terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Ray Bradbury: A Segadeira

Na literatura, inclusivamente naquela que gosta de se apresentar como a mais original, é pouco o que realmente se cria. As ideias, muitas vezes as mesmas sofrem múltiplas variações e recombinações e/ou são executadas de formas distintas por autores distintos. Há quem julgue que isso é plágio, mas não é. Não há plágio de ideias ou de conceitos; só a execução dessas ideias e conceitos é plagiável. Tudo o resto é intrínseco aos intercâmbios culturais que fazem parte do desenvolvimento de qualquer cultura, e é muito frequente que uma dada ideia surja em múltiplos momentos e sob múltiplas formas sem que sequer haja qualquer espécie de fecundação cruzada entre os criadores. Qualquer criador que seja honesto consigo próprio (e já para não falar dos outros) sabe que já teve ideias que veio a encontrar mais tarde em obras de outras pessoas, já teve ideias que só depois de as ter (às vezes muito depois das ter) compreende que nascem de sementes plantadas anos ou décadas antes por qualquer obra experimentada e depois esquecida, pelo menos na aparência, e muitos sabem também que já reutilizaram com plena consciência esta ou aquela ideia alheia.

Pois bem, não sei se Saramago leu ou não Ray Bradbury e, se leu, se terá ou não lido este conto. Podemos ter aqui contaminação de ideias, e igualmente podemos ter o desenvolvimento independente de uma ideia semelhante. Mas o que é facto é que este A Segadeira (bibliografia) tem elementos importantes em comum com um dos romances tardios de Saramago: As Intermitências da Morte.

Com efeito, também aqui temos a figura da Morte, que a páginas tantas se rebela. Não da mesma forma, no entanto. Talvez até se possa dizer que da forma oposta: enquanto a Morte de Saramago se rebela por amor, a morte de Bradbury fá-lo por desgosto. Também a morte é diferente, sendo a de Saramago a figura tradicional da Morte, nada mais sendo a de Bradbury que um pobre diabo que um certo e fatídico dia vai dar a uma quinta no oeste dos EUA, no meio, aparentemente, do período de fome generalizada que se seguiu ao Dust Bowl, nos anos 30, e onde encontra comida, uma seara pronta para ser colhida, um homem deitado na cama, morto, e um papel onde este transfere a propriedade da quinta para aquele que o encontrasse e a quisesse.

O conto segue depois o processo de descoberta por parte do homem das estranhas características daquelas espigas e do que elas realmente significam. E as consequências que tem essa descoberta, tanto para ele quanto para o mundo cá fora. É um conto muito bom, este; mais um dos grandes contos de Bradbury.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Em novembro falou-se de...

Francamente positivo, este mês de novembro, tanto no que toca às leituras de FC portuguesa, quanto no que toca (ou sobretudo no que toca) às de FC brasileira. Mas antes, vamos à conversa habitual dedicada àqueles que encontram pela primeira vez um post destes.

O que é isto, perguntam? Está explicado aqui. É o primeiro destes posts, e aí também se explica de onde vêm os dados, que limitações têm e o que se pretende com estas listas.

Listas, interrogam-se? Sim, que são já muitas e provavelmente virão a ser ainda mais. Todos os posts destes são reunidos pela etiqueta leituras fc, e se por acaso cá caírem depois de começar 2020 é praticamente certo que encontrarão não só as que ficaram para trás como aquelas que eu ainda não escrevi no momento em que aqui desenho estas linhas. E, claro, há estas que estão aqui por baixo.

Vamos então a elas, não sem que antes vos diga que no fim deste post haverá alguns comentários sobre o que aqui fica listado.

Ficção portuguesa:
  1. Almanaque Steampunk 2019, org. ??
  2. Aquilo, de Pedro Afonso (conto)
  3. O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, de João Barreiros (2x)
  4. Terrarium, de João Barreiros e Luís Filipe Silva
  5. Uma Manhã em Lisboa, de Nuno Fonseca (conto)
  6. A Anos-Luz, de Carmen Garcia
  7. Facelist, de Paulo Kellerman (conto)
  8. Reconversão de Excedentes, de Telmo Marçal (conto)
  9. 7 Contos Ilustr.s, org. Fernando Esteves Pinto
  10. O Cão, de Isabel Cristina Pires (conto) 
  11. Imortal, de José Rodrigues dos Santos
  12. Ensayo Sobre la Ceguera, de José Saramago
  13. Na Crista da Onda, de Luís Filipe Silva (conto)
Ficção brasileira:
  1. Histórias (Mais ou Menos) Assustadoras, org. ??
  2. O Primeiro Imortal, de Rodrigo N. Alvarez
  3. Amália Atrás de Amália, de Marco Aqueiva
  4. Jogos de Guerra, de J. M. Beraldo
  5. A Melhor Idade, de C. Nan Bianchi (2x)
  6. Asilo nas Torres, de Ruth Bueno
  7. Sob o Trópico de Capricórnio, de Pedro Carcereri
  8. O Jogo dos Sonhos, de Pedro Carvalho
  9. Serpentário, de Felipe Castilho (5x)
  10. Mestre das Marés, de Roberto de Sousa Causo
  11. As Pirâmides Revolucionárias, de Thunder Dellú
  12. A Eva Mecânica e Outras Histórias de Ginoides, de Daniel I. Dutra
  13. Colonização, de Day Fernandes (2x)
  14. Mundo Sombrio, de Day Fernandes
  15. A Era de Aquária, org. Coletivo Kriptocaipora
  16. Labirinto Digital, de Mario Kuperman
  17. Sete Faces da Ficção Espacial, org. Marcia Kupstas
  18. Operação Meleca Mutante, de Angélica Lopes
  19. Assim na Terra como Embaixo da Terra, de Ana Paula Maia
  20. As Cinco Esposas de Nathan, de Clovis Nicacio (4x)
  21. O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci (6x)
  22. Possessão Alienígena, org. Ademir Pascale
  23. A Sorte dos Girinos, de Carlos Patati
  24. O Fruto Maduro da Civilização / O Éter Inconsútil, de Ivan Carlos Regina
  25. Estranha Bahia, org. Ricardo Santos, Rochett Tavares e Alec Silva
  26. Contos Reversos, de Romy Schinzare (2x)
  27. A Torre Acima do Véu, de Roberta Spindler
  28. A Alcova da Morte, de Enéias Tavares, Nikelen Witter e A. Z. Cordenonsi
  29. A Morte e o Meteoro, de Joca Reiners Terron (2x)
  30. As Águas-Vivas não Sabem de Si, de Aline Valek
  31. Viajantes do Abismo, de Nikelen Witter
  32. WOW! O Primeiro Contato, de Pablo Zorzi
Ficção internacional:
  1. Histórias de Fantasmas, org. ??
  2. Mundos Apocalípticos, org. John Joseph Adams
  3. O Poder, de Naomi Alderman
  4. Meg, de Steve Alten
  5. Fundação, Isaac Asimov
  6. O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov (3x)
  7. Ponha o Pino A no Furo B, de Isaac Asimov (conto)
  8. Os Testamentos, de Margaret Atwood
  9. Declínio, de Jay Bonansinga
  10. Invasão, de Jay Bonansinga
  11. Raízes do Mal, de Gwenda Bond (2x)
  12. Os Passageiros do Tempo, de Alexandra Bracken
  13. Os Viajantes, de Alexandra Bracken
  14. Farenheit 451, de Ray Bradbury
  15. 4 Contra o Apocalipse, de Max Brallier (4x)
  16. Kindred, de Octavia E. Butler
  17. Ritos de Passagem, de Octavia E. Butler (3x)
  18. Sons da Fala, de Octavia E. Butler (conto)
  19. A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares
  20. Richter 10, de Arthur C. Clarke e Mike McQuay
  21. A Esperança, de Suzanne Collins
  22. Jurassic Park, de Michael Crichton
  23. A Cidade dos Espelhos, de Justin Cronin
  24. Recursão, de Blake Crouch
  25. A Máquina Preservadora, de Philip K. Dick
  26. Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick
  27. O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick
  28. Deus da Fúria, de Philip K. Dick e Roger Zelazny
  29. Man After Man, de Dougal Dixon
  30. Alongamento Vestigial das Vértebras Caudais, de L. Timmel Duchamp (conto)
  31. Angry Candy, de Harlan Ellison
  32. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry
  33. The World of Tiers, de Philip José Farmer
  34. A Libélula no Âmbar, de Diana Gabaldon
  35. Os Escravos da Górgona, de Curtis Garland
  36. Transformation, de Silviu Genescu (conto)
  37. Neuromancer, de William Gibson
  38. Metro 2033, de Dmitry Glukhovsky
  39. Crianças do Éden, de Joey Graceffa
  40. A Curva do Sonho, de Ursula K. Le Guin
  41. A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin (3x)
  42. Serotonina, de Michel Houellebecq
  43. À Beira da Eternidade, de Melissa E. Hurst
  44. O Céu de Pedra, de N. K. Jemisin
  45. Farewell Horizontal, de K. W. Jeter
  46. Illuminae, de Amie Kaufman e Jay Kristoff
  47. Flores para Algernon, de Daniel Keyes
  48. O Instituto, de Stephen King (13x)
  49. Belas Adormecidas, de Stephen King e Owen King
  50. A Ascensão do Governador, de Robert Kirkman e Jay Bonansinga
  51. A Queda do Governador, de Robert Kirkman e Jay Bonansinga
  52. Contágio, de David Koepp
  53. A Balada do Black Tom, de Victor Lavalle (2x)
  54. O Ano da Graça, de Kim Liggett
  55. A Cor que Caiu do Céu, de H. P. Lovecraft
  56. Medo Clássico, vol. 1, de H. P. Lovecraft
  57. O Despertar de Cthulhu, de H. P. Lovecraft (3x)
  58. Ladra de Almas, de Sarah J. Maas
  59. Liberta-me, de Tahereh Mafi
  60. Inspeção, de Josh Malerman (2x)
  61. O Começo, org. George R. R. Martin
  62. A Estrada, de Cormac McCarthy
  63. Odyssey, de Jack McDevitt
  64. Máquinas como Eu, de Ian McEwan (2x)
  65. Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller, Jr.
  66. Carbono Alterado, de Richard Morgan
  67. A Mulher do Viajante no Tempo, de Audrey Nieffenegger
  68. Quem Teme a Morte, de Nnedi Okorafor
  69. Starters, de Lissa Price
  70. A Chave Maldita, de James Rollins
  71. Em Tempos Havia os Bois..., de Charles W. Runyon (conto)
  72. História Verdadeira, de Luciano de Samóstata
  73. Seres Mágicos & Histórias Sombrias, org. Al Sarrantonio e Neil Gaiman
  74. Mindscan, de Robert J. Sawyer
  75. A Última Colônia, de John Scalzi
  76. Vilão, de V. E. Schwab
  77. Between the Strokes of Night, de Charles Sheffield
  78. Sight of Proteus, de Charles Sheffield
  79. Aniquilação, de Jeff VanderMeer
  80. Assimilação de Tian Shan-Góbi, de Jeff VanderMeer (conto)
  81. Através do Vazio, de S. K. Vaughn
  82. À Volta da Lua, de Jules Verne
  83. A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells (2x)
  84. Impostores, de Scott Westerfeld (2x)
  85. A Estrada Subterrânea, de Colson Whitehead
  86. Ascensão da Força Sombria, de Timothy Zahn
  87. Knight of Shadows, de Roger Zelazny
  88. As Horas Vermelhas, de Leni Zumas
Não-ficção brasileira:
  1. Atmosfera Rarefeita, de Alfredo Suppia
Não-ficção internacional:
  1. A Arte do Cinema: Star Wars, de anónimo
  2. Monstros Fabulosos, de Alberto Manguel (2x)
  3. Un Mundo Robot, de Javier Serrano
  4. Stranger Fans, de Joseph Vogel
Ficção internacional relacionada:
  1. The Infinite Future, de Tim Wirkus
Outro mês positivo no que toca à leitura e comentário de FC portuguesa, com o número de títulos a ultrapassar mais uma vez o número que me parece mínimo aceitável. Foram 13, com um deles a ser alvo de dois comentários (ainda que parciais). Claro que podemos olhar para isto de uma forma menos otimista: 6 dos 13 títulos correspondem a contos, uma percentagem muito superior de leituras curtas do que a que os outros grupos de leituras apresentam. Mas sendo mais comum entre nós a publicação de contos (isolados ou em coletânea) do que de romances, não deixa de ser natural que isso aconteça. Os destaques vão para João Barreiros, alvo de duas opiniões isoladas e uma em colaboração, e Luís Filipe Silva, alvo da mesma opinião em colaboração e uma isolada.

Quanto aos brasileiros, esses deram cabo de todos os recordes. 32 títulos ao todo, e nenhum é conto. É obra. Não sei ao certo (teria de ir ver e não estou com paciência), mas creio que este mês de novembro de 2019 é de longe aquele com leituras e comentários mais abundantes na FC brasileira. Tenho memória de um mês com mais de 20, mas nunca chegou aos 30. Já para não falar dos autores mencionados mais que uma vez, com destaque para Felipe Castilho (5 menções), Day Fernandes (3 menções distribuídas por dois títulos), Clovis Nicacio (4 menções) e Fausto Luciano Panicacci (6 menções), ainda que estes dois últimos devam mais agradecimentos ao marketing do que a menções "orgânicas". Suspeito que se passarão muitos meses até voltarmos a números destes.

E se é verdade que costuma acontecer que sempre que a leitura de obras lusófonas cresce a de obras traduzidas (ou na língua original) diminui, não foi isso o que aconteceu no mês passado. Com efeito, não só o número total de títulos, 88, é superior ao do mês anterior, como uma só obra foi alvo de 13 comentários, nada mais, nada menos. Coube a proeza a Stephen King, que ainda teve direito a mais um comentário a outra obra, esta escrita em colaboração. Além dele, os nomes que se destacam das leituras de novembro são Isaac Asimov, com 4 comentários distribuídos por 2 títulos, Max Brallier, também com 4 comentários mas apenas a um título, Octavia E. Butler, ainda com 4 comentários, de novo distribuídos por 2 títulos, Philip K. Dick, com 3 comentários a outros tantos títulos escritos só por ele e um 4ª a outra obra escrita em colaboração, Ursula K. Le Guin, mais uma vez com 4 comentários distribuídos por 2 títulos, e por fim H. P. Lovecraft, com 5 comentários distribuídos por 3 títulos.

E assim termina o último apanhado mensal das leituras lusófonas de FC deste ano de 2019. O próximo só chegará em 2020. Estes apanhados despedem-se até para o ano, portanto, mas eu ainda estou longe de o fazer. Até.

Luís Miguel dos Santos Teixeira: Esboços da Realidade

E da ficção científica, mesmo que impura, saltamos para o horror pelas mãos de mais um nome comprido: Luís Miguel dos Santos Teixeira. E o resultado é razoável. Esboços da Realidade (bibliografia) tem como protagonista uma família mergulhada em problemas devido a um filho doente, a uma mãe que abandona o emprego para cuidar do miúdo e a um pai que é forçado a trabalhar pelos dois, e como principal qualidade a de a história que pretende contar se ajustar bem à extensão do texto em que a conta. Não perfeitamente, mas bem.

O principal problema deste conto é tornar-se demasiado previsível demasiado depressa. Assim que aparece na história uma segunda mulher, torna-se óbvio que de uma forma ou de outra vai ser ela a causar um desfecho trágico qualquer... e ela aparece logo no início da segunda página. E assim o crescendo emocional que o autor pretende alcançar não acontece, e quando o desfecho surge aparece sem sombra do impacto que devia ter.

Mas apesar disso é um conto com o seu interesse e razoavelmente bem escrito. Um conto razoável, portanto.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 8 de dezembro de 2019

Leiturtugas da semana #44

Abrimos dezembro como fechámos novembro, isto é, com mais Leiturtugas a divulgar. Coube desta vez, e uma vez mais, à Cristina Alves a tarefa de marcar o ponto, com a terceira parte da sua opinião sobre a coletânea de João Barreiros lançada há alguns meses, O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias. Livro de FC, mas a Cristina tem os objetivos cumpridos, portanto deixemos as sinalefas para outra altura.

E parece que esta semana é só. Foi uma semana calma. Logo veremos o que a próxima nos traz.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

José Conrado Dias: Vou-me Embora

Quando alguém fala mal da atividade das vanity presses há autores que se amofinam, julgando que atacar a atividade das vanities é equivalente a atacá-los a eles, por publicarem por intermédio desse tipo de empresas. Enganam-se redondamente. O que realmente acontece é que uma vanity é uma empresa fundamentalmente predatória que pega nos sonhos de pessoas que pensam ter coisas a dizer por escrito, nada faz para otimizar a qualidade do texto e por vezes até da edição, quase nada faz para divulgar a edição junto de potenciais interessados, e no fim o resultado é o autor ficar sem o dinheiro (porque tem de pagar a edição do seu bolso) e/ou ter de ser ele quem anda a vender o livro para o prejuízo não ser maior, sem que ninguém lhe diga atempadamente se o seu livro vem com erros, sistemáticos ou ocasionais, se vem com gralhas, se vem com trechos demasiado e desnecessariamente confusos ou embrulhados, por aí fora. Assim, mais vale fazer uma edição de autor, francamente. Defender uma vanity press de quem fala mal dela é um bocado parecido com o síndrome de Estocolmo. É um bocado como uma gazela defender uma chita porque pelo menos a chita lhe dá atenção. Sim, tá bem, devora-a, mas ao menos dá-lhe atenção.

Já estão a ver o caminho que isto leva, não é?

Alguém — um revisor, coisa que as editoras a sério têm e de que as vanities não precisam porque o seu negócio não é a produção de texto de qualidade... e todos nós precisamos de revisor — devia ter dito ao José Conrado Dias que comete erros na colocação das vírgulas e no uso de outra pontuação, os quais chegam ao ponto de dificultar e, aqui e ali, impossibilitar a compreensão das suas frases. Ninguém o fez.

Alguém — um editor, neste caso — talvez lhe devesse ter também dito para controlar os seus impulsos pedagógicos, porque explicar aquilo que não padece de explicação pode satisfazer o bichinho docente (o autor é professor reformado) mas não é literário. A literatura vive da imaginação, não só do autor mas também do leitor, e o excesso de explicações mata-a. Também ninguém o fez. A consequência é este livro estar enxameado de notas de rodapé — 53 para 128 páginas pouco densas —, a maioria das quais perfeitamente escusadas. Já para não falar das explicações inseridas no próprio texto. Chega ao ponto de haver pelo menos um caso em que a mesma coisa está explicada no texto e numa nota de rodapé. Má ideia.

Também talvez fosse bom que alguém lhe tivesse dito que a simplicidade estilística que adotou na maior parte dos dois terços finais do livro gerou um texto de qualidade bastante superior ao que resultou da tentativa de fazer estilo do terço inicial. Também ninguém o fez.

Com todas estas ausências, naturalmente, o que sofre é a novela. Não fossem as ausências, Vou-me Embora podia ser significativamente melhor do que é, mesmo havendo neste texto algumas fragilidades que não se resolveriam apenas com a ação de uma editora propriamente dita. O final, por exemplo, precisaria de trabalho, uma vez que surge de uma forma tão abrupta que parece ter sido concebido para despachar. E poderia dar outros exemplos. Mas devidamente trabalhada, esta história podia ter algum interesse, ainda que para um público ao qual não pertenço.

Com efeito, não costumo gostar por aí além de histórias mundanas, como quem lê habitualmente o que vou aqui escrevendo está farto de saber. E esta história é inteiramente mundana; uma história semiautobiográfica sobre um homem, professor reformado, que deambula entre Portimão, Lisboa e Cabo Verde, encontrando-se e desencontrando-se com várias mulheres (sobretudo) e culturas. Resolvidas as fragilidades listadas acima, e talvez encontrado um eixo mais sólido em torno do qual desenvolver a história, podia ser um panorama interessante dos contrastes e semelhanças entre as vivências caboverdiana e portuguesa, ou uma reflexão sobre uma série de coisas que o texto aflora mas nunca aprofunda, da relação e/ou contraste entre sexo, afeto e amor à mortalidade. Mas dificilmente seria coisa que me enchesse as medidas: o meu gosto simplesmente não combina com este tipo de história.

Este livro foi comprado.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

João Manuel da Silva Rogaciano: Enganando a Morte

Mais ficção científica bastante impura. Enganando a Morte (bibliografia), de outro autor que mais tarde apareceu por aí com um nome bastante mais curto mas aqui assina como João Manuel da Silva Rogaciano, começa como um conto clássico de FC, no qual um milionário confrontado com um diagnóstico de carcinoma incurável e fatal resolve enganar a morte através de um tratamento tão radical quanto criminoso, além de extremamente caro, inacessível ao comum dos mortais: a troca de corpos. Arranjar-se-ia um dador, jovem e, se involuntário, pois azar o dele, e transferir-se-ia para o corpo desse dador a sua personalidade. Até aqui, tudo parece FC pura e dura. Depois deixa de parecer.

É que o dador não é um ser humano normal, mas um lobisomem. E isso vai ter consequências interessantes.

Este é um conto interessante. Talvez seja o primeiro conto desta antologia cuja história me parece adequar-se realmente bem à extensão (e é mais curto que todos os anteriores, o que talvez seja significativo), sem deixar no ar a impressão de coisa encavalitada numa extensão pequena porque tem de ser. Não tem grande rasgo literário, é certo, mas o texto não deixa de ser competente.

Incluindo a reviravolta final, que está bem concebida mas não muito bem executada, incluindo demasiada explicação para ter realmente o impacto que podia ter. É competente, mesmo não sendo particularmente boa. E isso chega para estar acima da média das histórias que o acompanham neste princípio do material em prosa.

Textos anteriores deste livro:

Escrita de novembro


Às vezes acontece. Um tipo chega a um ponto de certo bloqueio e fica a remoer sobre a melhor forma de sair dele. Quando isso acontece no início de uma história e já se sabe mais ou menos como ela vai seguir depois do bloqueio, pode-se saltar para outra cena qualquer e ir escrevendo, mas quando acontece com a história já adiantada e desse bloqueio depende a forma como se enquadra o fim, não há grande coisa a fazer, além de escrever, não gostar, apagar, escrever de novo e repetir o processo quantas vezes forem necessárias para, pelo menos, ficarem as linhas gerais da coisa estabelecidas.

Foi o que aconteceu em novembro. O romance avançou pouco e não me agrada muito o que avançou. Houve escrita, apagamento e reescrita de vários trechos e é provável que continue a haver. Ao todo, devo ter escrito mais de 30 páginas, mas descontando o que foi apagado e refeito o saldo final fica-se pelas 22. Cerca de. 7600 palavras, mais coisa, menos coisa. E no fim do mês, parou. Acho que estou a precisar de passar um período sem escrever nada — de ficção, pelo menos; a tradução em curso e as coisas para o blogue vão sempre exercitando o manuseamento da palavra — para ver se regresso fresco e acabo finalmente esta história. Desde que voltei a pegar nela já se passou quase um ano, com muito poucas interrupções. Nunca estive tanto tempo a escrever uma coisa só, nem de perto nem de longe: o Embaixadores é mais pequeno que isto (pouco passa de metade, na verdade) e ficou feito em dois ou três meses, ainda que tenha depois sofrido várias revisões.

Mas estas oscilações são naturais e, feitas as contas, as coisas continuam a correr muito bem. Esta é a mais complexa história que eu já escrevi, e se não houvesse uns enguiçozinhos de vez em quando seria de estranhar. Acho que posso é dizer desde já que só vou terminar em 2020. Mas vou terminar em 2020. E aí já vou ter também um novo patamar a alcançar e ultrapassar. É que este ano já escrevi o equivalente a mais de 200 páginas de ficção, coisa que nunca antes tinha feito, nem nos meus tempos mais produtivos, em que escrevia mais coisas e mais depressa mas depois ficava uma porção de tempo sem escrever nada. Como quando escrevi o Embaixadores, ou de outra vez que devo ter escrito umas 70 páginas num só mês mas nem cheguei a somar-lhe outro tanto no resto do ano.

Portanto, siga. Dezembro também deverá ser fraco, mas hei de somar mais texto a esta história, certamente. Para o ano logo vos digo como foi.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Leiturtugas da semana #43

Ultimamente não tem havido semanas em falta nestas notas sobre as Leiturtugas da semana, e esta não foi exceção. Mas contrariamente às últimas semanas, nesta não foi nem o Artur nem a Cristina a fazer as honras da coisa, mas sim um tipo chamado Jorge Candeias, que leu e comentou a antologia 7 Contos Ilustr.s, organizada por Fernando Esteves Pinto e publicada pela Lua de Marfim. É um livro com FC, se bem que a esta altura do campeonato isso já não tenha importância porque os mínimos estão cumpridos.

O início de dezembro é também a altura certa para fazer um balanço das Leiturtugas. Não só por faltar um mês para o fim do ano, e por isso ser o momento para quem ainda estiver atrasado e quiser atingir os objetivos fazer um último esforço, mas porque foi em dezembro do ano passado que esta ideia foi posta em prática.

O balanço do ano até agora está aqui na tabela em baixo: seis participantes já cumpriram, uma sétima só ainda não cumpriu porque depois de despachar as leiturtuguinhas, em que tinha escolhido participar inicialmente, decidiu tentar as leiturtugas, e três dos outros estão bem encaminhados. Só dois duvido que cumpram, mas nunca se sabe; podem ter deixado tudo para o fim do ano.

Publicação Já cumprido Falta cumprir Mês de início
O Senhor Luvas objetivo ultrapassado janeiro
O Prazer das Coisas objetivo ultrapassado janeiro
A Lâmpada Mágica objetivo ultrapassado janeiro
Rascunhos objetivo ultrapassado janeiro
Intergalactic Robot objetivo ultrapassado janeiro
O Blog do Jauch objetivo ultrapassado janeiro
Ideias de Leitora 1c4s 1 (2c) fevereiro
Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction 0c2s 2 (2c) setembro
Words a la Carte 1c6s 3 (4c) março
As Leituras do Corvo 4c3s 5 (2c) janeiro
Atmosfera dos Livros - 12 (6c) janeiro
Faces de Marisa - 12 (6c) janeiro
So Happy with Less - 5 (2c) março

Relativamente a balanço... isto correu bem. E é para continuar em 2020.

Aumentou-se a quantidade de menções a material português na internet, que era um dos objetivos, houve algumas pessoas que não costumavam ler FC portuguesa a ler FC portuguesa, que era outro. Eu descobri livros que não conhecia (em grande medida à conta destas mesmas pessoas, o que mostra como é vantajoso não passarmos a vida em circuito fechado), o que não era um objetivo, não era algo que eu esperasse, mas acho excelente que tenha acontecido. Os habitués não tiveram dificuldades em cumprir os mínimos, como eu esperava. Enfim, a coisa correu francamente bem. Só um dos aspetos da ideia falhou redondamente: as menções cruzadas às leiturtugas. A menos que alguém esteja a pensar publicar uma lista completa agora no fim do ano, só eu e o Jauch cumprimos, o que é algo dececionante. Tinha também alguma — muito pouca — esperança que isto levasse à criação de novas publicações mas, como eu suspeitava que sucederia, não levou. Mas tirando isso correu tudo sobre rodas. Portanto é para continuar.

E vou partir do princípio de que todos os que participaram este ano vão também participar para o ano. Isto é, à exceção da Atmosfera dos Livros e das Faces de Marisa (salvo se aparecer no fim do ano a participação dessas publicações, claro), vou partir do princípio de que todos os que estão de momento no projeto vão continuar em 2020. Se não for o caso, avisem-me; se não estão e pretenderem passar a estar, avisem-me também. Parece-me mais simples fazer as coisas assim, i.e., limitar os avisos às mudanças de estado, do que estar a pedir todos os anos a confirmação de participação. Ou seja: avisem-me de entradas, saídas, regressos, suspensões e mudanças de Leiturtugas para Leiturtuguinhas ou vice-versa.

E vamos adiante. Até para o ano que aí vem.

L. Timmel Duchamp: Catamenia Histérica

Quase tudo o que digo sobre o Alongamento Vestigial das Vértebras Caudais posso também dizer sobre esta Catamenia Histérica (bibliografia), e a impressão geral com que saí da leitura é precisamente idêntica. L. Timmel Duchamp mostra-se igual a si mesmo. A doença, claro, é outra; aqui, trata-se de uma falsa menstruação que ataca homens e tende a ocorrer em surtos. Há mais ironia neste texto do que no primeiro, mas esta fica-se sobretudo pela ideia em si; o texto mantém-se seco, pouco estimulante e bastante breve, o que contribui para o meu sentimento de ter muito pouco a dizer sobre ele.

Textos anteriores deste livro:

FC portuguesa? Mas para quê?

A Cristina Alves começou por divagar um bocado sobre a ficção científica portuguesa, eu discordei de várias coisas e vai daí pus-me a escrever. Primeiro escrevi sobre o que é, depois escrevi sobre se existe. Se calhar convinha dar uma vista de olhos a esses textos antes de ler este, porque não vou estar a repetir-me e quem se ficar por este talvez apanhe algumas coisas um bocado no ar.

Neste, não falar de nada que a Cristina tenha dito e me tenha causado alguma discordância; a ideia, aqui, é lançar para cima da mesa algumas ideias minhas, que me parecem importantes em qualquer discussão deste género e que raramente vejo afloradas. Porque quando se fala de ficção científica portuguesa, a conversa em geral fica presa nas dificuldades óbvias (a falta de público, a falta de editores, a falta de produção) ou em tentativas de definir o que é e o que deixa de ser, mas parece-me que há mais alguma coisa que lhe falta, uma carência que ajuda a compreender parte das dificuldades óbvias: a questão da relevância.

É que me parece que uma das coisas que mais falta faz à FC portuguesa é relevância.

Não que seja tudo irrelevante, naturalmente. Mas se fosse possível juntarmos toda a produção de FC nacional e tirarmos uma média à relevância, o resultado seria bastante baixo.

E a relevância é importante. É importante para encontrar e fazer crescer um público, é importante para promover a durabilidade das obras, é importante, até, pelos efeitos que tem na sua validade artística, etc. A que irá um leitor dedicar mais depressa o seu tempo, a uma obra relevante, isto é, a uma obra que o faça sentir que obtém dela mais do que à primeira vista seria de esperar, uma obra que o enriquece, ou a uma obra irrelevante, daquelas que agora se leem e dez minutos depois estão esquecidas?

Pois.

Há várias maneiras de dar relevância à ficção científica. Uma dessas maneiras, que há até quem pense erradamente que é a única, é fazê-la "de ponta", fazendo uso das mais recentes evoluções e ideias científicas e tendências do próprio género. Infelizmente, esta abordagem tem vários problemas, que se prendem em parte com o inevitável amadorismo dos nossos escritores e em parte com carências do nosso sistema educativo, que vão influenciar tanto os escritores quanto os leitores. É que enquanto em mercados mais profissionalizados há escritores que se podem dar ao luxo de não fazer nada além de recolher informação, brincar com ideias, elaborar histórias, trabalhá-las e escrevê-las, nós somos todos obrigados a fazer tudo isso nas horas vagas dos trabalhos que realmente põem o pão na mesa. E assim é praticamente impossível mantermo-nos na crista de uma onda que está permanentemente em movimento rápido, e produzir mesmo assim obras sólidas, com as necessárias elaboração e reflexão e cuidado técnico, e a tempo de não estarem já ultrapassadas quando finalmente ficarem prontas. Com tal desvantagem à partida, conseguir com sucesso seguir esta abordagem seria quase um milagre. E não é a única, ainda por cima. O nosso sistema de ensino cria um fosso extremamente prejudicial entre as ciências e as humanidades, o que vai dar origem a demasiada gente interessada nas questões técnicas mas sem interesse algum pela literatura e, o que talvez seja ainda pior, gente interessada em literatura mas não só sem interesse pelas matérias científicas como profundamente ignorante sobre elas. E a FC de ponta exige escritores e leitores bem informados.

Outra estratégia possível é aderir a modas. Não que as modas de uma forma geral deem origem a material particularmente bom, relevante ou até interessante, mas se forem usadas com alguma originalidade podem dar, até porque algumas delas, como a atual moda das distopias feministas, refletem ansiedades bem reais e extremamente atuais. O problema, claro, é que quanto mais original a obra for mais se afasta de um certo "mainstream" da moda que quer seguir, o que pode dificultar a sua penetração no mercado. Além daquela realidade chata da pequenez do nosso mercado colocar inevitavelmente os nossos escritores (e editores) no papel inerentemente subalterno de meros seguidores da moda. E há também que ter em conta a fugacidade de qualquer moda e, de novo, o nosso amadorismo, dois factos que, em conjunto, tornam bastante provável que quando o autor Fulano tiver finalmente pronta para publicação a obra xis que quer integrar na moda tal, esta já levou a uma saturação tal do mercado que o pobre do Fulano tem dificuldade em penetrar e/ou em fazer-se ouvir no meio da cacofonia. Ou a moda já terminou, pura e simplesmente.

Outra estratégia é estar atento à sociedade que nos rodeia. E escrever em conformidade. Isto é: fazer a antítese da literatura leve, de mero escapismo e entretenimento, que por vezes se tenta promover como a solução para todos os problemas da FC portuguesa. Julgo que é precisamente o contrário: a FC portuguesa precisa de ser relevante e uma das melhores formas de o ser é mergulhar decidida e claramente no comentário social. E poucos géneros são mais talhados para o comentário social do que a FC, com a capacidade que esta tem para projetar tendências para sociedades futuras ou paralelas ou explorar as consequências deste ou daquele cenário. Basta olharmos para as obras mais frequentemente republicadas e elogiadas, e veremos comentário social e político por todo o lado, dos mais antigos clássicos às obras mais recentes.

Muitos autores resistem a fazer isto com o argumento de que ao tomarem posição política ou ao fazerem comentário social podem estar a alienar leitores potenciais por estes não se reverem nas suas opções e nos seus pontos de vista. É uma renitência válida, mas essa medalha também tem um reverso de que nunca ninguém fala: os leitores que só o são porque se reveem nos pontos de vista do autor. Olhando para a literatura mundial, encontramos fartura de casos não só de autores que não são particularmente bons em termos de técnica literária mas se tornaram extremamente influentes e marcantes devido à argúcia das suas observações sociológicas, como de autores francamente medíocres em praticamente tudo, que no entanto conservam um público fiel por motivos puramente ideológicos. Até em Portugal isso existe. Mas não darei exemplos portugueses; vou dar dois americanos: L. Ron Hubbard e Ayn Rand, dois péssimos autores de meados do século passado que continuam até hoje a ter leitores.

Não quero com isto dizer, naturalmente, que tentar seguir o caminho de Hubbard e Rand é boa ideia. Longe disso. Quero apenas mostrar como o argumento da perda de leitores não colhe. O mundo está cheio de autores que nunca se coibiram de fazer comentário social nas suas obras (e fora delas) e nunca tiveram falta de leitores. Se a obra for boa, se for relevante, só um leitor francamente tacanho a rejeita por razões ideológicas, e se é verdade que leitores tacanhos existem, não é menos verdade que a maioria não o é e que por cada rejeição ideológica haverá sempre uma adesão igualmente ideológica. Ou até mais que uma.

Gostaria que a questão da relevância fosse mais frequentemente aflorada quando se discute a FC portuguesa. Porque me parece fundamental para o seu desenvolvimento.

Sublinho algo que já ficou expresso acima, para que não fiquem dúvidas: nem toda a FC portuguesa é irrelevante, há bons exemplos de relevância em todas estas vertentes, mas também há um clima geral que tende a olhar mais para dentro do que para fora, e não só na FC. O muito pós-moderno autorreferencialismo irónico é uma praga de que custamos a livrar-nos, a tendência para sobrepor o efeito literário ao conteúdo, que alguns autores importam de fora do género (caso da Isabel Cristina Pires, por exemplo), é outra... embora aí talvez seja mais questão de grau, porque por outro lado também parece haver autores que julgam que o desenvolvimento da sua capacidade para se exprimirem em língua portuguesa é secundário (não é).

E fico por aqui, que isto já vai bastante mais longo do que eu tinha planeado. Há mais a dizer, mas fica para depois.

sábado, 30 de novembro de 2019

Carlos Eduardo Nobre Cesário e Silva: Quem Semeia Ventos, Colhe Tempestades

Mais um autor que assina com o nome completo, este Carlos Eduardo Nobre Cesário e Silva é conhecido do pessoal ligado à FC, de outras cavalgadas e com outro nome, significativamente mais curto. Mas este Quem Semeia Ventos, Colhe Tempestades (bibliografia) não é um conto de ficção científica; é um conto de fantasia.

E é um conto de fantasia sobre uma velha que tem a casa invadida por um trasgo, i.e., um pequeno diabrete. Há nele um detalhe que é daquelas ideias magníficas que dão a um tipo aquela raivinha de "mas porque é que eu nunca me lembrei disto?": o trasgo fala com a velha em mirandês, o que tem o desejado efeito de o identificar como criatura antiga e rural, uma daquelas criaturas de um mundo mágico que a modernidade abandonou há muito. Excelente.

Mas nem tudo o resto é tão bom como esta ideia. O pior é mesmo o final, preguiçoso, pois serve-se do surradíssimo cliché do "afinal foi tudo um sonho" para despachar o conto, evitar mais explicações e resolver com esse abracadabra todas as pontas soltas do enredo. É tão pena uma ideia tão boa como a do mirandês acabar desta forma anticlimática que a raivinha que um tipo sente no fim é bem outra, mais do tipo "mas porque é que fizeste isto?"

Porque o que fica no fim é sobretudo a sensação de mais potencial desaproveitado. A FC&F portuguesa está cheia desta sensação.

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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Franz Kafka: Um Cruzamento

Muito curto, sem chegar sequer a duas páginas, este continho de Franz Kafka tem pouco interesse, apesar de estar tão bem escrito como seria de esperar do autor. Trata-se de uma breve descrição de uma quimera, Um Cruzamento (sim, eis o título) francamente estranho entre um gato e um cordeiro, que é animal de estimação do narrador. Este, em primeira pessoa, descreve o bicharoco e as suas características, muitas vezes paradoxais.

É possível fazer uma interpretação simbólica e política desta pequena história. É possível olhar para ela e ver no infeliz animal, carente do carinho da única criatura que lho dá, o dono/narrador, sem iguais e ignorado ou escorraçado por todos os que não o são, um símbolo do homem miscigenado. É possível ver nessa infelicidade uma crítica à impureza racial — uma crítica compreensiva, talvez, porque afinal quem narra a história é quem dá carinho ao animal, mas uma crítica. Tal interpretação está certamente de acordo com várias ideologias dominantes na Europa na época de Kafka... mas creio que não bate certo com a ideologia do próprio Kafka, que era um socialista no sentido original do termo.

Pelo que eu prefiro pensar nesta historinha apenas como um texto bem escrito sobre uma quimera inadaptada ao mundo, que no entanto conseguiu encontrar o seu refúgio. Há quem se sinta assim a vida inteira. E há quem nunca encontre esse refúgio.

Quimera de sorte, esta.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Maria Júlia Pacheco: Risco Vermelho

Aviso desde já: neste meu texto há spoilers do princípio ao fim. Estão avisados.

Ao terminar de ler este longo conto de Maria Júlia Pacheco, a interrogação que me ocupava a mente era algo como "o que leva uma mulher a escrever uma história destas?" Porque Risco Vermelho é a história, em grande medida desculpabilizadora, de um feminicida.

Maria Júlia Pacheco escreve bem. Bastante bem, até. Mas a história que conta é perturbadora, e não no bom sentido. O seu protagonista é um tipo cheio de inseguranças, vítima de abusos em pequeno, que se apaixona obsessivamente por uma psiquiatra. Não a psiquiatra dele, ainda que precisasse; psiquiatra de outros. A autora conta isto de uma forma sinuosa, e ainda bem porque assim faz literatura enquanto de outra forma estaria muito provavelmente apenas a escrever uma redação. Sim, formalmente o conto é bastante bom. Mas...

... mas a forma que a autora escolhe para contar a história, focando-se no assassino e não na vítima, dissecando os seus motivos e as suas justificações, compreendendo-os ao mesmo tempo que quase ignora a vida da mulher a que ele põe fim, causou-me um forte desconforto. O que leva uma mulher a escrever assim uma história destas? Sim, é certo que este livro foi publicado em 2012, altura em que este assunto estava menos na ordem do dia do que está hoje, mas mesmo assim...

Cada leitor lê as histórias à sua maneira e com base nos seus próprios conhecimentos e valores. É por isso, aliás, que a opinião literária nunca é a verdade, mas apenas uma verdade. Sim, mesmo a que é honesta. E é por isso que a opinião literária deve ser sempre feita a várias vozes. Mas divago. O que quero dizer é que é provável que o facto de eu ter escrito há alguns anos (espera... foi quase há vinte?! Vinte?! Não é possível!) um conto que também era protagonizado por um tipo que mata a mulher à pancada pode ter alguma influência no incómodo. Mas eu não tentei justificar o meu protagonista; pu-lo a dar desculpas esfarrapadas, pu-lo a portar-se como um idiota. Era essa a ideia: retratar o tipo como um cretino. Mas terei conseguido? Cada leitor lê as histórias à sua maneira, não é? Terei conseguido para toda a gente?

Não sei. E isso incomoda-me. Talvez esse incómodo se estenda ao conto da Maria Júlia Pacheco. Que é bom e está bem escrito e bem estruturado. Quanto a isso não tenho dúvidas. Tenho sobre o resto.

Contos anteriores deste livro:

Carla Marques: Luz

E é pelas mãos da Carla Marques que a ficção científica faz a sua estreia neste livro, ainda que de uma forma muito ténue, muito de raspão, pois Luz (bibliografia) é sobretudo uma história de fantasia com alguns elementos de horror cósmico e de FC. E é, mais uma vez, uma história que tenta atafulhar demasiadas coisas num espaço muito curto e sofre por isso.

E podia ter sido uma história interessante; a base é-o. Mas a necessidade sentida pela autora de explicar tudo o que se passa, mantendo a história nos seus estreitos limites, transformou o texto numa coisa insípida e sem emoção (o que é piorado por ser previsível desde o início, e isto não seria o alongamento do texto a evitar), nada adequada à história de apocalipse iminente que se quer contar. Por outro lado, Carla Marques tem a qualidade de evitar o infodump, preferindo transmitir a sua informação através de diálogos que fazem sentido porque colmatam reais carências de informação por parte das personagens; como vimos em opiniões recentes sobre outra antologia portuguesa, nem todos os nossos escritores, mesmo se consagrados, têm essa capacidade. É um ponto claro a seu favor, e é boa parte do que me faz supor que este conto talvez fosse bom se tivesse pelo menos o dobro da extensão, apesar de a autora mostrar algumas fragilidades no domínio da língua. Assim, é outro caso de potencial desperdiçado. Mais um.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Charles W. Runyon: Em Tempos Havia os Bois...

Ora aqui está uma noveleta curiosa. Escrevendo uma história de ficção científica militar cruzada com romance planetário, Charles W. Runyon, de que eu nunca tinha lido nada, conseguiu manter-me permanentemente na dúvida sobre o rumo que a sua história ia seguir. E nem o título, Em Tempos Havia os Bois... (bibliografia), dá alguma ajuda, apesar de até fazer pleno sentido quando chegamos ao fim. É essa a principal qualidade desta história.

O protagonista é um linguista, encarregado de estudar e tentar compreender, se possível, a língua dos nativos, caso eles existam. Não é particularmente bem aceite pelos militares que o rodeiam, que têm uma atitude francamente colonialista e consideram eventuais nativos como um problema a ser resolvido por todos os meios necessários, e se esses meios forem o genocídio, pois que sejam. O mais importante, isto é, o estabelecimento de colónias humanas em planetas distantes, tem prioridade. E ainda por cima, o protagonista tem duas características que desagradam fortemente aos militares: é obstinado e indisciplinado.

Claro que vão ser essas as características a salvar a situação, mas até aí há uma série bastante interessante de reviravoltas e descobertas, daquelas que forçam a reavaliar a situação e reorganizar a informação obtida até aí. Tudo gira em volta de uns nativos pequeninos e primitivos que a expedição encontra e de certas características da língua deles, as quais não batem certo com a sua sociedade. Porque uma língua é sempre o reflexo da sociedade que a cria, respondendo através da inovação e da adaptação às necessidades desta.

Não é muito frequente que a ficção científica se desenvolva na interseção da (exo)biologia com a linguística, e menos ainda se a essa interseção se agrega um pouco de reflexão sobre o colonialismo, o imperialismo e a xenofobia. Também por isso, mas não só, gostei bastante desta noveleta.

Fernando Esteves Pinto (org.): 7 Contos Ilustr.s (#leiturtugas)

Eu às vezes chateio-me um bocado, confesso, por deixar de lado livros que me apetece ler, de que tenho uma certeza razoável de que vou gostar, para ler coisas que me despertam outras curiosidades e são incógnitas absolutas ou quase. Sou um leitor aventureiro, suponho, pois ando sempre a petiscar coisas desconhecidas, e com isso tenho apanhado valentes banhadas e tenho deixado de ler coisas que me chegam repletas de boas referências. Às vezes chateio-me um bocado com isso. Mas depois aparecem-me livros como este e compensa.

Não que esta antologia seja particularmente boa. Mas 7 Contos Ilustr.s (bibliografia) tem várias características que fizeram com que valesse plenamente a leitura. Para começar, é praticamente uma antologia de literatura algarvia, pois no grupo reunido por Fernando Esteves Pinto, o organizador, ele próprio algarvio, só um autor não o é também. Em segundo lugar, é praticamente uma antologia de literatura fantástica, sem que esse facto seja alardeado, visto que dos sete contos só dois não têm ligações ao género. E ainda por cima em vários essas duas qualidades cruzam-se, ora através da ambientação dos contos no Algarve, ora por via do recurso a lendas algarvias, como no caso da história de Fernando Pessanha.

Mas como poucas coisas me dão mais prazer do que encontrar ficção científica em lugares inesperados, o facto de esta antologia conter FC foi uma das coisas que me fez dar por mais bem empregue o tempo gasto na leitura.

Além disso, há aqui contos bons. Nenhum é muito bom, e a maioria não ultrapassa o mediano, mas há contos bons e não há contos maus, mesmo que um ou dois sejam mais fracos. O resultado é o nível geral da antologia ser bastante razoável. Destaco dois como os que mais me agradaram: Os Romanos e O Sétimo Céu e as Meninas de Tânger. Mais motivos para a leitura ter valido a pena.

E depois há a razão do título ser 7 Contos Ilustr.s e não apenas 7 Contos. É que todos os contos estão profusamente ilustrados, por ilustradores que, na sua maioria também são algarvios ou radicados no Algarve. De facto, talvez seja mais adequado falar em sete equipas de escritor/ilustrador, pois a cada ilustrador foi atribuído um conto, tendo produzido várias ilustrações para o acompanhar — entre 4 e 8, o que faz com que além dos contos propriamente ditos este livro seja também enriquecido com cerca de quatro dezenas de ilustrações de página inteira. Para um livro de 133 páginas, número que inclui também as pequenas biografias de todos os intervenientes, é bastante.

Em suma: esta foi uma antologia que achei francamente interessante.

Eis o que achei de cada conto:
Este livro foi comprado.

Lídia Jorge: A Espuma da Tarde

Há um efeito curioso em alguns escritos de autoras como a Maria Ondina Braga, a Sophia de Mello Breyner Andresen e a Lídia Jorge, que conseguem incutir-lhes um certo ambiente onírico, um certo odor a fantástico, sem introduzirem no texto nada que possa realmente identificá-lo como texto onírico e/ou fantástico. Talvez seja de se servirem de um certo tom irreal, ou pelo menos de realidade vaga, que cai como uma espécie de bruma de sonho sobre histórias cujos enredos, personagens e até ambientações são basicamente realistas.

É isso o que acontece neste conto de Lídia Jorge, A Espuma da Tarde. Há qualquer coisa de francamente onírico nesta história que consiste numa discussão vagamente existencialista entre vários rapazes, um dos quais está imbuído de toda a mitologia e ideologia do fora-da-lei americano, apesar de todos serem portugueses e da história se passar à beira-mar, num bar da Costa da Caparica. A acompanhá-los, está uma rapariga, claramente atraída pelo perigo representado pelo "bad boy", cujas humidades íntimas vão avançando e recuando ao sabor das marés da conversa.

É esse fluxo e refluxo do desejo da moça, a qual como que corporiza a volúpia da violência, ainda que mais a idealizada que a real, que mais contribui para o tom onírico deste conto. Porque de resto, trata-se de uma daquelas histórias em que alguém conta uma história, tão frequentes na literatura. Aqui, quem conta a história é o bad boy, e a história que conta é uma cena policial na América, com ele próprio como protagonista desajeitado. No papel do criminoso, claro. Os outros, e em especial um deles, justificam a falta de jeito com características pouco abonatórias, e o bad boy vai-se exaltando cada vez mais, até que puxa por uma pistola. E depois, acontece o desfecho.

E é bom, o conto? Sim, creio que é. Está bastante bem escrito e há nele uma teatralidade e um artificialismo que me costumam desagradar profundamente mas que neste caso são fundamentais para o tom onírico de todo o conto e por isso não me desagradam por aí além. E a ironia fina que contém, pelo contrário, costuma agradar-me bastante e aqui não foi exceção, o que compensa.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 24 de novembro de 2019

Leiturtugas da semana #42

Pela extensão deste post já vão percebendo que esta foi uma semana cheia de Leiturtugas. Não se enganam, que houve vários bloggers a publicar opiniões sobre leituras portuguesas. E começou com uma continuação: a da Cristina Alves, que continua a falar da coletânea O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, do João Barreiros. É FC, mas como a Cristina já cumpriu os objetivos não vale a pena continuar a seguir o progresso dela com as sinalefas habituais.

Quase ao mesmo tempo, o Artur Coelho publicava também a sua opinião sobre o Almanaque Steampunk 2019, também publicado pela Divergência, em cujo site há que ir vasculhar para se ficar a saber que foi organizado a oito mãos por Ingrid Sousa, Joana Rodrigues, Pedro Guerra e Rogério Ribeiro. É um livro de steampunk, logo com FC, logo o Artur passa a 7c5s... e cumpre os mínimos com mês e picos de folga.

Mas o Artur não parou por aqui, e dias depois publicou outra opinião, desta vez uma daquelas opiniões curtas sobre BD que estão mais desenvolvidas noutro sítio. Cabe a vez a O Filho do Führer, álbum de João Gordinho publicado pela Escorpião Azul.

E para encerrar a semana tivemos mais um comentário do Eduardo Jauch a duas obras portuguesas. Estava previsto ser eu, mas não deu tempo; fica para a semana. O Jauch comentou uma antologia de BD publicada pela Escorpião Azul e intitulada Humanus, cuja lista de autores é demasiado extensa para ser divulgada aqui, e também o conto que a Isabel Cristina Pires publicou na Antologia de Ficção Científica Fantasporto, O Cão. Com estas duas obras, o Jauch subiu a 7c6s e também cumpriu os mínimos com mês e picos de folga.

E por hoje é tudo. Para a semana haverá mais. Até lá.

sábado, 23 de novembro de 2019

Ludovico Hélder Martins Alves: Render da Guarda

Um dos grandes problemas dos autores inexperientes é terem uma noção frágil dos ritmos próprios da literatura e por isso custar-lhes avaliar se uma ideia dá para um conto curto ou um conto mais longo, uma noveleta por aí fora. Ou de que forma, através de que abordagem, a ideia xis poderá dar uma história do tamanho tal. E como a maioria tem como referência principal, quando não é única, os romances, não é raro que tentem atafulhar um romance inteiro em textos (muito) mais curtos. O resultado é, inevitavelmente, um texto a rebentar pelas costuras ou já com as costuras rebentadas.

E é precisamente o que Ludovico Hélder Martins Alves (a propósito: ninguém com alguma experiência assina os textos com o nome completo) apresenta em Render da Guarda (bibliografia): uma história de fantasia a rebentar pelas costuras, que precisava de ser significativamente mais extensa do que é para ter alguma hipótese de ser boa. Assim, é uma história com algumas características e ideias prometedoras e um certo tom de policial, ou de história de espionagem, mas tão apressada que essas ideias parecem cair do céu à medida que são necessárias, sem nada de sólido a sustentá-las. A prosa, ao menos, é competente, o que ajuda o conto a não ser mau.

É mediano. Este é mais um dos muitos contos portugueses de FC&F que mostram potencial mal aproveitado.

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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Ray Bradbury: A Caixinha de Surpresa

Ray Bradbury tem muitos contos fronteiriços, que partem de um género literário para chegar a outro, ou que ficam firmemente ali na fronteira, reunindo elementos de dois géneros, ou mais, num todo que a maior parte das vezes é inteiramente coerente. São por isso mesmo contos difíceis de enfiar nas caixinhas em que geralmente se metem as obras literárias para mais facilmente serem analisadas e compreendidas. A Caixinha de Surpresa é um desses contos.

Parece uma história de fantasia, daquelas firmemente radicadas nos contos populares. Abre com um miúdo, Edwin, que mora numa (estranha) casa rodeada pela floresta, e é esse e apenas esse o seu mundo. O miúdo tem um brinquedo, uma caixa daquelas que se abrem e delas salta um boneco, mas a associação da caixa-brinquedo à caixa-casa e do boneco ao miúdo é imediata. Bradbury diz-nos desde o início que o miúdo é como que prisioneiro daquela casa, o que já começa a introduzir um elemento de horror. E depressa percebemos que na casa vivem também a mãe e uma professora, as quais o preparam para ocupar o lugar do pai desaparecido, alegadamente morto pelos horrores do mundo exterior.

O lugar de deus criador do mundo interior. O qual está cheio de elevadores e escadarias e salas e quartos proibidos que lhe vão sendo revelados à medida que vai crescendo, como uma espécie de ritos de passagem.

Sim, a história é complexa. A professora talvez não seja propriamente uma professora (ou então talvez seja a mãe que não é exatamente uma mãe), a associação do brinquedo à realidade talvez seja algo mais que apenas alegórica, e por aí fora. Mas mesmo que o não seja a alegoria não deixa de estar presente porque todo o conto é alegórico. É uma história sobre o crescimento. E talvez seja uma boa história sobre o crescimento.

Mas não gostei de a ler. O problema, julgo, é a tradução, que me incomoda desde o início do livro e nesta história incomodou o suficiente para ter tornado a leitura penosa. Já não é a primeira vez que isso acontece, mas aqui foi especialmente evidente, em parte por a história ser razoavelmente longa. É pena.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Ray Bradbury: A Multidão

Um homem tem um acidente de viação. Não sabe bem como nem porquê, embora o acidente seja sério. Mas acha estranho ver-se rodeado de uma multidão de mirones de uma forma que lhe parece demasiado súbita, e isso vai levá-lo a começar a prestar uma atenção paranoica a casos semelhantes. É este o ponto de partida para este conto de Ray Bradbury, adequadamente intitulado A Multidão.

Embora seja uma daquelas histórias paranoicas clássicas, com um protagonista carregado de razão mas incapaz de fazer os demais compreender que a tem, e apesar de seguir o enredo típico dessas histórias, no qual o protagonista, depois de se aperceber de que algo está errado, procura sem sucesso transmitir àqueles que o rodeiam aquilo que descobriu, este conto consegue manter-se interessante. Em parte por estar tão bem escrito.

E o que é que está errado? É o surgimento súbito daquela gente toda, claro, gente que se repete acidente após acidente, as mesmas caras, as mesmas opiniões, a mesma curiosidade mórbida sobre se o(s) acidentado(s) escapa(m) à morte ou não. O protagonista vai coligindo evidências, tentando pelo menos compreender o que se passa. Mas em vão, sempre em vão. Só no fim do conto compreende. E nós também.

Este conto é bastante bom.

Contos anteriores deste livro:

Jeffrey S. VanderMeer: Assimilação de Tian Shan-Góbi

Não li (ainda) a trilogia Área X mas já li e ouvi falar bastante sobre ela. E não me surpreenderia, tendo em conta o que li e ouvi, que as suas raízes estivessem pelo menos parcialmente na Assimilação de Tian Shan-Góbi (bibliografia), uma terrível doença aqui descrita por Jeff VanderMeer... digo... pelo Dr. Jeffrey S. VanderMeer.

Trata-se, claro, da descrição de uma terrível doença que o Dr. VanderMeer terá encontrado algures na China. Uma infestação por um conjunto diversificado de espécies de fungos parasitas, os quais substituem as funções vitais do hospedeiro de uma forma tão perfeita que quando a doença é detetada é tarde demais, e da vítima já só existe um fantasma.

Ficção científica? Podem apostar. E da boa, misturada com terror, porque a coisa é simultaneamente credível, terrível, verosímil e está muito bem escrita. Um ótimo conto pseudofactual, que apesar de o ser não deixa de ter enredo e constituir uma história com princípio, meio e fim.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Ray Bradbury: O Pequeno Assassino

Diz-se muitas vezes que a ficção científica, ou mais propriamente a ficção especulativa em geral, é a literatura do "e se?" E se no futuro partilhássemos o mundo com androides, robôs ou extraterrestres? E se existissem fantasmas? E se os animais falassem? E essa é das coisas mais acertadas que se dizem sobre este tipo de literatura porque se é verdade que não é a única a conter esta pergunta (um enredo típico de telenovela, por exemplo, pode remontar à questão "e se a Maria se apaixonar pelo António, casado com a Ana?"), é aquela em que tal questão é mais central, porque determina em grande medida não só o enredo, mas as personagens e o ambiente.

Mas mesmo dentro da ficção especulativa, obras diferentes servem-se em grau diverso do "e se?". Algumas praticamente só têm essa questão e as ramificações que dela partem; outras contêm outras coisas. Os puristas da ficção especulativa tendem a considerar as primeiras melhores que as segundas, mas eu discordo: acho que há coisas boas e coisas más de ambos os lados. Mais: em algumas, essa questão é óbvia, noutras está mais oculta.

No caso deste O Pequeno Assassino, o "e se?" é bastante óbvio. Ray Bradbury deverá ter obtido de alguma forma informação sobre a depressão pós-parto e a subsequente rejeição dos filhos por parte de algumas mães, e terá feito a si próprio a pergunta "e se?" E se não fosse apenas depressão e paranoia? E se o bebé que a mãe rejeita fosse realmente demoníaco? E se tentasse matá-la? Mesmo matá-la?

E a partir daí desenvolveu um conto de terror psicológico (embora também tenha o seu quê de sobrenatural) bastante bom, ainda que pouco original no desenvolvimento do enredo, com a típica personagem paranoica que todos veem como louca mas que na realidade é quem se apercebe realmente da verdade e tenta sem sucesso convencer os outros da realidade. Há nesta história ecos d'O Papel de Parede Amarelo da Charlotte Perkins Gilman e de muitas outras histórias, mas Bradbury consegue mesmo assim torná-la bastante sua. Não só pela prosa, mas também pela prosa.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Steve Alten: Meg

Sabem aqueles livros que parecem ser escritos de propósito para serem adaptados ao cinema? Há autores que são verdadeiros especialistas da técnica e, na FC, o nome que me vem mais rapidamente à mente é o de Michael Crichton. Pois bem, ajuizando pelo exemplo deste Meg, Steve Alten é outro.

Parece claro que a inspiração principal veio do filme de Spielberg, Tubarão. Alten pode ter pensado "será possível criar uma história com um tubarão assassino ainda maior e mais assustador do que o do Spielberg?" Provavelmente terá deparado com descrições de ciência popular sobre o primo extinto do grande tubarão branco, o megalodon, e achado que, com os seus 10 m de comprimento médio, com as fêmeas a atingir, provavelmente, uns colossais 17 m de comprimento máximo, esse peixe era o candidato ideal para tal história.

Restava um problema: o megalodon é uma espécie extinta, e para criar um thriller de ficção científica centrado no peixe assustador era preciso que o peixe assustador estivesse vivo. Bem, o celacanto também era uma espécie extinta até ser descoberto pela ciência, vivinho da silva, nas profundezas do oceano. Portanto, lá foi o bom do Alten às profundezas do oceano buscar o seu peixe assustador. Não a umas profundezas quaisquer: às mais profundas (e inacessíveis) das profundezas, a Fossa das Marianas.

Para isso, toma algumas liberdades que um leitor vulgar talvez não apanhe, mas a que alguém que conheça um pouco mais que a média sobre tubarões e oceanos (como um certo tipo que, apesar de não exercer há décadas, sempre tem um curso de biologia marinha: eu) torce o nariz. Esquece, por exemplo, que nas grandes profundidades o principal fator limitativo na fisiologia dos animais não é a falta de luz ou o frio, mas a falta de oxigénio, e que por isso os tubarões das grandes profundidades tendem a ser animais lentos e pachorrentos e pouco ou nada assustadores, apesar de poderem atingir dimensões razoáveis graças à chuva de alimentos que lhes cai do céu aquático, em especial a ocasional carcaça de baleia, capaz de alimentar um cardume inteiro deles durante bastante tempo.

E esquece que para manter o sangue quente, isto é, para conservar uma temperatura interna superior à das águas circundantes, como alguns tubarões fazem, incluindo os da família do grande tubarão branco, não basta o tamanho avantajado, ainda que este ajude: é preciso ter um metabolismo rápido, o que implica gastar oxigénio... que em grandes profundidades não existe.

Mas adiante. Thrillers de ficção científica, especialmente aqueles escritos com o contrato cinematográfico debaixo de olho, nunca foram equivalentes a FC cientificamente credível. Nem a boa FC, mesmo que esta às vezes aconteça sem ser cientificamente credível. Nem a boa literatura. E este Meg certamente não é nenhuma dessas três coisas. Porquê?

Bem, quanto à credibilidade científica estamos conversados. E, sem haver credibilidade científica, para que uma determinada obra ainda possa ser considerada boa FC não pode focar-se na parte tecnológica das coisas. Tem de ser mais filosófica, por exemplo, servindo-se de truques narrativos de FC para refletir sobre grandes questões como a natureza da humanidade, os limites da ética, as limitações da realidade, por aí fora. Ora, Alten está muito longe de ter alguma dessas questões no radar; quer apenas criar uma história emocionante e nada mais, e tenta credibilizar cientificamente essa história. Falha. E o falhanço implica que a história falha também enquanto FC.

E quanto à literatura? Bem, temos personagens rasas, com vilões de cartão e um protagonista torturado-mas-boa-gente e ainda por cima com razão, a fazer lembrar dezenas de personagens do cinema, temos o interesse romântico óbvio quase desde a primeira linha, com tragédias sucessivas a uni-los, temos uma escrita cuja melhor qualidade é ter bom ritmo e que poucas mais tem, e temos um enredo quase totalmente previsível, à parte um detalhe mesmo quase a terminar, que na verdade só é inesperado porque o leitor enquanto vai lendo tende a esquecer-se de que o nome do protagonista é Jonas; se se lembrasse, também isso seria totalmente óbvio.

Em suma, este é um livro bastante fraco, um livro-chiclete, que se masca, entretém durante umas horas e se deita fora sem deixar nada de relevante para trás.

Este livro foi comprado.

domingo, 17 de novembro de 2019

Leiturtugas da semana #41

E mais uma vez, a semana de Leiturtugas começa com uma opinião do Artur Coelho. Desta vez, o Artur debruça-se sobre uma edição da Divergência que já foi comentada no âmbito deste projeto: o romance de horror de Pedro Lucas Martins intitulado As Sombras de Lázaro. É também uma leitura sem FC, pelo que o Artur sobe a 6c5s. E falta-lhe uma.

Mas não foi o Jauch quem chegou a seguir; foi a Cristina Alves, começando uma série de posts dedicados à recente edição de O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias pela Divergência. Autor? João Barreiros, claro; é reedição de um livro dos anos 90 (consta que com contos novos). É um livro de FC, pelo que a Cristina passa a 6c8s e cumpre os mínimos.

E parece que é tudo por esta semana. Para a próxima deverá haver mais novidades. Se não for em mais sítio nenhum, pelo menos aqui na Lâmpada. Até lá.