sábado, 28 de maio de 2022

Ricardo Tinoco: Mais Um Quixote...

Há muito de Mário de Sá-Carneiro neste conto de Ricardo Tinoco, ainda que um título como Mais Um Quixote... (bibliografia) não deixe à imaginação a tarefa de descortinar outras influências. Quem tenha lido os contos fantásticos de Sá-Carneiro depressa os reconhece nesta história escrita em jeito de depoimento pelo amigo de um homem que enlouquece e que o cita, um estilo bastante em voga no virar do século XIX para o XX. O pastiche é, julgo, perfeitamente assumido, pois chega ao tema, ao enredo e ao estilo, e é complementado por referências literárias variadas, das quais, curiosamente, Sá-Carneiro está ausente. O que não belisca esta minha interpretação; afinal, Sá-Carneiro não se citaria a si próprio.

O louco sofre de paranoia, pelo menos de acordo com os médicos que acabam por interná-lo. Ele, naturalmente, não concorda. Sabe que está a ser perseguido por uns "eles" que nunca chega a concretizar, até porque não sabe ao certo quem ou o que são, e por isso fecha-se em casa a sete chaves, acompanhado apenas pelos seus fiéis livros. Poderão perguntar: onde está aqui o fantástico? Está na forma como Tinoco deixa no ar a possibilidade de o louco não ser louco, de estar realmente a ser perseguido por uns "eles" quaisquer. É um fantástico à Todorov, baseado na insegurança sobre a natureza (real ou imaginária) daquilo que é narrado.

É um conto bem feito, bem escrito, embora eu tenha de confessar o fraco interesse que me desperta este tipo de pastiche. A pulsão pela citação dos mestres que está na sua génese resulta em obras anacrónicas que tendem a não me interessar muito. No caso deste conto, a avaliação melhora por haver nele um elemento curioso: há, implícito na relação do protagonista com os seus livros, um certo elemento de análise literária, e é interessante utilizar-se a ficção para esse fim. Mas mesmo assim não posso dizer que o conto me tenha agradado muito. São gostos...

Textos anteriores desta publicação:

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Pedro Cipriano: O Lago

Às vezes, já ter lido muitas coisas funciona quase como uma maldição. Quando a leitura de uma história faz lembrar a leitura de outra, muitas vezes acontece que o desfrute que a leitura da segunda a ser lida poderia causar se perde, parcial ou totalmente, porque ela fica aquém na comparação com a primeira. E foi precisamente isso o que aconteceu com esta história de Pedro Cipriano.

Ainda por cima, O Lago é o título de ambas as histórias, como que para sublinhar as parecenças. E Cipriano, apesar de ser um dos autores com certo interesse que surgiram do grupo que criou o Fantasy & Co., está muito, muito longe de se poder comparar com o autor da outra história: Ray Bradbury.

Não estou a falar aqui em plágio, atenção. Estou apenas a dizer que são histórias que nasceram de ideias muito semelhantes, desenvolvidas de forma também semelhante, o que pode acontecer a qualquer pessoa que escreva mesmo sem conhecer as obras com que as suas são comparáveis. E além disso, as histórias são semelhantes, não iguais.

O certo é que ambas as histórias giram em torno de um lago onde algo de mágico acontece e onde o afogamento de uma personagem vai ter um impacto muito forte noutra. Mas Cipriano não é o contista de mão cheia que Bradbury era nem tem a mesma capacidade para desenvolver uma narrativa e manipular a linguagem ao serviço de uma história destas. Consequentemente, o seu conto é muito inferior, ao ponto de parecer pior do que é em virtude da comparação.

Esta é uma história de que eu muito provavelmente teria gostado se não tivesse antes lido a história de Bradbury.

Mas li.

Este conto, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser obtido aqui.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

H. P. Lovecraft: A Música de Erich Zann

Embora por vezes pareça, a verdade é que H. P. Lovecraft não se limitou a escrever o seu horror cósmico protagonizado por Cthulhu e compinchas. Não só escreveu também poemas com fartura (alguns deles muito racistas, diga-se de passagem), como escreveu também muitos outros contos que não pertencem ao mythos, quase sempre de horror, tanto isolados como pertencentes a outras séries.

A Música de Erich Zann é um dos contos isolados, embora outros autores tenham mais tarde pegado na personagem e construído uma série a várias vozes a partir dela. É um conto de horror razoavelmente típico da viragem do século (XIX para XX, evidentemente), escrito em forma de depoimento e na primeira pessoa, por um narrador que conta a quem quiser saber um conjunto de acontecimentos que teria testemunhado nos tempos de juventude.

Lá se encontra o velho tema das ruas que como que se perdem misteriosamente da cidade (ainda recentemente aqui apareceu um exemplo português, embora com uma atmosfera bem diferente: o Beco das Sardinheiras), e nas quais se passam coisas prodigiosas. No caso, a coisa prodigiosa é um velho tocador de viola (a clássica, o violino grande) que mora no sótão da casa onde o narrador se hospeda e onde se deixa fascinar pela música que o outro toca. Mas homem e música estão envoltos em mistério, um mistério que é revelado no final da história, ainda que não por completo. Há entidades demoníacas envolvidas no assunto, naturalmente.

E eu, que me farto de dizer que não gosto de Lovecraft, até gostei deste conto. Não sofre daquela hiperadjetivação tão comum nos escritos deste autor, e que eu simplesmente detesto, não há propriamente daqueles paroxismos de horror inexplicável a acometer as personagens, que tendem a fazer-me revirar os olhos. É um conto relativamente despretensioso, com uma atmosfera opressiva bem esgalhada e um mistério que funciona, mesmo ficando incompletamente resolvido.

Não posso dizer que tenha gostado muito, mas gostei o suficiente para não dar por mal empregue o tempo de leitura.

Este conto foi obtido em PDF no Site Lovecraft, motivo pelo qual vai ilustrado com uma foto do sr. Howard e não com a imagem de capa, que não existe. Querendo, podem obtê-lo também, em ZIP, clicando aqui.

domingo, 22 de maio de 2022

Leiturtugas #154

Sim, hoje temos Leiturtugas.

Não graças aos participantes oficiais, no entanto. Nós, os preguiçosos, não produzimos nenhum material relevante, e o único que o fez, o Artur, falou de uma tradução de Aquilino. E eu acho que incluir traduções será esticar um pouco demais o âmbito desta coisa, pelo que vou fazer de conta que não vi. Sorry, mate.

Felizmente há os oficiosos.

Nomeadamente a Andreia Ferreira, que opinou sobre Segredo Mortal, o romance de Bruno M. Franco que já por aqui apareceu numerosas vezes. Continua a ser edição do ano passado da Cultura, e continua a incluir alguma FC.

Talvez mais interessante porque muito mais incomum é a opinião que nos chega do Paulo Nóbrega Serra. De facto, José Saramago: A Escrita Infinita, publicado já este ano pela Tinta-da-China, não é uma obra de ficção, como são quase todas as que por aqui aparecem, mas uma coleção de ensaios de vários autores sobre algumas obras de Saramago, organizada por Carlos Nogueira. E uma das obras analisadas tem FC (o Ensaio Sobre a Cegueira), pelo que este livro vai-se-lhe juntar.

E é isto. A semana foi assim. Como será a próxima? Venham cá ver.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Sara Farinha: A Noite de Todas as Sombras

Este conto pouco tem a ver com o Halloween, o que talvez seja uma vantagem, fora o facto de se desenrolar n'"A Noite de Todas as Sombras", i.e., a noite de Halloween. Mas fora uma menção rápida ao barulho daqueles que andam pela noite a celebrar a festa, tudo o resto poderia passar-se em qualquer outra noite fria do ano.

A propósito, vai haver spoilers? Sim, vai haver spoilers.

Trata-se de um conto de horror muito curto e também muito fantasmagórico. E feminino, também; há uma enorme desproporção entre os contos sobre questões de maternidade escritos por mulheres e aqueles cujos autores são homens. Estes, quase não existem; aqueles, de forma mais clara ou mais velada, são bastante comuns.

Sara Farinha é clara, embora essa clareza só surja realmente no fim. Uma mãe que não o foi está sozinha em casa e é assombrada (fatalmente) pelo fantasma do nado-morto. Não sei é se resulta. Isto é, sei que comigo não resultou, tudo me pareceu demasiado apressado para que o conto chegasse a ter algum impacto. Mas eu não sou mulher, pelo que me falta a relação umbilical que só alguém com útero pode ter com este tema. Especialmente alguém que tenha passado por algo de semelhante. Portanto não sei como, ou sequer se, a condição feminina poderá afetar as opiniões sobre uma história que lhe diz tão diretamente respeito.

Não gostei muito? Não, não gostei muito. Achei o conto razoavelmente bem escrito, mas pouco mais. Porque esta é uma história que vive de uma emoção que não me conseguiu despertar. Mas tenho de me reconhecer incompetente para saber se será capaz de a despertar noutras pessoas. Ou seja, se é ou não um bom conto.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 17 de maio de 2022

Ângelo Brea: Um Pôr do Sol Vermelho

O título já o sugere, e a leitura do conto confirma. Em Um Pôr do Sol Vermelho voltamos a Marte, que Ângelo Brea imagina aqui nas fases iniciais do processo de terraformação, povoado por uma colónia de alguns milhares de pessoas e com uma base industrial composta em boa medida de grandes fábricas de CO2, fabricado a partir das rochas marcianas com o objetivo de aumentar a densidade da atmosfera marciana e criar um efeito de estufa no planeta.

O protagonista trabalha numa dessas fábricas, e o pouco enredo que a história tem gira em volta de uma avaria, a qual degenera num acidente que envia o pobre para o hospital. Mas não é esse, claramente, o interesse de Brea. O autor parece ter tido a ideia para o ambiente, para o worldbuilding, e limitou-se praticamente a isso, abdicando de criar sobre esse alicerce uma história propriamente dita. Como resultado, este texto até poderia funcionar razoavelmente bem como início de uma história mais longa, um daqueles inícios de romance ou novela em que os autores estabelecem os parâmetros do seu mundo ficcional e apresentam as personagens, mas enquanto texto independente sabe a muito pouco. Termina-se a leitura e a interrogação de "então e o resto? É só isto?" torna-se inevitável.

Ângelo Brea tem alguns contos bons, mas este não é um deles.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Leiturtugas #153

O que é um diazinho de atraso entre amigos? Nada, não é? Rigorosamente nada. Especialmente quando as coisas acabam por aparecer feitas, como esta nota de divulgação das Leiturtugas da semana passada.

E não houve muitas. Voltou a ser uma semana de duas leituras, tal como a anterior, ainda que desta feita só uma tenha vindo dos participantes oficiais.

Nomeadamente do Artur Coelho, que continua a debruçar-se sobre coisas antigas, as quais nem sempre trazem consigo elementos de FC ou de fantástico. Foi o caso da desta semana. O livro lido e comentado pelo Artur foi Fumos da Índia, um conjunto de histórias histórico-patrioteiras de Henrique Lopes de Mendonça, publicado pela Portugal-Brasil em 1922. Nada de FC, claro, e o Artur passa a 1c8s.

A oficiosa foi a Inês Santos, que comentou um livro de fantasia intitulado Shore - Desvendado, parte da série de Aquorea de M. G. Ferrey. A edição é da Suma de Letras e a data de abril último. Coisa bem recente, portanto.

E por esta semana é o que temos. Até à próxima.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

João Barreiros: Somewhere Under the Rainbow

Senhoras e senhores, convosco Clara de Sousa. Não a da TV, atenção, ainda que eu não possa excluir a possibilidade de haver alguma relação entre as duas algures na cabeça do João Barreiros. A jornalista apareceu nos écrans de forma regular em 1993, e esta Clara de Sousa anda por aí há quase tanto tempo como a jornalista, apesar de ser significativamente mais nova... na verdade, é capaz de ainda nem ter nascido. Ou até pode já andar por aí algures, anónima. Não sei. Certo é que vamos encontrá-la não propriamente Somewhere Under the Rainbow (bibliografia) mas na Lua, algures no futuro, e que ostenta o pomposo título de Agente Criativa para a Sociedade do Anacronismo Literário. Uma espécie sui generis de designer de interiores, chamada à Lua para uma reunião de trabalho. Para grande aborrecimento seu e de João, o furão geneticamente modificado e semi-inteligente que a acompanha fazendo as vezes de assistente pessoal. E ela é especialista em aborrecimentos, ou a sua personalidade não fosse uma arquetípica dondoca de Cascais, cheia de não-me-toques e ai-que-horrores.

É esse o ponto de partida para uma movimentada novela onde se vai juntar um grupo heterogéneo de personagens que partem, não para Oz em busca do Feiticeiro, apesar das óbvias semelhanças com o grupo da Dorothy, mas para uma nave condenada de uma certa espécie caída em desgraça, onde existe um maná de artefactos alienígenas que há quem esteja aflito por recuperar.

Soa familiar, não soa? Pois, são os mesmos da história anterior.

Mas mais uma vez estamos numa história escrita por João Barreiros, portanto já se sabe que tudo corre mal.

Começa por todo o empreendimento ser secreto e ilegal, passa por Clara e o seu furão serem vítimas de um desagradável acidente que os vai contaminar com um fluido dourado muito especial, muito proibido, muito alienígena e muito incontrolável, passa por cada um dos elementos do grupo, quase todos alienígenas, ter os seus próprios interesses e muito pouca amizade ou respeito pelos demais, e acaba no facto de as potestades continuarem a andar por aí, à procura umas das outras e de toda a tecnologia que não deviam ter trazido consigo e muito menos deixar em lugares onde criaturas inferiores conseguissem deitar-lhe a mão.

É, claro está, mais uma história muito boa, que só sofre de dois pecadilhos menores: a dondoquice da Clara que muito rapidamente a torna insuportável e a Triste Judite, uma espécie de versão do Marvin do Douglas Adams, uma bomba humanoide permanentemente deprimida e ansiosa por obter autorização para se explodir, e cuja intervenção na história é demasiado repetitiva durante a maior parte da novela (deixem-me rebentar / não / mas deixem! / já disse que não!). Até acabar por se tornar fulcral, numa explosão que desde o início era evidente que mais tarde ou mais cedo aconteceria.

A novela em si consiste de uma série de episódios em que tudo corre mal ao mesmo tempo que até vai correndo bem, de certa forma, e tem o seu auge numa violenta cena de batalha, numa nave em ruínas que orbita a Terra numa órbita instável e vai lentamente espiralando de encontro ao planeta, entre o grupo, desfeito pela cobiça e pelos interesses antagónicos dos elementos que o compunham, e uma potestade que tenta destruí-lo, ou talvez apenas perceber o que ali se passa, só conseguindo com isso causar danos irreparáveis a si própria... ou pelo menos a um seu avatar. Uma boa cena de batalha como não é comum encontrar na FC portuguesa, onde a pancadaria, muitas vezes, é tratada de uma forma um tanto ou quanto ridícula (o que de resto está longe de ser específico da FC portuguesa).

Já disse que isto é bom? Já? OK, então repito: isto é bom.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 10 de maio de 2022

Inês Montenegro: Vinho Fino

Cuidado aos alérgicos: este texto vai conter spoilers quase desde o início.

É bastante interessante, este conto de Inês Montenegro, mesmo apesar de não ter conseguido evitar despertar neste leitor em concreto ressonâncias com outras coisas lidas (e vistas) anteriormente. Com efeito, o tema da invasão da Terra por criaturas parasíticas vindas do espaço é um tema muito batido, tanto na literatura como em filme ou na TV (só para dar dois exemplos entre muitos possíveis temos na literatura Heinlein, com The Puppet Masters, e no cinema o filme It Came from Outer Space, de Jack Arnold, com história de Ray Bradbury). Mas em Vinho Fino Montenegro trata-o bem, produzindo uma história eficaz e bem escrita sobre uma espécie inteligente de parasitas que se espalha pelo universo viajando de mundo em mundo e colonizando-os. FC misturada com horror, como a generalidade deste tipo de história.

E, claro, chegam à Terra. Ou mais especificamente a um ponto qualquer do Douro vinhateiro, onde os parasitas decidem instalar-se nas uvas à espera de serem ingeridos pelo próximo hospedeiro. Mas as coisas a princípio não lhes correm bem — os alienígenas (i.e., os animais da nossa biosfera) são-lhes demasiado alienígenas e têm dificuldade em controlá-los, acabando por revelar a sua presença, de certa forma, cedo demais. Como consequência por pouco não são exterminados. Mas pode-se sempre contar com a inconsciência e a chico-espertice das pessoas, e no fim tudo se salva.

Para os parasitas alienígenas, não necessariamente para nós.

O conto é bom, mesmo apesar da fraca originalidade da ideia base. E lê-lo agora, nesta fase da epidemia de covid, deixa um gosto bem amargo na boca porque é impossível não constatar até que ponto é acertada a ideia de que alguém, algures, há de arranjar forma de lixar o esforço de todos os outros.

Deprimente, dizem? Ná! Impressão vossa.

Conto anterior desta publicação:

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Irmãos Grimm: O Alfaiatinho Esperto

Se chegados a este post forem assaltados por uma sensação de déjà vu, já andam por aqui há muito tempo e têm boa memória. E não estão sozinhos, que eu também achei que esta coisa de alfaiatinhos (e porquê o diminutivo? Ignoro) já tinha por aqui passado num contexto muito semelhante a este. E tinha, mas se aqui falamos d'O Alfaiatinho Esperto, no primeiro post, com data de há mais de cinco anos, falava-se de um alfaiatinho valente, apesar de ele ser, mais que valente, um chico esperto de primeira. E se esse conto foi dos construídos pelos Irmãos Grimm, este não parece ter sido, chegando a este livro, inclusive, com algumas marcas de história contada.

Além disso, pese embora a evidência da semelhança, os contos são diferentes. Neste, o alfaiate é mais apresentado como inteligente do que como intrujão, e se o desfecho da história é idêntico — o alfaiate casa com a princesa —, a verdade é que é desfecho partilhado com largas dezenas de outros contos em que alguém é forçado a mostrar de alguma forma o seu valor, tendo a mão da princesa como derradeiro prémio. São muito cobiçadas, as mãos das princesas do mundo das histórias populares.

Não o achei particularmente interessante, em parte por já ter visto tantas vezes a quase totalidade dos elementos que o constituem, mas há nestes livros contos piores.

Contos anteriores deste livro:

Robert Silverberg: A Dança do Sol

É curioso, e eu constato-o com frequência, como tantas vezes acontece uma obra de ficção científica, esse género supostamente escapista e desligado do ambiente cultural que o rodeia, estar indissociavelmente ligada à época em que foi escrita. E não me refiro aqui ao movimento literário a que pertence, ainda que isso também tenha a sua influência; afinal de contas, o ciberpunk não poderia ter nascido na época da new wave e vice-versa. Refiro-me a características mais fundamentais da obra em si.

Finais dos anos 60, início dos 70. "Cá fora", no mundo americano exterior à FC, era a época dos hippies e do LSD e da guerra do Vietname. E na FC, que supostamente nada tem a ver com nada disso? Bem, foi a época em que o género mais se ocupou dos limites da realidade, mais explorou experiêncuas alucinatórias, mais questionou a guerra e o expansionismo do homem branco e, por extensão, do homem terrestre. Quem acredita em coincidências talvez explique assim que um género que supostamente nada tem de político e nada tem a ver com crítica social se mostre tão sintonizado com a política e as convulsões sociais do seu tempo. Talvez se escape com essa explicação que nada explica.

Mas engana-se e engana. A verdade é outra. A verdade é que o género nunca foi nada disso. E este A Dança do Sol (bibliografia), de Robert Silverberg, é apenas mais uma das muitas provas.

Silverberg leva-nos a um planeta distante, onde a humanidade se dedica a exterminar uma espécie alcunhada de "comedores", a fim de abrir caminho para a colonização. Mas o protagonista, um homem com sangue ameríndio, começa a nutrir dúvidas sobre a natureza dos "comedores" e a necessidade do extermínio, e decide estudá-los, mergulhando no seu mundo. O que descobre estarrece-o: o que estão a fazer é um crime. E os paralelos com o que os EUA estavam a fazer na época em que o conto foi escrito, 1969, são tão óbvios que me escuso de os explicar. Vocês não são parvos nenhuns e compreendem.

E no fim do conto é a própria realidade a ser posta em causa, de uma forma francamente dickiana.

Este não é conto de grande extrapolação científica ou tecnológica; não é isso o que interessa aqui a Silverberg (na verdade, raramente foi isso o que interessou a Silverberg ao longo de toda a carreira). É conto de extrapolação social e de comentário social. E é bom.

Contos anteriores desta publicação:

Leiturtugas #152

Esta foi mais uma semana pouco movimentada no reino das Leiturtugas, como podem constatar pela extensão deste post. Só há registo de duas opiniões, ambas vindas de participantes oficiais, o que tem sido raro.

Começou pela Cristina Alves, que nos trouxe a sua opinião sobre O Deus das Moscas Tem Fome, a coletânea de Luís Corte Real que a Saída de Emergência publicou no ano passado. É a primeira leitura da Cristina, o que também não é frequente — ela costuma arrancar bem mais cedo. Quanto ao livro, não tem FC, pelo que a Cristina começa com 0c1s.

E terminou com o Artur Coelho, que nos trouxe a sua opinião sobre um romance de Reinaldo Ferreira, que talvez tivesse sido o nosso maior escritor pulp se nós tivéssemos tido pulps. Reeditado em 2018 pela PIM! (uma editora que não gosta do Dantas, imagino), o romance intitula-se Punhais Misteriosos e também não tem nada de FC. E o Artur passa assim a 1c7s.

E é só. Para a semana deverá haver mais. Venham daí.

domingo, 8 de maio de 2022

Luiz Bras: A Última Árvore

Há muito quem diga, sem se rir, que ficção científica não é literatura, mesmo quando surge em livros e outras publicações que dão ao texto primazia. Dizem-no, geralmente, sem nunca terem lido uma linha de ficção científica ou sem nunca terem passado para lá dos exemplos mais caricaturais do género, arvorando aquele ar douto de quem tudo ignora convictamente. Luiz Bras, imagino, ri-se dessas pessoas em longas gargalhadas e depois, assim que lhe passa a hilariedade, põe-se a mostrar que sim, caríssimos, ficção científica é literatura. Mais: que ficção científica não só é literatura como pode por vezes ser ótima literatura.

Não é o único, longe disso. Mas Bras parece fazer disso uma forma de ativismo. Em alguns dos seus livros a ficção científica chega-nos repleta de experimentalismo, por vezes de uma forma que se aproxima muito de algumas vertentes da poesia, como quem faz FC para mostrar a poetas o que a FC pode ser. Em outros, como neste A Última Árvore, aparece uma ficção científica mais tradicional, mas escrita com todo o rigor literário de quem escreve contos para leitores de contos que nunca leram FC na vida. É como se estivesse a dizer a quem preconceitua o género "deixem-se de tacanhices e avaliem as coisas com base naquilo que elas são, não no nome que lhes dão".

Não sei até que ponto será eficaz nesse trabalho. Tampouco sei até que ponto será aceite pelos leitores mais limitados do género, que também os há, aqueles que também julgam que FC é aquela literatura que não precisa de literatura para nada, bastando-lhe um enredo interessante e palavreado de ar tecnológico. Mas sei o que mais me interessa enquanto leitor: sei que a abordagem comigo funciona em pleno. Sei que nos seus contos encontro quase sempre muito daquilo que procuro na ficção científica: literatura, sim, literatura, extrapolação rigorosa que no entanto não deixa que o rigor estorve a história, ideias estimulantes, inteligência, subtileza, quase todas essas coisas boas que tanto me atraem para o género.

A Última Árvore é um ótimo livro. Como em qualquer compilação de contos há alguns que me parecem mais bem conseguidos do que outros, mas o nível geral é muito alto. Contos como Aço Contra Osso, Mecanismos Precários ou O Índio no Abismo Sou Eu são do melhor que tenho lido nos últimos tempos e a maioria dos restantes não lhes fica muito atrás.

E o melhor de tudo é estar disponível gratuitamente no site dos Livros Fantasma. Só em PDF, infelizmente, mas está. Deverão poder descarregá-lo clicando simplesmente aqui. É só desfrutar.

Eis o que achei de cada uma das histórias:

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Irmãos Grimm: O Príncipe e a Princesa

Este é dos tais contos que, se fosse lido isoladamente, sem estar englobado numa grande compilação onde já anteriormente surgiram vários contos com bastantes elementos em comum com ele, seria bem mais interessante do que aqui parece.

O Príncipe e a Princesa, sem surpresa, narra a história de um príncipe e de uma princesa. E, apesar de parecer não ter sofrido muitas alterações por parte dos Irmãos Grimm, narra-a bem, de forma desenvolvida (com 8 páginas muito densas, é um conto bastante longo para o que é hábito aqui) e bem concebida. Claro, não dispensa os truques habituais neste tipo de história, encontrados em tantas outras. Há nele o seu quê de lengalenga, episódios com muito de repetitivo, há a sempiterna mania de agrupar tudo em grupos de três. Mas há também uma história convoluta e cheia de peripécias, que parece estar a pedir que alguém a desenvolva num texto de fantasia mais elaborado.

A história é a de um príncipe que é capturado por um rei cruel que lhe promete a mão de uma filha caso consiga ultrapassar certas provas, e matá-lo se não conseguir. Com as dificuldades previsíveis, e muito auxiliado pela princesa, que não tem a crueldade dos pais, o príncipe consegue. Mas de nada lhe serve e os jovens acabam por fugir, o que os leva a ser perseguidos. Não vou contar o resto do enredo; ele é extenso e convoluto e isto basta para ficarem com uma ideia. As peripécias são muitas e o final feliz que, sendo o conto como é, nunca está realmente em dúvida, parece muitas vezes praticamente inalcançável. Mas ele lá aparece, com a punição dos vilões e a recompensa dos heróis. E com uma protagonista feminina que não desempenha o papel de patética marioneta de vontades alheias, como com demasiada frequência acontece nestas histórias, o que é mais um fator a torná-lo interessante.

Sim, a palavra certa é interessante. Este conto não é um clássico, não sofreu o tratamento Disney, não é dos que foram parar de forma perene ao imaginário popular de várias gerações, mas não deixa de ser das histórias mais interessantes destes livros.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Pedro Pereira: Bruxaria

Não, este não me convenceu.

A ideia de Pedro Pereira, não sendo propriamente original (longe disso, na verdade), até podia resultar numa história interessante. Mas Bruxaria não é essa história. Em parte por ser demasiado breve, não dando tempo ao leitor para se interessar minimamente por nenhuma das personagens, o que faz com que o seu destino lhe seja indiferente, em parte por não estar particularmente bem escrita, e em parte devido a algumas inconsistências que leva quem lê a sentir-se manipulado assim que se dá conta delas. E facilmente se dá conta delas.

A ideia é fazer um conto juvenil, daqueles em que raparigas resolvem brincar com as coisas do sobrenatural. Para isso, usam um tabuleiro de ouija e muito rapidamente a brincadeira descamba numa orgia de sangue. Muito rapidamente: o conto nem mil palavras tem. Cliché? Sim, claro, mas ver a conversa acima sobre a originalidade; se a execução fosse realmente boa, o resultado também o seria, com clichés ou sem eles. Mas não é.

Este não será propriamente um conto mau. Mas é um conto fraco.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas #151

Olha, e foi mesmo. Depois de ter ontem publicado a nota sobre as Leiturtugas da semana anterior, aqui estamos hoje com mais uma nota sobre Leiturtugas, agora relativa às desta semana.

Ajudou que a malta tivesse estado de descanso. Nenhum dos participantes oficiais escreveu nenhuma opinião e entre os oficiosos só apareceu uma.

Quem no-la trouxe foi o Nuno Coelho, que comentou uma distopia que já tinha aparecido por aqui em abril. Cadernos da Água, romance de João Reis, foi publicado pela Quetzal em março último. E eu, que não gosto de repetir imagens nestas notas sobre Leiturtugas, desta vez vou ter de o fazer.

Até para a semana.

domingo, 1 de maio de 2022

Leiturtugas #150

Como assim, já é sábado?! Ou melhor, domingo, que se é certo que neste momento em que escrevo é sábado, não é menos verdade que quando acabar finalmente de escrever isto e publicar já passará da meia-noite.

Enfim, sim, pronto, atrasei-me. Mais do que tem sido hábito. Coisas que acontecem. Mas sim, isto é mais uma nota sobre Leiturtugas, sobre aquelas que apareceram por aí durante a semana passada. Aquela que terminou no domingo último. Não amanhã. Ou hoje, vá. O último. O de há uma semana. Oh, vocês percebem.

Não foram muitas, valha-nos isso. Foram apenas duas, uma oficial e uma oficiosa.

A oficial veio pela mão do Artur Coelho, que finalmente leu e comentou um livro de ficção científica, apropriadamente intitulado Futuro. Trata-se de um romance publicado no ano passado pela Divergência e escrito não sei quando (mas costuma ser antes) por Lívia Borges. E o Artur passa a marcar 1c6s.

Quanto à oficiosa, chegou-nos por intermédio da Diana, que opinou sobre um livro de Mário de Carvalho já com uns aninhos. A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho é uma novela fantástica sobre enovelamentos temporais, publicada originalmente em 1983 na Caminho, mas que a Diana parece ter lido numa das reedições recentes da Porto Editora. Há na ideia um levíssimo cheiro a FC, na medida em que a FC também tratou temas semelhantes, mas o autor leva-a por caminhos mitológicos, pelo que vou pôr o livro na coluna dos "sem".

E por esta semana... digo... pela semana pass... ora, não vou voltar a isto.

E é só. Até à próxima. Que não deve demorar tanto como esta, espero.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Irmãos Grimm: O Malho do Céu

Alguns destes contos dos Irmãos Grimm, essencialmente aqueles que são de forma muito clara apenas recolhidos, sem nenhum retoque dado pelos compiladores, são tão simples que chegam a ser simplórios. É o caso deste O Malho do Céu, uma anedotazinha de fundo vagamente cristão sobre um agricultor que, no meio de uma série de prodígios, acaba por subir ao céu de onde regressa com um malho.

Só com uma página, mesmo sendo as páginas deste livro bastante grandes, esta é uma daquelas histórias em que os acontecimentos se sucedem sem grande sentido ou objetivo aparente e de uma forma pouco ou nada aprofundada. Terá o seu interesse como literatura popular, talvez, mas é muito mazinha enquanto literatura propriamente dita.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Leiturtugas #149

De novo com um dia de atraso, por motivo de razões, cá estamos de volta com mais uma nota de divulgação de Leiturtugas. E há bastantes a divulgar ainda que, mais uma vez, nenhum dos participantes oficiais no projeto tenha dado esta semana um ar de sua graça. O que vale é que os oficiosos mais que compensam.

Começou com José Saramago, comentado por Maria Pinto num artigo que não é propriamente uma opinião clássica e onde fala de dois romances, um realista, Levantado do Chão, e o outro fantástico, Memorial do Convento. Este último, que é o que mais nos interessa, foi publicado originalmente pela Caminho, em 1982, ainda que os livros que ilustram o artigo pertençam às edições recentes da Porto Editora. FC? Aqui não há.

Segue com mais uma das republicações dos textos da Almerinda Bento, cabendo a vez agora à coletânea de Valter Hugo Mãe de que já falámos na semana passada. Intitula-se Contos de Cães e Maus Lobos, foi publicada pela Porto Editora em 2015, e também não tem FC.

De seguida chegou a vez da Inês Santos, que leu e comentou um romance de fantasia que já por cá tinha aparecido no ano passado. O ano, de resto, em que M. G. Ferrey fez publicar o seu Aquorea (ou Inspira) pela Nuvem de Tinta. Nada de FC também.

A seguir mudámos pouco de agulhas, uma vez que volta a ser um romance de fantasia de uma autora portuguesa a ser lido e comentado. Mas sempre muda alguma coisa: quem comenta (em estreia) é agora a Daniela RC, a autora chama-se Carolina Rodrigues e o livro tem o título de A Sombra da Água. Edição já deste ano da Cordel d'Prata. FC? Népia.

A FC começa a aparecer pelas mãos da «Anónima de Vidro», que comentou uma das coletâneas do António Bizarro. Mais precisamente, O Invisível, a Sua Sombra e o Seu Reflexo, uma edição da CoolBooks datada de 2019.

E é o LV Paulo quem nos traz finalmente um livro de FC, com um comentário incaracteristicamente extenso ao muito velhinho romance A. D. 2230, de Amílcar de Mascarenhas. É uma edição de 1938 da Parceria António Maria Pereira.

A rematar a semana, a Maria João Covas publicou mais um dos seus vídeos, onde comenta o terceiro romance de fantasia de autora portuguesa da semana. A autora chama-se R. C. Vicente, o livro intitula-se O Ressurgir dos Eternos Titãs, e foi publicado no ano passado pela Velha Lenda.

E é tudo e não é pouco. Para a semana deverá haver mais. Até lá.

sábado, 16 de abril de 2022

Marcelina Leandro: Sonhos Numa Noite de Natal

Mais uma história sobre a qual não é possível falar sem fazer revelações sobre o enredo, daquelas de que os leitores que gostam de ser surpreendidos ao longo da leitura não costumam gostar nada. Sim, a designação comum é spoilers, e vai haver. Considerem-se advertidos.

É um conto sentimental, este. Uma fantasia centrada numa avó e numa neta, ambas depositárias de um conhecimento mágico antigo, a arte de adivinhar o futuro penetrando no mundo dos sonhos por intermédio da queima de certas ervas. Bruxedos. Marcelina Leandro não é inteiramente hábil no entrelaçar da sua história, não conseguindo fazê-la fluir tão bem como seria desejável (é uma estrada com alguns buracos quando devia ser lisa, digamos), mas mesmo assim logrou fazê-la bem o suficiente para funcionar.

Os Sonhos Numa Noite de Natal não são agradáveis para quem os sonha. A idade pesa, a morte espreita, e quem espreita o futuro vê-a a espreitar, com os corações quebrados que seriam de esperar. Há na história uma atmosfera onírica bastante adequada, e alguma insegurança na teia da realidade, que é propositada e está quase bem feita. Pena o final do conto ser fraco, e pena também um sentimentalismo excessivo para aquilo que o meu gosto literário tende a aceitar, que é assumidamente pouco. Outros gostos aceitarão mais.

Não foi um conto que me tivesse agradado muito, e mesmo pondo de parte aquilo em que colide com o meu gosto não creio que chegue realmente a ser bom. Mas é uma história interessante, que talvez até não esteja muito longe de ser boa. Está algures entre o razoável e o bom. Não envergonha ninguém.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Leiturtugas #148

Com um dia de atraso, em virtude de motivos, eis chegado o momento de divulgar o que houve durante esta semana relacionado com Leiturtugas.

E a resposta é: nada. Não houve nada, pelo menos entre os participantes oficiais no projeto. Há semanas assim.

No entanto, como tantas vezes acontece, o facto dos oficiais terem andado por outras paragens não significa que os que não o são tenham feito o mesmo. Não fizeram. Longe disso, até.

Começou pela opinião da Almerinda Bento sobre o romance de Valter Hugo Mãe intitulado Homens Imprudentemente Poéticos. Já cá tinha aparecido na semana passada, mas foi agora republicada noutro sítio. É uma edição da Porto Editora de 2016 e não tem FC.

Prosseguiu com a opinião da Eduarda Magalhães sobre um romance (ou novela) fantástico de Eça de Queirós: O Mandarim. Não faço ideia de qual a edição lida para a elaboração do texto, mas o livro foi publicado originalmente em 1880. Também não tem FC, claro.

Depois chegou a "Toupeira", trazendo a sua opinião sobre mais um romance fantástico. Agora o autor é José Saramago, o título é O Evangelho Segundo Jesus Cristo, e de novo não sei que edição foi lida, sei apenas que o livro data de 1991. E também que não tem nenhuma FC.

De seguida regressou a Almerinda, agora no seu próprio blogue e agora com uma opinião sobre uma coletânea de contos, de novo de Valter Hugo Mãe. De novo, não parece haver nenhuma FC, mas há fantástico. Contos de Cães e Maus Lobos é uma edição da Porto Editora datada de 2015.

E por fim, a inevitável opinião sobre um livro infanto-juvenil. O Gigante com Pés de Princesa foi escrito por Pedro Fernandes, publicado já este ano pela Porto Editora, e lido agora pela Cris. Mais uma vez não tem nenhuma FC.

Uma semana de muita variedade, mas com um par de ausências gritantes. A ver vamos o que nos trará a próxima.

domingo, 10 de abril de 2022

Luiz Bras: A Última Árvore

Uma das coisas que por vezes se dizem, e que até fazem algum sentido, de vez em quando, é que a ficção científica é uma linguagem universal. Especialmente a hard, mas não só. Porque lida mais com o mundo físico e as suas características e possibilidades do que a generalidade das outras literaturas, porque toma muitas vezes por tema a imaginação de futuros que tendem a ser apresentados como culturas mais ou menos homogéneas, pelo menos à escala planetária, é frequente pensar-se na FC como coisa razoavelmente distante das especificidades culturais dos seus autores e leitores, capaz de ser apreciada de forma razoavelmente homogénea por todos os leitores integrados na cultura global, ou pelo menos da subcultura global que se interessa por FC.

Faz sentido, algum, mas não é bem verdade, como bem sabe quem já leu mais que FC americana e por isso sabe que outras culturas fazem FC de uma forma pelo menos um pouco diferente. Até dentro da mesma língua há diferenças: Ballard só podia ser inglês; Heinlein só podia ser americano; os Strugatsky são soviéticos até à medula.

E este conto de Luiz Bras só podia ser brasileiro.

E sim, vai haver spoilers.

A Última Árvore é um mito. Um mito entre o povo da favela, que luta pela sobrevivência no mundo futuro criado por Bras de uma forma muito semelhante à mesma luta no Brasil de hoje, ainda que com as evoluções tecnológicas que seriam de esperar do futuro. E com o detalhe da favela estar isolada do resto do mundo (ou da metrópole, o que talvez seja a mesma coisa) por uma cúpula. O conto, fragmentário, é feito de fragmentos-memória e fragmentos-diálogo, ambos puros, ou quase. Os fragmentos-memória fornecem o contexto, e neles não há diálogos, com duas exceções; os fragmentos-diálogo são diálogo puro. Ambos estão centrados num chefe de bando, que procura gerir os seus homens e proteger o seu poder o melhor que pode, constantemente confrontado com o inesperado e procurando orientação na memória. E no mito da última árvore.

Mas o último diálogo, no qual as personagens se põem a divagar sobre a realidade e a ficção, transforma o conto num exercício de metaliteratura. Muito bem feito.

É mais um conto bastante bom de Luiz Bras, claro está.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 5 de abril de 2022

Liliana Novais: Morte Branca

Um leve cheirinho a ficção científica não ajuda a salvar esta história de Liliana Novais, porque cai numa armadilha fatal de que já falei por aqui algumas vezes. E de que vou voltar a falar agora. E que exige spoilers para nela falar, pelo que façam favor de ir passear para outro sítio de por acaso forem alérgicos a tal coisa.

OK, os alérgicos já foram todos embora, vamos lá aos spoilers.

A ideia deste Morte Branca é divertida num sentido razoavelmente disparatado para o termo. Nada há nisso de mal: ideias disparatadas podem dar boas histórias se forem executadas da forma certa, e de resto esta ideia não é mais disparatada que a dos kaijus, com os quais, de resto, tem muitos pontos de contacto. Mas também tem uma diferença de vulto: o kaiju, aqui, é um coelho branco, não um monstro reptiliano e disforme. Um gigantesco e devorador coelho branco. E está explicado o título.

O grande problema é estar narrada na primeira pessoa, e no pretérito imperfeito, por alguém que vai enfrentar a morte, e que o sabe, e que deixa o final em suspenso, o que implica que essa morte aconteceu de facto. E a questão berra, inescapável: se o narrador morreu, quem diabos narrou a história?!

Com a suspensão da descrença desfeita, o conto desfaz-se. E bastaria, por exemplo, colocar a voz narrativa no presente para resolver esse problema. Mas ficariam outros detalhes a não permitir que ela fosse boa, como por exemplo a autora parecer não conseguir decidir se pretende fazer uma história engraçada ou tensa, ficando algures a meio sem lograr alcançar nenhum dos dois efeitos.

Este não é um bom conto.

Conto anterior deste livro:

segunda-feira, 4 de abril de 2022

José Viale Moutinho: «El Animal»

Este é mais um conto de José Viale Moutinho onde se cruzam tempos, e de novo o cruzamento faz-se entre um tempo de relativa modernidade (por vezes muito relativa, como é o caso) e o da guerra civil espanhola. Aqui, conta-se a atribulada história de «El Animal», alcunha de Vladimir García, antigo combatente do lado republicano, comunista mas rebelde, exilado do franquismo primeiro na União Soviética, onde teria ido parar a um gulag do qual fugira duas vezes, e depois em França.

Mas Moutinho não é escritor para contar as histórias com linearidade, pelo que vai serpenteando pela narrativa, deixando cair uma informação aqui, outra ali, outra acolá, ora sobre o passado do protagonista, ora sobre o presente que este vive em 1967, época em que tem em casa um jovem camarada que tenta a duras penas arrancar-lhe algo que se pareça a uma biografia.

Não é o conto deste conjunto que mais me agradou, mas reconheço sem qualquer dificuldade que a narrativa sinuosa está muito bem conseguida. Muitos escritores de FC talvez beneficiassem de uma leitura atenta de histórias como esta; talvez aprendessem a não despejar a informação sobre o leitor sem subileza nem sentido literário, o que sem dúvida melhoraria as suas histórias. Sim, que esta é uma boa história, mesmo não tendo encaixado muito bem naquilo que mais prazer me dá ler.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 3 de abril de 2022

Leiturtugas #147

Olá, olá. Temos mais Leiturtugas para vocês. E a semana até foi razoavelmente produtiva; rendeu cinco posts, todos vindos dos oficiosos.

Começou com a Almerinda, que opinou sobre um romance de Valter Hugo Mãe que parece ter em si alguma fantasia, ou por outra, situar-se num registo próximo do realismo mágico. Homens Imprudentemente Poéticos data de 2016 e é uma edição da Porto Editora. Sem FC.

A Cris, por seu lado, opinou sobre uma distopia, trazendo FC a este projeto depois de um período demasiado longo de total ausência do género. Trata-se de Cadernos da Água, um romance de João Reis publicado pela Quetzal já em março deste ano. A primeira FC do ano? Provavelmente será, sim.

Depois tivemos o Gonçalo Matos a opinar sobre O Bom Inverno de João Tordo. Não li este livro, uma edição de 2010 da Dom Quixote, não sei ao certo se é enquadrável nos géneros fantásticos, mas o Gonçalo cita Edgar Allan Poe como referência, e Poe, apesar de ter escrito em vários géneros, dedicou-se sobretudo a géneros fantásticos, pelo que resolvi incluí-lo aqui. Certo é não conter nada de FC.

Para não variar, tivemos também esta semana uma obra infantojuvenil. Chega-nos pela pena eletrónica da Anabela Risso, intitula-se Com a Breca, Há Amor na Biblioteca, foi escrita por Sara Ralha e publicada em abril do ano passado pela Porto Editora e também não tem nenhuma FC. É uma fantasia, aparentemente divertida, sobre uma biblioteca mágica em que são os livros a escolher os leitores e não o contrário como acontece nas que não são mágicas.

Por fim, temos mais uma brevíssima opinião do LV Paulo sobre uma antologia de ficção científica juvenil publicada pela Verbo no já longínquo ano de 1978. O título é 15 Histórias de Ficção Científica, a antologia teve organização de Bertrand Solet e Maria Adelaide Couto Viana e, apesar de ser sobretudo ficção traduzida, contém também um conto de Natália Correia.

E por esta semana estamos conversados. Venha a próxima.