quarta-feira, 22 de maio de 2019

Lido: Frederico e Catarininha

Mais prodígios de estupidez, em mais um conto que os Irmãos Grimm constroem a partir de várias histórias-base. Frederico e Catarininha são um casal jovem, ele agricultor, ela dona de casa. E se ele não é propriamente um prodígio de esperteza, ela é realmente um prodígio cuja inultrapassável estupidez vai causar um sem-fim de problemas a ambos.

O conto, francamente, tem pouco que se lhe diga além disto. A mulher é um exemplo de má dona-de-casa, não só prodigiosamente estúpida mas também preguiçosa, e é precisamente aí que está o fulcro da coisa, pois esto é um conto cautelar, para meninos, dizendo-lhes para terem cuidado na escolha da esposa porque se calharem com uma Catarininha vão meter-se em sarilhos, e também para meninas, explicando-lhes que não podem ser parvinhas e preguiçosas porque senão vão acabar em espantalho de gente boa. E sim, não se enganam, é um conto muito machista. Nem todos o são, mas este é.

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terça-feira, 21 de maio de 2019

Lido: Cães

Continuando a passar a pente razoavelmente fino os ebooks que tenho aqui no computador à espera de serem lidos, dei com este Cães, um pequeno PDF publicado de forma muito artesanal (nem capa propriamente dita tem, motivo pelo qual este post sai sem ilustração) no já longínquo ano de 2001, provavelmente pelo próprio autor, Ricardo Loureiro. E como este é autor que tem no currículo alguns contos de FC com algum interesse, pus-me a ler.

Mas o conto nada tem a ver com FC. É um continho umbiguista sobre os estados de alma de um antigo agente secreto que chega à idade da reforma e é posto de lado, em página e meia de monólogo interior e pouquíssima ação, escrita com uma competência mínima mas deficiente. Muito angst e pouco verdadeiro sumo, sem nada de surpreendente, sem rasgo, sem ser capaz de gerar um mínimo de empatia pelo protagonista. Mauzinho.

sábado, 18 de maio de 2019

Lido: O Suave Milagre

E para rematar este livro do Eça de Queirós, mais um conto que eu já antes tinha lido e comentado aqui na Lâmpada. Saí desta segunda leitura de O Suave Milagre (bibliografia), mais um dos vários contos fantásticos de fundo cristão que se encontram neste volume, com uma opinião um pouco melhor que da primeira. Nomeadamente, agora não me parece tanto que ele talvez não esteja "tão bem escrito como seria de esperar de Eça", como me pareceu que estivesse há seis anos. Certamente está mais bem escrito que o conto anterior que, esse sim, me parece que deixa a desejar. Mas isto são detalhes e, à parte esses detalhes, a opinião com que saí desta leitura é muito idêntica à de 2013.

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sexta-feira, 17 de maio de 2019

Lido: O Rei do Submundo

Sempre que se fala de poesia, eu repito o mesmo mantra: não é coisa de que eu perceba muito. No entanto, sei ver se um poema tem rima, que rima tem e se é banal ou invulgar, sei avaliar a métrica e consigo ter uma opinião estética do todo, obviamente mais subjetiva que o resto.

Por isso posso dizer que O Rei do Submundo, um poema fantástico de Emanuel Madalena, não é grande coisa, tecnicamente falando. Embora os versos tenham todos um tamanho semelhante (e longo), o que faz supor que a ideia seria torná-los metricamente uniformes, provavelmente em dodecassílabo ou coisa que o valha, na realidade a métrica é irregular. A rima também é bastante pobre, chegando a haver repetições sucessivas. A segunda estrofe, por exemplo, tem rimas em distante / brilhante / donzelas / belas / donzelas / belas / dançares / lugares / belas / donzelas / formosa / honrosa. Ugh!

De resto, trata-se de um daqueles poemas com ambições épicas, que contam uma história. No caso a história é de amor sobrenatural, entre o tal Rei do Submundo (não se percebe lá muito bem se é mesmo o diabo, se alguma espécie de vampiro) e a donzela que ele escolhe. A história é razoavelmente simpática. Mas quando se faz as contas ao todo, o resultado é fracote.

Lido: O Cão e o Pardal

É curioso como as histórias tradicionais mais próximas da anedota, com propósitos mais claramente humorísticos, têm quase invariavelmente como protagonistas prodígios de estupidez, pessoas tão extraordinariamente imbecis que quase rebentam com a suspensão da descrença. Encontrei disso nos contos populares do Adolfo Coelho, e encontro também disso aqui nos contos populares alterados pelos Irmãos Grimm.

Neste, por exemplo, ainda que aqui a anedota esteja envolta em humor negro. O Cão e o Pardal conta, com alguns elementos de lengalenga, a história de um cão que trava amizade com um pardal depois de fugir de casa do dono porque este o fazia passar fome. Mas o cão acaba morto por um carroceiro indiferente e muito, muito, muito estúpido, o que faz a história mudar de rumo, passando a ser uma história de vingança, pois o pardal decide vingar a morte do amigo. E vinga. Totalmente. Não por ser particularmente astucioso, mas graças sobretudo à cretinice do homenzinho.

Este é dos tais contos com moral clara (não serás cruel sem necessidade, e se fores pagarás por isso), que no entanto se torna ambígua assim que a análise se aprofunda um bocadinho. Pagaria realmente o homem se não fosse tão estúpido? E se não, o que é que o leva a pagar, a crueldade ou a estupidez? E sendo o pagamento pela crueldade ainda mais crueldade, a história não estará a derrotar a sua própria moral? Isto aumenta o interesse desta fábula, mas não chega para a arrancar à mediania. Não é daqueles contos populares que ficam realmente na memória.

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quinta-feira, 16 de maio de 2019

Lido: Avelino Arredondo

Avelino Arredondo, aparentemente, é uma daquelas histórias em que a efabulação se mistura com os factos históricos de uma forma que torna difícil separar uma coisa da outra. A base é verídica: Avelino Arredondo existiu mesmo e foi mesmo o assassino de Juan Idiarte Borda, presidente do Uruguai. Os factos narrados nesta história também parecem ser genericamente verídicos. Já aquilo que de subjetivo ela contém, os estados de espírito do assassino, as suas ideias e motivações, são aparentemente ficcionais, se não todos, pelo menos a maioria.

O conto é curto, como quase todos os que constroem este livro de Jorge Luis Borges e, também como a maioria dos restantes, interessante. Conta os últimos dias da vida de Avelino antes de cometer o assassínio que o viria a tornar famoso. Mas quando eu leio Borges estou sempre à espera de um rasgo qualquer, de algo de especial, e aqui não o encontrei. É uma história quase documental, contada com objetividade e segurança, mas não é nada de extraordinário.

Contos anteriores deste livro:

Lido: A Perfeição

Para prosador realista, preocupado com as minudências da condição humana como é de bom tom entre os prosadores realistas, há que convir que Eça de Queirós se fartou de escrever histórias fantásticas.

Pois A Perfeição é mais uma. Desta feita, porém, o conto não é como de costume baseado na mitologia cristã, nem sequer, como acontece por vezes, nas histórias tradicionais europeias, mas enraíza-se na mitologia grega. Ou melhor: numa história específica da literatura grega, a Odisseia.

Eça não inventa muito; limita-se a recontar, à sua maneira, o excerto da Odisseia em que Ulisses é cativo da ninfa Calipso na ilha de Ogígia, seguindo fielmente a história de Homero, pelo menos nas grandes pinceladas. A história é interessante e Eça torna-a mais interessante ao colocar no fulcro da rebeldia de Ulisses não tanto as saudades da pátria e da família, embora essa parcela também faça parte da soma, mas a resistência de um mortal, por conseguinte imperfeito, à perfeição inerente à divindade. E é este o elemento que mais contribui para o interesse do conto.

Mas há algumas coisas nele que colidem com alguma violência com o meu gosto literário. Para começar, a prosa é bastante mais adverbiada e adjetivada do que é habitual em Eça, cujo estilo, embora esteja sempre longe de ser seco, costuma ser mais contido do que aqui aparece. E ainda bem. E também há um problema com os diálogos, os quais tendem para um ar declamativo e tonitruante que num autor menor se estatelaria no ridículo e só não o faz em Eça porque, enfim, Eça não deixa de ser Eça.

Este é um mau conto, portanto? Não, não é. Mas na minha opinião (há outras; há quem goste de declamações teatrais e adjetivadas) está a alguma distância dos melhores.

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quarta-feira, 15 de maio de 2019

Em abril falou-se de...

Outro mês, mais leituras e comentários sobre ficção científica e coisas afins na web aberta de língua portuguesa. Este foi um mês algo invulgar, ainda que essa invulgaridade possa ter alguma coisa a ver com o atraso com que terminou o mês anterior. Ou não, não sei bem. Mas sobre isso falar-se-á mais adiante, já sem atrasos. Para já...

... para já fica a conversa do costume sobre onde encontrar informação sobre o que é isto, os seus objetivos e as suas limitações, no post que inaugurou esta série, sobre onde se podem encontrar todos os posts da série, mais alguns posts adicionais de balanço, na tag leituras fc, e os comentários que me apetece fazer sobre o mês, depois das listas, no fim do post. Listas essas que seguem de imediato:

Ficção portuguesa:
  1. Lisboa Oculta, org. ??
  2. Por Mundos Divergentes, org. ??
  3. Em Asas Vermelhas, de Nuno Almeida (conto)
  4. 25 de Abril, Corte e Costura, de João Cerqueira
  5. Bastet, de Mário de Seabra Coelho (conto)
  6. Patriarca, de Ricardo Dias (conto)
  7. Aventura Borgiana: Uma Sinopse Avançada, de Nuno Fonseca (conto)
  8. Um Piano Para Cavalos Altos, de Sandro William Junqueira
  9. O Patriota Improvável, de Maria de Menezes (conto)
  10. Dispensáveis, de Ana C. Nunes (conto)
  11. A Companhia Zero, de Joel Puga (conto)
  12. Sinal de Vida, de José Rodrigues dos Santos
  13. A Ira da Ferreirinha, de Carlos Eduardo Silva (conto)
Ficção brasileira:
  1. Sobre a Imortalidade de Rui de Leão, de Machado de Assis
  2. Jogos de Guerra, de J. M. Beraldo
  3. A Revolta da Sucata, de Laura Bergalo
  4. A Herdeira do Trono, de Mai Passos G.
  5. O Presidente Negro, de Monteiro Lobato
  6. A Viagem, de João Carlos Marinho
  7. A Queda dos Nove, de L. Matheus
  8. ABC da Morte, de Danilo Morales
  9. Fractais Tropicais, org. Nelson de Oliveira
  10. Filhos do Homem, de Wallace Oliveira
  11. O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci
  12. Sob os Pés, meu Corpo Inteiro, de Marcia Tiburi
  13. As Aventuras de Tibicuera, de Érico Veríssimo
  14. O Último Dia, de T. Villela
Ficção internacional:
  1. The Goblin Emperor, de Katherine Addison
  2. Imperfeitos, de Cecelia Ahern
  3. A Última Resposta, de Isaac Asimov (conto)
  4. Fundação, de Isaac Asimov
  5. Histórias de Robôs, de Isaac Asimov
  6. O Cair da Noite, de Isaac Asimov (conto)
  7. O Sol Desvelado, de Isaac Asimov (2x)
  8. Os Robôs da Alvorada, de Isaac Asimov (2x)
  9. Satisfação Garantida, de Isaac Asimov (conto)
  10. O Conto da Aia / The Handmaid's Tale, de Margaret Atwood (2x)
  11. Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler (2x)
  12. A Guerra das Salamandras, de Karel Čapek
  13. A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada, de Becky Chambers
  14. História da Sua Vida, de Ted Chiang (conto)
  15. 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke
  16. Campanha Publicitária, de Arthur C. Clarke (conto)
  17. Jogador nº 1, de Ernest Cline
  18. A Muralha ao Redor do Mundo, de Theodore Cogswell (conto)
  19. Tiamat's Wrath, de James S. A. Corey
  20. Matéria Escura, de Blake Crouch
  21. Vox, de Christina Dalcher (6x)
  22. Stronger, Faster and More Beautiful, de Erwin Elis Dayton
  23. Blade Runner / Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick (2x)
  24. Lotaria Solar, de Philip K. Dick
  25. O Tempo Desconjuntado, de Philip K. Dick
  26. Ubik, de Philip K. Dick
  27. O Sétimo Dia, de Kerry Drewery
  28. Um Tempo Aceitável, de Madeleine l'Engle (4x)
  29. Crupe dos Doenceiros, de Neil Gaiman (conto)
  30. Simulacron 3, de Daniel F. Galouye
  31. O Periférico, de William Gibson
  32. Crianças do Éden, de Joey Graceffa
  33. A Cidade das Ilusões, de Ursula K. Le Guin
  34. A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin
  35. Guerra Sem Fim, de Joe Haldeman
  36. Fatherland, de Robert Harris
  37. Cita en la Eternidad, de Robert A. Heinlein
  38. Imortalidade, de Rachel Heng
  39. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
  40. O Legado, de Amie Kaufman e Meagan Spooner (3x)
  41. Quando as Estrelas Caem, de Amie Kaufman e Meagan Spooner
  42. Além do Planeta Silencioso, de C. S. Lewis
  43. Perelandra, de C. S. Lewis
  44. Os Contos Mais Arrepiantes de Howard Philips Lovecraft, de H. P. Lovecraft
  45. O Jogo do Coringa, de Marie Lu (2x)
  46. Warcross, de Marie Lu
  47. Caixa de Pássaros / Às Cegas, de Josh Malerman (3x)
  48. Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson (2x)
  49. Winter, de Marissa Meyer
  50. Kenobi, de John Jackson Miller
  51. Eight o'Clock in the Morning, de Ray Nelson
  52. Mundo em Caos, de Patrick Ness (4x)
  53. A Súbita Aparição de Hope Arden, de Claire North
  54. 1984, de George Orwell
  55. The Anubis Gates, de Tim Powers
  56. Starters, de Lissa Price
  57. Contato, de Carl Sagan
  58. Guerra do Velho, de John Scalzi
  59. A Nuvem, de Neal Shusterman
  60. Solitária, de Alexandre Gordon Smith
  61. Ontem Foi Segunda-Feira, de Theodore Sturgeon (conto)
  62. A. K. A., de Rob Swigart
  63. Children of Time, de Adrian Tchaikovsky
  64. Todos os Nossos Ontens, de Cristin Terril
  65. Matadouro Cinco, de Kurt Vonnegut (2x)
  66. O Homem Invisível, de H. G. Wells
  67. Fluency, de Jennifer Foehner Wells
Não-ficção portuguesa:
  1. José Saramago: Rota de Vida, de Joaquim Vieira
Não-ficção brasileira:
  1. A fantástica jornada do escritor no Brasil, de Kátia Regina Souza
Não-ficção internacional:
  1. Homo Deus, de Yuval Noah Harari
Este mês foi absolutamente invulgar nos comentários às ficções lusófonas, pois que me lembre nunca tinha acontecido um equilíbrio tão grande entre os comentários a material português e brasileiro. Foi um mês particularmente fraco para este último e, quanto ao português, nunca antes houve tantos títulos na lista, ainda que muitos deles sejam títulos de contos. Treze títulos é um número simpático, ultrapassa pela segunda vez aquilo que me parece ser o mínimo aceitável (10), e o melhor é que eu contribuí com apenas um desses títulos; o resto foi tudo vosso. Não há é destaques a fazer: foi um título por autor e um comentário por título; variedade absoluta.

Variedade absoluta é também o que temos vindo do Brasil, apesar de um apelido se repetir. Há autores com os mesmos apelidos, fazer o quê? São 14 títulos e 14 autores e por conseguinte nenhum destaque. Não há é nenhum conto, pelo que por aí a vantagem brasileira é clara — os títulos correspondem a leituras mais extensas que as portuguesas. Mas só por aí, contrariamente ao que é hábito.

No que toca à ficção internacional, curiosamente, temos este mês precisamente o mesmo número de títulos do mês anterior: 67. Em março julguei que este número fosse um acidente estatístico e voltaria a subir em abril, mas não foi o que aconteceu; parece que se anda mesmo a ler e comentar menos FC traduzida do que há alguns meses, em especial no Brasil. Consequências da crise editorial que existe por lá? É muito possível. Mas isso não quer dizer que não continue a haver autores a destacar. Os de abril são Isaac Asimov, com 9 opiniões sobre 7 títulos diferentes, Christina Dalcher, com o seu romance a ser alvo de mais 6 opiniões e Philip K. Dick, com 5 opiniões sobre 4 títulos diferentes. Os últimos livros de Madeleine l'Engle e Patrick Ness também receberam 4 opiniões cada, e a dupla Kaufman/Spooner também foram alvo de 4 opiniões, mas distribuídas por 2 títulos.

Como serão as coisas em maio? No início (ou talvez em meados) de junho saberemos. Até lá.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Lido: Contra a Demagogia

Contra a Demagogia (bibliografia) parece quase uma versão ultracondensada de Vox, de Christina Dalcher (e também existem alguns pontos de contacto com a série das Ratazanas, publicada no Infinitamente Improvável), embora neste microconto de Luís Filipe Silva a vítima das limitações ao número de palavras seja um presidente, não as mulheres, e quem impõe esse limite seja um terrorista, não um machismo repressivo. É uma ideia interessante e bem executada, apesar de o conto ser demasiado curto para realmente me ter causado um impacto significativo. E este texto já vai mais extenso que o conto, portanto fico por aqui.

Contos anteriores desta publicação:

domingo, 12 de maio de 2019

Lido: Des-Sincronicidades

Houve uma época em que Luís Filipe Silva pareceu produzir (e publicou, de várias formas) sobretudo ficções ultracurtas, quase sempre de ficção científica e muitas vezes com forte pendor pseudofactual. Este Des-Sincronicidades (bibliografia), uma vinhetazinha que num livro ocuparia cerca de uma página, é uma dessas ficções.

Fala de um supremo azarado. De alguém que está sempre no lugar errado no momento errado, que faz sistematicamente as coisas na véspera de se tornarem desnecessárias, redundantes ou prejudiciais. Paradoxalmente, isso vai conduzir à sua sobrevivência (de certa forma) muito para lá do que seria expectável. E de peripécia em peripécia, vai sendo contado a largas pinceladas um futuro possível para a espécie humana no planeta Terra.

É isto, este relato do futuro nas entrelinhas, o que o conto tem de mais interessante. À parte esse detalhe, a sua principal qualidade é ser divertido, quase em jeito de anedota, o que não é nada de deitar fora mas não logra elevá-lo muito alto. Mas juntando as duas coisas fica um bom conto de FC.

Contos anteriores desta publicação:

Leiturtugas da semana

Mais uma semana, e mais uma vez as Leiturtugas começam com uma opinião do Marco Lopes a mais um conto de ficção científica integrado na antologia Por Mundos Divergentes. Cabe a vez a Sara Farinha e ao seu conto Somos Felizes.

O Marco já cumpriu os mínimos, pelo que não vale a pena continuar a acompanhar o seu progresso com as sinalefas do costume. Acho eu. O que pensam vocês? Interessa-vos saber por quanto os participantes excederam os objetivos?

Desta vez, no entanto, o Marco não esteve sozinho, pois também a Cristina Alves publicou uma opinião sobre uma história de ficção científica integrada numa antologia. No caso dela a antologia é a Winepunk, a história é de João Barreiros e intitula-se Nunca Mais. A Cristina passa assim a 3c1s.

E é só? Ná! O Artur Coelho também se juntou ao bando com a sua opinião sobre o mais recente lançamento de Bruno Martins Soares pela Divergência, A Batalha da Escuridão. Trata-se de uma space opera, ou seja, FC, pelo que o Artur passa a 4c1s.

Ficamos por aqui? Népia, que também a Maria publicou uma opinião sua sobre mais uma obra portuguesa de fantasia: um conto de Carina Rosa publicado via Smashwords (i.e., basicamente uma edição independente), intitulado Sonhos Malditos. Também este nada tem de FC, pelo que a Maria passa a 1c4s.

E acabou? Sim, agora acabou. Se queriam mais vão ter de esperar pela semana que vem. Até lá.

sábado, 11 de maio de 2019

Lido: O Pássaro Dourado

No meio do enorme manancial de histórias tradicionais protagonizadas por grupos de três irmãos, irmãs ou outros trios menos fraternais, e que invariavelmente envolvem ora uma progressão do primeiro para o último dos membros do trio, numa característica qualquer, ora um contraste entre os dois primeiros e o terceiro nessa característica, há um subconjunto bastante curioso em que o terceiro membro do trio é por toda a gente visto como tolo mas acaba por se sair melhor do que os outros dois das provações a que é sujeito.

É neste subconjunto que se integra O Pássaro Dourado, conto que os Irmãos Grimm terão alterado pouco, pelo menos se a interpretação que faço da nota correspondente a este conto é a mais correta.

Aqui, os três irmãos são filhos de um rei, encarregados primeiro de ficar de vigia para saber por que motivo os frutos dourados de uma árvore que o rei tinha estavam a desaparecer, tarefa de que o tolo já se sai melhor que os irmãos, e depois para encontrarem e trazerem ao pai o pássaro dourado que se revelou ser o culpado dos roubos. Coisa que depois de muitas peripécias o último dos três irmãos acaba mesmo por conseguir fazer, graças em grande medida a ter travado amizade com uma raposa muito mais inteligente do que ele.

É um conto bem feito, ainda que consista muito de elementos reutilizados de outras histórias (ou as outras histórias consistem de elementos reutilizados desta, sabe-se lá), um conto moral que procura incutir a muito comum ideia de que ter bom coração e/ou ser trabalhador vale mais do que ser inteligente (não que os irmãos do protagonista o sejam muito, convenha-se), mas a verdade é que não é daqueles contos tradicionais que perduram na memória. Está numa segunda linha de histórias interessantes mas não muito.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Morcego do Mar

Ler romances-colagem proporciona experiências muito diferentes consoante já se conheçam as histórias que estiveram na sua base ou ainda não. Um exemplo claro disso foi a forma como eu li este Morcego do Mar, uma novela que julgo ser inédita e escrita de propósito para este livro. Tenho absoluta certeza de que a li de uma forma diferente de qualquer leitor que não tivesse tomado contacto prévio com as várias outras histórias de que o livro se compõe e também com aquelas que fazem parte do mesmo universo ficcional e não foram usadas para o construir.

Gerson Lodi-Ribeiro começou por escrever os seus contos e noveletas sem nenhuma ideia de os reunir mais tarde num romance-colagem. E fê-lo como muitos escritores o fazem: pegando em temas que lhe despertaram o interesse e combinando-os com um ambiente ucrónico e um grupo de personagens (sobretudo uma personagem: o vampiro de Palmares propriamente dito) que foi desenvolvendo história a história, sem perder demasiado tempo a fixar a continuidade. Eu tenho quase certeza disto porque fui lendo essas histórias, se não todas pelo menos a maioria, à medida que foram sendo publicadas. E é com esse conhecimento de base na bagagem que me lancei à leitura desta novela.

Apesar de a coluna vertebral da série se desenrolar numa região razoavelmente contida, aquilo que na nossa realidade é o Brasil e nesta realidade criada por Gerson Lodi-Ribeiro são três estados independentes, os Três Brasis, e apesar de as histórias serem quase sempre protagonizadas pelo Vampiro de Palmares, sempre houve algumas dessas histórias que extravasaram tais limitações. Uma das histórias pertencentes à série, por exemplo, relata um jogo de futebol, num presente alternativo, entre as seleções de Palmares e do Brasil, sem a presença de vampiro nenhum. Outra revisita as lendas sobre Jack the Ripper e desenrola-se na época e no ambiente, Londres, dos ataques atribuídos a esse misterioso assassino. São histórias que sempre me pareceram algo laterais ao resto das noveletas e novelas. Mas quando se reúnem essas histórias para fazer um romance-colagem é necessário anular as lateralidades (ou deixá-las de parte, como não canónicas), explicá-las, trazê-las para dentro do fluxo narrativo geral.

E é isso o que esta novela faz relativamente a uma delas. O Vampiro de Palmares tem de aparecer em Londres em finais do século XIX? Muito bem, vamos então encontrar uma forma lógica de o levar à Europa a tempo. E, no caso, a viagem até à Europa passa pela América do Norte.

Aqui, por motivos geopolíticos complexos, a jovem nação de Palmares envolve-se na guerra de independência dos Estados Unidos décadas depois dos acontecimentos de Capitão Diabo das Geraes, mas mantendo boa parte dos mesmos protagonistas. A primeira parte da novela é preparatória, dedicando-se essencialmente a desenvolver os motivos, as tensões e as hesitações relacionadas com a aliança entre os palmarinos e os revolucionários norte-americanos. Mas o fulcro da história é a parte final.

Em grande parte porque é nela que se concentra praticamente toda a ação. Palmares não pretende enfrentar diretamente o poderio do Império Britânico, mas além de poder fornecer armas aos revoltosos, dispõe de uma arma secreta. Secretíssima. Uma criatura capaz de ver bem durante a noite, e por isso capaz de capitanear um navio silencioso por forma a impedir o desembarque no porto de Boston das tropas que uma vasta frota traz de Inglaterra para defender os interesses da coroa. Ou pelo menos de tentar, lançando um violento ataque com táticas de guerrilha naval, apesar da imensa inferioridade numérica.

É que a coisa corre bem, mas não inteiramente, e o Vampiro acaba por desaparecer na noite. Com ele, desaparecem também os poucos navios da frota inglesa que se salvaram do ataque noturno, de volta a mar aberto, de volta a Inglaterra. A independência americana fica praticamente assegurada. E embora quem não conheça de antemão as histórias que antecederam este livro possa ficar na dúvida quanto ao que terá acontecido ao protagonista, quem as conhece não tem dificuldade em perceber. E voltamos assim ao início deste texto.

Esta é uma novela intercalar. Preparatória. Funciona bem para o que se pretende: levar o protagonista do ponto A para o ponto B. É eficaz. Mas falta-lhe alguma da acutilância que as histórias que tiveram publicação independente têm.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Lido: História da Esposa Condenada

Não voltarei a falar da técnica usada por Italo Calvino para construir os contos deste livro — não vale a pena ser repetitivo — mas a verdade é que sem ela não há muito a dizer sobre cada história. Digamos pouco, então.

Esta História da Esposa Condenada é um continho de três páginas concebido quase em jeito de lenda, com influências, que me parecem claras, das histórias populares. Conta como um soldado depara com uma donzela no bosque, a qual suplica que ele a ame porque em breve ficaria prisioneira de um esposo cruel e não voltaria a ter tal liberdade. O soldado não se faz rogado e tem uma surpresa quando percebe de quem a mulher estava noiva.

Fantasia com toques de horror, é uma história semelhante às anteriores, ou seja, vale mais pelo artifício literário usado por Calvino para a construir do que propriamente pela história em si.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Lido: O Suborno

Uma das facetas mais interessantes da forma que Jorge Luis Borges arranjou para escrever os seus contos é o uso que faz da ironia, frequentemente subtilíssima mas não menos acutilante por isso. Essa ironia é patente na maior parte dos seus pseudofactuais, mas também em muitas das histórias que não o são. Ou naquelas que são algo mistas nesse aspeto: não propriamente pseudofactuais, mas com elementos destas últimas.

Caso de O Suborno. Trata-se de uma história muito subtilmente irónica sobre a Academia, narrada em jeito de depoimento. Um reputado professor e investigador de arcanas minudências literárias e linguísticas vê-se muito subitamente alvo de ferozes críticas na imprensa académica por parte de um jovem até aí desconhecido, e o conto vai narrando as peripécias de tal rivalidade, até que os dois protagonistas finalmente se encontram e conversam um com o outro, momento em que o mais novo revela ao adversário que na verdade não discordava do mais velho, antes nutria por ele um forte respeito, e tudo não passara de estratagema para alcançar uma posição académica que ambicionava. E que dependia do criticado.

É um conto tão bem construído como é espectável em Borges, muito corrosivo na ironia com que retrata as manobras políticas subjacentes às posições e publicações académicas, mas a que lhe falta aquele toque de surpresa, de revelação, para realmente me encher as medidas. Um conto bom, parece-me, e que me divertiu, mas que para além disso me deixou em grande medida frio.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 5 de maio de 2019

Leiturtugas da semana

Como tem sido hábito, esta semana voltou a haver Leiturtugas a divulgar, e mais uma vez coube ao Marco Lopes inaugurá-las com a sua opinião sobre mais um conto da antologia Por Mundos Divergentes. Coube a vez a Pedro G. P. Martins e ao seu conto Arrábida 8. Mais uma história de FC, e o Marco acaba de cumprir os objetivos só com opiniões com FC: 12c0s. Daqui em diante é só lucro.

E, adequadamente, esta semana nada mais houve. Ficamos só com a proeza do Marco.

Lido: Síndrome Fasciolar Cerebral dos Carteiros

Quem conheça um pouco da cultura popular americana decerto conhecerá episódios em que um pobre carteiro, ao tentar simplesmente fazer o seu trabalho de entregar pacotes postais aos destinatários, algures nalgum subúrbio feito de casinhas de madeira rodeadas por relvados e provavelmente também com alpendres a decorar as fachadas, se vê perseguido e não raras vezes mordido por um ou mais cães, furibundos pela intrusão no território que consideram seu.

É esse o imaginário que Stepan Chapman (perdão: o Dr. Stepan Chapman) vai buscar para conceber este Síndrome Fasciolar Cerebral dos Carteiros (bibliografia). Não em estado puro, que assim estaríamos apenas perante um cliché. Mistura-o com um conjunto bem real de parasitoses que levam a alterações, por vezes profundas, no comportamento dos animais afetados que os tornam mais vulneráveis à predação e por conseguinte à passagem do parasita à fase seguinte da sua vida, dentro de um novo tipo de hospedeiro. Na vida real, esse tipo de parasita infeta várias espécies em sequência. Aqui também: a cadeia de hospedeiros do parasita ficcional é composta por baratas, pombos, cães e carteiros.

O resultado é engraçado, mas fica algo longe da qualidade e subtileza da história de Neil Gaiman que antecede esta e tem em comum com ela toda a estrutura básica (a qual é a proposta do livro em que ambas foram publicadas, de resto) de caso clínico insólito. Interessante, sim, mas nada de superlativo.

Contos anteriores desta publicação:

sábado, 4 de maio de 2019

E assim me despeço do Fitz

Pois é. Já anda por sí a minha mais recente tradução, o último livro de Robin Hobb a ver a luz do dia em terras portuguesas. E o último livro de Robin Hobb que é protagonizado por uma personagem que me acompanhou durante anos: FitzCavalaria Visionário.

Não era para acompanhar. Se repararem, o primeiro volume deste universo que foi publicado por cá está assinado por outro tradutor. Foi ele que tomou as primeiras decisões relativas a uma série de coisas, da adaptação ou não dos diálogos ao que é padrão na língua portuguesa (travessões em vez de aspas) aos nomes de terras, regiões e personagens, passando pelas designações dadas às magias. Foram em geral decisões iguais às que eu tomaria, com algumas exceções (eu teria usado travessões, por exemplo), mas por motivos que agora não vêm ao caso a editora decidiu mudar de tradutor e estes livros vieram parar-me às mãos. Às vezes acontece, e pelos motivos mais variados. Também já estive do outro lado, por exemplo com a série do Skovron.

Não era para acompanhar, mas acompanhou. Foram quatro livros na primeira série, mais cinco na segunda, e mais cinco nesta. Catorze ao todo, e todos a atirar para o calhamaço, com trezentas e tal páginas, no mínimo. Recordando agora esta viagem, chego à conclusão de que passei nos Seis Ducados ou a viajar fora deles na companhia do Fitz e do Bobo (e nos últimos tempos também da pequena Abelha, e nos primeiros do lobo Olhos-de-Noite) mais de três anos da minha vida. É muito tempo. São muitas, muitas páginas, muitas, muitas, muitas palavras, e também muitas emoções, que isto de traduzir literatura não é propriamente um trabalho friamente técnico, não se reduz propriamente a escolher a palavra certa para expressar noutra língua cada uma das palavras do original. Há que transpor também a carga emocional que essas palavras e o seu arranjo pretendem transmitir.

E se há coisa que Margaret Ogden (verdadeiro nome de Robin Hobb) gosta de pôr nas histórias que escreve, é carga emocional.

Pior um pouco: por vezes esta história entrelaçou-se com a minha história pessoal de uma forma particularmente marcante. Durante as piores partes da doença do meu pai, por exemplo, estava eu a traduzir os livros da segunda das três séries, e quis o acaso que quando o meu velhote perdeu a guerra contra o cancro estivesse precisamente na parte em que o Fitz perde Olhos-de-Noite. Sei que mergulhar no trabalho me ajudou a fazer o luto, por ter alguma coisa em que pensar além de ter acabado de perder um dos alicerces da minha existência, mas não sei bem se ser obrigado a traduzir essa parte em concreto me ajudou ou prejudicou. Certo é que é algo que não esquecerei enquanto for vivo; foi muito marcante.

E felizmente não estava a traduzir este livro, porque tê-lo-ia sido ainda mais. Talvez muito mais.

Porque este livro é uma longa despedida. Uma despedida da série e dos seus protagonistas, ou pelo menos da maioria deles, em que a memória tem um papel fundamental e em que se amarra uma série de pontas que foram sendo deixadas mais ou menos soltas ao longo das várias séries. Se Hobb gosta de pôr nos seus livros uma forte carga de emoção, aqui carrega mais ainda nessa tecla, e fá-lo de forma muitíssimo hábil.

Vou fazer uma confissão: quando peguei na série, no inverno do já distante ano de 2009, recém saído das primeiras traduções do Martin e de um romance isolado de que gostei muito (A Criança Roubada, do Keith Donohue), não apreciei grandemente o mundo e as personagens com que tinha de trabalhar. Parecia-me tudo demasiado derivativo, falho de originalidade, apesar de sempre me ter parecido que a escrita propriamente dita era bastante boa. Com os anos, porém, não só devido ao desenvolvimento da história mas também, parece-me, em consequência de uma segurança cada vez maior da autora na sua arte, esta opinião foi a pouco e pouco mudando. Hoje, ao chegar ao fim, estes livros conquistaram um lugar no meu coração, não só por ter deixado neles um pouco de mim, como acontece sempre com qualquer tradução, mas porque realmente julgo que foram melhorando livro a livro, série a série, ano a ano.

E este é um livro do caraças. Tem de tudo: ação, revelações, emoção a rodos, qualidade no manejo da palavra, por aí fora. Do caraças.

Foi um prazer, Fitz. Foi um gosto, Bobo. Fica bem, Abelha.

Vou sentir a vossa falta.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Lido: Rolando Amado

Se os elementos típicos das histórias tradicionais não se repetissem tanto, este livro seria menos cansativo. Mas é, ao ponto de, à medida que a leitura avança, avançar também a ideia de que as histórias tradicionais, fruto talvez do contacto entre diversas tradições e de terem estado dependentes em exclusivo das memórias dos contadores durante centenas ou milhares de anos, são em grande medida variações sobre um conjunto bastante reduzido de elementos-base que reaparecem dezenas de vezes neste tipo de compilações mais abrangentes.

É assim que este Rolando Amado, conto que aparentemente os Irmãos Grimm apresentam em versão não fundida com mais nenhum, abre logo com o velho cliché da madrasta bruxa e má e encerra com o não menos velho cliché do casamento aprazado que ao último momento é alterado pelo regresso do amor verdadeiro. Pelo meio há uma história de crueldade, assassínio e perseguição, só contrariados pelo poder da magia repleta de metamorfoses e transformações.

Esta é uma historinha sólida, mas tão típica, tão banal, que é daqueles contos que se leem e se esquecem quase de imediato, especialmente quando no tempo de leitura se faz acompanhar de outras histórias semelhantes.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Escrita de abril



Abril voltou a ser um mês de escrita não muito abundante mas significativa. Este truque de escrever um parágrafo de vez em quando nos intervalos de outras coisas parece ter estabilizado a produção em volta de três a quatro mil palavras, salvo meses particularmente maus, como março último. Abril terminou com pouco mais de 3700 palavras escritas, e teria sido mais se não me tivesse magoado no dia 25 à conta de uma aventurazinha meio tola. Nada de sério mas o suficiente para ficar sem posição para dormir (com as habituais dói), o que me prejudica os sonos ao ponto de se me esgotar o combustível ainda na fase do trabalho. Ou seja: para trabalhar dá; para mais do que isso, nem por isso.

Mesmo assim deu para concluir um capítulo da novela, iniciar outro, escrever mais um conto curto e rever outro.

Mas acho que é já garantido que a novela não vai ficar pronta antes do verão. Teria de acelerar mesmo muito para despachar os dois capítulos e quase um terceiro que faltam entre maio e metade de junho. Agora o objetivo é que fique pronta antes do outono, e isso julgo que será razoavelmente fácil, até porque prevejo ter tempo livre depois do fim da tradução que tenho em mãos.

De qualquer forma, a coisa avança. Devagarinho mas com segurança.

E por agora é só. Até junho.

domingo, 28 de abril de 2019

Leiturtugas da semana

E cá temos mais uma semana de Leiturtugas, mais uma vez com o Marco Lopes a abrir com mais uma opinião sobre mais um conto da antologia Por Mundos Divergentes. Esta semana é um conto de Ana C. Nunes e intitula-se Dispensáveis. É um conto de ficção científica, como já se sabe, e o Marco passa a 11c0s. E falta-lhe uma opinião para cumprir os objetivos anuais.

E desta vez não esteve sozinho. Foi ainda na semana anterior que a Maria publicou mais uma opinião que, depois de algumas dúvidas, acabou por integrar também no projeto, durante esta semana. Fala ela nessa opinião do livro de contos Impressão Indelével, de Camilo Castelo Branco, o qual inclui pelo menos uma história que é possível integrar na literatura fantástica (e faz parte de duas das três edições da Antologia do Conto Fantástico Português). Nada nesse livro existe de FC, no entanto, pelo que a Maria passa a 1c3s.

Por fim, o Artur Coelho publicou a sua opinião sobre Lisboa Oculta, uma antologia sem informação disponível sobre o organizador (mas que eu suponho que seja o Carlos Silva), publicada pela Imaginauta. Tenho sempre partido do princípio de que este livro deverá ter textos que pelo menos rocem a ficção científica, mas esta opinião do Artur deixou-me na dúvida. Seja como for, vou supor provisoriamente que sim e passar o Artur para 3c1s; se não estiver correto logo se corrige mais tarde.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Achas que vives numa democracia completa? Pois enganas-te redondamente.

A esquerda tem feito um péssimo trabalho a explicar às pessoas a ideia de que não existe democracia real sem haver também democracia económica. E sem isso, não vamos lá.

É possível que parte do motivo para tão mau trabalho seja as várias esquerdas darem pesos muito diferentes às duas partes desta equação. Alguma esquerda, com demasiados exemplos históricos que, por óbvios, me dispenso se citar, tende a ignorar a democracia política em prol da económica (esta última mais teórica que real, ainda por cima, pois em todos esses casos se formou uma casta com poder político e poder económico a condizer). Pelo contrário, outra, que tende a só se distinguir da direita na retórica, ignora a democracia económica, resumindo a equação democrática à política.

Não fossem essas divergências, julgo que seria um conceito bastante simples de explicar. Tão simples, na verdade, que essa explicação talvez bastasse para erodir significativamente alguns mitos urbanos que ajudam a direita a manter a óbvia preponderância que detém na opinião publicada.

Tudo radica no conceito de poder e nas formas de que esse conceito se pode revestir.

A democracia, como se sabe, baseia-se na ideia de que todos os membros de um determinado grupo humano detêm o mesmo poder para determinar a direção política desse grupo de que fazem parte. Nas democracias políticas, na maior parte dos casos, esse poder uniforme e universal é exercido por intermédio do voto e emprestado a representantes cuja função é agir em obediência às propostas sufragadas, seja pelo todo social, seja pelos eleitores de uma determinada fação política (quando a representação se faz em estruturas parlamentares).

E nunca é perfeita. Isto é, existem sempre desvios, maiores ou menores, a este ideal de universalidade do poder, e a democracia é tanto mais avançada quanto menores forem esses desvios.

E parte dos desvios (e na verdade uma parte considerável) vem diretamente da economia.

A questão é que numa sociedade cuja economia se baseie em dinheiro (e em qualquer sociedade cuja economia se baseie em dinheiro, não só no capitalismo financeiro em que vivemos), este confere poder a quem o tem. Esse poder pode ser tão básico como o poder de escolher o que consumir e o que deixar nas prateleiras das lojas, ou seja, o poder de decidir onde (e se) gastar o dinheiro que se tem, poder esse que tem um impacto direto sobre toda a sociedade, mesmo em sistemas de economia planificada, quanto mais não seja por poder gerar maior ou menor proporção de desperdícios, o que tem impacto na eficiência da produção, o que tem impacto na eficiência da economia e por aí fora.

Mas quando a desproporção entre quem tem mais e quem tem menos aumenta, começa a fazer-se sentir um outro poder, mais insidioso e mais diretamente político: o poder de levar outras pessoas a fazer o que se quer que elas façam.

O que também tem vários graus. Pode tratar-se apenas de poder contratar alguém para fazer um trabalho que não se quer ou não se tem capacidade para fazer. Mas no extremo oposto desta escala está a corrupção, a compra de votos, a compra de influência política, a compra de leis que beneficiem especialmente quem detém mais poder financeiro, e por aí fora.

É fácil de perceber até que ponto isto distorce e deturpa a democracia. Quando deixamos que a vontade e os interesses de uns poucos se sobreponham à vontade e aos interesses da maioria, porque esses poucos são capazes de brandir um poder económico despropocionalmente elevado, estamos a deixar que a democracia se deteriore, mesmo que no campo formal e institucional ela pareça funcionar na perfeição.

Um exemplo prático: Portugal tem uma instituição chamada Comissão Permanente de Concertação Social. Nela têm assento representantes do governo, representantes das confederações patronais e representantes das confederações sindicais. Ou seja: representantes do poder político, representantes do poder económico, e representantes do resto do mundo laboral. Independentemente do que se possa pensar sobre a utilidade de uma tal instituição para manter a paz social, é indiscutível que ela reconhece institucional e politicamente a vasta diferença de poder económico entre o punhado de patrões e a grande massa de trabalhadores. Quando se faz depender do acordo da concertação social coisas como o montante do salário mínimo está-se a dizer que uma fração diminuta da população, o patronato, tem tanto ou mais poder político que a vasta maioria.

E isso não é democrático.

Porque a democracia, como se sabe, se baseia na ideia de que todos os membros de um determinado grupo humano detêm o mesmo poder para determinar a direção política desse grupo de que fazem parte.

Pode-se achar que a democracia deve ser limitada ao mero formalismo político. É, basicamente, o que a direita pensa. Mas a esquerda, que tem na democracia económica um dos seus principais esteios e tem-se deixado demasiadas vezes (e muito por culpa própria) acantonar em posições defensivas relativas não só à economia e ao mundo do trabalho mas à própria ideia da democracia, teria a obrigação de deixar muito claro

- que a luta contra a desigualdade é uma luta pela democracia
- que a democracia só se completa quando for tanto política como económica
- que uma democracia realmente avançada é uma democracia capaz de reduzir as diferenças de poder entre os vários grupos de que se compõe
- que políticas que fomentem a desigualdade, qualquer desigualdade, são na sua essência políticas que atacam a democracia

E por aí fora.

Isto é particularmente sério num momento em que o ideal democrático está em erosão acentuada. Pudera: quando a democracia económica não existe, haver democracia política é equivalente a ter-se apenas duas pernas de uma cadeira, deixando-a tão instável que muita gente pode sentir-se tentada a pensar que não serve para nada. Especialmente quando quase ninguém fala das duas pernas em falta.

É mais que tempo de começarmos a falar. Consistentemente. Constantemente. Não (nunca!) em oposição à democracia política, mas como complemento urgente.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Lido: José Matias

Com José Matias, cujo título dificilmente poderia ser mais apropriado, Eça de Queirós regressa aos estudos de personagem que abrem este livro. E este é bastante longo para esta espécie de retratos: 18 páginas de letra miudinha e apertadinha.

A personagem que Eça estuda é, claro, José Matias. Um jovem aristocrata ultrarromântico que se perde de amores platónicos (e correspondidos) por uma bela casada e se recusa a permitir que o platonismo passe a coisa concretizada quando a rapariga fica viúva, tudo contado como quem fala connosco, numa narração onde aqui e ali assomam as marcas de oralidade típicas do discurso direto. A princípio parece que a costumeira ironia queirosiana vai desfazer a tolice e o absurdo inerente àquela patetice sentimental, mas com o desenrolar da história percebemos que não, que Eça não troça do seu protagonista; tem pena dele.

O detalhe mais bem apanhado deste conto é a forma narrativa. Eça escreve como quem fala com o leitor, com marcas de oralidade que, não sendo fortes, estão espalhadas pelo texto. Dirige-se diretamente ao leitor, chamando-lhe "meu amigo", e explica-lhe a história das idas e vindas da sua relação com José Matias e, por intermédio dessa história, também a vida do protagonista desde que pela primeira vez pôs os olhos naquela que viria a ser o objeto da sua paixão platónica, até à sua morte (e não, não estou a revelar nada que Eça não revele logo na primeira linha do conto), destruído e alcoólico, anos mais tarde.

Mas não posso dizer que tenha realmente gostado desta história. Sim, está tão bem escrita como seria de esperar de algo feito pelo Eça, e sim, a técnica narrativa é usada de forma praticamente perfeita. Mas a história que Eça conta foi-me aborrecendo mais depressa do que as páginas foram passando. Poderia talvez ter gostado dela com cerca de metade da extensão, apesar de reconhecer ser provável que sem prolongar a lenta agonia autoimposta do protagonista Eça teria tido dificuldade em retratá-lo de forma adequadamente patética. Mas mesmo assim... É que muito antes de chegarmos ao fim, muito antes, já sabemos que estamos perante um palerma tresloucado, e a confirmação e reconfirmação desse facto em sucessivas peripécias em que o tosco do protagonista toma as decisões mais estúpidas possíveis depressa se tornam francamente maçudas.

Lá está: nada tenho a apontar à forma, bem pelo contrário. Mas o conteúdo... meh. E como dou primazia ao conteúdo, a opinião final não é das melhores.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 23 de abril de 2019

Lido: Crupe dos Doenceiros

E terminaram as releituras, mas no caso deste conto e do que se segue, isso só aconteceu porque o livro em que eles se inserem ainda está há mais tempo à espera na pilha de leituras futuras do que este número da Bang!

Escrito por Neil Gaiman (ou melhor, pelo Dr. Neil Gaiman), este Crupe dos Doenceiros (bibliografia) é um pseudofactual vagamente borgesiano cuja principal força está no brilhante uso da linguagem (muito bem vertido para português, já agora) que confere à história uma camada adicional e fundamental de significado. Gaiman descreve uma doença imaginária (o que de resto é a proposta do tal livro) que se pode resumir como uma forma peculiar de hipocondria com alguns sintomas adicionais.

Sou, como sabe quem costuma ler-me, mais sensível ao conteúdo do que à forma. Mas o topo da fruição literária dá-se, para mim, quando a forma serve o conteúdo de forma perfeita. Não quando o substitui, como tantas vezes acontece, mas quando o serve. E é precisamente o caso aqui. Este conto é excelente.

Contos anteriores desta publicação:

domingo, 21 de abril de 2019

Lido: O Nome do Diabrete (Rumpelstilzchen)

E continuamos em maré de crueldades e sacanices. O Nome do Diabrete (Rumpelstilzchen) é mais um daqueles contos que os Irmãos Grimm construíram a partir de várias histórias tradicionais pré-existentes e é mais um daqueles contos que começam em mentira e crueldade e terminam em injustiça.

Tudo começa com mentira. Um moleiro tinha uma filha bonita mas, não lhe chegando, tenta promovê-la mentindo que a rapariga era tão dotada que era capaz de fiar palha e transformá-la em ouro. Segue-se a crueldade: o rei ouve aquilo e decide pôr a rapariga à prova, encerrando-a numa sala cheia de palha e ameaçando matá-la caso ela não tivesse a palha toda transformada em ouro no dia seguinte.

É então que aparece o diabrete, que faz um acordo razoavelmente faustiano com a rapariga: salva-a mas não gratuitamente. Só que, rapariga salva, chega a hora do pagamento e esta não paga. O diabrete ainda lhe dá mais uma oportunidade, dispensando-a do pagamento se ela no prazo de três dias adivinhasse o seu nome. E ela adivinha... fazendo batota.

Este é mais um daqueles contos muito reveladores da psique alemã (embora os Grimm também deem conta de versões do conto em França e em alguns países nórdicos). Basta isso para o tornar interessante. Não propriamente agradável de ler, talvez, mas interessante.

Contos anteriores deste livro: