segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Anónimo: Uma Cronologia dos Publicadores do Guia

Neste livro, até os textos mais banais são pequenas obras de ficção cheias de detalhes curiosos, muitas vezes bem-humoradas, por vezes sarcásticas. É o caso deste Uma Cronologia dos Publicadores do Guia (bibliografia), uma vinhetazinha não assinada que, além de listar as várias empresas que teriam ido publicando o almanaque ao longo dos anos, lança várias ferroadas à indústria editorial, ou pelo menos às suas facetas mais duvidosas, não deixando também de troçar de algumas características culturais de lugares como a Índia ou a Califórnia.

Claro que é dos tais textos que nunca fariam sentido noutro livro qualquer e têm como objetivos apenas divertir e contribuir para contar a história subjacente a todas estas histórias e descrições de doenças: a história de Thackery T. Lambshead e do seu almanaque/guia. Mas faz bastante bem o que se propõe fazer.

Textos anteriores deste livro:

Leiturtugas #72

Peço desculpa pelo atraso, mas a vida às vezes passa rasteiras, a malta cai e o que sofre são coisas como as Leiturtugas. No caso, quem caiu foi a minha mãe, senhora com a respeitável idade de 90 anos e ossos a condizer, o que levou à quebra de um fémur. Está no hospital, isto tem andado um bocado caótico por causa disso e também por outro motivo bastante mais agradável (uma tradução para ontem), e este post atrasou-se.

E é possível que tudo o que rodeia as Leiturtugas continue a sofrer atrasos nos tempos mais próximos, que os dois motivos deste vão prolongar-se.

Mas enfim, tarda mas não falha e aqui está.

Esta semana começou com o Artur Coelho e mais uma das suas breves opiniões sobre BD, desenvolvidas mais detalhadamente noutro lado. Coube a vez ao álbum O Infante, de Daniela Viçoso, edição de 2015 da El Pep. Já sabem como é, não é? Sendo BD conta como sem FC, quer a tenha, quer não tenha, e o Artur passa a 5c10s.

Depois foi a vez da Cristina Alves, com mais uma opinião sobre um dos livros de contos de António Bizarro. Desta vez foi O Desejo e Outros Demónios, uma edição da Coolbooks de 2019. Não sendo um livro de FC, tem elementos do género pelo que conta como "com", e a Cristina passa a 4c9s.

No dia seguinte, apareceu a primeira das duas opiniões sobre Leiturtugas que a Carla Ribeiro produziu esta semana. Sombra de um Peregrino é um romance de Rafael Loureiro publicado já este ano pela Presença, autor que publicou há alguns anos um livro de FC. Este, no entanto, nada parece ter de FC; é apresentado como uma fantasia mística.

A Carla remata a semana no dia seguinte com a segunda das suas opiniões, sobre um livro que, se não me engano, já apareceu antes por aqui: Andrómeda ou O Longo Caminho para Casa. Trata-se de um álbum de BD de Zé Burnay publicado no início deste ano por A Seita. Dois livros sem FC, portanto, e a Carla passa a 3c5s.

E por esta semana é tudo. Para a semana haverá mais, provavelmente.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Charles Baudelaire: O Jogador Generoso

Não é muito memorável, esta história de Charles Baudelaire. Em parte por ser muito curta, talvez. Decerto também por se tratar de mais uma das muitas variações ao tema do acordo faustiano que saíram das penas dos criadores literários europeus (e não só) ao longo dos anos, o certo é que no tempo que decorreu entre a leitura e a escrita desta opinião (sim, vou um bom bocado atrasado) a esqueci quase por completo. Felizmente bastou uma releitura muitíssimo em diagonal para a recordar.

O que acima ficou dito não significa que este conto é desprovido de interesse. Não é; é um conto interessante que logra encontrar alguma originalidade numa ideia muito batida. O Jogador Generoso (bibliografia) é o diabo, e claro que há também um protagonista — em primeira pessoa — que perde a alma em troca da satisfação dos seus desejos. Mas ao contrário da maioria destes contos, nos quais o acordo é resultado de um engano ou de palavras irrefletidas, aqui o protagonista sabe perfeitamente ao que vai e faz o acordo com plena consciência e vontade. E é este o principal motivo de interesse desta história, a par, naturalmente, da sua qualidade literária.

Mas também é facto que eu a esqueci bastante depressa e isso também tem o seu significado.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

R. F. Wexler: Reminiscências

Se a anterior "reminiscência" já era algo diferente das demais, estas Reminiscências (bibliografia) de R. F. Wexler são as mais diferentes de todas. Isto porque não se trata de um texto que conte uma história sobre encontros entre os "médicos" autores ou alguém que eles conheçam e o Lambshead, mas sim de uma carta. Uma carta na qual Wexler se insurge contra a publicação do guia, chamando-lhe loucura e mencionando de passagem vários acontecimentos que explicariam o porquê de ser uma loucura.

Este é dos tais textos que valem mais pelo contributo que dão para a caracterização da personagem principal desta antologia — e apesar da nota dos editores pôr em causa as informações que constam da carta — do que propriamente pelas suas próprias qualidades literárias. Enquanto conto, ou mesmo enquanto conto epistolar, não é nada de especial, e na verdade esquece-se bem depressa. Nunca conseguiria ter vida própria fora deste volume. Mas nele é útil.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Isaac Asimov: A Construção do Espírito

Era mesmo porreiro que o Isaac Asimov conseguisse (ou sequer tentasse, talvez) não ser misógino sempre que tenta ter piada. Teria mais piada, com toda a certeza, e os objetivos que tenta alcançar — porque é muito raro ele tentar apenas ter piada sem ter também o objetivo de fazer alguma espécie de crítica através do humor — seriam alcançados de forma mais limpa e eficaz.

Em A Construção do Espírito (bibliografia), mais um conto em que ele cita explicitamente Shakespeare, a ideia é fazer uma crítica a quem se serve da mentira para subir na vida. E claro que tinha de aparecer o surradíssimo cliché da bimba que procura marido rico, que ainda se torna mais sonífero quando se lê estas histórias em conjunto pois já não é a primeira vez que nelas aparece.

Mas adiante.

O protagonista deste conto é um menino rico que embirrou que haveria de ser detetive da polícia. E conseguiu. Só que tinha um problema: era incapaz de perceber quando as pessoas estavam a mentir, o que resulta na festa que facilmente se suspeita entre os criminosos da cidade. A todos ele soltava, porque todos os álibis lhe pareciam credíveis, por mais mirabolantes que fossem. Estamos na série do Azazel, portanto lá vem o Azazel resolver o problema, transformando o homem num detetor de mentiras humano. E com pleno sucesso. Ou talvez com sucesso a mais, porque não são só as mentiras dos criminosos que ele passa a detetar, mas todas as mentiras de toda a gente. Lá se vai noiva, lá se vão amigos, por aí fora.

Este é um conto razoavelmente interessante, no qual Asimov discorre sobre as vantagens e as desvantagens do cinismo aplicado à vida. É melhor que a maioria dos contos do Azazel. Mas continua a não ser um bom conto.

Contos anteriores deste livro:

F. Marion Crawford: Na Cabine do Navio

Este é bastante rápido. É que este Na Cabine do Navio (bibliografia) de F. Marion Crawford é dos tais contos que tendem a ser reeditados sucessivamente nas mais variadas antologias. Por bons motivos: é um conto de terror francamente bom. Mas isso significa que já o tinha lido e comentado, sob outro título, há quase rigorosos dez anos. E não tenho grande coisa a acrescentar ao que disse então, salvo talvez fazer uma precisão. O conto não é daqueles que acompanham a par e passo os acontecimentos, como terá ficado implícito no meu texto de 2010, mas sim daqueles de ouvir contar, em que um grupo de pessoas conta histórias umas às outras. O que acontece na cabine é a história dentro da história, contada por um dos conversadores aos restantes.

Seja como for, é ótimo.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Mia Couto: Lágrimas Novas Para as Velhas Damas

Não é muito comum eu gostar tanto dos contos em que Mia Couto não introduz nada de fantástico como daqueles em que o faz, mas por vezes acontece. Neste Lágrimas Novas Para as Velhas Damas fala de racismo, provavelmente também de colonialismo ou, por outra, provavelmente de colonialismo institucional mas certamente de colonialismo cultural. E fá-lo muito bem.

As protagonistas são, claro, as "velhas damas" do título. Duas velhas brancas que passam os dias a vasculhar a secção de necrologia do jornal e a ir a funerais, muitas vezes de pessoas que nem conhecem. Mas todas brancas; para elas, quase parece que o grave não é que as pessoas morram, mas que os brancos o façam, pois "já são tão poucos". Um dia, no entanto, cometem um engano qualquer e acabam no funeral de um negro, que obviamente desconhecem por completo. E descobrem que afinal, mesmo velhas como são, também têm lágrimas para lhe dar.

Este é um conto esperançoso sobre o racismo. Um conto que diz que mesmo velhas racistas ainda têm em si a capacidade para se tornarem pessoas melhores, por mais que o ditado diga que burro velho não aprende línguas. E muito bem escrito, claro, como é inevitável em Mia Couto. Muito bom.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 13 de setembro de 2020

Richard Calder: Reminiscências

Richard Calder nas suas Reminiscências (bibliografia) afasta-se um pouco da atmosfera genérica que é mais ou menos comum aos autores que também escreveram pequenos contos em que os seus alter egos médicos recordam episódios passados na companhia de Thackery T. Lambshead. Para começar, escreveu um conto mais longo que os demais. E também escreveu um conto mais claramente literário que os demais.

Sim, que o tom genérico das histórias anteriores era sempre mais ou menos confessional, o tom daquela literatura que procura criar a ilusão de que são as próprias personagens que estão a descrever acontecimentos verdadeiros que lhes sucederam de facto. Calder, embora também tenha isso, usa uma prosa mais elaborada, aproximando mais claramente o conto de uma literatura que se preocupa com a forma do que da literatura-depoimento que está sobretudo preocupada com a verosimilhança do que é relatado. Terá sido em parte isso, imagino, o que levou os editores da antologia a agregar a esta história uma nota em que afirmam que apesar do que relata o "dr. Calder", sabe-se que Lambshead estava noutro local na altura em que ele situa a sua história, sugerindo muito claramente que se trata de um relato ficcional.

E que relato é esse? É um relato bastante erudito, baseado na lenda bíblica de Salomé, de uma espécie de fantasia algo lovecraftiana, com conexões cósmicas e portanto uns pozinhos de ficção científica, no qual encontramos Lambshead na região em que a Arábia se transforma em Palestina a investigar uma doença bizarra, como não podia deixar de ser. Mas esta doença bizarra parece ser menos doença que mutação, gerada pela radiação proveniente da explosão de supernovas, a qual transforma algumas mulheres em autênticas máquinas de dança sedutora e assassina.

E é um conto muito bom. Mais que provavelmente um dos melhores de todo o livro, ainda que eu tenha algumas dúvidas sobre a sua adequação ao projeto, visto que foge um pouco às premissas deste. Ou melhor: fugiria sem a intervenção dos editores e a sua nota providencial. Vai ser de pormenores destes que se vai fazer a opinião global a esta antologia. Mas isso só chegará num futuro ainda algo distante.

Textos anteriores deste livro:

Irmãos Grimm: A Raposa e a Senhora Comadre

Estamos em maré de raposas, lobos, gente e fábulas, está visto, e aparentemente sempre sem grandes (ou nenhumas) alterações face ao material recolhido entre a população. Com menos de uma página, este A Raposa e a Senhora Comadre é a terceira fábula com a raposa astuciosa, o lobo mau mas estúpido e crédulo e os homens implacáveis que os Irmãos Grimm reuniram neste volume — e pelo menos a raposa ainda há de voltar a aparecer.

Esta historinha, no entanto, é bastante tosca. Resume-se praticamente a uma anedota em que a raposa engana a comadre (uma loba que a tinha convidado para madrinha dos filhos) não uma, mas duas vezes, levando-a a apanhar uma valente surra dos camponeses e ainda por cima a carregá-la para casa a cavalo. Uma canalhice, e das grandes, mas toda a gente gosta porque o lobo é mau, por definição. Muito fracote.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas #71

Isto esta semana é curtinho, que só temos uma Leiturtuga a registar.

Chegou-nos pela mão da Carla Ribeiro, que na quinta-feira publicou a sua opinião sobre a novela que Pedro Cipriano publicou em 2017 pela Flybooks, As Nuvens de Hamburgo. Trata-se de um livro com FC, pelo que a Carla passa a sinalefar 3c3s.

E por esta semana é só. Haverá mais na próxima? Sei tanto como vocês. Vamos ter de esperar para ver, não é? É, pois. Até lá.

sábado, 12 de setembro de 2020

Fritz Leiber: Encontro em Lankhmar

Ora então cá reencontro o Fritz Leiber, depois de ter revisto uma tradução alheia desta mesma história e de algumas outras para uma edição portuguesa que já leva mais de uma década. Encontro em Lankhmar (bibliografia) é uma novela de fantasia, variedade espada e feitiçaria, uma das primeiras da longa série que Leiber fez protagonizar por uma parelha de improváveis aventureiros e ladrões chamados no original Fafhrd e Gray Mouser.

Na verdade, não se limita a ser uma das primeiras histórias da série; é a história fulcral, aquela em que os dois protagonistas se conhecem ao assaltarem ao mesmo tempo o mesmo grupo de ladrões na corrupta cidade de Lankhmar e ficam irmanados num desejo comum de vingança depois das várias peripécias que vivem na primeira parte da novela e de uma retaliação mortífera por parte da guilda de ladrões a que os ladrões assaltados pertencem.

Toda esta série é pulp até à medula, declaradamente inspirada em coisas como as histórias do Conan, do Robert E. Howard. E eu, como bem sabe quem costuma cá vir ler o que vou escrevendo na Lâmpada, não gosto de pulp. Mas julgo que sei ver quando um escritor faz bem aquilo que tenta fazer.

E Leiber, claramente, faz bem o que tenta fazer. O que ele tenta fazer é uma homenagem aos velhos pulps, criando um par de heróis (ou se calhar devia chamar-se-lhes anti-heróis) maiores que a vida, sempre prontos para mergulhar nos maiores apertos mas sempre capazes de sair deles, ainda que nem sempre sem um arranhão. E é o que faz. Os seus heróis não são super-homens, são até algo improváveis, e talvez por isso funcionem tão bem. Não que eu goste, que não gosto. Acho tudo isto simplista demais, demasiado formulaico e em vários aspetos duvidoso. Mas está bem feito.

Conto anterior desta publicação:

Charles Nodier: Paulo ou A Semelhança

Esta é uma história algo estranha, não tanto por aquilo que nela se conta, mas pela forma como está concebida. Começa logo pela forma como Charles Nodier caracteriza este Paulo ou A Semelhança (bibliografia), "história verdadeira e fantástica", e continua com a forma como a estrutura, dividindo-a em três partes bastante distintas entre si, sendo que a história propriamente dita, a que tem como tema o Paulo ou a sua semelhança, só preenche a segunda dessas partes.

A primeira é praticamente uma declaração de amor à literatura fantástica. Poderia perfeitamente ser publicada de forma autónoma como artigo de opinião e, se fosse discutida como tal, eu teria algumas discordâncias de vulto a opor, pois Nodier vê a literatura fantástica como reduto da crença contra um mundo que na sua época já começava a laicizar-se, ao passo que a minha perspetiva é quase a oposta.

A segunda parte é a "história verdadeira e fantástica" propriamente dita. É a história de um pai desgostoso com a perda de um filho que conhece um rapaz, pobre, criado de outro homem, tão parecido com o filho — até no nome — que tenta persuadi-lo a tomar o seu lugar. Quer levá-lo para casa, levá-lo à mulher que sonhara que o filho ainda está vivo, dizer-lhe "olha, tinhas razão, aqui está ele". Mas o rapaz recusa: por mais que o arranjo lhe fosse vantajoso, pois o velho é rico e como seu único filho iria herdar, não se sente capaz de abdicar dos pais verdadeiros. É uma história bonita e bem contada. Uma história verdadeira? Talvez. Mas fantástica? Bem...

Com bastante boa vontade poderá achar-se que sim. Como se disse acima, a mãe do filho morto sonha que o filho está vivo — é isso, de resto, o que motiva a busca do pai — e pode interpretar-se o sonho como tendo visto, em sonhos, o sósia do rapaz a andar por aí. O sonho premonitório é um enredo clássico da literatura fantástica, é certo, mas aqui ele só é premonitório se for interpretado assim. Não é essa a interpretação que eu faço, mas por outro lado é verdade que esta história acaba por respeitar a definição de fantástico que Todorov criou muitos anos mais tarde.

A terceira parte, e também a mais curta, retoma o tom opinativo da primeira para lançar um ataque bastante beato ao espírito materialista. Nodier viveu em tempos de jacobinismo e por isso este ataque tem implicações políticas bastante claras, mas juntamente com a defesa da literatura fantástica da primeira parte quase transforma este texto num artigo de opinião com um interregno a meio destinado a contar uma história que se destina a ilustrar a opinião. Que esteja tudo muito bem escrito confunde as linhas e sublinha o caráter híbrido do texto. E também justifica que eu tenha gostado dele, apesar de discordar de Nodier em quase tudo.

Contos anteriores deste livro:

Hans Christian Andersen: A Sombra

Quando pensamos em Hans Christian Andersen, a associação imediata que nos ocorre é com fábulas, contos de fadas, literatura infantil. E de facto encontra-se neste conto intitulado A Sombra (bibliografia) um pouco do mesmo tom, como se o autor não conseguisse (ou não quisesse) desligar-se por completo do tipo de literatura que mais praticava. Da sua zona de conforto, por assim dizer. Mas isso não significa que A Sombra seja um conto infantil. Na verdade, está bastante longe de o ser.

O que este conto realmente é é uma história sobre o oportunismo dos videirinhos sem qualidades, que se serve do fantástico para melhor sublinhar as ideias que lhe estão subjacentes. O protagonista é um erudito que, durante uma viagem a um país quente, entrevê uma donzela, ou talvez uma entidade mágica, entre as cortinas da casa que fica na frente daquela onde está hospedado. E, meio na brincadeira, ordena à sua sombra para ir lá dentro ver de que se trata. Para sua surpresa é o que a sombra faz. E não volta.

Sem sombra, o homem prossegue a sua vida, estudando e aperfeiçoando a sua erudição, mas sem realmente subir na vida. Até que anos mais tarde a sombra regressa. Vem quase transformada em gente, e rica. Conta-lhe que a sua condição lhe permitiu ficar a saber dos podres de meio mundo e ganhou riqueza e poder com base na chantagem. E acaba por lhe fazer uma estranha proposta: pagar-lhe-ia principescamente se ele se tornasse sua sombra. E o homem, mesmo renitente, aceita. Não é boa ideia.

A alegoria é bastante clara. Andersen fala aqui basicamente de discípulos sem escrúpulos nem verdadeiro talento que se aproveitam da boa vontade dos mestres e os usam para subir na vida. E, de uma forma mais genérica, de como as pessoas realmente válidas tendem a ser espezinhadas por medíocres cujo único verdadeiro talento é serem capazes de falsificar qualidades que não têm. É um conto de denúncia algo amargurado, que se serve da fantasia para não dar os nomes aos bois ao mesmo tempo que os deixa totalmente óbvios, o que é um uso do fantástico tão bom como qualquer outro.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Stepan Chapman: Reminiscências

Não são lá muito boas, as Reminiscências (bibliografia) de Stepan Chapman. Trata-se de um conto bastante clássico, claro, como acontece com a maioria das restantes Reminiscências, mas a que conta é uma história pouco interessante, aparentemente pouco inspirada, sobre uma visita noturna do Lambshead ao dr. Chapman, trazendo um relato mirabolante sobre uma sobrinha mergulhada nalguma espécie de transe químico induzido por um "feiticeiro", e sobre as consequentes investigações para tentar perceber qual a química envolvida no transe ou no "feitiço".

E limita-se praticamente a isso. Um episódio rápido, sem grandes consequências nem grande imaginação, que nem sequer serve para caracterizar a personagem porque só apresenta características já sobejamente encontradas em outros textos. O conto não é mau, atenção. Longe disso, até, uma vez que está bem escrito. Mas é daqueles textos indiferentes cuja presença não acrescenta realmente grande coisa aos livros ou às histórias. Poderia ter sido excluído e ninguém lhe sentiria a falta.

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Mário-Henrique Leiria: Caso 2900/002 - 7.º B

Seria impossível que os contos de Mário-Henrique Leiria fossem sempre magníficos. Todos temos oscilações na qualidade do que escrevemos e, no que toca à FC, um autor que a praticou só ocasionalmente não poderia deixar de tropeçar no cliché de vez em quando, apesar de ter tido um contacto íntimo com o género durante vários anos, pelo menos, por ter feito traduções para a coleção Argonauta.

No caso deste Caso 2900/002 - 7.º B (bibliografia) — cujo título, talvez em parte por coincidência pois julgo que na época ainda não havia códigos postais compostos, faz lembrar um endereço — temos aquela situação clássica em que um alienígena desastrado, sem nada saber sobre os costumes e/ou instituições humanas, faz um contacto desastroso devido a uma soma de incompreensões e mal-entendidos. Começa por pousar a nave no meio de um estádio de futebol onde se desenrolava um jogo e acaba a levar porrada. E o caso de direito é aqui uma reflexão sobre as origens psicológicas e sociológicas da agressão.

O objetivo é, claro, contrastar os usos e costumes da galáxia civilizada com os deste planeta (e mais especificamente deste país) bárbaro e atrasado. Mas também isso é cliché neste tipo de contos. Leiria compensa parcialmente os clichés tendo verdadeira piada, mas não o suficiente para evitar que este conto fique vários degraus abaixo dos anteriores.

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terça-feira, 8 de setembro de 2020

Escrita de agosto


Agosto foi o mês em que a produção de 2020 ultrapassou a de 2019. E largamente. É que também bateu julho em termos de quantidade de material escrito, o que nem estava nos planos. Foram mais quase 18200 palavras, ou pouco mais de 50 páginas, e quase todas concentradas na primeira quinzena. Sim, é a tal novela de que vos falei em junho e julho, que foi fechada mesmo no limite do romance. Ou melhor: mesmo acima do limite do romance, com um pouco menos de 41 mil palavras. Se lhe chamar romance, é o meu terceiro. E estou bastante satisfeito com o resultado, o que nem sempre acontece.

O total do ano vai em quase 88 mil palavras. Umas 250 páginas. E faltam quatro meses para ele chegar ao fim, embora os próximos não devam ser tão produtivos como estes últimos têm sido, por vários motivos. Entre esses motivos estão revisões.

Sim, que depois de acabar a novela/romance a meio de agosto o resto do mês foi passado a fazer revisões de algumas das coisas que fui escrevendo nos meses anteriores. Não do romance que acabei no inverno... ainda. Outras coisas. Basicamente tudo aquilo que não fui publicando entretanto (o já publicado já está revisto, claro). E mesmo no fim, já quase a dar lugar a setembro, voltei à escrita propriamente dita para acabar a última das quatro ideias que tive para aquela celebraçãozinha semiprivada da FC em maio. É um conto curto, que não acabei em agosto mas irá constar das contas de setembro.

E por falar em setembro, vai ser finalmente este o mês em que vou mesmo tratar de rever o tal romance, pelo que deverá ser um mês com números bastante baixos. E não faço ideia de quanto tempo levarei nesse trabalho; depende de quão necessitado de revisão o ache. Não faço ideia, portanto, se ainda vou escrever mais alguma coisa em setembro (depois de acabar o conto com que começo o mês, claro) ou vai ser só revisão o mês inteiro.

No princípio de outubro logo vos digo. Até lá.

domingo, 6 de setembro de 2020

K. J. Bishop: Reminiscências

Nesta secção de Reminiscências, há textos de oito autores. Seis desses autores são homens, duas são mulheres. Por isso, não deixa de ser curioso que ambas as autoras presentes tenham decidido enveredar ora pela relação sentimental/sexual explícita entre as suas personagens e o Lambshead, no caso de Rachel Pollack, ora por uma sugestão implícita de tal relação, no caso de K. J. Bishop (bibliografia), ao passo que nenhum dos autores faz sequer uma referência a essa faceta da vida da personagem. Nem um.

Desses oito autores, seis colocam-se no papel de protagonistas da história que contam e dois não o fazem; Bishop é uma destas, pondo uma sua tia nessa condição. É necessário, pois a história que conta tem, além da sugestão da relação íntima, que de resto é veementemente rejeitada por quem conta a história e pela própria protagonista, que não manifesta pelo Lambshead mais que uma violenta repugnância, com uma componente forte de loucura. Esta loucura, embora na verdade nada impedisse, tornaria difícil a Bishop usar a narrativa em primeira pessoa, em especial numa história curta. Foi portanto, parece-me, uma boa decisão.

E não foi a única boa decisão que esta história contém. De facto, este conto é francamente bom, claramente uma das melhores Reminiscências, se não for mesmo um dos melhores contos de todo o livro. As vozes das duas mulheres presentes na história, tia e sobrinha, estão ótimas, e a história propriamente dita, uma bizarra aventura nas selvas da Nova Guiné que gira em volta de uma fantástica doença cujos pacientes libertam borboletas (ou pássaros), é tanto fascinante quanto incrível. E de facto, a Dra. Bishop nega a sua existência fora da mente da tia de uma forma taxativa. Mas o conto está tão bem feito que a dúvida permanece.

Textos anteriores deste livro:

Leiturtugas #70

Esta semana temos post longo, não porque tenha havido assim tantas Leiturtugas como tudo isso, mas porque estou a preparar o segundo sorteio. Mas comecemos pelo mais importante: as Leiturtugas propriamente ditas.

Começámos com mais um dos posts do Artur Coelho no qual ele menciona brevemente uma obra de BD, cuja opinião desenvolve mais noutro lado. Trata-se desta vez da revista Umbra, nº 2, uma edição já deste ano, da autoria de um grupo de seis autores: Filipe Abranches, Pedro Moura, Jorge Coelho, Bárbara Lopes, Fernando Relvas e Simon Roy.

Mais uma vez, no entanto, o Artur não se fica por aqui, e publicou também uma opinião sobre um livro de um género que raramente aparece nestas leituras tugas: o romance histórico, neste caso de aventuras. Trata-se de O Corsário dos Sete Mares, de Deana Barroqueiro, uma releitura da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto publicada em 2012 pela Casa das Letras. Uma opinião sobre um romance histórico e outra sobre BD são mais duas opiniões sem FC, e o Artur passa a 5c9s.

E quanto a Leiturtugas propriamente ditas, estamos conversados. Passemos ao sorteio.

O segundo sorteio vai acontecer entre o princípio e meados de outubro, com base no estado das coisas no fim de setembro. Não vou fazer agora o balanço que prometi fazer na semana passada porque me falta o tempo; quem quiser saber se vai adiantado ou atrasado só tem de saber que para estar em dia no fim de agosto teria de já ter feito 4 leituras com FC e 8 no total (2 e 4, respetivamente, se estiver nas Leiturtuguinhas). Eu, por exemplo, com 3c3s vou duas leituras atrasado e se não as fizer durante setembro, mais a leitura de setembro, terei a penalização respetiva. O balanço final será feito na primeira semana de outubro, antes da realização do sorteio.

Também decidi penalizar em 1/3 o vencedor do sorteio anterior para tornar menos provável que seja a mesma pessoa a ganhar duas vezes seguidas. Para já, o vencedor anterior, o Artur, compensa parcialmente a penalização sendo o único participante a estar em dia, mas em outubro veremos se será suficiente.

Quanto ao livro que será sorteado, já viram de certeza a fotografia. É o Disney no Céu Entre os Dumbos, uma novela razoavelmente rara do João Barreiros.

E agora, toca a ler e até à semana que vem. Provavelmente.

sábado, 5 de setembro de 2020

Irmãos Grimm: O Lobo e a Raposa

Bastante semelhante ao conto anterior, e mais uma das histórias que os Irmãos Grimm não parecem ter alterado significativamente face à versão popular recolhida, esta O Lobo e a Raposa é outra pequena fábula com lobos, raposas e homens.

Aqui, o lobo mau é ainda mais mau que o lobo mau da outra fábula (de resto, o lobo mau da outra fábula era sobretudo parvo). Mau ao ponto de escravizar a raposa, obrigando-a a arranjar-lhe o que comer. Mas esta, astuta como sempre, lá arranja forma de o pôr em conflito com os homens, os quais tratam de lhe dar o que merece. Três vezes, obviamente, ou não estivéssemos no reino das histórias populares.

Não é das fábulas mais memoráveis que poderão ler, e estes retratos populares dos lobos são sempre algo lamentáveis, mas lê-se.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Bob Leman: Loob

Finalmente um conto bom o suficiente para se aguentar à bronca de uma das típicas traduções desta versão portuguesa da Fantasy and Science Fiction!

Loob (bibliografia) é uma história de fantasia contada de forma sinuosa, com um cheirinho de ficção científica em versão viagens no tempo, história alternativa e alterações na linha cronológica. E também é o nome do protagonista da história. Ou melhor da alcunha, ganha porque o rapaz, com clara deficiência intelectual, não era capaz de pronunciar o seu nome — Luther — e por esse motivo era alvo da chacota dos outros rapazes.

É essa personagem que o narrador desta história culpa pela sua condição. Porquê? Que condição? É o que vamos descobrindo ao longo da narrativa, bastante bem tecida por Bob Leman, de uma forma sinuosa e sempre interessante. E sim, vai haver spoilers daqui para a frente.

O narrador é alguém que se lembra de um tempo em que a cidade onde vive e ele próprio eram coisas prósperas e cheias de futuro, em completo contraste com a decadência que o rodeia. Mas a cidade de que se lembra não é uma daquelas memórias longínquas de um passado distante: é algo bem mais próximo. Para ele as coisas não foram degenerando aos poucos. Um dia adormeceu no lugar próspero e na manhã seguinte acordou no decadente. E a partir daí começou uma espécie de cruzada para descobrir como e porquê. E descobre. Na pessoa do Loob.

O que descobre é que alguém ofendeu o Loob. E o Loob vingou-se, alterando de forma misteriosa o status quo temporal, mudando qualquer coisa no passado, o que teve como efeito secundário a decadência da cidade. Efeito secundário e involuntário, pois o Loob não tem a capacidade intelectual necessária para planear a cadeia de consequências que leva à decadência. É apenas algo como aqueles desabafos raivosos que por vezes temos, um "quem dera que Fulano nunca tivesse nascido". No caso do Loob, o desejo concretizou-se.

É uma boa noveleta, esta. Muito bem concebida e aparentemente bastante bem escrita, ainda que as falhas de tradução não permitam ter certezas. Seja como for, o resultado final é significativamente superior ao das outras duas histórias.

Contos anteriores desta publicação:

Rachel Pollack: Reminiscências

As Reminiscências (bibliografia) que Rachel Pollack traz são uma breve história de amor cujo elemento fantástico se reduz à periferia do enredo, isto é, a menções a várias doenças que teria combatido na companhia de um Lambshead transformado em galã irresistível. É uma historinha bem concebida, servindo-se basicamente de duas cenas para delinear todo um romance, mas também é uma historinha basicamente anódina, ao ponto de eu pouco ter a dizer sobre ela.

Dito isto, esta é daquelas histórias que poderão ter pouco interesse quando tomadas isoladamente mas cujo interesse aumenta bastante se enquadradas no livro a que pertencem, pois é das poucas ficções desta antologia em que a personagem central ganha um pouco mais de consistência enquanto personagem. Ao dar-lhe um pouco de humanidade, ultrapassando a imagem de excêntrico irascível, obstinado e mais que um pouco enlouquecido que surge em muitas das outras histórias, Pollack dá-lhe também mais densidade. E isso é uma mais-valia, mesmo que alguns leitores possam não concordar.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Honoré de Balzac: O Elixir da Longa Vida

Hoje em dia grita-se "plágio" até por semelhanças superficiais em personagens ou enredos, mas tempos houve em que os escritores (e não só) reutilizavam alegremente as personagens uns dos outros, chegando por vezes a criar à volta delas autênticas mitologias coletivas. Não que hoje isso não continue a existir; está é remetido quase por inteiro para essa literatura marginal que responde pelo nome de fanfic, praticada por uma miríade de autores entre os quais muito poucos serão os que algum dia chegarão a criar alguma coisa de relevante. Pelo contrário, na fanfic de antigamente participavam com regularidade grandes autores, entre os quais sem dúvida se inclui Honoré de Balzac, e este conto que aqui temos é disso um bom exemplo.

Na verdade, Balzac pega não em uma ideia alheia, mas em duas. O Elixir da Longa Vida (bibliografia), ou elixir da imortalidade, é, em si mesmo, um dos memes literários mais antigos que existem, pois já nas velhas mitologias de várias culturas há histórias sobre poções ou elixires que conferem a quem as bebe uma vida prolongada ou de extensão indeterminada. Balzac junta a esse mito o de Don Juan, o eterno sedutor libertino que pode ou não ter sido criado no século XVII por Tirso de Molina (a peça de Molina é o mais antigo texto a contar a história da personagem, mas esta pode ter origem anterior). E com isso cria um conto bastante original.

O Dom Juan desta história é o típico sedutor dissoluto de todas as outras, mas é o pai, já bastante idoso, quem tem o elixir. O conto vai encontrar o pai muito doente e o filho a divertir-se numa festa, onde um criado o vai chamar porque o pai parece estar prestes a morrer. E está mesmo, mas antes de morrer o velho faz o filho prometer que logo depois do último suspiro lhe esfrega um certo líquido no corpo, dizendo-lhe que assim voltará a viver. O jovem não acredita mas, por descargo de consciência experimenta deixar cair uma gota num olho. O olho ganha vida. Espantado, D. Juan renuncia à promessa e esmaga o olho, acabando de matar o pai. E ficando com o elixir para si.

Depois vive uma vida típica de D. Juan, ainda que acabe também ele por ter um filho. E por repetir com este a cena que vivera com o seu pai, ainda que com uma diferença de peso: não informa o filho do que o elixir é capaz de fazer, julgando assim evitar que a ambição da vida eterna leve o filho a fazer o mesmo que ele fizera. Não corre nada bem.

Esta é uma história que comprova que não é preciso ser inteiramente original para ser interessante. Balzac pensa sobre a ambição de prolongar a vida, de uma forma previsivelmente cautelar, como quem diz "não queiras o que não podes ter, porque aqueles que tentam alcançá-lo saem-se mal", e também das consequências da má índole, para o próprio e para os que o rodeiam. Fá-lo de uma forma moralista mas irónica, e com uma construção narrativa de muito boa qualidade. Que importa que tenha ido buscar boa parte do que está na base desta sua história a outras histórias?

Textos anteriores deste livro:

Isaac Asimov: Há Mais Coisas no Céu e na Terra

Um conto do Azazel com algumas ideias interessantes? Mas que milagre é este? E no entanto aconteceu. O título de Há Mais Coisas no Céu e na Terra (bibliografia), que só por acaso não é seguido por "Horácio, do que sonha a tua vã filosofia", é uma referência óbvia a Shakespeare e indicia uma densidade intelectual que não tem sido muito comum nestas histórias de Isaac Asimov. É certo que o texto não a confirma, mas não é menos certo que tampouco é um texto algo inane, como os contos do Azazel tendem por vezes a ser.

OK, o humor é tosco e despido de subtilezas, um sarcasmo altamente corrosivo que se torna rapidamente esperado e por isso repetitivo. O alvo são os economistas e os políticos, estes porque só querem ouvir o que lhes interessa, aqueles por inventarem as teorias que mais lhes convém para dizerem aos políticos o que eles querem ouvir e assim subirem na vida. Segundo esta história, uns e outros não passam de charlatães, e não duvido que há muita gente que concorda. Mas o conto não se resume a isso, e ainda bem.

O protagonista (além do Azazel e do homem que o controla, claro) é um economista cuja principal (ou única) ambição é tornar-se assessor económico do presidente. O manda-chuva dos economistas, portanto. Só que repara num detalhe: os últimos homens a ocupar o cargo ficaram nele durante períodos cada vez mais curtos, seguindo uma série rigorosamente geométrica, morrendo de seguida. Extrapolando, ele prevê que se por acaso for nomeado economista-chefe terá um ano de vida. Ora, ele ainda é novo, e não lhe apetece morrer tão cedo.

Entra na história o Azazel que, depois de fazer lá os seus malabarismos com a realidade, declara que nenhuma coisa na Terra poderá fazer mal ao senhor economista. E este, feliz e convencido, lá aceita a posição. Problema: com o Azazel as coisas nunca correm bem e esta história não é exceção. Porque em qualquer lei há uma lacuna pronta para ser explorada pelos espertalhões, e neste caso o espertalhão é o próprio universo, o que gera um final mais inesperado do que é costume nestas histórias, e isso aumenta o interesse deste conto.

Este não é um grande conto, longe disso. Mas não tenho dúvidas de que é dos melhores contos desta série.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 30 de agosto de 2020

Mia Couto: O Jardim Marinho

Realismo mágico em estado puro. É isso o que se pode encontrar nesta pequena história de Mia Couto, o que basicamente equivale a dizer fantasia em estado puro. E sim, desta feita trata-se realmente de uma história, uma pequena obra de ficção, pois se este texto tem algo de crónica esse algo está muito bem escondido.

O Jardim Marinho não é propriamente sobre um jardim, marinho ou não. É sobre uma família, sobre o amor e sobre a aceitação da diferença, mesmo perante a iminência da perda. É que o filho da família não é um rapaz como os outros: parece ter sangue de sereia e está mais confortável no mar do que em terra. E com a expressão "no mar" não me refiro a barcos. Refiro-me ao mar, ao habitat aquático propriamente dito.

E vai crescendo na praia, entre o mar e a terra. A família puxa-o para terra; a sua natureza puxa-o para o mar. É uma contradição que um dia teria de ter um desfecho, e de facto tem. Um desfecho bonito.

É aqui que mais gosto de Mia Couto. Precisamente aqui, onde a magia se cruza com a realidade da vida.

Contos anteriores deste livro:

Um improvável auxiliar de escrita

Recentemente descobri um auxiliar de escrita altamente improvável: o TORCS. Trata-se de um jogo open-source já com uns aninhos valentes em cima (o lançamento inicial data de 1997 e a última versão estável de 2016) que, como o nome de The Open Racing Car Simulator indica, simula corridas de automóveis. Tem sido muito usado ao longo dos anos como simulação propriamente dita, isto é, como plataforma para engenheiros de software brincarem com a construção de robôs de condução automática, mas os recentes desenvolvimentos dos algoritmos de machine learning parecem tê-lo posto um pouco de lado. Programação de robôs à parte, dá perfeitamente para ser jogado como eu o tenho jogado: conduzindo um carrito de uma série de carros à escolha, controlado de várias formas possíveis (no meu caso: teclado), por uma série de pistas à escolha, contra uma série de carros à escolha conduzidos por um ou vários robôs à escolha. Os robôs disponíveis são 10 e cada um controla 10 carros, o que dá um total de 100 oponentes possíveis (e eu já os expandi para 200 cá com uns truques). É grátis, claro, como qualquer programa open-source. Está disponível aqui.

Já o jogo há montes de anos, com umas intermitências pelo meio. Com o tempo fui desenvolvendo truques para que a maioria das corridas que faço sejam competitivas e por isso interessantes e, embora haja modos de jogo bastante demorados (corridas de grande prémio, que duram mais de uma hora e até há corridas de resistência mais longas do que isso), eu uso principalmente, desde sempre, um modo que dá para fazer corridas rápidas, de 10 minutos, por vezes até menos, até cerca de 20 minutos e picos quando corro com os carros mais lentos. Recentemente tenho-o jogado bastante. E não só porque o covid me deixou com pouco trabalho a fazer, embora também por isso.

É que descobri que fazer uma ou duas corridas com o TORCS me ajuda a resolver problemas com a escrita.

Não com a escrita em si, obviamente. Não com o encadeamento de letras e palavras e frases e parágrafos. Mas com a estrutura. Com problemas e bloqueios de enredo, com decisões sobre o que a personagem tal faria na situação xis. Com o planeamento de o quê e como escrever a seguir.

Sabem como é quando vão no carro atentos ao trânsito mas a pensar ao mesmo tempo em outras coisas? O jogo permite fazer algo de muito semelhante, e com a vantagem dos erros não terem consequências mais graves do que perder uma corrida. E mesmo quando estas são particularmente competitivas, exigindo por isso um grau de atenção mais elevado, há sempre um cantinho ao fundo da mente que vai continuando a remoer o problema. Aquilo de que me dei conta foi que deixar esse cantinho em paz, a fazer o seu trabalho sem interferências, sem tentar dirigi-lo, é particularmente eficaz. Às vezes chega mesmo a ser mais eficaz do que ir ler o que ficou para trás, o truque que uso desde sempre para "reentrar na atmosfera" do que estou a escrever.

Também é daí que vem a minha produtividade recente. Não direi que ficar a olhar a página vazia à espera de uma ideia que comece a enchê-la, essa experiência por que passa qualquer pessoa que escreva com maior ou menor regularidade, é coisa do passado, mas o que descobri é que largar a página vazia, chamar o TORCS e correr uma corrida tem muito frequentemente o resultado de tornar fácil encher a página assim que a corrida termina. Ou pelo menos possível, que isto da criatividade nunca é realmente fácil.

Não sei se ainda há por aí muita gente a jogar TORCS. O jogo é velho e está desatualizado numa série de coisas (o que a bem dizer até é uma vantagem porque não exige um computador todo xpto para ser jogado como deve ser). Mas desconfio que mesmo que haja sou o único a usar o jogo para isto.