sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Irmãos Grimm: Os Seis que Foram Longe

Quem lê estes antigos contos populares não é raro deparar-se com alguns elementos que reconhece, se estiver atento, de histórias ou géneros inteiros surgidos anos ou séculos mais tarde, e este conto sobre Os Seis que Foram Longe, que os Irmãos Grimm terão recolhido e publicado sem alterações, além de eventuais retoques estilísticos, é disso exemplo paradigmático. É que ler esta história é quase como ler um conto de super-heróis.

Estive quase para escrever aqui X-Men em vez de super-heróis, mas a verdade é que embora o grupo tenha uma dinâmica semelhante, com um líder e planificador da atividade e os seus soldados, cada um com a sua habilidade extraordinária, os X-Men são apresentados como um grupo de heróis propriamente ditos, os bons da fita, ao passo que estas personagens do conto popular são algo mais dúbias, pois o seu grande objetivo é tirar vantagem das pessoas normais e sobretudo do seu rei. O que conseguem fazer, claro, recorrendo aos talentos específicos de cada um.

Este é um conto bastante interessante, muito mais pelas conotações que a sua leitura desperta do que pelo conto em si mesmo. Este pouco mais é que uma espécie de lengalenga que se vai desenvolvendo repetitivamente até ao desfecho. Mas as conotações elevam-no a outro patamar.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Mia Couto: O Dia em que Fuzilaram o Guarda-Redes da Minha Equipa

Num texto que parece ser mais crónica que a maioria destas crónicas que têm sido principalmente contos, Mia Couto regressa aos tempos da guerra colonial, apresentando-se narrador miúdo obcecado por uma mesa de matraquilhos que havia numa tasca frequentada por soldados portugueses, pois nas imediações havia um quartel. À partida eram todos brancos, os matraquilhos, iguais a todos os outros matraquilhos do império. Couto não diz, mas facilmente se imagina o sempiterno Benfica-Sporting das camisolas. Estabelecido o ambiente, arranca a história propriamente dita quando um dos bonecos aparece pintado de preto.

Toda a gente acha graça. Mas depois vão sendo pintados outros até que todos os matraquilhos da mesa se africanizam e os soldados portugueses deixam de rir. Assim se explica o título da história: O Dia em que Fuzilaram o Guarda-Redes da Minha Equipa é o dia em que os matraquilhos sofrem represália violenta pelo crime de terem sido pintados de preto por alguém.

Trata-se, obviamente, de uma história sobre colonialismo, sobre racismo (a tal coisa que há por aí quem insista que não existe em Portugal e, presume-se, nos portugueses), sobre resistência. Sobre o valor dos símbolos, o que de resto é um tema caro a Mia Couto. E bom, sim, e bastante, embora eu sinta sempre falta da fantasia quando ela está ausente dos seus textos.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Jeffrey Ford: Sinestesia Figurativa

O que esta história tem de mais curioso é deixar no ar a hipótese de o diagnóstico da Sinestesia Figurativa (bibliografia) como doença neurológica, uma variante da sinestesia verdadeira que existe no mundo real, ser um diagnóstico errado e o fenómeno a que se refere ser bastante mais exótico do que isso. Jeffrey Ford consegue assim arranjar uma bem-vinda variação relativa à filosofia da grande maioria destas histórias, nas quais são as próprias doenças que tentem a esticar a corda da verosimilhança por serem quase sempre extraordinárias. Esta, pelo contrário, é uma explicação relativamente mundana para um fenómeno que pode ser bastante mais extraordinário.

E que fenómeno é esse?

Bom, o caso é como segue: alguém, um tal Bernard Quigley, descobre que depois de ingerir alcaçuz consegue ver um duplo seu. Um duplo com a sua própria vida e as suas próprias circunstâncias, como se fosse ele mesmo só que num universo ou pelo menos numa linha temporal diferente. Ao médico que o observa nem passa tal possibilidade pela cabeça, claro, e reduz tudo a uma visão sinestética associada ao sabor do alcaçuz. No entanto, quem lê dificilmente não pensa nessa possibilidade. Pelo menos se for leitor habitual de FC e fantasia.

E sim, de certeza que é propositado, pois Ford (como os demais autores presentes no livro, de resto) é autor experiente no género. E é por isso que esta história é muitíssimo interessante.

Textos anteriores deste livro:

Em 2019 falou-se de... outras coisas

Eu avisei que a prioridade deste post era bastante baixa mas que ele acabaria por aparecer, não avisei? Avisei, claro que avisei. E portanto, olhem, cá está ele, para encerrar de vez esta fase e este tipo de trabalho derivado do defunto ficção científica literária.

Como aconteceu no post sobre as outras coisas de 2018, e depois de falar aqui sobre a ficção portuguesa de que se falou em 2019, e também da brasileira, e ainda da internacional, neste post reúne-se tudo o resto. Não vou seguir a mesma ordem do post sobre 2018; vou começar pelas outras categorias de ficção, por mais pequenas que sejam, e vou seguir mais ou menos a mesma ordem para as de não ficção e o mais que ainda possa haver. Os comentários que haja a fazer sobre cada categoria é que, tal como no ano passado, vêm logo após a respetiva lista.

Tudo esclarecido? Então vamos lá.

Ficção angolana:

Agualusa, José Eduardo
  1. A Vida no Céu
Santos, Onofre dos
  1. Lenguluka (2x)
No ano anterior suspeitava que íamos ficar limitados ao Agualusa durante muito tempo, mas eis que 2019 me desmente com o surgimento, no mercado português, de um romance de FC de Onofre dos Santos, duplicando de uma assentada o número de autores angolanos presentes nestas listas e também o número de títulos (e triplicando as opiniões). Pena é o ponto de partida ser tão baixo — um —, e portanto o ponto de chegada também o ficar muito. Os próximos anos dirão se se trata de epifenómeno ou de início de qualquer coisa. Alguém dará conta do resultado, imagino.

Ficção galega:

Asorey, Daniel
  1. As Mulleres da Fin do Mundo
Por vários motivos, não era comum aparecer ficção galega nas pesquisas que eu fazia para alimentar o Ficção Científica Literária, embora eu tenda a considerar o galego parte da lusofonia. Por exemplo: boa parte dos veículos que falam sobre ela são em espanhol, não em galego ou português, e o próprio termo galego para ficção científica diverge do português, pois eles usam normalmente o termo castelhano, ciencia ficción, e mesmo quando usam o português/galego fazem-no com outra ortografia: ficción científica. Até na grafia reintegracionista existe diferença: ficçom científica. Mas em 2019 aconteceu eu dar por esta distopia, precisamente porque a palavra "distopia" é igual em todas as línguas ibéricas ocidentais (mais acento, menos acento).

Ficção lusófona e internacional:

?? (org.)
  1. Steampunk Internacional
Branco, Marcello Simão (org.)
  1. Assembléia Estelar
Mendes, Roberto (ed.)
  1. Dagon, nº 3
Mexia, Pedro (ed.)
  1. Granta, nº 3 (2x)
Scotuzzi, Nathalia (ed.)
  1. Diário Macabro, nº 1
  2. Diário Macabro, nº 2
VanderMeer, Jeff; Roberts, Mark; Seixas, João (org.)
  1. Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas
Esta categoria, apesar de continuar pouco significativa, cresceu bastante face a 2018, contando agora 6 editores ou equipas em vez dos 2 do ano anterior, e 7 títulos em vez dos também 2 do ano anterior. Esta escassez é curiosa, pois durante muito tempo quase não houve antologia, pelo menos entre as publicadas em Portugal, que não contivesse qualquer coisa de um ou vários escritores não lusófonos para lhe conferir algum estatuto e, imagina-se, valor comercial. De então para cá as coisas mudaram um pouco de figura e, embora esse fator continue a existir, a verdade é que a presença não lusófona nestas publicações não se faz apenas de nomes sonantes, surgindo nelas também muita gente que se estreia na edição em língua portuguesa. Em todo o caso, a escassez dos comentários a este tipo de livro ou revista também é reflexo (ou talvez seja sobretudo reflexo) da tradicional azia de um quinhão demasiado elevado dos leitores face a histórias curtas. E isto é que parece mesmo não haver meio de mudar.

Ficção luso-brasileira:

Lodi-Ribeiro, Gerson (org.)
  1. Dieselpunk
Santos, Octávio dos (org.)
  1. A República Nunca Existiu
Tal como no ano anterior, em 2019 também só se falou de duas antologias com componente luso-brasileira relevante mas, ao contrário do que aconteceu em 2018, desta vez houve mais equilíbrio pois uma foi publicada em Portugal, com preponderância de autores portugueses, e a outra no Brasil, com preponderância de autores brasileiros. Seja como for, continua a ser fraquinho, muito fraquinho. E em relação ao que disse no ano passado, que "o desenvolvimento de verdadeiro intercâmbio literário no espaço lusófono, para o qual a carolice não chega, só se dará quando houver intervenção política nesse sentido" e que "cada vez há mais escolhos no caminho dessa intervenção", faço minhas as palavras do Jorge do ano passado, pois o ano que decorreu só tornou tudo ainda mais complicado e sem quaisquer melhorias em perspetiva.

Não-ficção portuguesa:

Domingues, Álvaro
  1. Oh que Cousas Grandes e Raras Haverá
Oliveira, Arlindo
  1. Inteligência Artificial
Vieira, Joaquim
  1. José Saramago: Rota de Vida
Nesta categoria temos uma grande taxa de repetência face ao ano anterior, visto que dos três autores aqui presentes dois compunham a lista de 2018, e destes três títulos um também já tinha sido comentado nesse ano. Não é uma categoria abundante, e julgo que nunca será, uma vez que não existe, fora da academia, a tradição de publicar material de não ficção produzido em Portugal sobre ficção científica ou de alguma forma relacionado com ela, e dentro da academia esse material é também raro e é mais raramente ainda que sai para o exterior, o que de resto é um velho problema da academia em geral e não só em Portugal: a dificuldade em estabelecer pontes com o mundo não académico. O crescimento de um título e de um autor não me parece minimamente significativo: o valor de base é demasiado baixo para que seja possível tirar daí alguma espécie de leitura.

Não-ficção brasileira:

Branco, Marcello Simão; Rosatti, Renato (eds.)
  1. Megalon, nº 1
Castro, Eduardo Andrade Barbosa de
  1. Traduzindo Ficção Científica: Samuel Delany
Meirelles, Fernando
  1. Diário de Blindness
Rüsche, Ana
  1. Utopia, feminismo e resignação em The Left Hand of Darkness e The Handmaid’s Tale
Savi, Melina Pereira
  1. Ursula K. Le Guin: Otherworldly literature for nonhuman times
Souza, Kátia Regina
  1. A fantástica jornada do escritor no Brasil (2x)
Suppia, Alfredo
  1. Atmosfera Rarefeita
Tavares, Braulio
  1. A Idade da Ignorância
Valentim, Marco Antonio
  1. Ursa menor: notas sobre ficção científica e fantasia
Vugman, Fernando
  1. A Invenção do Monstro (2x)
Esta foi uma categoria que cresceu muito relativamente a 2018, em grande medida graças a um site brasileiro que publicou um número bastante razoável de opiniões sobre obras de não ficção, a grande maioria de autores não lusófonos mas algumas também de autores brasileiros. Parte dessas opiniões foram também republicadas num outro site. E houve também opiniões vindas de outros sítios, nomeadamente aqui da Lâmpada. Tudo somado, os dois títulos, autores e comentários de 2018 passaram em 2019 a 10 títulos e autores (ou equipas) e 12 comentários, subidas muito significativas.

Não-ficção internacional:

anónimo
  1. A Arte do Cinema: Star Wars
Barbour, D.
  1. Wholeness and Balance in the Hainish Novels of Ursula K. Le Guin
Bradbury, Ray
  1. O Zen e a Arte da Escrita (2x)
Carrère, Emmanuel
  1. Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos
Gordon, Charlotte
  1. Romantic Outlaws
Harari, Yuval Noah
  1. 21 Lições para o Século 21 / 21 Lições Para o Século XXI (5x)
  2. Homo Deus
Huntington, J.
  1. The Unity of “Childhood’s End”
Kaku, Michio
  1. O Futuro da Humanidade
Kelly, Kevin
  1. The Inevitable
King, Stephen
  1. Sobre a Escrita (2x)
Lincoln, Don
  1. Universo Alien
Manguel, Alberto
  1. Monstros Fabulosos (2x)
Masi, Domenico de
  1. O Mundo Ainda é Jovem
Parrinder, Patrick
  1. Imagining the Future: Zamyatin and Wells
Ricks, Thomas E.
  1. Churchill & Orwell - A Luta Pela Liberdade
Robb, Brian J.
  1. A Identidade Secreta dos Super-Heróis
Rottensteiner, Franz
  1. The Science Fiction Book: An Illustrated History by Franz Rottensteiner
Samuelson, David N.
  1. Childhood’s End: A Median Stage of Adolescence?
Serrano, Javier
  1. Un Mundo Robot
Vogel, Joseph
  1. Stranger Fans (2x)
Wallace-Wells, David
  1. The Uninhabitable Earth / A Terra Inabitável (3x)
Walsh, Toby
  1. 2062: The World that AI Made
Williams, Raymond
  1. Utopia and Science Fiction
Esta, que já no ano anterior tinha sido a categoria mais abundante entre este grupo de pequenas categorias, voltou a sê-lo em 2019, e com números muito semelhantes. Os 22 autores mais um organizador desconhecido de 2018 são agora 22 autores mais um autor ou autores desconhecidos, os 25 títulos são agora 24. E até os destaques são semelhantes. Ou pelo menos um deles é: Yuval Noah Harari, que volta a ser o principal com 6 opiniões divididas entre dois títulos. O outro destaque do ano é David Wallace-Wells, autor de uma obra sobre as consequências das alterações climáticas que foi alvo de três comentários. Weldon e Adams, pelo contrário, desapareceram em 2019.

Poesia portuguesa:

Canibal, Adolfo Luxúria
  1. No Rasto dos Duendes Eléctricos
Esta é uma categoria raríssima, inexistente no ano anterior (houve uma categoria de poesia, mas brasileira), cujo aparecimento nestas listas é sempre uma surpresa. Aconteceu em 2019 e, se isto continuasse a ser feito, provavelmente não voltaria a acontecer durante muitos anos.

Ficção internacional fora do género (mas relacionada com ele):

Wirkus, Tim
  1. The Infinite Future
No ano passado houve um autor, um título e uma opinião nesta categoria, este ano volta a haver um autor, um título e uma opinião. À partida, eu julgaria que seria mais raro encontrar material deste do que parece ser, embora dois exemplares em dois sejam absolutamente insuficientes para chegar a alguma espécie de conclusão. Mas fica a nota da persistência da categoria como uma curiosidade.

E assim chegámos ao fim desta iniciativa. Deu uma trabalheira medonha e uns posts que espero terem interessado a alguns leitores e acaba aqui devido à estupidez e incompetência da Google, como podem ler no último post do blogue que usei para alimentar estas listas.

Parabéns, Google.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Escrita de julho


No post correspondente a este do mês passado avisei que este seria muito provavelmente bastante curto, e aqui estou eu a confirmar que sim, é mesmo. É que passei o mês a trabalhar num único texto, sem qualquer interrupção para outras coisas; uma novela que é para acabar já dentro de dias. Sim, ainda não está feita, que a necessidade de pesquisa e alguma dificuldade em decidir o rumo da história em dado ponto me atrasaram bastante o trabalho. Ainda assim, cresceu mais de 17 mil palavras, ou seja, o equivalente a cerca de 50 páginas, transformando o mês de julho, claramente, no mais produtivo em termos de ficção desde que recomecei a escrever. Só em julho escrevi um quarto do que produzi ao longo de todo este ano que, já agora, já se aproxima bastante de toda a produção de 2019: vai em quase 70 mil palavras, contra um pouco mais de 79 mil no ano passado.

Para agosto, o plano é concluir rapidamente esta novela. Só esse. O que vem a seguir está em aberto. Pode ser que me ponha a rever o tal romance que escrevi no ano passado, pode ser que escreva outras coisas. Não sei ainda. Hei de saber daqui a um mês, já com a coisa feita. Se quiserem saber, deem cá um salto. Até lá.

domingo, 2 de agosto de 2020

Charles Nodier: João Francisco das Meias Azuis

Quando se lê um livro, seja ele qual for, é impossível não partir para a leitura com uma série de expetativas, quer estas sejam criadas por experiências anteriores com o autor, com o género, com a literatura da época ou até por coisas tão banais como a capa. Ou pelo menos é impossível não desenvolver essas expetativas no decorrer da leitura, à medida que o enredo se vai desenvolvendo ou que um conto se sucede a outro. Mas às vezes acontece que os autores tratam de fazer as expetativas dar umas cambalhotas valentes, o que tanto pode ser bom como mau.

Aconteceu isso com este livro de Charles Nodier porque, não só à partida, mas muito especialmente depois de ficarem para trás alguns contos, a última coisa que eu esperava encontrar nele era vestígios de ficção científica.

Mas foi precisamente o que encontrei neste João Francisco das Meias Azuis (bibliografia). Não de uma FC minimamente moderna, evidentemente, mas da proto-FC ao jeito da época... ou talvez já ultrapassada na época, visto que o conto é de 1832 e o Frankenstein da Mary Shelley é mais de dez anos mais velho

O protagonista desta história, o João Francisco das Meias Azuis do título, é visto na terra onde vive como um excêntrico, uma espécie de sonhador, sempre de olhos postos no céu. O narrador trava amizade com ele, para preocupação de amigos e conhecidos, e fica a saber que, segundo o próprio João Francisco (nome adaptado pelo tradutor; no original é Jean-François), este tem a capacidade de vislumbrar no céu aqueles que habitam nos outros planetas e estrelas. E não só os vislumbra como conversa com eles, sabendo por seu intermédio não só o que se vai passando nos seus próprios mundos mas também os acontecimentos que eles veem noutros pontos do nosso. O narrador não acredita, naturalmente. Quem acreditaria? Mas mantém o fascínio pelo homem e portanto também a amizade.

Até ao desfecho, momento em que o narrador e o seu pai se apercebem de que o das Meias Azuis fora capaz de transmitir a notícia da execução de certas personagens proeminentes (a história desenrola-se durante a Revolução Francesa) no preciso momento dessa execução, levando-os finalmente a crer nas histórias que ele contava. E aqui o passado justifica-se, pois nessa altura também ele já tinha morrido, de forma misteriosa e aparentemente por decisão própria, chocado com os horrores das execuções. Sim, estamos perante mais uma condenação da pena de morte, ainda que esta seja significativamente mais subtil do que a da História de Helena Gillet, sem o caráter de denúncia que essa história adota.

É uma boa história, esta. Independentemente do interesse adicional que me provocou por conter sementes de ficção científica, e mesmo com algumas daquelas características da escrita romântica que tendem a desagradar-me, a história é boa.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas #66

Depois da grande vaga de material que tivemos em junho, as Leiturtugas entraram de novo em pausa ao longo das duas últimas semanas, mas eis que regressam, desta vez pela mão da Tita. É que ela publicou a sua opinião sobre A Conspiração de Atlântida, um romance de FC de R. C. Colaço, publicado pela Cultura. A Tita passa assim a sinalefar 1c2s.

E por esta semana é só. Para a semana haverá mais, que eu sei que andam aí uns pãezinhos no forno. Até lá.

L. Timmel Duchamp: Síndroma do Vírus di Forza

Quem sabe algumas coisas muito básicas sobre epidemiologia, daquelas que se aprendem na escola secundária, saberá certamente que embora em algumas epidemias, como aquela que estamos a atravessar, o agente infecioso se transmita simplesmente pelo ar ou pelo contacto com superfícies contaminadas, outras há que não dispensam um hospedeiro. É o caso de doenças como a malária ou a febre do Nilo Ocidental, que só se transmitem mediante uma picada de um mosquito infetado. E também é o caso desta Síndroma do Vírus di Forza (bibliografia).

Infelizmente para mim, que gosto do que gosto, L. Timmel Duchamp decidiu seguir pela via da verosimilhança, arranjando uma doença pouco imaginativa. O vírus di Forza que ela inventa causa apenas uma variante exagerada e fatal de uma doença existente: a mania sexual. Só o exagero e o facto de se tratar de uma doença contagiosa e causada por um vírus colocam tal enfermidade no domínio do fantástico. Por outro lado, Duchamp conta mesmo uma história, incluindo até algumas ferroadas atiradas ao puritanismo americano, especialmente nos estados do Sul (a autora localiza os primeiros casos da epidemia na Luisiana), pelo que não posso dizer que esta história me tenha insatisfeito. É razoável a atirar para o boa.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 1 de agosto de 2020

António Bettencourt Viana: Os Suspeitos do Costume

Na página de rosto de cada um dos contos reunidos neste livro, António Bettencourt Viana decidiu não colocar apenas o título, como se faz em muitas compilações semelhantes, mas identificar o género em que na sua opinião cada texto se integra. Sobre este Os Suspeitos do Costume (bibliografia), escreve que é um "miniconto policial e de ficção científica". Mas engana-se, pois este texto (que também não é um miniconto segundo a definição mais comum, mas sim uma vinheta) nada tem de ficção científica. É apenas um continho de dedução policial. Não propriamente um whodunit, mas um "whodidntdoit", por assim dizer.

Bastante sumário, apenas com duas páginas incompletas, o conto relata como um padre prova que o seu sacristão, larápio arrependido — por isso mesmo "suspeito do costume" — que se vê na mira da polícia por causa de um assalto a um japonês, não é culpado mas inocente. Fá-lo com o recurso a factos astronómicos da mesma índole dos que Viana usa no texto não ficcional sobre o conto do Eça que incluiu neste livro; um jogo de sombras em fotografias, que define a hora em que estas são tiradas. Nada que nunca tenhamos visto em dezenas de séries policiais, e nem é preciso chegar-se à sofisticação científica dos CSIs. E como literariamente o conto também não é grande coisa, parece-me que poderia, com vantagem, ter ficado de fora desta compilação, uma vez que não lhe acrescenta nada em termos literários e é um corpo estranho entre os contos de FC que aqui se podem encontrar.

Contos anteriores deste livro:

Isaac Asimov: Viaja Mais Depressa

Este não é o primeiro nem o segundo conto desta série do Azazel em que Isaac Asimov revela, sob o pretexto de tentar fazer humor, algumas das suas características mais problemáticas. Porque aquilo de que nos rimos revela muito do que somos, e aquilo que usamos para tentar fazer rir os outros mais ainda, começa-me a parecer que é importante ler esta série, mesmo não sendo ela nada de especial, mesmo sendo muito pior do que a dos robôs positrónicos, por exemplo, especialmente se o leitor for daqueles que gostariam de fazer uma ideia mais concreta de quem foi o "Bom Doutor". Neste Viaja Mais Depressa (bibliografia), por exemplo, temos direito mais umas paginazinhas de misoginia quase em estado puro.

A protagonista é uma daquelas louras burras, boazonas e acéfalas, cujo único objetivo na vida é arranjar um gajo rico. E arranja, mas anda muito chateada porque o gajo rico nunca a leva a lado nenhum. Parece que além de rico é forreta, características que provavelmente não serão independentes uma da outra. Mas eis que entra na história o homem que sabe como chamar o Azazel e gostaria de dar umas cambalhotas com a boazona, concebendo para isso um plano astuciosamente baldrickiano: se o Azazel pusesse o marido da boa com bicho-carpinteiro, este haveria de passar a vida de um lado para o outro, deixando a boa livre para as tais cambalhotas. Bem dito, bem feito, e o plano resulta... parcialmente, como acontece sempre que o Azazel está metido no assunto.

A ideia é claramente ter graça, como de resto é o costume nestas histórias, embora aqui pareça ser um pouco mais do que a média. Mas Asimov esqueceu-se (ou talvez não tenha percebido) de que ao recorrer a velhíssimos clichés misóginos estava a penetrar em territórios já muito explorados, o que tende a reduzir significativamente a piada que poderia deles tirar. Especialmente quando não os põe minimamente em causa, como é o caso. E quando a história praticamente se resume a isso, o resultado é o conto ser bastante medíocre.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 28 de julho de 2020

Paolo G. di Filippo: Síndroma do Rodovalho

De Paolo G. di Filippo, ou melhor, de Paul di Filippo, já tinha lido algumas coisas antes desta, contos, geralmente muito bons, de uma espécie de FC repleta de uma biologia descontrolada e muito metamorfoseante, algo semelhante a algumas das histórias do João Barreiros. Numa palavra: ribofunk. Assim, esperava encontrar nesta Síndroma do Rodovalho (bibliografia) qualquer coisa de semelhante. Desiludi-me.

Não que a biologia descontrolada e metamorfoseante esteja ausente daqui. Pelo contrário, a história baseia-se fortemente nela, pois revela uma doença que consiste em as vítimas possuírem órgãos vagabundos, sendo infinitamente variáveis os órgãos afetados e os lugares para onde eles se deslocam. O problema é que Filippo parece mais interessado em produzir gags do que em desenvolver a ideia com alguma consistência, o que não teria nenhum problema se tivesse sido bem sucedido nos gags. Mas não foi. Ou pelo menos a mim não divertiram; sendo o sentido de humor o que é a possibilidade de outras pessoas acharem isto hilariante é impossível de descartar.

Comigo é que decididamente não funcionou. Saí desta leitura muito pouco satisfeito.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Edgar Allan Poe: William Wilson

Mais uma rapidinha. É que quem tem alguma bagagem nesta coisa dos contos vai inevitavelmente reencontrar vários que já conhece sempre que lê uma antologia de clássicos, e claro que eu já antes tinha lido este William Wilson (bibliografia) de Edgar Allan Poe. A única dúvida era se o tinha lido tão recentemente que uma opinião sobre ele figurasse na Lâmpada ou a leitura era mais antiga. A resposta é sim, a ambas: esta foi pelo menos a minha terceira leitura desta noveleta, e já há na Lâmpada opinião sobre ela, datada de há cinco anos.

E, como por vezes acontece, em especial quando as leituras anteriores são recentes (e esta é), nada tenho a acrescentar a essa opinião. A noveleta continua tão boa como era em 2015.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Mário-Henrique Leiria: Imagem Devolvida

Quem anda por aqui há algum tempo (bem... há bastante tempo) ter-me-á certamente visto falar dos Novos Contos do Gin do Mário-Henrique Leiria, o segundo dos seus livros do Gin. Mas como nessa época não fazia ainda comentários individualizados conto a conto (ou poema a poema ou até livro a livro), aglomerando-os num resumo semanal, talvez lhe tenha passado despercebida uma opinião antiga, que vem desde a primeira leitura do primeiro desses dois livros, os Contos do Gin-Tonic: sempre gostei muito mais dos seus contos do que dos seus poemas. Muito mais.

Pois bem, Imagem Devolvida é um poema, ainda que possa parecer uma coleção de quatro. Pelo menos é o que se pode deduzir do subtítulo de Poema-Mito que Leiria resolveu agregar-lhe. Um poema muito surrealista — não será por acaso que é precedido por uma espécie de introdução de Mário Cesariny — e muito disposto a ser interpretado e reinterpretado de mil e uma maneiras, cheio de detalhes que remetem à poesia concreta e acompanhado por várias ilustrações. Tudo muito vanguardista, como de resto era timbre do autor. Talvez demasiado vanguardista para mim. Sim, não gostei deste poema, ainda que seja o primeiro a reconhecer que de poesia pouco percebo. É questão de gosto, ou talvez de falta dele.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Irmãos Grimm: Os Três Filhos da Fortuna

Não sei ao certo se contos como este Os Três Filhos da Fortuna, que os Irmãos Grimm terão recolhido e alterado pouco, e em cuja nota dão conta de vários contos aparentados espalhados um pouco por toda a Europa, terão derivado de velhas farsas teatrais. Mas que parece, parece, uma vez que o seu enredo depende quase por inteiro de aceitarmos que existem algures no mundo pessoas prodigiosamente ingénuas, ignorantes ou estúpidas. Personagens de farsa, portanto.

A história aqui é mais uma variação da velhíssima história de tanta literatura popular, a do trio de rapazes que partem pelo mundo em busca de qualquer coisa ou a fim de cumprirem alguma tarefa. Aqui, vão em busca de riquezas, enviados pelo pai quando este sente a morte a aproximar-se, e providos apenas de um galo para um, uma foice para outro e um gato para o terceiro. A ideia é encontrarem algum lugar onde essas coisas sejam desconhecidas e ganharem bom dinheiro com elas. E conseguem, graças a vários prodígios de ingenuidade e/ou estupidez alheias. Especialmente os habitantes do reino encontrado pelo terceiro, o do gato.

Este é um conto de essência muito mercantil, cuja moral se poderia resumir no velho ditado tão amado por todos os chicos-espertos "em terra de cegos quem tem olho é rei". E que se conte como história popular, convenhamos, explica muita coisa sobre a cultura de certos povos.

Contos anteriores deste livro:

Michael Barry: Síndroma de Rashid

Já disse pelo menos uma vez, em pelo menos uma das já numerosas opiniões que aqui tenho vindo a deixar sobre as historietas deste livro, que pedir a gente que escreve para inventar doenças equivale a correr um risco considerável de várias dessas doenças terem a ver diretamente com os livros ou o ato de escrever ou de contar histórias. De facto, não é uma nem são duas as histórias que já ficaram para trás e comprovam esse risco, e nesta Síndroma de Rashid (bibliografia) Michael Barry encarrega-se de somar mais um membro a esse abundante grupo.

Como? Arranjando uma doença que combina a bibliofagia com a metamorfose dos pacientes no estágio terminal. Não uma metamorfose qualquer, desestruturada, não; eles não se transformam em qualquer coisa. Transformam-se em livros. E se estão a pensar que uma doença que começa com um paciente a devorar (literalmente) livros para acabar por se transformar num tem qualquer coisa de alegórico, estão a pensar o mesmo que eu.

Não sendo esta propriamente uma das histórias que contam realmente uma história, ela tem apesar disso um interesse acrescido para mim, uma vez que o autor é hábil no manejo da terminologia médica ao ponto de transformar uma ideia tão absurda em algo quase credível. Serve-se para isso das técnicas típicas da ficção científica, claro, e fá-lo muito bem.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 21 de julho de 2020

I. A. Ireland: Final Para um Conto Fantástico

E de repente, no meio de contos longos e noveletas, eis que surge um miniconto de sete linhas pouco densas. Julgo nunca ter lido nada de I. A. Ireland, mas este Final Para um Conto Fantástico (bibliografia) deixou-me bem impressionado. É daqueles mini e microcontos que conseguem deixar nas entrelinhas toda uma história, significativamente mais ampla do que a extrema brevidade do texto tem espaço para deixar explícito. Escrevê-los com eficácia é uma arte em si mesma, e Ireland, pelos vistos, sabia bem o que estava a fazer. Ainda por cima consegue que o final seja surpreendente.

E sim, ele funcionaria perfeitamente bem como um final para um conto fantástico. Um conto fantástico da variedade fantasmagórica, provavelmente. Bastante bom.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 17 de julho de 2020

António Bettencourt Viana: A Independência da Lua

Há muita gente que defende a opinião de que o início é fundamental para uma obra literária. Há até quem se apresse a abandonar a leitura quando o início não agrada por inteiro. Eu discordo vivamente. Para mim, o início tem importância, sim, mas tanta quanto qualquer outra parte da narrativa, à exceção de uma: a conclusão. Para mim é a conclusão a parte mais importante de uma obra de ficção, pois só no fim toda a história e todo o seu significado ficam claros. Ou não. E já tenho no currículo várias leituras cujo início achei mau ou aborrecido e de que acabei por gostar, por vezes bastante. A mais afamada dessas leituras é o Memorial do Convento, do Saramago, um livro que adoro mas cujas primeiras 100 páginas, mais coisa menos coisa, me custaram bastante a ler. Foi só aí que a leitura realmente engrenou em puro deleite até ao fim.

Pois bem: foi por ser esta a minha atitude perante maus começos que passei das primeiras páginas deste A Independência da Lua (bibliografia). É que o início desta noveleta de FC dura de António Bettencourt Viana é francamente mau.

O principal problema é o intenso "como-sabes-zé" com que Viana decide abrir a história. É das formas mais toscas que existem (e demasiado usada na FC clássica, infelizmente) de transmitir ao leitor informação que lhe permita situar-se no onde e quando da narrativa. Quando os autores põem as suas personagens a explicar detalhadamente umas às outras coisas que todas estão fartas de saber, só porque o leitor não sabe, só me apetece revirar os olhos e deitar o livro pela janela. O que às vezes se justificaria em pleno, porque as histórias acabam por ser quase todas assim. Mas de outras vezes seria pena.

Neste caso seria pena. Porque, apesar de algumas ingenuidades, o resto da história até tem interesse. O título revela não só o tema, mas até o desfecho. Com efeito, a noveleta conta a história de como um governo mundial totalitário na Terra leva a Lua à revolta, devido a exigências de tributação que as colónias lunares não estão em condições de satisfazer. No fundo, uma situação semelhante à que levou à independência dos Estados Unidos e, como aconteceu com esta, também aqui à revolta segue-se uma guerra, com os terrestres a procurarem impor pela força a sua vontade e os lunares a defender-se como podem. À superioridade terrestre em força e material, contrapõem os da Lua um superior conhecimento do terreno e do ambiente, e claro que, sendo Viana quem é, estes conhecimentos selenitas são aproveitados para os transmitir aos leitores.

Aquele início desastrado impede esta história de ser realmente boa. Mas o resto é suficiente para a transformar numa história interessante de FC hard, um subgénero tão pouco cultivado entre nós que esta história até é capaz de merecer um certo destaque se algum dia alguém se dedicar a tentar descobrir e classificar a produção nacional nele enquadrável.

Contos anteriores deste livro:

Ivan Turgueniev: Um Sonho

A fantasia e o terror estão cheios de histórias em que parte ou a totalidade do enredo se baseia em sonhos premonitórios, e este conto de Ivan Turgueniev é uma dessas histórias. Mas o título, Um Sonho (bibliografia), diz pouco mais do que isso. Ou melhor: nem isso chega bem a dizer.

A verdade é que sob um título tão vago se esconde um conto bastante sofisticado, cheio de conteúdo e que, apesar de não esconder uma certa pegada do romantismo, está tão bem construído que ela mal se nota. Nele encontramos o jovem narrador amargurado e arrebatado de tantas histórias românticas, mas o que o faz mover não é um amor instantâneo como tantas vezes acontece, e sim um mistério sobre as suas origens, por um lado, e algo que não compreende e está a afetar a sua mãe. É que ele sonha que procura o pai e quando o encontra ele não é o pai que conhece e que perdera aos sete anos, mas outro homem, um desconhecido.

Com o decorrer da história acabamos por ficar a saber que o jovem é fruto de uma relação sexual forçada e que por isso provoca na mãe uma tensão contante e debilitante entre o amor de uma mãe por um filho e a lembrança da violentação que lhe deu origem. O pai biológico é, claro, o do sonho, não aquele que recorda como pai. E tudo só piora quando ele reaparece, de uma forma bastante fantasmagórica. E volta a desaparecer, de um modo quase igualmente fantástico, deixando para trás um rasto de perturbação e confissões.

Este é um conto no qual os elementos fantásticos e de terror contribuem para acentuar o que de terrível existe na situação, e onde as personagens não chegam propriamente a ter direito a redenção. Um conto muito bem construído. Bastante bom.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Porque é que eu faço isto?


O fim do Ficção Científica Literária, devido aos motivos que a ele levaram, levou-me a colocar muito seriamente a hipótese de este blogue a que no já longínquo ano de 2003 decidi dar o nome de A Lâmpada Mágica chegar também ao fim. E isso levou-me a analisar os motivos por que faço isto. Por que motivo o mantive durante todos estes anos, porque é ele como é e se se perderia alguma coisa se ele desaparecesse.

A Lâmpada nunca foi um blogue literário em sentido estrito, pois sempre cá fui publicando outras coisas que não têm diretamente a ver com a literatura. A última foi uma denúncia do comportamento do Facebook, por exemplo. Mas é sobretudo um blogue literário, e é-o praticamente desde o início, em boa medida porque a minha vida gira em torno da literatura. A leitura sempre fez parte importante dos meus tempos livres, escrevo desde a adolescência, ainda que com uns hiatos pelo meio, e poucos anos depois de começar a escrever aqui encetei uma carreira de tradutor que dura até hoje e durará muitos mais anos, se covid quiser.

Também nunca foi propriamente um blogue popular, apesar de o número de visualizações ter vindo sempre a crescer ao longo dos anos. E também é natural: as minhas preferências literárias, e por conseguinte as minhas leituras, são em boa parte de nicho, e há muita gente que prefere não ler opiniões sobre histórias que pode vir ainda a ler um dia, ou que não tem, pura e simplesmente, interesse em ler opiniões, quer haja a possibilidade de vir a ler as histórias, quer não haja. Ou seja: a Lâmpada tem o seu público, que talvez lhe sentisse a falta se desaparecesse, mas esse público é tão pequeno que no grande esquema das coisas o blogue estar cá ou não estar pouco importa.

Ou seja: para o mundo exterior, a existência da Lâmpada pouco importa. Podia desaparecer sem deixar rasto e nada realmente mudaria. E para mim?

Ao longo dos anos escrevi na Lâmpada por motivos variados. A princípio foi para ver o que raio era isso dos blogues de que toda a gente falava, mas depressa encontrei aqui um veículo para dar vazão a alguma criatividade. Mais tarde, as motivações mudaram e o conteúdo também, e ao longo dos últimos anos este blogue tem-me servido sobretudo como registo de leituras. E disso sim, se acabasse eu sentiria a falta. Porque fui descobrindo à medida que escrevia sobre o que lia que escrever uma opinião, mesmo que sumária, me obriga a pensar mais sobre o que vai sendo lido, o que enriquece a experiência. Acontece com alguma frequência eu só decidir mesmo o que penso sobre este texto ou aquele quando estou a escrever a opinião sobre ele, e por vezes há detalhes que me incomodam, que me desagradam ou de que gosto, que logo após a leitura ficam como meras sensações difusas e só se concretizam quando me sento aqui a escrever. Também é por isso que as opiniões que aqui deixo não são propriamente as coisas mais estruturadas que poderão ler sobre as obras que leio: quem aqui vem ler estes textos vem ver-me pensar. É isso o que aqui faço: pensar um pouco em forma escrita.

(Isto, já agora, e diga-se em jeito de parêntesis, torna muito estranho para mim que este blogue seja usado como fonte primária para trabalhos académicos, como já aconteceu umas quantas vezes. Isto não é crítica propriamente dita, ainda que eu perceba que a fronteira seja difícil de traçar.)

Também há nisto um certo grau de ativismo, baseado na ideia de que informar o mundo do que obtemos das leituras, tanto das que nos agradam mais como daquelas que nos são mais indiferentes, partilhar a paixão mesmo quando esta é pouco correspondida, pode ser uma forma de despertar interesse em outros, ou pelo menos de afastar neles ideias simplistas e às vezes simplórias sobre os motivos porque gostamos do que gostamos ou não gostamos do que não gostamos. Mesmo quando o mundo em geral se está nas tintas, e está, há sempre a esperança de que uma pequeníssima parte dele não esteja e acabe por compreender. E reparem que neste parágrafo usei quase sempre o plural: é que esta parte da questão é coletiva, pois nenhum de nós, os que lemos e comentamos o que lemos, é dono da verdade, seremos no máximo apenas donos da nossa verdade, e a verdade completa só se obtém quando somos muitos a exprimir a porção dela que nos cabe. Que sejamos tão poucos a fazê-lo é um problema, e o mais importante motivo externo para eu continuar a fazer isto é precisamente contribuir para não passarem a ser ainda menos.

Durante uns anos, e não foram tão poucos como isso, manter o blogue também me permitiu escrever material original, mesmo sendo este quase sempre outras coisas que não a ficção, o que me foi muito útil para desenjoar das traduções com que ganho a vida. Sim, ambas as coisas consistem em trabalhar o texto e a língua, mas a tradução e a produção de material novo correspondem a estados mentais muito diferentes. Traduzir é uma busca constante pela melhor forma de exprimir ideias alheias na minha língua; há aí criatividade mas é uma criatividade fundamentalmente diferente de produzir material original, seja ele qual for, que é um ato de criação absoluta, não só linguística mas também conceptual. E durante vários anos os meus únicos atos deste tipo de criação aconteceram aqui na Lâmpada. Ou quase os únicos.

Ora, se é verdade que de há coisa de ano e meio a esta parte tenho escrito bastante ficção, o que faz com que a criação que faço no blogue perca importância, nada garante que ele não venha um dia a ser necessário para retomar essa função. A vida dá muitas voltas, como é sabido e a pandemia se encarregou de relembrar.

O que de tudo isto se pode retirar é que a Lâmpada é fundamentalmente diferente de outros blogues que eu tenho tido, e até de outros projetos fora da blogosfera. Embora seja algo aberto ao exterior, não é algo que eu faça primordialmente para fora. É algo que faço principalmente para mim, porque me é útil a mim. Ter ou não público pouca diferença faz, o que me torna imune àquela desmotivação típica do blogger que vê a quantidade de visitas a baixar ou a não subir tanto quanto gostaria, e explica em grande medida a longevidade deste espaço, com hiatos e tudo. E também torna a Lâmpada imune a sabotagens por parte dos génios que acham boa ideia "modernizar" o Blogger tornando-o mais difícil e demorado de utilizar.

Portanto sim, a Lâmpada há de acabar um dia, porque quem a faz não é eterno, mas para já não vai a lado nenhum. Ou talvez feche aqui e reabra noutro lado qualquer, se o Blogger me moer mesmo muito o juízo. Mas vai andar por aí. É-me demasiado útil para acabar com ela.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Mia Couto: O Gato Nacional

Apesar do título, não é sobre um gato, esta história de Mia Couto, mas é sobre a nação moçambicana, ou o estado em que ela se encontrava quando foi escrita. O Gato Nacional aparece mas é uma aparição alegórica, pois o verdadeiro tema da história é o poder. Que é como quem diz, o dinheiro. Que é como quem diz, a prostituição.

O protagonista da história (o próprio Mia Couto, provavelmente), é abordado durante a noite por uma mulher que lhe pede lume. Mas não é para acender um cigarro; é para lhe iluminar a subida ao apartamento, mal disfarçada solicitação para uma sessão de sexo. Só que afinal, quando chega a lugar iluminado, a mulher reconhece-o e confessa que julgara que ele era cooperante, o que não faz grande sentido a menos que se conheça o estatuto dos cooperantes nos países africanos: homens (eram quase sempre homens) vindos dos países desenvolvidos com o objetivo declarado de ajudarem os países pobres a prepararem quadros e infraestruturas que permitissem o seu desenvolvimento futuro. Homens pagos em dólares, salários que também por isso eram astronómicos quando comparados com o que ganhavam as pessoas da terra (na verdade, eram bastante elevados mesmo para os padrões portugueses). Homens que por isso tinham um poder considerável, ao mesmo tempo que se transformavam em alvo apetecível para certas atividades.

Este é um conto muito político, mas, como é costume em Mia Couto, também bastante oblíquo, que ele tem um jeito muito próprio de falar de umas coisas parecendo estar a contar outras. E sim, também muito bem escrito, mas isso já se espera, já mal vale a pena mencionar.

Contos anteriores deste livro:

Charles Nodier: História de Helena Gillet

Charles Nodier parece ter sido um homem preocupado com as injustiças do seu tempo, especialmente com aquelas cometidas pelas instituições que deviam pugnar pela justiça. Digo isto porque o que encontramos nesta História de Helena Gillet (bibliografia), um conto com elementos fantásticos relativamente escassos, embora suficientes para merecer a designação de "conto fantástico", é basicamente uma denúncia das injustiças da Justiça e daqueles que a exercem.

É, tal como o título indica, a história de uma tal Helena Gillet, que é vítima de um caso escabroso. Boa rapariga, atrai as atenções de um canalha que, com o auxílio de uma cúmplice, a droga e viola. E, pior, a engravida. Ora, uma gravidez fora do casamento em época de todos os puritanismos é motivo mais que suficiente para destruir a vida de qualquer mulher, mas no caso de Helena o caso é mais grave porque ela se vê acusada do crime de conduta imoral e condenada. E os juízes, guardiães da moral e dos bons costumes, não se ficam por menos: condenam-na à morte.

E, depois da inutilidade dos apelos, lá vai ela rumo ao cadafalso, deixando toda a gente que a sabe inocente em paroxismos de aflição. Toda a gente menos uma velha freira, que diz a todos para não se preocuparem porque Helena não será morta. É aqui que o conto se torna fantástico, uma vez que a premonição da freira se concretiza e algo — a justiça divina, provavelmente — salva a inocente da justiça humana. E para o caso da moral da história não ficar assim inteiramente clara, Nodier encerra-a com página e meia de violento ataque contra a pena de morte e aqueles que a defendem.

Bastante bem escrito e muito bem estruturado, este conto, sendo fantástico, é também político por inteiro (não seria descabido até chamar-lhe um "conto de intervenção"), demonstrando mais uma vez, como se ainda fosse preciso, que literatura fantástica e política sempre andaram de mãos dadas, quer de forma bem explícita, como aqui, quer de maneiras mais subtis. Beatices à parte (que não deixam de ser naturais), gostei bastante.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 12 de julho de 2020

Leiturtugas #65

Sim, sim, não foi impressão vossa. Tivemos mesmo uma semaninha de pausa, que isto não pode ser sempre a abrir a 200 à hora. Mas voltámos às semanas com Leiturtugas a divulgar, e voltou a ser o Artur Coelho quem contribuiu com elas. Desta feita deu a sua opinião sobre um conto em ebook do João Barreiros intitulado Um Gosto a Céu no Lago do Breu, publicado já este ano pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Embora o conto não seja primordialmente FC, a leitura da opinião do Artur deixou-me a ideia de que tem elementos do género, pelo que o Artur passa a 4c5s.

E por esta semana parece ter sido só. Se me escapou alguma coisa, o que é sempre uma possibilidade, não se esqueçam de avisar. E vamos em frente que atrás vem gente.

sábado, 11 de julho de 2020

Isaac Asimov: Lógica é Lógica

De volta aos contos do Azazel, agora em novo livro — ou no segundo volume do livro único, mais propriamente — encontramos este Lógica é Lógica (bibliografia), afirmação incontestavelmente verdadeira embora bastante lapalissana. No conto, Isaac Asimov segue fielmente a fórmula que concebeu para estas histórias, o que se por um lado facilita a sua conceção, por outro aumenta o risco de elas se tornarem cansativas. Mas não é o que acontece com esta.

Porque neste conto há um cheirinho do tipo de narrativa que o autor empregou com pleno êxito nos seus contos sobre robôs positrónicos: uma situação estabelece determinados parâmetros e é a obediência ou não a esses parâmetros que vai determinar o seu desfecho, num bem conseguido jogo de consequências lógicas. Todos os contos sobre Azazel têm um pouco disso, mas sendo mágico o pequeno demónio, as regras da causalidade tendem a ser algo flexíveis, dependendo as histórias de qualquer detalhe que passou despercebido à partida. E esses detalhes conseguem ser por vezes bastante forçados. Mas aqui não.

Aqui estamos perante um senhor de boas famílias cujo maior orgulho é fazer parte de um exclusivíssimo clube privado chamado Éden. Aí só pode ter lugar gente rica, gente que vive de rendimentos, gente que não trabalha. Mas o homem tem uma frustração: é incapaz de contar uma piada, o que o obriga a permanecer na periferia dos círculos sociais. E lá vem o Azazel em sua salvação, e a ação do demónio é tão eficaz que o homem faz um sucesso estrondoso num clube de comédia onde vai testar o recém-adquirido talento humorístico. E dão-lhe um cheque de recompensa. Ops. Tudo estragado, e Adão é expulso do Éden.

Este conto, mesmo sem ser nada de especial, como é timbre desta série, consegue pelo menos ser mais engraçado e estar mais bem concebido que a maioria.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Escrita de junho


Como seria de esperar, uma vez que neste momento estou em férias de covid (sim, o vírus não atingiu só o turismo. Toda a cultura foi afetada e parte dela foi pura e simplesmente arrasada, perante a completa inexistência do ministério. A minha área, não sendo a que apanhou mais pancada — essa é aquela cultura que depende da exibição em sala —, também levou com força e como consequência vou passar uns meses sem trabalho), este mês escrevi bastante. Em comparação com o que tem sido hábito, entenda-se.

Sim, que sou lento nisto. Não há nada a fazer. Nem quando a inspiração ataca a sério sou gajo para dispensar longas pausas para pensar e planear o que escrever a seguir e como. Há quem consiga despachar dez mil palavras ou mais num só dia (estou a olhar para ti, Brandon Sanderson); eu nunca logrei ultrapassar umas três ou quatro mil, mesmo nos momentos mais produtivos. Fitar a página vazia ou meio escrita como quem fita um poço onde sabe que existe água mas não está bem a ver como alcançá-la faz parte tão inextricável do processo como organizar mesmo as letras em palavras e estas em frases.

Pior um pouco quando me ponho a escrever coisas que exigem algo que tende a roubar muitíssimo tempo à escrita propriamente dita: pesquisa.

Tudo isto para dizer que escrevi mais do que tem sido hábito desde que recomecei a dedicar-me a esta coisa de alinhar palavras em frases e frases em páginas de ficção, mas nem por sombras se pode considerar que tenha escrito muito. Menos de 14500 palavras, ou o equivalente a umas 40 páginas e picos. O total do ano chegou a cerca de 150 páginas, o que já daria para um livrito, mas será certamente cerca do dobro quando o ano chegar ao fim, a menos que aconteça alguma coisa que estanque a produção. Como por exemplo pôr-me finalmente a rever o tal romance. É sempre uma possibilidade.

E que 14500 palavras foram essas? Pois terminei o conto de que falei no mês passado, que acabou por não ser conto mas sim uma noveleta, e dei início a outra história, a tal que está a exigir pesquisa, e que vai ser uma novela. Há de ser acabada agora em julho ou, no máximo, no início de agosto. E desta vez é mesmo para cumprir.

Daqui por um mês logo saberão se já está ou ainda falta alguma coisa. Duvido que saibam muito mais além disso; duvido que tenha mais alguma coisa a vos dizer nessa altura. O post sobre a escrita de julho deve ser bastante curto. Mas se querem saber se será curto ou comprido têm bom remédio: voltem cá no início de agosto. Até lá.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Steve Redwood: Síndroma de Pinóquio Inverso

Algumas histórias deste livro têm uma certa queda para a diatribe, o que em geral não é grande ideia, mas o mais interessante nas que aqui se encontram é trazerem suficientes elementos exteriores à diatribe para que apesar disso os textos se tornem interessantes. Por vezes são diatribes com piada; de outras vezes, como no caso desta história de Steve Redwood, são diatribes que vêm embrulhadas em ideias altamente imaginativas.

Com um título como Síndroma de Pinóquio Inverso (bibliografia) é fácil perceber-se que o fulcro da coisa é a mentira e os mentirosos. Rapidamente se percebe que Redwood se atira a classes inteiras de mentirosos, mas a doença que arranja para os afetar é curiosíssima. As mentiras, na imaginação de Redwood, têm existência física, como uma espécie de muco, dotado naturalmente de massa e densidade. Ora, quando a doença ataca, o nariz em vez de crescer, como no caso do Pinóquio de Collodi, mingua e desaparece. Daí o "inverso". Mas porquê?

Porque as mentiras não aumentam a quantidade de muco, mas a sua densidade. Aumentam a quantidade de matéria mas não o seu volume. Não as mentiras que são ditas, entenda-se, mas aquelas que ficam retidas, que são apenas concebidas mas não podem partir mundo fora. Ora, o que é que acontece quando a densidade da matéria aumenta exponencialmente? Exato: chega a certo ponto e forma-se um buraco negro. E é precisamente o buraco negro criado pelas mentiras não proferidas pelos mentirosos profissionais que gera a doença, devorando primeiro o nariz e depois outras partes da anatomia dos desgraçados. E é isso, juntamente com uma ou duas historietas engraçadas que acompanham a descrição da doença, que faz com que esta diatribe de Redwood se leia com muito mais gosto que uma diatribe comum.

Textos anteriores deste livro: