domingo, 11 de fevereiro de 2018

Lido: Habitable Planets for Man

Um exercício de leitura que eu acho curioso e geralmente muito interessante é ler os livros seminais de determinadas disciplinas científicas. Não todos, claro; há alguns que são demasiada areia para a minha camioneta; não me verão tão cedo (bem, mais que provavelmente não me verão nunca) a pegar em The theory of heat radiation de Max Planck, por exemplo. Mas a leitura de livros como A Origem das Espécies, de Charles Darwin, é para mim um prazer porque conjuga várias das coisas que eu procuro na leitura, faltando-lhe apenas a pura experiência literária (que às vezes até existe; há cientistas e divulgadores de ciência que escrevem verdadeiramente bem): espevita a imaginação, treina o raciocínio, ensina-me coisas que eu não sabia (mesmo quando conheço bastante bem a disciplina há sempre alguma coisa de novo), dá-me uma perspetiva histórica da evolução dos conhecimentos na ciência em causa, por comparação entre os que vêm expressos na obra lida e o que sei sobre o estado contemporâneo da ciência, e por aí fora.

Habitable Planets for Man é um desses livros. Debruça-se sobre a exoplanetologia, ou mais especificamente sobre a parte desta disciplina que se esforça por encontrar planetas habitáveis por seres humanos em volta de outras estrelas, e faz pela primeira vez um apanhado dos conhecimentos científicos disponíveis na sua época, numa tentativa de estimar quantos planetas habitáveis haverá na nossa galáxia, a que distância será provável estar o mais próximo e, em geral, onde deverão estar.

Nota importante: o livro foi escrito em 1962 e publicado em 1964. À época, os únicos exoplanetas que se conhecia eram aqueles criados por escritores e outros autores de ficção científica, e iriam ainda passar-se trinta anos até ser realmente confirmada a existência de planetas em volta de outros astros: a primeira deteção confirmada de um exoplaneta (na verdade foram logo dois) data de 1992, mas estes planetas giram em volta de um pulsar, não de uma estrela normal. Houve que esperar mais três anos pela primeira deteção definitiva de um exopaneta na órbita de uma estrela normal, quando a publicação deste livro já tinha completado o seu 31º aniversário.

É por isso espantoso, e um testemunho da qualidade da especulação teórica disponível à época, que Stephen H. Dole tenha acertado em tanta coisa mesmo apesar da grande quantidade de surpresas com que os cientistas têm vindo a ser brindados nas últimas duas décadas de deteção de exoplanetas. Apesar de se manter preso à noção de sistemas extrassolares semelhantes ao solar, com os planetas terrestres mais perto da estrela e gasosos no sistema exterior, inteiramente dominante até que as primeiras descobertas de "júpiteres quentes" vieram pôr essa teoria de pantanas, Dole consegue fazer uma análise ainda hoje muito aplicável sobre tipos de órbitas que será possível encontrar, as relações entre estas e as massas dos planetas, os tipos de atmosferas, os intervalos de temperatura que o ambiente à superfície comporta, a presença e as quantidades de água ou a sua ausência, o efeito de estufa e a sua influência na habitabilidade, e etc. e etc., sem mesmo se esquecer de analisar casos mais exóticos como o de órbitas excêntricas ou dos planetas em sistemas múltiplos, entre outros, e chegando mesmo ao ponto de rematar o livro com um elogio de natureza quase ambientalista ao planeta Terra e às suas condições, tão propícias à nossa exigência, e a especular sobre as alterações que a humanidade poderia sofrer depois de se instalar em planetas distantes.

Nem toda a informação e teorização aqui contida sobreviveu às descobertas e às reformulações teóricas que estas forçaram, naturalmente. Mas a que sobreviveu é vasta, muito interessante e em geral bastante acessível a leigos, o que é natural se tivermos em conta que Dole escreveu não um livro propriamente dito, mas um relatório, preparado no âmbito do projeto RAND da Força Aérea dos Estados Unidos, o qual deu origem ao célebre think tank militar RAND Corporation. Ele tinha de apresentar a sua informação de forma a que os militares a conseguissem engolir... e isso faz com que ela seja hoje muito legível por qualquer pessoa com alguns conhecimentos mais ou menos básicos de planetologia, mesmo que convenha eles serem um pouco menos básicos se se quiser perceber com alguma segurança que parte do livro ainda está válida hoje em dia (a maior parte) e que parte já não está.

Uma coisa é certa: este livro é muito eficaz em dar ao leitor alguma perspetiva cósmica do nosso lugar no Universo e do quão especial é o nosso planeta. Não que adote a perspetiva pessimista da Terra rara; conclui que os planetas habitáveis deverão ser abundantes na nossa galáxia, estimando em cerca de 50 os planetas habitáveis num raio de 100 anos-luz (relembro que a Via Láctea tem uns 150 mil anos-luz de diâmetro). Mas a listagem das condições ambientais, de órbita, de distância à estrela, de características da própria estrela, de massa do planeta, e etc., e etc., é impecável a transmitir ao leitor como este mundo em que vivemos está tão perfeitamente adaptado a nele vivermos (na verdade é ao contrário; nós é que nos adaptámos perfeitamente a ele. Mas vocês percebem o que quero dizer).

Para fãs de ficção científica, este livro tem além disso o interesse adicional de lhes dar bagagem para poderem avaliar criticamente algumas ideias que surgem nas obras do género, e para escritores que queiram dedicar-se ao género, pelo menos se as histórias que pretendem escrever tiverem alguma componente extraterrestre, é uma leitura que me parece quase indispensável porque pode evitar muitas tolices. Se pertences a algum destes grupos, portanto, recomendo esta leitura; se tens curiosidade pela ciência também. Se não, podes passar adiante sem nenhum problema.

Este livro pode ser obtido legalmente na internet, em PDF, no site da RAND Corporation.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Lido: O Poder da Leitura

Em O Poder da Leitura, Ana Cristina Luz apresenta uma historinha pós-moderna, daquelas que fazem referência tão direta a obras anteriores que exigem a leitura destas para sua compreensão plena. A história é a de um miúdo que mergulhava na literatura de uma forma extraordinariamente profunda, a ponto de ter desaparecido depois de ter recebido de presente um certo livro de Paul Auster. Quem tivesse lido esse livro teria obtido mais da leitura deste continho do que eu obtive. Presumo. Como não o li, não posso ter certeza, mas é essa a impressão com que fiquei da informação que obtive quando fui à procura dele, e esse é um problema genérico desta abordagem autorreferencial à literatura: quando se fecha demasiado este tipo de círculos literários, está-se na prática a escrever apenas para iniciados (ou para aqueles que gostam o suficiente do exercício para se sentirem tentados a iniciar-se) e arrisca-se a alienação de uma maioria mais ou menos vasta consoante a obra referenciada é menos ou mais lida.

Além disso, mesmo sem contar com isso este conto não me parece muito bom. A autora escreve demasiado, por estranho que isso possa parecer ao falar-se de um texto tão curto, introduzindo alguma palha num texto que teria mais impacto se fosse muito enxuto. Querem um exemplo para se perceber o que quero dizer? Seja. Eis o segundo parágrafo do conto:
Passados tantos anos, os pais continuam a tentar descobrir o que lhe aconteceu, uma busca que não terá fim até descobrirem o seu destino.
Estão a ver a parte que assinalei a itálico? Para que serve? Não é o que os pais fazem quase sempre? E não é óbvio que se passados muitos anos a busca continua ela irá continuar por outros tantos ou mais? Ora, como este não é o único exemplo que eu poderia ter dado, não creio que este conto ultrapasse o razoável.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Mais companhia para "Decisión"

Como expliquei aqui, a lista de histórias selecionadas para a antologia Nanocuentos del Planeta Tierra (não vo-lo tinha dito, mas o título parece ser este) vai ser divulgada aos poucos, imagino que numa tentativa de causar paragens cardíacas aos pobres autores ansiosos, e até ao fim desta semana estava previsto atingir-se o número de 100 minificções apuradas. E foi: hoje saiu mais uma lista de 50, a acrescentar às duas listas anteriores de 10 e de 40, muito centrada em autores de língua espanhola (embora não exclusivamente) e, consequentemente, muito cheia de nomes que eu não conheço.

Esta última lista encerra a coisa para quem escreveu originalmente em espanhol; os que não constam até agora ficam de fora da antologia. Mas ainda devem ser aceites cerca de 200 títulos escritos originalmente em outras línguas, o que mantém em pleno a esperança de que venham a aparecer mais nomes oriundos de países lusófonos. Da nova lista não consta nenhum.

Apesar de a vasta maioria me ser desconhecida, entre os 50 novos nomes há alguns que reconheço: Steve Rasnic Tem, americano, Daniel Salvo, peruano, Salik Shah, indiano, Fernando Sorrentino, argentino, e Antonio J. Cebrián, espanhol. Há mais alguns nomes que julgo reconhecer mas, como não tenho certeza (especialmente se realmente li ficções suas ou só troquei impressões com eles nos tempos em que frequentei fóruns de língua espanhola na internet, há mais de 10 anos), não os mencionarei aqui.

Não sei ao certo quando serão divulgados mais títulos e autores, agora todos em tradução, mas quando forem dir-vos-ei. Especialmente se houver mais pessoal lusófono por lá.

Lido: O Passarão Invisível

Em pleno ambiente de realismo mágico, O Passarão Invisível é mais um conto de Alexandra Pereira desprovido de dedicatórias que conta, numa prosa muito poética (sim, mais do que é costume) uma história rural sobre duas mulheres, uma que não se via e a outra que "pouco se destrinçava nas suas formas do contorno da serra ou do recorte dos montes", e com esta citação já deverão compreender na perfeição quão poética é aqui a prosa.

Como está bom de ver-se, ou de não se ver, mais propriamente, sendo as mulheres assim invisíveis difícil se lhes torna a tarefa de arranjar homem, e as duas páginas desta vinheta contam a forma como e com quem por fim esse desidério se viu coroado de êxito para uma delas e deu frutos.

Não sendo eu grande fã da prosa poética, que tendo a achar muito cansativa quando os textos ultrapassam uma certa dimensão e os autores põem a forma muito à frente do conteúdo, como fazem quase sempre, não deixo de gostar de ler histórias curtas assim escritas, desde que nelas exista realmente uma história. Curtas como esta: uma página, duas, no máximo três, salvo se o autor é realmente muito, muito bom naquilo que faz. Não creio que Alexandra Pereira seja assim tão boa, mas esta história, com as suas duas páginas, tem a dimensão certa para o que conta. Nada a contestar.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Lido: Os Sapatinhos Encantados

Alguns dos contos recolhidos por Adolfo Coelho neste volume mostram alguma elaboração literária, fazendo suspeitar da possibilidade de ter existido um certo trabalho relativamente àquilo que se contaria popularmente, quer tenha sido feito por ele, quer (o que me parece mais provável) tenha tido origem nas fontes. Outros há, no entanto, que se leem quase como esqueletos apressados do que seria uma história razoavelmente elaborada, não consigo perceber se por terem sido simplificados em extremo pelo contador ou por quem os contou ao contador, se por já terem nascido assim esboçados.

Este Os Sapatinhos Encantados é um continho de página e meia que pertence claramente ao segundo grupo. Conta as desventuras de uma filha de mãe cruel e ciumenta da sua beleza e salta a uma velocidade tremenda de acontecimento em acontecimento até ao desfecho final, típico dos contos de fadas. Sim, que embora aqui não haja fadas existem encantamentos. O conto é fantástico, vertente maravilhoso, e como que anseia por alguém que lhe pegue e revista o esqueleto que ele é com carnes literárias suficientes para o transformar numa obra "a sério". Tem potencial para tal. Mas fica-se pelo potencial.

Contos anteriores deste livro:

Decisión

Lembram-se disto? Do que está dito na introdução ao conto, não propriamente do conto em si? Pois bem: os prazos foram mais uma vez postergados, por atrasos na tradução, e os contos aceites não serão todos divulgados ao mesmo tempo. Mas já começam a sê-lo. Foram divulgados 10 há dias, ontem saíram mais 40, e até ao fim da semana deverão sair outros 50, somando um total de 100 minificções, o que deverá corresponder a cerca de um terço do total de ficções aceites e é menos de um décimo do total de propostas. A coisa está a ser divulgada na página de facebook da editora espanhola que irá publicar o livro, a qual tem o curioso nome de La Máquina que Hace Ping.

Não conheço muitos dos 50 nomes já divulgados, o que seria de esperar. Conheço o do mexicano José Luis Zárate, o do australiano Jay Caselberg, o do argentino (e antologista) Sérgio Gaut vel Hartmann, o do americano John Paul Allen (mas deste creio que nunca li nada), o do mexicano Alberto Chimal, o do cubano Juan Pablo Noroña, e os de mais ninguém. Ah sim, claro, também conheço os nomes de três portugueses: João Ventura, José Eduardo Lopes e Jorge Candeias.

Pois é, o meu outro conto, o que sobrou depois da recusa de Revolucionário, foi aceite. Intitulado Decisão na língua original e Decisión na tradução espanhola, é um conto de ficção científica integrado no mesmo universo de Miel Lê, e que explora fugazmente uma das ideias básicas desse universo. Não é FC hard (o universo dá para muitos tipos de histórias, da FC hard a histórias que nem parecem FC) e os elementos de ficção científica que contém são razoavelmente subtis, mas eles estão lá.

É animador ver aceite para publicação o primeiro conto que escrevi depois de uma pausa de mais de ano e meio, durante a qual não só não acabei nenhuma história, como não escrevi nada, nem uma linha, nem uma palavra. Sobretudo porque essa pausa foi provocada mais por desmotivação do que por deixar de ter histórias para contar. Elas sempre cá estiveram; passá-las a papel (ou, vá, a bits) é que parecia não valer minimamente a pena.

Também é interessante constatar que todos os três nomes portugueses aceites até ao momento publicaram no Infinitamente Improvável. Mas é provável que não nos fiquemos por aqui; afinal, ainda falta revelar a vasta maioria das ficções aceites. Depois conto-vos mais coisas.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Lido: Tuj

É com alguma frequência que a ficção científica pouco preocupada com o rigor científico dos universos que cria toma um caráter muito onírico, frequentemente de pesadelo. Por vezes, o que daí resulta são obras de primeira água, e basta citar nomes como Stanislaw Lem ou J. G. Ballard para perceberem o que quero dizer. Mas o exercício é delicado e exige grande cuidado e não menos talento porque facilmente pode tornar-se catastrófico, especialmente quando os autores ignoram com tal militância o rigor científico que adulteram os conceitos e usam as palavras originadas na ciência como meras muletas poéticas. E lembrei-me agora, por algum motivo, do Artur Portela. E da Isabel Cristina Pires.

Walter Martins quase cai nessa armadilha, safando-se por pouco. A história que cria em Tuj é sobre um geólogo que se vê misteriosamente transportado para um mundo distante, um mundo de pesadelo, simplificado, seco, constituído por uma floresta aparentemente infinita de espinheiros arbóreos e castanhos, que arde (por vezes literalmente) sob a intensa luz de três sóis. Aí, vai encontrar uma espécie de civilização enlouquecida de criaturas escanzeladamente aladas, e, contra todas as expetativas, sobrevive, adapta-se até certo ponto e arranja um amigo. E este vai explicar-lhe (e aos leitores) o que se passa.

A história acaba por ser razoável, apesar de tudo. Martins usa o onirismo do ambiente que cria com conta, peso e medida, sem exageros, e fá-lo para explorar algumas ideias sobre o perigo da ciência quando remexe na estrutura da realidade e as consequências da imortalidade. Essas ideias não têm grande originalidade e estão um bom bocado às avessas das minhas, mas impedem que a história acabe por se transformar em mero escapismo vazio de conteúdo e o mistério criado em volta do que aquele mundo é e de como funciona sustenta bem a narrativa.

Não posso dizer que tenha gostado muito deste conto, tenho ainda menos motivos para o considerar memorável, mas também não posso achá-lo mau.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Lido: A Máquina do Tempo

Ao ler este título, A Máquina do Tempo (bibliografia), o leitor desprevenido certamente julgaria ir deparar com um conto de ficção científica razoavelmente sólida, sobre a criação, eventualmente, a operação, talvez, as consequências, se a isso chegasse o engenho e a ambição do autor, de uma máquina do tempo. Na maioria dos casos, como no do romance homónimo de H. G. Wells, o leitor desprevenido certamente teria razão. Mas não no caso deste conto de Ray Bradbury.

Trata-se de mais um dos contos de Bradbury sobre a infância idealizada, numa cidadezinha algures no interior dos EUA, e aqui os miúdos vão em busca da única verdadeira máquina do tempo que existe na cidade: um velho muito velho, conhecido como Coronel Freeleigh, que tem na longa memória um registo de passados inacessíveis aos que o procuram e um interminável manancial de histórias para contar sobre esses passados.

É mais um conto doce, bem escrito e eficaz, que no entanto peca por ser um pouco extenso em demasia para a história que tem para contar, o que impede que se aproxime da qualidade das grandes histórias do autor. Um conto que, pese embora o título tão tipicamente FC, não tem nada que não seja realista, e se alguém acha que esse efeito não foi propositado não tem estado a prestar atenção. Isto apesar do conto ter sido inicialmente publicado na revista The Reporter (uma seriíssima revista americana, cheia de artigos sisudos sobre política internacional e nacional), com o título de "The Last, the Very Last", dedicado, de acordo com a chamada de capa (sim, teve direito a chamada de capa), ao Memorial Day. Tudo bem longe da FC, naturalmente; o título por que o conto é conhecido hoje só surge quando foi editado em livro, cerca de uma década mais tarde.

É a velhíssima história do velhíssimo costume.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Barnabé

Era uma vez um blogue político. Estava-se no apogeu da blogosfera política, ainda antes de os "jovens turcos" que por ela pululavam terem ganho entrada no mainstream dos vários partidos (perdendo-a depois, alguns deles), e um grupo de cinco homens de esquerda, André Belo, Celso Martins, Daniel Oliveira, Pedro Oliveira e Rui Tavares, resolve criar um blogue coletivo para cascar nos blogues de direita. E fê-lo, chamando-lhe Barnabé e vincando a origem da inspiração para o nome com uma citação da canção homónima do Sérgio Godinho (artista muito querido dos esquerdalhos, como se sabe) como subtítulo. E fê-lo com tal sucesso de mercado que a Oficina do Livro achou por bem publicar em livro uma seleção dos seus posts, o que não deixa de ser irónico para malta que tem no ceticismo quanto ao mercado tal como entendido pelos liberais uma parte significativa do cimento que a une.

O estilo do blogue era aguerrido, polémico e irónico, limitando-se frequentemente os posts a frases curtas que hoje em dia são basicamente coisa de twitter, ainda que também houvesse alguns mais longos e elaborados, verdadeiros artigos de opinião. Era um dos blogues que eu lia com certa regularidade, na época. E que ocasionalmente comentava.

O livro retrata bem o que era o Barnabé-blogue, mas claro que lhe falta um fator muito importante que faz com que não seja de todo a mesma coisa: a interatividade. Porque há blogues e blogues; eles não são todos iguais e nunca foram. Se a natureza de alguns faz com que a troca de ideias com os visitantes que decidem deixar comentários é dispensável ou até desaconselhável, outros vivem em boa parte dessa troca de ideias. E o Barnabé pertencia a este último grupo. A consequência que isso tem é a experiência-livro, quase totalmente passiva, ficar vários degraus abaixo do que foi a experiência-blogue. Os textos podem ser os mesmos, mas o livro é pior que o blogue. Significativamente.

Em especial quando é lido agora, mais de uma década mais tarde. O livro data de 2004, do auge da popularidade do blogue (que desapareceu em 2005, depois de uma das típicas zangas de comadres internas), e inclui posts publicados em 2003 e 2004. Ora, hoje, praticamente todas aquelas polémicas estão mortas ou pelo menos muito bafientas, alguns dos protagonistas desapareceram do radar público e é necessário um esforço de memória para nos tentarmos lembrar de "quem é este gajo?", as ironias e as bocas perderam o ferrão. Ou seja: quase tudo o que na época parecia ser de extrema relevância está reduzido hoje à sua devida importância. Especialmente as tricas blogosféricas.

Passados estes anos, portanto, o livro surge quase como um monumento à completa futilidade de muita da discussão política que se faz em cima do acontecimento, mera poeira no panorama da história. Em retrospetiva, "um milhão de visitas na net", como se proclama orgulhosamente na capa, reduzem-se a muito pouco.

E isto não é caso exclusivo do Barnabé. Leiam qualquer blogue político da época (os que ainda se deixam encontrar, pelo menos) e irão deparar com a mesma irrelevância. Isto quase dá razão ao Facebook, lugar para onde a maioria deste fumo sem fogo se transferiu nos últimos anos (e onde é amplificado por um algoritmo que está a contribuir com todas as forças para a morte da democracia, mas isso é conversa longa e para outro sítio), e que o enterra num fundo de página praticamente irrecuperável horas ou no máximo dias depois de ser produzido. Quase dá razão. Quase.

O que salva este livro, hoje, são alguns posts menos presos às reações epidérmicas à atualidade dos tempos. Posts mais genéricos, com reflexões mais livres dos imediatismos. E também outros posts que, embora se mantenham presos à espuma dos dias, acabam por ter a sorte de esta se ter mantido relevante passados estes anos. A Guerra do Iraque, por exemplo. Mas também algumas — poucas — outras coisas. Nisto, a perspetiva de historiador do Rui Tavares talvez seja a mais útil, embora alguns dos posts dos outros autores também o acompanhem.

Em suma: este é um livro razoável, que dá uma ideia, mas não muito precisa, do que foi o Barnabé-blogue. Não creio que tenha muito interesse enquanto documento histórico; mas não sou historiador e é provável que me engane. Também não creio que tenha muito interesse para quem não tenha vivido a blogosfera da época, pois estou seguro de que muito do que aqui se encontra lhe irá passar bem ao lado. Talvez o tenha para quem é fã dos autores, no todo ou em parte. Mas se calhar irão encontrar mais e melhor deles noutros sítios. Eu não desgostei; mas eu estou na posição razoavelmente especial de leitor regular do blogue e tenho memória pessoal de parte do que aqui se encontra. Vocês? Cada um saberá de si.

Este livro foi uma oferta dos autores. Ou melhor: um prémio. Houve no Barnabé durante algum tempo uma espécie de concurso em que se publicavam ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro, publicadas na imprensa cerca de um século antes, e se pedia aos comentadores para explicarem contemporaneamente o que elas significavam. Eu achei piada à coisa e participei algumas vezes. Com certo sucesso; ganhei com isso um livro... que vim a ler mais de dez anos depois. E assim se faz o tempo.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Em janeiro falou-se de...

No início do mês falei aqui de como a transferência do Ficção Científica Literária para formato blogue e as alterações a que isso levou permitem fazer mais facilmente algumas coisas que com a anterior versão eram complicadas. Um exemplo disso mesmo vem nesse post: a lista dos lançamentos anunciados em 2017. Mas porquê parar aí?

A verdade é que agora é tão fácil fazer isso como o que se segue: uma relação das obras de FC que receberam menção mais ou menos crítica durante o mês de janeiro que acabou de terminar. Segundo as definições de FC usadas pelo FCL, naturalmente: uma definição propositadamente lata.

Acho isto interessante por dois motivos:
  1. A lista de lançamentos anunciados está muito influenciada pelo marketing. Como é natural, as editoras que arriscam o seu dinheiro na edição (ao contrário das vanities) promovem os livros que põem no mercado e, com as parcerias, mas mesmo sem elas, os blogues vão atrás. Obras que não são promovidas passam com certa frequência despercebidas, o que leva a uma ideia algo distorcida do que está disponível por aí. E além disso...
  2. Aquilo de que se fala em blogues (e na imprensa) também é influenciado pelo marketing, pois algumas parcerias incluem não só notas de lançamento como também o envio das obras para leitura e crítica, mas esta é a única forma prontamente disponível para se avaliar o que as pessoas realmente leem, seja no que toca a edições portuguesas, brasileiras ou importadas.
Portanto, vamos lá? Depois de uma nota rápida para dizer que nas listas abaixo "conto" é tudo o que for menor que romance, incluindo portanto novelas e noveletas, e de outra para explicar que as listas estão ordenadas primeiro pelo último apelido do primeiro autor e depois por título, vamos lá.

Ah, sim, e depois das listas há mais notas.

Ficção portuguesa:
  1. Almanaque Steampunk 2017, org. ?
  2. Instintos, de André Alves (conto)
  3. A Escolha de Hobson, de João Barreiros, Ana Ferreira, Ana Margarida Gil, Ângelo Claro, Carina Figueiras, Filipa Jales, Hugo Oliveira e Marta Ribeiro (conto)
  4. Se Acordar Antes de Morrer, de João Barreiros
  5. O Algoritmo do Poder, de Pedro Barrento
  6. O Marciano Humanista, de Ricardo Dias (conto) 
  7. Livros que não Deviam ter Sido Escritos - XIV, de José Manuel Morais (conto)
  8. Mission in the Dark, de Bruno Martins Soares (conto)
  9. Conflitos Livrescos, de João Ventura (conto)
Ficção luso-brasileira:
  1. Vaporpunk, org. Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva
Ficção brasileira:
  1. Dicionário de Línguas Imaginárias, de Olavo Amaral
  2. Bunker, de Luiz Bras (conto)
  3. Um Velho Engenheiro, de Luiz Bras (conto)
  4. Ventania, de Luiz Bras (conto) 
  5. Fuga, de Gabriel Cantareira (conto)
  6. Era uma Vez um Mundo, de Antonio Luiz M. C. Costa (conto) 
  7. Transfert, de Antônio d'Elía (conto)
  8. Febre Vermelha, de Francis Graciotto
  9. O Espelho, de Nelson Leirner (conto)
  10. George e o Dragão, de Álvaro Malheiros (conto)
  11. O Elo Perdido, de Jeronymo Monteiro (conto) 
  12. Desafio, de Ney Moraes (conto)
  13. Ninguém Nasce Herói, de Eric Novello
  14. Alec Dini e o Vórtice do Tempo, de F. R. Pan
  15. Páginas do Futuro, org. Braulio Tavares
  16. Homens Sob Medida, de Nelson Palma Travassos (conto)
  17. As Águas-vivas não Sabem de Si, de Aline Valek
  18. A Jornada de Tony Farkas, de R. G. Werther
Ficção lusófona e internacional:
  1. Dagon, nº 2, ed. Roberto Bilro Mendes
Ficção internacional:
  1. Bajo el Signo de Alpha, org. ?
  2. Isaac Asimov Magazine, nº 2, ed. ?
  3. The End Has Come, org. ?
  4. Flatland: A Romance of Many Dimensions, de Edwin A. Abbott
  5. O Contágio, de Megan Abbott
  6. O Avatar, de Poul Anderson
  7. The Gods Themselves, de Isaac Asimov
  8. O Conto da Aia, de Margaret Atwood
  9. The Drowned World, de J. G. Ballard
  10. Às Portas da Fantasia, de Robert Bloch e Ray Bradbury
  11. A Expansão, de Ezekiel Boone
  12. O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle
  13. Matem o Presidente, de Sam Bourne
  14. A Janela cor de Morango, de Ray Bradbury (conto)
  15. Aqui Haverá Tigres, de Ray Bradbury (conto)
  16. Gelo e Fogo, de Ray Bradbury (conto)
  17. O Dragão, de Ray Bradbury (conto)
  18. O Presente, de Ray Bradbury (conto)
  19. Origem, de Dan Brown
  20. Kindred - Laços de Sangue, de Octavia Butler
  21. A Coroa, de Kiera Cass
  22. A Idade do Ouro, de Arthur C. Clarke
  23. Areias de Marte, de Arthur C. Clarke
  24. Persepolis Rising, de James S. A. Corey
  25. Jurassic Park, de Michael Crichton
  26. Demolidor: Homem sem Medo, de Paul Crilley
  27. Uma Dobra no Tempo, de Madeleine l'Engle
  28. Neuromancer, de William Gibson
  29. Alien: Rio de Sofrimento, de Christopher Golden
  30. Sangue por Sangue, de Ryan Graudin
  31. A Mão Esquerda das Trevas, de Ursula K. Le Guin
  32. Duna, de Frank Herbert
  33. Não me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro
  34. A Quinta Estação, de N. K. Jemisin
  35. As Terras Devastadas, de Stephen King
  36. Belas Adormecidas, de Stephen King e Owen King
  37. O Bazar dos Sonhos Ruins, de Stephen King
  38. Sob a Redoma, de Stephen King
  39. A Floresta Sombria, de Cixin Liu
  40. O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu
  41. Lovecraft - Medo Clássico, vol. I, de H. P. Lovecraft
  42. A Estrela da Meia-Noite, de Marie Lu
  43. Caçador em Fuga, de George R. R. Martin, Gardner Dozois e Daniel Abraham
  44. Histórias de Aventureiros e Patifes, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
  45. Mulheres Perigosas, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois 
  46. Winter, de Marissa Meyer
  47. Alien: Mar de Angústia, de James A. Moore
  48. Altered Carbon / Carbono Alterado, de Richard K. Morgan
  49. Broken Angels, de Richard K. Morgan
  50. Woken Furies, de Richard K. Morgan
  51. O Motivo, de Patrick Ness
  52. Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe
  53. Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe, de Edgar Allan Poe
  54. O Prestígio, de Christopher Priest
  55. A Sétima Praga, de James Rollins
  56. As Brigadas Fantasma, de John Scalzi
  57. More Happy than Not, de Adam Silvera
  58. O Projeto Rosie, de Graeme Simsion
  59. O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson
  60. Piquenique na Estrada, de Arkádi e Boris Strugátski
  61. Autoridade, de Jeff VanderMeer
  62. Vinte Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne
  63. Chronos: Viajantes do Rempo, de Rysa Walker
  64. A Piada Infinita, de David Foster Wallace
  65. Até ao Fim do Mundo, de Tommy Wallach
  66. Artemis, de Andy Weir
  67. O Livro do Juízo Final, de Connie Willis
Não-ficção brasileira:
  1. A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil, de Kátia Regina Souza
Não-ficção internacional:
  1. The Universe Next Door, org. ?
  2. Twin Peaks: The Final Dossier, de Mark Frost
  3. O Mito da Singularidade, de Juan-Gabriel Ganascia
  4. Tecnologia versus Humanidade, de Gerd Leonhard 
Algumas notas finais:

Pelo menos durante este mês de janeiro, falou-se (e portanto presumivelmente leu-se) muito pouco de ficção científica lusófona. Não só os textos listados são na sua grande maioria contos, como estes são numa boa proporção fruto das minhas próprias leituras. Retirando o que eu li e não compõe um livro, tanto a lista de portugueses como a de brasileiros só teriam 7 entradas. Para fazer o mesmo exercício à dos autores internacionais basta retirar os contos do Bradbury e dá 62. A diferença é imensa, muito maior do que a diferença que existe na quantidade de lançamentos.

Pode ser que isto seja algum desvio estatístico deste mês em concreto, mas duvido. Seja como for, se eu resolver fazer este exercício também para os meses seguintes, saberemos. Seria interessante ver estas quantidades subir; que acham?

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Lido: O Leilão

Para concluir o tríptico de minicontos com que João Ventura se apresenta nesta antologia, O Leilão é uma historinha de fantasia, quase uma fábula, quase de um maravilhoso infantil, sobre os livros que compõem a biblioteca de um recém-falecido. Estes, diz-nos Ventura, gostavam muito de estar juntos e, sabendo que iam ser leiloados em breve e que esse leilão iria necessariamente ter como resultado a sua separação, discutem o que fazer. A resposta é curiosa e imaginativa, mas de novo me parece que o autor tem histórias bastante melhores do que esta, tanto em formatos mais extensos como nesta dimensão ultracurta.

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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Lido: O Espelho Antropomórfico

O Espelho Antropomórfico, apesar de um parágrafo inicial que faz referência ao conto anterior e ameaça englobar este texto nos domínios da ficção, é apenas um artigo de opinião, no qual Alexandra Pereira reflete sobre a natureza da internet. Nada de grandemente relevante e muito menos de novo, é um texto que repete ideias feitas sobre as limitações da experiência virtual por contraponto à "real" e dá voz a preocupações (que, apesar de relevantes, já foram expressas milhares de vezes, provavelmente em tudo quanto é língua) sobre quem controla a informação e a sua distribuição. Dispensável.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Lido: Bunker

Luiz Bras, neste livro, já apresentou contos, já apresentou textos que se podem perfeitamente ver como poemas, embora também possam ser vistos de outra forma, já apresentou textos mais experimentais e, com Bunker, apresenta um texto quase cénico, uma quase peça de teatro ou curta que, se vista de certa forma, mas se vista dessa forma, poderá ser enquadrada na ficção científica. E este quase não é causado apenas pela brevidade, mas também por exigir um encenador ou realizador com muita imaginação para ser realmente levado ao palco ou a alguma espécie de écran sem com isso se destruir o impacto do final.

Não que seja impossível. É apenas difícil. É um texto sobre um grupo de pessoas encerradas num bunker, sem saberem bem se o apocalipse, no exterior, já passou o suficiente para saírem dali. Ou talvez não, talvez seja uma história bem diferente. O final desvela mas eu não o farei aqui. Vou limitar-me a dizer que não gostei muito deste texto. Sim, é interessante, sim, o final tem impacto, mas faltou-lhe qualquer coisa. Talvez seja o meu já por várias vezes referido fraco gosto por ler textos teatrais, talvez seja o facto de eles me aparecerem sempre carentes de uma componente não literária que realmente os complete. Talvez. O facto é que este foi dos textos que menos me agradaram em todo o livro até ao momento.

Textos anteriores deste livro:

Lido: Transfert

Transfert, conto curto de Antônio d'Elía, tinha tudo para me desagradar. É o que geralmente acontece com contos que usam a linguagem da ficção científica sobretudo para poetar, prestando mais atenção à forma como as palavras rebolam na boca do que ao seu significado e correndo assim sérios riscos de resultar em disparates. E é também o que geralmente acontece com histórias de amor interespécies, que quase nunca se preocupam minimamente com os imperativos biológicos de cada uma ou, o que é pior, que tratam as espécies alienígenas como meras variantes ligeiras do muito terrestre Homo sapiens. Transfer tinha, pois, tudo para me desagradar, porque é tudo isto. É a história de um terrestre, poeta, que se apaixona por uma alienígena e tenta convencê-la, a princípio sem grande sucesso, a concretizarem esse amor.

Mas a verdade é que não me desagradou por aí além. Porque o conto está realmente bem escrito, com lirismo mas sem exageros; porque apesar de haver alguns disparates terminológicos estes são bem mais reduzidos do que é hábito em histórias destas; porque a questão da concretização do amor interespecífico é bem resolvida, de uma forma que não agride a noção de ficção científica, através do tal transfert do título; e porque o final dantesco (em sentido próprio, e entendam isto como quiserem) acaba por fazer reavaliar tudo o que ficou para trás de uma forma que também me pareceu bem conseguida.

Ou seja, não sendo um grande conto, pareceu-me um conto muito razoável, a atirar para o bom. Por improvável que isso seja num conto deste tipo.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 28 de janeiro de 2018

Lido: Tio Einar

Muitos dos escritores ativos nos géneros fantásticos (e não só, convenhamos) têm mostrado ao longo das décadas uma marcada tendência para aglomerarem as suas histórias em séries mais ou menos longas, revisitando repetidamente os mesmos universos ficcionais. É compreensível: criar mundos e/ou mitologias é trabalho árduo e é natural que os autores por um lado se apeguem às suas criações e por outro queiram explorar tudo o que elas têm para dar, ou pelo menos o máximo que lhes for possível.

Mas Ray Bradbury tem comparativamente poucas dessas séries. Tem a de Fahrenheit 451, composta apenas pelo célebre romance e por um conto publicado antes e que o romance expande, tem a das Crónicas Marcianas, não menos célebre, tem a de Green Town, que reúne histórias de infância, ambientadas numa cidadezinha do Midwest, tem uma série de histórias irlandesas, várias bem próximas do mainstream, e tem a da Família Elliot, uma família de monstros de bom coração e variados tipos de monstruosidade, muito semelhante em vários aspetos à Família Addams que conhecemos do cinema e da TV (embora tenha dito origem em comics) e que lhe é anterior.

Tio Einar (bibliografia) pertence a esta última série. É uma história que se poderia pensar ser de horror se só se soubesse que trata sobre uma espécie de vampiro ou homem alado, o Tio Einar, precisamente, mas na realidade é uma história poética, ternurenta e com bastante humor sobre a vida do protagonista desde que, depois de uma visita a alguma paragem distante, durante o voo de regresso a casa, embateu num poste de alta tensão e se viu incapaz de voar. Um desastre completo para uma criatura como ele. E no entanto desse desastre vai acabar por nascer o amor, um casamento e uma família.

Esta é uma história doce, de uma inocência quase infantil, que eu facilmente imaginaria profusamente ilustrada e publicada em edição própria para miúdos bem pequenos, o que parece nunca ter acontecido. Literariamente, é uma história tão bem escrita como seria de esperar. Mas não é das histórias de Bradbury que mais me agradam.

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Lido: Dama Polaca Voando em Limusine Preta

Não tenho muito a dizer sobre este conto de Lídia Jorge. Apesar de se intitular Dama Polaca Voando em Limusine Preta, a dama não é polaca, propriamente, e a limusine, que é realmente preta, não voa em qualquer sentido que não seja o figurado. Trata-se de um conto realista, umbiguista e resmoneado, sobre uma inesperada viagem em limusine entre o hotel em que a narradora estava hospedada e um aeroporto ainda razoavelmente distante. O país em que a história se desenrola não chega a ser nomeado mas cheira a Estados Unidos por todo o lado, e o texto — tão bem escrito quanto seria de esperar de alguém como Lídia Jorge — é de certa forma um fluxo de consciência da narradora, enquanto vai reagindo, com total passividade, primeiro ao facto de estar a viajar numa velha limusine, e depois ao facto de o motorista ter saído da sua reserva profissional e a ter contactado porque, segundo vem a saber, ela lhe faz lembrar intensamente a falecida mulher, essa sim polaca. E aparentemente judia. Essa familiaridade aparente leva-o a fazer-lhe algumas confidências e a história resume-se a isso. Trata-se, no fundo, de um esboço de personagem para o qual a viagem não passa de pretexto. A limusine funciona como casulo que isola quase por completo as personagens do mundo exterior, e praticamente tudo se passa apenas entre a memória e a saudade (e o amor, também) de um homem e as dúvidas e inseguranças de uma mulher.

Não é um mau conto; não me chocaria minimamente, até, que houvesse quem o considerasse bastante bom. Mas é um conto que não me conseguiu despertar interesse. Pelo contrário, despertou-me aborrecimento. São gostos.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Lido: Conflitos Livrescos

Outro continho muito curto de João Ventura (não tenho bem a certeza se é miniconto ou vinheta, mas anda por perto dessa fronteira), este Conflitos Livrescos é uma mistura de fábula com ficção científica. Tem da fábula a antropomorfização de objetos inanimados, no caso livros e ebooks que, na ficção de Ventura (e na vida real, por intermédio dos fãs de uns e de outros), discutem quais são melhores e quais são piores. E também tem da fábula ou do conto tradicional em geral, reconheça-se, uma moral da história muito clara e nada subtil. De ficção científica, tem um certo e determinado acontecimento apocalíptico e futuro que vai decidir a contenda.

É uma historieta interessante, mas Ventura tem melhor, tanto em ficções assim ultracurtas como em ficções mais extensas.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Posição Yoguística

E eis-nos de volta às abundantes e geralmente curtas histórias de Alexandra Pereira, para falar brevemente de uma que não é tão curta como a maior parte das restantes. Apesar do título, Posição Yoguística nada parece ter a ver com yoga ou com posições, é uma daquelas histórias fantásticas que têm como tema prodígios do mundo natural. No caso, um cato, que vai crescendo desmesuradamente até atingir dimensões equiparáveis às de um estádio, e o que a autora conta é esse crescimento, os sucedidos que ele causa, e as consequências que tem, até quando finalmente atinge o seu inevitável limite. É uma história bem contada, numa atmosfera próxima do realismo mágico e com uma pegada que faz lembrar um pouco algumas das histórias do Mia Couto subtraídas dos típicos neologismos. Nada de muito novo — histórias deste género têm raízes tão fortes que uma das histórias tradicionais mais bem conhecidas, a história do Feijoeiro Mágico, se encaixa nele, o que de resto está explicitamente mencionado na de Alexandra Pereira — mas a autora sai-se aqui bem da sua variação pessoal ao tema.

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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Lido: O Uso da Força

A literatura é sempre sobretudo uma questão de interpretação, mesmo quando tenta não o ser. Há sempre qualquer coisa subjacente, a espreitar dos subterrâneos do impulso criativo, à espera de ser descortinada por quem acaba por ler o produto final. Mas descortinar essas coisas nem sempre é simples e, não raro, a tentativa traz consigo o risco de ver aquilo que não existe, em exageros de exegese que até os autores desconcertam.

Em 1938, William Carlos Williams publicou este conto, O Uso da Força. É um conto realista e muito possivelmente autobiográfico, sobre um médico que é chamado para ver e tentar tratar uma miúda doente. Mas esta é teimosíssima, recusa-se a ser vista, e o médico, que vai ficando cada vez mais frustrado e furioso, acaba por recorrer à força para tratar a paciente. O enredo é esse e está bem delineado numa prosa segura e direta, sem divagações ou devaneios. Passa-se a história nos EUA e em tempo de paz. É um bom conto, mas não uma história que me desperte grande interesse.

E no entanto foi escolhido para integrar um número especial de uma revista dedicada a contos de guerra.

É possível que quem o fez tenha interpretado o conto como uma parábola sobre a justificabilidade de recorrer à força militar em determinadas circunstâncias, tenha achado que sob a capa de pacatez campestre americana Williams estava realmente a falar da violência que se ia somando na Europa, às portas da eclosão da II Guerra Mundial, justificando-a pelo menos em certas circunstâncias. É uma interpretação possível mas... Honestamente? Não me parece nada. Nem toda a ficção escrita perto da Segunda Grande Guerra teve a ver com ela, direta ou indiretamente, e os EUA, cuja psique coletiva é tradicionalmente insular, ainda estavam nessa altura na sua fase isolacionista, o que só reforça esse alheamento.

Também é possível que tenha decidido arranjar exemplos literários de outras guerras, fugindo ao óbvio. Neste caso, uma guerra de vontades entre médico e doente. OK, se assim foi nada tenho a opor. Mas a verdade é que ler esta história depois das três anteriores faz com que ela pareça bastante deslocada. A ver vamos se com as próximas esse deslocamento se reduz ou reforça.

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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Lido: Fuga

Existe uma arte delicada em retirar o tapete de baixo do leitor no fim de uma história (ou no meio; também pode ser no meio, ou até várias vezes ao longo do enredo), fazendo-o reavaliar tudo o que ficou para trás. Quando essa arte é aplicada como deve ser e tudo o resto de que se faz a literatura está no lugar que lhe é próprio, o resultado é uma obra de primera água. Mas quando é mal aplicada o resultado nunca consegue ultrapassar a mediania, sendo as mais das vezes bem pior do que isso.

Embora a execução da arte seja delicada e complicada, é fácil descrevê-la: a reavaliação tem de ter como resultado que tudo o que ficou para trás continua a fazer sentido à luz da nova informação. Ou seja, para dar um exemplo: se uma personagem tem planos e desses planos consta vir a ser perseguida pelas autoridades, os seus pensamentos revelados ao leitor pelo narrador omnisciente não podem manifestar surpresa quando se vê perseguida. Pelo menos surpresa por se ver perseguida. Se o faz na tentativa de levar o leitor a julgar que a perseguição é um problema e não estava nos planos, quando surge a informação de que não é e estava, a história torna-se incoerente e batoteira. A arte falha.

E é precisamente esse o principal problema com este Fuga (bibliografia), de Gabriel Cantareira, um conto de ação sobre uma jovem que se põe em fuga depois de roubar informações, segundo as quais a elite (de que faz parte) se prepara para apertar mais ainda a malha que cerca a consciência dos cidadãos, controlando-a e, assim, reforçando o seu poder, não só político como económico. Ou talvez seja melhor dizer que é um dos principais problemas, porque infelizmente não é o único: o conto também sofre com longos infodumps e com um português que está longe do ideal. E segue um rumo que me parece completamente equivocado: focar-se na ação da fuga e perseguição, as quais seguem um enredo muitíssimo básico, já visto centenas de vezes em centenas de fitas de Hollywood, deixando para infodump tudo o que tem de interessante.

E é pena, porque eu gosto bastante do seu substrato político e de quão relevante ele é nos tempos que correm. Mas a execução deixa tanto a desejar que não posso deixar de considerar este conto bastante fraco, o pior que esta antologia apresentou até aqui.

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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Lido: Pai de Família

Para não variar, Ricardo Lopes Moura termina o seu livrinho com mais um conto que tinha potencial para ser bastante melhor do que acaba por ser. Pai de Família é uma história muito americana, por mais que se ambiente em Portugal, e de um fantástico que talvez tente ser horror mas não consegue realmente ter o impacto necessário. O enredo resume-se facilmente. Num hospital dão entrada duas pessoas vítimas de traumas violentos; uma dessas pessoas, um médico, sofeu um acidente de viação; a outra, um criminoso, foi baleado durante um assalto. O médico salva-se, após uma demorada operação; O assaltante não mas, por algum motivo misterioso, a consciência deste é transferida para o corpo daquele. E o que se segue é a história da recuperação do criminoso no corpo do médico, e da vingança que vai fazer cair sobre os outros bandidos que o tramaram.

É uma ideia com pernas para andar. E até se pode dizer que o enredo está bem concebido, mesmo sem ser particularmente original. Infelizmente, não só o racismo subjacente a toda a história é muito dispensável (o criminoso, claro, é preto, um cliché de gangsta rap; o médico, claro, é branco... como se tivesse sempre de ser assim), como as fragilidades de Moura no tratamento da língua portuguesa saltam demasiado à vista. Mesmo que se possa culpar a revisão (ou sua ausência) por não ter apanhado disparates como "trabalhava ali à dez anos" ou "dissipar-se-à", para só falar em questões ortográficas e não no uso desadequado de certas palavras e expressões, que também está demasiado presente, a verdade é que em última análise a responsabilidade cimeira é do próprio autor, que os cometeu.

E o resultado é um conto que chega a duras penas à categoria do razoável (estou a sentir-me generoso) quando poderia ser bom. Potencial desaproveitado...

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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Lido: O Capuchinho Vermelho

Quem diria que uma história tão famosa como esta tinha origens tão humildes? Conheço esta história d'O Capuchinho Vermelho desde que me conheço; deve ter sido das primeiras histórias infantis que os meus pais me contaram, e enquanto fui crescendo encontrei-a em diversos lugares e em vários formatos. Por isso, suponho, esperava encontrar aqui no original dos Irmãos Grimm (que desta vez até parece nem ser coisa muito adulterada face à história popular propriamente dita) uma história que respeitasse o que eu conhecia mas fosse mais desenvolvida e mais longa. Mas não. É uma historinha de pouco mais de três páginas, com todos os pontos sobejamente conhecidos e muito pouco mais. As notas que a acompanham são igualmente curtas, e a única fonte de surpresa é os Grimm terem nela integrado uma segunda historinha de meia página sobre outro encontro entre o Capuchinho Vermelho e outro Lobo Mau, que se desenrola de forma bem diferente porque o Capuchinho já ia prevenido com o que aprendera no primeiro encontro.

Mas lá está, esta história é um clássico e vale sempre a pena ler os clássicos, em especial na sua versão mais ou menos original.

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Lido: O Príncipe Sapo

É em contos como este O Príncipe Sapo que melhor se nota que esta recolha de contos populares de Adolfo Coelho é realmente uma recolha propriamente dita, não um objeto literário construído por ele com base em contos recolhidos junto do povo como acontece com a compilação dos Grimm. Lê-se este conto e como que se ouve o contador de histórias sentado à lareira, a trocar todos os vês que se encontrariam em texto escrito pelos bês característicos do seu dialeto, a salpicar a contação de regionalismos, de palavras e expressões que para ele eram naturalíssimas mas até Adolfo Coelho, ele próprio beirão, portanto bem mais próximo desses falares do que os verdadeiros meridionais como eu, sente a necessidade de as grafar a itálico. A história é básica e maravilhosa e eivada de sinais de catolicismo que provavelmente não existiam nela quando nasceu: um rei não tinha filhos e a mulher, desesperada, suplica a deus um filho, qualquer filho, nem que fosse um sapo. E deus concede-lhe o desejo com toda a crueldade do mundo: dá-lhe um filho sapo. Depois, a história mete uma moça contratada para cuidar do príncipe, o que mais tarde dá em casamento (tudo contado num ápice, com a história reduzida ao seu esqueleto), mas as coisas correm mal, há mais umas peripécias e umas crueldades até que por fim tudo acaba no típico viveram felizes para todo o sempre. Uma história de encantar de ascensão social com um certo fundo comum com a da Cinderela. Tivéssemos nós tido um Grimm, alguém dedicado a tornar as histórias do povo palatáveis para o delicado (coff coff) gosto das classes altas, talvez tivesse sido esta a história a tornar-se globalmente conhecida, e não a da Cinderela. Mas perderíamos sem dúvida em irreverência. Ou seja, olhem: antes assim.

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Lido: Ventania

Um dos aspetos mais interessantes destes pequenos ou pequeníssimos contos de Luiz Bras é a capacidade que o autor por vezes mostra de relatar em extensão tão curta histórias de ficção científica de vastíssima escala. De escala, literalmente, cósmica. Ventania é um desses exemplos, uma vinheta que conta em duas páginas exatas uma história que nasce na singularidade prévia (é maneira de falar; eu sei que isto é uma incorreção científica) ao Big Bang e vai terminar num futuro bem longínquo, a história de uma entidade que apesar da sua enorme antiguidade ganha expressão concreta enquanto pessoa humana no planeta Terra e vai prosseguir séculos fora até ao seu futuro pós-humano, sofrendo múltiplas transformações até acabar por desaparecer. É um conto-vertigem, este, um conto que arrebata qualquer pessoa que se deixe encantar com a perspetiva cósmica das coisas. É o meu caso. Sim, o título está bem dado. Francamente bom.

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domingo, 21 de janeiro de 2018

Lido: Um Velho Engenheiro

Um Velho Engenheiro é um miniconto (poema?) de Luiz Bras sobre os perigos da construção de androides. Especialmente de androides chamados J4N3. E isto já é mais longo que o miniconto (poema?) propriamente dito.

É uma micro-história eficaz e divertida e de um texto deste tamanho não se pode esperar muito mais do que isso, a menos que se trate de algum exemplo completamente fora de série da arte. Este não o é. É bom, mas não fora de série.

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