sexta-feira, 27 de março de 2020

Robert Louis Stevenson: O Ladrão de Cadáveres

De médicos e de monstros se fez um dos mais famosos romances de proto ficção científica intimamente ligada ao terror, ou vice-versa (é mais vice-versa, sim), da literatura mundial. Mas essa não é a única história do autor, Robert Louis Stevenson, que mistura esses dois elementos. A prova? Esta noveleta intitulada O Ladrão de Cadáveres (bibliografia).

É uma daquelas histórias de ouvir dizer, alegadamente reais, com um narrador que relata algo que uma segunda pessoa lhe conta, tão em voga no século XIX e início do século XX. Uma história de bar. Depois de assistir a um estranho confronto entre um companheiro de bebedeira e um desconhecido, médico, o narrador ouve do amigo a história que explica o confronto.

É esta que tem muitos pontos de contacto com a protagonizada pelo Dr. Jekyll e pelo Mr Hyde. À primeira vista, e durante muito tempo, parece apenas uma história de crime, sobre gente sem escrúpulos que assalta campas e rouba cadáveres para os fornecer a uma escola de medicina para as aulas de anatomia. E que não se limita a assaltar tumbas, pois tem também outras formas mais criminosas de se munir de cadáveres. Mas no final...

... No final surge o horror a sério, com forte indicação de sobrenaturalidade, ainda que outra interpretação o faça não passar de psicológico. Seja qual for a interpretação preferida, o final é bastante apoteótico em termos narrativos, contando com cadáveres, noite, tempestade e chuva. E medo, muito medo. Mais das personagens que deste leitor, que é muito imune ao medo vindo da literatura, mas medo, muito medo. Um final que explica a mudança acontecida no homem que conta a história, pois além do confronto que este tem com o desconhecido existe também nele uma mudança radical no rumo da vida que também contribui para o mistério que acrescenta interesse à história.

No fundo, e tal como O Médico e o Monstro, esta também é uma história sobre a natureza e a decência humana, e os limites éticos a que deve obedecer quem lida com a vida e a morte. Sobre as consequências de se ultrapassar esses limites. Sobre a consciência, no fundo. E é uma boa história, mesmo que a sua qualidade esteja bastante aquém do romance.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 26 de março de 2020

Mais um dos "meus": a primeira biografia

Até ao final do ano passado, tinha passado o tempo quase todo a traduzir ficção, e o "quase" está aqui por causa de um par de álbuns de BD que também traduzi. Fantasia, sobretudo, mas também FC, romance histórico, história alternativa, horror (ou pelo menos fantasia sombria), por aí fora. No final do ano passado, isso mudou: traduzi o meu primeiro livro de não ficção.

E foi este, cuja capa está aqui ao lado e que foi publicado recentemente por uma das chancelas da Saída de Emergência. Animal não é nome mas sim a alcunha de um criminoso violento, filho de emigrantes açorianos no Massachusetts. O nome é Joe Barboza, com Z provavelmente porque se fosse S os americanos pronunciariam "barbossa" e como todos sabemos o S de barbosa diz-se Z. O Animal aqui biografado era um assassino a soldo com ligações à Máfia, que esteve profundamente envolvido na guerra do crime organizado que houve em Boston, e na Nova Inglaterra em geral, nos primeiros anos da década de 60 do século XX.

Na guerra do crime organizado e também na destruição desse mesmo crime organizado, na criação do Programa de Proteção de Testemunhas e numa série de escândalos que abalaram profundamente o FBI no último quartel do século XX. É que o nosso Animal teve uma vida muitíssimo colorida, o que de resto é hábito em quem mergulha no mundo do crime. Mas no caso de Joe Barboza terá provavelmente sido mais colorida do que a maioria.

E o autor deste livro, Casey Sherman, não se limita a acompanhar a vida do protagonista pelo meio de todas essas convulsões. Ele é o fio condutor, sim, mas Sherman não vira a cara às ramificações, às ligações mais ou menos próximas entre acontecimentos exteriores ao caminho que Joe Barboza seguiu do nascimento à morte e esse caminho propriamente dito. Fala, brevemente, dos antecedentes familiares e sociais, da comunidade, da vida das comunidades operárias, em grande medida compostas por imigrantes, na Nova Inglaterra ao longo do século XIX e do início do século XX, fala bastante da Máfia e dos gangues irlandeses de Boston e zonas limítrofes, fala do FBI, de J. Edgar Hoover e de Bobby Kennedy, por aí fora. Barboza é retratado como um peão de acontecimentos mais vastos, que o influenciam e que ele por sua vez influencia. Um peão que deixa um rasto de sangue por onde passa.

Este livro não é ficção, mas até podia ser. Ou por outra, retrata aquela realidade que inspirou muita da ficção literária e cinematográfica que temos visto e lido ao longo do último meio século. Com uma diferença de monta, pelo menos para nós: o protagonista é lusodescendente. Tudo isto torna-o bastante interessante e espero ter-lhe feito justiça com a minha tradução.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Alan Moore: Doença de Fuseli

Andar a ler histórias sobre doenças, por mais excêntricas e desacreditadas que elas sejam, no meio do que provavelmente será a epidemia do século é uma sensação algo estranha.

Especialmente quando a doença desacreditada é das contagiosas. É o caso desta Doença de Fuseli (bibliografia), saída da pena de alguém conhecido sobretudo como autor de BD: Alan Moore. Como autor de BD de terror, mais precisamente e, sim, esta doença/história é de terror, com base numa ideia realmente muito boa: uma enfermidade onírica que se propaga pelo mundo dos sonhos.

Imaginam? De dia, ou melhor, enquanto acordadas, as pessoas não revelam qualquer sintoma e vivem as suas vidas, saudáveis ou enfermas de outras enfermidades, como se nada se passasse. Mas quando adormecem são assaltadas por sonhos vívidos em que estão doentes, com sintomas característicos, e se por acaso calha sonharem com outras pessoas verdadeiras é quase inevitável que os sonhos destas também passem a ser assim. Imaginam as consequências?

Alan Moore não nos dá as consequências, ainda que sugira algumas; afinal, isto é um livro de descrições de doenças. Mas deixa no ar o apetite de ler uma história mais extensa, com um estilo ficcional mais convencional, sobre um mundo assolado por uma epidemia deste género. Podia ser uma história magnífica. Assim, Moore fez provavelmente o melhor que poderia ter feito dentro das limitações da proposta, o que significa que o resultado é bom. Mas confesso: soube-me a pouco. Queria mais.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 14 de março de 2020

Elsa Loff: O Museu

É curioso como os problemas no uso das vírgulas se correlacionam tão frequentemente com as pretensões à prosa poética, como se os autores mais inexperientes estivessem convencidos de que escrever bem e escrever rebuscadamente são uma e a mesma coisa, e por isso tentassem, sem saberem bem como, alcançar o segundo objetivo para conseguirem obter o primeiro.

Sim, é precisamente o caso deste O Museu (bibliografia) de Elsa Loff, mais um conto bastante fraco principalmente por conta de demasiados disparates na colocação de sinais de pontuação, sobretudo de vírgulas, e porque a autora, ao tentar fazer prosa poética, acaba a adverbiar e adjetivar em demasia o seu texto. Este é uma banal história de terror sobre uma criatura demoníaca mergulhada em formol num frasco num museu — e cá temos o título — mas nem por isso desprovida de um certo poder. A leitura não é particularmente agradável, mas o conto, muito curto (duas páginas), esquece-se num ápice.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 13 de março de 2020

Em fevereiro falou-se de...

Fevereiro foi mais um mês francamente mau, mas esperem que sobre isso falarei mais adiante. Os apressados podem saltar já para as listas ou para os comentários... ou para os dois lados se tiverem o dom da ubiquidade. Para já, a conversa habitual, destinada àquela malta que cai aqui pela primeira vez. E olhem, este mês vou limitar-me a um copy-paste do mês anterior, em honra do recém-falecido Larry Tesler.

A explicação sobre o que vem a ser isto está no primeiro destes posts, aqui, onde também se dão conta das limitações que isto tem, do lugar de onde isto vem, do que se pretende alcançar com isto, e por aí fora. E se quem aqui chegar pela primeira vez tiver curiosidade sobre o que já se publicou de semelhante no passado (e no futuro, que se o leitor cá cair depois de março de 2020 já haverá coisas semelhantes posteriores a esta), basta-lhe clicar na tag leituras fc e empanturrar-se de informação. E siga para as listas, que depois delas há comentários.

Ficção portuguesa:
  1. Mekanon, de Michel Alex
  2. O Submundo dos Antigos, de Susana Celina de Oliveira Augusto (conto)
  3. A Gaivota Ferida, de Jeracina Gonçalves (conto)
  4. Feridas de Ódio e Amor, de António Orta (conto)
  5. Ensayo Sobre la Lucidez, de José Saramago
  6. Saudações de Tau Ceti, de António Bettencourt Viana (conto)
Ficção luso-brasileira:
  1. Vaporpunk, org. Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva
Ficção brasileira:
  1. Epílogo, de Victor Allenspach
  2. Anacrônicos, de Luiz Bras (conto)
  3. Máquina Macunaíma, de Luiz Bras (2x)
  4. Paraíso Líquido, de Luiz Bras
  5. Não Jogue com a Morte, de Capitolina (conto)
  6. La Dame Chevalier e a Mesa Perdida de Salomão, de A. Z. Cordenonsi
  7. O Mistério dos Planos Roubados, de A. Z. Cordenonsi (2x)
  8. O Problema dos Cálculos Maquinares, de A. Z. Cordenonsi
  9. Morte Matada, de G. G. Diniz
  10. Gastaria Tudo com Pizza, de Pedro Duarte
  11. Back in the USSR, de Fábio Fernandes
  12. Engrenagens, org. Paola Giometti
  13. Hannah, de Bruno Godoi
  14. Elemento Alpha, de Priscila Gonçalves
  15. Elemento Infinito, de Priscila Gonçalves
  16. Leia Mulheres, org. Michelle Henriques, Juliana Gomes e Juliana Leuenroth
  17. Juízo Final, de Thiago Kansler
  18. Rio 2054, de Jorge Lourenço
  19. Três Meses no Século 81, de Jeronymo Monteiro
  20. Incompletos, de Sabine Mendes Moura
  21. Um Passeio no Jardim da Vingança, de Daniel Nonohay
  22. Ninguém Nasce Herói, de Eric Novello
  23. Às Moscas, Armas, de Nelson de Oliveira
  24. A Batalha dos Mortos, de Rodrigo de Oliveira
  25. O Senhor do Tempo, de Márcio Pacheco (2x)
  26. O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci (12x)
  27. Crónica Extra-Terrestre, de José Guilherme Correa Pinto (conto)
  28. Por Onde Ela Esteve?, de Rebeka Prez
  29. Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, de Ana Cristina Rodrigues
  30. A Telepatia São os Outros, de Ana Rüsche (2x) 
  31. Safra Macabra, de King Shelter
  32. Traição, de Márcia Silva
  33. Fanfic, de Braulio Tavares
  34. Ìségún, de Lu Ain-Zaila (2x)
Ficção internacional:
  1. Das Estrelas ao Oceano, org. ??
  2. O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams
  3. O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams
  4. Mundos Apocalípticos, org. John Joseph Adams
  5. As Cavernas de Aço, de Isaac Asimov (2x)
  6. Eu, Robô, de Isaac Asimov
  7. Fundação, de Isaac Asimov
  8. Fundação e Império, de Isaac Asimov (2x)
  9. Nove Amanhãs, de Isaac Asimov
  10. O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov
  11. O Conto da Aia, de Margaret Atwood (2x)
  12. Os Testamentos, de Margaret Atwood (2x)
  13. O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle
  14. Farenheit 451, de Ray Bradbury (2x)
  15. 4 Contra o Apocalipse, de Max Brallier (2x)
  16. A Marcha dos Zumbis, de Max Brallier (3x)
  17. Fortaleza Digital, de Dan Brown
  18. Filho Dourado, de Pierce Brown
  19. Laranja Mecânica, de Anthony Burgess
  20. A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler
  21. Bloodchild, de Octavia E. Butler (conto)
  22. Seres do Espaço, de Steven Caldwell
  23. O Enigma de Outro Mundo, de John W. Campbell (2x)
  24. Dacey's Patent Automatic Nanny, de Ted Chiang (conto)
  25. Doença do Arroz Claro, de Michael Cisco (conto)
  26. Desencanto Fúngico, de Alan M. Clark (conto)
  27. 2001: Odisseia Espacial, de Arthur C. Clarke
  28. O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke (2x)
  29. Respire Fundo, de Arthur C. Clarke (conto)
  30. A Biblioteca Invisível, de Genevieve Cogman
  31. Naves Espaciais 2000 a 2100, de Stewart Cowley
  32. Jurassic Park, de Michael Crichton
  33. Matéria Escura, de Blake Crouch
  34. Recursão, de Blake Crouch (3x)
  35. Vox, de Christina Dalcher
  36. The Evil Goblins from Neptune, de Martin Day e Keith Topping 
  37. O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick
  38. A Libélula no Âmbar, de Diana Gabaldon
  39. Ecos do Futuro, de Diana Gabaldon
  40. Seres Mágicos e Histórias Sombrias, de Neil Gaiman e Al Sorrentino
  41. Herland, de Charlotte Perkins Gilman
  42. Uma Coisa Absolutamente Fantástica / Uma Coisa Absolutamente Incrível, de Hank Green (2x)
  43. A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin
  44. Os Despossuídos, de Ursula K. Le Guin
  45. Guerra Sem Fim, de Joe Haldeman
  46. Metrópolis, de Thea von Harbou
  47. Hunters of Dune, de Brian Herbert e Kevin J. Anderson
  48. Chapterhouse: Dune, de Frank Herbert
  49. Heretics of Dune, de Frank Herbert
  50. O Homem da Areia, de E. T. A. Hoffmann (conto)
  51. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
  52. A Gaiola Dourada, de Vic James
  53. A Quinta Estação, de N. K. Jemisin
  54. O Céu de Pedra, de N. K. Jemisin
  55. O Portão do Obelisco, de N. K. Jemisin
  56. The Kingdom of Gods, de N. K. Jemisin
  57. O Mundo Invisível Entre Nós, de Caitlín R. Kiernan
  58. Cell, de Stephen King
  59. O Instituto, de Stephen King
  60. Lucky Thirteen, de Marko Kloos (conto)
  61. Measures of Absolution, de Marko Kloos (conto)
  62. Perelandra, de C. S. Lewis
  63. O Ano da Graça, de Kim Liggett (4x) 
  64. O Fim da Morte, de Cixin Liu
  65. A Cor que Caiu do Espaço / A Cor que Caiu do Céu, de H. P. Lovecraft (3x)
  66. A Vida Depois de Legend, de Marie Lu (conto)
  67. Champion, de Marie Lu
  68. Prodigy, de Marie Lu
  69. Rebel, de Marie Lu
  70. Ladra de Almas, de Sarah J. Maas
  71. Intocável, de Tahereh Mafi
  72. Inspeção, de Josh Malerman (2x)
  73. O Outro Lado do Amanhecer, de John Marsden
  74. O Começo, org. George R. R. Martin
  75. A Memory Called Empire, de Arkady Martine
  76. Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson
  77. Máquinas Como Eu, de Ian McEwan
  78. A Altura Deslumbrante, de Katharine McGee
  79. Cinder, de Marissa Meyer
  80. Levana, de Marissa Meyer
  81. Brumas do Tempo, de Karen Marie Moning
  82. Mais Forte que o Mar, de Kassandra Montag (2x)
  83. Gigantes Adormecidos, de Sylvain Neuvel
  84. 1984, de George Orwell
  85. Gato, de Bill Pronzini (conto)
  86. A Bússola de Ouro, de Philip Pullman
  87. Intruso, de Iain Reid
  88. Perdida, de Carina Rissi
  89. Pureza Mortal, de J. D. Robb
  90. De Sangue e Ossos, de Nora Roberts
  91. Nova York 2140, de Kim Stanley Robinson
  92. Território Lovecraft, de Matt Ruff
  93. A Última Colônia, de John Scalzi
  94. Vilão, de V. E. Schwab
  95. Frankenstein, de Mary Shelley (2x)
  96. O Projeto Rosie, de Graeme Simsion
  97. Matadouro-Cinco, de Kurt Vonnegut, Jr.
  98. Utopia, LOL, de Jamie Wahls (conto) 
  99. Fragmentos do Tempo, de Rysa Walker
  100. O Homem Invisível, de H. G. Wells
  101. A Queda Sombria de Elizabeth Frankenstein, de Kiersten White
  102. Uma Nova Esperança: A Vida de Luke Skywalker, de Ryder Windhan
  103. Frankissstein, de Jeanette Winterson
  104. A Sombra do Torturador, de Gene Wolfe
  105. Projecto Grande Ascenção, de Robert F. Young (conto)
  106. Nós e Outras Novelas, de Evguéni Zamiátin
Não-ficção internacional:
  1. 21 Lições Para o Século XXI, de Yuval Noah Harari
  2. A Nova Idade das Trevas, de James Bridle
  3. Novacene: The Coming Age of Hyperintelligence, de James Lovelock
  4. Monstros Fabulosos, de Alberto Manguel
Pois como ia dizendo, este mês voltou a ser muito mau no que toca à FC portuguesa. Não só 6 comentários fica bem longe dos 10 que considero o mínimo aceitável para um ambiente razoavelmente saudável, como todos menos dois foram comentários a contos feitos aqui mesmo na Lâmpada. Contando só com o que vem do "vasto mundo lá fora", tudo se resume a uma opinião sobre Saramago vinda do mundo hispânico e uma opinião sobre um livro lançado recentemente. De resto, a quase ausência de lançamentos nos primeiros meses do ano contribui para este silêncio. E assim, naturalmente, não há destaques a fazer.

Num contraste absoluto, os comentários à FC brasileira podem ter batido o recorde (não tenho registado quantos comentários houve em cada categoria em cada mês, pelo que escrevo de memória, a qual é falível), e mesmo se não o fizeram ficaram certamente perto. 34 títulos são muitos títulos, especialmente tendo em conta que incluem relativamente poucos contos, e houve bastante mais comentários que esses. O destaque do mês vai outra vez para Fausto Luciano Panicacci, que continua a fazer marketing do seu romance, desta feita através de uma leitura conjunta que lhe rendeu este mês 12 comentários. Além dele, são de destacar Luis Braz, com 4 comentários a 3 títulos e A. Z. Cordenonsi, também com 4 comentários a 3 títulos.

Também as leituras internacionais foram bastante abundantes — embora aqui não haja de certeza recordes batidos — voltando o total de títulos a ultrapassar a centena: 106. O principal destaque do mês coube a Isaac Asimov, com 8 comentários distribuídos por 6 títulos, mas Max Brallier, com 5 comentários a 2 títulos, Arthur C. Clarke, com 4 comentários a 3 títulos, Blake Crouch, também com 4 comentários mas a 2 títulos, N. K. Jemisin, ainda com 4 comentários mas a outros tantos títulos, Kim Liggett, também com 4 comentários a um só título, e Marie Lu, de novo com 4 comentários a outros tantos títulos, também merecem destaque.

Por fim, havia em janeiro a dúvida sobre se a abundância de comentários a obras de não ficção seria epifenómeno ou tendência. Bem... é facto que a quantidade diminuiu significativamente em fevereiro, mas não deixa de ser também facto que a lista continua a ser múltipla. Ou seja: acho que ainda não há resposta. Teremos de esperar mais algum tempo. Talvez em março? Talvez.

Até lá.

domingo, 8 de março de 2020

Leiturtugas da semana #55

Depois de uma semana de pausa, eis que regressam as Leiturtugas, e agora já não chegam pelas mãos do Artur Coelho como tem sido hábito até aqui. É que um tal Jorge Candeias, não sei se sabem quem é, estreou o ano com uma opinião sobre um livro português de ficção científica que pelos vistos ninguém conhecia. Intitula-se o livro Maresia, o autor chama-se Fernando Correia da Silva, e o livro, um romance, foi publicado pela Campo das Letras nos primeiros anos do século.

Mas não me fiquei por este, que eu cá quando começo é logo à bruta (não é nada; até sou suavezinho). Também opinei sobre um segundo livro integrado no projeto, este sem qualquer sinal de FC mas com algum fantástico de outros matizes: a antologia Doze Escritores Portugueses Contemporâneos publicada pela Dom Quixote e organizada pelo respetivo editor, Nelson de Matos. E o tal Jorge Candeias estreia-se com 1c1s.

Para a semana? Eu não tenho nada. E vocês?

sábado, 7 de março de 2020

Lançamentos de FC de fevereiro 2020 (segundo o FCL)

E cá temos a segunda lista mensal de lançamentos, depois da inauguração desta nova forma de fazer isto que tivemos no início de fevereiro e referente a janeiro. Convém ir lá dar-lhe uma vista de olhos para saber de limitações e critérios e essas coisas, e quanto ao que está aqui neste post, é tudo o que foi apanhado pelo FCL durante fevereiro subtraído do que já tinha sido apanhado pelo FCL durante janeiro.

E que tal correu?

Olhem, foi tudo bastante parecido com janeiro. A FC portuguesa está praticamente parada, contando este mês apenas com um lançamento algo marginal ao género (ou totalmente fora dele, pois os livros do António Bizarro só têm alguns elementos de FC e às vezes nem isso, pelo menos a ajuizar por algumas opiniões que se têm lido por aí) e uma reedição brasileira de Saramago. Ou então é tudo secreto, não divulgado, encerrado nos grupinhos murados das redes sociais.

Em contraste, no Brasil continua a lançar-se material se não com abundância, pelo menos com regularidade. E com muitos nomes novos, coisa que em Portugal só raramente aparece com lançamentos individuais, e quando aparece tem tendido a ser através daquelas pequenas edições de contos feitas pela Imaginauta. Este mês, de resto, as novidades brasileiras são praticamente só nomes novos; não vejo aqui nenhum clássico ou consagrado.

Quanto à ficção traduzida, desaparecido o efeito dos anúncios de novidades de médio e longo prazo os números desceram bastante, tanto em Portugal como no Brasil. Mas voltaram a ser equilibrados, o que continuo a achar surpreendente, ainda que desta vez haja uma ligeiríssima vantagem brasileira. Talvez devido à continuada ausência de anúncios de edições brasileiras de Perry Rhodan. Mas não só, pois as novidades portuguesas são desta vez mais próximas do núcleo central da ficção científica, estando a maior parte das brasileiras um pouco mais afastadas. Mas em ambos os casos os números são baixos; desconfio que talvez se venham a contar entre os mais baixos do ano.

De resto, tivemos um lançamento de não-ficção lusobrasileira, três lançamentos de não-ficção traduzida, todos no Brasil, e três lançamentos de periódicos, sendo aqui de realçar o aparecimento de um português, o que é uma raridade. E também aqui os números são baixos, com exceção da não-ficção traduzida publicada no Brasil. Está certo que nunca fiz isto mês a mês, portanto não posso ter certezas, mas três títulos num só mês não deve ser muito frequente.

Em suma: fevereiro não me agradou. Em abril logo veremos como foi março. Até lá.

Ficção portuguesa:
  1. Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (editado no Brasil)
  2. Os Filhos de Rambeau, de António Bizarro
Ficção brasileira:
  1. A Primeira Diretriz, de Paulo Batkai Louzada
  2. Canis Majoris, de Eduardo Bragança
  3. Ir Também é Ficar, org. Vanessa Brunt
  4. O Garoto das Dez, de G. S. Goméz
  5. O Herdeiro dos Deuses, de Victor Alves
  6. Passageiro do Caos, de Uziel A. Gomes 
  7. Quadrado 111, de Gleisom Peixoto 
  8. Signum, de Júlio César Bueno
  9. Unicelular, de Tarsis Magellan
Ficção internacional:

Edições portuguesas
  1. A Tempestade, de Clive Cussler e Graham Brown
  2. Depois do Dilúvio, de Kassandra Montag
  3. Os Tempos do Ódio, de Rosa Montero 
  4. Viagem ao Passado, de Kevin Emerson
Edições brasileiras
  1. A Jangada, de Jules Verne
  2. Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe 
  3. Nova York 2140, de Kim Stanley Robinson
  4. O Chamado de Cthulhu e Outras Histórias, de H. P. Lovecraft
  5. Território Lovecraft, de Matt Ruff
Não-ficção luso-brasileira:
  1. Faces da Utopia, org. ??
Não-ficção internacional:

Edições brasileiras
  1. 21 Lições Para o Século 21, de Yuval Noah Harari
  2. H. P. Lovecraft: Contra o Mundo, Contra a Vida, de Michel Houellebecq
  3. Inteligência Artificial, de Kai-Fu Lee
Periódicos:

Edições portuguesas
  1. Orion, nº 5
Edições brasileiras
  1. Conexão Literatura, nº 56
  2. Literomancia, nº 3

Nelson de Matos (org.): Doze Escritores Portugueses Contemporâneos (#leiturtugas)

Tenho o Bibliowiki basicamente parado, por falta de tempo para lhe dedicar. Consequência de várias coisas, quase todas positivas: ter tido trabalho, ter voltado a escrever, ter lido bastante ultimamente e portanto ter tido muito a dizer sobre o que vou lendo, e por aí fora. Mas o Bibliowiki sofre. O que não quer dizer que parem as leituras que vou fazendo para perceber se os livros têm lá dentro alguma coisa que interesse ao wiki. E aqui está mais uma.

Pois esta antologia de Doze Escritores Portugueses Contemporâneos, organizada por Nelson de Matos de forma algo clandestina, pois não aparece o seu nome em lugar nenhum e há que deduzir que a responsabilidade é sua a partir de elementos díspares, foi comprada (cegamente, num site de livros em segunda mão) especificamente para satisfazer essa curiosidade: conterá alguma coisa relevante para a literatura fantástica? Algum autor novo, algum autor a escrever textos com elementos não realistas de relevo?

E de facto contém. Não é como em certas antologias, em que, com grande surpresa, constatei que a literatura fantástica compõe um quinhão significativo dos textos nelas presentes, mas dois destes doze textos são realmente enquadráveis no fantástico, um de uma forma mais ténue, outro de modo decidido. Missão cumprida, portanto.

No entanto, não era esse o propósito deste livro. Trata-se de uma compilação de textos previamente publicados, entre contos e excertos de romances, com o objetivo de apresentar a putativos leitores, tradutores e editores uma série de autores da casa, a Dom Quixote. A ideia é, pois, despertar curiosidade pelo resto das obras de onde estes textos são extraídos e, por extensão, pelo resto das obras dos autores aqui incluídos. Terá sido nisso bem sucedido?

Bem, pela parte que me toca, mais ou menos. Se é certo que gostei de vários destes textos, e até os achei em geral boa ou muito boa literatura, a esmagadora maioria não me puxou o suficiente os cordelinhos do gosto para me levar a ter realmente vontade de arranjar os livros de que fazem parte. Ou por outra, alguns até levaram, mas de forma algo vaga, como um projeto a médio ou a longo prazo, não como algo para fazer em breve. E todos sabemos o que acontece com frequência aos projetos vagos de longo prazo, não é? Esquecem-se. São ultrapassados pelos acontecimentos e pelas vontades. Acontecerá? Só o futuro o dirá.

Se chegar a acontecer, não será surpresa para ninguém que aconteça sobretudo com aqueles textos e autores que me mostraram pegada fantástica: a Teolinda Gersão de A Árvore das Palavras e a Luísa Costa Gomes de O Fosso e o Pêndulo, embora eu costume não gostar dos contos desta autora. Mas não só: o Álvaro Guerra de Ponta Tenente também me despertou alguma curiosidade, o Mário Cláudio de As Chagas também e até, talvez, a Lídia Jorge de A Espuma da Tarde. Quanto aos outros, duvido mesmo muito que chegue a ler algum.

Seja como for, esta foi mais uma leitura que valeu a pena, mesmo tendo alguns dos textos passado um pouco (ou bastante) ao largo do meu gosto literário: encontrei mais coisas para o Bibliowiki, li alguns textos bons e descobri dois ou três autores que não conhecia e me parecem potencialmente interessantes. Tudo isto é lucro.

Contos anteriores deste livro:
Este livro foi comprado.

Prosper Mérimée: A Vênus de Ille

Apesar de se integrar literariamente no romantismo, na prosa de Prosper Mérimée algumas das características do movimento que mais me desagradam — e desagradam-me muito — não são muito acentuadas. Não há nele grande exagero de sentimentalismo, não há adjetivação em excesso; há um sentimentalismo algo comedido e uma exploração razoavelmente sensata dos temas típicos do romantismo fantástico (ou não fantástico). Isso mesmo se comprova neste A Vênus de Ille (bibliografia), uma noveleta sobre uma estátua diabólica.

Trata-se de uma daquelas histórias, comuns na ficção oitocentista, em que alguém vindo de fora, normalmente da cidade grande, chega a um lugar que lhe é desconhecido e geralmente pequeno e trava conhecimento com tradições, superstições e histórias locais. Muitas das histórias de fantasmas vitorianas são assim, por exemplo. Mas aqui não temos propriamente um fantasma; temos um protagonista-narrador vindo da cidade grande, sim, que aparece numa terreola distante, sim, mas o interesse dele é arqueológico. E o que encontra é a estátua de uma divindade, provavelmente romana, que tinha sido recentemente encontrada na vilória de Ille, a qual se situa nos Pirenéus franceses muito perto da fronteira com a Catalunha.

A estátua fascina o seu anfitrião, um proprietário local também interessado em arqueologia, que procura nele a validação das suas teorias uma vez que o considera uma espécie de colega dotado de conhecimentos mais sólidos sobre o tema. Mas também amedronta; várias pessoas afirmam sentir que dela é exalada qualquer coisa de maligno. E também há uns acontecimentos estranhos...

O pior, porém, está reservado para o filho do anfitrião, jovem de casamento marcado para aqueles dias, o qual, por conta de uma atitude irrefletida, vai despertar uma ligação fatal entre si e o que quer que de sobrenatural anima o bronze da estátua. Não é difícil a partir daqui deduzir o desfecho da história, mas não entrarei em detalhes.

Concluo dizendo apenas que embora tenha, como não podia deixar de ter, algumas daquelas características das ficções do romantismo que tendem a colidir violentamente com o meu gosto literário, esta história de Merimée dilui-as o suficiente para que a qualidade de tudo o resto venha (quase) plenamente ao de cima. É uma noveleta bastante boa, algo previsível mas não tanto como tantas outras histórias da época (i.e., e para dar um exemplo, se a tragédia é previsível, a forma concreta que ela toma é bastante inesperada), bem narrada e bastante bem escrita.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 6 de março de 2020

Mia Couto: A Carta

É curioso como dois contos de Mia Couto integrados em dois livros bem diferentes e cuja publicação se distancia no tempo em várias décadas, um deles a assumir a sua condição de conto, o outro travestido de crónica, conseguem ter tanto em comum.

E é curioso também que os tenha lido quase um a seguir ao outro. Por puro acaso. Falo deste A Carta, claro, e de A Dona da Ausência, aqui comentado há dias.

Tal como no outro, também aqui o ambiente é guerreiro. Tal como no outro, também aqui uma mulher está no fulcro da narrativa. Tal como o outro também este conto é bastante curto, quatro páginas apenas. Também há algumas diferenças, naturalmente. O outro é um conto sobre relações de poder, este é um conto sobre saudade. O outro não tem elementos fantásticos que ultrapassem uma certa atmosfera vagamente mágica, de que Mia Couto nunca prescinde, neste a magia (ou telepatia, ou intuição, o que lhe queiram chamar) é pelo menos uma interpretação possível de um elemento do enredo. E mais algumas.

Uma dessas algumas é a tristeza. Este é um conto muito triste, um conto sobre a devastação da guerra. A carta do título é uma missiva de um filho guerreiro, a única, que o narrador lê repetidamente (alterando-a sempre) à mãe daquele. Até ao dia em que recebe a notícia que o filho morrera, notícia essa que não tem coragem de transmitir à mãe. Mas a mãe parece saber mesmo assim. O conto é muito bom. E muito "miacoutiano", também.

quinta-feira, 5 de março de 2020

António Bettencourt Viana: Probabilidades

Ao longo de boa parte deste conto, que vem na página de rosto anunciado como sendo de ficção científica, a primeira interrogação que não sai da cabeça de quem o lê é "mas o que raio tem isto a ver com a FC?" E a segunda é "e por que raio tem o título de Probabilidades?" (bibliografia). Porque o que António Bettencourt Viana parece fazer neste conto é um daqueles estudos de personalidade à Eça, aqui centrado num irascível dono de casa de penhores e seu sobrinho, com um enredo, que aparenta ser mais ou menos acessório, sobre um homem que tenta empenhar um anel. O conto está cheio de ironia (à Eça, lá está), o homem é retratado como um daqueles tipos miudinhos e desagradáveis que dão sempre boas personagens, mas que no fundo só quer ter um bocadinho de sossego nos fundos da loja enquanto o sobrinho atende o raio do cliente. Mas o sobrinho é novo naquilo, não sabe bem quanto há de oferecer pelo anel, que acha valioso, e por isso vai chatear o tio.

O tio corre com ele à pedrada. Figurativamente falando, calma. Mas depois aparece morto sem nada de figurativo. Mas com muito mistério à mistura.

E é aqui, prestes a terminar o conto, que se percebe finalmente o que tem ele de ficção científica. E com probabilidades. É que a explicação para a morte do homem é uma explicação de FC, relacionada com probabilidades, precisamente. Uma explicação bastante forçada, há que dizê-lo, embora Viana faça um bom trabalho a disfarçar o facto.

Este é um conto interessante, mais bem escrito do que o anterior, talvez em parte porque o caráter didático que também tem não se intromete tanto no desenrolar da história e faz sentido no contexto em que aparece.

Conto anterior deste livro:

Isaac Asimov: O Sorriso que Rouba

Apesar de ter sido em geral uma pessoa progressista, Isaac Asimov não é propriamente um autor imaculado no que toca às relações com as mulheres, e sabê-lo acrescenta uma camada de algum desconforto à leitura deste conto. Pois O Sorriso que Rouba (bibliografia) é uma história onde, nas entrelinhas, assoma a violência doméstica. Não que Asimov fosse culpado de tais práticas, pelo menos que se saiba. Mas exerceu, tudo o indica, outras formas de abuso. Quais? Bem, digamos que era muito liberal com os lugares onde punha as mãos...

Alegadamente...

Este conto é, claro, mais uma história em que surge o demónio Azazel. Ou por outra, é e não é, pois do demónio propriamente dito não aparece nem sinal; esta é apenas uma história contada pelo (extraordinariamente arrogante e vaidoso) homem a quem o demónio faz favores, sobre mais uma obra demoníaca cheia de boas intenções que terá originado efeitos secundários inesperados e desastrosos.

A situação é a seguinte: uma mulher anda perturbada porque o marido, que ela vê como carinhoso e amantíssimo, nunca aparece nas fotografias com aquela expressão que ela tanto adora. E o vaidoso, que tem um fraquinho por ela, resolve requisitar o demónio para lhe dar uma mãozinha e capturar a tal expressão numa fotografia. Consegue, naturalmente. Mas vem-se a perceber que captura mais do que isso e o marido de amantíssimo passa a abusador.

O que é realmente perturbador é a reação da mulher. A inventar desculpas para os abusos, enquanto vai minguando em tristeza. A atribuir culpas a si própria. Uma reação demasiado comum, na verdade. E é necessária uma intervenção externa para voltar a colocar tudo nos eixos; é preciso que o vaidoso tenha um ataque de decência e remorso e decida recuperar a fotografia e destruí-la. Coisa que a mulher não perdoa.

Convenhamos que para um conto curto cuja ambição primordial é ser divertido, este Sorriso que Rouba tem entrelinhas poderosas. E digo-o mesmo sem ter gostado lá muito de o ter lido.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 4 de março de 2020

Escrita de fevereiro


As minhas previsões sobre o momento em que teria as coisas concluídas não seriam as minhas previsões sobre o momento em que teria as coisas concluídas se não as falhasse pelo menos uma vez. No que se refere à escrita de material original, note-se, que no resto costumo ser muito certinho.

Sim, sim, não acabei a história que estou a escrever e tinha dito que provavelmente acabaria em fevereiro. Os motivos para isso foram dois: escrevi um pouco menos em fevereiro do que tinha escrito em janeiro, 8200 palavras (não chega a 25 páginas) em vez de 9100, e o facto de a história, que eu apontava para vir a ser uma noveleta longa ou uma novela curta se estar a encaminhar para a novela curta. Está atualmente quase a chegar ao limite superior da noveleta e deverá acabar por volta das 21-22 mil palavras.

Ou seja: acaba em março, salvo alguma hecatombe. Depois? Bem. Depois se verá. No início de abril cá estarei para vos contar.

terça-feira, 3 de março de 2020

Fernando Correia da Silva: Maresia (#leiturtugas)

Tem sido assim há algumas décadas: sempre que eu acho que se calhar sou capaz de já conhecer toda a ficção científica portuguesa que se foi publicando por aí, seja por a ter lido, seja por dela ter tido conhecimento através de leituras alheias, lá aparece qualquer coisa a desmentir tal convencimento. Normalmente é um conto aqui, outro ali. Mas por vezes são livros inteiros. Incluindo romances. Como este.

Nunca tinha ouvido falar de Fernando Correia da Silva até ter tropeçado neste Maresia, algum tempo antes da editora fechar as portas. Comprei o livro apenas porque a sinopse me chamou a atenção, e todos os leitores sabem como as sinopses por vezes são enganadoras, mas fi-lo sem grande esperança de encontrar aqui algo de interessante, até porque a capa remete mais para um livro de poesia budista do que a alguma coisa que mexa mais de perto com o meu gosto. Mas desta vez a sinopse acertou e a capa não. O livro é um romance de FC, variante distópica. Ou vá, que está na moda: uma distopia. Uma distopia política, mais propriamente.

Estamos, aparentemente, no futuro. Sem que seja explicado como — e não é necessário — uma estranha forma de teocracia tomou conta do país (do mundo?), que agora é governado por mandarins (uma piscadela de olho ao Eça?) sob a autoridade não só nominal mas efetiva do Papa. A teocracia levou de uma forma igualmente misteriosa a uma alteração profunda das relações sociais e sexuais entre homens e mulheres. Os dois sexos vivem agora separados, os homens nas várias estruturas económicas e de poder, as mulheres em gineceus, uma espécie de guetos murados, acompanhadas pelos filhos pequenos de ambos os sexos. A líbido é inexistente... exceto um mês por ano, durante janeiro, altura em que explode com violência. Então, os homens invadem os gineceus, num frenesim de sexo e pancadaria que só termina ao terminar o mês, e aí são recebidos pelas mulheres, que não estão menos irracionais, menos afetadas pelo cio brusco, mas que mesmo assim são sujeitas a todas as formas de indignidades. É a "maresia" do título.

O romance segue a vida de um rapaz inteligente, primeiro no gineceu da mãe, depois como jovem cativado por um dos mandarins, depois como guerreiro, um dos homens de confiança do mandarim, um dos "fortes", por aí fora. Embora a abrangência temporal seja aqui bastante mais vasta, há muito em comum na progressão do protagonista com o bombeiro Montag de Fahrenheit 451, de jovem ingénuo a revolucionário. Porque é nisso que o protagonista de Correia da Silva se transforma: num revolucionário. Alguém que quer acabar com o sistema da maresia e dos gineceus e dos mandarins e do reino da força como único poder verdadeiro, com a própria teocracia de que o papa se serve simplesmente para enriquecer. E não tem nisso mais sucesso do que Montag, pelo menos na aparência, acabando em fuga e perseguido.

Mas não um revolucionário qualquer. Como em muitas outras distopias, também nesta o protagonista é uma espécie de revolucionário conservador, alguém que deseja reverter as alterações políticas e económicas (e neste caso também biológicas) que transformaram a sua sociedade num pesadelo, trazendo-a de volta a um estado próximo da sociedade do autor, encarada como "normal". Contudo, ao mesmo tempo, Fernando Correia da Silva aproveita para criticar alguns elementos da sociedade que temos (a ganância, a exploração dos fracos pelos fortes, ou seja, do homem pelo homem, a desigualdade sexual, etc.) por via do exagero. Com um ponto de vista que se não é marxista dá uns certos ares disso. Mas há neste livro uma certa ambivalência, o que também o aproxima de outras distopias, e também algum desencanto, pois o livro não termina propriamente numa nota de esperança, mesmo que o autor se esforce por deixar entreaberta essa possibilidade.

E é um livro com uma brutalidade intrínseca que chega a fazer lembrar as ficções, também muitíssimo distópicas, de Telmo Marçal. Toda a sociedade se baseia em relações de força bruta, e por isso a violência e a morte violenta estão sempre presentes, a pairar sobre todos. E Correia da Silva usa um estilo narrativo a condizer, com uma prosa seca e despida de qualquer sinal de sentimentalismo, frases curtas e capítulos também curtos, nos quais os acontecimentos são descritos em primeira pessoa pelo protagonista. É o seu ponto de vista que o leitor acompanha, e é à sua forma de encarar o que o rodeia que se vai habituando. Nem sempre é fácil: o tipo pode até ter boas intenções, até pode ser invulgarmente inteligente, mas não deixa de ser um brutamontes, com uma racionalidade muito própria, baseada num conjunto de valores que, no fundo, são aqueles que a educação numa sociedade daquelas lhe deu. Mesmo a sua relação com a mulher que escolhe no fim para compartilhar aquilo a que chama "suave maresia" traz consigo uma frieza e um calculismo que quase arrepiam.

Este é, portanto, um romance interessante de ficção científica portuguesa que parece ter passado completamente ao lado dos leitores habituais do género. Não me lembro de ter visto alguma referência a ele entre 2003, a data de edição, e o momento em que este texto foi publicado. E é pena, até porque entretanto a editora faliu e por isso não sei se ainda é possível encontrar o livro em algum sítio.

Eu ainda consegui comprá-lo, meio por acaso. E ainda bem que o fiz.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Mais dos "meus" em edição especial

Já não é grande novidade. Este mês tenho estado muito atarefado com o trabalho e com a escrita de opiniões sobre coisas que vou lendo e este post atrasou-se pelo menos umas duas semanas. Mas aqui fica mesmo assim a nota de que saíram mais dois volumes da edição especial, em capa dura, das minhas traduções d'As Crónicas de Gelo e Fogo do George R. R. Martin.

Trata-se desta vez dos dois volumes que correspondem ao segundo volume original, o terceiro e o quarto da edição portuguesa: A Fúria dos Reis e O Despertar da Magia.

E eu continuo a babar com estas capas.

A babar, digo-vos eu!

É que não é só as capas serem bonitas, e são. É que quem, como eu, já conhece bem a história consegue encontrar nelas pormenores que se referem a acontecimentos fulcrais contidos em cada livro.

E quem não conhece, imagino, terá uma experiência ainda mais recompensadora ao chegar às partes da história relevantes e passar por aquele momento de revelação: "Aaaaah! Então era isto!"

De modo que continuo em modo "quero!" Talvez me passe. O espaço em estante e a carteira agradecerão que me passe. Mas ainda não passou.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Clive Barker: O Ladrão da Eternidade

O inglês Clive Barker é bem conhecido pelos leitores de horror internacionais sobretudo pelas suas cinco coletâneas de contos e novelas intituladas Books of Blood. Em Portugal, com a conhecida renitência dos editores em publicar coletâneas de contos (e dos leitores em lê-las, provavelmente), claro que esses cinco livros nunca viram a luz do dia, tendo sido o autor apresentado aos leitores portugueses pelo seu primeiro romance, The Damnation Game, publicado há muitos anos na coleção Pêndulo da Europa-América. Este O Ladrão da Eternidade (bibliografia) é apenas o segundo livro dele a sair entre nós. E não é propriamente um romance de horror. É um romance juvenil com algum horror à mistura. Uma fantasia sombria.

E sendo um romance juvenil, o protagonista é um miúdo. Um miúdo que vivia feliz com os pais (apesar de se aborrecer um pouco) até que um misterioso personagem de falinhas mansas o convence a ir passar uma temporada numa espécie de colónia de férias, algures na cidade. Com autorização dos pais, pelo menos na aparência. A colónia de férias rapidamente se revela um casarão, com certos ares de vitoriano, daqueles que tão comuns são nas histórias que envolvem alguma espécie de magia ou de criaturas sobrenaturais. Sim, sim, esta história não está livre de clichés.

Porque no casarão há bastante magia e criaturas sobrenaturais, como o miúdo vai descobrindo aos pontos, a princípio com o expectável deleite, mais tarde com crescente apreensão. Para começar, todos os dias parece passar um ano completo, com as estações todas e as respetivas festividades a suceder-se umas atrás das outras. E depois há as aventuras e brincadeiras, sempre cheias de magia... e ocasionalmente de aterrorizar.

Por trás de tudo aquilo, claro, há algo de sinistro. É o que o jovem protagonista acaba por descobrir aos poucos, juntamente com o leitor que também compreende assim o que Barker quer dizer quando intitulou o romance como O Ladrão da Eternidade (e neste caso o título português segue de perto o original). No final aparece a inevitável batalha do bem, protagonizado pelo rapaz, que se vem a descobrir especialmente talentoso para manusear as forças mágicas do mundo, e o mal, protagonizado pelo ladrão da eternidade e seus lacaios. E, claro está, o bem vence.

Há livros mais imaginativos? Sem dúvida. Mas este é um livro juvenil bastante bom, ainda que talvez não resulte numa grande experiência de leitura para leitores mais experientes, que dele deverão obter algumas horas de entretenimento e pouco mais. Para miúdos, ainda com poucas leituras no género, deverá haver aqui surpresas e emoção em quantidade mais que suficiente, e o livro está bem construído, com bom ritmo, com tudo nos lugares certos. Não sendo propriamente uma obra-prima, é um livro que cumpre bastante bem aquilo que se propõe fazer.

Este livro foi comprado.

Anabela Santos: O Poço do Terror

Mais um conto muito mauzinho, este O Poço do Terror (bibliografia), conto que, como o próprio título indica, é de terror. Ou tenta ser. Em parte, o conto é mau por ser outro conto muitíssimo adolescente, mas é-o principalmente devido muito frágil português de Anabela Santos, e sobretudo devido ao seu péssimo uso da pontuação. Das vírgulas, acima de tudo.

No meio de tantas fragilidades, a história quase passa despercebida. É uma história banal sobre um poço dominado por uma assombração assassina, numa aldeia remota de Portugal, a qual causa mortes misteriosas que são investigadas e desvendadas por um rapaz vindo da cidade, particularmente sensível a atividades paranormais. Bem escrita, a história poderia ser interessante, mesmo trazendo pouca novidade, mas assim é mais um conto sem grande salvação. Não é tão mau como o anterior, mas está claramente abaixo da média desta antologia, que já de si não é nada famosa.

Textos anteriores deste livro:

Mia Couto: A Dona da Ausência

Uma característica curiosa da escrita de Mia Couto é o protagonismo feminino que ele tantas vezes introduz nas suas histórias. É frequente serem histórias não só com mulheres, mas de mulheres, e mesmo quando são histórias de casal, como este A Dona da Ausência, é frequentemente a mulher quem tem o papel mais destacado. Ou pelo menos mais sensato.

Aqui, estamos perante um casal reencontrado após anos de ausência. O marido andava na guerra, provavelmente a civil que opôs a RENAMO à FRELIMO, e a mulher foi deixada para trás, tentando sobreviver como pudesse. Começa a história quando ele chega, decidido a voltar a tomar posse da casa e da família, mas o que encontra é uma mulher senhora de si própria e das suas vontades.

A cadeira, aqui, e mais uma vez, é principalmente simbólica. Simboliza o poder doméstico do homem, uma espécie de pequeno trono, e é principalmente o facto de não a ter encontrado ao regressar a casa que despoleta a ira (e a insegurança) do ex-combatente. Mas a mulher explica-lhe que tinha sido forçada a vendê-la para conseguir sobreviver. E depois mostra-lhe quem manda, com autoridade e doçura.

Quanto à escrita, é mais simples do que muitas vezes se encontra em Mia Couto, sem aquelas inovações entrocadilhadas que ele gosta (gostava?) de fazer. Não deixa de ser poética, mas a poesia está mais na situação, no enredo propriamente dito, do que na escrita. Mas é um conto de Mia Couto. Talvez não seja dos seus melhores, mas é bom.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Franz Kafka: Bestiário de Kafka

Embora tenha outras obras bastante conhecidas, em especial O Processo e, em menor grau, O Castelo, é incontestável que Franz Kafka vai ficar na história da literatura sobretudo graças à novela que costuma levar o título português de A Metamorfose. Não há pessoa razoavelmente culta que não saiba que essa história é sobre alguém que de repente se vê transformado num bicho, ainda que a natureza concreta do bicho seja objeto de debate.

Mas Kafka não escreveu só essa história com protagonista animal. A prova está neste livro, adequadamente intitulado Bestiário de Kafka, uma antologia feita em Portugal, selecionada por Álvaro Gonçalves, o qual também traduz algumas das histórias. São nove textos ao todo, com extensões que vão do miniconto à novela, incluindo algumas ficções póstumas e textos incompletos.

Há alguns temas comuns, como é natural numa compilação temática como esta. Mas apesar disso, esta coletânea é bastante heterogénea. Inclui o clássico maior de Kafka, como não poderia deixar de incluir, aqui rebatizado como A Transformação, mas também inclui alguns textos que não me pareceram particularmente bem conseguidos... para alguém com os pergaminhos de Kafka, note-se; seriam quase sempre bons textos para muitos outros autores.

No entanto, este livro, ou a escrita de Kafka em geral, não é para todos os leitores. Há nele um detalhismo, uma tendência para tecer labirintos de palavras que não têm necessariamente saída, que pode não agradar a leitores mais imediatistas. Em vários destes textos há uma ironia e um humor que se escondem sob uma superfície bastante árida que também pode ser difícil de penetrar para alguns leitores. Noutros, são os temas subjacentes que mais interesse me parecem ter, mas também aqui o subjetivismo tem a sua importância: temas que me interessam a mim podem não interessar a Fulano e vice-versa.

Para mim, há aqui três textos que se destacam dos demais. A Transformação, obviamente, e talvez nem valesse a pena fazer-lhe esta referência. A Toca, porque me tocou, com perdão do trocadilho. E Josefina, a Cantora, ou o Povo dos Ratos, pelo humor. São também, em companhia das Investigações de um Cão, três das quatro histórias mais longas, o que é curioso. Ou talvez não, pois o estilo de Kafka só se revela em pleno em histórias com alguma extensão.

De resto, esta é uma boa coletânea. E bem organizada, com as histórias distribuídas por forma a ficarem as melhores no princípio e no fim. Não sei bem é se concordo com todas as opções de tradução que aqui foram feitas, nem se a diluição de uma novela como A Metamorfose (ou A Transformação, pronto) num livro como este não poderá funcionar um pouco em seu detrimento, ao diluí-la num todo significativamente maior. Por outro lado, um bestiário de Kafka sem esse texto nunca seria um bestiário de Kafka, pelo que a sua inclusão seria sempre obrigatória.

Seja como for, foi uma boa leitura e no fim de contas isso é o que mais importa.

Eis o que achei de cada um dos textos deste livro:
Este livro foi comprado.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Maria Alexandra Silva: A Primeira Aparição da Deusa Agima a Vitória, a Incrédula

E eis um conto que é mesmo muito mau. Francamente mal escrito, com deficiências no português tão gritantes que até um «benefício que oferece-mos a nós» cá se encontra, este texto de Marta Alexandra Baptista Pinto da Silva nem na história encontra alguma salvação, porque a A Primeira Aparição da Deusa Agima a Vitória, a Incrédula (bibiografia) pouco mais é que uma divagação umbiguista pretensiosa, com um enredo fantástico algo ténue e pretensões a texto filosófico-teológico. Tudo péssimo ao ponto de se tornar ridículo.

Só não digo desde já que este é o pior conto que se encontra nesta antologia porque ainda não os li a todos.

Textos anteriores deste livro:

Bill Pronzini: Gato

Embora a metáfora mais comum para os géneros literários seja a de caixinhas dentro das quais as obras se enfiam e de onde não podem extravasar sob pena de já não pertencerem ao género, eu sempre a achei muito desadequada, porque implica que uma obra x é necessariamente coisa unidimensional e sempre achei a realidade bastante mais complicada do que isso. Para mim, uma obra relaciona-se com os géneros como um borrão se relaciona com a quadrícula numa folha de papel quadriculado: pode ocupar principalmente um determinado quadrado, e por isso se diz que é uma obra do género x ou y, mas estende-se quase sempre também por géneros próximos e por vezes há até um pingo que salta e vai cair noutro quadrado bem afastado.

E se há obras e autores que tentam conter-se em quadrados específicos, outros existem que parecem apostados em marcar presença no máximo possível de quadrados. Não sei se é o caso de Bill Pronzini, autor que nunca antes tinha lido. Mas é o caso deste Gato (bibliografia).

O que ficou dito acima, no entanto, não significa que a densidade do borrão não seja maior nuns géneros do que noutros. Gato é sobretudo um conto irónico de horror, apesar de ter elementos de ficção científica e de fantasia, através sobretudo de referências a histórias de diversos autores mas em particular de Fredric Brown. A história é bastante simples: um homem, que só queria ficar sossegado a ler ficção científica, depara com um gato em sua casa e, por mais que faça, não consegue ver-se livre dele. É que o gato aparece e desaparece, aparentemente a seu bel-prazer, o que deixa o desgraçado do protagonista paranoico primeiro, desesperado depois e por fim meio enlouquecido.

E é também uma homenagem, quer aos géneros fantásticos, quer aos seus autores, pelo menos a alguns, citados no texto. Especialmente Brown. É daqueles contos autorreferenciais de que muita gente de género gosta muito mas a que eu tendo a torcer um pouco o nariz porque quanto mais autorreferencial é um género mais críptico tende a tornar-se para quem está de fora, e todos os leitores começam por estar de fora, o que tem consequências que me parecem óbvias e negativas. Mas, se a autorreferencialidade for usada com conta, peso e medida, e se as histórias não dependerem dela para fazer sentido, nada contra.

Não me parece que este seja um conto particularmente bom, mas é um conto interessante. E divertido, que a ironia se sobrepõe de forma clara ao horror.

Contos anteriores desta publicação:

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Leiturtugas da semana #54

Sim, o Artur Coelho ainda continua sozinho nas Leiturtugas. Mas esta semana é a última em isso acontece, que para a próxima haverá pelo menos mais um participante a arrancar o ano: eu. Dois livros englobáveis já estão lidos, falta apenas o tempo para escrever as opiniões.

Mas por enquanto, o Artur soma e segue, apresentando-nos desta vez uma opinião sobre um livro infantil de Álvaro Cunhal. Sim, esse Álvaro Cunhal. Intitulado O Burro Tinha Razão e publicado pela Página a Página, o livro não tem FC, pelo que o Artur sobe esta semana a 1c4s.

E por agora é só. Até para a semana. Vêm aí coisas interessantes.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Teolinda Gersão: A Árvore das Palavras

E para terminar o volume, um excerto de romance bastante curto, de Teolinda Gersão, outra autora que eu nunca tinha lido. Intitulado A Árvore das Palavras, como o romance de que é retirado, este excerto não funciona lá muito bem como conto mas parece dar bastante bem o tom do romance. É uma prosa bastante poética mas com bom gosto, a fazer lembrar um pouco Lídia Jorge ou Mia Couto, carregada com uma atmosfera nostálgica e, talvez por isso, cheia de magia. Mas não é particularmente memorável, talvez por ser tão curto — menos de 10 páginas.

O tom parece ser de realismo mágico, ainda que num excerto tão curto seja difícil ter certezas — pode tratar-se apenas de arroubo poético. Mas não creio — e a história parece situar-se algures em África. Não dá para perceber muito mais do que isso: o excerto é sobretudo uma descrição de ambientes e personagens. Bastante colorida, diga-se. Apetece ler o resto, ao contrário do que acontece com alguns dos outros excertos; nisso, este é inteiramente bem sucedido porque a ideia de toda a antologia é precisamente essa. Um dia lerei mais Teolinda Gersão. Olhando para as pilhas de livros que me rodeiam, tenho de reconhecer que não será em breve. Mas será um dia.

Textos anteriores deste livro:

Michael Cisco: Doença do Arroz Claro

Mais uma história/doença com um título português que me parece decididamente pouco inspirado. É verdade que Doença do Arroz Claro (bibliografia) é uma tradução possível para o Clear Rice Sickness original, mas os grãos de arroz são brancos, bolas. Não há nada mais claro que o branco. E o arroz, na verdade não é claro, é translúcido.

E é precisamente essa a doença criada por Michael Cisco: uma estranha metamorfose mediada por um parasita que contamina o arroz e torna invisíveis as vítimas que ingerem arroz contaminado. O arroz translúcido a que o título se refere.

Há neste continho algum diálogo com O Homem Invisível do Wells, necessariamente escasso dada a pequena extensão do conto de Cisco, o que o situa em territórios bastante típicos da weird fiction — de resto, é esse o território de toda a antologia, mesmo que por vezes os contos fujam um pouco dele — um género híbrido com elementos de horror, fantasia/fantástico e FC. Nesta historinha há as três coisas, e ela até conta uma história, a da descoberta da doença, pelo que pertence ao grupo de contos que, entre os pseudofactuais, mais me agradam.

Textos anteriores deste livro:

Capitolina: Não Jogue com a Morte

Mais uma autora brasileira, esta Capitolina. E mais um conto com elementos de ficção científica, este Não Jogue com a Morte (bibliografia), ainda que a FC que aqui se encontra seja absolutamente anacrónica, fazendo lembrar mais o Frankenstein da Mary Shelley (apesar de não ser precisamente aí que se inspira; tem mais a ver com o Homem Invisível do Wells) do que qualquer ficção científica produzida de há coisa um século para cá.

É uma daquelas histórias vitorianas, de cientista mais ou menos enlouquecido, que, sozinho ou escassamente acompanhado, inventa uma fórmula para alcançar um milagre científico qualquer. Neste caso, é a ressurreição. E claro que as coisas correm horrivelmente mal.

Não é mau, o conto. Cabe bem no espaço que a autora decidiu usar, não há erros grosseiros no português, etc. Mas é anacrónico. E muito cliché. Custa-me perceber o que leva alguns autores a repetirem fórmulas criadas há cento e tal anos, ignorando tudo o que se produziu entretanto (incluindo muitos pastiches dos velhos clássicos) e correndo assim o risco de se limitarem a repetir coisas já feitas muitas vezes. Eu, esta, já tinha visto até num filme.

Talvez simplesmente desconheçam o que se produziu no último século?...

Textos anteriores deste livro: