domingo, 7 de março de 2021

Leiturtugas #92

Ora cá deveríamos ter a última das notas sobre Leiturtugas que incluem material de 2020. Mas como também há material de 2021 a registar, vamos a ele primeiro e deixemos 2020 para mais tarde, pode ser? Vamos lá.

E como em semanas anteriores, o primeiro dos participantes oficiais a chegar foi o Marco Lopes, trazendo mais um livro do Filipe Faria. Se na semana passada tinha sido o 5º volume das Crónicas de Allariya, nesta foi o sexto, O Fado da Sombra, publicado pela Presença em 2009. Mais uma vez nada nele existe de FC, pelo que o Marco passa a 0c6s.

Dias depois surgiu a Cristina Alves com a sua opinião sobre o mais recente livro de António Ladeira, Montanha Distante, publicado em final de 2020 pela On y Va. Trata-se desta vez de um romance, mas mantém as características dos livros de contos, ou seja, é uma FC distópica. E a Cristina passa assim a 3c5s.

Também a Tita apareceu nas lides esta semana, publicando uma opinião exclusivamente em vídeo sobre o livro que ganhou no sorteio de fevereiro, o conto O Último Extraterrestre, de Jorge Borbinha. Publicado no ano passado pela Imaginauta, é um livrinho de FC, pelo que a Tita estreia o ano com 1c0s.

Mas nem só de oficiais se fez a semana, pois desta vez também tivemos umas quantas opiniões vindas de outros sítios.

Como por exemplo da Inês Montenegro, que falou sobre um romance lésbico de fantasia de Diana Pinguicha, publicado no ano passado em inglês pela Entangled e intitulado A Curse of Roses.

Ou do António Bizarro, que escreveu sobre um conto premiado de Mónica Cunha, publicado também no ano passado pela Imaginauta e pelo Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction: Projecto: MOTHER. Este é ficção científica.

Ou da Ana, que refletiu sobre uma coletânea de Pedro Rodrigues inspirada em Carroll e nos contos de fadas: Alice do Lado Errado do Espelho. Também é de 2020 e saiu pela Cultura. Não parece conter nenhuma FC, mas tem fantasia com fartura.

Bem. 2020. Olhem, sabem que mais? Este post já ficou longo mesmo só com o material desta semana, que foi bastante movimentada. E se deixássemos o que resta de 2020 para uma semana mais fraquinha? Hm? É boa? Então está combinado.

E até para a semana.

sábado, 6 de março de 2021

Mário-Henrique Leiria: Conto do Natal para Crianças

Conto do Natal Para Crianças (sim, do natal; é o que foi escrito pela mão de Mário-Henrique Leiria, e não Conto de Natal, como aparece no índice) é um texto muito diferente dos anteriores. Na verdade não é propriamente um texto, pois o seu significado só se completa pela justaposição do texto propriamente dito, ingénuo, quase infantil, manuscrito em letra de primária, às imagens que o acompanham. Estas são quase sempre fotografias de guerra, de barbaridades, de criminosos. Quase todas. A historieta, brevíssima, é a de alguém que decide ir assistir a um espetáculo e sai desapontado; as imagens mostram concretamente de que espetáculo se trata. O espetáculo do mundo, com todo o seu longo cortejo de crueldade, canalhice e violência.

Mas não é um texto desesperado. A esperança fica reservada para o fim, com uma imagem completamente diferente das anteriores e a ideia explícita de que nem tudo está perdido. Talvez fruto de algum espírito natalício, talvez de uma noção genuína de que afinal de contas, por mais que por vezes não pareça, nem tudo é mau. Talvez. Uma coisa é certa: isto só por ironia será um texto para crianças. É um texto para adultos. E interessante.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 5 de março de 2021

Mia Couto: Entre a Missa e as Misses

Aqui, neste Entre a Missa e as Misses, encontramos um Mia Couto em modo comédia de costumes, e de uma forma bastante pura, sem nada de fantástico a temperar a história.

Tudo gira em volta de uma rapariga, o orgulho da família. Que só tem olhos para os estudos, sem qualquer interesse em coisas mais mundanas como namorados, ao ponto até de preocupar os pais por a verem tão alheada da ideia de constituir família. Mesmo linda como é, e em especial por lhe verem ideias de carreira que não são coincidentes com as suas. Que, já depois de empregada, passa a sair apenas para trabalhar e, aos domingos, para ir à missa. Prendada? Oh, sim, até em demasia.

Mas eis senão quando sucede algo que nada parece ter a ver com o resto da história: o pai é convidado pelo chefe para ir com ele a um concurso de misses. E o que lá encontra, ou melhor, quem lá encontra, deixa-o absolutamente chocado. De resto, o mesmo acontece com o chefe, ainda que por outros motivos. O que, por sua vez, deixa o pobre do pai à beira de um ataque de nervos.

É curioso ler Mia Couto neste registo. Não me parece que seja aquele a que o seu estilo muito próprio mais se adequa, mas é curioso. E tenho a certeza de que outros leitores acharão que é pena não escrever mais nele.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 3 de março de 2021

Escrita de fevereiro

Escreveria eu mais se tivesse um espaço assim onde escrever?
É possível. Mas duvido.

Tudo indica que este ano vai ser significativamente menos produtivo do que o ano passado, a menos que algo de substancialmente diferente aconteça nos próximos meses. É o que se depreende do que já ficou para trás: dois meses bastante fracos, cuja produção se quedou pelas 10 páginas de texto novo ou menos cada um.

Dito isto, fevereiro acabou por ser bastante melhor que janeiro. Fechei mais um conto, aquele que vinha escrevendo desde dezembro, revi outro e dei início a um terceiro, que há de ser escrito ao longo de março. Ou de março e abril, se a coisa correr mal e/ou ele quiser crescer mais do que o previsto. 3200 palavras ao todo, mais coisa, menos coisa, o que é fracote mas não é propriamente o mesmo que zero. É o que vê quem olha para o copo e o acha meio cheio.

Publicar?

Bem, isso é outra conversa. E é conversa para outras alturas. Para já, digo apenas que tenho umas ideias. Vagas, muito vagas, admito sem qualquer pejo. Mas alguma coisa sairá, um dia. Quando e como e onde é que ainda está completamente no ar. No entanto, se ficarem por aí hão certamente de saber. E daqui a um mês, mais dia menos dia, cá virei falar da produção de março. Encontramo-nos lá, se não nos encontrarmos entretanto.

terça-feira, 2 de março de 2021

Irmãos Grimm: Da Morte da Galinha

É-me sempre curioso o descaso com que nestas histórias tradicionais se encara a morte. É certo que Da Morte da Galinha é uma fábula, que mais uma vez parece não ter sido muito alterada pelos Irmãos Grimm, à parte, provavelmente, um apuro literário que o original contado à lareira não teria. É certo que, sendo fábula, as suas personagens são animais e por isso é menos relevante que morram ou não do que se fossem gente, mas não é menos certo que são animais que falam e pensam, o que de certa forma lhes confere alguma humanidade. E no entanto, a sua morte é aqui tratada com absoluta indiferença.

E são mortes em catadupa. Tudo começa quando uma galinha tenta engolir um miolo de noz demasiado grande e fica com ele entalado na garganta, pondo o frango num corrupio para tentar ajudá-la. Com elementos de lengalenga, neste conto o frango pede ajuda, quem (um animal ou objeto inanimado) recebe o pedido negoceia um favor prévio antes de prestar auxílio, e lá corre o frango a tentar satisfazer o favor. Claro que a galinha morre. Mas está longe de ser só ela a morrer. A moral da história parece ser "não te metas, deixa-te ficar sentadinho, não faças nada, não tentes ajudar ninguém, os outros que se governem e se não se governarem azar o deles", porque sempre que alguma personagem acaba por ceder à ideia de prestar alguma espécie de auxílio acaba morta. Um elogio do egoísmo mais completo.

É um conto asquerosozinho, sim. Já não é o primeiro que aqui se encontra e muito provavelmente não será o último.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 1 de março de 2021

Mia Couto: Um Pilão no Nono Andar

Ah, os vizinhos, essa praga. Gente que não tem a mais pequena consideração pela vida em comunidade forçada, que faz qualquer chinfrim a qualquer hora, perfeitamente borrifando para a necessidade de sono ou de sossego que quem mora perto poderá ter, que lança pela janela todos os tipos de lixo porque aparentemente todo o território em volta da pocilga onde moram é a sua lixeira pessoal, que, como no caso desta história, tem Um Pilão no Nono Andar. Que, que, que...

Mia Couto, aparentemente, conhece-os bem. É o que deduzo deste seu vizinho dos infernos, que resolve instalar no seu apartamento um pilão onde a família faz farinha quando lhe dá na real gana. Tunc, tunc, tunc, horas nisto. Um vizinho, incomodado, tenta explicar-lhe que não está sozinho no Universo, muito menos no prédio, que os outros em redor também têm as suas necessidades, os seus quereres, e os seus não-quereres, e que um desses não-quereres é o tunc, tunc do pilão, pedindo-lhe com toda a calma e boa educação para passar a pilar fora do apartamento, nalgum terreno em volta, na cave, algures. Mas depara-se primeiro com uma floresta de impossibilidades e depois, quando finalmente consegue arranjar uma solução que o do pilão aceita, confronta-se com o espírito abusador típico de tais criaturas.

Não é dos contos de Mia Couto que mais me agradaram, este. Mas é demasiado real. Talvez por isso...

Textos anteriores deste livro:

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Leiturtugas #91

Esta semana começou precisamente como a última no que toca às Leiturtugas, com a única diferença de não termos desta vez nada a conversar a respeito de sorteios.

Sim, falo do Marco Lopes. É que ele publicou logo no domingo mais uma opinião sobre mais um volume da série de Allariya de Filipe Faria. Coube a vez ao quinto volume, naturalmente: Vagas de Fogo. Edição original da Presença em 2007 e, claro, nada tem de FC, portanto o Marco passa a 0c5s.

No dia seguinte foi a vez da Cristina Alves, de novo com uma leitura incomum para o que é hábito nela: um romance histórico. De André Mateus, autor de BD, A Coroa de Jesus é um livro publicado pela Ego mesmo a terminar 2020 e nada tem de FC, pelo que a Cristina passa a 2c5s.

Mas também o Artur Coelho marca presença na semana, graças a mais uma das suas brevíssimas opiniões sobre BD, mais desenvolvidas noutro sítio. Cabe a vez a Holy #02, de Rafael Marques e Katiurna, publicado já este ano pela RK Comics. BD, já se sabe, é "sem FC", e o Artur passa a 2c3s.

Esta semana fiquei também em dia no que toca ao que tem sido publicado este ano, pelo que já não há nada atrasado a divulgar entre as publicações a que chamo participantes oficiosos neste projeto. Atrasado deste ano, entenda-se, porque do ano passado ainda temos algum material. E só conto, obviamente, com o que encontrei; é perfeitamente possível que me tenha escapado alguma coisa (e escapou de certeza, porque há malta a publicar opiniões no pior sítio do planeta para fazer isso, o Instagram, uma rede fechada onde só se fala com seguidores deixando o resto do mundo cá fora... e eu pertenço ao resto do mundo). Quem quiser corrigir omissões, tem a caixa de comentários à disposição.

Onde íamos nós? Ah, sim. Material atrasado, pois.

Começamos por outubro, mês em que a anónima autora de Um Tom Diferente publicou um texto sobre A Defensora do Oculto, de Andreia Ramos.

Já em dezembro, a Francisca Moura falava sobre A Segunda Vida de Fernando Pessoa, romance de João Céu e Silva que parece obedecer à definição todoroviana de fantástico.

Também em dezembro, a Anabela Risso escrevia sobre A Demanda do Santo Graal, que parece ser uma adaptação, feita por Irene Freire Nunes, de um antigo manuscrito que contém as lendas arturianas (ou parte delas).

Ainda em dezembro, a Silvana opinava sobre Correria dos Pássaros Presos, FC de Ana Gil Campos.

Também em dezembro, a Daniela refletia sobre As Intermitências da Morte, de José Saramago.

Por fim, dezembro foi também o mês em que a Magda Pais publicou, entre outras, uma breve opinião sobre Imortal, romance de José Rodrigues dos Santos.

E para a semana haverá mais, mas não muito mais, pelo menos no que toca ao material atrasado. Isto está quase feito. Depois vamos entrar num ritmo mais normal e estes posts vão regressar a um tamanho mais comedido. Até lá.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Mia Couto: O Rio que Bebeu o Homem

Duas páginas de história fantástica, este O Rio que Bebeu o Homem começa quase como uma história de terror. Um homem surge a boiar num rio, claramente morto, causando consternação aos habitantes da região e levando-os a tentar recuperar o cadáver, para lhe darem um fim condigno e para evitarem que a decomposição do corpo lhes estrague a água. Mas Mia Couto não dá às suas personagens tarefas assim tão simples: por mais que porfiem, por mais numerosas e engenhosas as suas estratégias, os populares não conseguem retirar o homem do rio.

O prodígio torna-se claro quando, não contente com impedir que o cadáver dele saia, o rio parece decidir que a melhor forma de ficar com ele é conduzi-lo de volta rio acima, e é o que faz, puxando o corpo contra a corrente até à foz. Aí... bem... aí compreende-se a razão do título.

É um conto fantástico bastante bom, este, mas falta-lhe aquele significado subjacente, aquele nível mais profundo de leitura, que enriquece tantas das histórias de Mia Couto. Ou lhe falta ou sou eu que não o encontro, o que é perfeitamente possível. Seja como for, é um bom conto.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Ângelo Brea: Estação Lunar Alfa

Para fãs de FC de uma certa geração, as palavras "Estação Lunar Alfa" trazem imediatamente à memória uma determinada base lunar, cenário de uma série de histórias decorridas (ou pelo menos iniciadas) no então futurista ano de 1999. É certo que as instalações da série se chamavam "Base" e não "Estação", mas a associação é óbvia, imediata, e mais se intensifica com a descrição que Ângelo Brea faz da sua estação logo a abrir esta noveleta. Há aqui clara homenagem. E isso, cá pra mim, é um ponto a favor que a história ganha logo à partida.

Mas não é o único, pois esta noveleta é bastante melhor do que a maioria dos contos lidos até agora. É certo que o estilo continua o mesmo (e continuará até ao fim, certamente; é o estilo de Brea) e não me agrada muito, mas não é menos certo que esse estilo se adequa bem a esta história de FC policial que consegue sustentar o interesse do leitor (ou deste leitor, pelo menos) de princípio ao fim.

Tudo se passa na Lua, claro. Na Estação Lunar Alfa acontece um assassinato, o primeiro desde que existe uma presença humana permanente no nosso satélite. Uma mulher aparece morta e o homem destacado para a estação como polícia, e que até aí se vira sem nada para fazer, vai começar a investigar o caso. E fá-lo com eficiência, a qual também existe na forma como Brea vai transmitindo aos poucos ao leitor a informação necessária. No fim, fica a sensação de um tempo bem empregue na leitura, mesmo que acabe por não haver nada de particularmente original na história, à parte a ambientação. Trata-se de um whodunnit bastante clássico, sob todos os aspetos, que calha ambientar-se numa base lunar. Mas o certo é que funciona.

Contos anteriores deste livro:

Mário de Carvalho: A Pedra Preta

Mais uma opinião muito curta. É que este A Pedra Preta (bibliografia) é um dos contos de Mário de Carvalho incluídos na Antologia do Humor Português e foi lido por mim nessa altura. Relendo o que então escrevi, descubro que não tenho grande coisa a acrescentar ou a retirar (não tenho nada, mais propriamente), pelo que basta este paragrafozinho a remeter para lá quem estiver interessado e passemos ao próximo. Siga!

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Mia Couto: A Mancha

Eu até gosto dos contos realistas do Mia Couto; já ficou para trás uma série de opiniões que me desmentiriam se não fosse verdade. Mas os fantásticos são outra coisa. É nos contos fantásticos, parece-me, que a união da prosa repleta de magia linguística com as histórias propriamente ditas, cheias de outro tipo de magia, forma um todo que se eleva a um patamar superior. A Mancha é uma dessas histórias fantásticas. E eu já andava com saudades delas.

E também é um conto duríssimo. O protagonista é um homem, pobre, descamisado, que anda a viajar pelo mato sem sabermos o motivo. Nem interessa. Nisto, encontra um casaco de uniforme militar, em perfeito estado e aparentemente sem dono. Matuta longamente no que fazer. Por um lado, sente falta de alguma roupa que o proteja dos elementos. Por outro, vestir uniforme pode ter consequências indesejáveis, até perigosas. E se o alvejam?

Acaba por decidir envergar a vestimenta. Soa um tiro. Apalpa-se, está incólume. Mas algo corre mal. Surge uma mancha de sangue no casaco, sem origem que se compreenda. E o final do conto torna-se inevitável. Porque o que Mia Couto aqui diz é que o hábito pode não fazer o monge, ou a farda o soldado, mas quem o ou a veste acaba sempre por sofrer as consequências do ato. Seja ou não inocente à partida, a vestimenta destrói essa inocência. A mensagem é forte, o conto excelente.

Textos anteriores deste livro:

Mário-Henrique Leiria: Ternura

O mais curto dos contos ou fragmentos da série de Josela, este Ternura (bibliografia) é apenas um miniconto com menos de uma página de extensão, no qual Mário-Henrique Leiria espreita mais um género: o horror.

Não sei muito bem como falar deste continho sem revelar demasiado. É que é uma daquelas histórias concebidas desde o início (e neste caso "desde o início" é mesmo literal, porque o próprio título contribui para isso) para amplificar o impacto do final. Dito de outra forma, é uma daquelas histórias em que o famigerado conceito de spoilers de facto faz sentido.

Tudo é normal, pelo menos quanto ao que de normalidade existe no mundo de Josela, até que esta chega um dia a casa atrasada, trazendo um carrinho de bebé com um bebé dentro. E já percebem a "ternura", julgam vocês, mas a verdade é que não percebem porque a partir desse momento o conto começa a tomar tons cada vez mais macabros. O certo é que a história está muito bem feita: consegue ser macabra e horrenda sem deixar de ser divertida e sem deixar de incluir a aguçada crítica social tão característica de Leiria. E tudo em coisa de meia página.

É pena Mário-Henrique Leiria ter escrito tão pouco, especialmente nos géneros que mais me dizem. Esta é uma ideia que não me larga sempre que o leio.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Leiturtugas #90

E quem ficou com O Último Extraterrestre do Jorge Borbinha foi a Tita d'O Prazer das Coisas. Parabéns a ela e boas leituras!

Mas esperem: isto é um post de divulgação de Leiturtugas. Há Leiturtugas a divulgar?

Há, pois! Bué delas.

A semana começou, mais uma vez, com o Marco Lopes, que publicou a sua opinião sobre outro dos romances de Allariya, do Filipe Faria. Coube agora a vez a A Essência da Lâmina, o 4º volume, publicado originalmente em 2005 pela Presença, claro. Nada de FC, naturalmente, e o Marco passa a 0c4s.

Depois chegou o Jorge Candeias, este gajo que aqui escreve, com a sua/minha opinião sobre a antologia organizada por Flávio Moreira da Costa com o título de Os Melhores Contos Fantásticos e publicada pela editora brasileira Nova Fronteira em 2006. Um belo calhamaço. E tem FC, muito pouca mas tem, só que não na parte lusófona. Ora, como o que conta é a parte lusófona, conta como "sem FC", pelo que eu passo a sinalefar 2c1s.

No mesmo dia, o Artur Coelho publicou a sua opinião sobre um conto que Mário de Seabra Coelho publicou em inglês já este ano na Strange Horizons, Ootheca. Pelo texto do Artur fiquei com a sensação de que o conto contém alguma FC, embora o foco seja outro, pelo que ele passa a 2c2s.

Dias depois, o Jorge Candeias voltou à carga. Desta vez a opinião foi sobre o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas, antologia organizada por Jeff Vandermeer e Mark Roberts, com componente lusófona organizada por João Seixas. Foi publicada pela Saída de Emergência em 2010 e sim, tem FC, inclusivamente na parte portuguesa, portanto passei a 3c1s.

Entre os oficiosos, temos uma opinião da Raquel sobre um livro de fantasia chick lit publicado pela Chiado. Como é de norma no subgénero, tem um título de uma palavra só e, para tentar imitar as coisas que vêm lá de fora, essa palavra está na capa em inglês e em português: Broken - Despedaçada. A autora? Tânia Dias.

E quanto às leituras atrasadas, temos em julho o Paulo Brito a apresentar uma opinião de duas linhas, que voltei a hesitar em incluir ou não mas acabei por incluir pelos mesmos motivos por que incluí as outras. Fiquei com a ideia de que se trata de uma história (fotograficamente) ilustrada de David Soares: O Homem Corvo.

Em agosto aparece a Inês Pereira a falar sobre o romance mais polémico de José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

O mesmo O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do mesmo José Saramago, foi alvo de um post em setembro, agora da Daniela.

Em outubro, encontramos a Katrina a comentar a novela de (ou com) proto-FC de Mário de Sá-Carneiro, A Estranha Morte do Professor Antena.

Também em outubro, a Anabela Risso escreveu sobre um livro de Afonso Cruz cheio de fantástico: O Livro do Ano.

Ainda em outubro, a Maria Manuel Magalhães falou sobre A Rapariga Invisível, romance fantástico de Carlos M. Queirós.

Em novembro apareceu o Pedro Miguel Silva a falar sobre O Mistério da Boca do Inferno, de Fernando Pessoa, que gira em volta do alegado suicídio de Aleister Crowley em Cascais.

Também em novembro, surge o "leitor reconfortado" a comentar 3020: A Conspiração da Atlântida, romance de FC de R. C. Colaço.

E ainda em novembro, a Silvana é mais uma pessoa a falar sobre o conto Correntes, de Patrícia Morais.

Em dezembro, a Inês Morais falou sobre Eroticontos, uma antologia organizada por três canais de booktubers que parece conter algum fantástico.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Mia Couto: Mezungos

A palavra Mezungos, diz uma nota que abre este conto, significa brancos, e quando o leitor fica a saber esta informação fácil é chegar à conclusão de que a ideia de Mia Couto é falar aqui sobre relações raciais. E o leitor não se engana, propriamente, ainda que não seja bem isso. Ou só isso.

O conto arranca quando um negro bêbado, adequadamente sujo e maltrapilho, entra sem ser convidado numa festa de gente bem na vida. Não sozinho, não. Acompanha-o um cabrito engravatado. O que o leva lá? Pois vai lá buscar o filho, que segundo ele estaria no meio dos mezungos e ele, simples preto humilde, como chama a si mesmo, quer levá-lo para casa. Os outros, claro, não gostam, e depois de tentarem explicar-lhe que não o filho não está lá, acabam a tentar expulsá-lo. É que ali são todos negros, não há brancos presentes. Mas o homem, quando os outros lhe dizem que são negros como ele, não acredita, chama-lhes brancos disfarçados de negro, e as coisas só não acabam mal porque ele resolve ir-se embora para denunciar a impostura às autoridades.

Este é um conto duríssimo, por maior que seja a poesia que o reveste. É um conto que acusa diretamente as elites aburguesadas do Moçambique independente de replicarem a tal ponto os tiques e as práticas da administração colonial que se torna difícil distinguir uma coisa da outra. Por isso o bêbado lhes chama brancos disfarçados: não vê nenhuma diferença real. É um conto muito bom, este.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Vandermeer e Roberts (orgs.): Doenças Excêntricas e Desacreditadas (#leiturtugas)

Há já bastante mais que um ano que os visitantes regulares aqui da Lâmpada vêm vendo quase todas as semanas várias aparições desta capa que está aqui ao lado nos posts do blogue. A explicação para isso está na lista que encerra este: o raio do livro tem uma quantidade enorme de textos.

É que não bastava que o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas (bibliografia) original, aquele compilado pelos "doutores" Jeff Vandermeer e Mark Roberts, já fosse acalhamaçado à partida; esta edição ainda lhe acrescentou coisa de 100 páginas sob a forma do Compêndio Médico Calamar Trindade de Doenças Notáveis e Invulgares, compilado pelo "dr." João Seixas. Isto é: a mesma coisa só que de autores portugueses e brasileiros.

O resultado é aquela catrefada de links que podem encontrar ali em baixo.

E o que é isto, afinal?

Quem foi seguindo as múltiplas publicações que fui aqui fazendo sobre os textos já terá compreendido, mas aos outros que possam cair aqui de paraquedas, eu explico. Trata-se de um compêndio médico de doenças bizarras, todas elas falsas; um pseudofactual muito borgesiano à partida, que transpõe para o território da "medicina" charlataneira aquilo que Borges fazia com a literatura obscura ou as personagens infames da história. Isto apesar de nem todos os autores terem seguido uma abordagem estritamente borgesiana à ideia. O que de resto é natural e bom: não creio que a ideia fosse fazer pastiches de Borges mas sim adaptar o estilo de cada um a este tipo de literatura pseudofactual.

E é bastante bom. Não que todos os textos o sejam, naturalmente, pois seria altamente improvável que não aparecesse uma pedrinha ou outra no meio das ervilhas, mas em geral o nível é bastante elevado e há um punhado de autênticas pedras preciosas nestas páginas. E há de quase tudo, ainda que os elementos predominantes sejam o humor e a ironia e o fantástico nas suas várias vertentes. E sim, incluindo a ficção científica. Ela está presente em quantidades escassas, mas está.

Quanto à parte de língua portuguesa, não deslustra. Sim, não atinge — em média — a qualidade do material traduzido, sim, inclui uma proporção maior de textos mais fracos e tem um quinhão razoavelmente grande dos mais fracos de todos, mas também inclui alguns textos muito bons, dos melhores de todo o livro. É mais desequilibrada, mas está muito longe de ser má. E, de uma forma geral, os autores lusófonos presentes perceberam bem a ideia e entraram bem na brincadeira.

Este é um bom livro. Não é livro para toda a gente (à parte o próprio Lambshead não existem aqui personagens dignas desse nome, por exemplo), mas é um bom livro. Os apreciadores de Borges, em especial, devem gostar bastante dele.

Eis o que achei de cada um dos textos deste livro:
Este livro foi comprado.

Irmãos Grimm: A Ondina

Mais um continho muito pequenino, sem chegar sequer a uma página, e também mais um conto a que os Irmãos Grimm não parece terem feito nenhuma alteração significativa. E mais um conto dirigido às crianças, servindo como história cautelar para os perigos dos poços. É que A Ondina vive num poço, e se as crianças lá caem acabam escravizadas e subalimentadas porque a ondina é má.

Esta é a história de duas crianças que aparentemente não sabiam que assim era. Um irmão e uma irmã, as duas caem ao poço, acabam escravizados pela ondina até que conseguem fugir graças a uma série de artes mágicas que não se sabe como adquiriram, num dia em que a ondina sai para ir à igreja. E é este pormenor o que o conto tem de mais interessante.

É que esta história é, muito claramente e como tantas outras, uma história de fundo pagão, muito anterior à chegada do cristianismo a terras germânicas (ou mesmo europeias, provavelmente). Ora, até agora encontrei três estratégias de sobrevivência para este tipo de história e esta foi o primeiro caso da terceira: continuar como se nada fosse, mantendo intactos os elementos pagãos; manter a estrutura da história intacta mas enchê-la de anjos e demónios e deus ex machina em substituição das criaturas mágicas de antanho; dar a entender que também estas criaturas são cristãs. Foi a estratégia seguida aqui: ao dizer que a ondina vai à igreja, a história está a dizer que até as criaturas mágicas dos poços (neste caso; podiam ser da floresta ou de qualquer outro lugar) obedecem aos preceitos do cristianismo, mesmo conservando todo o seu caráter maligno original. Et voilà: o padre ou pastor passa a ter menos um argumento para condenar estas "superstições do povo simples". Curioso.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Mia Couto: As Medalhas Trocadas

Deve haver qualquer coisa nas medalhas que desperta nos escritores, esses iconoclastas, uma irresistível tentação para a troça. Não em todos, imagino, que conheço alguns que provavelmente enfunariam o peito medalhado como pavões no cio. Mas em muitos. E Mia Couto, pelos vistos, é um deles.

E digo pelos vistos porque em As Medalhas Trocadas ele se arma de corrosiva ironia para narrar a vida de um desgraçado que os colonizadores portugueses primeiro e depois um senhor búlgaro de quem ele nunca tinha ouvido falar acharam por bem medalhar, sem que ele percebesse porquê ou achasse nisso alguma razão ou motivo. De facto, tudo indica que as medalhas eram para outro e lhe foram dadas por engano. Poderia pensar-se que era uma sorte receber assim medalhas sem fazer nada por isso, mas não. O desgraçado vê-se perseguido a vida inteira por aquelas porcarias, pois atrás de tempos tempos vêm e aqueles que hoje estão na mó de cima depressa poderão ver-se atirados para a mó de baixo pelo moinho da História, e ai de quem seja associado a eles, merecida ou imerecidamente.

É uma verdade universal que os ditadores odeiam o humor. Eles bem sabem porquê; é que o humor, a ironia, até mesmo o sarcasmo, servem frequentemente para denunciar coisas muito sérias, quer tenham um fundo de ridículo quer não tenham. As medalhinhas certamente têm, e Mia Couto explora-o bem. Em tudo.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Flávio Moreira da Costa (org.): Os Melhores Contos Fantásticos (#leiturtugas)

Serão estes, realmente, Os Melhores Contos Fantásticos (bibliografia)? São-no, certamente, na opinião de Flávio Moreira da Costa, organizador desta antologia (a menos que tenha havido alguma questão com direitos, pelo menos no que toca às histórias mais modernas, que tenha levado à exclusão de uns e à inclusão de outros, o que desconheço). Mas serão mesmo "os melhores"? E o que significa realmente isso de "os melhores" contos fantásticos? Melhores em quê, ao certo?

Não sei. E consigo lembrar-me de contos de praticamente todos os autores aqui presentes e cuja bibliografia conheço de forma menos limitada que me parecem tão bons ou até melhores que os contos que aqui se apresentam. E também há uma panóplia de outros autores, especialmente entre os mais recentes, que me agradam mais do que vários dos que aqui aparecem, por razões objetivas e subjetivas. Mas lá está, nestas coisas há sempre uma componente de subjetividade, por mais que se tente ser objetivo; o que agrada a Fulano desagrada a Sicrano e nem sempre há grande diferença entre a bondade das razões de um e outro. Por isso, de resto, é que opiniões múltiplas e contraditórias são não só naturais como necessárias e até enriquecedoras, desde que os motivos para cada uma sejam bem explicados. E quanto ao que é influente, fator que também entra nestas contas, bem, depende de para onde se olha e como. Aqui não se encontra Dunsany, por exemplo, por mais que seja inegável a imensa influência que ele teve num vasto e muito bem sucedido género literário contemporâneo.

O que quero dizer com isto é que todas as escolhas, quando se compila um conjunto de "os melhores contos" seja do que for, são inerentemente discutíveis. Portanto nenhum desses conjuntos deve ser encarado como uma compilação definitiva. Nunca. Deve ser olhado como aquilo que é: uma opinião, individual ou coletiva, mais ou menos abalizada, entre muitas outras opiniões possíveis.

E há coisas na opinião do Flávio Moreira da Costa de que gostei particularmente. Gostei bastante, por exemplo, da ideia de lidar com textos antigos e sacralizados como as ficções fantásticas que são. Também gostei da preocupação em ser abrangente em vez de se cingir ao habitual eixo anglófono-francófono-germanófono de tantas compilações deste tipo, apesar de continuar aqui a haver algumas ausências gritantes: o continente africano, o médio oriente, etc. Mia Couto, no mínimo dos mínimos, mereceria figurar na secção lusófona, e Agualusa também, embora a sua exclusão se possa dever às mesmas razões que levaram à exclusão de muitos outros autores razoavelmente modernos, suponho.

Esta parte lusófona, de resto, é outra decisão editorial que me parece particularmente feliz. É demasiado frequente que as compilações dos "melhores contos" deste ou daquele género se limitem a material traduzido, esquecendo que a língua portuguesa também os produziu (e transmitindo a ideia de que o que existe não existe ou de que o que é nosso está sempre e inevitavelmente vários patamares abaixo do que vem de fora).

De resto, trata-se de uma compilação de textos clássicos, com tudo o que isso acarreta. Muitos destes contos são daqueles textos que surgem repetidamente em publicações antológicas, e o leitor experiente já terá, inevitavelmente, tomado contacto com muitos deles. O nível é seguramente alto, e inclui alguns contos extraordinários, ainda que nem todos me tenham convencido por inteiro, em boa parte, mas não exclusivamente, por questões de gosto literário.

Tudo somado, o resultado é um bom livro. Com os seus detalhes discutíveis? Certamente. Raros são os casos em que não existe nenhum detalhe discutível. Mas este livro é bom. Pessoalmente preferiria que me tivesse surpreendido mais, mostrando-me menos contos que já conhecia, mas como é evidente não posso culpar Moreira da Costa por aquilo que já li.

Eis o que achei de cada um dos textos deste livro:

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Ângelo Brea: Doze Anos em Titã

Eu já andava com a impressão de que as influências e a abordagem do galego Ângelo Brea à FC tinham muito a ver com as de um autor português que li muito recentemente: António Bettencourt Viana. E ao ler esta noveleta, que apesar do título não é bem sobre Doze Anos em Titã, a impressão transformou-se em certeza.

Aqui se encontra a mesma pulsão pedagógica (pelo menos aparente), a mesma tendência para a explicação detalhada de fenómenos e ambientes, a mesma secundarização relativa da história face ao desenvolvimento do cenário. E o mesmo estilo despojado, direto, seco. Tudo isto são características que, dependendo das histórias e dos autores, tanto podem ser boas como más, mas aqui encontramos também alguns dos mesmos defeitos absolutos, como a queda no "como-sabes-Zé", aquelas explicações que as personagens dão umas às outras para benefício exclusivo do leitor, pois ambas têm a obrigação de estar ao corrente de todas as informações que transmitem.

Não sei quando Brea escreveu esta história, que o livro não o diz, mas desconfio que terá sido largos anos antes da sua inclusão neste volume. Parece-me a explicação mais plausível para tão grande classicismo de estilo, em especial quando conjugado com algumas fragilidades de monta na caracterização científica do ambiente. Um exemplo: a história passa-se em Titã, lua de Saturno que recebeu uma visita da sonda Huygens uma década antes do livro sair em 2014, ano que não está assim tão distante no passado. Já então se sabia com total certeza que é o gelo de água a fazer, à superfície de Titã, as vezes de rocha, e no entanto Brea cria uma base mineira superficial a sofrer com falta de água, a qual tem de ser trazida de algures em grandes naves cargueiras. E a base mineira produz metano, o qual é levado para a Terra por "metaneiros", naves equiparáveis aos navios petroleiros do mundo real, o que ignora por completo o efeito que o metano e a sua queima têm sobre o clima global (a queima de metano, CH4, produz dióxido de carbono... mais dióxido de carbono). E já nem falo da absurda economia de trazer naves tripuladas carregadas com uma substância que se pode produzir aqui mesmo com CO2 ou moléculas orgânicas variadas, água e alguma energia (solar, por exemplo... ou simplesmente deixando certas espécies bacterianas tratarem disso), desde a imensa distância de 9,5 unidades astronómicas, pois a subestimação das distâncias cósmicas é mato na FC.

Mas a construção do ambiente na base e as relações interpessoais (ou pessoal-robóticas) que Brea cria estão bem conseguidas, o que acaba por conferir algum interesse à noveleta. E podia ser bastante mais interessante se houvesse uma linha narrativa minimamente sólida. A história gira em volta do comandante da base, narrando o seu dia-a-dia num momento em que se confronta com uma série de questões que passam pela sua permanência em Titã durante mais algum tempo, o início da expansão da base, a gestão dos timings de pouso, estadia e descolagem dos vários metaneiros que procuram a base, e os problemas gerados pelas respetivas tripulações, mas é tudo pouco consistente. É um retrato, não propriamente uma história, o que reduz o interesse que a noveleta poderia ter.

Contos anteriores deste livro:

Mia Couto: A Prenda do Viajante

Nos últimos tempos tenho, a propósito deste livro, falado muito sobre a diferença que me parece encontrar entre o conto e a crónica, mesmo quando se chama crónica a tudo. E Mia Couto parece ter decidido abrir um furo no meu argumento, porque este A Prenda do Viajante tem todo o ar de coisa acontecida, que ele narra à sua maneira. Pode não o ter sido, pode ser só o ar. Pode ser apenas efeito de ele ter decidido contar esta história na primeira pessoa. Mas o facto é que o resultado se tornou algo híbrido. Algo incerto, pelo menos no contexto de um livro intitulado Cronicando. Será isto ficção? Será narrativa de factos reais? Será as duas coisas, uma crónica ficcionada? Desconheço.

Mas na verdade pouco interessa. Esta é uma história engraçada sobre encontros e perplexidades culturais. Um viajante (o próprio Couto?) viaja para uma ilha, sem nome mas habitada. A viagem, demorada pelas autoridades que têm de analisar demoradamente os documentos, é feita de barco, claro, e quem fala de barco fala também de barqueiro. Este cobiça um cantil ao viajante, o qual lho oferece. Mas o viajante não está preparado para o pagamento da oferta; outra oferta, como é de norma nas sociedades que não querem conhecer o dinheiro.

Terá acontecido? Mia Couto o saberá. Podia ter acontecido, e suponho que isso baste. Esta não é das melhores histórias deste livro, mas não deixa de ser também uma boa história.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Leiturtugas #89

Ora cá temos então a semana em que saem os resultados do primeiro sorteio de 2021. Mas antes o mais importante: as Leiturtugas da semana.

Entre os participantes oficiais no projeto, o primeiro a fazer uma aparição esta semana foi o Marco Lopes, opinando sobre mais um romance de Allariya, de Filipe Faria. Chegou a vez de Marés Negras, o terceiro volume da série, publicado originalmente em 2003 pela Presença. Nada de FC, claro, e o Marco passa a 0c3s.

Seguiu-se-lhe a Cristina Alves, com mais uma opinião sobre um ebook de ficção científica. Intitulado Despojos da Noite — Ração do Dia, trata-se de um conto de Maria Reis publicado pela Universidade do Porto na mesma coleção que também publicou Barreiros e Luís Filipe Silva. E assim a Cristina segue a grande velocidade com 2c4s. A continuar assim, cumpre os mínimos antes do verão.

Entre os oficiosos, a semana começou e acabou com uma opinião de alguém que assina apenas como "Leitor Reconfortado". O objeto da opinião é um romance de Nuno Gomes Garcia intitulado Zalatune; uma distopia de futuro próximo. FC, portanto.

E agora vamos ao sorteio do livro do Borbinha. Temos vídeo, como sempre, e aqui está ele:


O vídeo é uma porcaria, sim. Como lá digo, já arranjei um software catita para gravar diretamente o écran mas falta-me um microfone para gravar o áudio em simultâneo. Depois de fazer o vídeo lembrei-me de que posso gravar o áudio no telemóvel, com o único inconveniente de ter de editar o vídeo para pôr o áudio no lugar, mas não quis estar a repetir o sorteio para fazer isso (nem gastar agora tempo a aprender a fazê-lo). Ficará para a próxima. Agora o que interessa é o resultado.

E o resultado é: depois de ameaçar duas vezes ir parar às mãos da Carla Ribeiro, uma às da Cristina Alves (que não o quereria, imagino, porque foi ela que o forneceu) e uma às minhas, o livro acabou por vir mesmo parar às minhas. Mas! eu também não o quero: já cá tenho um exemplar em casa. Portanto o passo seguinte será contactar a Tita para ver se o quer e, se não quiser, seguir a lista final até que alguém aceite o livro. Para a semana digo-vos quem acabou por ficar com ele.

O próximo livro a ser sorteado será um livro do António Bizarro, em abril, com base na situação de leituras e comentários em final de março. Temos dois meses para ver o que aparece por aí.

Para terminar, mais algumas Leiturtugas atrasadas (i.e., de 2020) de não participantes no projeto:

Em junho, o Carlos Faria comentou sobre A Torre da Barbela, romance fantástico de Ruben A.

Em agosto, a Andreia Ferreira falou de Adeus, de Susana Almeida, romance onde parece haver um toque de sobrenatural.

Em outubro, o Pedro Miguel Silva escreveu sobre O Ano Sabático, romance de João Tordo que parece muito próximo do realismo mágico e/ou dialogar com O Homem Duplicado de Saramago.

Por seu turno, e também em outubro, o LV Paulo escreveu um brevíssimo comentário sobre a antologia Contos Fantásticos, publicada pelo Fantasporto há algumas décadas.

Continuando em outubro, o António Bizarro comentou o conto A Arca, de Joel G. Gomes, que parece situar-se algures entre o horror, o fantástico e a ficção bizarra, por aí.

E ainda em outubro, a Katrina comentou o conto Correntes, autoeditado por Patrícia Morais e que já tinha aparecido por aí.

Já em novembro, a Almerinda comentou um romance de realismo mágico de Lídia Jorge, o conhecido O Dia dos Prodígios.

Também em novembro, a Charneca em Flor falou de outro romance fantástico, com o seu quê de distopia, desta feita de José Saramago, o Ensaio Sobre a Lucidez.

E por esta semana basta, que o post já vai longo. Para a semana há mais, quer novos, quer antigos. Até lá.

Mário de Carvalho: Aquela Corda

E um belo dia aparece no Beco das Sardinheiras uma corda. Uma corda vulgaríssima de Lineu, pelo menos na aparência visto que ninguém chega a deitar-lhe a mão, não fosse o facto insólito de estar pendurada do céu.

A corda, Aquela Corda, causa no beco a comoção que facilmente se adivinha. É isso, a comoção, que Mário de Carvalho descreve neste conto, com a graça e o bom português do costume. No entanto, esta história é claramente pior que as duas anteriores. É que o conto acaba porque a corda se limita a desaparecer, puf, e isso é uma forma muito insatisfatória de resolver uma história que deixa a ideia de ter terminado assim pura e simplesmente porque o autor não soube bem o que fazer mais com ela.

Este fim não chega a estragar a história, que não deixa de ser engraçada por isso (pelo menos até aí), mas deixa um saborzinho amargo no fim da leitura, lá isso deixa.

Contos anteriores deste livro:

Anónimo: Dados Biográficos

Já tinha aparecido neste livro outro texto (ou conjunto de textos) anónimo intitulado Dados Biográficos (bibliografia), e o que disse então sobre ele poderia dizer quase integralmente sobre este. As diferenças entre um e outro são pequenas, visto que estas minúsculas historietas biográficas dos alter-egos médicos dos autores lusófonos que aqui contribuíram são fortissimamente inspiradas pelas equivalentes não lusófonas. Curiosamente, a diferença que mais salta à vista é estas historietas serem de uma forma geral menos engraçadas que as dos autores traduzidos. O humor parece ser um pouco mais básico, mais meia-bola-e-força, menos pensado. Ou talvez simplesmente menos britânico, não sei.

O que sei é que estas são umas ficçõezinhas a tender para o engraçado, que apesar disso não deixam de ser razoavelmente informativas sobre quem é quem. E, agora que penso nisso, talvez esteja também aqui parte da explicação para um humor menos bem conseguido: a parte não lusófona é composta quase integralmente por autores muito conhecidos, que não têm necessidade de dizer "eu sou Fulano de Tal", podendo portanto dar rédea solta à imaginação; em contraste, a parte lusófona inclui muito poucos autores (re)conhecidos, pelo que essa necessidade se torna bastante maior, como é natural. E isso tem consequências.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

J. A. Dall'Agnol: Transtorno Fóbico-Ansioso-Raivoso de Substituição em Partidas de Futebol

Duvido que haja grande diferença entre a alienação pelo futebol que existe em Portugal e no Brasil, pelo menos entre a porção da população que se deixa alienar pelo "esférico rolando sobre a relva", na feliz expressão do José Estebes. Duvido que se diferenciem muito os rituais, a irracionalidade dos clubismos, a catarse de frustrações, o tribalismo, e podia ficar aqui um dia inteiro a elencar ismos e provavelmente não terminaria. Mas só o Brasil transformou o futebol (e o carnaval) em característica nacional de um povo inteiro, por mais que todos os que conhecem mais que dois ou três brasileiros tenham encontrado vários que pura e simplesmente não gostam de bola (ou de carnaval), o que desde logo prova a falsidade do estereótipo. É como o que os portugueses fizeram com o fado, a saudade, toda essa inerte melancolia, usada para caracterizar um povo que, na sua maioria, na maior parte das situações, pouco ou nada tem a ver com ela.

De modo que não será surpresa para ninguém que eu vos diga que J. A. Dall'Agnol, autor de uma história sobre uma doença chamada Transtorno Fóbico-Ansioso-Raivoso de Substituição em Partidas de Futebol (bibliografia), é brasileiro.

E que doença é essa? Dall'Agnol usa um expediente comum em muitas das outras ficções desta antologia, transformando em doença uma atitude comum: a irritação do jogador de futebol quando o treinador o substitui por outro. E fá-lo com graça, num texto longo (dos mais longos de todo o livro, parte traduzida incluída) cheio de exemplos nos quais a irritação é exagerada até ao absurdo, cada qual mais caricato que o outro, e metendo até candomblé ao barulho. É um bom conto, ainda que a sua extensão ameace por vezes torná-lo um tanto ou quanto cansativo... pelo menos para mim, que não tenho grande interesse pelo tema; é perfeitamente possível que a um leitor mais futeboleiro do que eu o conto chegue até a saber a pouco. Mas como aqui quem escreve sou eu e as opiniões são minhas...

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Mia Couto: Pela Gravata Morre o Tímido

De regresso aos contos, aqui Mia Couto enche-se de humor, parecendo glosar a velha conversa sobre juntar a fome à vontade de comer. Sim, que Pela Gravata Morre o Tímido é uma história de amor, de certa forma, protagonizada por um ele que era tímido patológico, incapaz de entabular uma conversa que fosse com um elemento do sexo oposto, e por uma ela que era gorda e complexada, por isso convicta de que nenhum homem iria olhar duas vezes para ela.

São os amigos que os atiram para os braços um do outro e eles deixam-se atirar, a princípio com todas as dúvidas e inseguranças devidas à situação e às personagens, até que — lá está — a fome se encontra com a vontade de comer e cá vai disto. Não se sabe se viveram felizes para sempre, mas pelo menos o conto acaba em alta, por assim dizer.

Este não é dos melhores contos de Mia Couto, é certo; está até algo distante de o ser. Mas é divertido. E está, claro, muito bem escrito.

Textos anteriores deste livro: