segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Thackery T. Lambshead: Uma Introdução Relutante do Dr. Lambshead

Era inevitável que um livro como este contivesse Uma Introdução Relutante do Dr. Lambshead (bibliografia), "escrita" obviamente pelo próprio Thackery T. Lambshead (pseudónimo de alguém, claro, mas não se sabe de quem... e eu não faço apostas), mas a verdade é que este texto é significativamente pior que os dois que o antecederam. Porque o "Lambshead" que aqui escreve tem de se manter fiel à personagem, e esta é um velho jarreta dificilmente suportável mas coerente, apesar de louco, cheio de ressentimentos, tendente a disparar azedume para todos os lados, o que faz com que o texto esteja muito longe do humor esfuziante dos dois primeiros textos. E também literariamente é relativamente pobre. Mas é também um texto que, não sendo absolutamente necessário, contribui para a ficção geral do livro, pelo que, pensando bem, nada tenho a contestar.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 13 de outubro de 2019

Paulo Marques Vasco: Janelas Para Lugar Nenhum

Uma das melhores maneiras de contar histórias simples de uma forma interessante é contá-las de um modo invulgar, ainda que nem sempre contar uma história de um modo invulgar resulte numa história bem contada. É também necessário que o modo se adeque à história, e isso exige um equilíbrio e uma reflexão que nem sempre são alcançados. Mas posso dizer desde já que Paulo Marques Vasco as alcançou neste seu conto. É um bom conto.

Ajuda que a história só enganadoramente seja simples. Janelas Para Lugar Nenhum é a história de uma mulher com um marido profundamente doente de Alzheimer, e de como as circunstâncias da vida dela conspiraram para a levar a essa situação. Contada num misto de narração em terceira pessoa e depoimentos das personagens mais importantes (a própria mulher, a mãe dela e uma amiga de juventude chamada Inês), vai levando o leitor a vários momentos da história de vida da mulher através do olhar dessas três personagens, com um uso extenso da memória.

A principal qualidade deste conto tem a ver com esse uso da memória, pois Paulo Marques Vasco consegue dosear muito bem a informação que fornece, por forma manter bem acesa a curiosidade do leitor pelo que vem aí, num número de equilibrismo entre a informação fornecida e a retida que está no ponto precisamente certo. Há sugestões e indícios na página tal, mais à frente revelam-se corretos, ou não, enquanto outros indícios e sugestões ocupam o seu lugar, até que no final tudo é revelado e amarrado com uma última carta deixada pela protagonista. Sem este desvendar progressivo, o conto dificilmente resultaria. Com ele, resulta em pleno.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas da semana #36

Esta semana voltou uma vez mais a haver Leiturtugas, e ainda mais que na semana anterior, o que é extraordinário. Decididamente não há fome que não dê em fartura, caramba.

Mas primeiro tenho de falar de uma chegada ao projeto e uma desistência. A entrada é a do The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction, a primeira publicação coletiva a participar. A saída coube ao blogue de Raquel Silva, So Happy With Less. E a propósito quero sublinhar o seguinte: qualquer publicação online pode aderir ou sair ou regressar ao projeto a qualquer momento e os objetivos anuais são isso mesmo: objetivos a atingir, não uma obrigação. Podem permanecer no projeto mesmo sem os cumprir, naturalmente, e também podem prosseguir depois de alcançarem os objetivos. Naturalmente, eu prefiro a segunda opção à primeira, mas são ambas igualmente válidas. Além disso, tenho planeado criar aqui na Lâmpada uma página com links para sítios onde exista FC portuguesa online, para ajudar aqueles que quiserem alcançar os objetivos mas não tiverem possibilidade de adquirir material em papel. Ainda não tive tempo, mas conto fazê-lo muito em breve.

Posto isto, siga para bingo. A semana abriu com uma opinião sobre uma leiturtuga retroativa, publicada ainda em setembro, fruto da adesão do Portuguese Portal ao projeto. Trata-se do romance Dormir com Lisboa, de Fausta Cardoso Pereira, um caso curioso de um livro português que não conseguiu ver-se publicado em Portugal, acabando por sair pela editora galega Alcaia. É um livro de realismo mágico, i.e., sem FC, pelo que o Portuguese Portal se estreia com 0c1s.

Seguiu-se a Carla Ribeiro com a sua opinião sobre a antologia de fantástico rural O Resto é Paisagem, organizada pelo Luís Filipe Silva e publicada pela Divergência. Tudo indica que se trata de um livro sem qualquer FC, pelo que a Carla passa a 2c3s.

Depois foi a vez de aparecer uma opinião da Cristina Alves sobre mais um livro sem FC e publicado pela Divergência. Trata-se do romance de horror de Pedro Lucas Martins intitulado As Sombras de Lázaro. A Cristina passa assim a 5c7s e continua a faltar-lhe uma leitura com FC para cumprir os mínimos da coisa.

Depois, temos uma descoberta que me tinha passado despercebida até agora. A Nights fez o segundo vídeo em que inclui material para as Leiturtugas, tendo-me o primeiro (publicado a 4 de julho) passado completamente ao lado. Nesse, fala de um romance de fantasia de João Fialho intitulado Adronák - O Sonho, publicado por uma editora de que eu nunca tinha ouvido falar (nem do livro, diga-se): AL-Publicações. Ou seja, a Nights chega ao outono com 0c1s.

No segundo vídeo, publicado agora, falou de mais coisas. Só da Carina Portugal foram três: Duas Gotas de Sangue e um Corpo Para a Eternidade, uma noveleta de fantasia publicada pela Smashwords, O Pequeno Herói, também uma noveleta de fantasia publicada pela Smashwords e A Ponte das Almas Negras, mais uma noveleta de fantasia, mas esta publicada pela Fantasy & Co. Mas há mais! Falou também de duas BDs: A Ilha do Futuro, de José Ruy, publicado pela Meribérica, e Eternus 9, de Vítor Mesquita, não sei de que editora porque há dois álbuns e ela não diz de qual deles fala. E ainda... sim, que há mais... A Rosa de Inês, de Rosa Lobato de Faria, que aparentemente é um romance com pelo menos uma pitada de FC e foi publicado pela Bis. À exceção deste último, é tudo sem FC, porque as BDs vão para essa coluna mesmo quando a têm, pelo que a Nights salta para 1c6s.

Puff... puff...

E por fim, para acabar este lençol, falta fazer o balanço até ao fim de setembro que tinha ficado por fazer na semana passada. E cá está ele:

Publicação Já cumprido Falta cumprir Mês de início
O Senhor Luvas objetivo ultrapassado janeiro
O Prazer das Coisas objetivo ultrapassado janeiro
A Lâmpada Mágica objetivo ultrapassado janeiro
Ideias de Leitora 1c4s 1 (2c) fevereiro
Rascunhos 5c6s 1 (1c) janeiro
As Leituras do Corvo 2c2s 2 (1c) janeiro
Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction 0c1s 3 (2c) setembro
Intergalactic Robot 5c3s 4 (1c) janeiro
O Blog do Jauch 2c1s 9 (4c) janeiro
Words a la Carte 0c1s 9 (5c) março
Atmosfera dos Livros - 12 (6c) janeiro
Faces de Marisa - 12 (6c) janeiro
So Happy with Less - 5 (2c) março

Como se vê, três participantes já acabaram, dois estão mesmo quase e outros três estão na calha para acabar mais ou menos nas calmas. Os outros quatro nem tanto (embora um deles — a Nights — vá bem mais avançado do que parece aqui), mas nada que seja impossível.

Boas leituras.

Aí vem mais um dos "meus"!

Discretamente, a Saída de Emergência pôs há dias em pré-venda (e com brinde) a minha tradução mais recente, cuja capa podem ver aqui ao lado. Disponível a partir de 8 de novembro, este O Armazém, de um autor que eu desconhecia até pegar nele, Rob Hart, é um livro de ficção científica de futuro próximo que também pode ser visto como uma distopia político-económica. E não estou a dizer nada que não se possa compreender lendo a sinopse.

Por falar em sinopse, ei-la:
A CLOUD NÃO É APENAS UM LUGAR PARA TRABALHAR. É UM LUGAR PARA VIVER. E QUANDO LÁ SE ENTRA NUNCA MAIS SE QUER SAIR.

Paxton nunca pensou que trabalharia como segurança para a Cloud, o gigante da tecnologia que domina a economia americana depois do desaparecimento do comércio tradicional na sequência de uma série de assassínios em massa. Muito menos que se mudaria para as instalações em expansão onde é possível viver e trabalhar. Mas quando se compara com tudo o resto que existe, a Cloud não é assim tão má. E quando conhece Zinnia, as coisas melhoram com a esperança de um futuro partilhado.
Mas Zinnia não é o que parece. E Paxton, com acesso a credenciais de segurança, é o peão perfeito para ela descobrir os segredos mais negros da empresa. À medida que a verdade sobre a Cloud se vai revelando, ambos terão de perceber até onde a empresa está disposta a ir para tornar o mundo num lugar melhor.
O Armazém é um thriller brilhante sobre um futuro próximo e o que acontece quando o Big Brother se junta ao Big Business... e quem pagará o preço final.
Sim, é isso mesmo. Trata-se de um livro que pega em tendências socioeconómicas muitíssimo atuais e práticas empresariais de empresas muito concretas (a Cloud pode ter esse nome, mas o nome que não me largou a cabeça ao longo da leitura inicial e da tradução é outro, um nome de três sílabas que faz lembrar um certo e determinado rio) e as extrapola para uma década ou duas no futuro, acompanhando alguns meses da vida de um punhado de pessoas inseridas nesse futuro. É sobretudo uma reflexão inteligente sobre o rumo do capitalismo predatório, neoliberal e cada vez mais monopolista que temos e da forma como ele ameaça tomar conta também do discurso ambientalista, obviamente para proveito próprio. Um livro sobre o presente, portanto, como de resto sempre acontece na ficção científica, e sobretudo na FC de futuro próximo.

Não foi livro que me tivesse criado muitas dificuldades à tradução, ao contrário do que muitas vezes acontece quando se traduz ficção científica. A tecnologia que aqui aparece é pouco mais avançada que a tecnologia contemporânea e o mundo é o nosso, levemente protejado num amanhã que não canta lá muito, pelo que não existem grandes neologismos a reinventar; foi só questão de pesquisar alguns termos em uso, descobrir que são quase todos anglicismos, lamentar o facto, e usá-los sem pestanejar.

Mas foi um livro que gostei bastante de traduzir. Por me trazer de volta ao meu género preferido, claro, depois d'Um Estranho Numa Terra Estranha do Heinlein, mas também por tê-lo achado muito relevante para os tempos que correm e para uma reflexão muito fundamental sobre que sociedade queremos ter no futuro próximo e que espécie de abordagem queremos usar face às enormes ameaças que pairam sobre a civilização humana neste planeta, com as alterações climáticas à cabeça.

E além do mais, é dedicado a uma lusoamericana, nascida no Massachusetts, filha de pais portugueses que foram para a América em busca do sonho americano. Mas não foi o que ela encontrou, muito longe disso.

sábado, 12 de outubro de 2019

Têssevê: Na Noite de Halloween

Já não é o primeiro texto deste livro que mostra uma pegada francamente infantojuvenil, usando uma forma mais propícia a ser contada em voz alta a criancinhas de olhos redondos do que propriamente a ser lida por adultos pelos olhos dos quais já passou muita coisa diferente. Como eu. Suponho que outra coisa dificilmente seria de esperar de algo com o título de Na Noite de Halloween (bibliografia), tradição alheia em que os miúdos desempenham papel de relevo e que vai invadindo também este retângulo, sobretudo porque convém a quem tem coisas para vender. Ou seja, não é surpreendente que Tessevê (pseudónimo de Natália Vale) tenha seguido esse caminho. A pergunta é: seguiu-o bem?

Bem... mais ou menos. Embora de uma maneira geral sejam corretos, há nestes versos problemas de ritmo que teriam impacto negativo quando se tentasse dizê-los em voz alta, e há também aqui e ali algumas palavras desnecessariamente complicadas, que teriam de ser explicadas à maioria dos miúdos. Há situações em que a simplicidade é desejável, e esta é uma dessas situações. Mas apesar do que ficou dito, este não é um mau texto.

Textos anteriores deste livro:

Susana Celina: Canto de Élea e Myrdhin

Este Canto de Élea e Myrdhin (bibliografia) é bem capaz de ser o mais ambicioso de todos os poemas incluídos nesta antologia. Razoavelmente longo, estendendo-se por quatro páginas, conta no essencial uma história de amor, não necessariamente feliz, no ambiente de fantasia que os nomes que Susana Celina escolheu para as suas personagens fazem prever. E não me parece que seja mau, apesar de uma certa queda para o chavão que, mais uma vez, já os nomes indicam. Há trechos razoavelmente bons, embora outros me pareçam algo fracos e aqui inclui-se uma vez mais o remate do texto, muito pouco satisfatório.

Em suma, um texto desequilibrado que teria beneficiado de alguma reescrita capaz de conservar os trechos bem conseguidos e de dar uns retoques mais ou menos intensos aos que não o estão. Por outras palavras, podia ser melhor do que é. Mas há aqui textos piores.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Em setembro falou-se de...

E cá temos mais um destes posts que fazem um apanhado ao que se foi publicando por aí no que toca às leituras de ficção científica e suas tangentes na web de língua portuguesa. Como sempre, tudo começa com links. O link para o primeiro post desta série, onde se explica o que é isto, de onde vem e quais as suas limitações, e o link para a tag leituras fc, onde se reúnem todos os posts relevantes, presente, passados e, quando for tempo disso, futuros. Também como sempre, informa-se os eventuais apressados, que veem estas listas aqui por baixo, acham uma chatice e pretendem passar à frente, de que depois das listas há alguns parágrafos com os comentários que a recolha me suscita, pelo que se pretendem um pouco de análise (e é mesmo pouco, não é nada de particularmente profundo), podem puxá-la para cima. E pronto, é isso. Vamos às listas? Vamos às listas.

Ficção portuguesa:
  1. No Topo da Cadeia Alimentar, de Pedro Manuel Calvete (conto)
  2. Quem Chama Pelo Senhor Aventura?, de Rita Garcia Fernandes
  3. Subpólis, de Miguel Garcia (conto)
  4. A Conjura, de António de Macedo (conto)
  5. O Príncipe Mais que Perfeito, de Isabel Cristina Pires (conto)
  6. Ensayo Sobre la Ceguera, de José Saramago
  7. Os Romanos, de António Manuel Venda (conto)
Ficção brasileira:
  1. O Antissocial, de Fernando Azevedo
  2. Sonhos e Pesadelos, de Gabriel Billy
  3. Entre a Luz e a Escuridão, de Ana Beatriz Brandão (2x)
  4. Anacrônicos, de Luiz Bras
  5. Asimov e os Perseguidores da Lua, de Júlio Emílio Braz e Patrícia Martins
  6. Serpentário, de Felipe Castilho
  7. Extemporâneo, de Alexey Dodsworth
  8. Rede Vermelha em um Oceano de Merda e Outros Contos, de Cláudia Dugim
  9. Feitos de Sol, de Vinícius Grossos
  10. As Esferas, de Nelson Issa
  11. O Fantasma da Máquina, de Gabriela S. Nascimento
  12. News for Mr. Name, de Reinaldo Santos Neves
  13. O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci (4x)
  14. Fallen Angels, de Francélia Pereira
  15. Nana-Neném, de Newton Rocha (conto)
  16. A Telepatia São os Outros, de Ana Rüsche
  17. WOW - O Primeiro Contato, de Pablo Zorzi (2x)
Ficção internacional:
  1. Cidade da Morte, de Douglas Adams
  2. Zathura, de Chris van Allsburg
  3. Opostos, de Jennifer L. Armentrout
  4. Originais, de Jennifer L. Armentrout
  5. Menace of the Machine, org. Mike Ashley
  6. Fundação, de Isaac Asimov
  7. Segunda Fundação, de Isaac Asimov
  8. Trilogia da Fundação, de Isaac Asimov
  9. O Conto da Aia, de Margaret Atwood
  10. O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle
  11. Farenheit 451, de Ray Bradbury
  12. Rondam Tigres, de Ray Bradbury (conto)
  13. Laranja Mecânica, de Anthony Burgess (3x)
  14. Best Women's Erotica of the Year, vol. 5, org. Rachel Kramer Bussel
  15. A Parábola dos Talentos, de Octavia E. Butler
  16. Despertar, de Octavia E. Butler
  17. Kindred, de Octavia E. Butler
  18. Antologia da Literatura Fantástica, org. Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo
  19. The Metal Horde, de John W. Campbell Jr. (conto)
  20. A Passagem, de Justin Cronin (2x)
  21. Ubik, de Philip K. Dick
  22. Criaturas Estranhas, org. Neil Gaiman
  23. Metro 2033, de Dmitry Glukhovsky
  24. A Curva do Sonho, de Ursula K. Le Guin
  25. April in Paris, de Ursula K. Le Guin
  26. Herdeiras de Duna, de Frank Herbert
  27. The Godmakers, de Frank Herbert
  28. Serotonina, de Michel Houellebecq
  29. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
  30. Aftershocks, de Marko Kloos
  31. The Calculating Stars, de Mary Robinette Kowal
  32. Além do Planeta Silencioso, de C. S. Lewis
  33. Perelandra, de C. S. Lewis
  34. O Despertar de Cthulhu, de H. P. Lovecraft
  35. A Escolhida, de Lois Lowry
  36. O Doador de Memórias, de Lois Lowry
  37. O Jogo do Coringa, de Marie Lu
  38. Ladra de Almas, de Sarah J. Maas (2x)
  39. Intocável, de Tahereh Mafi (2x)
  40. Lovestar, de Andri Snær Magnason (2x)
  41. Caixa de Pássaros, de Josh Malerman
  42. Inspeção, de Josh Malerman (5x)
  43. Estação Onze, de Emily St. John Mandel
  44. Nightflyers, de George R. R. Martin (4x)
  45. Terra da Liberdade, de Anne McCaffrey
  46. Máquinas como Eu, de Ian McEwan
  47. A Altura Deslumbrante, de Katharine McGee
  48. Cinder, de Marissa Meyer
  49. Cress, de Marissa Meyer
  50. A Vingança do Astronauta, de Louis G. Milk
  51. Estação nas Estrelas, de Louis G. Milk
  52. Os Seis Finalistas, de Alexandra Monir
  53. Binti, de Nnedi Okorafor
  54. 1984, de George Orwell
  55. Amazónia, de James Rollins
  56. Contato, de Carl Sagan
  57. Skyward, de Brandon Sanderson
  58. A Reação Adversa do Caos, de Stephanne Says
  59. A Última Colônia, de John Scalzi (2x)
  60. Vilão, de V. E. Schwab
  61. Frankenstein, de Mary Shelley
  62. O Ceifador, de Neal Shusterman
  63. Seca, de Neal Shusterman e Jarrod Shusterman
  64. Quando as Estrelas Caem, de Meagan Spooner e Amie Kaufman
  65. Tempo Fechado, de Bruce Sterling
  66. Stalker, de Arkady e Boris Strugatsky
  67. Aniquilação, de Jeff VanderMeer
  68. The Big Book of Science Fiction, org. Jeff VanderMeer e Ann VanderMeer
  69. Através do Vazio, de S. K. Vaughn (5x)
  70. A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne
  71. Dezasseis, de Rachel Vincent
  72. Luta Contra o Tempo, de Rachel Ward
  73. O Caos, de Rachel Ward
  74. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells
  75. O Homem Invisível, de H. G. Wells
  76. All Systems Red, de Martha Wells
  77. Impostores, de Scott Westerfeld
  78. Nós, de Evguéni Zamiatin
  79. As Horas Vermelhas, de Leni Zumas
Não-ficção internacional:
  1. Sobre a Escrita, de Stephen King
Como o mês anterior, também setembro foi bastante mau para a FC portuguesa. Apenas 7 títulos não chegam a um patamar mínimo minimamente saudável, mais a mais se tivermos em conta que 5 desses títulos são de contos e comentados aqui mesmo na Lâmpada. Responsabilidades? A falta de edições é um responsável óbvio, pois ainda que elas tenham descongelado em setembro há sempre um certo compasso de espera até aparecerem as primeiras opiniões. Provavelmente bastará esse descongelamento para fazer com que outubro seja significativamente melhor, mas só o saberemos daqui a um mês. Setembro termina mau, e sem destaques a fazer, pois todos os autores estão presentes na lista uma só vez.

No que toca ao Brasil, as coisas mudam significativamente de figura. Embora não chegue a números alcançados em outros meses, 17 títulos comentados é um valor muito aceitável, especialmente tendo em conta que, ao contrário do que aconteceu noutros momentos, aqui a Lâmpada se manteve desta vez inteiramente afastada do material brasileiro e só um se refere a um conto, debruçando-se todas as opiniões restantes sobre livros. Mais: não só houve quase duas dezenas de títulos como alguns deles foram mencionados mais que uma vez, cabendo a esses autores o destaque do mês porque nenhum autor tem menções a mais que um título. Ana Beatriz Brandão recebeu duas menções, Fausto Luciano Panicacci quatro e Pablo Zorzi duas.

E quanto a leituras internacionais, o número de títulos caiu significativamente do mês anterior para este. 79 fica bastante abaixo dos 102 de agosto, e nem se pode dizer que haja a explicação de títulos visitados por uma quantidade invulgar de leitores, pois o máximo de leituras de um só título pouco sobe relativamente ao mês anterior: cinco. Os destaques do mês são Josh Malerman, com 6 opiniões distribuídas por dois títulos, George R. R. Martin, com 4 opiniões a um só título e S. K. Vaughn, com 5 opiniões também sobre um só título.

E quanto a setembro estamos conversados. Siga para outubro, que o tempo não espera por ninguém.

Suzana Patrocínio: Poética das que Foram Felizes para Sempre

Não há muito a dizer sobre este poemazito de Suzana Patrocínio, até porque ele é curtinho. Poética das que Foram Felizes para Sempre (bibliografia) não é dos piores poemas que já aqui li, mas também não é dos melhores, limitando-se a um textozinho genericamente correto mas sem rasgo, elaborado com base nas histórias infantis, e principalmente na da Bela Adormecida.

O mais interessante nele é recuperar das histórias populares originais uma certa atmosfera de horror mais ou menos sobrenatural que quando são infantilizadas geralmente perdem. E como o poema é mesmo muito curtinho, e não tem muito mais que se lhe diga, vou ficar por aqui.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Edgar Rice Burroughs: John Carter

Há livros que, pior piores que sejam, constituem marcos na evolução de um género literário e por isso devem fazer parte da bagagem de qualquer leitor desses géneros. A ficção científica tem alguns muito bons, mas também tem alguns bastante maus. Este John Carter (bibliografia), de Edgar Rice Burroughs, pertence ao segundo grupo.

Não que seja um livro despido de qualidades, atenção. Nenhuma obra se transforma em marco seja do que for se não tiver qualidades suficientes, mesmo que a qualidade global seja baixa, para levar os seus leitores a ignorar os defeitos e as deficiências. Até porque, como cada pessoa valoriza diferentemente as várias facetas da criação literária (e artística em geral), não é muito difícil que aqueles que dão um peso significativamente maior às facetas em que a obra x é boa do que àquelas em que é má acabem por a considerar bastante melhor do que realmente é. E vice-versa. Isto acontece com tudo e em todos os campos, e é um dos velhos, e pelos vistos eternos, motivos de conflito entre os apreciadores dos vários géneros literários e aqueles que os remetem para o campo das paraliteraturas.

No caso deste romance, a principal qualidade reside em algo que na opinião de alguns é um dos marcos identificativos da ficção científica, embora eu discorde: o maravilhamento, mais conhecido pela expressão inglesa sense of wonder.

John Carter ainda o tem com alguma abundância, apesar de toda a literatura acumulada no mais de um século que se passou desde que foi publicado, apesar de todos os filmes e bandas desenhadas e jogos de computador, e por aí fora. Isso é realmente uma qualidade incontestável deste livro, e deriva da escala em que Burroughs constrói a ambientação. É um mundo inteiro que torna razoavelmente palpável, fortemente baseado na mitologia greco-romana que atribui a Marte um caráter guerreiro, e na ideia que Percival Lowell divulgou sobre Marte, a de um mundo seco, mas vivo, no qual longos canais funcionam como rede de recuperação e aproveitamento da escassa água nele existente. Não é por acaso que quando se fala deste livro Barsoom vem sempre à baila: é sinal de que Barsoom é o mais importante protagonista da história. Barsoom?, perguntarão. Sim, Barsoom. Trata-se do nome marciano de Marte.

E é basicamente Barsoom o que transforma este livro num clássico. É Barsoom (a par do Marte d'A Guerra dos Mundos, que no entanto está muito escassamente descrito no romance de Wells) que influencia autores posteriores a escrever as suas próprias versões do romance planetário ambientado em mundos quase sem água, de Ray Bradbury, que se mantém fiel ao Marte lowelliano, a Frank Herbert, que transfere um ambiente semelhante para o seu próprio planeta a que chama Duna, só para mencionar dois nomes grandes.

Porque de resto, é muito o que neste livro é fraco, mau, feito de chavões e pouco imaginativo. O enredo, por exemplo, é aquele típico enredo de "homem branco chega ao país dos selvagens, cujo ambiente, modo de vida e tradições ignora por completo mas apesar disso se torna naturalmente seu líder e parte para a guerra para corrigir todas as injustiças e ficar com a gaja boa", tão comum nas ficções simplistas e supremacistas dos últimos 200 anos, pelo menos. O protagonista é o não menos típico herói ultraviril que derrete qualquer fêmea que se aproxime dele mais que meia dúzia de quilómetros, a menos que seja velha, feia e má porque essas não interessam a ninguém, e avança intrepidamente para qualquer perigo e desafio, saindo-se invariavelmente bem de qualquer empreitada, mesmo que por vezes pareça meter-se em assados intransponíveis. A escrita é no máximo básica, meia-bola e força, completamente nua de subtilezas. E por aí fora.

Ou seja: o interesse deste romance reside sobretudo na sua relevância histórica para o desenvolvimento de um género, seja na literatura, seja noutros meios de contar histórias. John Carter continua bem presente, cem anos depois, e de uma forma ou de outra, em muitos livros, sim, mas sobretudo em muitas bandas desenhadas e em muitos filmes e séries de TV. Deverá por isso ser lido por quem quiser compreender de onde vêm certas características das artes narrativas, sobretudo as americanas ao longo do século XX. Não virão inteiramente daqui, certamente, mas algumas têm aqui as suas verdadeiras origens e, para as que não as têm, este romance constitui um bom exemplo do que se fazia na época, pois este tipo de história extravasava bastante a ficção científica, surgindo em pleno em histórias de aventuras dos géneros mais díspares.

O que ficou escrito acima não chegou para que eu gostasse desta leitura, mas bastou para que a achasse interessante. Já é qualquer coisa.

Este livro foi comprado.

Álvaro Guerra: Ponta Tenente

Que me lembre, de Álvaro Guerra só tinha lido até agora um conto fantástico, e tinha gostado. Embora tenha sido um autor com obra razoavelmente extensa (uns 15 livros), não é lembrado com muita frequência quando se fala de literatura portuguesa, e tende a passar-me despercebido, e provavelmente não só a mim. Não sei bem porquê, especialmente agora que voltei a ler um conto dele, e voltei a gostar: parece ser autor bastante interessante.

Este Porta Tenente é bastante diferente do outro conto dele que eu li. Nada tem de fantástico, para começar; trata-se de uma história que faz praticamente um retrato do colonialismo português em África, corporizado no protagonista: um bronco que abre uma exploração agrícola na Guiné e trata os homens e as mulheres que para ele trabalham praticamente como se fossem escravos, com crueldade e violência (e fazendo um nunca-acabar de filhos às mulheres, apesar de ter deixado família em Portugal) até tudo terminar em decadência, loucura e morte.

Com qualquer coisa de Apocalipse Now, apesar de não incluir nenhuma menção à guerra, pois muito do conto tem a ver com a tentativa do homem branco colonial alterar à sua semelhança uma zona dos trópicos, com a sua floresta luxuriante, abundância de água e doenças, acabando por ser alterado, enlouquecido e, em última análise, morto por ela, este é um conto francamente interessante que me espevita a curiosidade por outras coisas do autor.

Maria João Mesquita e Jorge Augusto Pópulo: O Paraíso Perdido

E ao texto número 13 deste livro, a primeira surpresa positiva. Em primeiro lugar pelo inesperado. O Paraíso Perdido (bibliografia), embora seja um poema, não é propriamente um poema; é um libreto de ópera. Depois, pelo facto de ser escrito a quatro mãos e mesmo assim ter solidez estilística. Naturalmente não sei como Maria João da Silva Gomes Mesquita e Jorge Augusto dos Santos Pópulo trabalharam esta colaboração mas, fosse como fosse, resultou. E eu nunca tinha visto um poema, essa forma literária intimista por natureza, escrito por duas pessoas. Finalmente, porque este é o poema mais bem escrito que aqui encontrei até agora.

Como é natural num texto com o título de O Paraíso Perdido, a inspiração aqui é bíblica. O poema-libreto como que narra as motivações por trás da queda de Lúcifer, explicando-as com o amor. Não é dos temas que mais me entusiasmem, mas os autores tratam-no de forma bastante superior a todos os textos que antecederam este. Julgo que o contraste o faz parecer melhor do que realmente é, mas mesmo sem contraste este poema seria sempre inteiramente publicável.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 6 de outubro de 2019

Leiturtugas da semana #35

Ena, ena! Não há fome que não dê em fartura! É que não só se cumpre a profecia aqui deixada no último destes posts, a de que esta semana voltaria a haver Leiturtugas, como as houve com invulgar abundância. Querem ver?

Começou, uma vez mais, com a Tita, que publicou uma pequena opinião (sim, expandida em vídeo; vocês já sabem) sobre o mais recente livro da Sandra Carvalho, A Noite do Caçador, uma edição da Presença. Trata-se de um livro de fantasia, sem FC, portanto, pelo que a Tita passa a... ah, esperem; ela já cumpriu os objetivos, pelo que não vale a pena continuarmos a fazer contas ao deve e haver.

Seguiu-se a Carla Ribeiro, também com uma opinião sobre A Noite do Caçador da Sandra Carvalho. Parece que combinaram. A Carla ainda não tem os objetivos cumpridos, pelo que ainda há deve e haver a fazer, que no caso dela dá mais um sem FC, ou seja, 2c2s.

Mas esperem, que há mais. É que a seguir da Carla veio o Artur Coelho, de novo com uma opinião sobre um livro de BD, muito curta no blogue dele mas mais desenvolvida noutro sítio, para o qual remete. Coube desta feita a análise ao álbum Tangerina de Rita Alfaiate, uma edição da Escorpião Azul. BD, já se sabe, conta como "sem FC", quer a tenha quer não tenha, pelo que o Artur passa a 5c3s.

E é tudo? Não, não é tudo. Ainda houve um certo Jorge Candeias que publicou a sua opinião sobre uma antologia intitulada Mensageiros das Estrelas, organizada por um trio composto por Adelaide Meira Serras, Duarte Patarra e Octávio dos Santos e publicado pela Fronteira do Caos. É um livro com FC, pelo que o dito cujo sobe a 6c7s. Ah, sim, e assim se cumprem os objetivos mínimos do projeto. Daqui em diante é só lucro.

Para a semana veremos se a fartura continua (muito improvável), mas haverá quase de certeza algo que devia ter havido nesta semana mas, com a abundância de material e a consequente extensão deste post, acabei por não ter tempo para a fazer: a tabelinha de balanço do estado em que cada participante tem a sua parte. Até lá.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Serras, Patarra e Santos (orgs.): Mensageiros das Estrelas (#leiturtugas)

Não eram altas as expectativas com que parti para a leitura desta antologia. Mensageiros das Estrelas (bibliografia), organizada por Adelaide Meira Serras, Duarte Patarra e Octávio dos Santos, já vinha bastante mal recomendada, especialmente por pessoas cuja opinião me habituei a respeitar. Mas, como contém histórias de alguns dos mais renomados escritores portugueses de ficção científica e fantástico, esperava gostar pelo menos dessas, pelo que nunca achei que fosse assim tão má. Mas é.

Esperava gostar da história do Luís Filipe Silva, um dos melhores autores portugueses de ficção científica, com várias histórias inteligentes, estimulantes e bem escritas no currículo, mas o que ele apresenta aqui é uma aventurazinha inconsequente e muito pulp, bastante longe do seu melhor. Nunca tendo sido grande fã do António de Macedo, estou no entanto habituado a encontrar nas ficções dele correção técnica, não o recurso a um dos truques estilísticos mais totalmente desacreditados das ficções fantásticas. Dos autores de algum renome, só o João Seixas cumpriu, mesmo que também dele já tenha lido coisas mais inovadoras que a que aqui publica.

Quanto aos outros, de alguns não esperava nada, ou por nunca os ter lido, ou por não ter lido o suficiente para ter alguma espécie de expetativa, e de outros não esperava mais que a mediocridade habitual e mesmo assim conseguiram surpreender-me pela negativa, com textos simplesmente impublicáveis.

Para piorar as coisas, uma porção significativa dos contos mais bem conseguidos utiliza abordagens e temas que pouco estimulam o meu gosto literário, situando-se naquele grupo de textos nos quais reconheço qualidade mas que não me agrada particularmente ler. Estão neste grupo os dois melhores contos do conjunto, Das Visitações e Anamorfose, e também Aventura Borgiana: Uma Sinopse Avançada, que está um pouco abaixo destes dois mas acaba por ser também significativamente melhor que a média da antologia. Outros contos acima da média são, sem senões, O Confessor e O Príncipe Mais que Perfeito e, um pouco mais abaixo, mesmo a rasar a média, Tour de Main, In Falsetto, O Preço de uma Coroa e, apesar de tudo, A Conjura e Assombração.

Assim sendo, esta antologia vale a pena? Costumo dizer que uma antologia vale a pena desde que tenha pelo menos um texto muito bom ou vários bons e aqui não existe nenhum texto muito bom, embora existam dois muito maus, o que desde logo aponta para uma antologia de má qualidade (na verdade, é a pior antologia de FC&F portuguesa que eu li desde a pior das antologias da Simetria — A Viagem — embora esteja agora a ler outra que segundo tudo indica vai ser ainda pior). Mas há bons. Tudo fica a depender, portanto, da definição de "vários". E a melhor resposta que consigo dar é que para mim não valeu a pena, precisamente porque os melhores contos não jogam bem com o meu gosto literário, mas teria valido se jogassem, o que significa que é possível que valha para outros leitores com gostos diferentes dos meus.

Eis o que achei de cada um dos contos:
Este livro foi comprado.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Fernando Pessanha: O Sétimo Céu e as Meninas de Tânger

Terceiro conto desta pequena antologia, e segunda história fantástica. Como o título indica, O Sétimo Céu e as Meninas de Tânger (bibliografia) está ambientada na cidade marroquina de Tânger, e o protagonista é um historiador algarvio que lá se desloca para apresentar uma comunicação num congresso. Mas um encontro fortuito com uma mulher extraordinariamente bela faz-lhe descarrilar a viagem.

Fernando Pessanha serve-se das histórias populares para construir um conto de horror sobrenatural e algo erótico com bastante interesse. Com referências várias às aventuras portuguesas em terras marroquinas ao longo da história e às lendas que essas aventuras geraram (e sim, Dom Sebastião é mencionado, como seria inevitável), a principal fonte de inspiração é, porém, outra: as lendas de mouras encantadas. Porque são mouras encantadas que o protagonista encontra num hotel de Tânger.

Dizer mais seria desvendar demasiado o conto, pois uma das suas facetas mais interessantes está no modo como se vai revelando devagar, como quem afasta véus do que está subjacente à história. Não o farei, portanto. Digo simplesmente que gostei bastante mais desta história do que da segunda, e talvez também tenha gostado mais dela do que da primeira, embora quanto a isso mantenha algumas dúvidas. Seja como for, é uma história francamente interessante.

Contos anteriores deste livro:

Jeff VanderMeer e Mark Roberts: Um Prefácio Entusiástico dos Editores

Se o primeiro texto deste livro mostrava uma abordagem mista entre Borges e uma espécie de humor surreal, este Um Prefácio Entusiástico dos Editores (bibliografia) é igual, só que em mais. Continua a ser pseudofactual, no sentido de se apresentar como texto não ficcional de apresentação a uma obra de não ficção, mas é também, numa palavra, hilariante.

O que Jeff VanderMeer e Mark Roberts aqui fazem é um brilhante relato nas entrelinhas. À superfície, este texto é exatamente o que o título indica, um prefácio entusiástico dos editores, cheio de elogios à multiplicidade de "doutores" que participaram na elaboração do almanaque e ao homem que teria estado na sua génese, o velho Lambshead. Mas nas entrelinhas a história que contam é bem diferente, uma história de absoluta saturação por terem sido obrigados a lidar com tanta gente doida, cada qual com as exigências mais absurdas ou as teses mais abstrusas. E o resultado, a combinação de uma coisa com a outra, é quase de ir às lágrimas. A rir, a rir.

Muito bom.

Texto anterior deste livro:

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Escrita de setembro


Começou por ser uma tentativa de noveleta mas depressa percebi que 17 mil palavras não iam chegar. Passou a novela, e assim permaneceu, pelo menos na minha cabeça, durante alguns anos, pois ficou incompleta no meu disco durante a fase de secura criativa praticamente total. Recuperei-a ainda como novela, mas fui-me apercebendo de que o mais certo seria não caber em 40 mil palavras. Às tantas, ultrapassou as 40 mil palavras, mas ainda mantive a ideia de que a novela, agora romance, provavelmente chegaria ao fim mais pequeno do que Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, que tem 47 mil. Depois ultrapassou as 47 mil. E as 50 mil.

E as 60 mil.

E neste momento está com quase 64 mil. Para cima de 180 páginas. Este mês houve algum abrandamento relativamente a agosto, mas mesmo assim o texto cresceu mais quase 8 mil palavras, o equivalente a umas 23 páginas. Ainda falta um pouco mais: já está naquela fase em que se prepara tudo para o desfecho mas ainda há uns detalhes a acertar, umas linhas a amarrar (se bem que as amarrações finais tenham de ficar para revisões) e umas decisões a tomar relativamente ao que fazer a umas quantas personagens, embora elas tenham mostrado uma certa tendência a decidir por si próprias.

É possível que isto acabe ainda durante... hm... não. Não vou cair outra vez nesta armadilha. Acaba quando acabar.

E não, não escrevi mais nada durante setembro. Foi só romance. No que toca à ficção, entenda-se. Não-ficção escrevi com fartura, incluindo uma coisa que, se e quando o projeto se concretizar, não deixarei de divulgar por aqui. Enquanto isso não acontece, daqui a um mês cá voltarei a falar dos avanços e recuos (às vezes acontecem) do que vou escrevendo. Até lá.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Mary Webb: O Fantasma do Senhor Tallent

Uma coisa liga este conto de Mary Webb a A Voz de Deus, de Winifred Holtby: uma muito corrosiva ironia. E também há uma coisa a ligar O Fantasma do Senhor Tallent (bibliografia) a A Porta Aberta, de Saki (conto que também não é alheio à ironia, diga-se de passagem): uma certa forma de brincar com os chavões das histórias de fantasmas para as subverter de modo realista.

Aqui, o alvo da ironia são aqueles escritores profundamente medíocres que se julgam o pináculo da criação literária e por isso são patologicamente incapazes de aceitar críticas, independentemente de serem brandas, duras ou assim-assim. Conhecem algum exemplar da patética espécie? Pois. O da Mary Webb chama-se Tallent, apelido deliciosamente gozão porque se há coisa de que o homem não tem nem o menor vestígio é talento, o que parece ser comum na raça. Mas não é ele o protagonista: o protagonista é um desgraçado que tem a má ideia de, num momento de ócio desavisado, lhe prestar atenção.

Sem saber bem como, o desgraçado do homem vê-se não só condenado a ter de aturar a nulidade, que insiste em ler-lhe uma das suas obras, mas erigido à condição de seu executor testamentário, o que, como vem a saber não muito mais tarde, tem o potencial para lhe arranjar um sem-fim de chatices porque o Tallent, que até tem o seu dinheiro, deserda toda a família a fim de usar o dinheiro para publicar livros que de outra forma ninguém quereria publicar. Mas que se lixe, pensa, o caso não é grave: o homem não irá propriamente finar-se assim de um dia para o outro e até que o faça tudo pode resolver-se a contento de todos.

Pois. Só que se fina mesmo, e o testamento, acompanhado da impublicável obra, vai mesmo parar às mãos do protagonista. O qual até toma algumas providências no sentido de vir a tentar publicar alguma coisa, o que só consegue fazer com que o Tallent se transforme em anedota (coisa que também é costume acontecer à raça), enquanto enfrenta a furiosa contestação dos familiares deserdados. E os livros ficam por publicar. E depois começam a acontecer coisas fantasmagóricas. Ou talvez não tão fantasmagóricas assim.

Não vou revelar o final da história, ainda que ela já fique disponível a bons entendedores através de várias meias palavras. Digo apenas que este conto é francamente divertido, e mais divertido se torna quando ao longo da leitura se imagina o Tallent com a cara de algum medíocre armado aos cágados que se conheça. Não será um grande conto, mas a ironia é deliciosa.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 29 de setembro de 2019

Filipa Leal: O Lobo da Corte

Um poema intitulado O Lobo da Corte (bibliografia) numa publicação de literatura fantástica chama imediatamente à ideia a imagem do lobisomem. E sim, é precisamente isso o que Filipa Leal nos traz, um poema sobre um lobisomem. Um poema de horror, portanto? Não, isso é que não. Embora o lobisomem seja uma criatura intimamente ligada ao horror, este poema tem uma pegada fundamentalmente infantil, uma daquelas histórias que se contam a miúdos de olhos esbugalhados e bocas abertas de espanto.

E embora não seja nada de superlativo, até está engraçado... até ao final. O final, abrupto e muito menos engraçado que o resto e do que a autora pretendia, estraga tudo. Alguém devia ter dito à Filipa que aquele final era demasiado mau para o resto do poema, pedindo-lhe para arranjar outro, ou para dar melhores roupagens àquele. Mas não. Esta não é publicação em que se faça isso. E é pena.

Textos anteriores deste livro:

José Marracinha: Horas Certas

Perdoem-me esta constatação de facto, porque há uma boa possibilidade de que quem esteja a ler estas palavras seja da zona, nas neste país escreve-se demasiado sobre Lisboa.

Isto não é só desabafo de alguém que está cansado de ver o mesmo cenário em dezenas de textos literários (e letras de canções), embora também o seja. É que a superabundância de histórias lisboetas tem como consequência alguma mesmice em muitas delas. E isso tem como consequência tornar essas histórias menos interessantes do que de outra forma poderiam ser.

Já perceberam, certamente, que as Horas Certas de José Marracinha se passam em Lisboa. Não só se passam em Lisboa, como decorrem num ambiente que faz muito lembrar algumas obras do Mário Zambujal ou o do filme Kilas, o Mau da Fita. Marracinha tenta traçar um retrato de uma série de personagens populares que giram em volta do Clube Recreativo da Ajuda e de um crime de homicídio de que uma delas, um engatatão impenitente, teria sido vítima. Crime esse executado de forma particularmente macabra, pois alguém matara a vítima enfiando-lhe no traseiro um ponteiro de um relógio de igreja.

E sim, a história sofre de mesmice. É aquele ambiente popularucho e afadistado que encontramos em dezenas de obras dos mais variados tipos, a que se acrescenta um enredo a remeter às comédias de costumes que reconhecemos de centenas de histórias contadas em vários meios, mas sobretudo na literatura, pelo menos desde o século XIX. E isso contribui para tornar esta história bastante aborrecida. O estilo enovelado de Marracinha não ajuda a evitar que o ritmo do seu conto fique tão arrastado que nem a faceta policial da história consegue espevitar o interesse do leitor. Ou pelo menos deste leitor.

Não digo com isto que o conto seja mau. Não é; não há nele incorreções de monta e não maltrata a língua. É apenas aborrecido. Muito aborrecido.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas da semana #34

Fantástico, pá: três semanas seguidas com Leiturtugas. Já não acontecia há... oh... bué. E vão ser quatro, que tudo indica que para a próxima semana também vai haver material.

Para esta, quem arrancou com a coisa foi a Tita, com uma brevíssima opinião, como sempre expandida em vídeo, sobre o romance Quem Chama Pelo Senhor Aventura?, de Rita Garcia Fernandes, um livro publicado pela Divergência. Trata-se de uma história juvenil e fantasista que, como acontece com a generalidade das histórias sobre super-heróis, inclui alguns elementos de FC. E assim, a Tita cumpre os objetivos das Leiturtugas com três meses de folga. E pode continuar, que isto não para quando se chega à meta.

Mas não foi só da Tita que vieram Leiturtugas. Também a Carla Ribeiro publicou no seu blogue uma opinião sobre um livro (que eu desconhecia; e só por isto este projeto já valeu a pena) de Adolfo Luxúria Canibal, intitulado No Rasto dos Duendes Elétricos, e publicado pela Porto Editora. Trata-se de um livro de poesia bastante extenso, o qual, sem ser de FC, parece conter elementos razoavelmente fortes de ficção científica. A Carla sobe assim a 2c1s.

E é isto. Até para a semana.

sábado, 28 de setembro de 2019

João Seixas: O Confessor

E eis que a rematar o livro temos um conto de ficção científica bem escrito e razoavelmente bem concebido e executado, o que é mais do que se pode dizer da maioria das textos que o antecederam. O João Seixas sabe o que está a fazer, e aqui não encontramos nem intermináveis infodumps nem como-sabes-Zés a borrar a pintura, ao contrário do que vemos em tantas das ficções anteriores. Encontramos um texto competente, ainda que demasiado curto (três páginas apenas) e demasiado previsível para ter real impacto, o que o impede de ser verdadeiramente bom. Estará entre o razoável mais e o bom menos. Ou seja: é dos melhores contos que aqui se encontram.

Há que reconhecer que a previsibilidade depende da experiência do leitor. Um dos motivos por que O Confessor (bibliografia) é previsível é fazer lembrar bastante por um lado o arco narrativo dos Ori na série de televisão Stargate: SG-1, e por outro um conto do George R. R. Martin intitulado O Caminho de Cruz e Dragão. Um pregador interplanetário visita um planeta para transmitir a sua mensagem (ou confessar os pecadores, o que vai dar ao mesmo) e depara com a incompreensão (ou o ódio) dos locais? Já conhecia. Mas quem não conheça estas obras provavelmente não achará o conto de Seixas tão previsível como eu achei, pois assisti à série e traduzi o conto. E quem não conheça a atitude do autor para com as religiões, como eu conheço, também não terá certamente essa informação a orientar expetativas e a destruir a surpresa que ele tenta criar no final. Conhecendo o que ele pensa sobre religiões, nunca me passou pela cabeça que o conto pudesse ter outro final que não o que tem, mas alguém que não disponha dessa espécie de informação poderá ser surpreendido.

Por outras palavras, é totalmente provável que muitos leitores achem este conto bastante menos previsível do que eu achei. Já a brevidade, e o que ela implica em termos de pouco desenvolvimento da história, é característica bastante mais objetiva, embora também aqui o impacto possa diferir bastante. É provável que isso não atrapalhe grandemente a leitura àqueles para quem o conto não é previsível, mas no meu caso foi mais um fator a somar-se aos restantes para uma experiência de leitura pouco entusiasmante.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Luísa Costa Gomes (ed.): Ficções, nº 10

Não posso dizer que tenha gostado muito deste número 10 da revista Ficções. É uma impressão um bocado injusta, pois de todos estes contos só um me aborreceu sobremaneira, tendo achado vários dos restantes bons ou bastante bons, mas a verdade é que esse conto que foi penoso de ler é também, e de longe, o mais extenso: Aldeia das Cataratas. Das 194 que esta revista preenche, 58 cabem a essa história.

De resto, há um conto que, apesar de o ter achado bom, não me agradou por aí além, e de novo é dos maiores com as suas 26 páginas. Maiores que ele só o referido acima e Um Sonho do Armagedão, do H. G. Wells. Ou seja: das três histórias mais extensas, duas não foram do meu agrado. Não chegam a ocupar metade da revista, mas não estão muito longe disso.

E daí que a opinião global sobre este número da Ficções não seja das melhores, apesar de todos os restantes contos terem tido avaliação positiva e por vezes muito positiva. São histórias muito diferentes umas das outras, como acontece quase sempre, entre as quais se encontra uma história fantástica e uma outra de (uma espécie de) ficção científica, coisas que tendem a agradar-me mais que as restantes, embora aqui não tenha acontecido exatamente isso pois achei o conto fantástico, A Outra Vida, bastante bom, ficando o conto de Wells mais na coluna das histórias relevantes do que das muito boas. Mas é uma boa história, mesmo assim. E há uma outra bastante boa: Amor.

E por isso, mesmo com aquelas duas histórias menos agradáveis à leitura, este número valeu totalmente a pena.

Eis o que achei de cada um dos contos desta publicação:
Esta revista foi comprada.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Miguel Garcia: Subpólis

Uma das consequências mais daninhas de se chamar à ficção científica "literatura das ideias" é transmitir a alguns autores a noção falsa de que as ideias bastam, quando na realidade o segredo está nas técnicas usadas para se transformar essas ideias em obra literária. Se é verdade que existe uma combinação virtuosa de boas ideias com boas técnicas, não é menos verdade que, por melhores que sejam as ideias, se a técnica falha o resultado é deficiente, podendo mesmo chegar, em casos extremos, a ser desastroso.

Miguel Garcia, de que não tenho notícia de ter escrito mais alguma coisa desde que publicou este Subpólis (bibliografia) — no que posso enganar-me, evidentemente — parece sofrer do problema descrito acima. De facto, o seu Subpólis é um conto cheio de ideias, algumas delas bastante boas, sobre uma Lisboa subterrânea onde os poucos sobreviventes de um cataclismo não explicado vão sobrevivendo num ambiente ciberpunk, mas quando chegamos à concretização dessas ideias em obra deparamos com dificuldades.

Porque Subpólis é um conto desconexo, com um enredo cheio de buracos e uma escrita a precisar de trabalho. Há demasiadas personagens para uma história tão curta, o que leva a uma caracterização praticamente inexistente em quase todas (e cheia de chavões nas poucas que têm alguma caracterização) e a uma floresta de nomes difícil de desbastar. O enredo segue também um caminho bastante cliché, com os sempiternos hackers a tentar introduzir-se em sistemas informáticos. O que o conto tem de melhor é a ambientação, que apesar de não estar também isenta de chavões é complexa o suficiente para inspirar interesse e abrir um potencial para exploração que, infelizmente, está muito longe de ser concretizado por esta história. Seria interessante desenvolver este cenário em histórias mais extensas e mais bem amarradas. Quanto a esta...

Quanto a esta, é bastante fraca. Mais uma.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 22 de setembro de 2019

Leiturtugas da semana #33

Ena, ena, duas semanas consecutivas com novidades nas Leiturtugas. Tem sido raro nos últimos tempos. E desta vez muda o protagonista, da Cristina para o Artur Coelho, que publicou uma brevíssima opinião (que remete para uma opinião mais extensa noutra publicação não integrada no projeto) sobre o fanzine Legendary Horror Stories, com um vasto painel de autores (André Oliveira, Pedro Cruz, Aragundes Bicho, Anouk Aukine, Nuno Duarte, Rita Alfaiate, Tiago Cruz, Inês Garcia, Jorge Coelho) e publicado pela Legendary Books. Trata-se de uma edição de BD, logo calha na coluna "sem FC" e o Artur passa a 5c2s.

E por esta semana é só. Veremos se para a semana haverá mais ou não. O momento de reaparecer aqui na Lâmpada uma leiturtuga vai-se aproximando, mas julgo que ainda não será desta vez, pelo que é convosco, rapaziada.

Ingo Schulze: De "33 Momentos de Felicidade"

Há contos bons, há contos maus, há contos interessantes, há contos chatos, há contos tristes, há contos instigantes. Este é um conto divertido. E também é um conto interessante para todos aqueles que conhecem a Rússia soviética ou a Rússia atual mas não aquela Rússia de transição para o capitalismo que Ingo Schulze aqui nos mostra. E eu sou uma dessas pessoas. Na verdade, não só conheço a Rússia, mas a cidade que Schulze nos mostra: Sampetersburgo.

Retirado de um livro intitulado 33 Momentos de Felicidade mas sem título próprio, este conto é protagonizado por um jornalista alemão como o próprio Schulze, que é encarregado de estabelecer em Sampetersburgo um projeto jornalístico, afiliado de uma publicação alemã, e que Schulze tenha trabalhado como jornalista e vivido alguns meses em Sampetersburgo não é de todo irrelevante. Esta história poderá não ser propriamente autobiográfica, mas decerto tem em si muitos elementos que o autor viveu na pele.

É que o seu principal tema é o choque cultural. O confronto entre o formalismo alemão e a informalidade russa (ao mesmo tempo muito semelhante à portuguesa e bastante característica). Schulze escreve-o com bastante piada, descrevendo a forma como a sede do jornal, instalada num velho palacete na zona nobre da antiga capital russa, vai ganhando um ambiente cada vez mais doméstico, e como ele tenta manter a sanidade no meio de toda aquela confusão informal e da surpresa que não cessa de lhe causar o facto de que, apesar de tudo, os russos até trabalham e o jornal até consegue ir saindo a tempo e horas. No fim, acaba por achar que tem de se tentar impor... e acaba derrotado, naturalmente.

Este não é um grande conto, e provavelmente agradou-me mais do que agradará a muitas outras pessoas porque eu conheço aquela realidade (embora não exatamente aquela, do efervescente período pós-soviético e pré-Putin) e elas não. Mas é bom.

Contos anteriores desta publicação: