domingo, 13 de junho de 2021

Leiturtugas #106

Olá, olá. Bem-vindos a mais uma semana de Leiturtugas, que desta vez vem com brinde. Mas primeiro, o mais importante: as leituras propriamente ditas.

Ora, quanto a isso esta foi mais uma semana razoavelmente fraca. Dos participantes oficiais não temos nada a registar; vindos dos oficiosos apareceram dois textos.

O primeiro foi a opinião da Francisca Moura sobre Palavra do Senhor, um exemplo de fantástico cristão de Ana Bárbara Pedrosa onde é dada, literalmente, a palavra a deus. Mais ou menos o que o João Cerqueira fez nas Reflexões do Diabo, suponho, ainda que as ideias de base pareçam ser completamente distintas. Ou talvez não, não sei. Seja como for, este livro foi publicado já este ano pela Bertrand e, obviamente, nada tem de FC.

O segundo foi a opinião da Daniela sobre mais uma obra da Patrícia Morais. Publicado em 2016 pela Coolbooks, Chamas é um romance de fantasia urbana que, uma vez mais, nada tem de FC.

E é tudo. Até para a s...

Ah, sim, já me esquecia. O sorteio de Projecto: MOTHER, da Mónica Cunha. Cá está ele:


Este estava determinado a ir parar às mãos do Artur Coelho: das 5 listas geradas 4 vieram encimadas por ele. A outra teve no topo a Carla Ribeiro, que acabou por ficar em segundo. Parabéns a ele, e agora é contactá-lo a ver se quer o livro. Se não quiser, segue-se a Carla e por aí fora, como sempre. Para a semana digo-vos como foi.

E pronto, já não há livros para sortear. Gostaria de fazer outro sorteio depois do verão, lá por volta de outubro ou novembro, e estou, como sempre, aberto a propostas de autores e editores. Já sabem que embora não seja obrigatório é bastante provável que uma oferta tenha como resultado uma leitura e uma opinião. Caso não haja nada vindo de fora, talvez volte a sortear um dos meus livros. Veremos. Por agora ficamos assim, e até para a semana.

Frank Herbert: Filhos de Duna

Eu leio habitualmente vários livros em simultâneo. E quando digo "vários" é mesmo vários; raro é o período em que não estejam em leitura à volta de uns 10. É certo que a maioria tende a ser livros de contos, que leio conto a conto por vezes com intervalos longos entre uma história e a seguinte, mas não é incomum haver misturados com os livros de contos três ou quatro romances ao mesmo tempo.

A consequência evidente desta forma saltitante de gerir a leitura é cada livro demorar significativamente mais tempo a ficar lido do que quando a leitura é sequencial. Principalmente quando se trata de livros de contos, pois aí os intervalos entre uma sessão de leitura e a seguinte tendem a ser maiores. Mas também quando se trata de romances. Não é raro demorar mais que um mês, ou até que dois, a ler um livro que de outra forma se leria numa semana ou até menos.

O que é raro — raríssimo, quase inédito — é demorar praticamente um ano.

Mas foi isso o que aconteceu com este Filhos de Duna (bibliografia). Sim, é certo que esse ano foi pródigo em acontecimentos que me afastaram da leitura, como de resto o insucesso em cumprir os mínimos do meu próprio projeto leiturtuguento o atesta sem deixar margem para dúvidas. Mas mesmo assim... não é bom sinal.

A grande questão, creio, é Frank Herbert se afastar neste livro, tal como de resto já tinha feito no segundo volume da série, daquilo que mais me agradou em Duna. Este romance original é um livro em que há jogos de poder, e bastantes, mas estes têm lugar sobre um pano de fundo francamente interessante, com uma cultura bem estruturada, entrecruzada com uma ecologia específica, um protagonista dilacerado, em luta sobretudo consigo mesmo, além de mais uma série de detalhes que o romance introduz para tecer uma tapeçaria rica e multifacetada. É isso o que transforma o livro num dos grandes clássicos da literatura de ficção científica. E os tomos subsequentes da série não o são porque disso pouco resta.

O que temos aqui é um livro que, bem espremido, daria para uma novela de cem páginas, não para o calhamaço de mais de 500 que na realidade é. Um livro tão parado que até eu, que não sou propriamente o leitor mais apreciador de ação, nada tendo contra, por princípio, longas páginas de literatura contemplativa, que até eu acho demasiado parado. Um livro em que as questões ecológicas que giram em volta dos vermes de Arrakis e dos seus desertos têm uma importância fulcral em termos de base narrativa mas são tratadas pela rama. Um livro em que é demasiado óbvio que o que interessou a Herbert foi sobretudo a exploração da ideia do kwisatz haderach, i.e., a capacidade sobre-humana de ter acesso à memória genética de cada indivíduo, e das suas consequências. Isso e a luta pelo poder — e pela sobrevivência — que lhe vem associada.

É um livro bastante filho do seu tempo, na verdade. Publicado originalmente em 1976, está muito imbuído de ideias direta ou indiretamente ligadas aos movimentos razoavelmente místicos da época. Ia falar em hippies, mas hesitei, porque não é bem isso. Claro, o misticismo nunca deixou de estar no fulcro de toda a série. A droga que dá acesso a estados de consciência não só alterados mas sobre-humanos é o grande motor dos acontecimentos do primeiro livro, e todas as linhas de enredo relativas à presciência e às seculares maquinações destinadas a ganhar acesso a um grau de controlo sobre o futuro que só uma capacidade profética realmente potente poderia conferir são desde o início parte fulcral de todo o universo ficcional que Herbert cria. Mas no primeiro livro esses elementos estão rodeados de outros, em número e com relevância suficientes para a impressão que fica ser de uma riqueza muito maior do que a que este romance deixa. Especialmente para quem nem os aprecia por aí além, como é o meu caso.

Os protagonistas da história são Leto e Ghanima Atreides, irmãos gémeos, filhos de Paul Atreides, o Muad'Dib, protagonista do primeiro volume da série. Ambos têm acesso total às memórias genéticas dos antepassados, tal como a tia Alia, a protagonista do segundo volume, em cujas mãos estão as rédeas do poder em Arrakis: é a regente, governando em nome de Leto. Mas ao contrário desta, os irmãos são capazes de controlar as vozes internas, evitando assim o estado de marioneta — aquilo a que na mitologia prevalecente se designa por Abominação — em que a tia caíra. Entretanto, no feudalismo planetário do universo de Herbert raro é o poder, mesmo aquele que se limita a um potencial futuro, que não vem associado a ameaças. Consequentemente, a vida dos gémeos corre perigo; um perigo que não vem apenas da tia, ansiosa (ela ou a personalidade que a domina) por se livrar da condição de regente para assumir por completo o controlo, mas também de inimigos de outras casas nobres.

Só que como os gémeos, apesar da sua tenra idade, têm acesso total às memórias dos antepassados e pelo menos parcial à teia de futuros possíveis, sabem perfeitamente o que se prepara e concebem um plano. E é a progressiva execução desse plano que o livro narra. O que constitui, na verdade, um dos seus principais pontos fracos.

É que um dos principais motivos de interesse da literatura centrada no enredo, como supostamente será o caso desta, é levar o leitor a envolver-se o suficiente com a história para querer saber o que acontece a seguir. Para o conseguir, o método mais eficaz é gerar em quem lê incerteza quando ao desfecho da história como um todo, ou pelo menos das sucessivas situações que os progatonistas atravessam. Ora, quando se cria personagens com poderes divinatórios totais, essa incerteza basicamente desaparece: se os protagonistas sabem tudo, vão sair por cima, inevitavelmente, o que torna pouco mais que irrelevantes as peripécias necessárias até lá chegarem. É que se é certo que há histórias cujo desfecho é conhecido de antemão mas geram no leitor a curiosidade de saber como raio se chegou ali, para o fazer é necessário utilizar truques literários bem mais sofisticados do que os que Herbert emprega. De resto, este parece muito mais interessado em tentar gerar uma incerteza quanto ao desfecho que não poderia nunca existir do que em tornar interessante o caminho que a ele leva.

E isso é um problema. Não será problema que impeça o fruir desta história para quem aprecie intrigas palacianas ou histórias fortemente apoiadas na vertente mística, mas para os outros leitores, entre os quais me incluo, é um problema sério porque lhe retira uma componente importante que poderia torná-la interessante para eles. Restaria o estilo literário. Só que o estilo literário de Herbert nunca foi bom, nem no Duna. Este é um clássico e um romance francamente bom, mas por motivos que nada têm a ver com o estilo literário; se dependesse dele mal estaríamos.

E neste Filhos de Duna, alguém com um estilo literário melhor que Herbert teria provavelmente conseguido tornar emocionante o único acontecimento realmente inesperado de todo o enredo: o modo como Leto transcende a sua condição humana para se transformar noutra coisa... uma coisa imbatível. Mas nas mãos de Herbert esse acontecimento fica... bem... creio que a melhor palavra é chocho.

Desapontante.

E depois há todas as ramificações políticas da ideia do ditador benevolente (e sê-lo-á?) que Leto parece corporizar no desenlace da história. Sim, que se há coisa que este livro tem com fartura é política. Mas isso dava para uma tese inteira e não temos tempo.

Não será necessário, mas concluo resumindo: não saí desta leitura satisfeito. Longe disso, na verdade. Sei que esta é uma opinião minoritária, mas acho este livro bastante fraco.

Mas vou ler os seguintes. Perdido por cem...

sábado, 12 de junho de 2021

Mia Couto: Os Anjos Embriagados

Depois de andarmos a passear por territórios croniquentos, eis-nos, com este Os Anjos Embriagados, de regresso a uma ficção mais assumida, mesmo se baseada em casos reais, e o "se" está ali em vez de um "que" porque não sei se é o caso. E aqui, de novo, Mia Couto escreve divertido, com um sorriso no canto de cada palavra.

A história é sobre um tal Joca, bêbado empedernido, e o seu irmão mais velho, Aússe. Este é sacristão, e assume a missão de retirar Joca da vida etílica levando-o consigo para a igreja. Só que na igreja há doses generosas de sangue de cristo, ou seja, de vinho, o que vai ter consequências para ambos os irmãos. O tempo, aparentemente, é ainda colonial, ou talvez não se acaso a igreja manteve linhas de demarcação raciais mesmo depois da independência (de novo não sei), pelo menos nos primeiros anos — Aússe lamenta-se por ser o único negro. Seja como for, há uma pitadinha de crítica social neste conto, temperado por uns pozinhos de ironia sobre a impotência da igreja perante as tentações mundanas. Mas sobretudo há muito humor, envolto no texto típico de Mia Couto.

Ou seja, este é mais um bom conto. Nada tem de fantástico, o que para mim é sempre pena (bem... quase sempre), mas é bom.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 6 de junho de 2021

Leiturtugas #105

Mais uma semana de Leiturtugas. E esta é especial porque vem dividida em duas partes desiguais, uma com um dia e a outra com seis.

A que teve um dia é a que termina o mês de maio e marca o fim do período que conta para o próximo dos nossos sorteios. Mais sobre isso mais adiante. Esse período contou com uma opinião da Tita, de novo apenas em vídeo, sobre um romance distópico de Rute Simões Ribeiro. Intitulado Ensaio Sobre o Dever, foi editado pela própria autora no já algo distante ano de 2017. É, como se compreende, um livro com FC, pelo que a Tita termina o mês com 5c6s.

E na que teve seis dias... não houve nada entre os oficiais. Mas um dos oficiosos, a Katrina, marcou o ponto, trazendo-nos a sua opinião sobre um conto em inglês de Patrícia Morais, também autoeditado pela autora. Intitulado The Banshee Cries, trata-se de uma fantasia YA que, por conseguinte, nada tem de FC.

E agora falemos de sorteios.

Sim, preparamo-nos para sortear mais um livro, Projecto: MOTHER, de Mónica Cunha, o segundo livro oferecido pela Cristina Alves. Para tal, o esquema é o que já conhecem: aos participantes, oficiais e oficiosos, são atribuídos quocientes calculados com base na quantidade de leituras completadas e esses quocientes servem para ponderar a sorte que cada um terá. O resultado é uma lista ordenada, as pessoas serão contactadas sequencialmente ao longo da lista, e o livro irá para o primeiro a aceitá-lo.

Conto ter o vídeo pronto já para a semana e os primeiros contactos serão feitos logo a seguir.

A tabela com as publicações a concurso e os coeficientes respetivos é a maior de sempre, o que não tem nada de surpreendente, visto que estão sempre a aparecer opiniões em lugares novos. O Senhor Luvas, vencedor do último sorteio, tem por esse motivo o quociente reduzido a um terço, e eu sou o único dos participantes oficiais que vai atrasado e tenho também a penalizaçãozinha respetiva.

Publicação Já cumprido Falta cumprir Quoc.
Rascunhos 4c6s 2 (2c) 29
O Prazer das Coisas 4c6s 2 (2c) 24
Intergalactic Robot 4c5s 3 (2c) 29
As Leituras do Corvo 1c8s 5 (5c) 27
O Senhor Luvas 0c9s 6 (6c) 5,67
A Lâmpada Mágica 3c1s 8 (3c) 26
Marcador de Livros 2c0s - 1
Livros e Saltos 0c4s - 1
Book Tales 1c1s - 0,75
Livros de Cabeceira e Outras Histórias 1c1s - 0,75
A Viciada dos Livros 0c3s - 0,75
Por Detrás das Palavras 1c1s - 0,75
Atmosfera dos Livros 0c2s - 0,5
Gotika 1c0s - 0,5
No Conforto dos Livros 1c0s - 0,5
Postal do Algarve 1c0s - 0,5
Palavras Sublinhadas 1c0s - 0,5
Quando se Abre um Livro... 1c0s - 0,5
Portugueses Contemporâneos 1c0s - 0,5
Deus me Livro 0c2s - 0,5
D311nh4 0c1s - 0,25
Estante de Livros 0c1s - 0,25
Livros 2009 0c1s - 0,25
O Livro Pensamento 0c1s - 0,25
Papéis e Letras 0c1s - 0,25
The Girl Who Reads Books 0c1s - 0,25
Bloguinhas Paradise 0c1s - 0,25
As Leituras do Fiacha 0c1s - 0,25
Geocrusoe 0c1s - 0,25

Ainda tive a esperança de que a iniciativa #lerpt levasse os números dos oficiosos a subir de forma visível durante maio, mas foi esperança vã, como se vê, e os quocientes deles continuam ainda muito abaixo dos demais, o que lhes retira quase todas as possibilidades de chegar ao topo da lista. Quase. Às vezes há surpresas.

Para a semana, se tudo correr como planeio, já veremos se houve ou não. Até lá.

Mia Couto: A Culatra Saiu Pelo Tiro

É outro conto-crónica, este A Culatra Saiu Pelo Tiro. Um conto-crónica com muito de insólito mas também muito de realista, não sobre tiros e culatras, propriamente, mas sim sobre ladrões e assaltos. E um conto-crónica que começa como crónica, metamorfoseia-se depois em conto, só para que o leitor no fim acabe por perceber que nunca deixou de ser crónica. Não propriamente.

Mia Couto começa por divagar. Uma página de crónica pura, perplexa com o estranho fenómeno da multiplicação das armas em Moçambique, o que num texto de três páginas e meia é muito. De seguida passa à história propriamente dita, uma história insólita sobre um roubo.

Ora, este roubo é uma alegoria de expropriação, e é por isso que Couto, ficcionando, nunca chega propriamente a sair da crónica. Um fulano qualquer chega calmamente a casa de um vizinho do narrador e diz-lhe que a casa agora passa a ser sua. Sim, com todo o recheio. Porquê? Porque é a vida. E o conto acaba com o vizinho, agora ex, a roubar ao outro a sua própria televisão. A ironia é clara, a ideia de base também. E o texto está tão bem escrito como é habitual, embora eu tenha algumas dúvidas sobre se me agrada a ideia de começar um texto em crónica para o seguir em conto e no fim nunca chegar a sair de crónica. Fica um bocadinho desengonçado.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 5 de junho de 2021

Escrita de maio


O que há a contar sobre o que escrevi em maio resume-se a duas palavras: não escrevi.

Não que tenha estado parado, ainda que a atividade não tenha, de facto, sido grande. Mas houve. Tenho andado a fazer revisões de um projeto que está em fase de acabamento, aquelas coisas chatas de tira frase, mete frase, corta parágrafo ao meio, muda vírgula de lugar, troca vírgula por ponto final, e etc., e etc., e por aí fora. Corte e costura e remendo e remate. Feitas as contas ao que foi fora e ao que entrou a mais, o mês acaba com um saldo positivo de 360 palavras.

E nada mais há a contar. Junho irá pelo mesmo caminho, ainda que seja provável que as revisões acabem antes do fim do mês e chegue portanto o momento de começar a fazer outras coisas. Para o mês que vem se verá. Até lá, ficamos assim.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Philip Roth: A Conspiração Contra a América

Ler este livro após a era Trump causa uma sensação algo bizarra e mais que um pouco inquietante. Sim, os protagonistas são outros, a época é diferente, a camada superficial do ambiente cultural dominante é quase completamente distinta. Mas a verdade é que os paralelismos são tantos e tão profundos que esta história quase soa a profecia.

De resto, isso não terá sido por acaso. O trumpismo não nasceu do nada; limitou-se a dar expressão a tendências que já existiam e estavam bem presentes na sociedade americana. Em 2004, ano em que Philip Roth publicou este romance, quem estivesse minimamente atento já via bem vivas as correntes que iriam desembocar no Tea Party apenas cinco anos mais tarde, e o trumpismo pouco mais é que o desenvolvimento dessas correntes, desabrochadas em grotesco, estupidez e crime.

Especulando, Roth terá compreendido essas tendências, e elas ter-lhe-ão feito lembrar outra época na história dos Estados Unidos em que tendências muitíssimo semelhantes se expressaram. Não sei se assim foi, mas parece-me muito provável. O passo seguinte terá sido imaginar o que aconteceria se tais tendências tivessem triunfado nessa época, e o resultado recebeu o título de A Conspiração Contra a América (bibliografia), mais um elemento que parece presciente dado que tanto na ficção como na realidade pelo menos parte dos acontecimentos são (ou há sinais de que possam ter sido, pelo menos) manobrados por interesses externos.

Outro aspeto francamente presciente, e por isso mesmo mais perturbador, é o uso que Roth faz da cultura da celebridade. Em 2004, se era já possível compreender as tendências gerais que viriam a desembocar num Trump, escolher uma espécie de Trump dos anos 30 para protagonista da viragem para o fascismo denota uma visão invulgar. E foi isso mesmo que Roth fez.

Não que não haja também diferenças significativas entre a ficção e a realidade. Ao contrário de Trump, Lindbergh não é um cretino incoerente e incapaz; é um herói popular, célebre não por apalpar misses mas pelas façanhas que fez e os recordes que bateu aos comandos do seu avião, tão célebre como ele, o Spirit of St. Louis. Um pioneiro da aviação, intrépido e ousado... mas profundamente antissemita.

Esse detalhe explica a escolha de Roth. Movido em boa medida pelo antissemitismo, o Lindbergh da vida real, se não foi declaradamente nazi andou pelo menos a namorar o nazismo, o que se pode igualmente dizer de outras personagens verdadeiras deste livro, como Henry Ford. Também aí há uma ligeira diferença face ao que acabou mesmo por acontecer, pois, no caso de Trump e dos que o rodeiam e propulsionaram, o antissemitismo é um fator menos relevante (embora exista, de uma forma contraditória, com teorias de conspiração antissemitas a ombrear com o apoio declarado a Israel) do que um racismo mais "clássico" na sociedade americana, aquele que tem como alvo todos os que ostentam um tom de pele diferente, sobretudo os negros.

A base, contudo, é precisamente idêntica. E os discursos, as opiniões, e as estratégias também são muitíssimo semelhantes. Lê-se A Conspiração Contra a América e é-se confrontado página sim, página não, com paralelos com o que aconteceu alguns anos depois do livro ser publicado. Nem sempre são paralelos óbvios, ainda que também os haja assim; mas eles estão lá, prontos para serem vistos pelo leitor atento. E é daí que vem boa parte do impacto que o livro tem.

Este é um livro que impacta, e em parte por isso poderia ter sido um livro magnífico. Mas não é. É francamente bom, mas tem — na minha opinião, obviamente — um defeito fatal que o impede de cumprir todo o seu potencial.

Esse defeito está intimamente ligado a uma escolha do autor, feita para aumentar o impacto. Roth introduz-se e à família na história, contando-a do ponto de vista de si próprio enquanto criança. Os protagonistas, além dos óbvios protagonistas históricos, são ele, o pai, a mãe, o irmão e um primo. O livro ganha assim uma intimidade e, de certo modo, uma verosimilhança que seria difícil alcançar de outro modo. Mas essa abordagem tem um problema sério: não permite fazer uma história alternativa propriamente dita, daquelas com ponto de divergência e consequências que perduram no tempo. Só permite fazer uma espécie de desvio alternativo, seguindo uma história diferente da verdadeira durante algum tempo mas regressando depois ao fluxo normal do tempo, sem deixar para trás nenhuma consequência. Porque o autor que escreve está nesta linha temporal, não noutra qualquer, portanto tem de arranjar maneira de voltar para cá mesmo que vá viajar por outra durante uns tempos. E isso não é fácil de fazer sem consequências negativas para verosimilhança de toda a história. Por paradoxal que possa parecer.

É o que acontece aqui. Na versão de realidade criada por Roth, os Estados Unidos elegem um presidente nazi, ficam quase, quase a cair no nazismo, mas depois, como que por milagre, tudo se compõe, sem que da incursão pelas trevas da história do século XX fiquem quaisquer sinais ou consequências. A experiência da família judaica americana a assistir ao crescimento do monstro, e em parte a combatê-lo, fica a meio (ou a muito menos que meio) das experiências correspondentes das famílias judaicas europeias da época. E depois de tudo, nessa versão da realidade os EUA contemporâneos são indistinguíveis dos EUA contemporâneos na realidade verdadeira.

Mas o pior é que esse regresso à normalidade e os acontecimentos que a ele levam é despachado no penúltimo capítulo, um capítulo de infodump quase puro em que o leitor se limita a assistir a uma espécie de aula de história alternativa. A família quase desaparece, o Roth-protagonista também, restam apenas os acontecimentos, a cujo desenrolar assistimos à distância. Como que assistindo a uma aula de história. Neste capítulo, completamente diferente de todos os outros, parece que Roth se farta do seu romance e procura abreviá-lo, contando rapidamente um período da história com que, se no-la tivesse mostrado, teria ocupado muito mais páginas.

Não sei porque o fez assim, e não me arrisco a tentar adivinhar. O que sei é que esse capítulo corta por completo o fluxo narrativo. Sim, é certo que este regressa no derradeiro capítulo, mas já não é a mesma coisa. O livro poderia ter sido magnífico — estava a sê-lo até aí. Mas aquele capítulo, não o estragando, e em conjunção com a inconsequência da alternativa histórica, impede-o de chegar tão longe como poderia ter chegado. Não creio, portanto, que estejamos perante uma obra-prima. Mas estamos perante um livro francamente bom, que alcança sem grande dificuldade o objetivo definido pelo seu autor: mostrar que, sim, podia perfeitamente ter acontecido e, mais do que isso, poderá voltar a acontecer.

Como vimos. E como, suspeito, ainda voltaremos a ver, que a abjeta irracionalidade trumpista pode ter sido derrotada mas está muito longe de ter morrido.

Este livro foi comprado.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Leiturtugas #104

Olá, olá, cá estamos nós outra vez no reino das Leiturtugas.

Reino esse que esta semana se viu pouco povoado. Povoou-o a Tita, desta feita quase exclusivamente em vídeo, com a sua opinião sobre Fiona e Lucífera, álbum de BD felina de Sónia Cântara, publicado em abril último pela Ideias de Ler, uma das editoras do grupo Porto Editora. Sem FC, claro, ou não fosse BD, portanto a Tita passa a 4c6s.

E povoou-o um oficioso em estreia, o Carlos Faria, graças à opinião que publicou sobre o mais célebre dos romances de José Saramago, Memorial do Convento. agora publicado pela Porto Editora depois de décadas na Caminho.

E por esta semana foi só isto. Venha a próxima.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Mia Couto: O Cabrito que Venceu o Boeing

Pelo primeiro parágrafo que Mia Couto escolheu para prefaciar esta historinha, no qual nega perentóriamente, àquele jeito muito seu, que a história seja mais que ficção da mais pura, eu deduzo, paradoxalogicamente, que esta foi história realmente acontecida e este conto-crónica acaba por ser mais crónica que conto. E para se compreender melhor porquê, descreva-se a história. Obscurecidamente, não vá alguém irritar-se com demasiadas desvelações.

O Cabrito que Venceu o Boeing é, curiosamente, sobre um cabrito que venceu um Boeing. Não sozinho, entenda-se. Contou para isso com a prestimosa ajuda do responsável, cuja função no Boeing era acompanhar à província a delegação estrangeira, gente investimenteira. E com uma dose avultada de azar, pois só por azar acabou como acabou. A coisa é insólita: ao embarcar no avião, depois de muito bichanar do responsável, a delegação estrangeira surpreende-se por ver que um rebanho inteiro de cabritos irá voar com ela, e depois surpreende-se mais ainda com uma imprevista demora na descolagem. Um dos cabritos fez o que não devia, e antes dele o próprio responsável também já tinha feito o que não devia, com consequências várias.

Mais uma historinha ironicamente corrosiva, a atacar a pequena e, por extensão, também a grande corrupção dos responsáveis políticos, dos que se servem dos cargos para proveito próprio, com efeitos fáceis de adivinhar sobre o desenvolvimento de um país, que neste caso é Moçambique mas podia ser qualquer um, e a imagem desse país no exterior. Aconteceu mesmo? Se calhar, se calhar...

Textos anteriores deste livro:

domingo, 23 de maio de 2021

Leiturtugas #103

Sejam bem-vindos a mais uma semana de Leiturtugas!

Esta começa com BD. É que o Artur Coelho publicou logo na segunda-feira uma das suas breves notas sobre banda desenhada, que remetem para opiniões mais desenvolvidas noutro sítio. O alvo da leitura foi desta feita Planeta Psicose, de Pedro Santo, álbum publicado já este ano pela Escorpião Azul. BD, já se sabe, conta como "sem FC", pelo que o Artur passa a 4c5s.

Um dia mais tarde foi a Carla Ribeiro a publicar a sua opinião sobre O Mistério da Estrada de Sintra de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, romance de 1870 que ela parece ter lido na edição da Book Cover, publicada em janeiro último. Não há neste livro, claro, nem sombra de FC, pelo que a Carla passa a 1c7s.

E já quase a fechar a semana, a mesma Carla voltou à carga, publicando desta vez a sua opinião sobre outro livro infantojuvenil de Bruno Matos e Raquel Carrilho, também parte da série sobre a Família Monstro. O título é, desta vez, A Maldição do Ofeliakrom, e o livro foi publicado já este mês pela Booksmile. FC é que não tem nenhuma, pelo que a Carla passa a 1c8s.

Fora dos oficiais, a semana conta com uma só opinião, cabendo desta feita a Isabel Daires o transporte da tocha. O livro alvo da opinião é um que já apareceu na semana passada: a coletânea de Luís Corte Real intitulada O Deus das Moscas Tem Fome e publicada pela Saída de Emergência. Nada de FC, aparentemente.

E é tudo por hoje. A ver vamos o que aparece por aí nos próximos dias.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Irmãos Grimm: João Jogador

Este conto deve ter o menor rácio conto/nota de todo este livro. Para quem não tem acompanhado estes comentários nem conhece o livro, eu explico: os Irmãos Grimm fizeram acompanhar todos (ou quase) os contos recolhidos nesta obra ou para ela recriados (ou simplesmente criados) de uma nota, mais ou menos extensa, onde explicam o que fizeram, onde encontraram o conto ou o material de base, e que parentescos nele encontram com outras histórias da literatura tradicional, tanto alemã como europeia em geral. E por vezes extraeuropeia. Ora aqui o conto João Jogador ocupa duas páginas e meia, mais ou menos. Já a nota, impressa numa letra significativamente mais pequena, ocupa 12.

Porquê tão extensa? Porque basicamente consiste de vários outros contos, originários deste ou daquele sítio, que relatam no essencial a mesma história de João Jogador ainda que com algumas variantes. Não é raro que os Irmãos Grimm referenciem este tipo de histórias aparentadas, bem pelo contrário, mas geralmente limitam-se a indicar onde divergem e onde convergem com a história que elegeram como principal. Aqui não; aqui apresentam-nas por extenso, e temos cinco ou seis contos pelo preço de um.

Não sei por que motivo resolveram eleger esta história em concreto para uma nota tão detalhada. Não me parece que seja uma história particularmente interessante; não é com toda a certeza um dos clássicos dos Grimm. Trata-se de um conto sobre os malefícios do jogo, protagonizado por um jogador de tal forma inveterado que nem Deus e São Pedro conseguem fazer alguma coisa dele.

Sim, o fundo cristão está muito presente, ainda que o material de base pareça ser significativamente mais antigo. Esta é daquelas histórias que parecem ter sido cooptadas pelos padres para servirem de auxiliares aos sermões, a fim de melhor passarem a lição moral aos paroquianos. Para o efeito, limpam-nas da maior parte dos elementos pagãos, ou pelo menos de uma parte significativa, e acrescentam-lhe elementos da mitologia judaico-cristã, em parte como substitutos, em parte como elementos novos. Há várias histórias assim neste livro, e em outras compilações de contos populares — incluindo as portuguesas — também se podem encontrar bastantes. Talvez seja em parte isso o que explica a existência de tantas variantes, e talvez seja essa a razão da extensão da nota. Não sei. Talvez.

Seja como for, o conto tem o seu interesse, mas este é mais sociológico do que literário. O interesse que desperta é mais em saber como chegou àquela forma final (no que tem de relativo falar-se de uma "forma final" na literatura popular) do que propriamente na história ou nas personagens. Também há vários contos assim neste livro. Este é mais um.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Já tá... até 2012

Rapidamente e sem boneco, que não há boneco para isto, venho só avisar os eventuais interessados de que o índice remissivo de todas as opiniões que a Lâmpada foi tendo ao longo dos anos, e que tenho vindo a construir devagarinho nos intervalos dos últimos meses, já está completo...

...até 2012.

Já não falta tudo, portanto. Faltam só nove anos e meio. Coisa pouca. É num instante.

Siga.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Mia Couto: O Retro-Camarada

Tudo me leva a crer que Mia Couto gargalhava interiormente sempre que assistia a algum exagero de "camaradismo" no seu Moçambique dos anos 80. Gente que não compreendia bem — ou de todo — a ideologia marxista mas apesar disso — ou por causa disso — procurava aplicá-la com um zelo fanático causava-lhe, tudo mo indica, uma irresistível vontade de rir. As provas, ou pelo menos os indícios, são os vários textos que neste livro ironizam com essa tendência. E o conto O Retro-Camarada, como de resto o título já indica, é mais um.

De parêntesis, não deixa de ser irónico que publique essas crónicas precisamente na Caminho, hoje em dia uma editora tão amorfa e capitalisticamente mesmista como todas as outras, engolida por um grande grupo empresarial do setor, mas na época declaradamente afeta ao PCP. Não era a única, mas mais que a Caminho só mesmo as Edições Avante. Fecha parêntesis.

Sim, o retro-camarada é um fanático. E o conto narra a forma como esse fanatismo inferniza a vida da família, até que — ironia das ironias — ele acaba vítima das suas contradições, em furiosa oposição a si próprio. Claro que há aqui alegoria, o que de resto é tudo menos incomum nestes contos-crónica de Mia Couto, e gozo, e humor, e uma história tão bem contada como é habitual. Um bom conto, este.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 16 de maio de 2021

Leiturtugas #102

Eis que regressam os participantes "oficiais" nas Leiturtugas.

Nomeadamente o Artur Coelho, que publicou no início da semana a sua opinião sobre O Senhor Ventura. Não, não é esse Ventura. É uma novela de aventuras (daí o nome do homem, aposto) escrita por Miguel Torga, publicada originalmente em 1943, e que o Artur leu numa edição recente (2018) da D. Quixote. Não tem qualquer sinal de FC, pelo que o Artur passa a 4c4s.

E também a Carla Ribeiro, que publicou a sua opinião sobre uma recolha de lendas tradicionais portuguesas, apropriadamente intitulada Lendas Tradicionais Portuguesas. Não encontrei informação sobre quem as compilou, mas sei que o livro foi publicado no mês passado pela Guerra & Paz. Nada de FC, evidentemente, mas muito fantástico, vertente maravilhoso. A Carla passa a... ah esperem lá.

É que a Carla também leu e comentou outro livro ainda mais recente, publicado já este mês. É uma espécie de horror infantojuvenil de Bruno Matos e Isabel Carrilho, parte de uma série que talvez tenha sido inspirada pela série Arrepios e sobretudo pela Família Adams e que se chama A Família Monstro. O título do livro que a Carla leu é O Torneio dos Feiticeiros e é edição da Booksmile. Nada de FC, e a Carla passa a 1c6s.

Quanto aos oficiosos, a semana trouxe uma repetente, em dose dupla, e um estreante.

A repetente é a Anabela Risso, que opinou primeiro sobre O Esqueleto, livro de Camilo Castelo Branco com elementos fantásticos que ela parece ter lido num dos ebooks das Edições Vercial, e depois sobre O Filho de Mil Homens, livro de Valter Hugo Mãe publicado inicialmente em 2011 mas que ela terá lido na edição de 2019 da Porto Editora, que parece estar plenamente integrado no realismo mágico. Nada disto tem FC, mas se a Anabela quisesse tornar-se participante oficial estava tão em dia como eu.

Quanto ao estreante, é o Fiacha, que leu e comentou mais um livro muito recente, este publicado pela Saída de Emergência. O Deus das Moscas Tem Fome é uma coletânea de contos sobre um "detetive do sobrenatural" (i.e., népia de FC, mais que provavelmente, ainda que sendo o autor quem é seja possível que haja uma pitadinha de horror cósmico lá misturado) da autoria de Luís Corte Real.

E por esta semana foi isto, e não está nada mal. Veremos o que nos reserva a próxima.

sábado, 15 de maio de 2021

Daniel de Sá: A Paixão de Sóror Josefa do Menino Deus

Há na literatura algumas coisas que eu percebo ao mesmo tempo que não percebo, e uma delas é a tendência que tantos escritores parecem exibir para escrever modernamente segundo estilos e padrões antigos de séculos. Não me refiro propriamente ao pastiche, que traz sempre em si qualquer coisa de irónico, ou pelo menos de desafio. Refiro-me mesmo a autores que resolvem fazer de estilos antiquados a sua forma de expressão artística.

Percebo porque percebo a tentação de imitar (ou, vá, inspirarmo-nos em) aqueles artistas que admiramos. Acontece com todos os que criam qualquer coisa; a arte não surge no vácuo e todos somos (e vamos sendo sempre, que é processo que nunca termina) influenciados pela arte e pelos artistas com quem entramos em contacto. Mas ao mesmo tempo não percebo porque, bolas, afinal de contas estamos a escrever hoje, não no século XVIII ou coisa que o valha (ou, na FC, em 1950). E eu tenho muita dificuldade em compreender quem para no tempo, seja em que domínio for.

Já estão a ver onde isto vai dar, não estão? Sim, Daniel de Sá escreve praticamente como se fosse um autor do século XIX. Escreve bem, quanto a isso não há dúvidas, até porque a geração de escritores que parece tê-lo influenciado mais (Eça, Camilo, os autores do tardio romantismo português, etc.) foi bastante boa. Mas escreve como há muito não se escreve. Ou quase.

E é por isso que este A Paixão de Sóror Josefa do Menino Deus, conto em registo meio epistolar, pois é constituído principalmente por material alegadamente escrito pela própria Josefa, moçoila apaixonada que, por impossibilidade do amor, prefere recolher-se ao convento, se lê quase como algo escrito na primeira metade do século XIX. O cliché da situação, o açucaradíssimo romantismo, numerosos detalhes do próprio texto, tudo aponta para aí. E eu percebo e não percebo. E sim, também gosto e não gosto. Gosto do modo como o português sai tratado da empreitada mas do resto nem por isso. Estou muito longe de ser fã do romantismo literário, para começar, e voltar uma vez mais a contar esta história, já contada milhentas vezes por outros tantos autores, sem lhe acrescentar novidade alguma, parece-me muito desinteressante.

Textos anteriores desta publicação:

domingo, 9 de maio de 2021

Leiturtugas #101

Outra semana bastante calma, esta (onde estão as vossas leituras e comentários de contos, pá? Hm?), mesmo estando nós já num mês que tende a ser associado à FC por causa de duas datas de maio que estão ligadas a Douglas Adams e ao Star Wars, o que poderia eventualmente espevitar as Leiturtugas. Mas pelos vistos não. E eu também não ajudo.

Sim, não há nada meu esta semana. E, na verdade, se não fosse um dos oficiosos a marcar ponto, seria uma semana totalmente em branco.

Que oficioso? A Anabela Risso, que publicou a sua opinião sobre um livrinho infantil do Afonso Cruz, cheio de fantasia como é típico do género. Intitulado Os Pássaros e publicado pela APCC em 2014, é apenas um conto, imagino que bastante ilustrado.

E nada mais. Para a semana, haverá alguma coisa? Não faço ideia. Mas haveremos de ver, não é? Então até lá. Ou talvez não, caso não apareça nada por aí.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Mia Couto: Ossos do Ofício

Com estes Ossos do Ofício, Mia Couto regressa às crónicas que são declaradamente pequenos contos, mesmo que porventura baseados em casos reais (ignoro por completo se são ou não, mas admito a possibilidade). Não posso dizer que regressa ao humor, pois temos tido muito disso nas últimas crónicas-mesmo-crónicas, embora aqui o humor criado pelo inusitado da situação seja menos feito de ironia fina do que, por exemplo, no texto anterior.

Mas que situação é essa?, perguntará quem estiver a ler isto. É uma situação algo semelhante àquelas de que o Mário Zambujal tanto gosta, ainda que em outras geografias.

Sim, estamos no mundo dos bons malandros. Ou, vá, pelo menos dos malandros. O protagonista é primo de um preso, gatuno convicto, e, longe de se envergonhar disso, é vaidoso do primo e da sua atividade. Tal como o primo, de resto. Mas o mundo de ambos ameaça desabar quando chega a funesta: vão libertá-lo. Segue-se o inevitável, o plano para regressar rapidamente à cadeia e manter intacta a imagem banditesca. Mas as coisas não correm exatamente como planeado.

Podia tratar-se apenas de uma comediazinha de costumes ambientada entre a gente da má vida, e já seria perfeitamente eficaz, mas Mia Couto ainda lhe confere um subtilíssimo perfume a crítica à realidade moçambicana da época. Social e, sim, também política. É um conto bastante bom, este, mesmo sem ter nada daquilo que mais tende a agradar-me no que leio: a faceta fantástica.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Mário de Carvalho: O Lugar do Gelo

Esta gente passa a vida a confundir género humano com Manuel Germano, essa é que é essa.

Não, não vou explicar. Vão ter de ler estas histórias de Mário de Carvalho para perceberem a frase que abre este texto. O que vou fazer é dizer-lhes que este O Lugar do Gelo é mais um conto fantástico e humorístico, como são todos os ambientados no Beco das Sardinheiras. Desta vez tudo começa quando uma família compra uma máquina de costura a fim de arredondar o orçamento fazendo ou reparando roupa para fora. Ou por outra, começa quando o homem do casal solta um berro, a meio da noite, e desata a protestar, entre pulinhos e imprecações, que se queimou na máquina de costura.

Comoção, gritaria, curiosidade geral do bairro em peso, e vem-se a descobrir que a queimadura não foi de calor mas de frio, de gelo mesmo, o qual emana da tal máquina de costura. Tudo muito castiço e bastante divertido, incluindo o remate do conto, apesar de algo previsível. Venha o próximo.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Escrita de abril


E lá chegou abril, e lá se foi abril. O tempo passa como os ventos moderados de primavera: rapidamente e sem deixar grandes sinais da sua passagem. Um ramo tombado aqui, um montinho de areia acumulada ali, lixo variegado acolá. A respiração de uma vida em suspenso, à espera nem se sabe bem de quê.

Mas vai-se escrevendo. Sim. Um pouco. Porque também isso é uma espécie de respiração. Uma espécie diferente, embora não tanto como possa parecer.

E vai-se escrevendo, pelos vistos, um pouco mais todos os meses. Se em março foram 14 páginas e em fevereiro 10, em abril foram 16 e mais teriam sido se não tivesse sido finalmente concluída a noveleta em que eu tinha vindo a trabalhar nos últimos tempos. Como quase sempre acontece, da conclusão dessa ficção não se passou de imediato ao início ou continuação de alguma outra, que isto necessita de um certo período de pausa para sair de um mundo e entrar noutro. Entretanto vai-se revendo outras histórias, pois esse é processo menos criativo, mais relacionado com questões estruturais e linguísticas, tira palavra, acrescenta frase, muda vírgula de lugar, essas coisas chatas. Menos exigente, de certa forma. Ou mais, se visto por outro prisma.

Em suma, isto continua fraco mas menos do que no inverno. E as histórias vão saindo. Uma a uma. Vejamos agora o que maio nos trará.

domingo, 2 de maio de 2021

Leiturtugas #100

E vão 100!

E esta semana voltámos a ter participações oficiais, graças à Cristina Alves, que leu e comentou o romance A Princesa Desencantada, de Irina Sopas. Publicado já este ano, em fevereiro, parece tratar-se basicamente de chick-lit com alguns elementos fantásticos à mistura — parece haver um certo tom de conto de fadas, ambientado num reino ibérico fictício. Edição da Trebaruna. Não há é nenhuma FC, pelo que a Cristina passa a 4c6s.

Mas graças sobretudo à Tita, que publicou uma opinião, como quase sempre em texto e em vídeo, sobre nada menos que três livros de terror/horror/paranormal de autoras portuguesas. São eles Insanidade, uma novela de Raquel Fontão publicada já este ano pela própria autora, e duas coleções de contos de Ana Cláudia Dâmaso: Treze Más Histórias Para Adormecer, publicada em 2018 pela Manufactura, e Sete Boas Histórias Para Dar a Volta à Cabeça, publicada há dias pela Cordel d'Prata. Uma fartura. Nada disto parece conter nenhuma FC, pelo que a Tita passa a sinalefar 4c5s.

E nada mais. Foi curtinho para número tão redondo, mas calhou assim. Até para a semana.

domingo, 25 de abril de 2021

Ângelo Brea: 盆栽

Não, não é engano nem piada. O título que Ângelo Brea deu a este seu conto foi mesmo 盆栽. E eu acabei de aprender que o itálico também funciona nos kanji japoneses. E o negrito idem.

Perguntarão vocês, a menos que saibam ler japonês, o que raio significa 盆栽. Os mais expeditos poderão ter ido a algum tradutor automático e já saberão que significa "bonsai". Para os menos expeditos, e para aqueles que têm apenas o livro na mão, sem possibilidade de uso imediato de alguma forma de conexão à rede, Brea explica numa notinha de rodapé. E no índice. Mas de que trata, ao certo, este conto tão estranhamente intitulado?

Ninguém se surpreenderá se eu disser que é um conto de ficção científica, suponho. Mais: é um conto de FC profundamente asimoviano, que acompanha a vida de uma família japonesa que cuida há gerações de uma coleção de bonsais quase capaz de rivalizar com a do próprio imperador. Um determinado bonsai é passado de pai para filho (ou filha), ou de avô para neto, não porque seja oferecido mas porque quando chega o momento do jovem que demonstra interesse pela coleção ser presenteado com um dos bonsais, do qual terá de cuidar a partir dessa altura, escolhe-o sempre. Este processo vai-se repetindo até que chega um momento em que a família parece não ter nenhum jovem interessado na coleção. Sorte que estejamos no futuro. Um futuro em que o colecionador da vez ganha a vida como roboticista. E, como sucede n'O Homem Bicentenário, constrói para si próprio o mais sofisticado dos robôs.

O Homem Bicentenário, de resto, parece ser a principal inspiração desta história, que lida com o tempo, a família e a tradição e a forma como essas coisas se relacionam com a mudança e a sucessão das gerações. É uma boa inspiração, convenhamos. Em parte por isso, talvez, este é um bom conto, dos melhores do livro até agora.

Contos anteriores deste livro:

Mia Couto: O Secreto Namoro de Deolinda

Lá anda o Mia Couto a trocar-me as voltas. Depois de crónicas que são mais contos que crónicas e de crónicas que são mesmo crónicas e até de crónicas mais ou menos ficcionadas, crónicas com cheiro a conto, eis que me atira para cima com uma crónica com conto dentro. A qual até pode ser simplesmente um conto escrito em tom de crónica.

Confusos? Também eu.

Mas vou tentar explicar. O Secreto Namoro de Deolinda é basicamente uma crónica política, cujo tema principal é uma crítica àqueles ideólogos que tendem a projetar a ideologia mais além do que seria aconselhável ou meramente lógico. Mais concretamente, é sobre alguém que teria criticado Mia Couto por as suas crónicas serem escassas de acutilância contra a burguesia. Moçambique, anos 80: estavam na moda os alardes de marxismo. E é contra esses alardes que Couto se atira, com a sua típica fina ironia. Mas lá pelo meio, para vincar melhor o seu ponto, conta uma história: a história de Deolinda que foi parar ao título.

Deolinda — reza a história —, operária fabril, aparece um dia em casa com um crachá de propaganda que mostra a efígie de Karl Marx, o próprio. O pai é que não acha graça nenhuma: sem saber de quem se trata, desconfia da filha, julgando-a enrolada com o "cooperante" cuja foto traz ao peito. A tal ponto a enferniza que ela se imagina realmente enamorada do velho judeu prussiano das longas barbas e passa a namorar com ele às escondidas, por mais imaginário que seja o namoro. A ironia final é este deixar de ser imaginário e o "Marx" da vida real ser em tudo diferente do que inspirou o crachá.

A opinião de Mia Couto fica clara para quem a saiba ler nas entrelinhas, o que no fundo é o objetivo de qualquer crónica. E o texto, tão bem escrito como sempre, tem o interesse acrescido de também ser de certa forma um texto de ficção. Pouco mais podemos pedir, não é verdade?

Textos anteriores deste livro:

Leiturtugas #99

Sabem qual é o grande problema das fontes de energia renováveis? A irregularidade. Para produzir energia eólica tem de haver vento, para a solar convém que faça sol, para a hidroelétrica tem de chover. E todas essas coisas são inconstantes, o que leva à necessidade de arranjar alguma forma de armazenamento ou reservatório que possa compensar os momentos de falta.

Que tem isto a ver com as Leiturtugas? Nada. Exceto o facto de as Leiturtugas seguirem precisamente a mesma dinâmica. O tempo é um recurso finito, e o tempo que se gasta a ler material português, nomeadamente de ficção científica e fantástico, mais finito é. O que faz com que por vezes haja muitas leituras e muitos comentários, e outras não haja nenhuns. Ou quase nenhuns. E como não temos um reservatório leiturtuguento de onde retirar material em momentos de escassez, pode acontecer, e já aconteceu bastantes vezes, passarmos uma semana ou mais sem termos nada para publicar numa destas notas.

Esteve mesmo quase a acontecer desta vez. A semana passada foi muito abundante, e eu estava a ver que esta ia ficar a zeros. Mas não. No domingo apareceu um dos oficiosos (um oficioso estreante, ainda por cima), o Tomé, a opinar sobre um livro que já tinha aparecido na semana passada: A Revolução dos Homens Sentados, de Rute Simões Ribeiro. Publicação da autora, do ano passado, trata-se de uma coletânea que parece conter algum fantástico.

E para terminarmos falta apenas dizer que o Marco quis o livro do António Bizarro, pelo que o processo deste sorteio está encerrado. Daqui a um mês e tal haverá outro. E quanto a Leiturtugas, elas seguem já na próxima semana. Provavelmente.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Nem só de Leiturtugas se faz o estímulo à leitura de originais na nossa língua

Não sei de onde veio, ainda que uma pesquisa rápida no Google me sugira que é coisa oriunda do Instagram, essa rede que não frequento (mas não tenho raiva a quem frequenta, embora preferisse de longe que essa malta viesse cá para fora com o que tem a dizer em vez de se encerrar no jardinzinho murado e pelo menos semi-inacessível que aquilo é... para a internet aberta, sabem?, onde a sua audiência não fica limitada aos que frequentam a mesma rede social). Mas a ideia é boa, vai na linha do que tenho tentado fazer com as Leiturtugas, portanto aqui fica a menção e a ver vamos se ficará também a adesão. Sim, não sei ainda se vou participar. Depende de várias coisas que não estão inteiramente sob o meu controlo. Mas vocês? Vocês deviam.

Em que consiste a coisa? Em ler contos. 31 contos, para ser preciso, um por dia durante o mês de maio, com a única restrição de terem de ser de autores de língua portuguesa. É uma coisa que eu faço com regularidade — mais um motivo por que não sei ainda se vou aderir; não é nada que seja incomum nas minhas leituras, pelo que não preciso deste tipo de estímulos — mas não vos vejo a fazer tanto como seria desejável. Os contos não mordem. Os nossos autores também não (a não ser que o leitor queira, claro; se o leitor quiser, podemos morder com todo o gosto. O leitor ou a leitora, naturalmente, consoante as inclinações de cada um(a).) E há por aí contos bestiais só à espera de serem descobertos. E há muitos outros que, não sendo bestiais, são na mesma leituras agradáveis e/ou relevantes.

Mais: nem têm de gastar dinheiro, o que nesta altura do campeonato pandémico é um fator determinante para muita gente. Há por aí contos grátis com fartura, e eu compilei aqui, há algum tempo, para as Leiturtugas, uma lista de sítios espalhados por esta internet fora que têm disponível um subconjunto muito específico de histórias completamente válidas para esta nova iniciativa: portuguesas e de ficção científica (ainda que vários desses sites tenham também coisas não portuguesas e de outros géneros). Não fui verificar se todos os links continuam válidos, mas julgo que a maioria deve continuar. E se não querem andar à procura, olhem, tenho este livro disponível, em EPUB, MOBI (kindle) e PDF. São 29 histórias, de autores portugueses e brasileiros, pelo que vos basta somar duas outras histórias (que até podem sacar aqui mesmo da Lâmpada, se quiserem) e ficam com o projeto composto.

De modo que vá, toca a ler contos em maio. Um por dia. De autores de língua portuguesa, venham eles de onde vierem. E se forem de FC tanto melhor, porque eu sou fã. E se os comentarem por aí, na internet aberta, ouro sobre azul, porque acabam por participar de duas iniciativas com uma só leitura: o #DesafioLerPT e as #Leiturtugas.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

E ainda dizem que ninguém dá valor à ficção científica portuguesa!

Quer adquirir o meu Sally? Tem uma conta na Amazon? Então, pela módica quantia de 126 dólares e 66 cêntimos (mais 15 dólares de portes de envio), poderá receber no conforto do seu lar esse meu primeiro livro com todas as suas 38 páginas! Apenas 3,33 dólares (mais portes) por página! Encomende já!

Duvida? Então siga o link. Não tem nada que enganar.

E fica aqui a prova, em imagem. Para mais tarde recordar.

(E não, não tenho rigorosamente nada a ver com isto, caso estejam com dúvidas. E se alguém decidir mesmo desembolsar os benditos 3,33 dólares por página nem um cêntimo me virá parar ao bolso. O mundo é injusto, não é?)

E ainda dizem que ninguém dá valor à ficção científica portuguesa!

Obrigado ao Roberto Mendes pelo toque e pela gargalhada.