terça-feira, 26 de junho de 2018

Ponto da situação

A menos que seja uma pessoa distraída, quem acompanha aqui a Lâmpada e o Bibliowiki já terá reparado que as coisas têm andado a meio gás, quando não é a menos que meio: o wiki desde o início de maio que não mexe, e a Lâmpada idem há meio mês. E eu achei boa ideia explicar porquê, tanto mais que é coisa que tenderá a prolongar-se.

É que estou mais ou menos como este tipo verde aqui ao lado.

Nos últimos tempos tenho tido uma tradução em mãos, que não só tem sido particularmente exigente (sabem que mais? Detesto quando as personagens dos livros que traduzo resolvem embarcar. Detesto de detestamento detestado.) como tem sido feita a um ritmo um pouco mais acelerado do que poderia ser porque eu pretendia tirar uns diazitos de férias antes de deitar mãos à próxima, cuja data de entrega estava estabelecida para outubro. Essa exigência, por um lado, e o adiantar de serviço pelo outro foram os principais motivos para ter deixado alguns dos meus projetos um pouco ao abandono, ainda que não tenham sido os únicos.

Mas ainda bem que fui adiantando serviço: é que de repente em vez de ter um livro para traduzir até outubro tenho três para traduzir até fevereiro.

Ou seja, estou cheio de trabalho, e vou continuar a estar nos próximos meses. Por um lado é ótimo: antes ter trabalho a mais que trabalho a menos (na vida de um freelancer as ocasiões em que temos precisamente a quantidade certa de trabalho não são muito frequentes; é um dos maiores problemas desta forma de ganhar a vida). Por outro, no entanto, isso leva ao congelamento de uma série de atividades não essenciais.

Ou seja: aqui a Lâmpada tem sofrido e deverá continuar a sofrer. Tenho uns quantos contos lidos à espera de opiniões, mais de 10 livros e periódicos idem aspas, e é bastante provável que não consiga escrevê-las tão cedo. Depende sobretudo da rapidez com que o próximo livro se deixe traduzir, a qual só conhecerei quando começar efetivamente o trabalho. Está por dias, que estou a acabar a revisão do que tenho em mãos. Felizmente (em certo sentido) pouco tenho lido nos últimos tempos além do material que tenho para traduzir, e portanto a lista de opiniões pendentes pouco cresce.

Daqueles posts com informações sobre os outros autores aceites na antologia Nanocuentos del Planeta Tierra (como este), então, nem se fala: não vou ter mesmo tempo para eles. Felizmente (de novo, em certo sentido) há grandes atrasos com a tradução de textos produzidos em algumas das línguas mais exóticas, e tudo tem sofrido adiamentos sucessivos por causa desses atrasos. E sim, também as mudanças relacionadas direta ou indiretamente com a criação da página Meus Livros, que não, ainda não acabaram, estão em banho-maria.

De igual modo, o Bibliowiki deverá continuar parado nos tempos mais próximos. Talvez haja alguns dias em que consiga ir introduzindo lá algum material, mas duvido.

Idem para a minha escrita de ficção. Tencionava descongelá-la este ano, e no inverno ainda escrevi dois ou três contos muito curtos e uns parágrafos de uma novela que continua incompleta, mas tudo indica que ainda não será desta. Isto apesar de ter voltado a apresentar textos a antologias...

(e há também um projeto de edição a que não tenho conseguido dedicar tempo quase nenhum... isto é, há se o editor ainda não se chateou de vez com os atrasos; se calhar já não há.)

A única coisa que pretendo manter realmente ativa é o Ficção Científica Literária. Interrupções no FCL geram muito rapidamente uma enorme acumulação de material por tratar, o que não convém nada. Mas mesmo isso poderá sofrer interrupções, se por acaso as necessidades no trabalho que paga o exigirem.

Em suma: tudo indica que me vão ver pouco por aqui nos próximos tempos.

Já agora, haveria interesse em pontos da situação periódicos? Coisas parecidas com esta? Digamos, uma vez por mês, ou assim? Isso talvez se arranjasse mais facilmente; afinal, é bem mais simples e rápido escrever um texto descritivo do que um texto opinativo, que exige reflexão. Digam coisas. Aqui, no twitter, no facebook, cara a cara, como vos der mais jeito.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Lido: Esvintola

São raros os contos recolhidos por Adolfo Coelho que ultrapassam as duas ou três páginas e os poucos que o fazem, não raro, são em grande medida compostos por versos. Esvintola não: embora inclua três curtos versos perto do fim, é quase tudo texto corrido. E ocupa quatro páginas.

Sem surpresa, é um conto com um pouco mais de elaboração do que a maioria dos outros. Conta a história de um rei que vai para a guerra deixando as três filhas para trás, o que como se sabe, e porque as mulheres destas histórias são inerentemente presas de machos predatórios, é um risco imenso para as virtudes das donzelas. Mas o rei não se embaraça, dando a cada uma um ramo mágico, que murchará caso a menina escorregue. Claro que aparece logo um conde malandro que trata de aviar as piquenas, o que consegue fazer sem problemas, naturalmente, pelo menos quanto às duas mais velhas.

Mas a mais nova, a tal Esvintola (e que raio de nome!), era espertalhona e pouco dada a roçadelas prematrimoniais, e vai daí o conde mau dá-se mal. Bem feita.

Este conto é uma propaganda à virtude, já se vê, tal como esta era entendida nos tempos de antanho, com a correspondente moralidade. Um conto destinado a ensinar meninas, provavelmente. Podia resultar numa história engraçada se fosse modernizado, desenvolvido, tratado com saudável iconoclastia, mas a verdade é que tal como está não me parece que seja leitura particularmente aconselhável.

Dito isto, não deixa de ser agradável encontrar de vez em quando neste livro algo um pouco mais elaborado do que as três pancadas habituais.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 10 de junho de 2018

Lido: Sozinho no Deserto Extremo

E se de repente toda a gente desaparecesse e te visses sozinho num planeta inteiro? É uma ideia que pouco tem de novo, tendo já sido desenvolvida variadíssimas vezes em ficção e provavelmente muito mais vezes na especulação indolente de miúdos sem muito que fazer, sozinhos na cama à espera de adormecer. Sim, estou a falar de mim e a supor que não sou caso único: na já distante época em que fui pré-adolescente foram várias as vezes em que passei horas insones a especular sobre como reagiria num cenário destes. Antes ainda de sequer saber que havia uma coisa chamada "ficção científica", apesar de já ter lido quase todo o Júlio Verne publicado na coleção da Bertrand.

Luiz Bras não se limitou a especular: escreveu. E não se limitou a escrever uma vez, pois ainda há uns meses publiquei aqui na Lâmpada uma outra opinião a outra obra com o mesmo título e mais ou menos o mesmo tema. Mas só mais ou menos. Sim, a base do indivíduo que se vê subitamente sozinho é igual, mas ao passo que a Sozinho no Deserto Extremo original se ambientava na biblioteca infinita de Borges, esta versão ambienta-se numa grande cidade brasileira, pelo menos de início. Tem portanto um fundo mais realista, o que a aproxima mais da ficção científica. E há outras diferenças, a começar pela óbvia: a primeira obra é uma vinheta, esta é um romance.

A estrutura narrativa também é bastante diferente. A vinheta é sequencial. No romance, porém, Bras vai repescar a mesma estrutura narrativa que utilizou noutra vinheta de que também aqui falei há pouco tempo, Olho por Olho, Dente por Dente: uma estrutura não linear, em que os episódios se misturam no fluir da narrativa e é necessário estar particularmente atento às datas que os identificam para se perceber o que antecede o quê ou o que tem o quê como consequência.

De resto, trata-se de uma história obviamente distópica, com uma certa atmosfera em comum com o Ensaio Sobre a Cegueira do Saramago. Numa grande cidade brasileira (São Paulo?), um publicitário acorda para um novo dia e descobre a família misteriosamente desaparecida. Desesperado, tenta procurá-la, mas depressa se apercebe de que não é só a sua família que desapareceu, a mulher, os filhos, mas também todas as outras pessoas, substituídas por pilhazinhas de roupa espalhadas por toda a parte. Há nisto fortes ecos do arrebatamento milenarista cristão, mas o desenvolvimento da história é, tal como acontece com a obra de Saramago mencionada acima, fundamentalmente de ficção científica, seguindo o leitor o que o protagonista faz e pensa à medida que vai tomando consciência da situação em que se encontra, vai fazendo o luto pelos seus entes queridos, e vai tentando perceber o que pode fazer com o resto da vida.

Um detalhe, porém, é pouco rigoroso em termos de FC, pressupondo que esta história se ambienta mais ou menos no nosso presente (e dá todos os sinais disso): a resistência das comodidades da civilização à ausência de atenção e manutenção. A luz, a internet, canais de televisão, a água canalizada, por aí fora, tudo vai deixando de funcionar aos poucos, é certo, mas perdura durante bastante mais tempo do que perduraria na realidade.

Mas isto é só um detalhe, relativamente pouco importante.

A primeira parte do romance é apenas o que ficou sugerido acima: a confrontação de um homem com a sua solidão e o desespero que daí advém. Mas um toque de telefone muda tudo. Um toque de telefone que lhe mostra que afinal não está inteiramente sozinho no mundo, um toque de telefone que ao mesmo tempo que lhe devolve alguma esperança de, pelo menos, poder existir alguma espécie de futuro, lhe traz também uma sombra de perigo à existência, pois onde há uma pessoa pode haver mais, e quem sabe que tipo de pessoas serão? E o que poderão fazer e sobretudo fazer-lhe, desaparecida como está toda a rede social de segurança e justiça?

E nesse momento, o romance transforma-se numa história de estrada e sobrevivência, com cada indivíduo por si, uma espécie de Mad Max tropical, no qual o protagonista vai entrar num confronto mais profundo com a loucura e um punhado de outras personagens (e por falar em loucura, será que essas personagens são mesmo reais? Ou frutos da sua imaginação endoidada?) enquanto serpenteia de lambreta por uma selva de veículos acidentados até sair da cidade e fugir a um homem que aparentemente o quer matar, por nenhum motivo que consiga compreender. Uma fuga acompanhada por uma boneca insuflável (que ele insufla de personalidade, o que provavelmente é uma pista relevante) e por muito pouco mais.

No fim, ele acaba como começa, sozinho no deserto extremo, como provavelmente seria inevitável desde o início.

Este é um romance sobre a solidão, claro, mas também sobre a condição humana de animal social, e ainda sobre a absoluta falta de sentido de todas as realizações humanas a partir do momento em que deixa de haver seres humanos para lhes conferirem esse sentido, desde as de grande escala, como uma metrópole, até às mais impalpáveis, como um livro ou um filme. Tudo contado de uma forma cronologicamente sinuosa que contribui para acentuar a sensação de estilhaçamento da realidade que está na base da história. Um romance que, tal como o Ensaio Sobre a Cegueira, é de uma espécie de ficção científica cheia de impurezas. E bom.

Este livro foi-me oferecido pelo autor.

sábado, 9 de junho de 2018

Lido: A Tentação de Eva

As experiências literárias, como quaisquer experiências, comportam sempre um risco: falhar. Na verdade, a maioria falha mesmo, se não por completo pelo menos em parte ou para parte dos leitores, pois mesmo quando a experiência é compreensível é sempre invulgar (de contrário não seria experiência) e aquilo que é invulgar traz sempre em si uma dificuldade acrescida e muita gente não gosta disso. E por vezes é pouco compreensível.

Vem isto a propósito de A Tentação de Eva, um poema (aqui não há dúvida) de Luiz Bras em que é possível compreender que estamos em territórios bíblicos e paradisíacos e se conta a história da expulsão de Eva do paraíso, mas pouco mais. Trata-se de um exercício de invenção de linguagem, possivelmente ancorado em brasileirismos obscuros mas nem disto tenho certeza. Certeza tenho é de que só citando compreenderão o que quero dizer.

O poema começa assim: Flecheira, a serpeste fliduchou. Estão a ver? Não estão, não, que há pior. Olhem este verso: Vapt-vupt! Eva-nuvem blablaviu e badulatiu. E é tudo assim, do início ao fim, uma impenetrável selva de neologismos cujos significados nem tenho a certeza de que o próprio Luiz Bras conhece, pois por vezes parece-me mais preocupado com a sonoridade da junção de sílabas do que com o significado subjacente.

Enquanto pessoa que já fez coisas destas (ainda que nunca a este extremo), entendo o gozo que dá fazê-las. Mas estar do lado do leitor não dá nem um décimo do prazer, e isso é um problema, a meu ver.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Lido: Supremo Supermercado

Supremo Supermercado é um microconto de Luiz Bras, de que não gostei muito, sobre alguém que se constrói como se fosse o monstro de Frankenstein de si próprio, mas não consegue encontrar todos os itens de que precisa para se completar. E não gostei muito porque não me parece que a ideia funcione bem neste formato ultracurto (apenas três linhas); creio que precisa de mais extensão para conseguir criar o impacto emocional que julgo que o autor procurava. E este texto já vai muito mais extenso do que a história, portanto chega.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Lido: A Vingaçna das Fêmaes de Lnuaris

Não, não estou bêbado. Nem vocês. É mesmo este, A Vingaçna das Fêmaes de Lnuaris, o título deste texto, e todo ele se serve do conhecido fenómeno de a generalidade das pessoas ser capaz de ler quase tão facilmente um texto com letras alteradas como um texto com tudo no sítio que lhe é próprio, desde que a primeira e a última letra de cada palavra sejam as corretas. Aqui, porque se trata de um texto literário com tudo o que isso implica, a leitura torna-se mais difícil do que é norma nos textos deste tipo, os quais costumam ser muito diretos e simples, mas não impossível; longe disso.

É mais um dos textos de Luiz Bras que se situam algures entre o poema e o conto, que neste caso seria uma pequena vinheta. Um texto muito experimental, como já fica claro pelo que foi dito acima, no qual a forma é muito importante. No entanto, é dos tais casos em que as peculiaridades da forma fazem absoluto sentido tendo em conta o conteúdo: uma história de ficção científica que consiste de um alerta deixado por um cirurgião, aparentemente num planeta distante chamado Lunaris, contra respirar-se o pólen das flores locais porque este provoca alucinações. O texto distorcido é um reflexo do estado alterado do pobre explorador afetado pelo pólen, e contribui para a plena compreensão do problema. Muito bom.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Lido: Coisas Caem de Sua Boca

Ao começar a ler Coisas Caem de Sua Boca, mais um daqueles mistos de conto e poema que Luiz Bras por vezes faz, lembrei-me intensamente dos contos da série das Ratazanas, publicados no Infinitamente Improvável. Mas ao contrário destes, de cujas bocas só caem ratazanas, nas personagens de Bras o que salta boca fora pode ser de tudo um pouco, e portanto essa lembrança depressa se desvaneceu, o que foi auxiliado pelo tema ser também bem diferente, não a política e os seus discursos ocos ou enganadores, mas discussões conjugais e tudo aquilo que é arremessado pelo ar em todas elas.

É bom? É bom, sim, mas não me enche as medidas. E é fantástico? Sim, se encararmos o prodigioso vomitório ao pé de letra e não como hipérbole. Não se pelo contrário. Para efeitos de wiki vou preferir sim.

Textos anteriores deste livro:

Lido: O Outro

Já se sabe que Jorge Luis Borges, embora nunca tenha sido um escritor de ficção científica, namorou o género (deliberadamente ou não, pouco interessa) em vários dos seus contos, ao ponto de os ver incluídos em algumas antologias de histórias de FC. E este O Outro é precisamente um desses contos.

Apesar de ter um fundo aparentemente onírico, ou pelo menos fantástico no sentido todoroviano do termo, no sentido de o inexplicável irromper na normalidade do mundo, este é no fundo um conto bastante clássico de viagem no tempo, relacionado com o paradoxo gerado por um encontro de alguém consigo próprio noutra fase da vida. A ligação com a ficção científica é evidente, mesmo não sendo este conto FC no sentido estrito.

Borges usa este artifício para refletir sobre si próprio, para o que se usa como protagonista da história. Escrito já numa fase avançada da vida do Borges que escreve, mais ou menos a mesma em que se encontra o Borges-personagem mais velho, o conto faz o contraponto de quem o personagem (e o autor?) foi e quem é, analisando nas entrelinhas o que se manteve constante e o que mudou. Só nas entrelinhas, pois à superfície a história é quase toda ocupada pela tentativa do velho provar ao novo que é ele mesmo décadas mais tarde. Essa camada superficial contribui para que o conto esteja longe de ser tão umbiguista como poderia ter sido, e o caráter universal das mudanças que o envelhecimento causa na personalidade faz o resto. Este não será um dos grandes contos de Borges, pois falta-lhe uma certa frescura e o transbordante prazer no exercício intelectual que essas histórias costumam conter, mas não deixa de ser um conto bastante bom.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Lido: Singularidades de uma Rapariga Loura

Singularidades de uma Rapariga Loura, apesar de ser "apenas" um conto, deve ser dos mais conhecidos títulos de Eça de Queirós, graças em boa medida à adaptação que Manuel de Oliveira dele fez para cinema. É uma história bem contada, como seria de esperar do melhor escritor português do século XIX. Uma história de paixão entre um caixeiro que trabalha na loja do tio e uma rapariga loura que mora em frente e tem uma determinada singularidade que o leitor atento compreende bastante antes do protagonista. E, aparentemente, o tio percebe antes de todos, uma vez que proíbe tão intransigentemente o eventual namoro que deixa o sobrinho entregue a si próprio caso insista nele. Coisa que faz, com as consequências que não é muito difícil prever.

Narrada com mão de mestre, habitada por personagens tridimensionais e cheias de solidez, esboçando com grande eficácia um retrato com todo o ar de ser fiel da burguesia mercantil lisboeta de há coisa de cento e cinquenta anos, é uma história repleta de qualidades e portanto de qualidade. Mas também é daquelas histórias que pouco interesse costumam despertar-me, em especial quando a partir de certa altura só apetece esbofetear o mancebo enamorado para ver se acorda e percebe quem ali vai de braço dado com ele. Prefiro histórias que sinto que me enriqueçam de algum modo, e estes contos mais ou menos morais sobre relações sentimentais e relações sociais não costumam dar-me grande coisa. Na verdade, tendem a despertar-me algum tédio, por melhores que sejam. E esta é, de facto, muito boa, ao ponto de o que mais me interessou ter sido mesmo a mestria do autor. Mas não, não me encheu as medidas.

domingo, 3 de junho de 2018

Lido: The Cure

Às vezes surgem na ficção científica histórias que quase parecem proféticas. Curiosamente, ou talvez não, elas são mais comuns na FC mais politizada do que naquela que se preocupa principalmente com as grandes mudanças tecnológicas que poderão vir a ocorrer num futuro mais ou menos próximo. Isto acontece por um motivo: a sociedade e as suas dinâmicas estão menos sujetas do que a ciência e a tecnologia a grandes e revolucionárias mudanças de paradigma. Por outras palavras, mudam mais devagar e só depois dos agentes de mudança estarem visíveis durante bastante tempo.

Tempo suficiente para os autores repararem neles e elaborarem as suas histórias à sua volta.

The Cure, de Robert Reed, é uma dessas histórias. Protagonizada por um escritor fracassado que tem um sucesso repentino e é obrigado a enfrentar as consequências desse sucesso, é uma história que, por entre ironias sobre o mundo editorial e algumas tendências que Reed vê na sociedade sua contemporânea, delineia uma teoria da conspiração baseada num plano para levar o público a perder a confiança nas instituições.

É uma abordagem claramente de direita: Reed insurge-se, entre outras coisas, contra o "politicamente correto," esse papão que tão útil tem sido a tanta gente, sugerindo que será daí que virá a vaga de irracionalidade a varrer a nação, para grande benefício de uns demagogos que não chegam a deixar-se identificar. Mas isso só contribui para a derradeira ironia de ter sido precisamente a direita e as suas fake news a pôr em prática algo de muito semelhante ao que Reed aqui descreve e que acabou por desembocar no trumpismo (ironia essa que muito provavelmente não lhe terá passado despercebida; Reed não faz segredo do desprezo que a dita "alt-right" lhe provoca).

Esta é uma boa história. Muito boa? Não, apenas boa. Uma daquelas histórias que se servem da ironia para transmitir opiniões muito sérias acerca do mundo. Uma história relevante, talvez mais nos dias de hoje do que quando foi publicada, em 2005.

Contos anteriores desta publicação:

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Em maio falou-se de...

E cá está mais um destes apanhados mensais, o quinto. Quem frequenta a Lâmpada habitualmente já deverá conhecê-los, e os outros podem dar um salto aqui para saber mais e/ou ir à tag leituras fc para dar uma olhadela aos anteriores. E aos futuros, se só der com isto depois de julho de 2018. Este mês há uma pequena alteração relativamente a meses anteriores, pois passei a fazer uma coisa que não fazia antes: incluir informação sobre o número de vezes que cada obra é comentada ao longo do mês.

E como sempre passo já às listas deixando para o fim dizer mais umas coisas sobre elas.

Ficção portuguesa:
  1. Os Monociclistas, de António Ladeira (2x)
  2. Anjos, de Carlos Silva
  3. A Caverna, de José Saramago
  4. Shark-Killer, de Bruno Martins Soares
Ficção brasileira:
  1. O Último Homem, de Luiz Bras (conto)
  2. Saltitantes Sentinelas, de Luiz Bras (conto)
  3. A Fortaleza, de Day Fernandes
  4. Enquanto Eles não Vêm, de Robson Gundim
  5. Adução: Dossiê de um Transmutado Alienígena, de Pedroom Lanne
  6. O Homem, de Furio Lonza
  7. Guerra à Ruína, de Jonas de S. Martins
  8. Estratégias de Combate, de Carlos André Mores (conto)
  9. O Conto Fantástico, org. Jerônimo Monteiro
  10. Boas Meninas não Fazem Perguntas, de Lucas Mota
  11. A Era dos Mortos - parte I, de Rodrigo de Oliveira
  12. Horror Familiar, de Diogo Ramos (conto)
  13. O Vôo do Ranforrinco, de Gerson Lodi-Ribeiro (conto)
  14. O Filho do Homem, de Roberto Schima (conto)
  15. Cometas, de Cesar R. T. Silva (conto)
  16. Mitos Modernos, org. Leonardo Tremeschin, Andrioli Costa e Lucas R. Ferraz
Ficção angolana:
  1. Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa
Ficção internacional:
  1. Doctor Who: Heroes and Monsters Collection, org. ??
  2. Guerra Americana, de Omar El Akkad
  3. O Poder, de Naomi Alderman
  4. Todos os Pássaros no Céu, de Charlie Jane Anders (2x)
  5. O Conto da Aia, de Margaret Atwood
  6. Oryx e Crake, de Margaret Atwood (2x)
  7. The Player of Games, de Iain M. Banks
  8. As Crônicas de Medusa, de Stephen Baxter e Alastair Reynolds
  9. Ficciones, de Jorge Luis Borges
  10. Matar o Presidente, de Sam Bourne
  11. Os Viajantes, de Alexandra Bracken
  12. The Darkest Minds, de Alexandra Bracken
  13. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury
  14. Anjos e Demônios, de Dan Brown
  15. Robô Selvagem, de Peter Brown
  16. Kindred - Laços de Sangue, de Octavia E. Butler
  17. A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, de Becky Chambers
  18. 2001 - Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke
  19. Armada, de Ernest Cline
  20. Jogador nº 1, de Ernest Cline
  21. Leviatã Desperta, de James S. A. Corey
  22. O Círculo, de Dave Eggers
  23. Um Vento à Porta, de Madeleine l'Engle (4x)
  24. A Libélula Presa no Âmbar, de Diana Gabaldon
  25. Sombra do Paraíso, de David S. Goyer e Michael Cassut
  26. Dez Mil Céus Sobre Você, de Claudia Gray
  27. A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin
  28. Como Parar o Tempo, de Matt Haig
  29. Os Humanos, de Matt Haig (4x)
  30. Fatherland, de Robert Harris
  31. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (2x)
  32. A Incendiária, de Stephen King (6x)
  33. Angles of Attack, de Marko Kloos
  34. Chains of Command, de Marko Kloos
  35. Fields of Fire, de Marko Kloos
  36. Lines of Departure, de Marko Kloos
  37. Points of Impact, de Marko Kloos
  38. Terms of Enlistment, de Marko Kloos
  39. Justiça Ancilar, de Ann Leckie (2x)
  40. O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu
  41. Sonhos na Casa da Bruxa, de H. P. Lovecraft (conto)
  42. Criaturas da Noite / Vigilante Noturno, de Marie Lu (5x)
  43. Warcross, de Marie Lu
  44. Arquivo X: Histórias Inéditas, org. Jonathan Mabery
  45. Santuário dos Ventos, de George R. R. Martin e Lisa Tuttle
  46. O Milésimo Andar, de Katharine McGee
  47. Cinder, de Marissa Meyer (2x)
  48. Gigantes Adormecidos, de Sylvain Neuvel
  49. 1984, de George Orwell
  50. Felicidade para Humanos, de P. Z. Reizin
  51. Encarcerados, de Kim Stanley Robinson
  52. A Sexta Extinção, de James Rollins
  53. As Máquinas da Destruição, de Fred Saberhagen
  54. Coração de Aço, de Brandon Sanderson
  55. Encarcerados, de John Scalzi (3x)
  56. Head On, de John Scalzi
  57. Dimension of Miracles, de Robert Sheckley
  58. As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift
  59. A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells
  60. Where Late the Sweet Birds Sang, de Kate Wilhelm
  61. Interferências, de Connie Willis (6x)
  62. Pré-História do Futuro, de Stefan Wul
  63. Thrawn, de Timothy Zahn
  64. Nós, de Evguéni Zamiátin
Não-ficção internacional
  1. De Volta Para o Futuro, de Caseen Gaines
  2. Homo Deus, de Yuval Noah Harari
  3. A Verdadeira História da Ficção Científica, de Adam Roberts
Isto este mês foi um pouco melhor do que em meses anteriores e sim, até em Portugal, apesar de números totais idênticos aos de abril. Em todo o caso, houve comentários a três livros de FC portugueses e a um quarto livro que, não sendo de ficção científica, apresenta alguns elementos do género. É uma melhoria. Também houve mais comentários a não-ficção internacional e a ficção internacional, e apareceu um comentário a ficção angolana, algo a que nem sempre temos direito.

Mas onde realmente se notou uma melhoria significativa foi nos comentários à FC brasileira. Não se deixem enganar pelos números: sim, é verdade que em abril foram 20 e em maio 16, mas esses 20 correspondiam a apenas 6 livros, ao passo que este mês os livros subiram a 9. Mais expressivo ainda é o facto de após remover-se as referências oriundas aqui da Lâmpada restarem 5 obras em abril e 10 em maio. O dobro.

Será para continuar? É o que veremos nos próximos meses. Em todo o caso, continua a ser enorme a desproporção entre opiniões a material lusófono e a material estrangeiro, bem maior do que a que também existe entre a edição de material lusófono e estrangeiro. Há malta que faz gala de nunca ler (ou pelo menos nunca comentar) nada escrito por portugueses e brasileiros (ou só por portugueses ou só por brasileiros; para demasiada gente, dos dois lados do Charco Atlântico, é como se também na internet houvesse um oceano a separar Portugal e o Brasil, "impossibilitando-a" de chegar àquilo que vai saindo online), já para não falar dos escritores africanos que escrevem FC ou coisas que roçam por ela que, se existem, não se dão a conhecer.

Quando chegará o afrofuturismo aos PALOP? Sim, sim, o Agualusa. Mas o Agualusa é a exceção que confirma a regra, e o que ele faz é mais roçar pelo afrofuturismo do que mergulhar realmente nele.

Mas voltemos ao tema.

Essa desproporção, de resto, é ainda maior do que aparenta ser pela simples listagem de obras, porque se por um lado só uma obra, entre todo o material lusófono, apareceu mais que uma vez ao longo do mês, no caso do material traduzido tivemos dois livros a surgir seis vezes, um a surgir cinco vezes, mais dois a aparecer quatro vezes e por aí fora.

Mudará isto algum dia? Não falo do material lusófono passar a ser maioritário, que isso talvez nem sequer seja desejável, mas pelo menos de haver algum crescimento. Não sei, e duvido. Mas um dia gostaria de ver regularmente nestas listas cerca de 20 opiniões a coisas brasileiras e outras tantas a material português (ou talvez um pouco menos, que não temos assim tanta gente a produzir... e aqui tenho culpas no cartório, bem sei).

Impossível? Só enquanto não o tornarmos possível.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Alterações na Lâmpada: página nova e reestruturação na coluna da direita

Um erro bizarro no meu alojamento web levou, por motivos que adiante se explicarão aos interessados que possa haver, a que eu finalmente fizesse aqui na Lâmpada algo que já estava planeado há muito mas uma combinação de preguiça e falta de tempo tinha impedido até agora: passar a lista de livros e publicações que costumava estar aqui ao lado na coluna da direita (e da qual ainda sobra um restinho no momento em que escrevo isto) para página própria.

Essa página chama-se Meus livros, apesar de não ser estritamente sobre os meus livros e sim sobre o que tenho publicado por aí, seja o que for e onde e como for (ainda que as traduções fiquem de fora). No momento em que escrevo isto ainda falta muita coisa, mas a ideia é ir completando à medida que o tempo o permita.

Incluo agora mais informações sobre cada publicação, que não cabiam na coluna da direita, incluindo as formas que conheça para as adquirir ou ler, e incluo também mais publicações (e irei incluir no futuro ainda mais) no que pretendo que acabe por ser um dia uma lista exaustiva. Um dia. A ver vamos quando.

E como a remoção dos livros dessa coluna deixaria o blogue desequilibrado, com a longa lista de etiquetas do lado esquerdo a pesar muito mais na balança do que as poucas coisas que restariam do lado direito, resolvi acrescentar à direita informação sobre os posts mais populares do último mês. E talvez venha a pôr lá mais coisas (ou a esticar a lista, se possível) quando o resto da informação sobre publicações for transferida para a página. Talvez. Se o fizer aviso.

Tem sido em parte por isto que a Lâmpada tem passado estes dias em ponto morto.

Quanto ao erro bizarro... pois os endereços bibliowiki.com.pt e e-nigma.com.pt decidiram sumir-se da web, por motivos que não cheguei a compreender. Certamente não foi nada que eu tivesse feito. Já está tudo resolvido, mas durante uns dias quem tentasse aceder a estes sites dava com o nariz na porta. Ora, a maioria das imagens que estavam ali na coluna ao lado estava alojada em e-nigma.com.pt e com o desaparecimento do site desapareceram também, daí eu ter achado que era melhor ter tudo centralizado no blogger, porque ao menos assim se desaparecer alguma coisa desaparece tudo ao mesmo tempo. E desse achamento a arregaçar finalmente as mangas para fazer isto foi um passito de nada.

E por agora é isto. Esperem alguma instabilidade no layout da Lâmpada nos tempos mais próximos enquanto vou transferindo o que falta para a página nova e me decido sobre o que vai passar a ocupar o espaço. E se estiverem interessados nas minhas coisas, vão visitando a página Meus livros, que ainda vai crescer bastante. Está ali em cima, no menuzito horizontal logo por baixo do título do blogue.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Lido: A Bengala de Mogno

Giuseppe Pontiggia é outro autor do qual eu nunca tinha lido nada até pegar neste A Bengala de Mogno, um daqueles contos pseudofactuais que se servem das técnicas e recursos de diversos tipos de não-ficção para fazerem ficção. Neste caso trata-se da biografia de um tal Terzaghi Mauro, cuja vida é marcada pela I Guerra Mundial (e está justificada a sua inclusão neste volume), onde sofre um ferimento que o deixa coxo, o que o força ao uso de uma bengala. O que não o impede de se tornar num empresário de sucesso, de constituir família e amante, enfim, de viver uma vida tão recheada como a de qualquer outro homem do seu tempo.

É raro o pseudofactual que me agrade plenamente. Borges consegue fazê-lo, e mesmo ele nem sempre, mas são raros os autores que o acompanham. Percebo o que pretendem fazer, consigo avaliar se o fazem bem, mas é muitíssimo raro que essa apreciação intelectual se veja acompanhada por uma apreciação estética igualmente forte, o que é necessário para o pleno agrado. E Pontiggia não passou, com esta história, a pertencer a esse rarefeito grupo. Ele faz bem o que pretende fazer, mas a sua história deixou-me muito frio. Muito indiferente.

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quinta-feira, 17 de maio de 2018

"Há com cada um": Adenda

Calhou hoje ter tirado o dia para tentar pôr alguma ordem no meu email, a braços com uma invasão de spam e com milhares, literalmente, de mensagens acumuladas (e por abrir) que talvez até nem sejam spam. Não todas, pelo menos. E não é que isso levou a que tivesse uma adenda a fazer ao post de ontem?

É que parte do spam vinha de um endereço identificado no programa de email como "Jovens Escritores". Mas o endereço realmente usado como remetente (ou pelo menos aquele que se identificava como tal, porque é comum as mensagens de spam/phishing falsificarem o remetente) era um endereço do iol.pt, sempre o mesmo. Não manuelcampos @ iol.pt, não propriamente carloscampos @ iol.pt... mas carlascampos @ iol.pt.

Coincidência? Não me parece provável. As mensagens de email eram daquelas típicas mensagens com um link "esquisito", que mais que provavelmente instalaria spyware ou alguma forma de vírus ou worm no computador se o destinatário fosse tolo ao ponto de os seguir, o que me leva a crer que toda esta "família Campos" resulta da atividade de alguma espécie de bot infecioso que além de enviar spam andou a criar páginas que quem gere o Portal da Literatura não apagou.

Não que haja algum perigo em visitá-las: limita-se a ser inútil. Se o programa que andou a criar perfis falsos tentou infetar o Portal da Literatura, não teve sucesso: o Portal da Literatura propriamente dito está classificado como seguro pelos grupos que verificam essas coisas, e o código-fonte das páginas específicas do pseudoCampos não inclui nada de suspeito.

Além disso, não tenho a certeza de que as duas coisas estão relacionadas. Há sempre a possibilidade de se tratar de uma grande coincidência, e eu não sou como a outra que acha que Não Há Coincidências. Mas sem haver relação a existência daquelas páginas faz pouquíssimo sentido, ao passo que a atividade de um bot explica muita coisa. Por mim, o assunto está explicado e arrumado.


quarta-feira, 16 de maio de 2018

Há com cada um!...

Volta e meia, a busca de material para alimentar o Ficção Científica Literária leva-me a sítios bem esquisitos. Hoje foi um desses casos.

Apareceu-me um link para um "livro" intitulado A Caminho de Marte. À partida nada de estranho, se não se desse o caso de se tratar, alegadamente, de um livro de ficção científica portuguesa recente do qual eu nunca tinha ouvido falar e de a "obra", apesar de ter "sinopse" não ter mais nenhum dado disponível.

A "sinopse" é a seguinte:
Um homem e duas mulheres encontram os meios para fazer a viagem a Marte. Pelo caminho vão enfrentar alguns seres espaciais contando porém com a ajuda dos jupiterianos. Uma emocionante história cheia de peripécias, que faz o leitor agarrar e só largar o livro na última página.
Achei isto muito parvo, mas interessante o suficiente (para o Bibliowiki, atenção, não para ler, que o meu grau de masoquismo tem os seus limites) para pensar em pôr aqui um apelo por informação adicional semelhante ao que deixei há dias sobre outro livro. Até porque a coisa está numa das secções do Portal da Literatura, um site com ar sisudo, cheio de nomes sonantes na página principal, apesar de embarcar em equívocos quanto à sua natureza, agindo como se fosse uma rede social sem o ser (exige login para "novas funcionalidades", não tem feed RSS, etc.).

Mas antes achei melhor tentar escavar mais um pouco. E fui à procura de mais informação sobre o livro.

Zero. Não há. Fora do ecossistema do Portal da Literatura, pelo menos. Porque dentro do Portal da Literatura ele aparece em vários sítios. Nos perfis do autor, por exemplo. Sim, que há dois, Manuel Campos e Carlos Campos, ambos com a mesma bio e a mesma foto... ou talvez deva dizer a mesma stock photo. Aliás, os perfis são iguais em tudo, incluindo nas "obras", as quais também sofrem do síndrome de clonagem porque o facto de terem títulos diferentes (a outra "intitula-se" Dia de Sol) não é suficiente para haver alguma diferença nas sinopses. E até há uma "notícia" sobre um prémio, que este tipo teria ganho com A Caminho de Marte, precisamente. E logo o Grande Prémio de Romances e Novelas, hã? Não é para qualquer um. Que esse prémio não exista é um detalhe. Existe é o Grande Prémio de Romance e Novela, singular, onde, sem surpresa, não se encontram os nomes de Carlos Campos ou Manuel Campos em sítio nenhum.

Ou seja, o livro não existe, o autor é uma fraude, e eu só não perdi o meu tempo porque esta minha breve aventura pelas catacumbas da maluquice literária deu esta história que certamente há de fazer alguém rir. E tomar cuidado com o que encontra em sites como o Portal da Literatura, porque é claro que não são dignos de confiança.

E encerro o relato abanando a cabeça e dizendo aos meus botões "Isto há com cada um!..."

terça-feira, 15 de maio de 2018

Lido: Corte

Já cortaste um dedo? Não, não pergunto se já fizeste um corte num dedo; pergunto se já cortaste um dedo, mesmo cortado, todo ele, um minuto era parte do teu corpo e no minuto seguinte deixou de ser, sloch.

Não, pois não?

Pois Fábio Fernandes também não, e isso é muito óbvio neste Corte (bibliografia), uma vinheta em que tenta imaginar como seria, descrevendo com abundância de detalhes, através dos quais procura desesperadamente alcançar o máximo possível de fator choque, o tal corte do tal dedo. É uma tentativa de conto de horror biológico (sim, é um dos subgéneros oficiais do género horror), usando a amputação como força motriz. Mas pela parte que me toca fica-se pela tentativa, sendo incapaz de despertar em mim algum sentimento mais forte que a indiferença. Completa e absoluta.

Não é um mau conto nem está mal escrito ou estruturado. É apenas um conto que me diz um redondinho nada. Um daqueles contos que geram a eloquente resposta de "meh." Felizmente é muito curto.

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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Lido: Phenomenae

Um escritor com potencial mas ainda incapaz de o realizar por completo precisa frequentemente de um editor, entendendo eu aqui não a pessoa que compra o livro, o publica e distribui, passando para as mãos do autor uma pequena percentagem do preço de venda, mas um editor, alguém capaz de trabalhar o livro em conjunto com o autor e de ajudar a limpar-lhe as arestas. É verdade que a existência dessas pessoas constitui sempre um risco, pois são necessárias algumas características muito específicas para se ser capaz de retirar de um livro e autor o máximo que eles podem dar num dado momento sem se ser intrusivo ao ponto de se começar a substituir a visão artística do autor pela do editor, e não são muitos os que as possuem. Mas sem editor há autores que pura e simplesmente não chegam lá.

Nas últimas décadas, infelizmente, com a mercantilização cada vez maior da indústria editorial, cada vez mais afastada da sua componente cultural e cada vez mais preocupada com o lucro imediato, que afasta do primeiro plano da tomada de decisões a qualidade e a substitui pelo rendimento económico, e também com o surgimento de mecanismos cada vez mais eficientes e/ou predatórios de autoedição, assumida ou encapotada, os editores praticamente desapareceram, substituídos por contabilistas e gente do marketing, quando chegam a ser substituídos por alguém. O resultado são livros como este Phenomenae.

Ricardo Lopes Moura é (ou era; o livro data de 1996 e desde então só parece ter publicado mais um livro, dois anos depois) um escritor com potencial. Neste seu livro de contos há pelo menos uma história realmente boa (Dia do Pai), há uma história eficaz (A Sagração da Primavera), e depois há uma série de outras histórias em que falha qualquer coisa. Na maior parte dos casos, o que falha é consequência de uma mistura de fragilidades no domínio da língua portuguesa, na maioria dos casos facilmente resolúveis com um trabalho de edição atento (ou, em certos casos, uma simples revisão razoavelmente competente), com o uso inadequado ou excessivo de clichés do horror, o que é mais difícil de solucionar e exigiria uma colaboração estreita e possivelmente prolongada entre o escritor e um editor consciente desses clichés.

Mas é muito claro que esse trabalho não existiu. Que o livro foi publicado tal como chegou à editora, eventualmente com alterações mínimas. A consequência é um livro que tem muito mais potencial do que aquilo que apresenta mas o desaproveita ao ponto de se tornar globalmente fraco. A edição acabou por valer a pena por incluir um conto bom, é certo, mas não deixa de ser um bom bocado descoroçoante encontrar aqui tanto potencial mal aproveitado. Descoroçoante, provavelmente, até para o próprio autor, que depois dos dois livros em finais do século passado ainda surgiu até ao princípio deste com algumas traduções em seu nome mas depressa parece ter desistido da literatura, pois desapareceu de circulação.

Enfim... fica o que fica.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro foi comprado.

domingo, 13 de maio de 2018

Lido: O Vôo do Ranforrinco

Muito recentemente manifestei aqui na Lâmpada, e por mais que uma vez, a minha exasperação com infodumps, aqueles despejos de informação que tão do agrado são de tantos escritores de ficção científica. Cheguei mesmo a apelidá-los de praga. No entanto, também disse que é possível fazê-los bem, pretendendo com isso dizer que há alturas em que eles são usados de uma forma que em vez de jogar em detrimento da obra a melhora. Para tal, dei o exemplo de infodumps particularmente bem escritos mas esse não é o único exemplo que poderia ter dado; podia ter falado também de infodumps que fazem absoluto sentido no contexto da obra.

É este o caso em O Vôo do Ranforrinco (bibliografia), um conto de ficção científica espacial de Gerson Lodi-Ribeiro. Relata uma interessante história de exploração falhada de Marte. Interessante porque os exploradores não são humanos, coisa que o leitor vai descobrindo aos poucos, através de pormenores sucessivos que causam um cada vez maior estranhamento, e porque o motivo do falhanço é totalmente misterioso. A história abarca dois momentos muito diferentes; um, o momento da exploração de Marte, que se situa no passado longínquo, e o outro, o momento do desenlace, localizado num futuro comparativamente imediato (mas mesmo assim a alguns séculos de distância do nosso presente). O conto vai saltitando de um momento para o outro, ou pelo menos entre as personagens pertencentes a cada um desses momentos. E, o que é fulcral, ao passo que no segundo momento usa uma vulgar narrativa em terceira pessoa com diálogos e breves momentos descritivos, no primeiro o tom é bem diferente, consistindo em citações do diário de bordo de uma nave espacial. Ora, a função de um diário de bordo é, precisamente, o registo de informações. E assim ficam justificados os infodumps.

Este conto é um ótimo exemplo de como a FC pode lidar bem com este tipo de estrutura. É através das informações registadas no diário de bordo que ficamos a saber a grande maioria daquilo que constrói a história, ao mesmo tempo que o mistério vai sendo aprofundado, e o que falta é transmitido em diálogos nos quais quem investiga o mistério transmite as informações que conseguiu recolher ou deduzir a pessoas que ignoram essas informações e delas precisam para tomar decisões.

Mantenho que os infodumps são uma praga. Mas na verdade o que os transforma nisso é mais a inabilidade com que são usados por tantos autores do que alguma característica que lhes seja intrínseca. Quando não passam de uma forma preguiçosa de transmitir informações ao leitor raramente prestam; quando são bem pensados e a sua presença é coerente e justificada, podem ser uma mais-valia. E neste caso são-no de forma clara. Este é um conto de FC bastante bom, com infodumps e tudo.

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sábado, 12 de maio de 2018

Lido: Os Informadores

É raríssimo eu comprar livros por impulso. E sempre foi, pelo menos desde que formei o gosto e comecei a ter uma ideia bastante concreta do que tem o potencial para me agradar e do que não tem. Normalmente primeiro informo-me sobre o livro, ou pelo menos sobre o autor, e só depois compro.

Nos últimos anos, no entanto, as coisas mudaram um pouco de figura. A culpa é do Bibliowiki e da permanente curiosidade que ele gerou sobre se a obra x ou y terá, ou não, cabimento sob o vasto toldo da literatura fantástica, especialmente se tiver ar de ser periférica, caso em que tendo a confiar mais no meu próprio critério do que em critérios alheios.

E daí a compra deste livro. É que no texto de orelha se fala de vampiros... e eu arrebitei logo as ditas-cujas orelhas. Apesar de Bret Easton Ellis ser um nome que não associava de todo ao fantástico e de um título como Os Informadores me parecer ter pouquíssimo a ver com vampirismo. Vai daí, lá veio o livro para casa.

Trata-se de um romance em mosaicos, uma coleção de contos interligados por uma atmosfera comum e ambientados em volta de Los Angeles. São contos sobre a incomunicabilidade humana, sobre a solidão e o isolamento de cada indivíduo na sua própria pele, no seu próprio labirinto. Contos repletos de personagens destruídas, ou talvez simplesmente vazias, que conversam muito mas raramente ouvem sequer uma palavra que os interlocutores dizem, reduzindo-se assim as interações a meros monólogos cruzados.

O fulcro da coisa parece-me evidente: Ellis fala do vazio da vida contemporânea, da futilidade das aspirações burguesas, do egoísmo epidémico, da evasão às realidades por todos os meios possíveis, químicos ou não.

E lá no meio, um dos contos é de facto sobre vampiros, vampiros dos verdadeiros, hemofágicos, imortais e tudo o mais. Que, apesar desse detalhe de serem vampiros, em nada de fundamental se distinguem das pessoas vulgares que protagonizam as outras histórias. As mesmas pessoas que lhes servem de presas.

Ellis não se propôs escrever um livro de literatura fantástica, uma história de vampiros. Não. Estes servem aqui outra função, a de sublinhar o caráter negativo, predatório, canalha, egocêntrico em extremo de toda esta gente. Não há aqui uma personagem que se salve, todas são vampiros em tudo menos nos dentes aguçados. É, parece-me, isto o que ele pretende dizer ao pôr os vampiros em cena. Que o livro acabe por ser mesmo parte da literatura fantástica é portanto efeito secundário. O que não lhe retira nem acrescenta nada, é bom dizer.

O problema é que se torna cansativo. Ao fim da terceira ou quarta história (e elas são treze) o leitor já percebeu a ideia, já sabe mais ou menos o que vai sair da próxima, já conhece as personagens mesmo nunca as tendo visto. O estilo não muda, à parte pequenas e fundamentalmente insignificantes variações, a mundovisão também não, as personalidades idem, os enredos aspas. A mesmice instala-se, interrompida apenas pelo conto protagonizado pelos vampiros, que aparecem um pouco de surpresa, e com ela vem o aborrecimento.

O resultado é um livro que não é mau, que quem goste do estilo decerto irá até considerar bom, mas que não me satisfez o suficiente. Gostei da leitura, não posso dizer o contrário, mas não muito.

Um último detalhe sobre esta edição: a capa que veem ali em cima não é capa, é uma sobrecapa usada para se sobrepor à capa original. Porquê? Porque esta trazia o título de Os Confidentes. Mesmo não sendo a tradução mais aproximada do título original, gera uma camada adicional de ironia e por isso tudo bem... até ao momento em que o livro foi adaptado a filme e este foi distribuído em Portugal com o título de Os Informadores. Lá teve a editora de correr atrás. É deprimente. Mas é assim que o raio do mercado funciona.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Lido: Cometas

Quando o universo dos fãs de uma determinada coisa é grande o suficiente, a especialização surge de forma natural, com cada um a fazer aquilo que mais lhe agrada e/ou o que faz melhor. Em caso limite surge a profissionalização, ainda que seja frequente que um fã continue a agir como tal em setores diferentes da sua área de profissionalização. Quando o universo é pequeno, pelo contrário, é frequente encontrar-se as mesmas pessoas numa série de papéis diferentes. Na ficção científica, o autor é muitas vezes também editor, resenhista, articulista ou até ilustrador, tradutor, etc., e só muito raramente se mostra igualmente competente nessas várias áreas. Quem conheça minimamente bem as FCs lusófonas já deve por esta altura deste texto ter variadíssimos exemplos em mente. E Cesar R. T. Silva é um desses exemplos.

Fanzineiro, editor, articulista, crítico, ilustrador, etc., etc., etc., o Cesar mantém ainda hoje uma atividade importante como divulgador e compilador bibliográfico da FC brasileira, mas aqui surge como autor, com o conto Cometas (bibliografia), datado de 1990, que mostra que ninguém é competente em tudo. Ou pelo menos que ninguém nasce ensinado.

Trata-se de uma daquelas histórias que se servem da linguagem da ficção científica mas desrespeitam consistentemente quase todo o conhecimento científico sobre aquilo que lhes serve de tema. Pior, fá-lo de uma forma desajeitada, tentando ser poético mas sem qualidade suficiente no manejo da língua e da narrativa para o conseguir. Conta uma história bastante absurda sobre uns quaisquer seres surgidos num antiquíssimo "planetoide pequeno" que não tinha estrela mas tinha um "cometa-Deus" (um comenta sem estrela... sim) que as criaturas desejam alcançar. Mais umas peripécias entretecidas de misticismo, e... e o conto acaba, deixando no ar a ideia de que o autor não soube bem o que fazer com ele.

É um conto muito mau, este. Muita gente (eu próprio incluído) escreve contos destes quando começa a escrever; alguns depois melhoram, alguns melhoram mesmo muito. Outros não. Mas o que vem depois não altera a qualidade do que ficou para trás. Ou a falta dela.

Conto anterior desta publicação:

terça-feira, 8 de maio de 2018

Lido: João Esperto

João Esperto é a criaturinha mais idiota que já me passou pelo raio de visão, incluindo neste tanto a vida real como toda a espécie de irrealidades artísticas. E o conto, que desta vez parece não ter sido muito alterado pelos Irmãos Grimm, não é muito melhor. Basicamente uma lengalenga, na qual o João Esperto vai recebendo presente atrás de presente da candidata a noiva (e a paciência que a mulher teve; também não podia bater lá muito bem) disparatando em seguida com todos, sem exceção, é uma historinha muito parva que, curiosamente, parece ter um certo parentesco com a história portuguesa que li imediatamente antes, incluindo o facto de também não haver nesta história nada do típico maravilhoso das histórias populares, a menos que se considere que tamanha estupidez cai no insólito. Pura coincidência, mas engraçado.

A história baseia-se em diálogos, intercalados por curtíssimos parágrafos narrativos onde o protagonista disparata, e o mais interessante nesta história é a nota que (como sempre) lhe sucede, na qual os Grimm republicam um conto semelhante mas bastante mais elaborado, encontrado num livro de outro autor. Também é curiosa a extrema economia de meios narrativos, idêntica à que se encontra na maioria dos contos recolhidos em Portugal pelo Afonso Coelho, o que sugere que não se trata propriamente de defeito dos nossos contos, mas de feitio de (quase) todos.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Lido: Antichristmas

Entre as narrativas de fundo cristão, há um ramo que se dedica a imaginar não o que as divindades ou para-divindades cristãs fazem ou deixam de fazer, mas os atos das forças do mal, sejam elas demónios, sejam elas o Diabo ou o Anticristo. E é um ramo bastante significativo, em especial na literatura de horror.

No caso de José dos Santos Fernandes não é propriamente horror o que apresenta em Antichristmas (bibliografia), mas uma fantasia urbana em boa medida satírica. O título deixa bem claro aquilo de que se trata: sabendo-se que o natal (ou christmas, em inglês) celebra a vinda de Cristo, fácil se torna deduzir que o antichristmas celebra a vinda do Anticristo e que este conto relata essa vinda. E sim, é isso... mais ou menos. Nas entrelinhas, digamos. Porque as linhas, essas, dedicam-se a contar um par de conversas, primeiro entre dois jovens membros de uma organização secreta de adeptos do dito-cujo, e depois entre estes e um tal Sr. Fields, americano, e um dos maiorais da organização.

O conto não é mau. Tem um ritmo interessante e, à parte algumas gralhas, não há muitas incorreções. Mas a história não me despertou grande interesse, não sei bem porquê. Talvez por não a achar suficientemente iconoclasta. Também os diálogos, algo pueris, em particular no início do conto, contribuíram para não ter saído desta leitura lá muito satisfeito. Este conto é razoável, e creio que só isso.

domingo, 6 de maio de 2018

Lido: A Machadinha

Mais uma história recolhida por Adolfo Coelho em Coimbra, este A Machadinha é um conto sobre gente avariada dos carretos. Começa com um casamento camponês, que se vai esvaziando de gente porque as pessoas vão umas atrás das outras à adega ver o que está a demorar as anteriores. E o que é? A machadinha do título, pois está claro, pendurada do teto. Fica tudo a contemplá-la pensando no que poderia acontecer se ela se desprendesse e caísse em cima de alguém. Só o noivo tem juízo, ri-se e raspa-se, partindo de viagem e deparando com gente desaparafusada em todo o lado. Acaba rico, volta para casa, casa com a noiva e despendura a machadinha do teto. Fim.

É um conto muito parvo, este, e sem grande motivo para ser integrado no amplo labirinto da literatura fantástica, ainda que o comportamento de praticamente todas as personagens seja tão insolitamente imbecil que talvez lá entre por essa via, a do insólito. Acaba por ser razoavelmente divertido, à maneira das anedotas parvas, e é esse o principal interesse que tem.

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sábado, 5 de maio de 2018

Uma HA portuguesa?

A fim de continuar a alimentar o Ficção Científica Literária com material vindo também de fora dos sítios do costume decidi, desde o fim do scoopit (que me servia para isso), manter um conjunto de pesquisas permanentes sobre alguns termos no Google, e um desses termos é "história alternativa". Ora hoje apareceu-me lá este livro, cuja existência desconhecia totalmente. Livro e autor, na verdade; nem Derradeiro Suspiro Real nem José Navarro de Andrade fazem acender alguma luzinha

O livro apareceu-me integrado no catálogo de uma tal Livraria Candelabro, do Porto, e o texto que o acompanha (calculo que seja a sinopse, mas sem certezas) sugere que poderá não ser propriamente história alternativa, mas certamente se aproxima bastante disso:
"E se às primeiras horas da tarde de 4 de Outubro de 1910 o major Paiva Couceiro, num arroubo temerário, tivesse carregado sobre a Rotunda, desbaratado os revoltosos republicanos? É neste postulado que a presente novela se firma para descrever a continuidade e as transformações da Monarquia nos anos seguintes, provavelmente as surpresas seriam muitas e porventura a maior delas todas tivesse sido a inexistencia de grandes variações. A inércia e a entropia costumam ser forças formidáveis, de tal modo que é normal superarem, ofuscarem e subjugarem o poder da imaginação. Talvez assim se possa dizer que esta novela não caiba precisamente no género de história alternativa. O que ela pretende, afinal, será iludir o engenho da ficção com a memória dos factos verídicos".
Os dados do livro, tal como vêm no site, são: Arranha-Céus. Lisboa. 2015. In-8º gr. de 181-IV págs. Br. Parte disto são sinalefas incompreensíveis, mas o resto entende-se.

Não vou comprá-lo (já cá tenho demasiados livros por ler), mas aqui fica para o caso de alguém se interessar. E depois diga-me mais coisas sobre o que este livro realmente é, se fizer o obséquio. É que até fiz umas buscas na internet e, embora haja algumas notas sobre o lançamento, vindas em sítios mais ligados ao mainstream literário do que a géneros próximos da HA, há um redondinho zero de opiniões ou de dados mais concretos sobre ele.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Lido: A Menina e o Figo

Esta gente de antigamente tinha mesmo um problema qualquer com as madrastas. E agora que penso nisso, esta prevalência de madrastas maldosas nas histórias infantis, sejam estas de origem portuguesa ou não, é capaz de explicar parte da tendência para o biologismo que ainda infeta o discurso público nos dias que correm: afinal, se as madrastas são necessariamente umas cabras, se as criancinhas não forem criadas pelos pais biológicos as coisas só podem correr mal, certo?

Errado, mas pronto.

Pois a madrasta deste conto recolhido em Coimbra pelo Adolfo Coelho enterra a enteada viva no quintal porque esta cometeu o crime de deixar um pássaro levar um figo que lhe ordenara que guardasse. O que, claro, já explica o título de A Menina e o Figo. Mas claro que como nestas histórias tudo fica bem no fim, há uns milagres, há uns versos declamados, e a madrasta acaba punida pela malfeitoria.

É mais um daqueles contos de uma página ou, como neste caso, um pouco menos, que parecem resumos ou esboços de histórias maiores e que tão comuns são neste livro; contos apressados, nos quais os acontecimentos se atropelam; contos que parecem pedir que alguém pegue neles e os desenvolva. Mesmo apesar dos clichés. Porque tal como estão têm interesse sociológico e pouco mais.

Contos anteriores deste livro: