sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Aniceto Gregório: Pandemia Y

Este é um texto muito curioso e bastante mais sofisticado do que pode parecer à primeira vista. Com toques de ficção científica (há, alegadamente, um par de hackers que inventa um algoritmo capaz de prever o futuro), com um narrador tão pouco confiável que escancara a possibilidade de ter acabado de inventar tudo a fim de "mostrar serviço", mas também com um certo elemento de presciência capaz de tornar algo estranha a sua leitura agora que estamos a meio de uma pandemia verdadeira, este conto consegue ao mesmo tempo escapar à atmosfera geral do livro e integrar-se inteiramente nela.

A Pandemia Y (bibliografia) que Aniceto Gregório inventa é uma pandemia inexistente. Mas apesar da sua inexistência, é uma pandemia tão séria que deixa a ONU numa roda-viva a tentar arranjar e produzir uma forma de a combater. Tudo com base em boatos, em diz-que-disse, em perguntas potencialmente embaraçosas que levam os ocupantes dos cargos à ação simplesmente devido ao receio de serem ultrapassados pelos acontecimentos e ficarem mal vistos. Isto, claro está, se o narrador/autor do texto não inventou tudo sozinho. O resultado não é um dos casos clínicos típicos deste livro, mas uma coisa algo diferente, um texto escrito por um autodeclarado leigo na matéria. E no entanto, apesar dessa diferença, o espírito do Almanaque está lá.

Este conto é bastante bom. O seu principal ponto forte é sem dúvida a originalidade, mas o resto dos ingredientes que para ele contribuem também estão entre o razoável mais (alguns gags um tudo-nada gratuitos são capazes de ser o que tem de menos bom) e o bom.

Textos anteriores deste livro:

Leiturtugas #84

Pois aqui estamos a inaugurar o ano de Leiturtugas, alguns dias mais tarde relativamente ao plano por causa das coisas da vida, essa vaca, mas englobando apenas o material que surgiu na semana que terminou no dia 10.

E que material é esse? São três opiniões.

A primeira a aparecer é sobre BD e chega-nos pela mão da Cristina Alves. O título é Bestiário de Isa, e trata-se de uma pequena edição de autor de Joana Afonso, publicada a encerrar o ano de 2020. Como nos anos anteriores, também neste BD é "sem FC" e a Cristina começa o ano com 0c1s.

Depois foi a vez da Carla Ribeiro publicar a sua opinião sobre um romance de fantasia sobrenatural, ou talvez de realismo mágico, também publicado no ano passado. Trata-se de A Rapariga Invisível, dado ao público por Carlos M. Queirós através da Cultura. Também é "sem FC" e a Carla está igual à Cristina: 0c1s.

E o Marco Lopes também começa de igual forma, pois a opinião com que inaugura o ano é sobre um romance de fantasia épica, o primeiro da série de Allaryia de Filipe Faria: A Manopla de Karasthan. Este já não é edição recente, como se sabe; já tem quase duas décadas. A edição original, como sempre da Presença, tem data de 2002. E também o Marco arranca com 0c1s.

Mas isto são só as opiniões do pessoal que participa oficialmente no projeto. É que a mesma vida que levou ao atraso neste post me impediu de vasculhar atentamente o que foi sendo publicado fora do grupo interno e pode ser que haja por aí mais coisas. Se houver, não se preocupem que acabarão por chegar a estas páginas. Por enquanto, fiquem com algumas coisas publicadas ainda no ano passado:

Em dezembro, a Carla (outra Carla) publicou uma brevíssima opinião sobre um conto natalício de Inês Montenegro, intitulado Pela Chaminé Abaixo. É fantasia, claro.

E em julho, a Ana Vargas tinha publicado a sua opinião sobre um livro de António Manuel Venda cheio de fantástico, intitulado O que Entra nos Livros.

E por agora é só. Vamos ver se consigo voltar a publicar estas coisas aos domingos. Se sim, voltaremos a ver-nos daqui a dois dias. Se não, serão mais um ou dois. Até lá.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Aluísio Azevedo: Demônios

Eis mais um texto que me deixou dividido, à semelhança de várias das ficções de Charles Nodier que li recentemente. E em parte os motivos são os mesmos. Como Nodier, também Aluísio Azevedo mostra claras influências do romantismo (e no caso dele são mesmo influências, pois esta história é bem mais recente), o que, como quem frequenta este espaço já deverá saber, tende a desagradar-me. Mas neste Demônios (bibliografia) também existem elementos que só posso apelidar de soberbos.

Trata-se de uma noveleta, e bastante longa. A história é, à boa maneira novecentista, narrada em primeira pessoa e está, à boa (ou não) maneira romântica, salpicada de explosões sentimentais e muito exclamativas, em parte motivadas primeiro pela desesperada busca do protagonista pela sua amada e depois pelo esforço que os dois fazem em conjunto para sobreviver aos estranhos fenómenos que os dominam. Ou simplesmente para morrer juntos.

Nada disto me agrada particularmente (ou nada), e o final — que não revelarei, pois o autor pretende surpreender com ele — é de tudo o que menos me agrada. Se a história fosse apenas isso, teria deixado para trás uma opinião francamente desfavorável. Mas não é.

A questão é que Azevedo constrói um mundo de pesadelo, pesado, opressivo, dominador, através do qual os seus dois protagonistas se vão movimentando com crescente dificuldade, cada vez mais sobrecarregados pela sonolência, pela resistência desse mundo à existência nele de alguma espécie de vida, cada vez mais despidos de sentidos que os orientem, cada vez mais desinteressados, cada vez mais amorfos. E essa construção de mundo é magnífica. O mergulho passo a passo das personagens num mundo progressivamente mais infernal e estéril é o que dá a esta noveleta algo mais, apesar da simplicidade do enredo. É isso que provavelmente levará aqueles que apreciam os tiques literários do romantismo a achá-la extraordinária, e foi também isso o que me levou a mim, que não os aprecio, a sair da leitura com a sensação de que tinha acabado de ler uma ficção invulgarmente boa, mesmo não tendo gostado muito da experiência de leitura propriamente dita.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Mário-Henrique Leiria: A Vacina

Quando foram publicados originalmente, os Casos de Direito Galáctico vieram acompanhados por uma segunda série de textos chamada O Mundo Inquietante de Josela (fragmentos). Aqueles são ficção científica com muito de surrealismo à mistura; estes são surrealismo com alguma ficção científica misturada no caldeirão. E A Vacina (bibliografia) é o primeiro desses "fragmentos".

Mário-Henrique Leiria chama-lhes fragmentos mas são praticamente contos. E este é um conto divertido sobre as peripécias que acontecem a Josela e à família de Josela quando decidem levar os seus mamutes de estimação ao veterinário para levarem vacinas. É que os bichos fogem, e segue-se uma série divertida e muito, muito irónica, variante ácida, de aventuras e de estragos e de telefonemas a autoridades amigas, essa forma branda de corrupção tão omnipresente no Portugal salazarista (e que perdurou até aos dias de hoje, embora atenuada pela visibilidade que a liberdade lhe trouxe) para que o caso não tivesse mais consequências.

E no fim, tudo é em vão, que quem iria vacinar os bichos não se encontra no consultório. Quem não tem esta experiência de dar com o nariz numa porta que tinha de estar aberta? Todos temos, certamente. É que Leiria escreve sobre o seu quotidiano através dos mamutes de Josela, sem tentar a psicanálise barata do "caráter português" (seja isso o que for), mas retratando as irritações, os incómodos e os pontos de vista de um português a viver na sociedade portuguesa do seu tempo.

Também é por isso que é tão bom.

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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Escrita de dezembro


Novembro terminou esperançoso e dezembro começou de igual forma, mas as coisas não correram tão bem como o início do mês prometia. De resto, era previsível que assim fosse. A agitação gerada pelos preparativos para o regresso a casa da senhora da perna partida, e depois a agitação ainda maior gerada pela avaliação do que funcionava e do que era necessário alterar quando ela regressou mesmo, levaram o mês a voltar a ser pouco produtivo. Escrevi, mas o total escrito foi mais ou menos igual ao de novembro, pouco mais de 10 páginas. Muito, muito longe da produção dos primeiros três trimestres do ano.

Por outro lado, são 10 páginas que correspondem à conclusão de um conto, ao início de um segundo conto e à revisão de um terceiro, e este nem estava tão mauzinho como eu julguei que estivesse quando acabei de o escrever, no início de setembro. O saldo, portanto, não deixa de ser positivo, especialmente tendo em conta os condicionalismos envolventes.

Quanto ao ano que dezembro concluiu, foi francamente positivo, pelo menos em termos de produção de ficção. Haja ao menos isso a trazer alguma luz a este ano tenebroso de 2020. Com uma produção total de mais de 97 mil palavras, o que corresponde a umas 280 páginas, é o meu ano mais produtivo desde que comecei a fazer registos e, olhando para o que escrevi antes disso, é bem capaz de ter sido o mais produtivo de sempre. E quanto a qualidade, bem, posso dizer que gosto mais do que produzi este ano, em geral, do que da maior parte do que escrevi antes, pelo que pelo menos para mim a qualidade foi satisfatória. Pode ser que daqui por algum tempo mude de opinião, mas para já é esta.

E venha 2021. Tudo aponta para mais um ano de trevas, e veremos se essas trevas se vão estender à ficção ou se ficarão por outras facetas da vida. Se quiserem saber, fiquem por aí.

Jorge André Catarino: Omniantropocognoscite

Um dos principais motivos para tanto me cansarem os textos de quem acha interessante psicanalisar essa coisa fantasmagórica a que por vezes se chama "caráter português", em imitações mais ou menos baratas, mais ou menos derivativas, de Eça, é esses textos acabarem por ser tão parecidos uns com os outros. As mesmas ideias repetem-se até à exaustão, em variações superficiais que escondem mal ou não escondem de todo o mesmo núcleo, as mesmas ironias e as mesmas piadas sucedem-se monotonamente e o mesmo aborrecimento instala-se.

É muito por isso que ler Jorge André Catarino (ou pelo menos o seu texto presente nesta antologia) pouco difere de ler Patrícia Lameida (idem) e esta pouco difere de tantos outros exemplos do mesmo sintoma genérico de "caráter português". E isso diminui, obviamente, os textos de todos eles.

No caso deste Omniantropocognoscite (bibliografia), a doença que Catarino arranja é uma busca pela fama a qualquer custo e eu, pelo tom do texto, mais tarde também pelos "exemplos clínicos", comecei logo no primeiro parágrafo a resmungar com os meus botões "não fales de Portugal, não fales de Portugal!" Falou. Era óbvio que iria falar, e infelizmente falou mesmo, explicando os descobrimentos com a doença. E o conto, que sem isso não seria particularmente imaginativo mas podia tornar-se razoavelmente interessante, caiu na completa monotonia.

Não é mau? Não é mau. Não está mal escrito? Não está mal escrito. Mas é fracote.

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segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Jorge Luis Borges: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius

Não sei se isto acontece a todas as pessoas que leem muitos contos ou é só comigo por, além de ler muitos contos e livros de contos e revistas, andar sempre a ler várias coisas ao mesmo tempo (e quando digo "várias" é à volta de 10), mas o facto é que já aconteceu mais que uma vez deparar com o mesmo conto em publicações lidas muito perto uma da outra. Voltou a acontecer agora com este conto de quase FC de Jorge Luis Borges: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius (bibliografia), de que aqui falei ainda nem há um mês. Sim, voltei a lê-lo agora, e não, continuo a não ter nada a acrescentar à minha opinião de há cinco anos.

Contos anteriores desta publicação:

domingo, 3 de janeiro de 2021

Leiturtugas #83

E 2020 não terminou sem haver mais algumas Leiturtugas a reportar.

Foi mais uma vez a Carla Ribeiro a começar a fazer as honras à casa, com a publicação de mais uma opinião sobre BD. Trata-se desta vez de mais uma das antologias preparadas pelo The Lisbon Studio para a G-Floy (a Carla não menciona autores individuais ou eventuais antologistas), intitulada Viagens, e publicada em 2018. BD, já se sabe, é "sem FC", pelo que a Carla termina o ano com 4c10s. Sem atingir o objetivo, portanto, o que de resto foi praticamente generalizado.

Depois foi um tal Jorge Candeias, determinado a não deixar acabar o ano sem pelo menos compor os números um pouco melhor, pois estes estavam, francamente, vergonhosos. Os motivos ficarão para o balanço do ano; para aqui fica o registo das opiniões. As quais foram ao todo três, todas sobre ebooks publicados há alguns anos pelo Fantasy & Co.

A primeira foi sobre A Barca, pequeno conto de fantasia cristã e satírica de Pedro Pereira, inspirada em Gil Vicente. A segunda foi sobre outro conto de Pedro Pereira, de uma espécie de fantasia rural juvenil com toques de horror, intitulado A Besta. A terceira foi sobre um conto ciberpunk de Ricardo Dias intitulado Desporto Radical. Uma obra com FC e duas sem. E ainda li um quarto conto mas como não tive tempo para escrever a opinião ficará para as leiturtugas de 2021. De resto, não é a única obra já lida que terá de ficar para o novo ano por falta de oportunidade para escrever a opinião. Quanto este, terminei-o com 4c5s. Duas obras com FC e uma sem abaixo dos mínimos.

É mauzinho, mas nem me sinto muito mal porque de todos os participantes só a Cristina cumpriu. Todos os outros ficaram aquém, fruto das vicissitudes do ano, que reduziu edições, sobrecarregou professores, caiu em cima de tradutores com uma série de problemas sérios, por aí fora. Foi 2020 simplesmente a ser 2020. 2021 começa do zero, com menos participantes pois saem do grupo aqueles que ficaram completamente em branco em 2020, salvo se me informarem que pretendem continuar. Já vi que é o caso do Marco, pelo que ele continua, mas pelo menos até informação em contrário saem o Blog do Jauch (e ainda não consegui enviar-lhe o livro - vai ter de seguir em breve), o Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction e o Words a la Carte. Mesmo que saiam mesmo, estas e e outras publicações podem reentrar em qualquer altura, bastando avisar-me que pretendem fazê-lo. E se não entrarem, podem sempre voltar a aparecer por aqui, se publicarem alguma opinião sobre FC&F portuguesa e eu der por isso. Isto é, notas vindas de fora do grupo, como estas que se seguem:

Fora do grupo, e com data do mês passado, encontrei uma ultrabreve opinião da Carla (outra Carla) sobre o conto Pinheiro de Natal, de Pedro Cipriano.

Outra opinião bem mais elaborada tem data de novembro. Falo da opinião do Tomé sobre Mau-Mau, um romance de Filipe Nunes Vicente que parece situar-se algures entre o realismo mágico e, talvez, o horror.

Mais antiga é a opinião da Nadia sobre Pelos Caminhos Assombrados de Portugal, de Vanessa Fidalgo, um livro com um pé fora do tema e o outro dentro.

Também já bastante antiga, uma vez que vem de julho, é a opinião do Nuno Carola sobre Nem Todas as Baleias Voam, de Afonso Cruz, um livro cheio de elementos fantásticos.

Tudo ainda do ano passado, mas ainda não é desta que ele se encerra, pois ainda irão aparecer por aqui várias opiniões de 2020 vindas de fora do grupo. A ver vamos quem inaugura o novo ano.

Charles Nodier: Os Demónios da Noite e Outros Contos

Há leituras de que se sai com uma ideia muito sólida sobre se foram ou não do nosso gosto. Livros existem que recebem muito claramente o rótulo de "gostei" ou de "não gostei". Mas há outros cuja avaliação final é mais ambígua, ambivalente ou incerta. E, para mim, este Os Demónios da Noite e Outros Contos (bibliografia) de Charles Nodier pertence claramente ao segundo grupo. Porquê?

Porque os contos que constituem este livro têm características que me agradam bastante, quase todos, e ao mesmo tempo também as têm que me desagradam muito, salvo algumas exceções. Nodier escreve muitíssimo bem, e isso agrada-me, obviamente. Escreve bem o suficiente, na verdade, para que deva bastar a qualidade puramente literária do texto para que o livro agrade àqueles leitores para quem isso chega. São muitos. Eu não sou um deles: acho-a um fator importante, sim, mas apenas um fator entre vários outros. E é nestes outros que se encontra o que me desagrada.

Quem frequenta a Lâmpada com alguma regularidade já deve saber que sofro de uma certa alergia aos exageros sentimentais do romantismo literário e Nodier, embora não tenha sido um escritor romântico foi também um escritor romântico. Nem todos os contos que compõem esta compilação são contos românticos, mas há vários que são e, quase invariavelmente, foram esses os contos que menos me agradaram.

Além disso, tenho vários motivos para não nutrir grande apreço por ficções de fundo cristão, tendendo a achá-las previsíveis e por conseguinte chatas. Ora, Nodier parece ter sido religioso ao ponto de se poder chamar-lhe beato, e várias destas histórias têm profundas raízes nos preceitos cristãos. Algumas incluem divagações teológicas que pouco ou nenhum interesse me despertam. Outras seguem tão fielmente preceitos que qualquer pessoa integrada em sociedades em boa medida formatadas por alguma forma de cristianismo conhece de trás para a frente, que pouca surpresa contêm.

Por outro lado, quando as suas histórias são boas, são muito boas. Há nesta compilação contos excelentes, lado a lado com outros que só li a custo. Tenho a certeza de que outros leitores haverá para os quais cada uma destas histórias é um acepipe raro, mas eu saí da leitura com uma opinião bastante dividida. Reconheço muita qualidade a Nodier, gostei muito de alguns dos seus textos, mas não posso dizer o mesmo do livro como um todo.

Eis o que achei de cada conto ou novela:
Este livro foi comprado.

sábado, 2 de janeiro de 2021

Machado de Assis: As Academias de Sião

Há escritores a escrever hoje que parecem esforçar-se para produzir textos que possam confundir-se com ficções oitocentistas, de tal forma arcaicos são os temas que escolhem e os estilos que adotam. Por outro lado, há textos oitocentistas como este, de uma modernidade surpreendente, abordando temas que não se esperaria ver abordados em textos produzidos numa época que, pelo menos em certas áreas do mundo, estava dominada pelo puritanismo vitoriano.

Felizmente Machado de Assis era brasileiro, e por isso estava bem longe da influência da rainha Vitória. Talvez seja pelo menos em parte essa a explicação para ter escrito este As Academias de Sião (bibliografia) em 1884. É que para lá do seu evidente caráter alegórico, este conto debruça-se sobre a transsexualidade e os papéis de género.

Não deixa de ser curioso que Assis tenha situado a sua história no Sião, atual Tailândia, país mundialmente famoso pelo turismo sexual no qual está envolvida uma grande quantidade de transsexuais e travestis. Já seria assim no seu tempo? Não faço ideia. O certo é que este conto relata a história de um rei "de alma feminina" e de uma das suas concubinas, "de alma masculina". Embora não vá até às últimas consequências da ideia, os dois amantes trocam magicamente de corpos e aí se cumprem, sendo com relutância que regressam ao corpo original.

Simultaneamente, Assis diverte-se à custa dos académicos, retratando as academias de Sião como coisas grotescas, cheias de gente plenamente convicta de que todos os outros académicos ora são burros ora camelos. Diverte-se e diverte-nos, pois as ironias que aplica têm genuína graça.

Este conto seria bom mesmo se tivesse sido escrito hoje. Sendo um conto com quase cento e cinquenta anos, é extraordinário. Bravo, Machado!

Textos anteriores deste livro:

Patrícia Lameida: Legisreia

E não muito depois de nos oferecer um dos melhores contos de todo o volume, a parte portuguesa deste livro oferece-nos um dos piores, por intermédio de Patrícia Lameida, mais uma candidata a Eça. Legisreia (bibliografia) é um texto perfeitamente banal, que se limita a regurgitar as conversas de café contra os políticos, os funcionários públicos e os advogados, de uma forma levemente mais sofisticada do que é comum encontrar-se nos cafés propriamente ditos. Pior: nem sequer se enquadra bem no espírito geral do Almanaque.

A doença aqui inventada é uma tendência patológica para dar ordens e criar regras, que Lameida nem começa propriamente a descrever, contentando-se com menções a algumas personalidades e categorias de pessoas afetadas por ela. Fá-lo numa prosa competente, o que é o único aspeto positivo que descortino neste texto, mas fá-lo sem imaginação nem verve, o que até é pena porque algumas personagens que ataca até merecem o ataque. Convém é que ele seja bem feito, que tenha graça (e Lameida não tem), que seja imaginativo (e Lameida não é).

Este texto é bastante fraco.

Textos anteriores deste livro:

Irmãos Grimm: O Cravo

Uma das maneiras possíveis de dividir as histórias tradicionais europeias separa aquelas que mantêm mais ou menos puro o seu paganismo original daquelas em que o cristianismo surge explícito, quer por via de alterações feitas a histórias mais antigas, quer por se tratar de histórias criadas já depois das religiões cristãs terem dominado o continente. A quase totalidade das histórias dos Irmãos Grimm que surgiram até agora nestes volumes pertence ao primeiro grupo. O Cravo não.

O Cravo é uma história tão imbuída de cristandade que tem "Deus Nosso Senhor" na primeira linha e "Deus" na última. No entanto, essa cristandade parece ter sido sobreposta a um substrato mais antigo, pois os elementos nucleares da história são comuns a vários outros contos que a não têm. Fala de uma rainha estéril que magicamente teve um filho (aqui, claro, por intervenção divina), e desse filho, que tinha poderes (bastava-lhe desejar e os desejos eram satisfeitos) e acabou raptado por conta desses poderes.

No fim, depois de muita crueldade, de uma vingança bárbara e de muita magia, tudo acaba por ficar bem, como é típico dos contos de fadas. Embora este não tenha fadas, substituídas nos seus papéis habituais por deus e por anjos. Pelo meio fica um conto que, apesar de típico e talvez algo adulterado pela religião dominante, não deixa de ter o seu interesse.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Rui Zink: Um Romance

O Rui Zink é dos raros autores portugueses profundamente envolvidos com o meio literário "bem-pensante" (aspas importantes, estas) que mostra uma atitude absolutamente despreconceituosa (e despretensiosa) para com os géneros, movendo-se entre eles e fora deles com o à-vontade de alguém que não quer saber de rótulos e escreve o que lhe apetece como lhe apetece, com a única justificação de que fazê-lo lhe apetece. Muito por isso, é sempre com interesse e sem saber o que esperar que pego num texto dele. Por vezes, como seria sempre inevitável, não gosto muito; de outras vezes gosto bastante. Este Um Romance fica mais perto da primeira opção do que da segunda.

Não é um romance no sentido literário do termo, claro. Esta coleção é de contos, na sua maioria bastante breves, e este texto não é exceção, ainda que haja outros mais breves. Mas é sobre um romance.

Ou, mais precisamente, é sobre um romance que corre mal. E sobre as palermices que tantas vezes fazemos no campo das relações sentimentais.

Tudo é narrado por alguém que é alheio à história, e esta é meio observada, meio imaginada. Num restaurante, o narrador observa uma refeição que parece ter sido preparada pelo homem da relação para lhe pôr fim. Por insegurança, segundo quem observa tudo. Por medo. E Zink, em modo romântico (não me refiro aqui à corrente literária, atenção), usa a história como que para pedir desculpa pela palermice masculina, pela falta de jeito masculina, pela incapacidade masculina para fazer o que é correto na altura certa. A mulher da relação (do romance) pouco mais é que mera espetadora perplexa de um desastre em câmara lenta.

É um conto razoavelmente ternurento, bem escrito e bem feito, mas não me deixou particularmente satisfeito com a leitura. Gostei, não posso dizer que não tenha gostado. Mas não muito.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Ricardo Dias: Desporto Radical (#leiturtugas)

Escrevi aqui há relativamente pouco tempo a propósito de outro texto que o ciberpunk português é um subgénero tão rarefeito que qualquer um que cometa um conto ciberpunk se arrisca a ter escrito uma das nossas melhores histórias ciberpunk. E, na verdade, uma das piores também, que a rarefação é realmente muito grande. É mais ou menos como eu ser simultaneamente o melhor escritor do meu prédio e o pior, visto ser o único.

E sim, Ricardo Dias fê-lo com este Desporto Radical. Trata-se de um conto ciberpunk muito típico e um bom bocado derivativo, que retoma o tema do fantasma na máquina que surge no filme com o apropriado título de Ghost in the Machine, e integrando também outros elementos característicos do subgénero (houve alguns detalhes que me fizeram lembrar um pouco filmes como eXistenZ ou Johnny Mnemonic; as referências do autor parecem ser sobretudo cinematográficas). Dias exibe também algumas fragilidades na construção do ambiente, exagerando com alguma frequência na descrição de, ou mera menção a, detalhes técnicos e/ou futuristas que pouco ou nada contribuem para o avançar da narrativa. Na verdade, tendem a travá-la, e é esse o principal problema da introdução deste tipo de technobabble nas histórias. Há uma técnica para conseguir estes efeitos e, ajuizando pelo exemplo, Dias não a domina bem. Outro detalhe em que faria falta algum trabalho são os diálogos. Não são maus (não são daqueles diálogos em que não é possível ver uma pessoa a falar, por exemplo), mas são pouco sólidos, faltando-lhes aquela espécie de definição que permite identificar quem é e o que pensa uma personagem pela forma como fala.

Mas apesar disso, e apesar de alguns buracos no argumento (por exemplo o facto do protagonista, um profissional treinado, levar mais tempo a perceber o que se passa do que o leitor), o conto é interessante. Um detetive da polícia é contactado discretamente pelo médico legista com quem trabalha para lhe transmitir suspeitas relativas às mortes de algumas pessoas, as quais foram identificadas como suicídios. A investigação subsequente vai revelar o tal fantasma na máquina, e o desfecho é adequado, ainda que também seja bastante previsível (e de novo o profissional treinado fica com uma imagem bastante tosca; ou não deve muito à inteligência, ou o treino foi uma treta).

O trabalho do texto, não sendo nada de extraordinário, é eficaz, e o conto desenrola-se com bom ritmo, se se descontar a areia que o excesso de technobabble mete na engrenagem. O resultado é um conto que se lê bem, talvez um pouco melhor que razoável, mesmo não trazendo grande novidade.

Um dos melhores contos ciberpunk portugueses, portanto.

Mia Couto: O Filho da Morte

É realismo mágico bastante puro o que encontramos neste O Filho da Morte, pequeno conto que tem o subtítulo de No Campo de Refugiados e que traz consigo toda a magia poética das histórias fantásticas de Mia Couto.

A situação é terrível. Num campo de refugiados, há o cadáver de uma mulher grávida com todos os sinais de estar morta há vários dias. Não se sabe porque morreu, nem isso interessa; terá morrido de ser refugiada, simplesmente. Mas está grávida, e o presente aqui não é casual, pois a vida que tem dentro recusa-se a acompanhar a morta na morte. Acontece um nascimento, nada menos que milagroso. E depois, outra refugiada, uma mulher que era mais louca que mulher, toma conta da criança e assim se metamorfoseia em mãe.

Um conto bastante belo, apesar do tema. E também apesar do tema um conto otimista, que nos diz que a vida sobrevive a qualquer situação, por mais desesperada que pareça, e que o amor é capaz de transformar qualquer pessoa em alguém melhor, mais realizado. E, claro, tão bem escrito como é de esperar de Mia Couto. Muito bom mesmo.

Contos anteriores deste livro:

João Ventura: Insideout

Com a competência que habitualmente se lhe reconhece, mas sem a fina ironia de que as suas prosas tantas vezes dão provas, João Ventura apresenta uma história também perfeitamente integrada no espírito da coisa mas não tão imaginativa como eu estava à espera. Não na ideia base, que esta o é, mas na sua concretização. Insideout (bibliografia), a doença, é mais uma das múltiplas enfermidades que constam deste livro e envolvem metamorfoses, embora a metamorfose de Ventura seja das mais simples: uma mera inversão total do organismo, cuja parte exterior passa a ser interior e vice-versa.

Como disse, eu de Ventura esperava mais humor do que o que encontrei aqui. Não que ele esteja inteiramente ausente, mas está bastante mais diluído do que em outros textos, nomeadamente os dois do Palinhos que o precedem. Também há aqui um certo elemento de azar, visto que os contos seguem a ordenação alfabética e simplesmente calhou esta história ficar muito perto de uma das mais divertidas de todo o volume. Não fosse isso, e é possível que me tivesse divertido mais a associação de uma doença destas aos estudos topológicos dos matemáticos, as únicas pessoas afetadas.

Seja como for, é uma boa história. Não tanto como eu esperaria, talvez, mas boa.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Pedro Pereira: A Besta (#leiturtugas)

Se eu analisasse este conto sob a ótica da literatura adulta, ele sairia bastante maltratado da análise. A Besta não é um bom conto e, se visto como história para adultos, nem sequer é um conto razoável. É mau. Mas a ideia de Pedro Pereira parece ter sido criar uma história juvenil e, para isso, há alguns critérios que mudam um pouco. Encarando esta história dessa forma, ela sobe ao nível do razoável. Mas daí não passa.

Não é tanto uma questão de clichés, ainda que eles sejam abundantes. Quem tenha visto alguma das milhentas produções audiovisuais de fantasia de série B ou C dirigidas ao público adolescente encontrará aqui elementos que conhece bem: o grupo de jovens amigos que embarca numa aventura, uma espécie de Buffy tuga a salvar o que é possível salvar, diálogos tipicamente teen, muito pouca profundidade, por aí fora.

O problema tem mais a ver com o português, em geral pouco entusiasmante e com alguns erros de palmatória que só em parte poderiam ter sido resolvidos com uma revisão (quando li a frase "desculpem lá a massada" primeiro ri-me, depois perguntei a mim mesmo se seria de carne ou de peixe e depois ri-me outra vez). E também com a estrutura, pois as três mil e tal palavras do conto se leem mais como o primeiro capítulo de uma história mais longa, um romance, ou até mesmo uma série, do que como um conto propriamente dito.

Por outro lado, Pedro Pereira até tem jeito para este tipo de história. Apesar de tudo o que de negativo ficou dito acima, a leitura não deixa de ser razoavelmente agradável, em especial porque o texto mostra um ritmo narrativo interessante e muito adequado à ficção juvenil. É isto o que torna o conto razoável.

É que bem desenvolvida, esta história até podia vir a ser o embrião de qualquer coisa válida. Uma fantasia juvenil ou, como agora está na moda no mercado, uma YA com interesse. Mas só se bem desenvolvida. Como está, não chega.

Isaac Asimov: Galatea

Sim, sim, é mais um conto de Azazel, o diabrete inventado por Isaac Asimov, mas este tem um pouco mais de interesse do que a maioria. Não muito, apenas um pouco, e parte dele tem mais a ver com a inspiração mitológica para a história do que propriamente com algo que Asimov tenha inventado.

Galatea (bibliografia), como de resto o título já indica, é a versão asimoviana do mito grego de Pigmaleão. Para quem não conhece a lenda, Pigmaleão era um escultor cipriota que esculpiu a sua visão da mulher ideal e depois se apaixonou pela estátua que fizera, o que levou Afrodite a ter pena dele e a dar vida à estátua, chamando-lhe Galateia. Pelo menos numa versão da história... há várias. Mas é claramente essa a inspirar Asimov, pois é precisamente esse o enredo deste conto.

E Asimov segue-o fielmente, embora com algumas adaptações. Para começar, não é Afrodite que dá vida à estátua, claro, mas sim o seu demoniozinho Azazel, e não por se ter apiedado de quem a esculpiu mas porque essa intervenção lhe foi solicitada pelo homem que tem a capacidade de o invocar. O escultor, além disso, é uma escultora. E as coisas, claro, correm mal, como seria inevitável. Ora, também aqui esta história é mais bem sucedida do que a maior parte das histórias de Azazel: é que nas outras Asimov tenta (e muito) ter piada; aqui consegue. Não muita, mas alguma.

Não contarei mais sobre a história, pois ela é daquelas que dependem do efeito surpresa para funcionar, e aqui isso é particularmente importante por o conto seguir tão de perto um enredo alheio, clássico e razoavelmente bem conhecido. Direi apenas que esta história se ergue acima da maioria das demais histórias de Azazel. O suficiente para ser boa. Ou, vá, boazinha.

Contos anteriores deste livro:

Pedro Pereira: A Barca (#leiturtugas)

Um título como A Barca, para leitores portugueses, ou pelo menos para aqueles leitores portugueses que tomaram contacto com Gil Vicente na escola, remete imediatamente para os seus Autos das Barcas e é precisamente isso o que Pedro Pereira aqui apresenta: uma versão modernizada, muito encurtada e bastante simplificada do Auto da Barca do Inferno, escrita em jeito de homenagem.

Esta ideia de homenagear Gil Vicente é uma ideia simpática, mas não gostei muito do resultado. O espírito satírico de Vicente é difícil de transpor e Pereira só mostra dele um fantasma, apesar do seu pequeno conto até seguir fielmente o enredo do auto vicentino, completo com o ataque aos poderosos e o elogio dos simples. A escrita em si é eficaz, mas não passa disso, faltando-lhe a riqueza literária dos versos do auto, o que seria sempre até certo ponto inevitável numa adaptação para prosa, mas só até certo ponto.

Por outro lado não sei bem como poderia o autor ter conseguido melhor resultado com esta ideia. Um texto mais longo, menos simples, com espaço e elaboração suficientes para acrescentar qualquer coisa ao texto vicentino, talvez fosse uma opção, mas também é verdade que se correria assim o risco de perder aquilo que os Autos das Barcas têm de direto, mesmo quando algo oblíquo. É possível que assim eu não tivesse sentido que faltava aqui alguma coisa, mas também é possível que tivesse continuado a sentir o mesmo, embora a coisa em falta fosse outra.

A verdade, porém, é que senti. Este é um continho simpático, razoável, mas apenas isso.

Manuel Bernardes: Lenda dos Bailarins

É muito curta, esta prosa de Manuel Bernardes que, como de resto é relativamente frequente acontecer nos textos mais antigos que são selecionados para antologias deste género, não é propriamente um conto mas sim um excerto de uma obra maior.

Neste caso, a Lenda dos Bailarins (bibliografia) foi retirada de uma obra intitulada Nova Floresta, um conjunto de textos de vária índole mas radicados no catolicismo, ou não fosse Manuel Bernardes padre.

E o título dado (apocrifamente?) ao texto não desmente o seu conteúdo. O conto, de facto, narra uma lenda, a dos bailarins, um grupo de desgraçados que, por cometerem a heresia de dançarem e cantarem no cemitério, são condenados por deus a dançar um ano inteiro sem parar, findo o qual a maioria acaba por morrer. Misericórdia divina, mas não para quem comete o terrível pecado de se divertir, como se vê.

Não sei se Bernardes inventou a lenda ou se limitou a reproduzir uma história ouvida algures. Mas sei que a história é boa, fazendo um uso eficaz do fantástico para dar força a uma mensagem religiosa. E há nela elementos de gore suficientes para fazer com que Bernardes, por via desde pequeno conto (são só duas páginas), tenha acabado por se tornar num percursor do horror português.

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terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Jorge Palinhos: Hippopotamus Perperam Animadvertu

Embora continue a integrar-se perfeitamente no espírito da coisa e a ser bom, este segundo conto/doença do Jorge Palinhos fica algo aquém do primeiro. Parte do motivo para isso é este Hippopotamus Perperam Animadvertu (bibliografia) ser bastante menos imaginativo que a Hipersensibilidade Lexical. Outra parte é ser também consideravelmente menos divertido.

Estamos perante um caso único. Um paciente, português, que insiste estar constantemente acompanhado por um hipopótamo que mais ninguém vê e, ocasionalmente, também por outros animais, igualmente invisíveis. Palinhos consegue contar a história da vida dele a partir do momento em que se vê afligido pela doença, através do simples truque de descrever a evolução do caso clínico. E é interessante, e está bem feito, mas não é nada de particularmente insólito. Parece um caso de loucura razoavelmente plausível, não muito diferente de casos reais de pessoas que veem ou ouvem coisas que não têm existência concreta. É esse, para mim, o seu principal ponto fraco, pois o facto de ser consideravelmente menos divertido que o outro conto não implica que não seja também divertido (o outro é-o muito; a diferença é basicamente essa).

Fora isso, esta história funciona a contento e está bem escrita. É uma boa história.

Textos anteriores deste livro:

Leiturtugas #82

Uns dias mais tarde do que é hábito, devido às coisas da vida, mas apenas com o material da semana, eis mais uma nota de divulgação das Leiturtugas.

E esta semana tivemos apenas uma opinião da Carla Ribeiro a contribuir para as leiturtugas oficiais, por assim dizer. É o livro da imagem aqui ao lado, uma coletânea de contos de Tiago Moita que parecem dispersar-se por aquele espaço que se radica na fantasia e num fantástico bastante alegórico mas estende ramos para outros lados, incluindo a ficção científica. Os Contos Impossíveis foram publicados pela Chiado em 2019. E a Carla sobe assim a 4c9s.

Quanto a material vindo de fora do grupo, também só temos uma entrada, e já com alguns meses: uma breve opinião da Nádia sobre Doze Doses de Ilusão, da Carina Portugal. A vida não deixou escavar mais.

Entretanto, tomei outra decisão relativa à integração dos oficiosos no processo Leiturtugas. Tinha dito aqui que "cada leiturtuga de não participantes vai valer um quarto (ou um quociente de 0,25, ou 25%) das dos participantes", mas vou alterar isto. É que a ideia principal deste projeto foi promover a leitura e o comentário especificamente da ficção científica portuguesa, e estar a tratar com o mesmo quociente o que é (ou tem) FC e o que não o é (ou tem) não faz nada por isso. Portanto vai passar a ser assim: uma leiturtuga sem FC vai valer um quinto (quociente de 0,2, 20%) da dos participantes, uma leiturtuga com FC valerá um terço (quociente de 0,33, 33%) da dos participantes. Portanto já sabem: toca a ler FC!

E por esta semana é só isto. Vemo-nos para o ano.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Leiturtugas #81

Esta semana, quem tratou de nos trazer Leiturtugas "oficiais", por assim dizer, foi a Carla Ribeiro, publicando uma opinião sobre A Assembleia das Mulheres, adaptação de Zé Nuno Fraga para banda desenhada da peça homónima de Aristófanes. Contrariamente ao que tem vindo a ser hábito aqui pelas leiturtugas nos últimos tempos, não se trata de uma edição deste ano, mas sim do ano passado, pel'A Seita. BD, já se sabe, é sem FC, e a Carla passa a 3c9s.

Quanto às "oficiosas", isto é, vindas de fora do grupo, temos uma opinião de António Bizarro, já com alguns meses, sobre A Arca, conto de Joel G. Gomes.

Também temos uma opinião da Carla (outra Carla), também antiga, sobre os Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen, alguns dos quais poderão conter algum fantástico.

E também já tem alguns meses a opinião do Tomé sobre A Breve História da Menina Eterna, uma novela ou romance curto de Rute Simões Ribeiro que parece integrar-se no realismo mágico.

Por fim, também já há alguns meses, a Inês publicou uma opinião sobre A Relíquia, romance em que Eça de Queirós, conhecido como grande escritor realista, pisca o olho ao fantástico.

E por esta semana é só. Para a semana haverá mais leiturtugas. Oficiosas de certeza; oficiais veremos. Até lá.

Jorge Palinhos: Hipersensibilidade Lexical

Não sei ainda se este conto de Jorge Palinhos é o melhor da parte lusófona deste livro, uma vez que ainda não os li a todos. Mas posso dizer com toda a certeza que é o melhor dos que já li, o que significa todos os que ficaram para trás e mais alguns de que ainda irei falar.

É que esta Hipersensibilidade Lexical (bibliografia) não só se integra perfeitamente no espírito da coisa como está impecavelmente escrita e tem um piadão.

A doença é um achado, já agora. O Palinhos arranjou uma maleita que consiste em ataques de cegueira, surdez e paralisações de outros órgãos dos sentidos sempre que os pacientes são expostos a certas palavras específicas. Não sei se foi essa a inspiração, mas fez-me lembrar aquele sketch genial dos Gato Fedorento sobre o "indivíduo que é javardola menos quando usa termos franceses".

Mas o que torna este conto realmente especial são os exemplos e os casos clínicos, do empregado de mesa que descobriu ser suscetível à palavra "pudim" à cantora, presume-se que lírica, que ensurdeceu vítima da palavra "bravo!" É a miríade de pormenores deste género, e a forma seriíssima como eles são apresentados, que tornam este conto um dos mais divertidos de todo o livro. Muito, muito bom. Aliás, diria mesmo, e correndo o risco de provocar um ataque nalguma cantora, que é caso para rematar com um:

Bravo!

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sábado, 19 de dezembro de 2020

Dino Buzzati: O Bicho-Papão

Engana-se quem ler o título de O Bicho-Papão (bibliografia) e supuser tratar-se de uma história infantil. Na verdade este conto de Dino Buzzati está muito longe de o ser; é, isso sim, um conto sobre o conflito entre a fantasia e a realidade e também sobre política. Não tanto sobre a política propriamente dita, isto é, o combate de ideias sobre a organização social (embora isso também lá esteja), mas sobre o processo da política.

A história é sobre um engenheiro, daqueles que ocupam cargos de topo em empresas e organismos públicos, o qual um belo dia se enfureceu com a ama do filho por esta tentar acalmá-lo ameaçando-o com o aparecimento do bicho-papão. Não é a ameaça que o enfurece, note-se, mas o recurso à tolice do bicho-papão, que como toda a gente sabe não existe, é só superstição.

E claro que o bicho-papão começa a aparecer-lhe a ele, o engenheiro cético. E isso, depois de descobrir que a existência do bicho-papão era afinal de conhecimento comum na cidade, o leva a manobrar politicamente no sentido de arranjar forma de o destruir.

E consegue, o que serve para Buzzati fazer no fim uma espécie de lição de moral, quase à maneira das fábulas. Como outros fantasistas, este autor italiano parece encontrar uma oposição irreconciliável entre a fantasia, a imaginação, e o mundo moderno da técnica e da ciência (e para ele a política parece ser uma extensão deste mundo, e basta olharmos em volta para vermos como esta noção é ridícula), e este conto é claramente reflexo dessa ideia. É um bom conto, e só não é muito bom porque a liçãozinha de moral era bastante escusada (as opiniões subjacentes ficariam claras mesmo sem ela), mas a ideia é absolutamente errada. Não há incompatibilidade nenhuma, desde que cada coisa permaneça no campo que lhe compete.

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