Não há nada de literal no título deste conto. Não há no conto princesas, muito menos encantadas. Tampouco há algum sinal de fantástico, seja ele qual for. José Viale Moutinho elabora um conto realista, sobre um momento na história portuguesa em que uma série de revoltas contra a ditadura abala vários pontos do país, incluindo a Madeira que serve de cenário para este texto, e que, provavelmente por falta de preparação e união, acabam derrotadas, acabando Salazar por servir-se delas para solidificar o seu poder. Assim sendo, porque lhe chamou Moutinho A Princesa Encantada? Bem...
Especulando, creio que a princesa encantada a que o título faz referência é a liberdade. A liberdade sonhada mas em grande medida inacessível, não só mas também porque o protagonista da história não arranja à última hora a coragem necessária para lutar por ela. Ou simplesmente não vê como, talvez. Sim, que Moutinho não conta propriamente a história das revoltas, mas sim uma história íntima, sobre o olhar limitado do seu protagonista sobre o que está a acontecer, um olhar que primeiro vem embebido de esperança e medo e depois de desilusão e resignação.
Sim, é bom, este conto. Mas é um conto desencantado, pouco esperançado, sobre alguém que se vê ultrapassado pelos acontecimentos e cruza os braços, acobarda-se, nada faz. Conhecemos bem as consequências, todos os 48 anos delas. Daí que após a leitura fique um certo incómodo. Uma insatisfação. Mas, como o protagonista da história, nada podemos fazer. Ela está escrita. É o que é.
Contos anteriores deste livro:
A Lâmpada Mágica
Um blogue de candeias às avessas, para agitar o conteúdo das vossas cabeças
sexta-feira, 12 de novembro de 2021
André Alves: A Faca (#leiturtugas)
Olha... também gostei deste.
Não que tenha gostado muito. Há nele alguns detalhes (um português eficaz mas não perfeito, uma pegada demasiado juvenil nos diálogos e na construção de personagens, alguma desadequação do resultado à ambição, etc.) que não deixaram. Mas este conto de André Alves é sofisticado o suficiente para sustentar o interesse da leitura até ao fim e para evitar tornar-se previsível. Bem retrabalhado, poderia tornar-se realmente muito bom.
Como o título de A Faca leva a suspeitar, tudo gira em torno de uma faca. Uma faca ensanguentada e um cadáver, mais precisamente, mas a coisa torna-se complexa quando o cadáver aparece ao protagonista vivinho da Silva e incólume, o que o deixa mais perturbado ainda porque tinha sido ele a matá-lo uma hora antes. Mas pelos vistos não. Ou será que sim?
E o conto vai por aí fora, numa espécie de terror onírico com uns toques de ficção científica (universos paralelos ligados por portais? será?), levando repetidamente o triângulo amoroso que lhe está na base a consequências trágicas. E o assassino, aparentemente impenitente, a repetir a façanha, ainda que de formas diferentes.
Não sei se o André Alves conhece, muito menos se teve alguma influência vinda daí, mas esta sua história fez-me lembrar um pouco o excelente livro de Alfred Bester O Homem Demolido. Pesem embora as grandes diferenças, há nas duas histórias a mesma base num crime (ou em vários), há a mesma sensação paranoica de que qualquer coisa no mundo está profundamente errada, há a mesma confusão em grande medida impotente, etc. Claro que o romance é bastante melhor, mas a comparação é elogiosa. Este é um conto com verdadeiro interesse.
Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.
Não que tenha gostado muito. Há nele alguns detalhes (um português eficaz mas não perfeito, uma pegada demasiado juvenil nos diálogos e na construção de personagens, alguma desadequação do resultado à ambição, etc.) que não deixaram. Mas este conto de André Alves é sofisticado o suficiente para sustentar o interesse da leitura até ao fim e para evitar tornar-se previsível. Bem retrabalhado, poderia tornar-se realmente muito bom.
Como o título de A Faca leva a suspeitar, tudo gira em torno de uma faca. Uma faca ensanguentada e um cadáver, mais precisamente, mas a coisa torna-se complexa quando o cadáver aparece ao protagonista vivinho da Silva e incólume, o que o deixa mais perturbado ainda porque tinha sido ele a matá-lo uma hora antes. Mas pelos vistos não. Ou será que sim?
E o conto vai por aí fora, numa espécie de terror onírico com uns toques de ficção científica (universos paralelos ligados por portais? será?), levando repetidamente o triângulo amoroso que lhe está na base a consequências trágicas. E o assassino, aparentemente impenitente, a repetir a façanha, ainda que de formas diferentes.
Não sei se o André Alves conhece, muito menos se teve alguma influência vinda daí, mas esta sua história fez-me lembrar um pouco o excelente livro de Alfred Bester O Homem Demolido. Pesem embora as grandes diferenças, há nas duas histórias a mesma base num crime (ou em vários), há a mesma sensação paranoica de que qualquer coisa no mundo está profundamente errada, há a mesma confusão em grande medida impotente, etc. Claro que o romance é bastante melhor, mas a comparação é elogiosa. Este é um conto com verdadeiro interesse.
Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.
quinta-feira, 11 de novembro de 2021
Irmãos Grimm: O Irmão Mascarrado do Demo
Alguém pediu mais uma variante do velho mito de Fausto? Não? Olha, temos aqui uma mesmo assim, em mais um conto que os Irmãos Grimm parecem ter alterado pouco relativamente ao conto original. Mas talvez seja um pouco abusivo chamar "variante" a este O Irmão Mascarrado do Demo, visto que se é verdade que os reflexos do mito faustiano se encontram aqui bem claros, não deixa de ser também verdade que esta história não segue propriamente o bem conhecido enredo da história de Fausto.
O protagonista é, de novo, à semelhança do conto Irmão Jovial, um soldado desmobilizado. Mas se o daquele conto encontra São Pedro, o deste depara com o Diabo na floresta e faz com ele um trato: sete anos ao serviço do demónio, cumprindo uma série de regras, e fica livre e com o suficiente para viver durante o resto da vida. E é dessas regras e das dificuldades que criam ao protagonista que o miolo do conto vive. No final, relata-se o que acontece ao soldado findo o período de servidão diabólica. Tudo de forma bastante breve, sem grande abundância de detalhes.
Longe de ser memorável — é raro que um conto com tantos elementos em comum com outros me fique na memória — este não deixa de ser um conto com o seu quê de curioso, sobretudo pelos traços de família que apresenta.
Contos anteriores deste livro:
O protagonista é, de novo, à semelhança do conto Irmão Jovial, um soldado desmobilizado. Mas se o daquele conto encontra São Pedro, o deste depara com o Diabo na floresta e faz com ele um trato: sete anos ao serviço do demónio, cumprindo uma série de regras, e fica livre e com o suficiente para viver durante o resto da vida. E é dessas regras e das dificuldades que criam ao protagonista que o miolo do conto vive. No final, relata-se o que acontece ao soldado findo o período de servidão diabólica. Tudo de forma bastante breve, sem grande abundância de detalhes.
Longe de ser memorável — é raro que um conto com tantos elementos em comum com outros me fique na memória — este não deixa de ser um conto com o seu quê de curioso, sobretudo pelos traços de família que apresenta.
Contos anteriores deste livro:
segunda-feira, 8 de novembro de 2021
Leiturtugas #127
Ainda vamos a tempo? Claro que sim. Vamos sempre a tempo. Até porque temos aqui mais uma listinha de Leiturtugas para vocês. Curtinha.
Para não variar, é inaugurada pelo Artur Coelho, que fala desta vez brevemente, com maior desenvolvimento noutro sítio como é seu costume quando comenta álbuns de BD, de uma edição muito recente d'A Seita/Comic Heart: o álbum Alma Mãe de Carlos Silva e Penim Loureiro. Como sabe quem cá costuma vir cheirar estas notas, o Artur já tem o ano cumprido.
E para variar, é fechada pelo gajo que escreve aqui na Lâmpada, Jorge Candeias de seu nome. Desta vez opinei sobre mais um dos contos do Fantasy & Co., este datado de 2015. O título é Os Historiadores, o autor é Ricardo Dias e o género é FC. Mais uma leitura com FC para mim, portanto, o que leva a sinalefa a 7c3s.
Ora, como esta semana voltou a não haver nada vindo dos oficiosos, estamos conversados até à próxima. Até lá.
Para não variar, é inaugurada pelo Artur Coelho, que fala desta vez brevemente, com maior desenvolvimento noutro sítio como é seu costume quando comenta álbuns de BD, de uma edição muito recente d'A Seita/Comic Heart: o álbum Alma Mãe de Carlos Silva e Penim Loureiro. Como sabe quem cá costuma vir cheirar estas notas, o Artur já tem o ano cumprido.
E para variar, é fechada pelo gajo que escreve aqui na Lâmpada, Jorge Candeias de seu nome. Desta vez opinei sobre mais um dos contos do Fantasy & Co., este datado de 2015. O título é Os Historiadores, o autor é Ricardo Dias e o género é FC. Mais uma leitura com FC para mim, portanto, o que leva a sinalefa a 7c3s.
Ora, como esta semana voltou a não haver nada vindo dos oficiosos, estamos conversados até à próxima. Até lá.
domingo, 7 de novembro de 2021
Escrita de outubro
Inaudito: outubro seguiu-se a setembro!
OK, isto é palermice, piadola tola. Mas não é só palermice. É que, de facto, o que escrevi em outubro vem em absoluto na sequência do que escrevi em setembro. Continuo a escrever o tal romance, que já se vai aproximando das dimensões mínimas de romance, as quarenta mil palavras da praxe, e a produção do mês foi semelhante à de setembro, só que em mais. Sim, acabámos de deixar para trás aquele que é, pelo menos até agora, o mês mais produtivo deste ano de 2021, ainda que continuemos longe da produção dos meses realmente produtivos de outros anos.
Ao todo foram pouco mais de 6 mil palavras novas, o que dá à volta de 18 páginas. Isso faz com que a produção do ano, apesar de tudo, se vá aproximando rapidamente das 100 páginas de ficção nova, o que não é particularmente bom mas também não é mau de todo. Eu sei, eu sei que os tipos do Nanowrimo despacham isso, ou mais do que isso, num mês. Mas eu não sou um dos tipos do Nanowrimo.
O futuro? Bem, estou outra vez numa daquelas fases em que não sei bem qual a melhor forma de fazer avançar a história, pelo que é possível que o ritmo abrande. E as obras no prédio (sim, outra vez!) não ajudam. Por outro lado, também é possível que resolva a coisa, as obras acabem e o ritmo acelere. Veremos no início de dezembro, não é?
Até lá.
Nuno Costa Santos: Quem Quer Mudar de Família?
E depois há destes contrastes. Este texto não podia ser mais diferente do anterior, praticamente em tudo.
Para começar, trata-se de um conto, não de uma espécie de ensaio. E trata-se de um conto no qual Nuno Costa Santos usa de exagero para melhor criticar uma determinada instituição: os concursos televisivos. Quem Quer Mudar de Família? é uma história fantástica na medida em que traz em si aquela espécie de hipérbole e também de alegoria que tão comuns são naquele fantástico de pés mais assentes na realidade, claramente baseada no concurso Quem Quer Ser Milionário?, mas com uma diferença: as perguntas que o apresentador faz ao concorrente são íntimas e têm a ver com a sua vida privada.
E o prémio é, está claro, mudar de família. Tudo composto com um voyeurismo que faz lembrar The Truman Show, ainda que não me pareça que Santos tivesse essa conexão em mente quando escreveu este texto. É possível que sim, até porque o conto é apenas quatro anos mais novo que o filme, mas não creio. Enfim, pouco importa. O que importa é que este é um bom conto: eficaz na crítica, divertido de uma forma corrosiva e bem escrito. Aprovado.
Textos anteriores desta publicação:
Para começar, trata-se de um conto, não de uma espécie de ensaio. E trata-se de um conto no qual Nuno Costa Santos usa de exagero para melhor criticar uma determinada instituição: os concursos televisivos. Quem Quer Mudar de Família? é uma história fantástica na medida em que traz em si aquela espécie de hipérbole e também de alegoria que tão comuns são naquele fantástico de pés mais assentes na realidade, claramente baseada no concurso Quem Quer Ser Milionário?, mas com uma diferença: as perguntas que o apresentador faz ao concorrente são íntimas e têm a ver com a sua vida privada.
E o prémio é, está claro, mudar de família. Tudo composto com um voyeurismo que faz lembrar The Truman Show, ainda que não me pareça que Santos tivesse essa conexão em mente quando escreveu este texto. É possível que sim, até porque o conto é apenas quatro anos mais novo que o filme, mas não creio. Enfim, pouco importa. O que importa é que este é um bom conto: eficaz na crítica, divertido de uma forma corrosiva e bem escrito. Aprovado.
Textos anteriores desta publicação:
sábado, 6 de novembro de 2021
Ricardo Dias: Os Historiadores (#leiturtugas)
Existe todo um subgénero na ficção científica que consiste em reinterpretar de forma tecnológica, frequentemente futurista, acontecimentos e personagens provenientes das mais variadas mitologias. É, de resto, uma ideia que não se resume à FC, pois também está na base de uma série de revisionismos pseudocientíficos, frequentemente de matriz racista (como ousam povos não brancos fazer coisas que os brancos não conseguem fazer?), entre os quais os mais conhecidos talvez sejam os Deuses Astronautas de von Däniken. Mas a FC fá-lo de uma forma incomparavelmente mais honesta; afinal de contas, quem chama ficção à ficção não está a tentar enganar ninguém.
É nesse subgénero que se insere este Os Historiadores. Neste conto, Ricardo Dias imagina uma nave capaz de viajar no tempo através de viagens no espaço, ideia que radica, obviamente, no conceito do tempo enquanto quarta dimensão de um universo tetradimensional, inerente às teorias de Einstein. Essa nave, apropriadamente chamada Star of Bethlehem, parte com uma missão: assistir ao nascimento de Jesus Cristo. E olhem, sabem que mais? Daqui em diante há SPOILERS.
A viagem, apadrinhada pelo Papa, não deixa de ser ao mesmo tempo polémica. É sempre polémico mexer-se nos dogmas, e quando existe a possibilidade de se assistir a uma verdade histórica diferente daquilo que os mitos defendem como verdade essa polémica só pode aumentar. É uma polémica de que Ricardo Dias não foge, o que é um ponto positivo, ainda que não a trate de forma particularmente convincente, sobretudo devido a uns diálogos que estão longe de serem os ideais.
Essa, na verdade, é a parte mais fraca de todo o conto. A outra face da moeda são as coisas que Dias faz bastante bem. A escolha do nome de Maria para a tripulante que mostra mais dúvidas quanto à missão, e depois vai levar ao seu desenlace através de atos nascidos de uma religiosidade atacada, é uma forma hábil de redirecionamento das atenções por forma a que o final acabe por ser surpreendente. E mesmo todos os indícios que vão sendo deixados de que a missão vai acabar por influenciar a história, que poderiam perfeitamente tê-la estragado, acabam por funcionar devido a esse redirecionamento e a essa surpresa.
Este é um conto entre o razoável mais e o bom. Com melhores diálogos seria claramente bom, com um português mais hábil (é competente mas pouco passa disso) poderia chegar ao muito bom. Mas mesmo assim está uns furos acima do que tenho lido nas publicações Fantasy & Co.
Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.
É nesse subgénero que se insere este Os Historiadores. Neste conto, Ricardo Dias imagina uma nave capaz de viajar no tempo através de viagens no espaço, ideia que radica, obviamente, no conceito do tempo enquanto quarta dimensão de um universo tetradimensional, inerente às teorias de Einstein. Essa nave, apropriadamente chamada Star of Bethlehem, parte com uma missão: assistir ao nascimento de Jesus Cristo. E olhem, sabem que mais? Daqui em diante há SPOILERS.
A viagem, apadrinhada pelo Papa, não deixa de ser ao mesmo tempo polémica. É sempre polémico mexer-se nos dogmas, e quando existe a possibilidade de se assistir a uma verdade histórica diferente daquilo que os mitos defendem como verdade essa polémica só pode aumentar. É uma polémica de que Ricardo Dias não foge, o que é um ponto positivo, ainda que não a trate de forma particularmente convincente, sobretudo devido a uns diálogos que estão longe de serem os ideais.
Essa, na verdade, é a parte mais fraca de todo o conto. A outra face da moeda são as coisas que Dias faz bastante bem. A escolha do nome de Maria para a tripulante que mostra mais dúvidas quanto à missão, e depois vai levar ao seu desenlace através de atos nascidos de uma religiosidade atacada, é uma forma hábil de redirecionamento das atenções por forma a que o final acabe por ser surpreendente. E mesmo todos os indícios que vão sendo deixados de que a missão vai acabar por influenciar a história, que poderiam perfeitamente tê-la estragado, acabam por funcionar devido a esse redirecionamento e a essa surpresa.
Este é um conto entre o razoável mais e o bom. Com melhores diálogos seria claramente bom, com um português mais hábil (é competente mas pouco passa disso) poderia chegar ao muito bom. Mas mesmo assim está uns furos acima do que tenho lido nas publicações Fantasy & Co.
Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.
segunda-feira, 1 de novembro de 2021
Ângelo Brea: Rosas de Admete
Não que este conto seja particularmente bom, que não é. Mas Angelo Brea tem aqui pelo menos o mérito de mostrar como é possível criar uma ficção que é puro infodump mas este não constitui o corpo estranho e frequentemente desagradável que se intromete em tantas histórias, muitas vezes de FC mas não só, fazendo em vez disso sentido no contexto da história que é contada.
Rosas de Admete é no essencial um depoimento. Algo que alguém escreveu, numa época de incerteza, para que pelo menos a sequência de acontecimentos que deram origem a essa incerteza ficasse registada para a posteridade. E é por isso que funciona enquanto conto: o texto é basicamente o que seria de esperar de um texto escrito por alguém com essas motivações, muito mais preocupado em contar uma história tal como a entende do que com qualquer coisa que tenha a ver com literatura. Assim, aqui não encontrarão diálogos ou personagens: encontrarão a história de como a humanidade encontrou num planeta distante os peculiares seres vivos a que chamou rosas de Admete, os efeitos que neles descobriu e as consequências que isso teve. Nada mais, nada menos.
E as explicações que Brea dá são, de uma forma geral, as que seria de esperar que alguém nessas circunstâncias desse. Eu talvez escrevesse este conto de uma forma algo diferente, deixando transparecer mais da personalidade do narrador, imprimindo ao seu depoimento um caráter mais emotivo e deixando cair umas pistas subtis aqui e ali sobre o que aconteceu. Mas Brea é da FC clássica, não costuma prender-se muito com a construção de personagens e não é muito de subtilezas, pelo que não esperava encontrar aqui nada disso como, de facto, não encontrei. Encontrei um infodump que funciona, e isso já é alguma coisa.
Contos anteriores deste livro:
Rosas de Admete é no essencial um depoimento. Algo que alguém escreveu, numa época de incerteza, para que pelo menos a sequência de acontecimentos que deram origem a essa incerteza ficasse registada para a posteridade. E é por isso que funciona enquanto conto: o texto é basicamente o que seria de esperar de um texto escrito por alguém com essas motivações, muito mais preocupado em contar uma história tal como a entende do que com qualquer coisa que tenha a ver com literatura. Assim, aqui não encontrarão diálogos ou personagens: encontrarão a história de como a humanidade encontrou num planeta distante os peculiares seres vivos a que chamou rosas de Admete, os efeitos que neles descobriu e as consequências que isso teve. Nada mais, nada menos.
E as explicações que Brea dá são, de uma forma geral, as que seria de esperar que alguém nessas circunstâncias desse. Eu talvez escrevesse este conto de uma forma algo diferente, deixando transparecer mais da personalidade do narrador, imprimindo ao seu depoimento um caráter mais emotivo e deixando cair umas pistas subtis aqui e ali sobre o que aconteceu. Mas Brea é da FC clássica, não costuma prender-se muito com a construção de personagens e não é muito de subtilezas, pelo que não esperava encontrar aqui nada disso como, de facto, não encontrei. Encontrei um infodump que funciona, e isso já é alguma coisa.
Contos anteriores deste livro:
Mário de Carvalho: Epílogo
Eis outro conto que já tinha lido quando tomei inicialmente contacto com estas histórias, na Antologia do Humor Português, e que comentei aqui. Continuo a pensar como pensei nessa altura, em geral: o conto é muito divertido e, se lido como denúncia, é magnífico. O curioso é que nesta segunda leitura já não me pareceu propriamente uma denúncia, apesar das personagens saírem a comentar, desapontadas, que o autor está a confundir género humano com Manuel Germano. Antes, parece-me que Mário de Carvalho é sincero no seu desejo de se integrar na tribo dos literatos e que sente o óbvio gozo que tem na escrita destas histórias como algo de que se deve envergonhar.
Olhando para o seu percurso posterior, só se confirma essa sinceridade. Aos dois volumes iniciais de contos seguem-se romances bastante mais ambiciosos (e julgo que bastante menos fantásticos), embora os contos continuem a aparecer com regularidade na sua bibliografia. Este Epílogo (bibliografia) é, assim, um epílogo para uma forma descontraída e imaginativa de estar na literatura. O epílogo de uma fase. E eu tenho pena de que assim seja, apesar de reconhecer que até compensou em termos de carreira. O intelectualoide português, como se sabe, é avesso à imaginação, especialmente quando temperada de humor. Com coisas destas, de facto, Mário de Carvalho não chegaria onde chegou.
Contos anteriores deste livro:
Olhando para o seu percurso posterior, só se confirma essa sinceridade. Aos dois volumes iniciais de contos seguem-se romances bastante mais ambiciosos (e julgo que bastante menos fantásticos), embora os contos continuem a aparecer com regularidade na sua bibliografia. Este Epílogo (bibliografia) é, assim, um epílogo para uma forma descontraída e imaginativa de estar na literatura. O epílogo de uma fase. E eu tenho pena de que assim seja, apesar de reconhecer que até compensou em termos de carreira. O intelectualoide português, como se sabe, é avesso à imaginação, especialmente quando temperada de humor. Com coisas destas, de facto, Mário de Carvalho não chegaria onde chegou.
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domingo, 31 de outubro de 2021
Leiturtugas #126
Então boas. Prontos para mais uma lista de Leiturtugas? Vamos lá.
É uma lista curta, das mais curtas que temos tido nos últimos tempos. Entre os participantes oficiais, arrancou com o Artur Coelho e a sua opinião sobre a antologia Na Imensidão do Universo, uma compilação de histórias de space opera publicada este ano pela Divergência. O Artur já tem os mínimos do ano cumpridos, pelo que não vale a pena continuar a fazer a sua contabilidade. Mas o livro é de FC.
E quanto a oficiais fechou com ele. Mas tivemos também duas participações oficiosas.
Tivemos a Anabela Risso a opinar sobre mais um livrinho infantil, uma fábula de Carlos Nuno Granja intitulada A Zanga das Letras Comadres. Publicado pela Opera Omnia em 2013, este é mais um livro sem qualquer cheiro a FC.
E tivemos também a Isabel Daires, que opinou sobre a coletânea de horror de Mafalda Santos Conta-me, Escuridão, uma edição da Suma de Letras datada deste ano. De novo, nada aqui existe de FC. Ambos estes blogues, de resto, aparecem com frequência nestas listas mas parecem fugir da FC portuguesa como o diabo da cruz.
De FC é o Sally, o meu livrinho, cujo sorteio fiz na antepenúltima destas notas e sobre o qual falei na última informando que ainda não tinha encontrado casa nova. Pois agora já encontrou: vai para casa da Inês Montenegro, onde espero que seja feliz. Parabéns para ela!
E estamos sem nada para sortear. Já sabem: se algum autor ou editor quiser colaborar nisto, venha falar comigo.
Quanto às Leiturtugas, voltam para a semana. Até lá.
É uma lista curta, das mais curtas que temos tido nos últimos tempos. Entre os participantes oficiais, arrancou com o Artur Coelho e a sua opinião sobre a antologia Na Imensidão do Universo, uma compilação de histórias de space opera publicada este ano pela Divergência. O Artur já tem os mínimos do ano cumpridos, pelo que não vale a pena continuar a fazer a sua contabilidade. Mas o livro é de FC.
E quanto a oficiais fechou com ele. Mas tivemos também duas participações oficiosas.
Tivemos a Anabela Risso a opinar sobre mais um livrinho infantil, uma fábula de Carlos Nuno Granja intitulada A Zanga das Letras Comadres. Publicado pela Opera Omnia em 2013, este é mais um livro sem qualquer cheiro a FC.
E tivemos também a Isabel Daires, que opinou sobre a coletânea de horror de Mafalda Santos Conta-me, Escuridão, uma edição da Suma de Letras datada deste ano. De novo, nada aqui existe de FC. Ambos estes blogues, de resto, aparecem com frequência nestas listas mas parecem fugir da FC portuguesa como o diabo da cruz.
De FC é o Sally, o meu livrinho, cujo sorteio fiz na antepenúltima destas notas e sobre o qual falei na última informando que ainda não tinha encontrado casa nova. Pois agora já encontrou: vai para casa da Inês Montenegro, onde espero que seja feliz. Parabéns para ela!
E estamos sem nada para sortear. Já sabem: se algum autor ou editor quiser colaborar nisto, venha falar comigo.
Quanto às Leiturtugas, voltam para a semana. Até lá.
Irmãos Grimm: O Espírito na Garrafa
Ai julgavam que as histórias sobre espíritos (ou génios) presos em garrafas (ou em lâmpadas mágicas) eram só coisa das Mil e Uma Noites, é? Que eram só histórias das arábias? Ná. A verdade é que quanto mais contos populares leio, e não me refiro só a estes alemães mas a todos, mais me convenço de que um bom quinhão destas históries têm muito pouco a ver com a cultura específica de um lugar específico e muito a ver com um fundo cultural comum que abrange vastas áreas do planeta. Afinal, desde os tempos mais distantes que os seres humanos deambulam pela grande área continental euroasiatico-africana, e com eles sempre viajaram as suas histórias. E sendo nós como somos, é fácil de ver que assim que surgisse algum rudimento de língua em comum começaria de imediato a surgir também a troca de histórias, lendas, anedotas, enfim, de tudo aquilo de que se compõe a literatura popular.
Não que este O Espírito na Garrafa seja uma simples variante da história de Aladino. Está até bastante longe de o ser. Mas tem vários elementos em comum, a começar, obviamente, pela entidade mágica fechada na garrafa, em tudo semelhante ao génio que só sai da lâmpada quando alguém a esfrega. Nesta história, que não parece ser daquelas que os Irmãos Grimm não alteraram de todo mas também não é das "reconstruídas" a partir de várias fontes, conta-se a história de como um filho de lenhador se transforma num médico rico e famoso (há até versões que a associam a Paracelso). Que tem isso a ver com espíritos em garrafas? Bem...
Tem porque o rapaz vai ajudar o pai para a floresta, de machado em riste, e a dada altura depara com uma voz que vem de dentro de uma árvore. Investigando, descobre a tal garrafa num buraco na árvore. E dentro desta está o tal espírito. Espírito esse que é maligno e tenta matá-lo assim que se vê livre, mas também é estúpido o suficiente para o rapaz o dominar com um truque simples. Vendo-se de novo encurralado, promete-lhe mundos e fundos caso seja libertado, e desta vez cumpre.
Não é dos melhores contos que se podem encontrar por aqui, mas já vi esta ideia retrabalhada em livros de fantasia, o que é um bom indicador de também não ser dos piores. A fantasia literária (e não só) tem vindo beber muito nestas águas mas não bebe em todas. Só nas que considera inspiradoras.
Contos anteriores deste livro:
Não que este O Espírito na Garrafa seja uma simples variante da história de Aladino. Está até bastante longe de o ser. Mas tem vários elementos em comum, a começar, obviamente, pela entidade mágica fechada na garrafa, em tudo semelhante ao génio que só sai da lâmpada quando alguém a esfrega. Nesta história, que não parece ser daquelas que os Irmãos Grimm não alteraram de todo mas também não é das "reconstruídas" a partir de várias fontes, conta-se a história de como um filho de lenhador se transforma num médico rico e famoso (há até versões que a associam a Paracelso). Que tem isso a ver com espíritos em garrafas? Bem...
Tem porque o rapaz vai ajudar o pai para a floresta, de machado em riste, e a dada altura depara com uma voz que vem de dentro de uma árvore. Investigando, descobre a tal garrafa num buraco na árvore. E dentro desta está o tal espírito. Espírito esse que é maligno e tenta matá-lo assim que se vê livre, mas também é estúpido o suficiente para o rapaz o dominar com um truque simples. Vendo-se de novo encurralado, promete-lhe mundos e fundos caso seja libertado, e desta vez cumpre.
Não é dos melhores contos que se podem encontrar por aqui, mas já vi esta ideia retrabalhada em livros de fantasia, o que é um bom indicador de também não ser dos piores. A fantasia literária (e não só) tem vindo beber muito nestas águas mas não bebe em todas. Só nas que considera inspiradoras.
Contos anteriores deste livro:
quarta-feira, 27 de outubro de 2021
Rainer Maria Rilke: A Fuga
Isto é engraçado. Levei anos a pegar neste livrinho, convencido (ou pelo menos com receio) de que as "histórias românticas" que o título alardeia fossem daquelas tragédias delicodoces e insuportavelmente sentimentalonas tão do agrado dos escritores do século XIX. Afinal, agora que o leio, descubro que não é nada disso. Preconceitos. São sempre uma bodega.
A Fuga, no entanto e a princípio, parece. Um casal de jovens, apaixonadíssimos e confrontados com resistências familiares, faz planos vagos de fugir de casa e partir para algures, juntos. Rainer Maria Rilke parece preparar-se para desenvolver um daqueles dramalhões de faca e alguidar, à moda antiga. Mas depois chega o momento de concretizar os planos, e a proverbial porca torce o rabo.
O rapaz descobre que os arroubos de paixão não resistem ao confronto com a destruição da vida que uma fuga daquelas originaria. Ao descobrir isso, descobre também que a paixão, se calhar, nem é tanta quanto isso. Que, em suma, assim que começa a pensar o romantismo perde para o pragmatismo. E vai tudo por água abaixo. Ou pelo contrário, talvez.
É um conto interessante, este. E, mais do que ser um conto romântico, é um conto que faz uma crítica ao romantismo.
Contos anteriores deste livro:
A Fuga, no entanto e a princípio, parece. Um casal de jovens, apaixonadíssimos e confrontados com resistências familiares, faz planos vagos de fugir de casa e partir para algures, juntos. Rainer Maria Rilke parece preparar-se para desenvolver um daqueles dramalhões de faca e alguidar, à moda antiga. Mas depois chega o momento de concretizar os planos, e a proverbial porca torce o rabo.
O rapaz descobre que os arroubos de paixão não resistem ao confronto com a destruição da vida que uma fuga daquelas originaria. Ao descobrir isso, descobre também que a paixão, se calhar, nem é tanta quanto isso. Que, em suma, assim que começa a pensar o romantismo perde para o pragmatismo. E vai tudo por água abaixo. Ou pelo contrário, talvez.
É um conto interessante, este. E, mais do que ser um conto romântico, é um conto que faz uma crítica ao romantismo.
Contos anteriores deste livro:
segunda-feira, 25 de outubro de 2021
Leiturtugas #125
E muito pouco tempo depois da anterior, aqui temos mais uma nota sobre Leiturtugas. Não foi ainda ao domingo, como é da praxe, mas foi à segunda-feira, que é quase a mesma coisa. Ahem.
Pois esta semana tivemos de tudo.
Tivemos participantes oficiais, começando, uma vez mais, pelo Artur Coelho, que publicou a sua opinião sobre mais um livro velhinho de ficção científica portuguesa: A. D. 2230, romance de Amílcar de Mascarenhas publicado em 1936 pela Parceria A. M. Pereira. Começa a aproximar-se do centenário, este livro. E o Artur passa assim a sinalefar 6c12s e cumpre os objetivos do projeto. A partir daqui é lucro.
Também tivemos uma opinião da Carla Ribeiro, desta feita sobre um daqueles livros infantojuvenis cheios de monstros e coisas horrendas. Com o título de A Criatura do Lago, escrito por Bruno Matos e ilustrado por Raquel Carrilho, suponho que seja basicamente um conto, publicado no mês passado pela Booksmile. Não tem é FC, aparentemente. A Carla passa assim a 3c11s.
O tal Jorge Candeias, que continuo sem fazer a mais pequena ideia de quem possa ser, apareceu a seguir com a sua opinião sobre mais um conto publicado em ebook pelo Fantasy & Co. Datado de 2014, O Caçador é de autoria de Pedro Pereira e trata-se de uma fantasia urbana com uns ecos de horror. FC? Nada. 5c3s para o gajo que opina.
Ah, mas calma que o gajo não se ficou por aí e opinou também sobre mais um conto publicado pelo Fantasy & Co. O Industrioso SL4V3 é de Ricardo Dias, data de 2015 e é uma história de FC, pelo que a sinalefa passa a 6c3s. E assim de repente faltam só três títulos para o objetivo ser cumprido. Vivam os contos, pá!
Quanto aos oficiosos, esta semana trouxe-nos dois:
A Daniela, cuja opinião sobre Ensaio Sobre o Dever, de Rute Simões Ribeiro, só me chegou agora apesar de ter sido publicada ainda em agosto. Bizarrias dos leitores RSS; são extremamente úteis mas às vezes destrambelham um bocadinho. Este livro é um romance distópico publicado em 2017 em edição da autora. Com FC, portanto.
E o Nuno Coelho, que desta vez opinou sobre Os Livros que Devoraram o Meu Pai, de Afonso Cruz, um livro publicado em 2010 pela Caminho que, tanto quanto eu saiba, não tem nenhum sinal de FC.
Para terminar, fica a notinha sobre ainda não termos ganhador do exemplar do Sally. A primeira publicação contactada não respondeu nas 48 horas da praxe, e a segunda está a meio do prazo. Vamos ver se no próximo domingo já cá poderemos revelar o feliz contemplado, como é de bom tom dizer-se. Até lá.
Pois esta semana tivemos de tudo.
Tivemos participantes oficiais, começando, uma vez mais, pelo Artur Coelho, que publicou a sua opinião sobre mais um livro velhinho de ficção científica portuguesa: A. D. 2230, romance de Amílcar de Mascarenhas publicado em 1936 pela Parceria A. M. Pereira. Começa a aproximar-se do centenário, este livro. E o Artur passa assim a sinalefar 6c12s e cumpre os objetivos do projeto. A partir daqui é lucro.
Também tivemos uma opinião da Carla Ribeiro, desta feita sobre um daqueles livros infantojuvenis cheios de monstros e coisas horrendas. Com o título de A Criatura do Lago, escrito por Bruno Matos e ilustrado por Raquel Carrilho, suponho que seja basicamente um conto, publicado no mês passado pela Booksmile. Não tem é FC, aparentemente. A Carla passa assim a 3c11s.
O tal Jorge Candeias, que continuo sem fazer a mais pequena ideia de quem possa ser, apareceu a seguir com a sua opinião sobre mais um conto publicado em ebook pelo Fantasy & Co. Datado de 2014, O Caçador é de autoria de Pedro Pereira e trata-se de uma fantasia urbana com uns ecos de horror. FC? Nada. 5c3s para o gajo que opina.
Ah, mas calma que o gajo não se ficou por aí e opinou também sobre mais um conto publicado pelo Fantasy & Co. O Industrioso SL4V3 é de Ricardo Dias, data de 2015 e é uma história de FC, pelo que a sinalefa passa a 6c3s. E assim de repente faltam só três títulos para o objetivo ser cumprido. Vivam os contos, pá!
Quanto aos oficiosos, esta semana trouxe-nos dois:
A Daniela, cuja opinião sobre Ensaio Sobre o Dever, de Rute Simões Ribeiro, só me chegou agora apesar de ter sido publicada ainda em agosto. Bizarrias dos leitores RSS; são extremamente úteis mas às vezes destrambelham um bocadinho. Este livro é um romance distópico publicado em 2017 em edição da autora. Com FC, portanto.
E o Nuno Coelho, que desta vez opinou sobre Os Livros que Devoraram o Meu Pai, de Afonso Cruz, um livro publicado em 2010 pela Caminho que, tanto quanto eu saiba, não tem nenhum sinal de FC.
Para terminar, fica a notinha sobre ainda não termos ganhador do exemplar do Sally. A primeira publicação contactada não respondeu nas 48 horas da praxe, e a segunda está a meio do prazo. Vamos ver se no próximo domingo já cá poderemos revelar o feliz contemplado, como é de bom tom dizer-se. Até lá.
domingo, 24 de outubro de 2021
Bob Kurosaka: Quem Pode, Faz
Nunca tinha lido nada de Bob Kurosaka e, olhando para a quantidade de coisas de sua autoria listadas no ISFDB, o mais certo é nunca mais o voltar a ler. É, ou era, daqueles autores bissextos, que raramente escrevem ou raramente publicam. E não é, realmente, grande coisa como escritor. Mas se tudo o que escreve for como este Quem Pode, Faz (bibliografia) tem pelo menos alguma piada.
Trata-se de uma história de fantasia mais ou menos urbana. Estamos numa sala de aula universitária, e um estudante contrafeito confronta o professor de matemática para que este lhe explique a utilidade da matéria. Acha que para ele, pelo menos, não tem nenhuma, visto que o rapaz tem um dom. É mágico. E quando o professor ironiza com as suas vistas curtas, resolve mostrar o que sabe fazer. Não contava era ter pela frente um adversário mais do que à altura.
Há nesta história uma ironia que vai muito além da superfície da narrativa. Uma ironia que toma como alvo os estudantes universitários e a sua autossuficiência nascida de ideias equivocadas sobre os conhecimentos que realmente adquiriram ou os talentos com que nasceram. E essa ironia tem piada. É a sua melhor qualidade. Porque de resto, é uma historinha banal, sem grandes motivos de interesse.
Conto anterior desta publicação:
Trata-se de uma história de fantasia mais ou menos urbana. Estamos numa sala de aula universitária, e um estudante contrafeito confronta o professor de matemática para que este lhe explique a utilidade da matéria. Acha que para ele, pelo menos, não tem nenhuma, visto que o rapaz tem um dom. É mágico. E quando o professor ironiza com as suas vistas curtas, resolve mostrar o que sabe fazer. Não contava era ter pela frente um adversário mais do que à altura.
Há nesta história uma ironia que vai muito além da superfície da narrativa. Uma ironia que toma como alvo os estudantes universitários e a sua autossuficiência nascida de ideias equivocadas sobre os conhecimentos que realmente adquiriram ou os talentos com que nasceram. E essa ironia tem piada. É a sua melhor qualidade. Porque de resto, é uma historinha banal, sem grandes motivos de interesse.
Conto anterior desta publicação:
Ricardo Dias: O Industrioso SL4V3 (#leiturtugas)
Ah. Este conto é bom.
Estamos num planeta distante, a bordo de uma nave de exploração, a Vasco da Gama, de onde algum tempo antes de nós, leitores, lá chegarmos, os tripulantes saíram a fim de explorarem o planeta, deixando O Industrioso SL4V3 a cuidar da manutenção e proteção da nave. SL4V3 é um robô, e Ricardo Dias consegue com a essa designação de conotações desagradáveis criar logo à partida um clima de inquietação e ameaça, que no entanto não se concretiza de imediato. E já sabem: vai haver SPOILERS.
Quer dizer, existe desde o início ameaça, mas não o tipo de ameaça que a designação agoira. Por algum motivo que SL4V3 não compreende, os nativos do planeta insistem em atacar a nave, que ele vai defendendo como pode, mas com eficácia. Os nativos, no entanto, parecem tão industriosos como SL4V3, ou talvez mais ainda, e não se detêm nem perante fortes baixas, insistindo, insistindo sempre. E o robô lá vai congeminando novos planos de defesa, tendo em conta as reservas cada vez mais reduzidas de que dispõe, sabendo que a continuar assim será só questão de tempo até ser derrotado. E a tripulação, por onde andará?
No fim percebemos por onde anda a tripulação, embora não fosse nada de que não se suspeitasse já. Dias, no entanto, faz bem a revelação, sem deixar as pistas tão óbvias que a tornem dececionante, mas também sem incorrer noutro erro bastante comum em autores pouco experientes (e mesmo em alguns experientes), o deus ex machina.
Com uma prosa que não é famosa mas é funcional, e com um enredo bem concebido, este é dos melhores contos que encontrei até agora no Fantasy & Co.
Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui
Estamos num planeta distante, a bordo de uma nave de exploração, a Vasco da Gama, de onde algum tempo antes de nós, leitores, lá chegarmos, os tripulantes saíram a fim de explorarem o planeta, deixando O Industrioso SL4V3 a cuidar da manutenção e proteção da nave. SL4V3 é um robô, e Ricardo Dias consegue com a essa designação de conotações desagradáveis criar logo à partida um clima de inquietação e ameaça, que no entanto não se concretiza de imediato. E já sabem: vai haver SPOILERS.
Quer dizer, existe desde o início ameaça, mas não o tipo de ameaça que a designação agoira. Por algum motivo que SL4V3 não compreende, os nativos do planeta insistem em atacar a nave, que ele vai defendendo como pode, mas com eficácia. Os nativos, no entanto, parecem tão industriosos como SL4V3, ou talvez mais ainda, e não se detêm nem perante fortes baixas, insistindo, insistindo sempre. E o robô lá vai congeminando novos planos de defesa, tendo em conta as reservas cada vez mais reduzidas de que dispõe, sabendo que a continuar assim será só questão de tempo até ser derrotado. E a tripulação, por onde andará?
No fim percebemos por onde anda a tripulação, embora não fosse nada de que não se suspeitasse já. Dias, no entanto, faz bem a revelação, sem deixar as pistas tão óbvias que a tornem dececionante, mas também sem incorrer noutro erro bastante comum em autores pouco experientes (e mesmo em alguns experientes), o deus ex machina.
Com uma prosa que não é famosa mas é funcional, e com um enredo bem concebido, este é dos melhores contos que encontrei até agora no Fantasy & Co.
Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui
sexta-feira, 22 de outubro de 2021
José Viale Moutinho: «Negra Sombra, Negra Sombra!»
Caraças! Que conto!
José Viale Moutinho leva-nos aqui à raia minhota e aos tempos da guerra civil espanhola, na época em que as tropas franquistas, já dominantes na Galiza, andam à caça de republicanos, reais ou imaginários, a fim de os prenderem, torturarem ou simplesmente assassinarem. Mas não nos leva diretamente; leva-nos através de cartas que um dos membros dos pelotões franquistas envia ao neto de uma das suas vítimas, não se percebe porquê. Ele, nas cartas, diz que é para pedir perdão, mas não parece lá muito. Há uma sombra bem negra sobre tudo, sim, como o título de «Negra Sombra, Negra Sombra!» (sim, com as aspas) bem indica.
A história é contada de modo episódico, entrecruzando-se o passado descrito pelas cartas com o presente, época em que o destinatário daquelas procura descobrir quem é o homem e o que há de verdade ou mentira no que lhe escreve. Pois as cartas são anónimas e enviadas de lugares diferentes, o que só adensa o mistério. E também há narrações de acontecimentos contemporâneos aos descritos nas cartas, mas vistos do lado de cá da fronteira, onde só chegam os ecos e os clarões dos tiros dados em Espanha e um ou outro galego fugido à guerra, sob o olhar atento da instituição que antecedeu a PIDE. O impacto do conto, no entanto, está todo na brutalidade franquista. Ou melhor, na mistura de brutalidade com a forma como o das cartas se pinta em jovem: um tipo normal que se deixa levar pela pressão de grupo e faz assim coisas imperdoáveis. E no fim, temos uma surpresa, que vistas bem as coisas não devia ser surpresa nenhuma.
Este é um conto muito bom. Mesmo muito bom. O melhor do livro até ao momento.
Contos anteriores deste livro:
José Viale Moutinho leva-nos aqui à raia minhota e aos tempos da guerra civil espanhola, na época em que as tropas franquistas, já dominantes na Galiza, andam à caça de republicanos, reais ou imaginários, a fim de os prenderem, torturarem ou simplesmente assassinarem. Mas não nos leva diretamente; leva-nos através de cartas que um dos membros dos pelotões franquistas envia ao neto de uma das suas vítimas, não se percebe porquê. Ele, nas cartas, diz que é para pedir perdão, mas não parece lá muito. Há uma sombra bem negra sobre tudo, sim, como o título de «Negra Sombra, Negra Sombra!» (sim, com as aspas) bem indica.
A história é contada de modo episódico, entrecruzando-se o passado descrito pelas cartas com o presente, época em que o destinatário daquelas procura descobrir quem é o homem e o que há de verdade ou mentira no que lhe escreve. Pois as cartas são anónimas e enviadas de lugares diferentes, o que só adensa o mistério. E também há narrações de acontecimentos contemporâneos aos descritos nas cartas, mas vistos do lado de cá da fronteira, onde só chegam os ecos e os clarões dos tiros dados em Espanha e um ou outro galego fugido à guerra, sob o olhar atento da instituição que antecedeu a PIDE. O impacto do conto, no entanto, está todo na brutalidade franquista. Ou melhor, na mistura de brutalidade com a forma como o das cartas se pinta em jovem: um tipo normal que se deixa levar pela pressão de grupo e faz assim coisas imperdoáveis. E no fim, temos uma surpresa, que vistas bem as coisas não devia ser surpresa nenhuma.
Este é um conto muito bom. Mesmo muito bom. O melhor do livro até ao momento.
Contos anteriores deste livro:
Pedro Pereira: O Caçador (#leiturtugas)
Sempre achei algo bizarras as histórias contadas em primeira pessoa nas quais o protagonista/narrador acaba por morrer. Especialmente quando são escritas no passado. Há nelas uma violação que sempre me pareceu um bom bocado grosseira de uns quantos princípios de verosimilhança necessários para a suspensão da descrença indispensável para desfrutar de uma obra de ficção. Afinal, quem narra? O morto? E como é que o morto narra, exatamente? Hm?
Não que seja impossível fazê-las bem; há uns truques que, se bem aplicados, até resultam. Mas na generalidade dos casos os autores não usam esses truques e a coisa fica presa numa espécie de uncanny valley de onde não consegue sair.
E sim, se já supõem o que aí vem o mais certo é terem acertado. Pedro Pereira não usou esses truques. E a consequência é a primeira parte de O Caçador cair nesse uncanny valley, o que só é exacerbado pela mudança de ponto de vista na segunda parte. Compreende-se bem o que ele pretendeu fazer, mas o resultado é... bizarro. Sim, a palavra é essa. Bizarro. Atenção que vêm SPOILERS.
Na primeira parte do conto estamos em plena perseguição, na pele (porque a narração é em primeira pessoa, lá está) do perseguido. Parece-nos homem, sentimo-lo como homem, comiseramos com ele por ser homem. Mais bem escrito do que está, este trecho podia até ser bom, uma vez que Pedro Pereira até consegue criar alguma intensidade narrativa... até que o narrador morre e entramos no tal vale de que falo acima. Quem diabo narrou aquilo, afinal? E como?
Na segunda parte, muito curta, mudamos para a pele do caçador... e passamos, incongruentemente, a uma narrativa em terceira pessoa. Esta parte, na verdade, serve exclusivamente como final surpresa, para virar do avesso as expetativas do leitor. O caçado, afinal, não é um homem a ser perseguido por um monstro, mas um monstro a ser perseguido por um homem. É esta a ideia que o autor teve para o conto, e sem a bizarria anterior até talvez funcionasse. Mas como está, não funciona. É pena.
Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.
Não que seja impossível fazê-las bem; há uns truques que, se bem aplicados, até resultam. Mas na generalidade dos casos os autores não usam esses truques e a coisa fica presa numa espécie de uncanny valley de onde não consegue sair.
E sim, se já supõem o que aí vem o mais certo é terem acertado. Pedro Pereira não usou esses truques. E a consequência é a primeira parte de O Caçador cair nesse uncanny valley, o que só é exacerbado pela mudança de ponto de vista na segunda parte. Compreende-se bem o que ele pretendeu fazer, mas o resultado é... bizarro. Sim, a palavra é essa. Bizarro. Atenção que vêm SPOILERS.
Na primeira parte do conto estamos em plena perseguição, na pele (porque a narração é em primeira pessoa, lá está) do perseguido. Parece-nos homem, sentimo-lo como homem, comiseramos com ele por ser homem. Mais bem escrito do que está, este trecho podia até ser bom, uma vez que Pedro Pereira até consegue criar alguma intensidade narrativa... até que o narrador morre e entramos no tal vale de que falo acima. Quem diabo narrou aquilo, afinal? E como?
Na segunda parte, muito curta, mudamos para a pele do caçador... e passamos, incongruentemente, a uma narrativa em terceira pessoa. Esta parte, na verdade, serve exclusivamente como final surpresa, para virar do avesso as expetativas do leitor. O caçado, afinal, não é um homem a ser perseguido por um monstro, mas um monstro a ser perseguido por um homem. É esta a ideia que o autor teve para o conto, e sem a bizarria anterior até talvez funcionasse. Mas como está, não funciona. É pena.
Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.
Leiturtugas #124
Bem... isto desta vez atrasou bué. É esse o termo técnico: bué. Mas finjamos que não aconteceu, pelo menos até chegar o momento de explicar porquê, e façamos o post como habitualmente, referindo-se apenas à semana propriamente dita e não aos (muitos) dias que decorreram desde domingo.
Eis uma semana de Leiturtugas diferente. Porquê? Porque temos vídeo. E sorteio.
Mas antes, temos também aquilo que mais importa, as leiturtugas propriamente ditas. Chegam-nos pela mão do Artur Coelho, que prossegue o seu mergulho na obra de Altino do Tojal, opinando desta vez sobre Viagem a Ver o que Dá, romance fantástico publicado em 1993 pela Dom Quixote. Sem FC, o Artur passa assim a 5c12s.
E chegam-nos também pela mão da Carla Ribeiro, que desta feita nos fala de BD. O livro intitula-se Alma Mãe, primeiro volume da série Umbigo do Mundo, e os autores são Penim Loureiro e Carlos Silva. Edição deste ano d'A Seita e, sendo BD, conta como "sem FC". A Carla passa assim a 3c10s.
E chegam-nos também pela mão de um gajo que tem andado muito desaparecido, um tal Jorge Candeias, não sei se estão a ver quem é. Pois esta semana houve uma pequena desforra, com o aparecimento não de um post relativo às Leiturtugas, não de dois, mas de três.
Em dias sucessivos, falei aqui de três contos publicados pela Fantasy & Co. O primeiro é de autoria de Ricardo Dias, intitula-se Icarus Blues e é um conto de FC publicado em 2015. O segundo é de Pedro Pereira, data de 2013, e é um conto fantástico intitulado O Acordo. E o terceiro, também de Pedro Pereira e também de 2015, é outra história de FC, esta intitulada O Artefacto. Duas histórias com FC e uma sem, o que me leva à sinalefa de 5c2s.
E foi tudo o que aconteceu na semana. Tem sido bastante comum haver semanas só com participações oficiosas, mas acho que é a primeira vez que temos uma só com oficiais, desde que comecei a incluir os outros nestes posts, naturalmente.
Mas vamos aos outros. Temos um vídeo para mostrar. Cá está ele:
Este vídeo é o motivo do atraso deste post. É que não queria publicá-lo sem ter o sorteio do Sally feito, e esta semana tive enorme dificuldade em conjugar os momentos em que estava disponível para gravar isto com aqueles em que havia aqui à volta o sossego necessário para a gravação. Não é por acaso que o vídeo começa com "bom, vamos lá a ver se é desta": fiz várias tentativas, só conseguindo ser interrompido em todas. Ou quase todas. Grumpf.
Mas pronto, lá se fez. Agora vou contactar quem ficou em primeiro, a Despenteada, e se ela não quiser o livro (ou se não responder até domingo) passo à próxima e assim sucessivamente até alguém o querer. Se caírem aqui sem saberem o que raio é isto, está tudo explicado no último post. Onde também está uma fotografia do Sally, para quem não sabe o que é.
E pronto, já está. Retomaremos a programação normal no próximo domingo.
Espero eu.
Eis uma semana de Leiturtugas diferente. Porquê? Porque temos vídeo. E sorteio.
Mas antes, temos também aquilo que mais importa, as leiturtugas propriamente ditas. Chegam-nos pela mão do Artur Coelho, que prossegue o seu mergulho na obra de Altino do Tojal, opinando desta vez sobre Viagem a Ver o que Dá, romance fantástico publicado em 1993 pela Dom Quixote. Sem FC, o Artur passa assim a 5c12s.
E chegam-nos também pela mão da Carla Ribeiro, que desta feita nos fala de BD. O livro intitula-se Alma Mãe, primeiro volume da série Umbigo do Mundo, e os autores são Penim Loureiro e Carlos Silva. Edição deste ano d'A Seita e, sendo BD, conta como "sem FC". A Carla passa assim a 3c10s.
E chegam-nos também pela mão de um gajo que tem andado muito desaparecido, um tal Jorge Candeias, não sei se estão a ver quem é. Pois esta semana houve uma pequena desforra, com o aparecimento não de um post relativo às Leiturtugas, não de dois, mas de três.
Em dias sucessivos, falei aqui de três contos publicados pela Fantasy & Co. O primeiro é de autoria de Ricardo Dias, intitula-se Icarus Blues e é um conto de FC publicado em 2015. O segundo é de Pedro Pereira, data de 2013, e é um conto fantástico intitulado O Acordo. E o terceiro, também de Pedro Pereira e também de 2015, é outra história de FC, esta intitulada O Artefacto. Duas histórias com FC e uma sem, o que me leva à sinalefa de 5c2s.
E foi tudo o que aconteceu na semana. Tem sido bastante comum haver semanas só com participações oficiosas, mas acho que é a primeira vez que temos uma só com oficiais, desde que comecei a incluir os outros nestes posts, naturalmente.
Mas vamos aos outros. Temos um vídeo para mostrar. Cá está ele:
Este vídeo é o motivo do atraso deste post. É que não queria publicá-lo sem ter o sorteio do Sally feito, e esta semana tive enorme dificuldade em conjugar os momentos em que estava disponível para gravar isto com aqueles em que havia aqui à volta o sossego necessário para a gravação. Não é por acaso que o vídeo começa com "bom, vamos lá a ver se é desta": fiz várias tentativas, só conseguindo ser interrompido em todas. Ou quase todas. Grumpf.
Mas pronto, lá se fez. Agora vou contactar quem ficou em primeiro, a Despenteada, e se ela não quiser o livro (ou se não responder até domingo) passo à próxima e assim sucessivamente até alguém o querer. Se caírem aqui sem saberem o que raio é isto, está tudo explicado no último post. Onde também está uma fotografia do Sally, para quem não sabe o que é.
E pronto, já está. Retomaremos a programação normal no próximo domingo.
Espero eu.
domingo, 17 de outubro de 2021
Pedro Pereira: O Artefacto (#leiturtugas)
Este texto vem classificado como conto, mas não é um conto. Será porventura um primeiro capítulo de um texto mais extenso, o qual talvez nunca tenha sido escrito, mas conto, decididamente, não é. E isso é um problema.
Não sou, confesso, grande fã de finais em aberto. Principalmente porque acho difícil fazê-los bem. Um final, supostamente, deverá encerrar um arco de história, quando não encerra a história toda. E neste caso convém que o arco que encerra seja mais interessante do que aquele(s) que deixa em suspenso para que o leitor termine a leitura com alguma satisfação. Não sei se Pedro Pereira quis fazer isto (ou sequer se concorda comigo; pode ter outra opinião), mas se quis não conseguiu. Aquilo que fica em suspenso no final deste O Artefacto é bastante mais interessante do que o que se encerra.
O conto cheira a Star Wars por todo o lado. Num planeta habitado por uma espécie autóctone, os sakuki, há duas fações que procuram um certo artefacto de tecnologia avançada, produzido por uns tais inai. A protagonista é uma caçadora de prémios que é contratada para recuperar (i.e., roubar) o artefacto, mas acaba por descobrir ter-se metido em assuntos algo mais sérios do que julgava. E depois... não perca as cenas dos próximos capítulos.
E é pena a coisa ser assim cortada de forma tão incerimoniosa, porque aqui Pedro Pereira até conseguiu construir uma história com um ritmo interessante, pese embora o seu caráter altamente derivativo, e sem grandes fragilidades de escrita. Se fosse realmente um conto, esta história poderia ser significativamente melhor que as outras histórias suas que li até agora. Mas assim, a insatisfação que aquele final deixa para trás não permite que o seja.
Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.
Não sou, confesso, grande fã de finais em aberto. Principalmente porque acho difícil fazê-los bem. Um final, supostamente, deverá encerrar um arco de história, quando não encerra a história toda. E neste caso convém que o arco que encerra seja mais interessante do que aquele(s) que deixa em suspenso para que o leitor termine a leitura com alguma satisfação. Não sei se Pedro Pereira quis fazer isto (ou sequer se concorda comigo; pode ter outra opinião), mas se quis não conseguiu. Aquilo que fica em suspenso no final deste O Artefacto é bastante mais interessante do que o que se encerra.
O conto cheira a Star Wars por todo o lado. Num planeta habitado por uma espécie autóctone, os sakuki, há duas fações que procuram um certo artefacto de tecnologia avançada, produzido por uns tais inai. A protagonista é uma caçadora de prémios que é contratada para recuperar (i.e., roubar) o artefacto, mas acaba por descobrir ter-se metido em assuntos algo mais sérios do que julgava. E depois... não perca as cenas dos próximos capítulos.
E é pena a coisa ser assim cortada de forma tão incerimoniosa, porque aqui Pedro Pereira até conseguiu construir uma história com um ritmo interessante, pese embora o seu caráter altamente derivativo, e sem grandes fragilidades de escrita. Se fosse realmente um conto, esta história poderia ser significativamente melhor que as outras histórias suas que li até agora. Mas assim, a insatisfação que aquele final deixa para trás não permite que o seja.
Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.
Ângelo Brea: Por Causas Naturais
Começo dizendo que este conto é incomparavelmente melhor que o anterior, o que não o impede de ter os seus problemas. E são vários, mas o principal mal deste Por Causas Naturais, onde voltamos a encontrar um Ângelo Brea igual a si próprio, com tudo o que isso iimplica, é ser tão previsível. Que quero eu dizer com isto? Bem...
Estamos em Marte, nos primeiros tempos da colonização do planeta, uma fase em que vão chegando pessoas novas em cada nave que faz o trajeto vindo da Terra, mas ainda em número reduzido. Numa dessas naves chega uma mulher, e vem grávida. Um daqueles azares: embarcara sem se saber grávida e quando se apercebera era tarde demais. E Brea faz questão de sublinhar que a imprensa tem a mania de especular sobre quem será a primeira pessoa a morrer em Marte. E a nascer, também. E nesse momento, o leitor que não seja completamente tapado fica a saber o fim do conto.
Para chegarmos a esse final, Brea destaca a mulher num posto de comunicações, afastado da base principal. Por que motivo um posto de comunicações haveria de ficar longe da colónia? Não é explicado e, sem ser explicado, não faz qualquer sentido. É dos tais artifícios que são usados apenas para dar mais tensão ao enredo, mas que acabam por ter o efeito oposto, desgastando a verosimilhança. E não chega, pois o autor ainda tem de arranjar uma das tempestades de poeira que por vezes envolvem o planeta inteiro. E assim a mulher fica isolada na altura do parto, sem que se saiba bem que efeitos poderá ter o ambiente marciano no desenvolvimento do feto. Soa tudo muito a coisa forçada para se atingir um fim determinado, o que torna esse fim completamente previsível.
E quando se junta a isso aquelas características que já se esperam das prosas do autor, a FC escrita à moda antiga e um tom excessivamente didático em que as personagens explicam umas às outras coisas que ambas sabem porque Brea acha que os leitores não sabem, o resultado é mais um conto bastante fraco. Brea já mostrou que é capaz de muito melhor que isto.
Contos anteriores deste livro:
Estamos em Marte, nos primeiros tempos da colonização do planeta, uma fase em que vão chegando pessoas novas em cada nave que faz o trajeto vindo da Terra, mas ainda em número reduzido. Numa dessas naves chega uma mulher, e vem grávida. Um daqueles azares: embarcara sem se saber grávida e quando se apercebera era tarde demais. E Brea faz questão de sublinhar que a imprensa tem a mania de especular sobre quem será a primeira pessoa a morrer em Marte. E a nascer, também. E nesse momento, o leitor que não seja completamente tapado fica a saber o fim do conto.
Para chegarmos a esse final, Brea destaca a mulher num posto de comunicações, afastado da base principal. Por que motivo um posto de comunicações haveria de ficar longe da colónia? Não é explicado e, sem ser explicado, não faz qualquer sentido. É dos tais artifícios que são usados apenas para dar mais tensão ao enredo, mas que acabam por ter o efeito oposto, desgastando a verosimilhança. E não chega, pois o autor ainda tem de arranjar uma das tempestades de poeira que por vezes envolvem o planeta inteiro. E assim a mulher fica isolada na altura do parto, sem que se saiba bem que efeitos poderá ter o ambiente marciano no desenvolvimento do feto. Soa tudo muito a coisa forçada para se atingir um fim determinado, o que torna esse fim completamente previsível.
E quando se junta a isso aquelas características que já se esperam das prosas do autor, a FC escrita à moda antiga e um tom excessivamente didático em que as personagens explicam umas às outras coisas que ambas sabem porque Brea acha que os leitores não sabem, o resultado é mais um conto bastante fraco. Brea já mostrou que é capaz de muito melhor que isto.
Contos anteriores deste livro:
sábado, 16 de outubro de 2021
Pedro Pereira: O Acordo (#leiturtugas)
Existe um artifício narrativo que conheço pela sua designação inglesa, foreshadowing, mas julgo poder-se traduzir corretamente como "prefiguração", embora não saiba se é ou não essa a palavra usada pelos estudiosos da coisa literária quando escrevem em português. Consiste em antecipar elementos narrativos futuros, fornecer pistas ao leitor atento para o que está por vir. Pode ser extremamente eficaz em fornecer ao leitor aquela sensação satisfeita de "a-ha! Percebi-te!" Mas convém usá-lo com cautela: se a pista é demasiado óbvia é fácil destruir a surpresa e com ela a tensão narrativa, transformando a satisfação em aborrecimento.
E foi isso mesmo o que Pedro Pereira fez neste conto: deixou tudo tão óbvio que o final, que pretendia ser surpreendente, nada teve de surpresa.
O Acordo é um conto que vai beber profusamente ao velho e muito reutilizado mito de Fausto. O protagonista é um condenado à morte, segundo ele injustamente, e quando o Diabo lhe aparece com uma proposta que lhe poupa a vida ele não tem de pensar muito antes de aceitar. OK, já vimos centenas de coisas muito semelhantes. Mas o autor teve uma ideia que achou poder resgatar o conto do cliché, e resolveu fazer foreshadowing. Má ideia. O foreshadowing não funciona bem em textos tão curtos, porque uma coisa é dilui-lo no meio de uma floresta de outros factoides, outra bem diferente é pô-lo quase sozinho num conto que se lê em minutos. Fica tudo tão óbvio que dói, e a tentativa de foreshadowing transforma-se em mero spoiler. E sim, vêm aí spoilers. Que nem são propriamente spoilers, dado que o próprio autor os faz.
A questão é que o Diabo avisa o homem que lhe poupa a vida em troca da alma, trocando-o de corpo com alguém que está a assistir à execução. Todo o cenário é muito americano, sim; neste conto pouco há de português. Mas também o avisa de que o acordo só abrange esse momento; qualquer acidente que lhe possa acontecer depois está fora da alçada do combinado. E neste momento o leitor já sabe o que aí vem: o tipo vai sair vivo da cadeia mas pouco depois bate a bota num acidente qualquer. Óbvio, dolorosamente óbvio. E é precisamente o que acontece.
O resultado? Um conto com muito pouco interesse.
Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.
E foi isso mesmo o que Pedro Pereira fez neste conto: deixou tudo tão óbvio que o final, que pretendia ser surpreendente, nada teve de surpresa.
O Acordo é um conto que vai beber profusamente ao velho e muito reutilizado mito de Fausto. O protagonista é um condenado à morte, segundo ele injustamente, e quando o Diabo lhe aparece com uma proposta que lhe poupa a vida ele não tem de pensar muito antes de aceitar. OK, já vimos centenas de coisas muito semelhantes. Mas o autor teve uma ideia que achou poder resgatar o conto do cliché, e resolveu fazer foreshadowing. Má ideia. O foreshadowing não funciona bem em textos tão curtos, porque uma coisa é dilui-lo no meio de uma floresta de outros factoides, outra bem diferente é pô-lo quase sozinho num conto que se lê em minutos. Fica tudo tão óbvio que dói, e a tentativa de foreshadowing transforma-se em mero spoiler. E sim, vêm aí spoilers. Que nem são propriamente spoilers, dado que o próprio autor os faz.
A questão é que o Diabo avisa o homem que lhe poupa a vida em troca da alma, trocando-o de corpo com alguém que está a assistir à execução. Todo o cenário é muito americano, sim; neste conto pouco há de português. Mas também o avisa de que o acordo só abrange esse momento; qualquer acidente que lhe possa acontecer depois está fora da alçada do combinado. E neste momento o leitor já sabe o que aí vem: o tipo vai sair vivo da cadeia mas pouco depois bate a bota num acidente qualquer. Óbvio, dolorosamente óbvio. E é precisamente o que acontece.
O resultado? Um conto com muito pouco interesse.
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sexta-feira, 15 de outubro de 2021
Ricardo Dias: Icarus Blues (#leiturtugas)
É possível escrever histórias interessantes com base em clichés? Sem dúvida. Mas ajuda não exagerar na dose de cliché, usá-los com uma certa conta, peso e medida e arranjar motivos de interesse que ultrapassem o cliché. E escrever bem, já agora, também é bastante útil. E antes de avançarem mais, tomem lá um aviso: daqui em diante há SPOILERS com fartura.
Ricardo Dias parece ter-se inspirado no Toy Story para escrever este conto. Mais especificamente no personagem Buzz Lightyear, o intrépido (mas algo desastrado) astronauta, eternamente vestido com o seu ultrassofisticado fato espacial. O fato do protagonista desta história, Icarus de seu nome, é um fato desses, capaz até de viajar pelo hiperespaço entre planetas separados por muitos anos-luz.
E é o que faz, experimentalmente, mas um imprevisto desastroso faz com que o faça de forma precipitada. O resultado é ir parar a algum lugar desconhecido (e eu lembrei-me de todo um arco narrativo do Star Trek), onde é capturado por aliens. E sim, quando falo de aliens não estou simplesmente a falar de extraterrestres; falo dos tipos que, segundo as lendas urbanas, andam por aí e enfiar sondas retais nas pessoas e a raptar vacas. Enfim, tudo corre mal. Icarus Blues.
Mas claro, a coisa acaba por se resolver, graças a um étê que, à revelia dos outros étês, se alia ao prisioneiro humano. Já vimos este filme milhentas vezes, é só mais um cliché a juntar a todos os outros que, se fossem diluídos numa história mais longa, com outros elementos mais originais a afastar deles a atenção de quem lê, poderiam passar, mas sendo tantos numa história tão curta o resultado é uma densidade demasiado elevada para não saltarem à vista. E como o português não é propriamente perfeito, o resultado é um conto fraco.
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Ricardo Dias parece ter-se inspirado no Toy Story para escrever este conto. Mais especificamente no personagem Buzz Lightyear, o intrépido (mas algo desastrado) astronauta, eternamente vestido com o seu ultrassofisticado fato espacial. O fato do protagonista desta história, Icarus de seu nome, é um fato desses, capaz até de viajar pelo hiperespaço entre planetas separados por muitos anos-luz.
E é o que faz, experimentalmente, mas um imprevisto desastroso faz com que o faça de forma precipitada. O resultado é ir parar a algum lugar desconhecido (e eu lembrei-me de todo um arco narrativo do Star Trek), onde é capturado por aliens. E sim, quando falo de aliens não estou simplesmente a falar de extraterrestres; falo dos tipos que, segundo as lendas urbanas, andam por aí e enfiar sondas retais nas pessoas e a raptar vacas. Enfim, tudo corre mal. Icarus Blues.
Mas claro, a coisa acaba por se resolver, graças a um étê que, à revelia dos outros étês, se alia ao prisioneiro humano. Já vimos este filme milhentas vezes, é só mais um cliché a juntar a todos os outros que, se fossem diluídos numa história mais longa, com outros elementos mais originais a afastar deles a atenção de quem lê, poderiam passar, mas sendo tantos numa história tão curta o resultado é uma densidade demasiado elevada para não saltarem à vista. E como o português não é propriamente perfeito, o resultado é um conto fraco.
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quinta-feira, 14 de outubro de 2021
Lloyd Biggle Jr.: Maneira Doida de Lecionar
Uma das coisas a que mais graça sempre achei naquela conversa habitual de "isso é só ficção científica" proferida por quem pretende dizer que a ideia é coisa descabelada, sem pés nem cabeça, que só mesmo num livro de FC poderia encontrar cabimento, é lembrar-me das milhentas ocasiões em que coisas que eram "só ficção científica" se transformaram passado algum tempo em realidade pura e dura, apanhando, invariavelmente, as pessoas que assim falam completamente de surpresa. Ainda recentemente tivemos uma surpresa desse género, englobando o planeta inteiro, quando a pandemia obrigou a medidas drásticas de contenção. E no entanto, ninguém parece ter-se dado conta de quão insensata essa conversa de "é só FC" realmente é, nem o género pareceu ter ganho mais um pouco de respeito ao ver-se repentinamente no centro da realidade quotidiana de um planeta inteiro. Acho isto francamente bizarro. Mas é só mais uma bizarria no meio de tantas outras.
Também sempre achei muita graça a uma outra conversa que não é por ser desmentida, literalmente, todos os dias que deixa de ressurgir com regularidade: a de que a arte (ou esse seu ramo que é a ficção científica) e a política não se misturam. Falo, evidentemente, da política propriamente dita, não do seu sucedâneo falsificado que é a politiquice partidária: a discussão sobre o que poderá ser melhor para a vida em sociedade destes macacos nus que somos.
Vem isto a propósito, obviamente, desta Maneira Doida de Lecionar (bibliografia), uma noveleta de ficção científica que Lloyd Biggle Jr. publicou no já longínquo ano de 1966. É uma daquelas histórias cautelares, desde sempre abundantes na FC, que pretendem alertar para os potenciais problemas que poderão surgir caso a sociedade futura decida seguir um determinado rumo. Que rumo? É aqui que vocês sorriem um pouco: o rumo é a educação das crianças à distância; elas em casa, os professores num estúdio de televisão.
Faz lembrar alguma coisa?
Pois é, passámos por isso durante este último ano de pandemia, e se calhar vamos voltar a passar durante o ano que começou há pouco, embora de forma mais limitada. E sim, parte dos efeitos para que Biggle alerta verificam-se, embora as coisas não sejam tão extremas como ele as apresenta. A história de Biggle insere-se naquela corrente, que já existe na FC pelo menos desde que ela chegou à modernidade com Frankenstein, que alerta contra a desumanização que pode advir da mecanização da sociedade, e entretanto aprendemos que os efeitos perversos das máquinas têm mais a ver com a revelação do pior que existe na humanidade do que com a desumanização propriamente dita.
A conjuntura deu a esta história um interesse acrescido; fazendo um pequeno exercício de imaginação e pensando em qual seria a minha opinião caso a tivesse lido antes da pandemia, concluo que não gostaria muito. Não me parece que esta seja uma história realmente boa. Biggle arranja uma professora "à antiga", que chega à Terra depois de uma carreira inteira a lecionar no sistema educativo de um Marte colonizado, indo deparar com um sistema completamente diferente daquele com que estava habituada. É um choque cultural dos grandes, mas claro que vai conseguir, sozinha, mudar tudo. Essa é uma das fragilidades da noveleta, mas não a única; há nela também uma certa superficialidade e simplismo no tratamento daquilo que envolve a educação, que pouco ultrapassa a dicotomia máquinas e televisão = mau, professores de carne e osso em sala de aula = bom. Mas sendo a conjuntura a que é, a leitura tornou-se interessante.
É das tais coisas: a leitura nunca se faz num vácuo e é sempre influenciada por aquilo que a rodeia, mesmo quando não nos damos conta disso.
Também sempre achei muita graça a uma outra conversa que não é por ser desmentida, literalmente, todos os dias que deixa de ressurgir com regularidade: a de que a arte (ou esse seu ramo que é a ficção científica) e a política não se misturam. Falo, evidentemente, da política propriamente dita, não do seu sucedâneo falsificado que é a politiquice partidária: a discussão sobre o que poderá ser melhor para a vida em sociedade destes macacos nus que somos.
Vem isto a propósito, obviamente, desta Maneira Doida de Lecionar (bibliografia), uma noveleta de ficção científica que Lloyd Biggle Jr. publicou no já longínquo ano de 1966. É uma daquelas histórias cautelares, desde sempre abundantes na FC, que pretendem alertar para os potenciais problemas que poderão surgir caso a sociedade futura decida seguir um determinado rumo. Que rumo? É aqui que vocês sorriem um pouco: o rumo é a educação das crianças à distância; elas em casa, os professores num estúdio de televisão.
Faz lembrar alguma coisa?
Pois é, passámos por isso durante este último ano de pandemia, e se calhar vamos voltar a passar durante o ano que começou há pouco, embora de forma mais limitada. E sim, parte dos efeitos para que Biggle alerta verificam-se, embora as coisas não sejam tão extremas como ele as apresenta. A história de Biggle insere-se naquela corrente, que já existe na FC pelo menos desde que ela chegou à modernidade com Frankenstein, que alerta contra a desumanização que pode advir da mecanização da sociedade, e entretanto aprendemos que os efeitos perversos das máquinas têm mais a ver com a revelação do pior que existe na humanidade do que com a desumanização propriamente dita.
A conjuntura deu a esta história um interesse acrescido; fazendo um pequeno exercício de imaginação e pensando em qual seria a minha opinião caso a tivesse lido antes da pandemia, concluo que não gostaria muito. Não me parece que esta seja uma história realmente boa. Biggle arranja uma professora "à antiga", que chega à Terra depois de uma carreira inteira a lecionar no sistema educativo de um Marte colonizado, indo deparar com um sistema completamente diferente daquele com que estava habituada. É um choque cultural dos grandes, mas claro que vai conseguir, sozinha, mudar tudo. Essa é uma das fragilidades da noveleta, mas não a única; há nela também uma certa superficialidade e simplismo no tratamento daquilo que envolve a educação, que pouco ultrapassa a dicotomia máquinas e televisão = mau, professores de carne e osso em sala de aula = bom. Mas sendo a conjuntura a que é, a leitura tornou-se interessante.
É das tais coisas: a leitura nunca se faz num vácuo e é sempre influenciada por aquilo que a rodeia, mesmo quando não nos damos conta disso.
Tammy Plotner: What's Up 2006
Desde miúdo que sinto vontade de arranjar algum instrumento ótico que me permita fazer um pouco de astronomia amadora, nem que fossem só uns binóculos. Foi uma vontade nunca concretizada, por vários motivos entre os quais avultam a falta de dinheiro e o facto de morar numa cidade costeira, sujeita a toda a poluição luminosa e à fraca visibilidade que viver junto ao mar, no meio de casas e de luzes urbanas, origina (e também ao facto de não me apetecer muito fazer expedições a Monchique para ver estrelas). Mas a altura em que esteve mais perto de se ver concretizada foi há cerca de 15 anos. Então, cheguei ao ponto de me andar a informar sobre os melhores instrumentos em termos de relação qualidade/preço para quem mora em lugares como o meu. E quase comprei uns binóculos. Quase.
O timing coincidiu com o lançamento deste livro por um site que eu frequentava quase todos os dias, o Universe Today. A versão que me veio parar às mãos, um PDF, foi disponibilizada pelo site previamente ao lançamento do livro físico, e é, claramente, uma versão preliminar, pois tem uma relativa abundância de gralhas e alguns erros de formatação que cortam um par de textos. A What's Up This Week era uma coluna regular que a Tammy Plotner tinha no site, destinada a astrónomos amadores, uma coisa descontraída com informação geral pouco aprofundada, sugestões e dicas de observação, e este What's Up 2006 é basicamente a mesma coisa, mas com um texto para cada dia do ano de 2006. A ideia era comprar os binóculos e depois usar o livro como referência para uns bocadinhos de noite divertidos a tentar descobrir umas coisas lá em cima. Não aconteceu. E o livro ficou esquecido nas catacumbas do meu disco rígido.
Recentemente, quando me pus a vasculhar o que tinha por cá para ser lido, voltei a encontrá-lo. E "folheei-o", e resolvi lê-lo. É que se é verdade que o grosso do livro se compõe de sugestões de observações a serem feitas pelos astrónomos amadores, e algumas dessas sugestões se referem a acontecimentos celestes específicos do ano de 2006 (pelo menos no que toca aos momentos em que acontecem; há uma série de coisas periódicas cujos períodos não correspondem ao ano terrestre), não é menos certo que Plotner acompanha as sugestões com informação menos específica, efemérides, notas anedóticas sobre este ou aquele acontecimento, descoberta ou personalidade, etc., e isso é interessante mesmo estes anos todos depois.
E outra coisa que é interessante é ser muito fácil de entrever, nas sugestões que ela faz e na forma como as faz, como é o hobby do astrónomo amador, como é a vida das pessoas que se dedicam a ele. Pelo menos nos Estados Unidos, embora eu imagine que noutros pontos do globo terá pelo menos muitos detalhes em comum, mesmo que não seja exatamente igual. Foram estas duas coisas que sustentaram o meu interesse por esta leitura, mesmo não sendo propriamente o seu público-alvo, em especial passados todos estes anos. Foi curioso ler isto.
E acabei de ir à procura e descobri que este livro já não está disponível no site. Parece ser daquelas edições cujo destino é perder-se no tempo. É pena.
O timing coincidiu com o lançamento deste livro por um site que eu frequentava quase todos os dias, o Universe Today. A versão que me veio parar às mãos, um PDF, foi disponibilizada pelo site previamente ao lançamento do livro físico, e é, claramente, uma versão preliminar, pois tem uma relativa abundância de gralhas e alguns erros de formatação que cortam um par de textos. A What's Up This Week era uma coluna regular que a Tammy Plotner tinha no site, destinada a astrónomos amadores, uma coisa descontraída com informação geral pouco aprofundada, sugestões e dicas de observação, e este What's Up 2006 é basicamente a mesma coisa, mas com um texto para cada dia do ano de 2006. A ideia era comprar os binóculos e depois usar o livro como referência para uns bocadinhos de noite divertidos a tentar descobrir umas coisas lá em cima. Não aconteceu. E o livro ficou esquecido nas catacumbas do meu disco rígido.
Recentemente, quando me pus a vasculhar o que tinha por cá para ser lido, voltei a encontrá-lo. E "folheei-o", e resolvi lê-lo. É que se é verdade que o grosso do livro se compõe de sugestões de observações a serem feitas pelos astrónomos amadores, e algumas dessas sugestões se referem a acontecimentos celestes específicos do ano de 2006 (pelo menos no que toca aos momentos em que acontecem; há uma série de coisas periódicas cujos períodos não correspondem ao ano terrestre), não é menos certo que Plotner acompanha as sugestões com informação menos específica, efemérides, notas anedóticas sobre este ou aquele acontecimento, descoberta ou personalidade, etc., e isso é interessante mesmo estes anos todos depois.
E outra coisa que é interessante é ser muito fácil de entrever, nas sugestões que ela faz e na forma como as faz, como é o hobby do astrónomo amador, como é a vida das pessoas que se dedicam a ele. Pelo menos nos Estados Unidos, embora eu imagine que noutros pontos do globo terá pelo menos muitos detalhes em comum, mesmo que não seja exatamente igual. Foram estas duas coisas que sustentaram o meu interesse por esta leitura, mesmo não sendo propriamente o seu público-alvo, em especial passados todos estes anos. Foi curioso ler isto.
E acabei de ir à procura e descobri que este livro já não está disponível no site. Parece ser daquelas edições cujo destino é perder-se no tempo. É pena.
quarta-feira, 13 de outubro de 2021
Mário de Carvalho: O Padre Alentejano
Pois que li este O Padre Alentejano (bibliografia), sim senhor, e agora quero um livro inteiro cheio das aventuras e desventuras e casos e descasos e desastres provocados pelo padre alentejano! Mas assim, tipo, já!
Mas claro que não vai acontecer. Mário de Carvalho há muito que partiu para outra, deixando para trás o Beco das Sardinheiras e os insólitos que lá se passam. Para ele, o padre alentejano será apenas mais um desses insólitos. Mas é pena, muita pena. É uma personagem e peras; bem desenvolvida dava pano para muitas mangas.
Pois que o padre alentejano aparece no Beco das Sardinheiras, recém-responsável pela paróquia do lugar, e perdoe-se-me o facto de me referir a ele sempre como vem no título mas Mário de Carvalho, que dá nome a quase toda a gente, resolveu não lhe dar nome algum. Ora acontece que o padre é um tipo estranho. É um padre inventor, passando mais tempo às voltas com experiências e criatividades de todos os tipos do que propriamente com as necessidades espirituais da paróquia. Não será o primeiro, e não só na ficção, mas é francamente engraçado porque as experiências que faz e as coisas que inventa tendem a ter efeitos secundários bastante imprevistos. E bastante destrutivos também. Tanto que acabam por correr com ele.
E para mim esta história ainda tem o bónus adicional de trazer um leve odor a ficção científica. É mesmo porreirinha, portanto. Soube-me a pouco, mas é mesmo, mesmo porreirinha.
Contos anteriores deste livro:
Mas claro que não vai acontecer. Mário de Carvalho há muito que partiu para outra, deixando para trás o Beco das Sardinheiras e os insólitos que lá se passam. Para ele, o padre alentejano será apenas mais um desses insólitos. Mas é pena, muita pena. É uma personagem e peras; bem desenvolvida dava pano para muitas mangas.
Pois que o padre alentejano aparece no Beco das Sardinheiras, recém-responsável pela paróquia do lugar, e perdoe-se-me o facto de me referir a ele sempre como vem no título mas Mário de Carvalho, que dá nome a quase toda a gente, resolveu não lhe dar nome algum. Ora acontece que o padre é um tipo estranho. É um padre inventor, passando mais tempo às voltas com experiências e criatividades de todos os tipos do que propriamente com as necessidades espirituais da paróquia. Não será o primeiro, e não só na ficção, mas é francamente engraçado porque as experiências que faz e as coisas que inventa tendem a ter efeitos secundários bastante imprevistos. E bastante destrutivos também. Tanto que acabam por correr com ele.
E para mim esta história ainda tem o bónus adicional de trazer um leve odor a ficção científica. É mesmo porreirinha, portanto. Soube-me a pouco, mas é mesmo, mesmo porreirinha.
Contos anteriores deste livro:
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