.

(Querem números? OK, tomem lá uns quantos. O Bibliowiki, que só lista coisas publicadas, evidentemente, mas talvez não liste todas as coisas publicadas, lista cerca de 50 títulos em meu nome; uma consulta à minha gaveta eletrónica dá mais de 220, dos quais uns 40 estão por completar. Todos estes números incluem coisas dos mais variados tamanhos, do miniconto ao romance.)

Na publicação também pode haver um certo elemento de ativismo. Algumas das coisas que publiquei só viram a luz do dia porque achei que se estava a escrever e publicar pouca FC em Portugal. Manter a chama viva e essa conversa toda. E continua a escrever-se e publicar-se pouca FC em Portugal, embora não tão pouca como há algum tempo, o que reduz o estímulo para pôr cá fora coisas minhas. Outro do material que publiquei só saiu porque me apeteceu explorar formas alternativas de edição; toda a experiência Infinitamente Improvável foi isso mesmo desde o início e Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, o romance, também: Foi primeiro serializado num blogue, só saindo em livro, revisto, anos mais tarde (e só saiu em papel porque quis aprender sobre paginação, criação de capas, as minudências dos ISBNs e depósitos legais, etc.). O certo é que sem esses incentivos aqueles 50 títulos seriam significativamente menos. Porque publicar é para mim sempre coisa secundária. E por isso, aquelas coisas de que me veem aqui a falar uma vez por mês tendem a ficar engavetadas durante períodos longos. Ou indefinidamente.

Quem perde se for indefinidamente? Eu, com toda a franqueza, não perco grande coisa. As coisas estão escritas, pelo que me livrei delas, já não me andam às voltas na cabeça. Ainda se se ganhasse algum dinheiro que se visse com a publicação de livros, talvez perdesse, mas neste país isso é utopia bastante utópica. Perde o punhado de pessoas que gostam do que eu escrevo e as outras que também gostariam se conhecessem... mas estas perdem sem saber que perdem, pelo que no fim de contas talvez não percam coisa alguma, e aquelas... bem... aquelas ainda vão sendo um dos poucos incentivos que tenho para tentar publicar. E uma das razões para estar aqui agora a escrever isto. Porque imagino que para essas pessoas, por poucas que sejam, acaba por ser insatisfatório virem aqui um mês atrás de outro ler um postzito sobre o que ando a escrever e depois não encontrarem nenhuma informação sobre eventuais publicações.

Outra razão para estar aqui agora a escrever isto, e a principal, é ter tomado uma decisão.

Talvez saibam (e talvez não saibam) que tenho dois livros em análise por duas editoras diferentes. Podem vir a ser aceites para publicação, mas o mais provável é, desde o início, que não o sejam. Por motivos diferentes (afinal, os livros são diferentes) e também por um forte motivo comum: o ano em que estamos é provavelmente o pior ano possível para apresentar originais a editoras, sejam elas quais forem. Está tudo em retração total. E sim, ainda está: muitas das edições recentes são edições que já estava previsto fazer antes da pandemia ou nos seus primeiros meses, pelo que a abertura para coisas novas é baixa, quando não é inexistente. Mas como foi no ano passado que os livros ficaram prontos, é este ano que andam por aí.

O que não sabem de certeza é que eu tenho regras bastante estritas para apresentar coisas a editoras. Para começar, não faço submissões múltiplas. Enquanto um livro está na editora xis só está na editora xis, mesmo quando elas me deixam à vontade para o apresentar a outras. E não apresento os livros a qualquer sítio. Vanities, por exemplo, nunca, mesmo que a Chiado por vezes me tente um bocadinho com aquela coisa de publicar ao mesmo tempo no Brasil e em Portugal. Mas é uma tentação muito insuficiente para compensar o resto. E também não apresento nada a quem não dê mostras de me respeitar as opções ortográficas. Tudo isto (e mais umas coisas) precisamente porque não há pressa e não há realmente necessidade de publicar. Sem pressa e sem necessidade não me sujeito a qualquer coisa, como vejo tantos escrevinhadores como eu fazer por aí.

O que eu ainda não tinha decidido, e decidi agora, é os prazos. OK, só apresento o livro xis à editora ípsilon, mas durante quanto tempo lá fica? Não indefinidamente, com certeza, e indefinidamente seria uma possibilidade real, com o tempo que tipicamente demoram a dar uma resposta. Andei a pensar nisto durante o último mês e picos e finalmente resolvi que este ano, excecionalmente, será um ano. De 2022 em diante será seis meses. Findo esse prazo, mandarei o livro a outra editora e será dessa outra editora o exclusivo. Se entretanto a primeira editora resolver que quer publicá-lo, terá de esperar que a segunda diga de sua justiça, ou que o prazo a ela dado termine, para podermos conversar.

E se eu entretanto ficar com pressa, ou se o projeto for demasiado pessoal para o estar a apresentar a editoras, ou se não gostar das condições que me propuserem, ou se, como explico nesta série, o livro for de contos (se bem que o estigma pareça estar a ficar menos intenso, o que me pode levar no futuro a reavaliar as minhas opções relativas a contos), publico-o simplesmente eu. Quem gosta do que eu escrevo não terá grande dificuldade em encontrá-lo, que a internet é nossa amiga. Aumenta a dificuldade de chegar aos que não conhecem e poderiam gostar, mas não é intransponível, pelo menos em parte. E tudo talvez se concretize mais depressa.

Portanto já sabem. As tais notas mensais não existem num vácuo. Vão acontecendo coisas por trás delas. Devagarinho, muito devagarinho, mas sim. E vai haver novidades mais concretas, mais tarde ou mais cedo. Provavelmente mais tarde que mais cedo, mas seja como for é só questão de uma coisa: tempo.

Irmãos Grimm: O Rei da Montanha Dourada

Há sempre a tentação de pegar na literatura, mesmo na pré-literatura das histórias de transmissão oral, e tentar transpô-la para a vida real, como se estas histórias contivessem ensinamentos fundamentais para a vida do ser humano. Por um lado percebo a tentação; afinal, é assim que aprendemos, através das narrativas que os nossos pais, professores ou outras pessoas próximas nos transmitem sobre o funcionamento do mundo. Por outro causa-me uma certa espécie que tanta gente encare a ficção que o é assumidamente como algo mais que isso mesmo: ficção. Histórias.

Isso vem-me às ideias em especial quando leio histórias como esta que os Irmãos Grimm não parecem ter alterado muito. É que O Rei da Montanha Dourada é daqueles contos nos quais o herói vai ter de suportar provações impensáveis, incluindo a decapitação, para alcançar o seu objetivo: a libertação de uma princesa de um feitiço que a mantém aprisionada. E eu fico a pensar de onde terá vindo esta ideia de que se aguentarmos um sofrimento extremo iremos acabar por alcançar todos os nossos objetivos porque os feitiços se quebram ou porque um deus qualquer se condói ou respeita o valor demonstrado.

É que o mito do sacrifício por um bem mágico superior parece estar disseminado por todo o planeta, ainda por cima. Sim, é fulcral na mitologia cristã ou, na verdade, em todas as mitologias abraâmicas (com resultados particularmente grotescos, muitas vezes, como a ideia de que ao se fazerem explodir os militantes islâmicos vão para um céu beatífico repleto de odaliscas virgens), mas não se restringe a elas, longe disso. Desconfio que é muito anterior, pela disseminação e pela multiplicidade de formas que assume.

É neste tipo de coisas que eu fico por vezes a pensar depois de ler estar histórias dos Grimm. Não nas histórias em si, que muitas vezes (e é o caso) nem são particularmente interessantes, mas naquilo que pode estar por trás delas. Na evolução das ideias que vieram desembocar nelas. E naquelas que a sua cristalização na palavra escrita pode ter ajudado a gerar.

As conclusões a que chego, quando chego a algumas (não é frequente, diga-se), nem sempre são bonitas.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 29 de agosto de 2021

Leiturtugas #117

E cá estamos outra vez para falar mais um pouco de Leiturtugas, em mais uma semana de leituras abundantes e também com pelo menos uma novidade no que toca a obras e várias no que toca a blogues e outras fontes.

E isto apesar de só ter havido uma opinião vinda de um participante oficial no projeto: a Carla Ribeiro, que leu e comentou o conto de Mónica Cunha publicado no ano passado pela Imaginauta e pelo The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction, Projecto: MOTHER. Este é livro de FC, e a Carla passa a sinalefar 3c9s.

Mas houve abundância de oficiosos.

Pois esta semana tivemos direito a saber a opinião do Luís Pinto sobre a coletânea O Deus das Moscas Tem Fome, de Luís Corte Real. Como é sabido, esta edição da Saída de Emergência, deste ano, não tem FC.

Também conhecemos a opinião da Diana sobre o romance Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, de Afonso Cruz, publicado pela Alfaguara em 2013 e que também parece não ter FC.

E ficámos ainda ao corrente da opinião da Inês Santos sobre A Anos Luz, o romance de Carmen Garcia, com FC, publicado há quase dois anos pela Ego.

Por fim, mas não por fim-fim, tivemos também a opinião da Liliana Raquel sobre um romance de fantasia publicado no fim do ano passado pela Chiado, que ao que parece é primeiro volume de uma série: A Descendente: o Despertar, de Clara Novo.

E terminaríamos aqui? Ah, mas é que eu continuo a ir revisitar o passado. E tenho encontrado blogues novos com fartura, embora muitos deles se dediquem a falar das mesmas obras de que outros já falaram. Certo, isso é em parte consequência da forma que achei para os encontrar, mas não creio que seja só isso. Exemplos?

Bem, há o caso da Elga que opinou sobre um livro que já aqui tinha aparecido na semana passada: Zalatune, de Nuno Gomes Garcia. Esta FC publicada pela Presença levou-me a descobrir o blogue dela.

E há também o caso da Sandra, que opinou sobre outro livro já aparecido na semana passada: Segredo Mortal, o thriller de Bruno M. Franco. Este romance com umas pitadas de FC saiu pela Cultura.

Por outro lado, também há quem fale de livros novos, pelo menos no contexto desta busca. É o caso do Nuno Mata, que opinou sobre Mors-Amor, romance de fantasia em edição da autora, Sónia Ferreira. Sem FC.

Ou do Armando Frazão, que opinou sobre O Despertar do Nefilim, outro romance de fantasia (versão dark), ou talvez de horror, que David Costa publicou pela Cordel d'Prata. Também sem FC.

Por sua vez, a Marta opinou sobre A Rainha Desejada, o romance "outlanderesco" autoeditado por Telma Monteiro Fernandes. Este envolve viagens no tempo, pelo que tem umas pitadas de FC.

Para terminar a semana, que isto já vai muito longo, temos a Fátima Costa e a sua opinião sobre uma coletânea autoeditada por Rute Simões Ribeiro. Intitula-se A Revolução dos Homens Sentados, foi publicada há um ano e picos, e parece conter algum fantástico.

E para a semana há mais, que ainda tenho aqui uma porção de coisas para divulgar. Haja tempo para escrever o post. Até lá.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Água Viva

Seria possível em Portugal a existência de uma revista de discentes de um programa de pós-graduação em literatura que dedicasse um número inteiro ao fantástico na aceção lata do termo (i.e., não ao fantástico enquanto género literário mas enquanto rede que engloba os vários géneros a que eu às vezes gosto de chamar literaturas do imaginário)? Talvez fosse, se dinamizada por alguma das poucas pessoas que, na nossa Academia, têm mostrado interesse por essas literaturas. Mas duvido, e apresento como testemunha da minha dúvida a inexistência — que eu saiba — de tal coisa até ao momento.

Quanto ao Brasil não é preciso perder tempo com dúvidas. Existe. Existe, chama-se Água Viva e pode ser encontrada na internet, aqui. Isto, quanto à revista. Quanto ao número dedicado ao fantástico, ele também está online, aqui.

E encontram lá o meu nome. Não enquanto autor de artigo, mas enquanto gajo com opiniões.

Eu explico.

Aqui há alguns meses fui contactado pelo Rubens Angelo (o autor do artigo), dizendo que estava a pensar expandir um artigo anterior do Luiz Bras, focado nos erros comummente cometidos pelos principiantes na escrita de FC, agregando mais opiniões sobre erros cometidos e generalizando, isto é, sem os restringir necessariamente aos principiantes. Achei a ideia interessante e, como até tenho falado desse tipo de problema em algumas das opiniões que vou deixando por aqui, também achei que poderia ter algo a dizer. Vai daí, disse.

Tentei não ser óbvio. Isto é, tentei não repetir o que toda a gente diz, por mais verdadeiras que muitas vezes sejam essas queixas (e nem sempre são). Não consegui por completo. No mínimo, não consegui tão bem como o Luís Filipe Silva. E também não percebi que a minha participação ia ser publicada ipsis verbis (julguei que o Rubens fosse pegar nos pontos de cada um e fazer uma síntese), pelo que não me preocupei em aprimorar o texto. Há ali frases demasiado longas que podiam e deviam ter sido encurtadas para tornar mais clara a leitura. Mas não estou insatisfeito com o resultado. Não muito, pelo menos (um tipo que faz coisas e não está sempre pelo menos um pouco insatisfeito com aquilo que faz nunca será capaz de progredir).

Se tiverem interesse, o artigo está aqui. E sim, Candeias à parte é bastante interessante.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

José Viale Moutinho: Aquela Cativa que me Tem Cativo?

Não podia continuar, não é? Não podia gostar mais dos contos do José Viale Moutinho a cada um que lia. Alguma vez teria de gostar menos de um conto novo do que do anterior. Calhou ser com este Aquela Cativa que me Tem Cativo?, e sim, o ponto de interrogação faz parte do título, não é uma dúvida que eu tenha.

Despacho a abrir uma coisa óbvia para qualquer pessoa que leia a primeira página deste conto: está muitíssimo bem escrito, numa prosa poética de grande qualidade, que evita cair nas lagoas de púrpura em que este tipo de texto arrisca sempre mergulhar (não perceberam? Procurem na net por "purple prose"). Não é, portanto, por aí que chega o meu menor agrado. Ou por outra, não é sobretudo por aí, pois não costumo ser grande fã de prosas poéticas, ainda que haja algumas exceções de obras escritas dessa forma que me agradam muito.

Nem será propriamente pela história, ainda que também esta não seja das que mais tende a agradar-me: uma história de amor e desejo, contada (muito bem, sublinhe-se) de um jeito sinuoso, na qual o fantástico se insinua, forte e onírico, com mais que um pouco de fantasmagoria a trazer-lhe aquilo que para mim, normalmente, é um interesse acrescido.

Será talvez pela forma como estas partes se conjugam. Há algo de comum entre a literatura e a gastronomia. Por vezes acontece que a conjugação de partes parcialmente desagradáveis para o leitor xis serve para esconder o que nelas existe de desagradável, formando um todo bastante mais agradável do que as partes poderiam fazer supor. Mas por vezes sucede o contrário: a junção das partes como que intensifica aquilo que não agrada. Para mim, esta história de José Viale Moutinho é das que intensificam o que não me agrada. Não que me tenha desagradado, mas agradou-me significativamente menos do que seria previsível sendo cada parte o que é.

Seja como for, o conto é bastante bom. No fundo, mais do que as impressões subjetivas de um Fulano leitor, é isso o que conta.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 22 de agosto de 2021

Irmãos Grimm: O Gnomo

É sabido e reconhecido que muitos contos tradicionais foram trabalhados por uma miríade de escritores que os transformaram em obras mais extensas, muitas vezes muito diferentes do material que lhes deu origem, ainda que seja comum encontrá-lo nelas ainda bastante reconhecível. Não é assim de estranhar que ao ler estas histórias dos Irmãos Grimm (ou simplesmente recolhidas por eles) nos lembremos desta história ou daquela, de Fulano ou Beltrano, mesmo quando a fantasia moderna nem é propriamente o nosso género preferido. Mas por vezes também acontece encontrarmos uma história que daria para ser desenvolvida e, que saibamos, não foi.

O que, é bom reconhecer logo à partida, pode perfeitamente dever-se mais a desconhecimento do que à realidade do que existe. Pois o que existe é vasto e multifacetado ao ponto de se tornar incognoscível seja por quem for. E eu que o diga, que quando comecei o Bibliowiki pensava acabá-lo com algumas centenas de títulos e neste momento tem para cima de 16 mil e milhares de títulos em falta (OK, o âmbito do site era de início muito mais restrito do que é hoje: edições portuguesas de ficção científica. Mas mesmo assim...).

Pois este O Gnomo é uma historiazinha complicada que mete um rei rico com três (claro!) filhas e um peculiar gosto por uma certa macieira em cujas maçãs ninguém pode tocar, filhas desobedientes e por isso punidas, desaparecendo, um tal João que vai tentar encontrá-las e eventualmente libertá-las, embora infelizmente tivesse irmãos, um gnomo que depois de levar uma surra indica aos candidatos a heróis onde estão as princesas, uma série de dragões multicefálicos e coisas que é preciso fazer em rigos e sequência para quebrar feitiços. Assim descrito, o conto parece uma grande salada, e de certa forma até é, mas não deixa de ter a sua coerência, bem como pano para muitas mangas que, que eu saiba, nunca ninguém desenvolveu.

Esta é das tais histórias que são interessantes mais pelo potencial que têm do que propriamente pela parte desse potencial que está concretizada.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas #116

Ora vivam e sejam bem aparecidos em mais uma semana cheia de leituras fantásticas portuguesas, Leiturtugas para os amigos. E esta semana voltámos a ter participações oficiais, o que já não acontecia há algum tempo.

Refiro-me à opinião que a Cristina Alves publicou sobre um lançamento muitíssimo recente, o romance Futuro, de Lívia Borges, uma FC que parece ser bastante soft e foi publicada pela Divergência no mês passado. A Cristina passa, assim, a 5c7s.

E refiro-me também à opinião da Tita, muito breve em texto e mais desenvolvida em vídeo, sobre Hospital Einstein, um conto de FC de Rui Pinto Ferreira autopublicado pelo autor via Amazon. A Tita já cumpriu os mínimos; já está no lucro.

No que toca a oficiosos, tivemos esta semana a opinião da Fátima Costa sobre Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, romance de Afonso Cruz publicado em 2013 pela Alfaguara, um livro cheio de fantástico que pode até ter umas pitadas de FC ainda que, sem certezas, vou pô-lo na coluna dos "sem".

Também a Anabela Risso publicou esta semana uma breve opinião. O alvo dessa opinião foi um livro infantil, uma fábula, com o complicado (e comprido) título de Histórias de (En)Contar de um Lobo Que Não Gostava de Matemática. Escrito por Maria Francisca Macedo, foi publicado pela Fábula (apropriadamente) em 2020. Népia de FC, claro.

Tivemos ainda a opinião do Nuno Ferreira sobre Caim, o romance de José Saramago publicado originalmente, na Caminho, em 2009, embora o Nuno pareça ter lido uma das edições recentes da Porto Editora. Também nada de FC por aqui.

E termina a lista de leituras da semana a opinião, em vídeo (mas o vídeo foi publicado num blogue, o que facilita sobremaneira que a malta o encontre... e sim, isto é uma dica aos booktubers que possam vir a ler isto), da Maria João Covas sobre Deus Pátria Família, o livro com história alternativa de Hugo Gonçalves que já apareceu várias vezes por aqui. Edição deste ano da Companhia das Letras e este, finalmente, tem mesmo FC.

Mas tenho continuado a passar em revista o que poderá ter sido publicado fora do universo conhecido sobre as obras comentadas desde o princípio do ano no universo conhecido, e tenho encontrado, muitas, muitas, MUITAS coisas. O blogue da Maria João Covas, por exemplo. É o que dá investigar o desconhecido: passa-se a conhecer mais. A lista é extensa, só mostra sinais de se estender mais, mas como o post de hoje já vai muito longo só vou incluir aqui cinco das opiniões que tenho encontrado.

A primeira: a opinião da Marina Daniela sobre o romance de Bruno M. Franco, Segredo Mortal. Edição da Cultura com FC.

Segue a opinião da Ana Rute Primo sobre Zalatune, de Nuno Gomes Garcia, que também já cá tivemos várias vezes. Este é FC e saiu pela Presença.

A terceira é a opinião de alguém que assina simplesmente como Toupeira sobre A Rapariga Invisível, a fantasia de Carlos M. Queirós publicada no ano passado pela Cultura. Nada de FC por aqui.

A quarta é uma opinião da Sofia sobre mais um livro do José Saramago, desta feita O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Também este romance saiu originalmente pela Caminho (em 1991) mas parece ter sido lido numa das edições recentes da Porto Editora. Nada de FC.

E encerro a semana com a opinião de Mário Rufino sobre Tropel, de Manuel Jorge Marmelo, outra edição da Porto Editora, esta do ano passado. Aqui há FC. Alguma.

Ufa. Isto saiu grande. E para a semana há mais. Até lá.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Luís Filipe Silva: A Ascensão

Mais extenso que A Queda, atingindo o tamanho de novela, A Ascensão (bibliografia) é uma espécie de imagem no espelho da primeira noveleta, o que de resto já se entrevê nos títulos. Se Barreiros situa a sua ação no anel circunplanetário, Luís Filipe Silva situa a sua (pelo menos de início) na superfície da Terra, apresentando ao leitor os efeitos que a chegada dos alienígenas teve na vida quotidiana. Mr. Lux não deixa de aparecer, mas o protagonista aqui é outro. Uma personagem muito barreiriana, com perdão do neologismo mal enjorcado. Um professor que detesta a profissão, achando-a inútil pois os putos nunca aprendem. Pastor de seu nome. Pastor de estranhas ovelhas. E porque não?

Pois o bom do Pastor vê-se na posse de um dos objetos pertencentes ao Mr. Lux, por vias travessas e porque uma das naves do Anel foi derrubada anos antes e se despenhou no Altântico, aparentemente ao largo de Portugal, o que terá levado toda a fauna que sobrevive da recuperação e revenda de tecnologia alienígena a tratar de ir lá buscar tudo aquilo a que conseguisse deitar as mãos (ou tentáculos, ou tenazes, ou o que seja). Que nave? A nave da espécie de ETs que decidiu contratar o assalto ao Mr. Lux e foi punida por isso. E que objeto? Uma simples caixa. Mas uma caixa que vai causar ao Pastor um nunca acabar de problemas.

É que algumas das menos benévolas criaturas da Terra e arredores andam a tentar encontrá-la. Incluindo o Mr. Lux, claro, que todos aqueles anos depois ainda não desistira de tentar recuperar o que lhe pertence. E o Pastor é só um professor. Mas é um professor que teve um vislumbre da tecnologia avançada que a caixa contém, o que o alterou de formas que nem suspeita e lhe deu capacidades de que começa a suspeitar.

O resultado é outro texto movimentado e complexo, diferente do primeiro texto do livro mas muito semelhante a ele, com menos referencialismo que o primeiro mas sem deixar de o ter, e, de uma forma geral, igualmente bom.

Conto anterior deste livro:

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Irmãos Grimm: O Jovem Gigante

Os Irmãos Grimm não o referem na nota que, como é hábito, agregam a este conto e na qual enumeram as ligações que encontram entre ele e outras histórias, tanto as presentes nesta compilação como as que constam de outras, mas parece-me que há qualquer coisa de Hércules neste O Jovem Gigante.

Porquê?

Porque tudo gira em volta da força física do protagonista.

Mas o conto começa por fazer lembrar O Pequeno Polegar (ou O Polegarzinho): o protagonista é tão pequenino que não ultrapassa o tamanho de um polegar, mas tudo muda quando é levado por um gigante, que lhe dá de mamar. Sim, parece que os gigantes produzem leite. E leite extraordinário, que com ele o protagonista vai-se lentamente transformando também num gigante.

E depois parte pelo mundo, em busca de aventuras, a cometer feitos de força extraordinária e a sobreviver assim, sem nunca deixar de se vingar de todos os que o desfeiteiam. E ainda são alguns os insensatos o suficiente para fazer tal coisa.

Não é uma história particularmente interessante, a meu ver, até porque termina sem terminar, abandonando simplesmente o protagonista em viagem de um lugar para outro. Mas tem pelo menos o interesse de funcionar um pouco como história de super-heróis, no que de resto não está sozinha. Os criadores do género de super-heróis inspiraram-se assumidamente em histórias como esta e nas mitologias de vários povos, e é sempre curioso encontrar nestas histórias dos Grimm algumas das raízes de uma série de outras coisas.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas #115

Ora vivam e sejam bem-vindos a mais uma semana de Leiturtugas. Ainda pensei passar a semana em branco, que ninguém publicou nada relevante na última semana, mas como continuo em maré de revisão da matéria dada (i.e., à pesca de novos blogues que tenham falado sobre as obras de que os já conhecidos falaram desde o início do ano), resolvi publicar o post mesmo assim. Com um dia de atraso, mas cá está ele.

Começo pela Liliana Raquel e pela sua opinião sobre Segredo Mortal, o thriller de Bruno M. Franco, com elementos de FC, que já cá tinha aparecido na semana passada. Edição da Cultura.

Por seu lado, a Marisa Luna opinou sobre Felicidade, um romance de João Tordo que tem bastantes elementos fantásticos. Edição da Companhia das Letras.

Já a Fátima Costa escreveu sobre A Alegria de Ser Miserável, um romance de Rute Simões Ribeiro, publicado pela própria, sobre um jovem incapaz de sentir tristeza. Parece ser realismo mágico bastante assumido.

E porque isto não se faz só de blogues, descobri também que em abril a Cláudia Sérgio publicou na Activa uma opinião sobre Zalatune, o romance de FC de Nuno Gomes Garcia que a Presença publicou.

E graças à Rita Lima e ao que ela escreveu sobre Autobiografia, descobri que este romance que José Luís Peixoto fez publicar pela Quetzal também tem elementos fantásticos. Sempre desconfiei que eles deviam existir, sendo o tema saramaguiano em vários sentidos, mas só agora tive certeza.

E olhem, sabem que mais? Por hoje fico por aqui. Ainda havia mais algumas coisas a divulgar mas vão ficar para a semana. Até lá.

domingo, 15 de agosto de 2021

José António Gonçalves: Onde a Pobreza se Esconde

Encerremos então a participação de José António Gonçalves nesta revista lendo o último dos seus quatro poemas. E se do primeiro gostei, do segundo bastante e do terceiro nem por isso, este Onde a Pobreza se Esconde volta a agradar-me mais ou menos tanto quanto o primeiro.

O título não engana. Trata-se de facto de um texto sobre a pobreza e a tristeza que ela contém, pelo menos aos olhos de quem escreve. E é bastante eficaz a transmitir essa sensação de tristeza, quase de desespero, o que constitui um dos motivos principais para o poema me ter agradado. Por outro lado, que sei eu de poesia?

Textos anteriores desta publicação:

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Mia Couto: Cronicando

Sempre tive uma enorme relutância em chamar crónica a textos que são claramente pequenos contos, ficção em estado mais ou menos puro, objetos literários desprovidos da componente de opinião e/ou de narrativa factual que associo à palavra. Mas sei que nisso pertenço a uma pequena minoria, talvez uma minoria de um. Fora dessa minoria, ninguém estranha que num livro intitulado Cronicando, em cuja capa, debaixo do título, se entrevislumbre a palavra "crónicas", haja sobretudo textos de ficção, acompanhados por alguns exercícios de estilo literário e umas quantas crónicas naquilo que eu considero a plena aceção da palavra.

Mas também sei por que motivo isto acontece, e não é nada que se resuma a Mia Couto. Estes textos, tal como os textos de outros livros como este, têm aqui a sua segunda vida, sendo a primeira a publicação em espaços fixos em jornais e revistas. Espaços fixos a que se dá o nome de espaços de crónica. Que autores como Mia Couto decidam publicar neles ficção não lhes altera a designação. Daí chamar-se crónica a tudo o que assim é produzido. Eu é que não sou obrigado a seguir essa prática, pelo que chamo conto ao que me parece ser conto, deixando a designação de crónica para o resto.

Aqui temos ambas as coisas: crónicas propriamente ditas e contos breves, vinhetas, muitas das quais de caráter fantástico. Em todos os textos está bem patente o estilo característico de Mia Couto, cheio de uma poesia muito sua, repleta de neologismos tantas vezes irónicos mas só muito raramente gratuitos. Nos contos, esse estilo vem mais à supefície que nas crónicas, o que não deixa de ser natural, e é nos fantásticos onde se cumpre por inteiro. Parece-me. Disse várias vezes ao longo das opiniões que aqui fui deixando sobre cada um dos textos que na minha opinião é quando escreve fantástico que Mia Couto se sai melhor. Não que todos os contos fantásticos sejam melhores que os outros, não que não haja entre os outros as suas pérolas, mas creio que em média sim, é isso o que acontece.

No todo, no entanto, esse caráter dicotómico entre ficção e não ficção (e também alguns textos em que é praticamente impossível perceber onde termina a crónica e começa a ficção), e talvez alguns detalhes de organização, faz com que o livro não surja como particularmente equilibrado. Há partes, em especial o início, em que é a ficção que predomina, noutras é na crónica que encontramos a maioria dos textos. E eu, que de um modo geral prefiro a ficção à crónica, dei por mim nestas últimas partes com uma certa saudade dos contos. Julgo haver nestas páginas algumas obras-primas, mas o livro como um todo não o é.

Mas é bom; isso nada lhe tira.

Eis o que achei dos textos deste livro:
Este livro veio da biblioteca dos meus pais.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Ângelo Brea: Perdidos na Lua

Uma das armadilhas da ficção científica que pretende ser dura, no sentido de respeitar com maior rigor os conhecimentos científicos contemporâneos em especial no que toca às ciências do mundo físico, é ser muito pouco (ou nada) indulgente com coisas que violam esses conhecimentos, em especial quando a violação é flagrante e/ou quando é fulcral para toda a estruturação da história. E neste Perdidos na Lua, Ângelo Brea caiu nessa armadilha.

A ideia é simples. Estamos num futuro em que já existe uma base lunar em funcionamento, estruturada mais ou menos nos moldes das bases antárticas que salpicam o continente. Um duo, o narrador e outro astronauta, recebem a missão de irem ver o que se passa com uns espelhos instalados do lado oculto da Lua que são usados para orientar um telescópio orbital e parecem não estar a funcionar. E, por uma série de azares, o veículo em que seguem deixa de funcionar no caminho de regresso.

Se Brea tivesse limitado a tensão em que os seus astronautas se encontram à falta de oxigénio, arranjando um problema qualquer com os sistemas de recuperação ou com os filtros de absorção de CO2, ou qualquer coisa do género, poderia ter escrito um conto interessante, ainda que não propriamente original. Mas não. Resolveu arranjar um perigo adicional, postulando que astronauta que esteja sob a radiação solar direta é astronauta que tem morte assegurada por esturricamento em pouco tempo. Pois.

Infelizmente, para ele e para a experiência de leitura, os astronautas e cosmonautas executam longas atividades extraveiculares em órbita terrestre (onde a radiação solar direta é na prática idêntica à que a Lua recebe) sem qualquer problema. Nunca nenhum saiu de lá esturricado, pelo que o "perigo" que Brea inventa não é perigo nenhum. E como consequência, a suspensão de descrença vai por água abaixo e ao terminar a leitura fica a impressão de que ela foi má. Numa FC que não tentasse ser dura isto talvez passasse, desde que o resto fosse interessante. Mas a de Brea tenta. Até demasiado, pois é frequente ele cair em excesso de explicações. E isso tem consequências.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Guy de Maupassant: De Viagem

Pois. Se o primeiro conto deste livro me surpreendeu por não ver nele aquilo que esperava encontrar numa antologia de contos românticos, neste De Viagem Guy de Maupassant oferece precisamente aquilo de que eu estava à espera: uma história romântica, sobre amores arrebatados e trágicos, com muita faca e alguidar à mistura. Precisamente aquilo de que eu não gosto.

Mas, como já disse numerosas vezes por aqui (acho que digo o mesmo sempre que leio alguma coisa de Maupassant), o velho Guy era um escritor do caraças. E este conto é um excelente exemplo disso mesmo, porque só um escritor do caraças me conseguiria levar a gostar duma história como esta.

A história é daquelas de ouvir dizer, que tão em voga estiveram no século XIX e início do século XX, aquelas histórias em que um grupo de personagens secundárias conversa e conta histórias umas às outras. Muitas vezes, estes contos são fantásticos: histórias de fantasmas e assombrações, casos insólitos, por aí fora. Mas aqui não. Aqui, o nosso narrador (subnarrador?) relata um caso protagonizado por uma condessa russa que viaja para o sul de França a fim de se tratar de uma "doença de peito", provavelmente a tão literária tuberculose (há centenas e centenas de histórias desta época que têm a ver direta ou indiretamente com a tuberculose), e que antes de sair do país ajuda um jovem perseguido a fugir, conquistando com esse ato de solidariedade o seu amor eterno.

Este segue-a, claro, que o comportamento de assédio era na época tido como altamente romântico. Especialmente quando platónico, como aqui, visto que o jovem se limita a mirá-la de longe, observar as janelas da casa onde ela se aloja em busca de um vislumbre, sem nunca chegar a aproximar-se. Até que o desfecho, inevitável quando temos em conta que este tipo de história vive de tragédia, acontece. Mas está tudo tão bem contado, com uma mestria tão grande, que eu, que normalmente acho estas histórias ridículas, quando não lhes encontro características piores, gostei de ler o conto.

Conto anterior deste livro:

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Mário de Carvalho: O Percurso pra Cá

Não sei se Mário de Carvalho escreveu estes contos sequencialmente, isto é, se a organização das histórias no livro corresponde à sequência da sua produção. Mas se o fez, ao chegar a este O Percurso pra Cá já estava com as ideias um tanto ou quanto esgotadas e o humor um pouco murcho.

Não que o conto seja mau, atenção. Não é: está bem escrito e tem alguma piada. Mas quando o comparamos com os contos anteriores este sai claramente a perder, até mesmo na graça com que o autor caracteriza os habitantes do Beco das Sardinheiras. O bordão do Manuel Germano (quem leu compreenderá) é metido na história um tanto ou quanto forçadamente, e o elemento fantástico que irrompe pelo quotidiano é coisa já muito vista: uma espécie de portal que vai desaguar num marco de correio. Dentro do marco de correio.

E é basicamente a essa ideia que se resume toda a história. O portal, aparentemente, liga o Cais do Sodré ao Beco das Sardinheiras, só nesse sentido, e volta e meia lá vem uma pessoa ou um grupo desaguar no marco de correio. Mas depois deixa de acontecer porque a entrada está num buraco que a câmara depressa trata de tapar. Fim. Nada disto sequer se aproxima da elaboração e da piada dos outros contos, o que, para quem vem de os ler e está à espera de coisa comparável, é algo descoroçoante. Mas não é mau, o conto. É... fracote.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

José António Gonçalves: Oração em Memória de Tomás More

De regresso aos poemas de José António Gonçalves, deparo com esta Oração em Memória de Tomás More. Mas, ao contrário dos anteriores, foi poema que pouco me disse. De Tomás More (ou Thomas More) a minha referência principal é a obra Utopia; a sua vertente religiosa, que o levou até a ser canonizado pela igreja católica, e os escritos moralistas (moralismo esse que está bem presente em Utopia, mas esse livro tem outros motivos de interesse), pouco ou nada me interessam... mas parece ser isso o que mais interessa a Gonçalves. A consequência é não encontrar neste texto a ressonância que encontrei no anterior. Sim, continua a parecer-me bem concebido, mas deixou-me basicamente indiferente.

Textos anteriores desta publicação: