segunda-feira, 23 de abril de 2018

Lido: O Dia em que Eles Cansaram de Esperar

Há duas ideias particularmente comuns quando se trata de invasões alienígenas. Uma é a do alienígena mau, predatório, que chega à Terra por motivos egoístas, para dar resposta às suas próprias necessidades e não quer saber para nada da população autóctone. Este espelho do ímpeto colonialista europeu é a ideia mais comum, e temos exemplos dela com fartura também na ficção científica lusófona. Vejam-se, por exemplo, tantos dos contos do Barreiros.

A outra, menos frequente que a primeira mas nem por isso rara, é a dos ETs bonzinhos, que nos invadem porque nós somos incapazes de nos governarmos a nós próprios, assim uma espécie de troika interplanetária. É possível argumentar que também esta é espelho do ímpeto colonialista europeu, mas usando desta vez o ponto de vista dos colonialistas — essa ideia de "civilizar os selvagens" era um dos argumentos mais comuns quando se tratava de justificar a opressão colonial. E continua a ser.

É nesta última ideia que O Dia em que Eles Cansaram de Esperar explora.

Embora eu prefira outras abordagens, que também existem, tanto uma como a outra destas duas abordagens mais comuns pode resultar em coisas interessantes, boas ou até muito boas, dependendo de como os autores as exploram. Como sempre, aliás. No abstrato, tudo tem potencial. No concreto é que se vê se esse potencial se cumpre ou não.

Regra geral, há coisas que é bom evitar. Os infodumps são uma dessas coisas. Os longos despejos de informação não em infodump puro mas em diálogo (conhecidos pela expressão inglesa de as-you-know-Bob), são outra. Sermões são outra — há sermões célebres na literatura de língua portuguesa, mas não em obras de ficção (e convém que sejam muitíssimo bem escritos, o que não está ao alcance de qualquer um).

E Renato A. Azevedo não evita nenhuma delas.

O conto, que além do mais não está particularmente bem escrito, inclui um longo sermão sobre a nossa incapacidade para gerirmos a civilização, o as-you-know-Bob é tão evidente que o próprio autor tem necessidade de introduzir no texto uma fala a dar conta dele ("Qual é, Zanin, já sabemos de tudo isso!") e há infodumps em barda com informação sobre os vários tipos de ETs, que não têm surpresa nenhuma para quem já tenha ouvido falar nas teorias da conspiração ufológicas sobre Roswell, abduções e etc. No meio de tudo isto, o enredo principal, uma história de e sobre a resistência aos invasores, quase se perde. Esta história, para ser bem contada, precisaria de ritmo, de ambiência, de personagens sólidas. E este conto não tem nada disso.

É um conto bastante fraco.

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domingo, 22 de abril de 2018

Lido: A Menina sem Mãos

Em A Menina sem Mãos, os Grimm voltam a pegar em mais do que uma história, neste caso duas, e a fundi-las para com elas criarem um conto mais complexo. Ao contrário do que acontece com muitas das outras, que parecem ter sido pouco adulteradas pelo cristianismo e estar mais próximas das suas raízes ancestrais, esta é muito cristã, tendo como protagonista uma rapariga, filha de um moleiro, que é vendida inadvertidamente pelo pai ao diabo, ato que vai ser a origem de uma catadupa de consequências. A rapariga resiste ao mafarrico, acaba por isso por perder as mãos, mas há rezas e anjos e um rei que com ela casa não porque lhe tenha grande amizade mas porque "é bonita e devota" e está sozinha no mundo, e mais peripécias quando o diabo não se fica e tudo parece correr sempre mal, mas depois, no fim, tudo acaba no inevitável felizes para sempre.

É uma daquelas histórias maniqueístas, muito baseadas na ideia cristã da virtude e na ainda mais cristã noção de superação das dificuldades não porque se faça alguma coisa mas através de rezas e da intervenção angélica. Um conto moral conservador, portanto, o que é coisa que tende a desagradar-me por vários motivos. Mas não há dúvida de que os manos Grimm fizeram bem o que se propuseram a fazer: o conto está bem amarrado e é eficaz.

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sábado, 21 de abril de 2018

Lido: O Grande Besouro

Com uns cheirinhos a várias séries e filmes de invasão alienígena que foram aparecendo nas últimas décadas, do V ao Independence Day, e a outras tantas (ou mais) obras em prosa, este conto de Gian Danton não foge muito ao já visto mas tem sobre a maioria das ficções escritas sobre o tema uma grande vantagem: está bastante bem escrito.

Na verdade, pode mesmo considerar-se que o facto de lidar com ideias e tópicos já batidos (uma invasão discreta, uma quinta coluna de ETs que se misturam com a população geral sem ninguém, ou quase, dar conta, seguindo-se a invasão mais declarada com naves gigantescas a surgir nos céus da Terra) é uma vantagem para este O Grande Besouro: ajuda a evitar que o conto se prolongue mais do que a página e muito pouco que ocupa, evita o excesso de infodumps por já conhecermos a maior parte da situação e do enredo, e deixa o autor livre para se concentrar em como vai contar a história. E Danton conta-a realmente bem, com uma prosa agradável salpicada de boas imagens, bom ritmo e escolhas inteligentes do protagonista/narrador e da forma como a informação necessária (pois há sempre alguma) chega ao leitor.

Não será nada de superlativo, que não é, mas este é um bom conto.

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sexta-feira, 20 de abril de 2018

Lido: O Piolho e a Pulga

E cá está. Andava eu admirado por nestas histórias tradicionais alemãs recolhidas (ou melhor: recriadas) pelos Irmãos Grimm não se encontrar nenhuma verdadeira lengalenga, uma vez que as contaminações cruzadas que foram criando ao longo dos séculos um fundo comum nas histórias europeias (e não só) certamente impossibilitariam que tal forma de as contar fosse especificamente nossa, mas este O Piolho e a Pulga é lengalenga das mais puras que se possa imaginar, partindo de um piolho e de uma pulga que viviam juntos e "estavam a fazer cerveja numa casca de ovo" e abalando daí numa sucessão de consequências cada vez mais amplas até ao desfecho desastroso que remata a história. Sendo tão típica, seguindo tão rigorosamente o esquema de qualquer lengalenga, esta historinha tem muito pouco interesse próprio. É uma historieta infantil destinada a divertir a criançada e disso não passa.

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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Lido: Todo o Silício do Mundo...

A obsessão dos leitores e da máquina editorial com os romances é daninha por mais do que uma razão, mas sobretudo porque tende a desprezar um conjunto de obras, muitas delas magníficas, pelo único motivo de serem curtas. A coisa atingiu um ponto de absurdo tal que há quem ache "pequeníssimo" um romance com 300 páginas, e o olhe de soslaio, desconfiada, apenas por esse motivo. Pior: embora alguns autores desenvolvam realmente o seu melhor trabalho em trabalhos dinossáuricos de 500 páginas para cima, muitos outros atingem o auge em extensões mais curtas, e por vezes muito mais curtas. Para cada romancista há alguém que é sobretudo (ou exclusivamente) contista, e é francamente estúpido pôr-se de lado a arte destes últimos apenas por ser mais curta. É como só se achar realmente pintor quem só pinte murais.

Mesmo dentro dos contistas (e uso aqui o termo em sentido lato) existem diferenças apreciáveis. Se alguns exploram melhor os seus estilos e ideias em contos curtos e vinhetas, ou mesmo em extensões ultracurtas, outros precisam de mais espaço para respirar e sentem-se particularmente à vontade na novela, na noveleta ou no conto longo. E Gerson Lodi-Ribeiro pertence claramente a este último grupo, motivo (ou pretexto) pelo qual eu falei disto aqui.

É que li Todo o Silício do Mundo... (bibliografia), um conto curto seu sobre a consequência longínqua de uma invasão alienígena. Ou melhor, reli; o conto está publicado em Portugal numa das suas coletâneas da Caminho e eu já tinha falado sobre ele, brevemente, aqui. E a opinião que me deixou a releitura é idêntica à da leitura: este é dos piores contos dele que li, apesar de a ideia base ser ótima, e embora não seja mau. Mas o Gerson tem muito melhor.

O problema é precisamente, parece-me, o conto ter a dimensão errada para a história que quer contar. Devia ser mais extenso, para pelo menos diluir o infodump, a longa rememoração do que teria acontecido após a invasão dos ETs, em um pouco mais de enredo. Ribeiro tem aqui uma ideia das suas, uma ideia complexa, daquelas que deram origem a tantas boas histórias mais longas, mas tenta contá-la em tão poucas palavras que o resultado sai coxo. Mesmo com a sofisticação do narrador pouco confiável a ajudar e mesmo tendo um final que é a melhor parte do conto.

Mas repito: não é um mau conto. É mediano.

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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Lido: A Pele do Piolho

A Pele do Piolho é mais uma das historinhas populares recolhidas por Adolfo Coelho que giram em volta de uma princesa casadoira e dos testes que os pretendentes têm de passar para conquistarem a mão da dita. Esta, no entanto, é muito curta, pouco mais de uma página (incluindo uma ameaça em verso), parecendo versão abreviada de história mais desenvolvida, aqui reduzida praticamente ao osso. O título já sugere a história, pois tudo está relacionado com um piolho que se alimentou durante anos da cabeça do rei, com autorização e por vontade deste, sendo morto quando acaba por ficar gigantesco, a fim de se fazer com a sua pele um tambor. Sim, que nestas histórias mágicas os piolhos não têm exosqueletos como quaisquer outros insetos, mas pele como a gente. Ora, é este tambor que vai ser objeto de uma adivinha, e quem conseguir adivinhá-la conquista a mão da princesa. Há uns sussurros clandestinos ao preferido, mas este não ouve bem e o plano corre mal, até porque aparece outro com melhor ouvido a dar a resposta certa, para grande contrariedade da donzela. Mas nada que uma ameaça não resolva, mesmo se em verso, e no fim tudo fica nos conformes, com cada qual no seu lugar.

Não é grande exemplo de história popular e muito menos de ficção, este. À parte a sugestão de girl power que a ameaça incorpora, o único elemento que achei interessante foi a imagem do rei a andar por aí durante meses ou anos com um piolho gigantesco na cabeça. Mais um exemplo da iconoclastia de várias destas histórias portuguesas, ainda que neste caso o enredo a torne ambígua. E por estranho que possa parecer, essa imagem fez-me lembrar A Longa Tarde da Terra, um belo romance de ficção científica do Brian Aldiss. Quem leu esse livro compreenderá porquê.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Invasão Retomada

Histórias de invasões alienígenas por intermédio do controlo de corpos estão muito longe de ser algo de novo (Invasion of the Body Snatchers anyone?). Muito longe. Mas a verdade é que quaisquer clichés até podem resultar em histórias interessantes se forem bem explorados. Infelizmente, o que Marcelo Bighetti faz em Invasão Retomada é precisamente o contrário de explorar bem o cliché.

Diga-se em seu abono que ele reconhece que a ideia nada tem de original numa nota em que dá por ela crédito a um conto de autora brasileira, do qual se lembra do título mas não da autora, tendo sobre esta apenas a ideia de que se trata de uma mulher. Mas isso só torna o autor honesto, não torna o conto bom. Coisa que está muito, muito longe de ser.

Não por estarmos perante o batidíssimo enredo de invasão por controlo da mente e/ou do corpo, que até podia aqui ter uma variante interessante com a bastante menos batida (mas nem por isso muito original) ideia de que esse controlo é problemático por causar quase sempre doenças aos hospedeiros, mas porque o conto gasta quase toda a sua página e picos a descrever os sintomas das doenças que os ETs vão provocar aos pobres coitados que apanham com eles em cima. Sim, é isso o conto. Isso e um infodump a descrever o cenário de base. Mais nada.

Mas que interesse poderá ter, seja quem for que pretenda ler literatura e não um manual médico, numa relação de sintomas de doenças reais?! Julgará Bighetti que é assim que se escreve FC hard? Se julga, tenho uma notícia para lhe dar: não é. A FC hard parte do que se conhece e desenvolve um enredo exterior ao jargão científico, servindo-se deste apenas para lhe conferir sustentabilidade e verosimilhança e com conta, peso e medida. Não se limita a transcrever parágrafos de um manual. E quando ainda por cima a qualidade do português não é propriamente elevada...

... o resultado é um péssimo conto. Nas calmas o pior que li este ano até ao momento.

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terça-feira, 17 de abril de 2018

Lido: As Três Lebres

Como já temos visto várias vezes por aqui, no mundo dos contos tradicionais existem famílias inteiras deles, provavelmente geradas por derivação ou influências mútuas, em que se repetem temas, enredos e até personagens. Uma dessas famílias mete homens espertos, bons ou corajosos e as princesas que eles poderão desposar caso ultrapassem uma espécie qualquer de teste. Adolfo Coelho inclui no seu livro de contos populares mais do que uma história dessas. E este continho de duas páginas intitulado As Três Lebres é uma delas.

Curiosamente, tem a particularidade de ser um conto realista. O aldeão que procura a mão da princesa por meio de uma adivinha não se serve de magia ou encantamentos, mas apenas da esperteza e de uma dose muito razoável de marotice e desonestidade, só lhe correndo bem as coisas porque a princesa mostra para com ele o mesmíssimo grau de marotice e desonestidade. É que ela lhe manda ao quarto onde está alojado três aias em três noites consecutivas, a fim de descobrir as respostas da adivinha. E descobre. Mas ele não oferece as respostas de forma gratuita, antes as troca pelas saias das aias, o que lhe vai fornece material de chantagem que usa com grande proveito pessoal: entre o escândalo e o casamento com o espertalhão do aldeão, a princesa escolhe o casamento.

Historinha instrutiva, sem dúvida.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Nas Catacumbas

Depois de um conto algo clandestino do organizador, quem nesta antologia apresenta o primeiro conto totalmente assumido como tal é Luiz Bras. Fá-lo com uma vinheta de uma página intitulada Nas Catacumbas, uma peculiar história de invasão alienígena que tem na forma como está escrita o seu ponto forte. E atenção que a fruição plena desta história depende do progressivo desvendar do que se passa e é impossível falar dela sem revelar o que se passa, portanto aconselho vivamente que todos os que não queiram ficar a saber detalhes sobre o enredo saiam daqui e vão ler outra coisa qualquer. Ou seja:

SPOILERS

Estão avisados, portanto siga.

A ideia de uma espécie alienígena devoradora de memórias não é propriamente original, nem mesmo na FC lusófona (o João Barreiros usa-a também muito bem no Disney no Céu Entre os Dumbos), mas aqui está aplicada muitíssimo bem, numa prosa de grande qualidade, que usa a capacidade evocativa da poesia para amplificar o efeito. É um caso de forma literária certa aplicada da melhor maneira ao enredo. Este é um relato de progressiva desmemoriação, através do qual se contam meio expressamente, meio nas entrelinhas, os principais acontecimentos da invasão dos extraterrestres e as consequências que ela teve. No meio de tudo isto, ainda há tempo para a evocação da memória da figura paterna, para uma cambalhota conceptual que deixa na dúvida (ou não) quem são realmente os alienígenas nesta história e para uma reflexão sobre a vida e a morte. Tudo numa só página.

Um conto excelente.

Conto anterior deste livro:

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Lido: A Máquina de Joseph Walser

Uma vida não é uma máquina. Prova disso é a minha, que a meio da leitura deste livro (e não só deste; não era o único que eu estava a ler nessa altura) resolveu encher-se de cambalhotas que levaram a que passasse a ler pouco ou nada e a ter passado longos meses sem lhe pegar. De todo. Isso teve um efeito curioso: quando voltei à leitura não me lembrava de quase nada do que tinha ficado para trás e tive de ir folhear umas quantas páginas para tentar perceber outra vez quem raio era aquele chato do Walser e o que andava a fazer ali. Não é vulgar: costumo ter uma memória bastante vívida daquilo que leio, pelo menos a médio prazo (a longo prazo a história é outra), bastando-me pegar num livro e recomeçar a lê-lo, mesmo depois de um mês de pausa, para me lembrar do que aconteceu até aí. Mas este foi uma exceção.

Isto, ao mesmo tempo que é sintoma de um certo desinteresse por esta história e por estas personagens, que senti do princípio ao fim, também é causa, pelo menos parcial, de alguma dificuldade para chegar ao substrato do romance. Talvez assim não fosse se já antes tivesse tido contacto com a escrita, os temas e a filosofia a eles subjacente de Gonçalo M. Tavares. Mas esta foi, ainda por cima, a primeira vez que li algo dele, portanto era tudo novo para mim. Mas vamos por partes.

A Máquina de Joseph Walser passa-se num país não identificado da Europa Central, por alturas de uma guerra também não identificada mas com todo o ar de ser a primeira ou a segunda das mundiais. O protagonista, Joseph Walser, é um chato. Um indivíduo miudinho, repleto de rotinas e banalidades mesmo naquilo em que é excêntrico. Trabalha numa fábrica, a controlar uma máquina, também ela misteriosa porque nunca se chega a saber para que serve e o que faz. Além disso tem uma coleção de pequenas peças mecânicas, que analisa, mede e classifica com meticulosidade mecânica. E tem um jogo semanal de cartas com os amigos (amigos?). E tem uma mulher, que obviamente não ama porque é pessoa alheia a essa coisa estranha chamada sentimento. Tudo muito organizadinho. Teutonicamente organizadinho. Ja.

O orabolas da coisa é que às tantas rebenta uma guerra e a cidade do bom do Walser é ocupada, o que lhe vai perturbar as rotinas. Chatice com consequências, até para a sua integridade física, até para a integridade do seu casamento.

Tudo isto (que na verdade não é muito) escrito com uma prosa enxuta e de qualidade, capítulos curtos divididos em subcapítulos que por vezes nem uma página ocupam. Não fiz as contas, mas não me surpreenderia se esta obra nem chegasse às 40 mil palavras que nas convenções dos prémios de FC separam as novelas dos romances. E esta teia de brevidades é boa, pelo menos para mim: é o que faz com que, apesar do desinteresse no chato do Walser e na história dele, da sua máquina e das suas manias, o livro acabe por se deixar ler bem. Apesar do desinteresse e do desagrado que me causa um certo ludismo que me pareceu encontrar em Tavares, uma ideia de que é na máquina que reside a raiz de todas as desumanizações, da guerra às traições domésticas, passando pelas políticas, uma ideia de que a tecnologia é, no fundo, coisa daninha, coisa que subverte a condição humana.

Esses desinteresse e desagrado são os principais motivos para esta não ter sido leitura que me tenha agradado por aí além. Tavares é um bom narrador mas isso não me chega, e este livro deixou-me basicamente indiferente. Mas não posso deixar de reconhecer que é inteiramente possível que as vicissitudes pessoais que acompanharam esta leitura sejam um fator relevante para esta opinião menos favorável. Posso simplesmente ter lido este livro em má altura. Acontece.

Lido: Carta do Futuro

Não sei o que terá levado Ademir Pascale a chamar "introdução" a um texto que é claramente um conto. Não é interrogação que me assalte sempre que tal acontece, pois há casos de introduções ficcionais que fazem absoluto sentido (Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa fornecem ótimos exemplos). Compreenderia perfeitamente a opção, portanto, se a publicação em que esta "introdução" se insere englobasse histórias ambientadas no mesmo universo ficcional, caso em que ela funcionaria como introdução para o universo. Mas já li também o primeiro conto (ou segundo, na verdade) e não é o que aqui temos.

Essa é a primeira perplexidade que me causa esta Carta do Futuro, mas não é a única, porque o conto em si mesmo mais parece um esboço para uma ficção mais extensa, delineando uma invasão alienígena sob a forma de uma carta enviada do futuro para alguém do passado (porquê? para quê? não se percebe). Mas só na segunda metade do texto, pois a primeira é um melancólico rememorar de experiências passadas, entre São Paulo e uma cidadezinha de Minas Gerais. Esta, talvez paradoxalmente, é a parte mais bem sucedida do texto, e serviria perfeitamente como arranque de uma novela ou romance que narrasse de facto a tal invasão alienígena. Mas incluída numa vinheta que acaba por ser apenas um longo (bem, nem por isso) e algo desconexo infodump sobre uma invasão de ETs simplesmente não funciona.

sábado, 14 de abril de 2018

Lido: Fumaça e Fagulhas

Fumaça e Fagulhas é um enigmático continho de Luiz Bras sobre deus. Parece que existe mesmo, diz-nos Bras, mas não tem nada do velho bonacheirão de barbas brancas que a cultura patriarcal dos povos que seguem (pelo menos em parte) as religiões abraâmicas costuma apresentar. Não, não falo desse velho bonacheirão de barbas brancas, esse que veste de vermelho. Refiro-me ao outro.

É enigmático, pelo menos para mim, porque tenho de confessar derrota. Não consegui perceber onde quer Bras chegar com ele, além da mera subversão da figura divina. Sim, esta é interessante, especialmente para um empedernido herege como me assumo — assim me chamava uma namorada beata que tive em anos há muito idos, e certamente teria razão. Até posso dizer que a achei divertida. Mas isso chega para um conto? Não me parece que chegue... mas também pode dar-se o caso de eu não ter pura e simplesmente percebido. Acontece.

Ah, sim, o género deste conto? Bem, também isso é enigmático. Um cristão chamar-lhe-ia terror, suponho. Para mim é como a Bíblia: fantasia.

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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Lido: Olho por Olho, Dente por Dente

Uma das coisas que os escritores de FC fizeram desde sempre com os contos é testar ideias e técnicas que depois, se bem sucedidas (ou às vezes nem tanto), desenvolvem em obras mais extensas. Às vezes os resultados desses testes são ótimos, outras vezes ficam bastante aquém, o que de resto se pode dizer também das obras que desenvolvem a partir deles.

E esta vinheta de Luis Bras é exatamente isso: um teste. Olho por Olho, Dente por Dente é uma história de ficção científica política, contada de forma fragmentária e não sequencial, sobre o que acontece depois de os políticos lá do Brasil (presume-se; é o que indica o nome da personagem principal, pelo menos) terem feito aprovar uma lei que paga na mesma moeda a qualquer condenado por assassínio... e um senador matar uma rapariga. Detalhe: existe também um programa experimental de reanimação pós-morte, que procura recuperar a vida, ou pelo menos a consciência, depois da vida chegar ao fim. The plot thickens.

Esta é uma história que exige grande atenção às datas, para se perceber o que vem antes e o que vem depois, e que a meu ver só peca por excesso de otimismo. Por aquilo a que se tem assistido nos últimos tempos, um senador ser condenado no Brasil é pura fantasia. Esperem... a menos que... bem, sim, se o senador for da oposição, se não pertencer ao bando que detém os cordelinhos do poder, tudo bem, tudo certo, faz sentido.

Seja como for, esta é uma boa história, sim senhor. Mais uma. E em breve (bem, "em breve" é relativo) saberão aqui na Lâmpada que resultado teve o teste. Não percam as cenas dos próximos capítulos!

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Em março falou-se de...

Eu sei, isto vem com uns dias de atraso. Não tem havido tempo, fazer o quê? Mas antes tarde que nunca é um bom lema de vida para combater stresses desnecessários, e cá está a relaçãozinha daquilo que, durante o mês de março e segundo o FCL, foi merecendo opinião no campo da FC. Mais informações encontram-se aqui e se clicarem lá em baixo na tag "leituras FC" encontrarão as listas correspondentes dos meses anteriores. E dos próximos, quando houver.

E sem mais prolegómenos, que no fim há comentários, cá vão as listas:

Ficção portuguesa:
  1. Crazy Equóides, de João Barreiros
  2. Orlando e o Rinoceronte, de Alexandra Lucas Coelho
  3. Antologia Fénix I, org. Álvaro de Sousa Holstein e Marcelina Gama Leandro
  4. Lisboa no Ano 2000, de Melo de Matos (conto)
  5. Os Números que Venceram os Nomes, de Samuel Pimenta
Ficção brasileira:
  1. Narrativas do Medo, org. Vítor Abdala
  2. A Província dos Ursos de Vento, de José Beffa
  3. Eros Ex Machina, org. Luiz Bras
  4. Meu Nome é Lobo, de Luiz Bras (conto)
  5. Sozinho no Deserto Extremo, de Luiz Bras (conto)
  6. Selva Brasil, de Roberto de Sousa Causo
  7. Petrus Logus: O Guardião do Tempo, de Augusto Cury
  8. Gary Johnson, de Daniel I. Dutra (conto)
  9. Hope, as Cores da Verdade, de M. V. Nery
  10. A Era dos Mortos, vol. I, de Rodrigo de Oliveira
  11. A Ilha dos Mortos, de Rodrigo de Oliveira
  12. Zitz e a Rede Etérea, de Giovanna Picillo
Ficção internacional:
  1. Guerra Americana, de Omar El Akkad
  2. The Art of Space Travel, de Nina Allan (conto)
  3. O Conto da Aia, de Margaret Atwood
  4. The Windup Girl, de Paolo Bacigalupi
  5. O Homem Demolido, de Alfred Bester
  6. A Expansão, de Ezekiel Boone
  7. Os Viajantes, de Alexandra Bracken
  8. Origem, de Dan Brown
  9. The Destroyer, de Tara Isabella Burton (conto)
  10. Kindred - Laços de Sangue, de Octavia E. Butler
  11. Traumphysik, de Monica Byrne (conto)
  12. Alvo em Movimento, de Cecil Castelluci e Jason Fry
  13. Jogador nº 1 / Ready Player One - Jogador 1, de Ernest Cline
  14. A Volta ao Dia em 80 Mundos, de Julio Cortázar
  15. Uncanny Valley, de Greg Egan (conto)
  16. Uma Dobra no Tempo, de Madeleine l'Engle
  17. Plague, de Michael Grant
  18. Os Despojados, de Ursula K. Le Guin
  19. The Girl From Everywhere - O Mapa do Tempo, de Heidi Heilig
  20. Um Estranho Numa Terra Estranha, vol I, de Robert A. Heinlein
  21. The Siege of Sirius, de Eddie R. Hicks
  22. Mestre das Chamas, de Joe Hill
  23. Acadie, de Dave Hutchinson
  24. A Ilha, de Aldous Huxley
  25. A Quinta Estação, de N. K. Jemisin
  26. A Torre Negra, de Stephen King
  27. Belas Adormecidas, de Stephen King e Owen King
  28. Ricochet Joe, de Dean Koontz (conto)
  29. Solaris, de Stanislaw Lem
  30. Isso não Pode Acontecer Aqui, de Sinclair Lewis
  31. The Weight of Memories, de Cixin Liu (conto)
  32. Criaturas da Noite, de Marie Liu
  33. Os Melhores Contos de Howard Philips Lovrcraft, vol. 6, de H. P. Lovecraft
  34. Taking Wing, de Ando Mangels e Michael A. Martin
  35. Jogo Sujo, org. George R. R. Martin
  36. The Martian War, de Gabriel Mesta
  37. Carbono Alterado, de Richard Morgan
  38. Felicidade Para Humanos, de P. Z. Reizin
  39. Naquele Tempo, de J. D. Robb
  40. Dark Space Universe, de Jasper T. Scott
  41. Frankenstein, de Mary Shelley
  42. Last and First Men, de Olaf Stapledon
  43. As Brigadas Fantasma, de John Scalzi
  44. Os Últimos Jedi, de Elizabeth Schaefer
  45. The Invention of Hugo Cabret, de Brian Selznick
  46. Piquenique na Estrada, de Arcádi e Boris Strugátski
  47. Aceitação, de Jeff VanderMeer
  48. Aniquilação, de Jeff VanderMeer
  49. The Strange Bird, de Jeff VanderMeer (conto)
  50. The World is Full of Monsters, de Jeff VanderMeer (conto)
  51. Cama de Gato, de Kurt Vonnegut
  52. A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells
  53. O Fio da Navalha, de Martha Wells
  54. Pivot Point, de Kasie West
  55. Split Second, de Kasie West
  56. Robopocalipse, de Daniel W. Wilson
Não-ficção internacional:
  1. A Riqueza dos Humanos, de Ryan Avent
  2. Generation Robot, de Terri Favro
Este mês foi bastante melhor que o anterior no que toca a opiniões sobre a FC lusófona, tanto portuguesa como brasileira. Eu tive um dedinho nisso, claro, com duas opiniões sobre coisas portuguesas e três sobre coisas brasileiras, mas mesmo assim ainda sobram mais três portuguesas e nove brasileiras opinadas por outrem. É um progresso? Não sei, e não só porque mesmo assim ficou abaixo de janeiro: pode ser simplesmente resultado da variabilidade natural neste tipo de coisas. Às vezes calha haver mais ou menos de uns meses para outros sem que haja realmente uma tendência; estas só se veem a prazos mais longos.

Em todo o caso, este mês queria reconhecer algumas coisas que vão inevitavelmente reduzir o número de opiniões sobre material lusófono relativamente às de material não lusófono. É que a desproporção não se deve só à tradicional desatenção que as pessoas que falam português revelam por aquilo que se produz na sua língua. Isso é um fator, sim, mas há outros, e convém também reconhecer que assim é.

Um desses fatores prende-se com o efeito que as adaptações para cinema e televisão têm na leitura e por conseguinte na produção de opiniões. Esse efeito vê-se este mês nas opiniões sobre VanderMeer ou sobre Cline (mas não sobre Dick, que está totalmente ausente... curioso). Ora, como praticamente não existem adaptações de obras lusófonas, só por aí já estamos em desvantagem.

Outro tem a ver com marketing. É que parte das opiniões não são opiniões espontâneas, mas resultado de parcerias. Ora, os autores lusófonos publicam regra geral em editoras com menos margem de manobra para investir nesse tipo de marketing, o que faz com que sejam menos falados por essa via.

Portanto sim, há razões objetivas e compreensíveis para a desproporção entre as opiniões a material lusófono e não lusófono. Mas isso não quer dizer que eu ache que 5 opiniões a coisas portuguesas (ou mesmo 12 a brasileiras) durante um mês esteja sequer perto de ser suficiente. Não é. Longe disso.

Lido: Além do Tempo e do Espaço

Há quem pense que as antologias de ficção científica são moda recente e as olhe de soslaio, entre a desconfiança e a rejeição devidas às manobras editoriais pouco claras. Mas quem assim pensa engana-se redondamente, pois a verdade é que as antologias de FC são desde há muito tempo uma das formas mais utilizadas para dar a conhecer novos autores ao público apreciador do género e/ou para apresentar apanhados da produção no género durante um determinado período. E este Além do Tempo e do Espaço faz disso boa prova.

Publicada no Brasil há mais de meio século, no já algo longínquo ano de 1965, e sem apresentar informação sobre quem terá sido responsável pela edição e seleção de contos e autores, esta é uma antologia de FC bastante típica da realidade lusófona, agregando histórias muito díspares em termos de temática e qualidade. A par de alguns contos excelentes (na verdade, alguns são tão bons que me surpreenderam bastante, ultrapassando de longe qualquer coisa que eu conheça e tenha sido produzida em Portugal até essa época), inclui não só outros que não passam do fraco ou do razoável como até dois ou três realmente maus.

Não sendo uma antologia temática, não havendo portanto nenhuma unidade temática ou estilística entre os contos que a constituem, não é nem melhor nem pior do que a soma destes. E eles, variando como variam entre o ótimo e o péssimo, transformam-na numa antologia mediana, ainda que situada na parte mais elevada desse intervalo. Mas é, julgo eu, um bom retrato da FC que se produziu no Brasil até aos anos 60 do século passado (estão aqui incluídos contos criados desde os anos 40, pelo menos, portanto não reúne apenas a produção contemporânea), e esse tipo de apanhado é sempre útil e interessante em si mesmo. O que é pena, na verdade, é ser tão raro entre nós. Uma publicação regular, editada de x em x anos, das melhores histórias de FC produzidas nos países de língua portuguesa, seja isolados, seja em conjunto, seria de toda a utilidade. Mas ninguém parece muito interessado nisso, infelizmente.

Seja como for, e como eu digo sempre, basta que uma publicação (antologia, revista, etc.) inclua pelo menos um conto muito bom ou dois ou três bons para que a sua publicação valha plenamente a pena. E é o caso desta, sem qualquer dúvida. Histórias como Água de Nagasáqui, Da Mayor Speriencia ou O Elo Perdido são histórias que mereceriam maior divulgação e ser conhecidas por mais gente. Mereciam ser republicadas com alguma regularidade para chegarem a novas gerações de leitores. São boas o suficiente para isso. E mais que bastam para justificar este livro.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados

domingo, 8 de abril de 2018

Lido: Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança

Lido, que é como quem diz: relido.

Em tempos, Gerson Lodi-Ribeiro decidiu pregar uma partida aos leitores de ficção especulativa lusófonos. Não sei ao certo como se processou a coisa, mas suspeito de que terá sido convidado a fornecer uma história para uma antologia portuguesa, a Pecar a Sete, e "transferiu" esse pedido para uma "amiga", chamada Carla Cristina Pereira (surgida pela primeira vez numa outra antologia publicada um ano antes no Brasil), a qual teria pronto um conto de história alternativa muito bom, ambientado num mundo alternativo em que Colombo teria navegado em busca da Índia sob as cores portuguesas, anos antes da sua viagem real, e descoberto as Américas (ou Cabrálias) e as respetivas civilizações, ao mesmo tempo que as tentativas de dobrar o Cabo das Tormentas falhavam. Nesse mundo alternativo, os portugueses, pragmaticamente, teriam preferido celebrar uma aliança com a civilização asteca em vez de a exterminarem como fizeram os espanhóis, ainda que não em pé de igualdade, servindo-se antes de relações de suserania e vassalagem, segundo as quais a nobreza local permanecia localmente no poder, mas submetida ao rei de Portugal, que se teria transformado em rei dos reis. Essa aliança incluía o transporte para Lisboa de praticamente toda a juventude asteca de nascimento elevado, com o fim declarado de serem educados e instruídos, mas na realidade como reféns.

Essa história intitulava-se Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança (bibliografia).

E a Carla Cristina Pereira não era senão o próprio Gerson.

A história passa-se anos depois dos factos descritos acima. Xochiquetzal é uma princesa asteca, educada nos usos e costumes portugueses e tomada como esposa por Vasco da Gama, o próprio. Este, apesar de nesta alternativa não ter a distinção de haver descoberto o caminho marítimo para a Índia (a qual cabe a Fernão de Magalhães... pela rota do Pacífico), é na mesma um destacado navegador, já idoso mas ainda rijo. Pois acontece que o Samorim de Calicute tem a má ideia de matar portugueses, incluindo o próprio Magalhães, que com ele negociavam o futuro das relações entre as duas entidades políticas, e como consequência Vasco da Gama recebe a incumbência de fazer cair sobre ele a vingança do rei portugês ao comando de uma esquadra tripulada por portugueses e cheia de guerreiros mexicanos. A bordo viaja também a sua mulher, Xochiquetzal.

O que faz com que esta história realmente funcione bem é este último facto. Libertada da necessidade de participar na ação, Xochiquetzal está livre para a narrar de uma forma razoavelmente distanciada. É ela o ponto de vista; é ela a cronista. O conto é escrito na primeira pessoa, ao jeito eminentemente descritivo das crónicas de viagem comuns na época, e tem o acrescido motivo de interesse de esse ponto de vista não ser português de nascimento, antes ser o de alguém que está entre duas culturas e portanto vê os acontecimentos com olhos culturalmente mestiços. A verosimilhança agradece.

E o leitor também: o conto é muito bom.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Lido: Poppies By Moonlight

Há histórias que assim que as acabamos de ler sabemos com precisão que reação nos causam. Às vezes até o sabemos antes mesmo de as acabarmos de ler; às vezes bastam algumas páginas. Mas existem outras que nos deixam na dúvida: eu gostei disto? Muitas vezes são histórias que ressoam com os nossos gostos em parte mas colidem com eles noutra parte. Histórias muito bem escritas sobre algo sem interesse algum, por exemplo. Ou vice-versa. Mas também acontece que essa pergunta seja motivada por causas mais difíceis de definir, e são esses os casos mais intrigantes.

Foi isto mesmo o que aconteceu entre mim e este Poppies By Moonlight, conto de uma autora que desconhecia por completo: Sydney J. Van Scyoc. É no essencial uma fantasia rural com toques de weird fiction sobre uma mulher que viaja ao longo da costa do Pacífico dos EUA, de Seattle, Washington, até à Califórnia, a fim de fazer a visita anual ao irmão adotivo e à quinta que fora dos pais, uma visita que é mais tradição do que férias, mais obrigação do que prazer. Porque o irmão é o oposto dela e o conflito entre os dois é sempre inevitável: um preguiçoso, imaturo, sem dinheiro nem perspetivas de vida. Só que ao chegar o vai encontrar mudado, e o que serve de motor à história é a sua surpresa com essa mudança e as várias hipóteses que vai arranjando para a explicar.

Nada, porém, a prepararia para a verdadeira razão: o irmão alugara não só a quinta mas o próprio corpo a um grupo de entidades cuja natureza Van Scyoc não explica mas têm todas as características de coisas sobrenaturais. Mas umas coisas sobrenaturais muito delicadas e bem educadas. Uns hóspedes quase ideais.

E eu gostei?

O conto está bem escrito, literariamente falando, e é cheio de pormenorezinhos subtis que vão deixando pistas de uma forma não inteiramente óbvia. São boas características. Mas o principal tema da história não são os seus elementos fantásticos e sim a dinâmica familiar desestruturada, de que ambas as principais personagens acabam por ser vítimas, cada uma à sua maneira. Os elementos fantásticos surgem quase como estratégia para resolver o enredo e os próprios traumas das personagens, uma espécie de deus ex machina para a vida, que sem ele teria inevitavelmente um fim desagradável. Suponho que seja por isso que eu tive tanta dificuldade em perceber se tinha gostado desta história ou não. Há nela uma desistência, um apelo a intervenção externa, a uma espécie de divindade mais ou menos new age, que choca de frente com a minha forma de ver o mundo, ao mesmo tempo que, sob um ponto de vista estritamente literário, só posso elogiá-la.

Portanto gostei?

Sim, um pouco. Suponho. Mas não muito, com toda a certeza.

Conto anterior desta publicação:

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Lido: Os Destruidores

Há histórias que falam de uma forma bastante direta dos temas de que pretendem falar. Outras há, no entanto, que preferem abordá-los da maneira mais oblíqua possível. Muitos pensam que estas últimas são preferíveis, argumentando com a necessidade, ou pelo menos a desejabilidade, de deixar a inteligência do leitor preencher os espaços em branco. Já eu, não discordando da ideia de que é de bom tom não tomar os leitores por idiotas, penso que não existe realmente uma abordagem melhor e outra pior, pois tanto uma como a outra podem propiciar tanto obras excelentes como obras péssimas.

Graham Greene, celebrado escritor inglês, opta claramente pela segunda abordagem neste Os Destruidores. Fala-nos o conto de um bando de delinquentes, numa Inglaterra semidestruída pela II Guerra Mundial, pouco tempo depois do fim do conflito. Mas não nos fala do bando em geral, não nos conta o seu dia-a-dia, não nos revela muito da sua dinâmica interna. Opta, antes, por descrever uma operação de destruição sistemática que o bando leva a cabo contra a casa de um pobre desgraçado que teve a sorte de escapar aos bombardeamentos com o lar basicamente intacto. Um pobre desgraçado contra o qual nem parece existir qualquer espécie de animosidade por parte do bando, que no entanto lhe demole a casa no decurso de um fim-se-semana. Literalmente.

Mas Greene está aqui a falar é na falta de sentido da guerra. O trabalho duro do bando, a sua estratégia meticulosa, a forma como lida com os problemas inesperados que surgem, tudo emula de forma bastante clara as operações de um exército. O facto de atacarem a casa de um pobre diabo afirma que quem sofre realmente com a guerra é quem nada tem a ver com ela, quem não a declarou nem a trava. Quem é "dano colateral", esse maravilhoso eufemismo militarista, tão em voga nos últimos tempos. O ataque é profundamente absurdo e destituído de sentido mas, uma vez iniciado, não há como travá-lo o que, mais uma vez, se refere diretamente à própria guerra.

Greene podia ter-nos dito tudo isto de uma forma direta e parece-me que o faria tão bem como o fez desta maneira oblíqua. Foi escritor para isso. Pois o que aqui fez, de facto, foi muito bem feito. O conto é ótimo.

Contos anteriores desta publicação:

sábado, 31 de março de 2018

Lido: Xibalba Sonha com o Oeste

Não me lembro de alguma vez ter lido algum texto do André S. Silva e não houve nada neste Xibalba Sonha com o Oeste (bibliografia), nem algum maneirismo temático, nem nenhum tique estilístico, que me tenha feito lembrar outras histórias. Mas isso não impediu que eu tivesse saído desta leitura bem impressionado.

Esta noveleta não é perfeita. Há nela algumas falhas a nível do texto, que me pareceram cair mais no capítulo das gralhas do que no das falhas propriamente ditas (palavras em falta, palavras repetidas, sobretudo coisas dessas) e há também uma certa aura de capítulo de história mais extensa, pontas soltas que assim permanecem ao concluir a leitura. Não daquelas pontas soltas que pouca relevância têm, mas das que são fulcrais no contexto do universo ficcional criado. Pior: ao longo do texto vai sendo construída uma tensão que não se resolve quando ele chega ao fim. E há também alguns pontos do enredo em que a narrativa é apressada com o recurso a técnicas que se aproximam talvez demasiado do deus ex machina.

Mas a verdade é que a tensão é muito bem construída, com uma prosa de bom ritmo e agradável, personagens quase sempre credíveis e com alguma tridimensionalidade (em especial a protagonista). E acima de tudo, um universo ficcional muitíssimo interessante e cheio de potencial para desenvolvimento futuro.

A história desenrola-se no Rio de Janeiro. Ou melhor, na Guanabara, cidade-estado situada no local onde no nosso universo existe o Rio. É que neste universo ficcional criado pelo André Silva uma catástrofe qualquer parece ter-se abatido sobre a Europa, e como consequência não houve portugueses que confundissem a baía de Guanabara com um rio no dia 1 de janeiro de 1502. Sem europeus a baralharem as cartas, a potência principal parece ser um estado oriental (ou, para os guanabarenses, ocidental) chamado Zonguá, isto é, o nome chinês da China, e a Guanabara é uma cidade-estado num continente (ou em dois, pois os zonguanenses chegaram às nossas Américas pelo estreito de Bering — que naturalmente tem outro nome — e por isso não estamos apenas a falar da nossa América do Sul mas de ambas) que está em grande medida sob a influência mais ou menos direta, mais ou menos marcial, de Zonguá. Incluindo as potências subjugadas das nossas Américas, os grandes impérios indígenas, dos maias aos astecas. A Guanabara, de resto, situa-se no espaço cultural destes últimos.

A protagonista é a filha de um dissidente, um cientista que teria desenvolvido pesquisas que o governo considerou subversivas e por isso foi desterrado para muito longe. Pesquisas sobre o que está no fulcro da divergência entre o nosso universo e esta alternativa que André Silva aqui cria, um fenómeno energético qualquer, nunca explicado e envolto em mitologia, que teria arrasado a Europa ao mesmo tempo que criava as condições para o desenvolvimento de civilizações energeticamente sustentáveis nas regiões que não foram demasiado tocadas pela catástrofe. Mas claro: qualquer situação repressiva, mesmo que subtilmente, gera os seus dissidentes, e quando estes se cruzam com a protagonista e lhe despertam a curiosidade com o que poderá estar a acontecer e sobretudo com a forma como os acontecimentos se relacionam com o pai há muito desaparecido, as coisas precipitam-se.

Este é um exemplo bastante sólido de história alternativa, significativamente melhor, apesar das falhas, do que os que o antecedem e baseado num universo ficcional que certamente será desenvolvido em outras ficções.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 30 de março de 2018

Lido: Acho que Posso Ajudar

Conto após conto, esta coleção de contos digitais publicada pelo DN e pela Escrit'orio foi reduzindo a expetativa para o seguinte, à medida que, depois da agradável surpresa inicial com a do JP Simões, se foram sucedendo histórias que no melhor dos casos me mereceram uma encolhedela de ombros de indiferença, fazendo prever que a qualidade média iria deixar muito a desejar.

Eis senão quando me aparece à frente este Acho que Posso Ajudar, de mais um autor que nunca tinha lido, David Machado. E eu fiquei feliz, porque é o segundo conto realmente bom deste conjunto. Ainda por cima dificilmente podia ser mais diferente do primeiro.

Enquanto o conto de JP Simões é adulto até à medula, David Machado apresenta um conto infantil concebido em jeito de conto popular (e muito bem ilustrado por Mafalda Milhões, com ilustrações que por vezes são animadas, aproveitando assim da melhor forma as potencialidades da publicação eletrónica), completo com elementos de lengalenga e tudo. A história é sobre um rapaz de oito anos que tenta ajudar a avó, a qual tinha um problema: queria sair à rua mas não podia porque o vento lhe iria de certeza destruir o novo penteado. O que fazer? Ora, basta armar uma armadilha ao vento e depois trancá-lo num barracão, claro.

Só que esse ato original de auxílio e resolução de um problema vai causar uma catadupa de outros problemas, os quais o rapaz vai ter de resolver, não só porque gosta de ajudar mas também porque se sente responsável por os ter gerado. A história acaba convoluta, metendo monstros, balões, nuvens, bruxas e mais uma série de outras coisas, mas tão bem escrita, com um ritmo tão perfeito, que tudo parece estar no lugar que lhe é próprio, sem tirar nem pôr.

E é precisamente essa a mensagem que David Machado pretende transmitir: a de que todas as coisas têm o lugar que lhes é próprio, e qualquer tentativa para as manipular, por mais bem intencionada que seja, acaba por causar uma série de consequências indesejadas, para as quais será depois necessário encontrar respostas. E transmite essa ideia com total clareza sem para isso ter a necessidade de a esfregar na cara do leitor, o que só sublinha a qualidade da obra.

(Já agora, em relação à moral da história, eu concordo e discordo: concordo porque sim, é absoluta verdade que mexer em equilíbrios delicados pode redundar em desastre, mas discordo porque não, a resposta não é remeter-nos à inação e à promoção da imutabilidade das coisas. Porque elas, as coisas, mudam sempre, queiramos ou não; é essa a natureza do Universo, é assim que funciona tudo isto que nos rodeia e constitui: através da permanente mudança. A resposta tem de ser, portanto, a ação informada, porque só a informação e o conhecimento, só sabermos o melhor possível o que estamos a fazer, é capaz de reduzir a possibilidade de causarmos algum desastre com o que fizermos. Ou com o que deixarmos por fazer, pois também a inação pode ter consequências desastrosas.)

Fim de parêntesis que mostra que este conto, além de tudo o mais, ainda por cima convida à reflexão. O que mais lhe poderíamos pedir? Este é mesmo um conto francamente bom.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Lido: O Diabo com os Três Cabelos Dourados

Este conto também parece não ter sido muito alterado pelos Irmãos Grimm, exceto, provavelmente, no que toca à elaboração literária do texto propriamente dito. A acrescer-lhe ao interesse está uma história invulgarmente iconoclasta, daquelas que tenho encontrado muito nos contos portugueses recolhidos pelo Adolfo Coelho mas não nos dos Grimm. O Diabo com os Três Cabelos Dourados podia intitular-se com igual proveito "O Felizardo Bondoso e o Rei Cruel", pois é basicamente disso que a história trata: um miúdo que nasce prodigioso e que ao qual se profetizam grandes feitos e um casamento real e o rei com cuja filha esse casamento real se viria a efetuar. Só que o rei não está pelos ajustes — um plebeu a casar com a filha de sangue azul? Deus salve a monarquia de tal sorte! — e trata de se livrar o importuno. Ou de tentar, pelo menos, que a sorte do felizardo parece ser inabalável por crueldades ou magia ou seja mais o que for. Há uma série de provações que o jovem acaba por ter de ultrapassar, enredo arquetípico pelo menos desde o original grego do mito de Hércules e, como quase sempre acontece nestas histórias, tudo acaba em bem, com os bons felizes para sempre e os maus devidamente punidos. Um conto tradicional que, apesar de ter os seus motivos de interesse, se situa numa segunda ou terceira linha; não é propriamente memorável.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 26 de março de 2018

Lido: A Cerimónia

Nunca tinha ouvido falar de João Bonifácio antes de pegar neste conto, uma parede de texto contínua que preenche todas as (abençoadamente escassas) páginas que ele ocupa, efeito contra o qual nada tenho, por princípio, até porque pode ser usado com grande eficácia para transmitir uma impressão de torrencialidade de discurso, de urgência, de sufoco, mas que neste A Cerimónia depressa se torna muitíssimo cansativo, para não dizer chato, porque, parece-me, a história não tem interesse algum e portanto nada existe que leve o leitor a ter gosto em fazer o esforço de leitura acrescido a que o artifício obriga.

Trata-se no fundamental de um estudo de personagem, e de uma personagem razoavelmente desaparafusada, muito burguesa mas aparentemente endividada, que procura convencer alguém a aceitar um disco como pagamento dessas dívidas. Mas um disco cujo valor é sentimental e portanto íntimo, o que não faz sentido nenhum a não ser para si própria. Isto no meio de um denso matagal de apartes e parêntesis e que de repente acaba sem

E aquilo que fica ao terminar a leitura é um redondo meh. OK, a língua portuguesa não sai disto maltratada, 'tá certo que há alguma ironia, crítica social e etc. e tal, mas no fundo... meh. É um exercício de estilo, do parágrafo único ao final interrompido, daqueles que têm bastante mais interesse para quem os faz do que para quem os lê, e eu, estando do lado de cá da leitura, solto um meh e depressa o esqueço.

É mau? Não, não creio que seja. Mas coisas destas, para realmente resultarem, precisam de histórias fortes, de histórias que causem verdadeiro impacto. E esta está muito, muito longe de a ter. Por conseguinte, é simplesmente esquecível.

Lido: O Osso Cantante

O Osso Cantante parece ser uma das histórias menos alteradas pelos Irmãos Grimm, ajuizando tanto pela habitual nota que a acompanha, a qual desta vez fala de outras histórias aparentadas ou semelhantes mas não de fusões nem de reformulações, como pela sua extensão (ou melhor: brevidade) e estrutura, que a assemelham bastante mais do que é hábito às histórias portuguesas recolhidas pelo Adolfo Coelho.

É um daqueles contos morais sobre a bondade e a maldade, focando-se num rei que quer ver morto um certo javali muito selvagem que vive numa floresta, para o que promete (como sempre) a mão da filha em casamento ao bravo que o matar, e nos dois irmãos que encaram o desafio, ainda que por motivos bem diferentes. Um dos irmãos é bom, recebe uma lança mágica de presente de um velho misterioso e mata o javali, o outro é mau, mata o irmão e apresenta-se em seu lugar como caçador vitorioso, ganhando assim a mão da princesa. Mas como nestas histórias morais a maldade nunca vence, passado algum tempo um dos ossos do irmão assassinado é encontrado, é feita com ele uma flauta, e é essa flauta que constitui o osso cantante do título, pois dela em vez sair música sai a verdade.

É um exemplo curioso de literatura popular, daqueles que é possível imaginar desenvolvidos (e adulterados... digo, adaptados) em obras mais extensas, mas bastante previsível se não nos detalhes pelo menos nos seus traços gerais, como de resto acontece quase sempre neste tipo de história.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 25 de março de 2018

Lido: Pulp Feek, nº 1

Tempos houve em que, por limitações de espaço, e numa tentativa de fidelizar leitores pagantes, as publicações comerciais ligadas à ficção científica e à fantasia tinham por norma incluir entre os contos completos que publicavam algumas histórias mais extensas (geralmente novelas longas ou pequenos romances) subdivididas em várias partes publicadas em números sucessivos. Era compreensível que assim fosse: para lá da já referida questão da fidelização, essa era a única forma de publicar essas histórias mais extensas em revistas com um número padronizado de páginas que por um lado era frequente serem menos do que as necessárias para a publicação da história completa e por outro dificilmente alguém arriscaria ocupar todas (ou quase) com uma só história, por receio de desagradar demasiado aos leitores que dela não gostassem.

Estes fatores compensavam claramente o principal problema desta abordagem: a chatice que era para os leitores (e para os autores, diga-se) ficarem com histórias incompletas nas mãos, tendo de esperar um mês ou mais pela continuação (ou para sempre se a publicação fechasse, o que era sempre uma possibilidade a ter em conta). Ou apanhando as histórias a meio se por acaso calhassem comprar pela primeira vez uma revista a meio de uma publicação dessas.

Mas se isto se compreende nas publicações comerciais em papel, já me custa perceber o que leva alguém a apostar nesta forma de edição quando a publicação em questão é um ficheiro digital, que por definição não tem limitações físicas, muito em especial quando, ainda por cima, é distribuído gratuitamente na internet. Com toda a certeza, a mera procura de fidelização não compensa os incómodos que a prática origina.

Já perceberam que foi isso mesmo o que se fez nesta Pulp Feek, nº 1, não é verdade? Pois. Não só foi isso o que se fez no número 1, como essa é praticamente toda a proposta da publicação, a par com a abordagem pulp às histórias (isto não é bem verdade, mas por agora fica assim porque para explicar o resto é melhor esperar pela leitura e comentário ao nº 2). Este número da publicação, dedicado à fantasia épica e espada e magia, é constituído por dois inícios de duas histórias, por um conto completo e não muito extenso e por dois artigos. Ah, e um texto que não se assume como editorial mas funciona como tal. Nada mais.

Não falarei dos inícios das histórias para além de dizer que a língua portuguesa não sai deles lá muito bem tratada: o início de uma história pode fornecer pistas para o que a história será quando completa, certamente, mas a obra só é realmente obra quando está completa. O conto completo? É fraco, opinião que desenvolvo mais no texto que lhe dediquei (ver mais abaixo). E quanto aos artigos, são artigos de caráter didático sobre escrita criativa e sobre o que é, ao certo, o pulp, claramente dirigidos à formação de autores iniciantes, o que é bastante interessante. O outro lado da moeda, claro, é o foco ser a escrita de ficções mais ou menos pulp, como não poderia deixar de ser dada a abordagem da iniciativa. Ora, a minha opinião sobre o pulp é bem conhecida por qualquer pessoa que leia o que aqui escrevo com alguma regularidade. Apesar disso, os artigos são a parte mais interessante desta publicação... o que também dá uma ideia da opinião com que fiquei a respeito dos dois inícios de história.

Ou seja, saí desta leitura muito longe de estar satisfeito. Na verdade, quem leu o balanço do ano de 2017 já sabe que esta foi a minha pior leitura do ano. Pois. Está tudo dito, não está? Não gostei da ficção, não gosto da abordagem e não me parece que o estilo de publicação faça grande sentido no contexto da publicação digital.

E aqui está o que achei do único conto completo:

sábado, 24 de março de 2018

Lido: O Homem que Busca Estremecer

E cá temos mais um dos contos recolhidos por Adolfo Coelho. Este, apesar do seu título à ficção científica pulp ("O Homem que" isto ou aquilo é um dos grandes clichés dos títulos de FC, e O Homem que Busca Estremecer, apesar de não fazer uma referência imediata à ficção científica, certamente a faz a esse cliché dos títulos usados no género), mais parece uma variante, bastante resumida, da muito conhecida história sobre o intrépido rapaz que desconhece o medo e parte pelo mundo em busca de aventuras (e do próprio medo), incluído na compilação de contos dos Irmãos Grimm sob o explicativo título de Conto do Rapaz que Partiu para Aprender a Ter Medo, e que inspirou uma das mais interessantes incursões dos grandes escritores portugueses pela literatura fantástica: As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira. Aqui, tudo está resumido ao máximo, em pouco mais de uma página, salpicado de palavras que talvez fossem de uso corrente no Minho do século XIX, que foi onde e quando Adolfo Coelho apanhou o continho, mas certamente não o são no Portugal (e sobretudo no Algarve, que está na outra ponta do país, falando não só geográfica mas também linguisticamente) do século XXI. Esta característica linguística é um dos encantos que este continho tem, mas empalidece perante aquilo que quem o lê e conhece as outras obras lincadas acima sabe que esta ideia pode dar.

Contos anteriores deste livro: