segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Lido: Felicidade

Em quase todas as antologias temáticas há um ou outro conto que só de raspão respeita a proposta. A desta antologia são minicontos e vinhetas que tenham os livros como tema, e cabe aqui a este Felicidade, de Jorge Palinhos, cumprir o papel de rebelde iconoclasta: os livros fazem aqui uma breve aparição, mas não são de nenhum modo fundamentais para a história e podiam facilmente ser substituídos por várias outras coisas. No entanto, os
organizadores acharam-no suficientemente próximo ao tema para o aceitarem, e ainda bem, porque é um conto interessante.

Num futuro talvez não muito distante, um futuro utópico de certa forma semelhante ao de Admirável Mundo Novo, no qual a população é sistematicamente feliz, um rapazinho perde um animal de estimação e mergulha num estado de preocupante tristeza. Isso leva os pais a consultar um médico, o qual fica alarmado com o que vê e se apressa a receitar tratamento ao rapaz. Não há motivo para preocupações: depressa o miúdo estará de novo feliz. E não se compreende por que motivo isso é tão arrepiante. Pois não? Sim, este é, definitivamente, um continho interessante.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 9 de dezembro de 2017

Lido: A Décima-Terceira História

A Décima-Terceira História (que realmente é a décima terceira... nunca tinha visto tal forma de decidir um título) é uma raridade: uma história que Alexandra Pereira não dedica a ninguém, limitando-se a apresentá-la com este estranho título que nada diz sobre ela e a lançar-se naquilo que quer contar. E o que quer contar é uma história de amor, cumplicidade e timidez entre chineses, provavelmente imigrantes entre nós, pois há em fundo alfarrobeiras e festas ao padroeiro Agostinho e o nome próprio da mulher é Rosalina. Uma história sem nada de fantástico.

Bem escrito, sem aqueles diálogos artificiais que por vezes estragam as histórias de Alexandra Pereira (esta tem diálogos, mas não são artificiais), e com sensibilidade, este é um bom conto, ainda que esteja longe de ser daquelas histórias que mais me despertam o interesse. As minhas preferências são outras. Mas este conto é bom, independentemente do interesse que me desperte ou deixe de despertar.

Contos anteriores deste livro:

Lido: A Bôlha e a Cratera

Na ficção científica de um período do século XX que vai mais ou menos dos anos 50 aos 70, a Lua ocupou lugar de destaque, alimentando-se de, e alimentando, o interesse do público pelo nosso satélite, tendo depois sido posta um pouco de parte tal como aconteceu na realidade da exploração espacial. Isto sem prejuízo das obras anteriores e posteriores lá ambientadas, naturalmente, que também existiram e continuam a existir. Foram os Estados Unidos a liderar essa ascensão e queda, como seria de se esperar dado ser lá o epicentro da FC mundial, mas isso é fenómeno que não se resumiu aos EUA, tendo também tido reflexos nos países lusófonos.

A Bôlha e a Cratera (bibliografia), de Rubens Teixeira Scavone, conto que já aparece datado pela grafia usada logo no título, é um desses reflexos. Ambientado numa base lunar estereotipicamente situada numa cratera recoberta por cuma cúpula (a bolha do título) gira não em volta disso, mas de um sorteio e de um crime. Contada na primeira pessoa pelo jornalista da base, a história relata com (excessiva) abundância de apartes muito descritivos e cristãos o que acontece quando um jovem que perdeu sucessivos sorteios para ir de visita à Terra decide que dessa vez não se deixará ficar na Lua, dê lá por onde der. E a investigação acaba por revelar outros segredos, igualmente trágicos.

Podia ser um conto muito interessante, este. Scavone escreve bem e a história que cria tem abundância de mistério e reviravoltas. O problema são os apartes, as derivações, que quebram o ritmo narrativo, em parte porque nem são bem introduzidos no fluir da história, nem ficam bem resolvidos, na sua maioria. As consequências são uma história que poderia ser emocionante mas se torna aborrecida e um texto que poderia ser de grande qualidade mas perde parte dela por causa da inabilidade demonstrada pelo autor em segurar a narração. É pena.

Conto anterior deste livro:

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Lido: Dinosaur

É por causa de historinhas como esta que Bruce Holland Rogers é tão bom escritor de contos muito curtos. Em Dinosaur, ele consegue, em muito poucas linhas, contar a história de uma vida inteira, ao mesmo tempo que reflete sobre o conformismo e a tensão que existe sempre entre esse conformismo, social ou qualquer outro, e a mais profunda natureza de cada pessoa... ou de cada criatura. E em muitas outras das suas histórias faz coisas semelhantes, sempre numa prosa elegante, muitas vezes com ironia e quase sempre com grande subtileza.

Dinosaur conta a história de um miúdo que queria ser dinossauro quando fosse grande. Pais e sociedade, naturalmente, encararam tal desidério com desagrado e rejeição, sugerindo-lhe outros rumos para a sua vida. Depois, o miúdo foi grande e não foi dinossauro. E depois foi velho... e nesse momento em que uma vida se completa, a verdadeira natureza dessa vida tem quase obrigatoriamente de vir à superfície.

Já perceberam que esta é uma ótima história, não foi? Pois é. Ótima.

Outras histórias divulgadas na newsletter de Bruce Holland Rogers:

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Lido: Os Pomos Dourados do Sol

Há histórias que praticamente não envelhecem, mesmo no género que entre todas as formas literárias tende a envelhecer mais rapidamente. Outras, porém, sentem com força o peso dos anos a acumular-se, e tornam-se frágeis, prontas a desfazer-se com um sopro. Para isso, e muito embora a qualidade original tenha a sua influência, talvez seja a sorte o fator mais importante. A sorte e o sempre imprevisível caminho seguido pela sociedade, pelo pensamento, pela tecnologia, são o que determina em grande medida se uma história sobrevive incólume ao passar dos anos ou não.

Os Pomos Dourados do Sol (bibliografia) não é das histórias que melhor sustentaram a passagem das décadas porque se debruça sobre um problema difícil: como conhecer a natureza do Sol? Ou por outra, não é por se debruçar sobre esse problema em concreto, mas porque o faz avançando com soluções que hoje, em retrospetiva, nos parecem um bom bocado ridículas: Ray Bradbury coloca-nos dentro de uma nave cuja missão é aproximar-se do Sol até quase tocá-lo, pôr em operação uma espécie de colher gigantesca, tocar com ela o Sol e trazer lá dentro uma amostra da sua substância, tudo muito inútil para uma civilização que conhece a espectroscopia, sabe o que são linhas de absorção e de emissão e tem instrumentos capazes de observar o Sol em qualquer comprimento de onda e um arsenal teórico suficiente para deduzir a partir dessas observações não só a sua constituição superficial mas até a sua estrutura interna.

O melhor que este conto nos legou, parece-me, foi o título. Porque Bradbury o usou para intitular uma coletânea de contos muitas vezes brilhantes, quase sempre mais resistentes ao desgaste do tempo do que este, uma coletânea que consegue ser excelente apesar de contos como este. Porque sim, este não o é. Não o é hoje e creio mesmo que nunca o foi, nem mesmo quando era novo.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Lido: Brinca Comigo! e Outras Estórias Fantásticas com Brinquedos

Se é verdade que há livros que acabam por se revelar melhores do que os autores poderiam fazer prever à partida, seja por serem desconhecidos, seja por obras anteriores serem muito promissoras no que toca à sua qualidade, não é menos verdade que há outros que acabam por desiludir, apesar dos nomes que apresentam.

Brinca Comigo! e Outras Estórias Fantásticas com Brinquedos (bibliografia), pequena antologia temática organizada por Miguel Neto com três noveletas e um conto escritos por alguns dos autores de género mais competentes cá do burgo, é destas últimas. Porque as suas duas obras de ficção científica, uma de fantasia científica e uma de horror, desenvolvidas em volta dos brinquedos, estão abaixo, e no caso de Barreiros bastante abaixo, do melhor que os respetivos autores já produziram. A exceção que confirma a regra é a história de Luís Filipe Silva, de longe a melhor do livro. Basta ela, na verdade, para a publicação ter valido a pena.

Sublinhe-se que nenhum dos contos é mau. A antologia não desilude por incluir ficção de má qualidade, mas por não corresponder à expetativa que os nomes dos autores criam no leitor conhecedor da FC&F portuguesa. Fosse uma publicação feita com autores pouco conhecidos não traria qualquer desilusão, bem pelo contrário, e calculo que um neófito acabe por ler estas páginas com pleno gosto. Porém, feliz ou infelizmente, eu não sou neófito, já conheço bastante bem os autores e esperava deles mais. Saí desta leitura pouco satisfeito. Não fosse a noveleta do Luís Filipe Silva, seria uma antologia apenas razoável. Com ela chega ao bom.

Eis o que achei das quatro histórias:
Este livro foi comprado.

Lido: El Rescate

El Rescate é outro dos contos que ficaram muitíssimo prejudicados pelos erros de paginação no PDF — também ele foi reduzido a uma mancha de texto contínua que dificulta e torna penosa a leitura, embora menos que o anterior, visto ser um conto mais curto. O autor, Andrés Tonini, cria uma daquelas histórias que parecem realistas até mesmo ao fim, altura em que finalmente se percebe que se trata de uma história de FC. E esta, tal como a de Holstein de que falei logo abaixo, é também uma história que mistura o horror à ficção científica, aqui horror da vertente psicológica, pois é protagonizada por uma mulher capturada por um grupo de guerrilheiros ou terroristas, que a maltratam, violam e pretendem matá-la, até que in extremis surgem soldados que a resgatam. O que para o mal dos seus pecados não constitui grande vantagem.

Apesar de alguns pormenores de enredo que me desagradaram muito, como aquilo que o autor põe a prisioneira a fazer após ser violada e a forma como transforma o violador no único bonzinho da história, este conto podia ser interessante se não fosse o desastre na paginação: é contado na segunda pessoa, opção que até faz sentido, tem um bom ritmo, e entrega bem a dose de cinismo político-militar que pretende entregar. Mas a paginação desastrada estragou-o.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Leituras

Há uma quantidade razoável de histórias que tão facilmente se encaixam na ficção científica como no horror. O mais óbvio exemplo vem do cinema e é uma série inteira, os filmes dos Aliens, mas a literatura também está cheia deles, do velho horror cósmico de Lovecraft a alguns dos exemplares da moderna moda das distopias, passando por muitíssimos livros e filmes baseados em epidemias, com mortos-vivos à mistura ou não.

Este pequeno conto de Álvaro de Sousa Holstein, Leituras, é também um exemplo disso mesmo. Protagonizado por uma espécie de grande aranha inteligente, a qual atrai humanos à sua armadilha lendo-lhes livros, foi um conto que me pareceu ter mais história do que a que cabe no texto. Por outras palavras: pareceu-me que o seu impacto aumentaria sobremaneira se se prolongasse duas ou três vezes mais, dando assim tempo ao leitor para mergulhar no ambiente, sentir-se nele inquieto mas confortável, e desferir depois a conclusão. É um conto com interesse, mas podia ser melhor.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Lido: O Buda de Lisboa

Não, suas gracinhas, não é um conto sobre o António Costa.

O Buda de Lisboa, mais um conto, como já terão reparado pelo boneco junto, da Alexandra Pereira (e que, claro, começa com mais uma dedicatória, esta a um tal João Louro que não faço ideia se é o artista plástico ou outro qualquer), é um daqueles exercícios de estilo que deixam um tipo ao acabar a leitura com aquela sensação de "eh pá, OK, porreiro, mas e daí?" Com toques de fantástico, sugerindo que o tal Buda pode não ser uma pessoa de carne e osso mas um ornamento que ganhou vida, este conto é sobretudo um retrato, não tanto do dito Buda, que passa boa parte do texto simplesmente a observar, mas de variegados tipos lisboetas, humanos e paisagísticos. Sim, está bem escrito, sim, há alguns achados literários, sim, a ironia não se perde na leitura, pelo contrário, como que se entrevê nas entrelinhas a autora aos risinhos, mas... e daí? Sabem como é? E daí?

Haverá com toda a certeza quem goste. Eu encolhi os ombros.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 3 de dezembro de 2017

Lido: Água de Nagasáqui

Se eu algum dia me metesse a organizar uma antologia de ficção científica brasileira para a apresentar ao público português (algo que não está nos planos, esclareça-se, apesar de me parecer uma ótima ideia que alguém trate disso... e do vice-versa), este conto estaria com toda a certeza lá.

Água de Nagasáqui (bibliografia) foi uma grande surpresa. Muito bem escrito, em jeito de testemunho, este conto de Domingos Carvalho da Silva (autor verdadeiramente lusobrasileiro, pois nasceu em Portugal e cresceu no Brasil) relata a história de Takeo Matuzaki, um natural de uma ilha próxima de Nagasáqui, que era adolescente quando os americanos despejaram sobre a cidade a segunda e última (até agora) bomba atómica usada militarmente na história da Humanidade. É descrita a vida do homem, entre a sua ilha natal, a cidade de Nagasáqui, Tóquio e finalmente a emigração para o Brasil, com tudo no seu lugar próprio, um ritmo impecável e um português de qualidade. E um mistério que se vai desenvolvendo até ser esclarecido quase no final: o homem nunca se defende da radioatividade, limita-se a ignorá-la. E no entanto, ao contrário de muitos outros, incluindo pessoas mais ou menos próximas, não morre. Nem sequer adoece. O que se passa?

Este é um belo conto de ficção científica, com toques fortes de horror. Vale muito a pena ser lido.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Fui à Wook e vim desapontado convosco

Aproveitando o facto de precisar de comprar mais um dicionário, desta vez um dicionário de calão e/ou gírias do submundo (já precisei várias vezes de algo assim para as minhas traduções, e vou voltar a precisar muito em breve; aceitam-se e agradecem-se sugestões de boas alternativas ao único que encontrei — e encomendei — o Dicionário de Calão do Eduardo Nobre), resolvi premiar-me por ter ultrapassado um período complicado comprando uns livros. Por isso, dei um salto à secção de ficção científica na Wook.

E vim de lá desapontado convosco.

É que há alguns anos que apanho tudo o que vai sendo divulgado por aí no que toca às edições de ficção científica em português, via Ficção Científica Literária (em versão blogue e na anterior, no scoopit), e mesmo assim há uma série de edições de que não me lembro de ter ouvido falar.

Vocês andam-me a falhar.

Encontrei por lá um tal Livro Mistério 2, sem autor identificado, aparentemente publicado em 2016 por "Diversos", 416 páginas e cuja sinopse é:

Ficção científica
Realidade virtual
Cultura pop dos anos 80
Caça ao tesouro
E se o mundo for apenas um videojogo?

E vocês nem me falaram disto nem me explicaram o que raio vem a ser isto.

Mas há pior, muito pior!

Também encontrei por lá um tal Holocausto Lunar, de Sofia Guilherme Lobo, aparentemente um romance curto de 158 páginas publicado em 2017, sim, este ano, pelas Edições Vieira da Silva, e que tem como sinopse o seguinte:

Serina é uma menina da Lua, filha de um herói de uma revolução socialista e irmã de um soldado do Exército Vermelho. É uma menina protegida pelo sistema mas à sua volta outras crianças não o são, pois são vítimas de perseguição religiosa e de recrutamento forçado… Luanda, uma menina de 8 anos, a quem Serina chama de irmã, é recrutada à força como criança-soldado; sem conseguir ficar indiferente a esta injustiça, Serina acompanha-a voluntariamente na convicção que a consegue a salvar. Mas mais vidas estão em jogo…

E vocês? Nada.

Mais: encontrei A Visão do Inferno de Diogo Figueira, publicado em 2015 pela Esfera do Caos, um romance volumoso com 388 páginas e uma sinopse apetitosa:

Nas profundezas da Via Láctea, dois grupos rivais de máquinas inteligentes governam uma parte da galáxia. A Terra é o principal alvo. Quem vencerá esta batalha cósmica? Difícil de classificar, talvez por estar no cruzamento da literatura fantástica com a ficção científica, esta obra intensa e vibrante faz pensar, porque nos confronta com dilemas e opções que mergulham no âmago dos nossos maiores desafios existenciais.

Felizmente, este livro tem na wook um extrato disponível para ser folheado; o texto é beato e com uma qualidade literária bastante baixa. Mas mesmo assim, vocês falharam-me: deviam ter-me falado do lançamento.

Tal como me deviam ter falado de O Oásis, de Pedro Águas, um livro de contos publicado em 2011 pela Lugar da Palavra, editora que não parece ter achado necessário informar quantas páginas tem o livro, mas pelo menos divulgou uma sinopse:

Deixe-se levar para um mundo novo, absolutamente fantástico e surpreendente, e mergulhe, hoje, no abismo do futuro, pela mão de Pedro Águas, um dos poucos autores a escrever (bem) ficção científica.

E também não deviam ter omitido os livrinhos da Áurea Justo, apesar de tudo. Anéis de Fogo é outra edição da Lugar da Palavra, e também de 2011, uma novela com 92 páginas e uma sinopse que o faz antever pavoroso:

O passado e o futuro andam de mãos dadas nesta saga de ficção científica em que as personagens principais, terrenas e saturnianas, se envolvem numa arrebatadora história de amor interplanetário. O destino de Saturno (e também da Terra) está ameaçado. E a única solução parece ser um objeto sagrado legado pela civilização Maia, a Mãja… que Ângela tem em seu poder, mas não sabe como usar. Mas os perigos são muitos e poderosos… Depois de Anéis de Saturno, Anéis de Fogo é o segundo livro desta trilogia de ficção científica apaixonante.

E não só o faz antever pavoroso como indica a existência de um livro anterior, embora quem procure por "anéis de saturno" fique de mãos a abanar. É que, com a típica eficiência de certas editoras, a sinopse está errada e o livrito chama-se...

As Estrelas de Saturno, um título que apesar de ser levemente disparatado foi publicado em 2010 pela Cidade Berço (e com toda a certeza integralmente pago pela Áurea Justo), mais uma editora que não parece achar necessário fornecer um mínimo de informação ao putativo comprador, visto que nem informa do número de páginas (mas eu fui ao site da BN e sei: são 127) nem sequer fornece aquela coisinha básica de qualquer edição: uma sinopse.

Tampouco me disseram nada sobre Os Impossíveis Possíveis, livro de Vasco Farinha editado em 2012 pela Ecopy e que, para coletânea de contos, até é volumoso com as suas 320 páginas. A sinopse diz que:

«Os impossíveis possíveis» é uma colectânea de contos de ficção científica que combina com mestria o relato dos factos mais banais do quotidiano com uma surpreendente descrição dos mais fantasiosos princípios científicos, criando enredos intrigantes e arrebatadores. Capaz de esbater completamente a ténue linha que separa o passado, o presente e o futuro, este livro desafia-nos a reflectir sobre as questões mais relevantes da humanidade.

E o trecho que está disponível para folhear até mostra uma prosa agradável, o que não querendo dizer que os contos sejam bons dá pelo menos indicação de que podem sê-lo.

E depois, claro, há as edições da Chiado. Mas essas são demasiadas para incluir aqui: dariam para um post inteiro do tamanho deste.

Portanto sim, estou desapontado convosco. Deviam informar-me destas coisas. Oh, eu sei que vocês, as pessoas individuais que estão a ler isto e até têm os seus blogues e sites onde divulgam por carolice aquilo que vos vai chegando ao conhecimento pouca ou nenhuma responsabilidade têm: quase todos estes livros são publicados por editoras-parasita, que se aproveitam da ingenuidade dos autores, fazem-nos pagar bom dinheiro para terem o seu livrinho cá fora sob o argumento inteiramente falso de que "todas funcionam assim" e depois não cumprem com um mínimo de promoção e quase também não cumprem com um mínimo de distribuição, deixando os livros ao deus-dará e aos autores todo o gasto da divulgação das suas obras, uma vez que já têm a edição paga à partida e não precisam de mexer uma palha para terem lucros. O meu "vocês" foi deixado vago precisamente por isso, porque a responsabilidade para este desconhecimento não é, na esmagadora maioria dos casos, da malta da FC. É das "editoras", com abundância de aspas, que não fazem chegar os livros ao conhecimento de quem poderia querer lê-los, o que é um requisito básico para que uma empresa possa arrogar-se ao nome de editora.

Iniciativas amadoras ou semiamadoras como a Imaginauta ou a Divergência fazem um trabalho incomparavelmente melhor para os respetivos autores do que estas coisas.

Mas este post também aparece por outro motivo: diz-se com demasiada frequência que não há nada na ficção científica portuguesa, que não se publica nada, que estamos no deserto. Não é verdade. Podemos queixar-nos da qualidade do que é escrito (se bem que para isso convém ler o que é escrito, e aqui temos um problema) e da qualidade de edição do que vai sendo editado (para isto, felizmente, não é indispensável ler nada; basta assinalar comportamentos). Mas não podemos dizer que não há nada. Porque há. Precisávamos era de quem se dedicasse a encontrar estas coisas e a separar o presumivelmente pouco trigo do certamente muito joio que vai aparecendo por aí. Isso é que parecemos não ter mesmo.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Lido: The Difference Between Fiction and Life

Também não incluído em nenhuma das edições em português de Bruce Holland Rogers, este The Difference Between Fiction and Life é um conto que nada tem de fantástico cujo fulcro se encontra na frase que o encerra. Trata de uma historinha de predação no reino animal, centrada numa infeliz mariposa que primeiro é apanhada pela teia de uma aranha ausente e aí fica a debater-se futilmente, o que acaba por atrair a atenção de uma vespa, com consequências que... bem... vem na última linha. Esta é aquilo que transforma um mero e breve relato sobre a vida e a morte entre a fauna na reflexão bastante profunda e igualmente irónica sobre a natureza da literatura que o título logo sugere. Outro bom conto.

Outras histórias divulgadas na newsletter de Bruce Holland Rogers:

Lido: O Astronauta

Há muito quem pense que a ficção científica se dedica a tentar prever o futuro. Escreveram-se e continuam a escrever-se rios de artigos a falar das "previsões acertadas" ou dos "erros" que a FC supostamente teria cometido ao longo da sua história, e as tecnologias avançadas são quase inevitavelmente descritas como "de ficção científica" ou vêm acompanhadas de frases como "não é ficção científica, mas realidade". Mas isto, lamento dizer, vem de gente que das coisas só percebe a superfície.

Porque se rasparmos a camada superficial, a FC não é isso e nunca o foi. A FC é, e sempre foi, sobre o presente de quando é escrita, embora o seja de várias formas, por vezes sobre os temas relevantes apenas no presente e por isso passageiros, por vezes sobre temas mais perenes como a condição humana, usando o futuro ou os planetas distantes como uma espécie de ambientes experimentais onde esses temas podem ser explorados de uma forma mais pura, sem o ruído inerente à complexidade do planeta em que vivemos, ou mais extrema, por conseguinte de uma forma que os realça.

O Astronauta (bibliografia), mais um bom conto de Ray Bradbury, é um destes últimos. Situado em ambiente doméstico e familiar, contado sob o ponto de vista de um filho de astronauta que sonha com as estrelas e com um dos periódicos regressos do pai, é um conto que tem como tema não o futuro ou a tecnologia, mas a dinâmica disfuncional da família de um herói, regularmente abandonada, e o coração dilacerado deste, dividido entre a vontade de ficar com os seus e a paixão pelas estrelas, que o leva a não poder deixar de voltar a partir.

Podia não ser um conto de FC. E na verdade, parte do seu impacto (e parte do motivo por que se mantém relevante apesar do que descreve já ter deixado de ser ficção científica há décadas) deve-se precisamente a isso. A situação não depende de o homem ser astronauta, mesmo que o fascínio pelo espaço a ajude e esse facto tenha impacto em alguns pormenores da narrativa: famílias abandonadas por homens demasiado absorvidos pela profissão são coisa de séculos, especialmente em sociedades patriarcais, nas quais às mulheres está reservada a família e aos homens a saída para o mundo. O espaço podia ter sido substituído pela guerra (e é provável que fosse essa a inspiração principal: o conto é de 1951) ou por muitas outras situações. É por isso que é tão fácil reconhecer a situação e o dilema e é em parte por isso que a história resulta tão bem.

A outra parte, claro, cabe à mestria de Bradbury, ao ponto de vista que escolhe, à forma como constrói a narrativa, à poesia das suas palavras. Mas nem tudo são rosas: Bradbury era um conservador e por isso não se vislumbra aqui sinal de contestação aos tradicionais papéis atribuídos aos sexos, bem mais vivos nos anos 50 do que hoje. Este conto não é misógino, como outras obras de FC da época são (há na mulher uma enorme dignidade), mas é certamente machista. A verdade, contudo, é que não há muitas neste período que não o sejam.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Lido: Antologia do Conto Português Contemporâneo

No já longínquo ano de 1984, Álvaro Salema recebeu a incumbência de organizar uma Antologia do Conto Português Contemporâneo, a ser publicada institucionalmente pelo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa. O objetivo não era tanto vendê-la ao público, mas apoiar a ação pedagógica no campo do ensino de português como língua estrangeira e divulgar a literatura portuguesa no estrangeiro, nomeadamente servindo de base para a tradução para outras línguas, e eventual publicação, das obras reunidas. Para tal, Salema reuniu um conjunto de 30 contos de outros tantos autores, abrangendo um período — e os respetivos estilos e correntes — que vai de 1926 a 1982.

A qualidade no manejo da língua é, nestes contos, tão elevada como seria de esperar numa publicação deste género. E a qualidade literária mais genérica, que inclui não só este manejo mas outras facetas da criação literária, é também bastante elevada, pesem embora as oscilações naturais num conjunto heterogéneo de contos e a presença de um conto muito mau, perfeito erro de casting... ou talvez não, talvez a sua inclusão tenha sido apenas fruto de o compilador sentir a necessidade de não ignorar a abordagem literária que esse conto corporiza: há vários contos excelentes, os muito bons são mais e a grande maioria é de bom para cima, sendo poucos os apenas razoáveis.

Algo surpreendente para mim foi a quantidade de histórias fantásticas que esta antologia contém. Como disse numa das opiniões individualizadas aos contos, já contava com a presença de algum fantástico, por já conhecer alguns dos contos de publicações como a Antologia do Conto Fantástico Português, entre outras. Mas não o esperava em tão grande profusão. Julguei que talvez houvesse aqui uns 5 ou 6 contos fantásticos, no máximo. Nunca imaginei que eles fossem 13; mais de um terço do total.

Em geral, portanto, esta foi uma boa leitura. Mais: foi uma leitura surpreendentemente relevante para o principal motivo que me levou a fazê-la — alimentar o Bibliowiki. E sim, creio que se trata mesmo de um apanhado muito interessante da produção contística portuguesa daqueles cinquenta anos e picos; interessante o suficiente para extravasar o mero âmbito pedagógico que esteve na sua génese. Quem quiser ler bons contos portugueses, tem-nos aqui com fartura.

Quanto a mim, eis o que achei de cada um deles:
Este livro foi obtido na internet, numa versão em PDF disponibilizada gratuita e legalmente pelo Instituto Camões.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Lido: Perro de Luz

Um problema grave de que esta antologia em PDF sofre é ter tantos erros de paginação que alguns contos, que até talvez tivessem algum interesse se bem editados, se tornam praticamente ilegíveis. Perro de Luz é um desses contos. Gerardo Sifuentes cria nele uma história com muito de ciberpunk, a qual parece ser ambientada num futuro longínquo em que a cidade — seja ela qual for... talvez uma cidade global — se transformou num labirinto cavernícola semiarruinado, subdividido em níveis não se percebe bem se provenientes de um crescimento para cima ou para baixo, para o subsolo. Mas tudo é vago, apesar de todo o tecnobabble de FC, muitíssimo piorado pelos tais erros de edição (e são-no certamente, porque não é este o único conto que atacaram, apesar de não terem atacado todos) que transformam o conto em meia dúzia de muito confusos blocos de texto sólido, os quais incluem diálogos e conjuntos de espaços que se sucedem alguns pontos finais e muito provavelmente deveriam ter sido fins ou inícios de parágrafos.

No entanto, creio, e só creio porque a paginação torna a leitura tão penosa que é difícil ter certezas, creio, dizia, que não é só isso a causar problemas no conto. Ele também parece sofrer de um outro problema que tende a acometer os escritos de futuro mais ou menos longínquo feitos por autores demasiado inábeis para tornar compreensível a extravagância inerente ao que está muito afastado da experiência humana contemporânea. Um bom escritor torna compreensíveis e agradáveis de ler até histórias sobre a morte térmica do Universo. Um mau por vezes tenta, por vezes nem isso. E Sifuentes parece que nem isso.

Mas, repito, isto é o que me parece depois de me faltar a paciência para analisar detidamente a parede de texto em que este conto foi transformado. Li tudo mas confesso que li pela rama. Se tivesse tido essa paciência, a vontade para abrir caminho à catanada por esta impenetrável selva de palavras, é possível que a opinião final fosse diferente. Não creio que seja provável, mas possível certamente é.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Lido: Silverfish, o Último Inquilino

Silverfish, o Último Inquilino, de Manuel Mendonça, provavelmente o mais curto dos contos desta antologia, é um conto muito vagamente de ficção científica — passa-se num futuro em que os ebooks terão substituído por completo os livros físicos; não que isso tenha algum verdadeiro impacto na história — sobre uma entidade que parece incorporar as características principais dos peixinhos-de-prata. A narrativa é desconexa e apressada, o que talvez não seja sempre defeito mas pelo menos exige que o autor mostre que sabe o que está a fazer, o que Mendonça está muito longe de alcançar. Pelo contrário; a própria prosa é frágil, o final talvez estivesse claro na mente do autor mas para a do leitor mais parece uma frase vagamente mística (refere-se a um obscuro texto tibetano), atirada para ali sem grande propósito, e tudo termina deixando muitíssimo a desejar. O texto mais fraco da antologia até ao momento, e a grande distância do segundo pior.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 11 de novembro de 2017

Lido: O Destruidor de Mundos

Quem junta as qualidades de ser leitor habitual de ficção científica e conhecedor das ciências biológicas conhece bem a frustração que a primeira atividade costuma causar quando é posta em confronto com a segunda. Sabe bem que a ficção científica, genericamente, apesar de muitas vezes mostrar um cuidado quase obsessivo (pelo menos na vertente hard) com o rigor científico na parte físico-matemática da extrapolação, trata quase sempre a biologia com displicência, quando não com ignorância aberta e despreocupada.

Pois esta novela, O Destruidor de Mundos (bibliografia), é um belo exemplo do que acima fica dito. Charles Sheffield era físico e matemático, além de escritor de FC, o que explica que a biologia não fosse seu forte. Mas não ponhamos o carro à frente dos bois. Voltemos ao início.

Sheffield cria nesta novela uma história de mistério, centrada no desaparecimento de um homem. A princípio parece uma simples história de detetives, pois a mulher contrata uma detetive privada, a qual se põe a investigar as poucas pistas de que dispõe. Depressa aparece um novo elemento na história, a filatelia, explorado com algum detalhe e que vai abrir à heroína novas vias de investigação e lhe vai trazer um muito útil coadjuvante. Mas é por intermédio dos selos que tudo começa a ganhar contornos cada vez mais estranhos, aparecendo na história uma organização secreta que usa certos selos (que não são propriamente selos) como discreto método de identificação e comunicação e, seguindo a pista a essa organização, detetive e coadjuvante acabam por viajar até às Montanhas Rochosas, onde acham que talvez consigam encontrar o desaparecido.

E encontram. Mas também encontram aquilo que faz desta história ficção científica. E a razão da conversa inicial sobre a biologia e a FC. E se acham que isto até aqui já tem muito spoiler, deixem já de ler porque daqui para diante vai ter muitos mais.

O que encontram são instalações secretas de pesquisa, desenvolvidas pela tal sociedade secreta dos selos, nas quais se está a desenvolver um projeto de investigação inspirado por aqueles globos fechados que se vendem por aí, chamados ecosferas, nos quais um minúsculo ecossistema aquático autossustentável sobrevive sem qualquer contacto com o exterior. A ideia é desenvolver algo de semelhante em escala maior, capaz de sustentar pessoas, com vista à sua utilização na colonização do espaço. Mas tudo é feito num sistema de tentativa e erro, e os erros são numerosos; as primeiras ecosferas falharam e foram destruídas, as experiências em curso são pouco animadoras. Mas há uma exceção: uma das ecosferas mostra grande potencial e vai-se desenvolvendo com pujança. E é aqui que Sheffield põe a pata na poça biológica.

É que para que a sua história resulte, Sheffield tem de postular o impossível: uma evolução ultrarrápida de todo um ecossistema, capaz de, em meras horas, mudar radicalmente de estado — e nem se trata de resultado de contaminação alienígena, como em vários contos do João Barreiros; tudo resulta de manipulação da biologia local. Já vimos isto em vários sítios (o exemplo mais conhecido talvez seja o filme Evolution, que tem pelo menos a atenuante de ser uma comédia... e de ser contaminação alienígena), e é sempre disparatado, não sendo esta novela exceção.

Tirando isso, a história até resulta. É eficazmente movida pelo mistério do desaparecimento do homem, que se mantém até perto do fim, momento em que já outro motor tomou o controlo da narrativa: o mistério da investigação que se está a fazer nas instalações onde os protagonistas acabam e a ameaça que aparece quando é ventilada a ideia de organismos ultra agressivos arranjarem maneira de sair do ecossistema fechado em que se desenvolveram e entrar em contacto (e em confronto) com aquele que sustenta a vida humana. A prosa, não sendo nada de especial, é eficaz. Tudo somado, quem não seja particularmente sensível a pontapés grosseiros no rigor biológico terá provavelmente motivos para achar esta novela boa. Eu achei-a razoável, não mais que isso.

Contos anteriores desta publicação:

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Lido: Boca da Trompete

Alexandra Pereira regressa com mais dedicatórias, sendo que as deste conto devem ser as primeiras a encontrar sem quaisquer problemas destinatário leitor, uma vez que as dedicadas são duas amigas da autora.

Quanto ao que realmente interessa, Boca da Trompete, assim mesmo no feminino, por estranho que soe, é um conto fantástico bastante surrealista, com uns pozinhos de onírico, ambientado numa estrada perto da Boca do Inferno, Cascais, onde Alexandra Pereira coloca um estranho sucedido: o falecimento por atropelamento ciclista de Dizzy Gillespie, trompetista de jazz (ou pelo menos de um Dizzy Gillespie, trompetista de jazz). E descreve-o com profusão de pormenores e uma galeria castiça de personagens que nele participam ou o testemunham. É isso, aliás, que faz o conto.

E é um bom conto, não só por estar escrito com a habitual competência salpicada de poesia e ironia que Alexandra Pereira costuma mostrar em prosa corrida, mas também porque a história está bem concebida, com um jogo hábil entre aquilo que faz sentido lógico no contexto de uma prosa que se quer realista e os elementos fantásticos, proféticos, que nela se entrelaçam e porque até tem, imaginem só, diálogos bem feitos. Sim. Alexandra Pereira, afinal, sabe criar diálogos em que se sente gente a falar. Diálogos sem purpurinas literatas e com os oralismos terra-a-terra das pessoas reais. Muito bem. Assim é que é.

Contos anteriores deste livro:

Lido: A Man of the Theatre

A revista científica britânica Nature publica regularmente (embora com alguns hiatos) desde 1999 pequenas histórias de ficção científica, muitas delas escritas por autores de relevo no género, um pouco à semelhança do que se fez em Portugal com a Omnia, nos anos 80 (que por sua vez foi inspirada por igual abordagem por parte da americana Omni). Há alguns anos (ver nota), parte destas histórias foi disponibilizada pela revista na web, em ficheiros pdf, e eu descarreguei-os e deixei-os no meu disco à espera de oportunidade ou vontade para lhes pegar e os ler. Durante anos.

(Nota: Hoje, todas estas histórias estão disponíveis no site da revista, não só em html mas também em pdf)

A Man of the Theatre, de Norman Spinrad, é uma dessas histórias, datada de 2005. Ambientada num futuro (naturalmente) em que o teatro está obsoleto, substituído por espetáculos bem mais imersivos em realidade virtual, a história consiste de divagações por parte de um velho homem de teatro, desgostado e revoltado com a decadência da sua arte e decidido a fazer um derradeiro gesto adequadamente dramático para fazer lembrar ao mundo que essa arte existe.

É uma boa história, mas apenas boa. Tem o tal problema típico das histórias que procuram condensar mundos complexos em uma ou duas páginas e por isso acabam por se resumir a uma longa explanação do ambiente para situar o leitor, dedicando pouco ou nenhum espaço a verdadeiro enredo. Histórias assim têm de ser muito bem feitas para terem real impacto, e não creio que esta o seja. Não é má, é interessante, mas falta-lhe algo para chegar ao muito bom.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Lido: Second Sight

Mais uma das pequenas vinhetas de Bruce Holland Rogers, e esta também não teve edição em português. Second Sight é daquelas histórias de horror que parecem servir de ilustração ao célebre adágio "cuidado com o que pedes, porque pode ser-te concedido"... e até está escrita em segunda pessoa e tudo.

O protagonista, você, é alguém que tem um objetivo: ver fantasmas. Para isso, encontra uma loja vazia e espera até que, à meia noite, soa uma voz que lhe explica como o fazer... e avisa que vez fantasmas não é como imagina. Mas o protagonista, você, é obstinado, e faz o que há a fazer para ver fantasmas. E vê fantasmas. E, como tinha sido prevenido, não é como imagina, o que naturalmente tem consequências.

Esta é mais uma historinha inteligente e subtil, bem escrita, precisamente o que quem o conhece espera do autor.

Outras histórias divulgadas na newsletter de Bruce Holland Rogers:

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Lido: O Foguete

Em O Foguete (bibliografia), Ray Bradbury regressa ao puro maravilhamento dos primeiros contos deste livro, mas aqui a abordagem é diferente. Fiorello Bodoni é pobre mas tem o sonho do espaço. Todos na sua família o têm, aliás; aquela vontade de partir e viajar entre os planetas, ver coisas novas, ter uma aventura. Mas Fiorello Bodoni é pobre. Não tem dinheiro para um foguete, e por isso está condenado, ele e toda a família, a permanecer a vida inteira preso à terra. Até que um dia tem uma ideia e gasta nela todas as parcas economias, comprando num ferro-velho um velho foguete avariado.

Este é um conto sobre o poder da imaginação, sobre como, à falta de capacidade para termos as experiências reais, podemos sempre optar por simulações e, com uma ajudinha da imaginação, ficamos felizes na mesma. Se fosse escrito mais tarde, este conto provavelmente contaria com realidades virtuais ou sistemas de imersão, mas é um conto de 1950, e portanto a saída que a personagem de Bradbury encontra para o seu dilema assemelha-se mais a uma atração de feira particularmente sofisticada.

É outro conto bastante bom, sim, embora eu o julgue um degrauzinho abaixo dos anteriores. Mas também é mais um conto que me deixa uma certa amargura ao fundo da consciência quando tento perceber para onde foi este otimismo pelo futuro, o que aconteceu à esperança que nestas ficções de Bradbury subsiste mesmo em situações de carência. É mais fácil escrever ficção sombria em ambientes desesperantes? É: o conflito dramático está criado à partida. Mas Bradbury prova (se fosse preciso) que essa não é a única forma de fazer boa FC e boa literatura em geral. E enquanto espécie estamos desesperadamente carentes de algum otimismo, nem que seja na ficção.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 7 de outubro de 2017

Lido: Anthology of European Speculative Fiction

Há cerca de um ano, quando fui pela segunda vez nomeado para um prémio da European Science Fiction Society, escrevi que "tenho alguma simpatia pelo voluntarismo dos prémios da ESFS. [...] Mas a verdade é que a relevância do prémio é praticamente nula, e será sempre nula enquanto não existir mesmo um mínimo de contacto entre o que se vai fazendo no campo da ficção especulativa nos vários países europeus, o que está muito, muito longe de acontecer." Poderia ter acontecido, mas não aconteceu, que alguém me tivesse vindo mostrar esta Anthology of European Speculative Fiction como prova de que esse mínimo de contacto já existe, o que teria tido como resposta uma rotunda negativa. Não que iniciativas como esta não possam ser semente de qualquer coisa, mas são no máximo só semente, não são a própria coisa. Quando eu falo em "um mínimo de contacto" refiro-me a edições regulares e variadas, mesmo se escassas, de obras de ficção especulativa europeia nas várias línguas da Europa, que possam servir para termos todos alguma noção, ainda que vaga, do que se vai fazendo nos outros países. Uma antologia em inglês não basta, uma publicação regular em inglês como a ISF Magazine, que coeditou este ebook, também não. Poderão ser um início. Mas, como se viu, nem isso terão sido. Parece faltar por completo uma condição determinante para uma iniciativa destas ter alguma hipótese de dar frutos: interesse.

Assim, ficam as obras em si mesmas. E esta, organizada pelo romeno Cristian Tamas e pelo português Roberto Mendes, não é má, até porque inclui alguns bons contos (sobretudo o de Aliette de Bodard e, a alguma distância, o de Jetse de Vries), mas é muito irregular. Muito irregular.

O que me causa mais estranheza são algumas opções tomadas pelos organizadores. Não sei se terá havido constrangimentos relacionados com as histórias que foram propostas para a antologia e com autores que poderiam ter participado mas não quiseram fazê-lo, mas parece-me que uma antologia deste tipo, que tem claramente a ambição de servir de montra internacional do que se faz atualmente na Europa, deveria esforçar-se por apresentar a melhor ficção possível. Não sei se se esforçou e não conseguiu. Mas o facto é que a par de boas histórias, escritas por autores experientes e de qualidade, surgem histórias bastante amadoras, que ainda por cima nem sequer representam adequadamente o que se faz nos respetivos países, o que se comprova por haver aqui histórias muito melhores de autores das mesmas nacionalidades.

E também me causam uma certa estranheza as ausências. Há três autores romenos, duas portuguesas, dois britânicos, um que talvez seja holandês ou belga, um finlandês, um ucraniano e até dois que nasceram nos EUA, um dos quais com nome italiano e a outra com nome, vivência e nacionalidade franceses. Mas onde estão os espanhóis? Os polacos? Os alemães? Os russos? Tudo nacionalidades que, à parte talvez os espanhóis, têm tradições fortes e reconhecidas na ficção especulativa mundial e no entanto não parecem ter mostrado o menor interesse por esta iniciativa. Que é delas? Como é que uma iniciativa como esta pode prescindir de autores destes países?

São questões que me ficaram ao terminar esta leitura. Possivelmente haverá excelentes respostas para elas, mas parece-me que uma mostra da FC&F europeia só ficaria mais forte se fosse mais abrangente e consistente em termos de qualidade.

Por outro lado, como digo sempre que tenho oportunidade, a publicação de uma antologia já vale a pena desde que inclua pelo menos um conto muito bom ou dois ou três "meramente" bons. E esta inclui, portanto ainda bem que existe.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro eletrónico foi distribuído gratuitamente.

Lido: Llegar a la Orilla

Após um início auspicioso, a antologia em que se insere o conto Llegar a la Orilla, de Guillermo Lavín, tinha vindo a desiludir mas com este conto voltou a terreno positivo. Inspirado por Ray Bradbury e pelo ciberpunk, este é um conto bem escrito, ambientado num futuro distópico, sobre um rapaz pobre que tem uma ambição: receber uma bicicleta moderna pelo natal. Mas é pobre: o pai, trabalhador não especializado, ficou viciado anos antes ao ser-lhe implantado um chip que era exigido pelo contrato celebrado com a companhia que o empregava, estoira boa parte do parco dinheiro que ganha para alimentar o vício, e por isso não tem possibilidade de lhe dar o que ele quer. Quando o compreende, decide ser ele a dar um presente ao pai, algo que lhe iria facilitar sobremaneira a vida. Mas como, se não tem dinheiro?

Bem... há sempre uma solução.

É um conto bem escrito, como já tinha dito. Também é um conto bem concebido, com bom ritmo e o tamanho certo para a história que conta, uma ambientação interessante e personagens credíveis, ainda que haja que forçar um pouco a suspensão da descrença para engolir a ideia de chips que causam dependência e entram em curto-circuito ao serem implantados. Aprovado.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Lido: Escotilha

Foi pura casualidade, mas aparecem aqui na Lâmpada duas opiniões seguidas a contos com ambiente de space opera, pois é precisamente o que Carlos Silva nos traz em Escotilha. Numa espécie de inversão da ideia usada por João Barreiros em vários dos seus contos e que esteve também na génese de Terrarium, a de uma Terra repleta de alienígenas refugiados de regiões mais interiores da galáxia, em êxodo, a fugir de qualquer coisa, Carlos Silva apresenta o início do êxodo da humanidade, expulsa da Terra depois de perder uma guerra com uma espécie alienígena.

O conto é contado da perspetiva de um comandante alienígena, a assistir ao êxodo, e espantado com o facto de uma das naves terrestres de maiores dimensões ser usada para transportar livros. E podia ser um conto mais interessante se o Carlos não tivesse sido obrigado a gastar tanto espaço a despejar informação sobre o cenário para conseguir situar o leitor, servindo-se mesmo de um dos truques mais surrados da FC, ainda que de uma forma razoavelmente subtil, conhecido internacionalmente pela expressão "as you know, Bob". E creio que não teria outra alternativa para encaixar esta ideia num conto tão curto; ou seja, não me parece que o problema esteja na execução mas na própria adequação da ideia a um texto deste tamanho.

A consequência é parecer-me que esta história não é das melhores. Para o ser precisaria de mais espaço para respirar.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Lido: O Céu é uma Estrada Aberta

Pode o potencial de um escritor ser avaliado pelo primeiro conto que publica? Quem, por exemplo, leu os primeiríssimos contos de George R. R. Martin, e eu li, certamente concordará comigo que não. Nada nesses contos fazia prever que anos mais tarde ele seria um dos escritores mais interessantes e aclamados do género. Mas é possível que cada caso seja um caso e em alguns casos a resposta seja sim. Dave Wolverton, por exemplo, ajuizando por este seu O Céu é uma Estrada Aberta (bibliografia) inaugural, seria um escritor com grande potencial.

Não que o conto seja excelente, longe disso, mas está entre o razoável e o bom. É decerto melhor e tem mais conteúdo do que os primeiros contos de Martin, pelo menos. Escrito num ambiente de space opera que faz lembrar ora o universo de Star Wars ora o de Duna, é um conto que reflete sobre a moralidade de assassinar um assassino genocida. Wolverton mostra já um domínio seguro da narrativa e a maturidade suficiente para entregar ao leitor a informação necessária, nem a mais, nem a menos, no momento certo. O protagonista é um escravo que trafica uma substância altamente explosiva chamada cobahite, capaz de arrasar continentes inteiros e, embora as restantes personagens me pareçam algo unidimensionais, o protagonista, árabe de um planeta distante, muçulmano, está bem caracterizado e é razoavelmente complexo.

Uma estreia auspiciosa, portanto. E, de facto, desde este conto publicado em 1985 e os dias de hoje, Dave Wolverton tem tido uma carreira razoavelmente produtiva, usando para boa parte da qual o pseudónimo David Farland. Mas não parece ter produzido nada em que realmente se revele o potencial sugerido neste conto. Muitos trabalhos derivativos, na FC (especialmente na space opera) e na fantasia, livros integrados no universo de Star Wars, uma ligação longa com L. Ron Hubbard (é ele o editor de muitas das antologias Writers of the Future) e pouco mais indicam um escritor com sucesso comercial mas sem verdadeira importância. Portanto a resposta à pergunta que abre este texto, se calhar, continua a ser "não."

Seja como for, este conto em particular tem real interesse.

Contos anteriores desta publicação: