quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Lido: Crime

Luiz Bras parece gostar particularmente de coisas híbridas. A sua ficção científica raramente é só FC e o que não o é primordialmente muitas vezes inclui elementos de FC. Os textos em prosa vêm frequentemente carregados de poesia, e os textos que visualmente se assemelham a poemas poderiam muitas vezes escrever-se como prosa simples. E etc. Vários eteceteras. E este Crime é mais um desses textos híbridos.

É um poema? Se calhar é, sim. Um poema de versos longos rematado por um parágrafo em prosa, sobre... sobre o quê, ao certo? Sobre a identidade? Sobre a unidade fundamental de todas as coisas, talvez? O pretexto é um crime, mas Luiz Bras serve-se de surrealismo para sugerir, em amplas e vagas pinceladas, que tudo está interconectado de uma forma inextricável. Julgo eu. Parece-me.

E é bom? Parece-me (de novo a palavra) que sim. Está muito bem escrito, para começar e, se a ambiguidade, se uma certa forma impressionista de transmitir a ideia, eram aquilo que ele procurava fazer, fê-lo na perfeição. Mas não é texto que agrade a qualquer leitor, longe disso. É demasiado literário, em tudo o que a palavra implica.

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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Lido: Ketchup

E se o continho anterior foi inteligente e divertido, neste Ketchup Carina Portugal não consegue ser nem uma coisa nem a outra. Mas tenta.

O problema é sobretudo a ideia ser mais que batida. Há anedotas com ela, há piadas com ela em filmes e noutros sítios. Não digo qual é, mas na verdade o título já deixa entrevê-la, e se disser que os protagonistas da história são tomates então...

Este é outro conto muito curto e bastante fraco, reforçando a minha ideia de que, com as exceções da praxe, a autora se sai melhor em extensões maiores.

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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Lido: Os Sete Anéis dos Sete Anões

Ah, um conto sobre a hipocrisia. De repente estamos na Terra Média ou em algum lugar do género, e alguém escreve uma breve carta a um tal Frodo. Só que algo corre mal com a tecnologia, e tudo o que esse alguém (Gandalf? Será?) escreve e rasura fica legível. Ora, o tom da parte não rasurada é um, e o da parte rasurada é outro bem diferente, o que Luiz Bras utiliza para belo efeito cómico. E no meio há Os Sete Anéis dos Sete Anões, que quem escreve a carta não faz ideia do que sejam, provavelmente porque pertencem a outra história. Mas isso também está rasurado.

E está tudo basicamente dito. O conto, de uma página, é uma fantasia cómica epistolar muito engraçada, ao mesmo tempo que também é uma experiência narrativa que não será inteiramente original mas é certamente invulgar. Este conto é mais divertido do que propriamente interessante, parece-me, mas contos assim também fazem falta. Aliás, diria até que nos dias de hoje fazem muita falta.

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domingo, 11 de novembro de 2018

Lido: No Moinho

Uma das coisas que eu mais aprecio na ficção do Eça de Queirós é a forma irónica como ele olha para as coisas e as pessoas, uma corrosiva ironia muito sua, tão, mas tão diferente da forma como a legião de imitadores que veio atrás tentou sem sucesso emulá-la. Essa ironia está bem patente na maior parte dos textos queirosianos que eu conheço... mas não em todos.

Neste No Moinho, por exemplo, ela não se pode dizer que seja inexistente mas é certamente escassa. Trata-se sobretudo de um retrato, mais uma vez. O retrato de uma mulher de província, prisioneira de um casamento sem amor, sem alegria e com doenças, mas contente com a, ou pelo menos resignada à, sua situação. Até ao dia em que um primo do marido, escritor célebre radicado em Lisboa, chega à aldeia em negócios e vem abalar o seu mundinho até às fundações.

Muitíssimo bem escrito, como é praticamente inevitável em Eça, este conto é sobretudo uma história romântica, com a ênfase nos sentimentos que é característica dessas histórias. Mas é uma história romântica à Eça: sem sentimentalismos nem exageros. O que para mim é ótimo, dada a alergia que tenho às histórias românticas com exageros sentimentais. Achei este conto bom, portanto, apesar de não me ter enchido as medidas.

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LeiTugas: vamos a isso?

Desde que lancei a ideia do Grupo LeiTugas, há cerca de um mês, fui tendo várias conversas sobre ela, tanto online como pessoalmente. Essas conversas, e as reflexões que elas me causaram, justificam que antes de pôr o grupo propriamente a funcionar discuta aqui algumas questões. Parte deste post repete perguntas que me fizeram e respostas que dei, com base na suposição de que questões e dúvidas que uma pessoa possa ter poderão ser compartilhadas por outras, e outra parte vem de reflexões que tive posteriormente com base em coisas que me foram dizendo ao longo dessas conversas e na evolução das minhas próprias ideias. A estrutura do post será mais ou menos a de uma FAQ para melhor ficar organizado. Começando pelo princípio.

O nome.

O nome do grupo (e o logotipo que abre este post) foi improvisado praticamente ao correr da pena e por isso está sujeito a alteração. É, como é óbvio, uma contração de "leituras portuguesas". Há conveniência em um grupo deste género ter um nome razoavelmente único, que possa ser usado como hashtag e sirva para fazer pesquisas no Google. Por aí, leitugas até funciona razoavelmente bem: existe uma planta chamada leituga, mas é uma planta pouco comum que não gera muito tráfego nem dá para criar confusões. Mas se alguém tiver ideia melhor, sou todo ouvidos.

Ah, sim, e o logotipo. Se alguém quiser fazer coisa melhor, o que cá para mim seria bastante fácil, faça favor.

Porquê equiparar o número de obras com FC ao de obras sem FC? Não seria melhor distribuir a coisa mais equitativamente pelos vários géneros?

A ideia é promover a leitura e o comentário de ficção científica, precisamente porque já há bastante mais pessoas a ler outros géneros dentro do grande guarda-chuva das literaturas não realistas e a FC tende a ficar para trás. Mas é bom que se compreenda o que eu entendo por "ler FC". Não é "ler apenas romances de FC pura e dura".

Nada impede, por exemplo que um fã de fantasia daqueles mais ferrenhos se delicie num mês com um suculento naco de 700 páginas de fantasia e no seguinte despache um continho de FC de página e meia para cumprir a quota.

E também é bom sublinhar que falar aqui em obras de FC é uma forma de falar em obras com FC. Coisas como o science fantasy (de que a série de Pern da Anne McCaffrey — ou o Star Wars — são bons exemplos) também contam, e há exemplos do género na FC portuguesa. Muitos dos contos da Isabel Cristina Pires ou do Artur Portela são science fantasy, apesar de a parte fantasia ser menos virada à fantasia épica e mais ao fantasismo mais típico do fantástico português. A série da Alex 9 do Bruno Martins Soares também é, e aqui a componente de fantasia é bastante mais épica do que é hábito.

Em geral, pretendo usar aqui o mesmo tipo de definição lata que tenho usado para o Ficção Científica Literária, onde muito do material que aparece está mais próximo de outros géneros mas contém também pitadas de FC. Por conseguinte, alternar uma obra com FC com uma obra sem FC é bastante menos FC-cêntrico do que pode parecer à primeira vista.

E é por isso, de resto, que é aceitável substituir obras sem FC por obras com FC (i.e., em vez de serem no mínimo 6 de cada ao longo de um ano poderem ser 7 ou 8 com FC e 4 ou 5 sem), mas o inverso não é.

E claro que quem quiser restringir a sua FC à FC pura e dura, também é inteiramente bem-vindo.

Mas há pouco material!

A falta de material é mais aparente que real. É verdade que o que se publica por ano é escasso, e que por isso quem quiser cingir-se apenas às últimas novidades poderá ter algumas dificuldades em cumprir (ou não; ver à frente), mas o certo é que já levamos anos suficientes disto para se ter publicado bastantes coisas. Só com os contos que estão online por aí quem quiser participar tem material para muitos anos (um conto de dois em dois meses dá 6 contos por ano; qualquer dos sites que publicou FC em conto, do da Simetria ao Fantasy&Co. tem material que dá para bastante mais que um ano).

Mesmo quem só lê em papel tem disponível material mais que suficiente para participar numa ideia como esta. Tenho vindo a compilar a lista de novidades do ano, à semelhança do que fiz no ano passado, e neste momento ela soma já 31 títulos. E mesmo removendo reedições e ebooks são bem mais que seis (são 21). É pouco, com certeza, mas é mais que suficiente para alimentar uma ideia como esta.

Mas não tenho tempo!

Oh, eu também não.

Mas a verdade é que não preciso de ter mais tempo do que o que tenho porque já faço o que se pretende que este grupo faça. Já leio e comento FC (e não-FC) portuguesa, pelo que não terei dificuldade em cumprir os objetivos que o grupo tem. Preciso apenas de me organizar um pouco melhor, e já agora dou um exemplo de como.

Vou arrancar com isto já este mês. Para novembro já tenho o que comentar; um livro português sobretudo de horror que está quase lido e tem vindo a ser comentado conto a conto nos últimos tempos. Certamente já sabem qual é. Ora, se os contos que falta ler forem como os que já estão lidos, e tudo indica que sim, é um livro sem FC. Ou seja: o próximo será com FC. Mas olhando para os livros que tenho em leitura e na pilha rápida para serem lidos a seguir, não há nenhum livro português de ou com FC. Solução: vou pegar num dos contos em ebook que aqui tenho, ainda não decidi qual, e será essa a minha LeiTuga de dezembro.

(Entretanto, depois de escrever o parágrafo acima mas antes de concluir e publicar este post, apareceu-me um conto de ficção científica nesse livro, o que revoluciona os planos. Mas decidi deixar o parágrafo inalterado como exemplo do que é possível fazer.)

Como eu, há várias pessoas que já fazem isto, embora nem sempre de uma forma particularmente organizada (mas mais sobre isto mais adiante), e que por isso não precisarão de mais tempo livre do que o que já gastam com a leitura e comentário.

Mais: a leitura de contos é inerentemente rápida, e os comentários a contos também o podem ser. Ou seja: quem não tiver muito tempo disponível mas quiser mesmo assim participar pode pelo menos ler e comentar um conto por mês (e volto a remeter para baixo) que não gastará com isso muito tempo. Há por aí contos bastante curtos mas interessantes, e ninguém obriga a só se lerem e comentarem os interessantes; uma das vantagens dos contos é que mesmo quando são chatos nunca o são tanto como certos romances (deixem-me: ontem consegui finalmente acabar de ler um chatíssimo tijolo de 500 páginas e ainda estou sob a influência).

Mas não será demasiado rígido? Uma obra por mês, assim, taxativamente? E se me apetecer saltar um mês?

OK, combinamos o seguinte: quem quiser e puder seguir o esquema rígido, siga-o. Isso fornecerá uma base mínima e regular de opiniões mensais. Quem não puder ou não quiser seguir o esquema rígido, pode orientar-se desta forma: se, no decurso de seis meses, ler e opinar sobre três obras com FC e três obras sem FC, pelo menos, está na mesma a cumprir as regras do grupo.

Mesmo assim não tenho tempo.

Posso sugerir uma versão light da ideia. Um subgrupo "Leituguinhas", para o pessoal que só conseguir fazer isto pela metade. Em vez de 6 obras com FC por ano, e outras tantas sem FC, exigem-se 3+3. Assim já dá?

Nem assim, pá. Nem assim.

Bem, então sugiro outra ideia para quem acha que nem assim consegue cumprir o que se pretende: associe-se a alguém, ou a vários alguéns, e criem um blog coletivo. Ou faça posts de convidados em algum blogue individual. A ideia é que o grupo Leitugas tenha como base as publicações, não as pessoas. Isto é, um blogue em que escrevam 3 ou 4 leitores conta como um, não como 3 ou 4, e por isso tem bastante mais facilidade em cumprir os "mínimos", pois divide as leituras entre esses 3 ou 4 leitores.

Pronto, está bem. E planeias orientar um pouco a escolha, sugerindo títulos específicos, ou pretendes antes dar liberdade a quem aderir, desde que respeite os parâmetros já enunciados?

Sem orientações, a menos que mas peçam explicitamente. A ideia é eu não gastar muito tempo com isto, mas se alguém tiver alguma dúvida sobre se a obra X tem ou não FC, ou não souber onde encontrar contos avulso, e coisas do género, posso responder a essas dúvidas (desde que saiba, naturalmente). Tirando isso, e além do respeito pelas regras de periodicidade, que convém existir para que a coisa resulte, a liberdade é total.

OK, convenceste-me. E agora?

Agora é criar o blogue, se ainda não existir, e começar a ler e a opinar. Quando se reunir um grupo pioneiro convém discutirmos entre nós como se processará a divulgação mútua, mas o melhor, para começar, talvez seja incluir no título ou no texto das publicações relacionadas com isto o nome do grupo, LeiTugas, possivelmente (também) em forma de hashtag, para serem mais fáceis de encontrar. Também convém informarem-me de que estão a participar. Estou a pensar criar uma página aqui na Lâmpada, a acrescentar às três que estão na barrinha ali em cima, onde se poderia fazer a gestão de quem está, de quem não está e de quem está em dia, vai adiantado ou vai atrasado, mas isso provavelmente irá esperar até podermos conversar sobre a parte da divulgação e da gestão do grupo. Penso também fazer alguns convites diretos a malta que faz, ou fez, crítica a coisas portuguesas, mas quem quiser participar não fique à espera do convite: não tenho ainda a certeza de que vou mesmo fazê-los. Eu lançarei a primeira opinião integrada nisto talvez daqui a uma semana ou duas. Ainda este mês, portanto. E quem tiver sugestões a fazer, faça-as.

Vamos a isso?

sábado, 10 de novembro de 2018

Lido: As Larvas da Abóbora

E como poucas coisas são absolutas, eis um conto muito curto de Carina Portugal (autora que eu digo, e repito, que funciona melhor em extensões maiores), um miniconto com menos de uma página, que funciona na perfeição.

Já alguém se interrogou sobre o que aconteceria à abóbora que na história da Cinderela se transforma em carruagem se por acaso estivesse bichada no momento da transformação? Já: a Carina Portugal. E é isso o que conta em As Larvas da Abóbora, um continho divertido e inteligente em que faz uma fusão de duas célebres histórias de encantar: a da Cinderela e a da Branca de Neve. Não contarei como; não é preciso. Basta dizer que sim, este continho é bom.

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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Lido: Máquina Macunaíma

Decididamente, há contos brasileiros que não são para serem lidos por olhos portugueses. Pelo menos sem um glossário.

Este Máquina Macunaíma de Luiz Bras é um desses contos, e confesso não o ter compreendido bem o suficiente para perceber se gostei ou não. Parece ser uma história que vai beber às mitologias indígenas brasileiras, servindo-se de criaturas mitológicas (ou se calhar não tão mitológicas, se calhar simples fauna local com nomes indígenas), mais que provavelmente alteradas, para contar uma história recursiva em que uns pobres curumins (aparentemente "crianças" em tupi) são repetidamente devorados por variados monstros de piroca grossa. Sim.

Tenho praticamente a certeza de que há aqui significados que me escapam, mas apercebo-me de algumas piscadelas de olho à ficção científica (há insetos-robôs, por exemplo) e de que embora o tom da narrativa seja marcadamente infantil, a narrativa propriamente dita está longe de o ser. Mas a verdade é que precisava de tradutor para perceber muito mais do que isto.

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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Lido: Triste e Leda Madrugada

E eis que, de repente, todas as fragilidades na escrita da Carina Portugal ressurgem em força. Acontece sobretudo quando ela se arrisca na prosa poética, e é precisamente isso o que faz neste Triste e Leda Madrugada, um conto bastante curto que, num tom de fantasia mais ou menos mitológica, romanceia a relação entre o dia e a noite. Antropomorfizando-a.

O problema principal, além das fragilidades mencionadas acima, é precisamente esse. A antropomorfização de fenómenos naturais tem velhíssimos antecedentes na mitologia humana, e consequentemente na sua filha primogénita, a literatura. De tal forma velhíssimos são os antecedentes e abundantes as histórias que a ideia se tornou cliché há séculos, pelo que só com uma grande quantidade de inovação, ou com uma enorme qualidade no manejo da língua, é possível escrever sobre o assunto com alguma frescura. E isso não acontece neste conto. É um conto bastante fraco; um ponto baixo no livro.

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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Lido: The Walking Dead

Não, não é o que vocês estão a pensar. Não se trata de nenhum comentário ou sucedâneo da série de TV do mesmo nome, embora tenha como tema o apocalipse zombie. Ou "zumbi", como os brasileiros preferem escrever. Este The Walking Dead de Luiz Bras é mais uma ficção que não aceita constranger-se a géneros, traficando livremente entre o horror, a ficção científica e o fantástico mais tradicional e incluindo também um forte tempero de comentário político, num conto incaracteristicamente longo para este livro: três páginas inteiras.

A história, além disso, é mais uma das várias histórias deste livro que contêm ideias para outro livro do autor que eu li e de que falei aqui há algum tempo: Sozinho no Deserto Extremo. Embora neste livro não haja zombies, há o mesmo ambiente pós-apocalíptico e o tema do (ou da) protagonista solitário num mundo vazio. Pelo menos de gente.

E é um conto muito bom, quer pela qualidade da escrita, quer pela forma como os vários (e abundantes) elementos que o compõem vão sendo revelados ao longo do texto, aos poucos, subtilmente e muitas vezes com a máxima economia de palavras. O elemento FC, por exemplo, surge claro com uma só palavra, quando alguém veste o traje de metamaterial. É o que estas pequeníssimas ficções de Luiz Bras têm de melhor, parece-me: a forma cirúrgica como poucas palavras, por vezes apenas uma, revolucionam o todo.

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terça-feira, 6 de novembro de 2018

Lido: Sementes de Fada

Já aqui escrevi, vendo-me desmentido pouco depois, mas agora reitero: Carina Portugal é melhor em contos mais extensos do que nos mais curtos, mesmo havendo entre estes alguns que se elevam acima dos restantes. E este conto, Sementes de Fada, é dos mais extensos. O que implica desde logo que pode ser também dos melhores.

E é. É uma história oitocentista, ambientada na Serra de Sintra, cenário adequadamente misterioso. O protagonista regressa ao seu velho casarão senhorial, que julga abandonado... mas depressa descobre (dolorosamente) que não o está. Uma rapariga abriga-se lá dentro, uma rapariga imunda e muda. Uma rapariga?...

Pois. Não é uma rapariga. Ou antes, é não sendo. Esta é uma história de fantasia razoavelmente sombria sobre criaturas da floresta e as suas relações contraditórias com os mortais. Faz-me lembrar pela ambiência e abordagem um dos livros que traduzi: A Criança Roubada, do Keith Donohue. Mas o tema principal é diferente. O desta história de Carina Portugal é principalmente o desejo sexual e, de certa forma, o amor, ou pelo menos a lealdade.

Somando-se a isso um texto em que as fragilidades da escrita da autora se fazem sentir pouco, voltamos a ter aqui um dos pontos altos do livro.

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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Em outubro falou-se de...

Mais um mês, mais uma lista daquilo que foi sendo lido e comentado na internet aberta de língua portuguesa durante o mês anterior, relacionado diretamente ou nem por isso com a ficção científica.

Começo, como sempre, pela conversa habitual, só interessante para recém-chegados, pelo que os leitores habituais destes artigos podem saltar este parágrafo sem qualquer problema. Encontra-se mais informação sobre estes artigos, seus objetivos e suas limitações, no primeiro post da série, eles estão todos acessíveis, tanto este como os anteriores e, no futuro, os posteriores, na tag leituras fc, e os comentários que eu tenho a fazer sobre as listas que se seguem vêm, como sempre acontece, depois dessas mesmas listas, no fim do post.

Despachado o intróito, eis as listas do mês:

Ficção portuguesa:
  1. Uma Terra Prometida, org. ??
  2. A Terra da Naumãn, de H. G. Cancela
  3. O Resto é Paisagem, org. Luís Filipe Silva
  4. Tudo Isto Existe, de João Ventura
Ficção brasileira:
  1. Face a Face, de Luiz Bras (conto)
  2. O Homem que Fotografou Deus, de Maciel Brognoli
  3. A Jornada da Morte, de José M. S. Freire
  4. Tente Outra Vez, de Fabiano Jucá
  5. Trabalho Honesto, de Rodrigo Von Kampen
  6. O Presidente Negro, de Monteiro Lobato
  7. Absolutos, de Rodolfo Salles (2x)
  8. A Lição de Anatomia do Terrível Doutor Louison, de Enéias Tavares
  9. Esquadrão X, de Vivian Villalba
  10. (R)Evolução, de Lu Ain-Zaila
Ficção internacional:
  1. O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams
  2. O Poder, de Naomi Alderman (2x)
  3. Opposition, de Jennifer L. Armentrout
  4. Origin, de Jennifer L. Armentrout
  5. Fundação (trilogia), de Isaac Asimov
  6. Órix e Crex, de Margaret Atwood
  7. The Voices of Time, de J. G. Ballard (conto)
  8. Sepulcros de Cowboys, de Roberto Bolaño
  9. A Colônia, de Ezekiel Boone
  10. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury
  11. Estrela do Perigo, de Marion Zimmer Bradley
  12. O Sol Vermelho, de Marion Zimmer Bradley
  13. Os Salvadores do Planeta, de Marion Zimmer Bradley
  14. A Menina que Tinha Dons, de M. R. Carey
  15. A Elite, de Kiera Cass
  16. A Seleção, de Kiera Cass
  17. Felizes Para Sempre, de Kiera Cass
  18. Alvo em Movimento, de Cecil Castellucci e Jason Fry
  19. A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada, de Becky Chambers
  20. Jogador 1, de Ernest Cline
  21. A Quarta Profecia, de Suzanne Collins
  22. Conquista, de Ally Condie
  23. Travessia, de Ally Condie
  24. Jurassic Park, de Michael Crichton
  25. Vox, de Christina Dalcher (2x)
  26. Arena 13, de Joseph Delaney
  27. Espere Agora Pelo Ano Passado, de Philip K. Dick (2x)
  28. O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick
  29. Sonhos Elétricos, de Philip K. Dick (2x)
  30. Ubik, de Philip K. Dick
  31. Muitas Águas, de Madeleine l'Engle (3x)
  32. Um Planeta em seu Giro Feroz, de Madeleine l'Engle
  33. Uma Coisa Absolutamente Incrível / Uma Coisa Absolutamente Fantástica, de Hank Green (9x)
  34. Revivente, de Ken Grimwood
  35. O Mapa do Tempo, de Heidi Heilig
  36. ... E Ele Construiu uma Casa Torta, de Robert A. Heinlein (conto)
  37. Strange Weather, de Joe Hill
  38. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
  39. O Lagarto, de C. J. Cuttcliffe Hynes (conto)
  40. O Portão do Obelisco, de N. K. Jemisin
  41. Flores para Algernon, de Daniel Keyes
  42. A Incendiária, de Stephen King
  43. Celular, de Stephen King (4x)
  44. A Balada do Black Tom, de Victor Lavalle
  45. Justiça Ancilar, de Ann Leckie
  46. O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu (2x)
  47. Mil Mortes e Outras Histórias, de Jack London
  48. O Princípio do Fim, de Manel Loureiro
  49. A Cor que Caiu do Espaço, de H. P. Lovecraft (conto)
  50. Contos, vol. 2, de H. P. Lovecraft
  51. Medo Clássico, vol. 1, de H. P. Lovecraft
  52. Os Contos Mais Arrepiantes de Howard Philips Lovecraft, de H. P. Lovecraft (2x)
  53. Vigilante Noturno, de Marie Lu
  54. O Corpo Dela e Outras Partes, de Carmen Maria Machado
  55. Earth Hour, de Ken MacLeod (conto)
  56. The Finite Canvas, de Brit Mandelo (conto)
  57. A Flor de Vidro, de George R. R. Martin (conto)
  58. Nightflyers, de George R. R. Martin (conto)
  59. Santuário dos Ventos, de George R. R. Martin e Lisa Tuttle
  60. Nada Enfurece Mais uma Mulher, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
  61. A Estrada, de Cormac McCarthy
  62. Um Cântico Para Leibowitz, de Walter M. Miller, Jr.
  63. Os Seis Finalistas, de Alexandra Monir (2x)
  64. A Revolta, de Kass Morgan
  65. Binti, de Nnedi Okorafor
  66. Let me Live in a House, de Chad Oliver (conto)
  67. Evolução, de John Peel
  68. A Terra Longa, de Terry Pratchett e Steven Baxter
  69. Nyxia, de Scott Reintgen
  70. Tormenta de Fogo, de Brandon Sanderson
  71. After the Coup, de John Scalzi (conto)
  72. The President's Brain is Missing, de John Scalzi (conto)
  73. A Nuvem, de Neal Shusterman
  74. Fragmentados, de Neal Shusterman
  75. O Ceifador, de Neal Shusterman (2x)
  76. As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift
  77. Os Oleiros de Firsk, de Jack Vance (conto)
  78. Steampunk, org. Ann e Jeff VanderMeer
  79. Aniquilação, de Jeff VanderMeer
  80. 20 Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne
  81. As Sereias de Titã, de Kurt Vonnegut Jr.
  82. A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells
  83. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells
  84. Beemote: A Revolução, de Scott Westerfeld
  85. Sector General, de James White (conto)
  86. Meteoro, de John Wyndham (conto)
  87. A Última Estrela, de Rick Yancey
  88. The Guns of Avalon, de Roger Zelazny
Não-ficção internacional:
  1. 21 Lições para o Século 21 ou 21 Lições para o Século XXI, de Yuval Noah Harari (2x)
  2. Universo Alien, de Don Lincoln
  3. Coração Assombrado, de Lisa Rogak
Quanto a comentários, bem, tenho de começar por dizer que volto a estar alguns dias atrasado lá no Ficção Científica Literária, pelo que estas listas não contêm tudo o que foi comentado ao longo do mês de outubro, tendo ficado algumas coisas para as do mês de novembro. Mas mesmo assim...

... mesmo assim o mês correu mal. Os comentários a material português voltaram a cair, tendo sido este mês apenas quatro, e um refere-se a uma antologia que contém apenas um conto que parece roçar ao de leve pela FC mas também pode nada ter a ver com o género. Ou seja: depois de dois meses com uma ligeira animação, voltámos a estar muito mal de comentários portugueses.

Mas não foi só Portugal que se portou mal. A queda na ficção brasileira comentada em setembro acentuou-se em outubro, reduzindo-se a apenas 10 títulos (número que me parece o mínimo aceitável para um ambiente saudável), um dos quais vem aqui da Lâmpada. É possível que isso tenha tido a ver com as eleições e que o número volte a subir em novembro, mas só o saberemos daqui a um mês. Curioso é ver mais uma vez o livro de Rodolfo Salles com mais que um comentário. Pode tratar-se de marketing bem direcionado — e há indícios que me levam a suspeitar disso mesmo — ou de interesse genuíno, mas o facto é que este livro tem sido de longe o livro brasileiro mais comentado este ano.

No campo da ficção traduzida, o número de títulos referenciados voltou a subir, o que comprova que o atraso no trabalho do FCL não é determinante para a escassa quantidade de opiniões a material lusófono. Mas desconfio que sem esse atraso é muito possível que em outubro se tivesse chegado aos 100 títulos. Assim ficou-se pelos 88, dos quais se destaca, e de muito longe, o livro do Hank Green, alvo de 9 opiniões. É o livro mais comentado num só mês desde que comecei a fazer isto. Outros destaques do mês são Philip K. Dick, mais uma vez, com 6 comentários a 4 obras, Stephen King, com 5 comentários a 2 obras, H. P. Lovecraft, com 5 comentários a 4 obras, Madeleine l'Engle, com 4 comentários a 2 obras, Neal Shusterman, com 4 comentários a 3 obras e George R. R. Martin, com 4 comentários a outras tantas obras, incluindo obras de sua autoria e (co-)organizadas por ele. Quase tudo graças aos produtores de conteúdos brasileiros.

Vamos a ver se o mês que começou há dias trará algumas melhorias. Uma ideia que vai ser alvo de um post que estou a preparar poderá vir a contribuir para isso, ainda que ainda não em novembro, provavelmente. Sairá em breve; fiquem atentos. E quanto a estes "falou-se de...", voltamos a encontrar-nos no princípio de dezembro.

domingo, 4 de novembro de 2018

Lido: Alien

Alien é um conto com quatro frases. Curtas. Não é possível falar muito dele, portanto. Basta dizer que é um conto divertido, de ficção científica porque o título o explica — sem o título o miolo seria ambíguo. Luiz Bras, o autor, usa, compactissimamente, a estrutura clássica da anedota, com premissa, desenvolvimento e punch line. E usa-a bem. O continho é divertido. Funciona. E é isto o que sobre ele tenho a dizer, num textinho curto que mesmo assim é muito maior que o conto.

Textos anteriores deste livro:

Lido: Nothing to Fear but Books Themselves

Paul di Filippo teve durante vários anos uma coluna satírica na F&SF intitulada Plumage from Pegasus, na qual publicava textos dificilmente classificáveis, algures entre a ficção e a crónica, ainda que me pareça tenderem mais para o lado da ficção. São historinhas (ou crónicas) curtas, que vieram a ser coligidas em duas coletâneas. O tema é o mundo da ficção científica e fantasia e o mundo literário em geral, e di Filippo serve-se da hipérbole e do exagero para obter efeitos cómicos a partir das idiossincrasias desses mundos e/ou dos seus integrantes.

Aqui, a história intitula-se Nothing to Fear but Books Themselves e, a partir de um trecho de uma crítica publicada na The New York Times Book Review, conta a história de uma crítica profissional que desenvolve medo patológico daquilo que lê. Uma história da qual é impossível falar sem revelar o desfecho, portanto se és alérgico a revelações de enredo vai ler outra coisa qualquer porque a seguir a esta frase há montes de spoilers. Ela, portanto, tem medo. Tudo, conforme explica ao editor que lhe faz uma visita para tentar perceber o que se passa, lhe causa pavor, ao ponto da pobre já nem conseguir pôr o nariz fora de casa. Problema bicudo: se ganha a vida lendo e ler a deixa em pânico, não parece haver solução que não seja ir fazer outra coisa qualquer na vida e não tem ideia nenhuma do quê. Até que o editor descobre a solução: ela vai passar a criticar exclusivamente livros de horror, porque não há nada menos assustador do que um livro de horror.

É uma historinha divertida, vagamente encaixável na literatura fantástica, mas não me parece que passe disso. O que está certíssimo, pois tampouco me parece que Paul di Filippo pretendesse que ela fosse mais que uma historinha divertida. Cumpre o seu propósito e nada mais se lhe pode exigir.

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sábado, 3 de novembro de 2018

Lido: Põe-te-Mesa, Asno de Ouro e Cacete-Sai-do-Saco

Há uma regra geral com raríssimas exceções que diz que os contos tradicionais, contos de fadas ou como lhes queiramos chamar, são histórias com moral anexada, histórias cautelares, usadas ao longo dos séculos e dos milénios para inculcar nas crianças e no povo em geral certos princípios de sabedoria tradicional e de bom-senso. Muitos desses princípios foram entretanto ultrapassados pela evolução da sociedade e da tecnologia, pois aquilo que é bom-senso numa sociedade rural está muito, muito longe de continuar a sê-lo numa sociedade urbana e multitudinária. Mas há um punhado de histórias que mantém os seus ensinamentos inteiramente válidos, algumas vezes de forma surpreendente.

O conto com o bizarro título de Põe-te-Mesa, Asno de Ouro e Cacete-Sai-do-Saco é um conto razoavelmente extenso que, apesar disso, não parece ter sido grandemente alterado pelos Irmãos Grimm (à parte, talvez, uma solidificação da sua qualidade literária). A história debruça-se sobre um alfaiate, os três filhos do alfaiate e uma cabra que é, realmente, uma cabra pois, apesar dos rapazes serem bons rapazes e cumprirem integralmente as tarefas que lhes são atribuídas, a cabra mente que não e engana assim o pai. E com isso vai dar origem a um sem-número de problemas e mal-entendidos que levam à expulsão dos três rapazes de casa, após o que a história mete ainda ao barulho um estalajadeiro ladrão. Claro que no fim, como sempre acontece em histórias destas, tudo se esclarece, os maus são punidos e os bons recompensados e vivem felizes para sempre, e patati e patata.

Trata-se, como facilmente se percebe, de um conto cujo tema é a mentira, a credulidade, e os desastres que a junção de uma com a outra pode gerar. E nada há de mais atual do que isto, com a epidemia de mentiras e manipulações que assola o globo neste preciso momento, por intermédio (não exclusivo, longe disso) das redes sociais. Se ao menos vivêssemos num conto de fadas e tivéssemos a garantia de que os mentirosos, os ladrões e os manipuladores são derrotados no fim... mas não, o mundo real não é uma história de encantar, e há que manter os olhos bem abertos, usar a cabeça e não nos deixarmos enganar.

Esta história devia ser lida. Abundantemente lida.

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Lido: Compreendam, Imbecis

Compreendam, Imbecis, é mais um daqueles textos de Luiz Bras que se situam algures entre a ficção em prosa e a poesia, e também outro dos muitos textos deste livro que tem elementos de ficção científica, aqui razoavelmente rarefeitos.

O narrador é, assumidamente, um tipo desagradável, que se rebela contra as convenções e o ditado dos "imbecis" que tentam impor-lhe o que ele não quer aceitar. Sim, mais uma vez a misantropia é evidente nas personagens de Bras, aqui em plena rebelião sentimental. É que o protagonista não quer aceitar ser obrigado a amar quem (ou o que) não ama, humano ou androide, quer ser livre para amar quem (ou o que) realmente ama. Podemos censurá-lo? Alguns julgarão que podem, mas não, não podem.

Não sendo na minha opinião dos melhores contos (poemas?) de Bras, não deixa apesar disso de ser bom, até porque mais uma vez consegue alcançar múltiplos níveis de leitura com uma contenção verbal notável. Sim, porque a defesa da liberdade de se ser e se amar quem se é e ama não é a única leitura possível do texto, sendo também possível olhá-lo como um desabafo tecnofóbico, ou como um comentário à condição do escritor obsessivo, aquele que tem de escrever para ter alguma hipótese de ser feliz. E isso é algo que não está ao alcance de todos.

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Lido: Pele de Escrava

Um dos motivos por que não sou grande apreciador de histórias de horror, e pouco importa se são literárias ou não, é parecer-me quase sempre que trazem em si muito de gratuito, que a ideia principal é gerar o choque pelo choque, sem grande substância por trás. Em parte isto deve-se ao meu racionalismo: não acreditando em nada de sobrenatural, e estando a maior parte do horror intimamente ligado a uma ou outra vertente do universo sobrenatural, sou em grande medida imune ao impacto emocional que estas histórias procuram gerar em quem as julga possíveis. Leio com prazer alguns autores e histórias, mas é geralmente uma leitura fria, na qual mais depressa capto os cordelinhos que o autor tece ao tentar manipular emocionalmente quem lê do que sinto alguma espécie de arrepio.

Mas há algumas histórias que, mesmo quando contêm esses mesmos elementos sobrenaturais que geralmente me deixam frio, trazem em si realidade suficiente para criarem impacto. E este Pele de Escrava, de Carina Portugal, é uma dessas histórias.

Julgo que este conto se poderia classificar como horror psicológico com elementos sobrenaturais. Fala de uma escrava, vítima de abusos continuados, sexuais e não só, por parte de um assassino em série, que antes dela já tinha feito numerosas outras vítimas, e tudo isto, toda a descrição dos abusos e da situação seria horror psicológico puro se não fosse um detalhe: as vítimas anteriores têm as almas aprisionadas dentro de um espelho, e vão ser essas almas a dar à protagonista a coragem necessária para se rebelar.

Este é um bom conto. Com os defeitos anteriormente apontados à escrita da autora muito atenuados, sem grandes fragilidades, sem grande coisa de aparentemente gratuito, com um bom ritmo, este Pele de Escrava estará mais ou menos a par de O Cais do Poeta como o melhor naco de prosa incluído neste livro até este ponto: está mais bem escrito mas tem uma história e estruturação um pouco piores.

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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Lido: O Alfaiate no Céu

Embora muitos dos contos tradicionais europeus tenham origens que antecedem em muito o cristianismo, não é raro que tenham incorporado ao longo dos séculos de convivência com a religião dominante elementos da mitologia cristã. De resto, a própria Bíblia incorpora numerosas histórias que a antecedem, por vezes em muitos séculos.

Além disso, a própria recolha e reelaboração feita pelos Irmãos Grimm parece-me ter acentuado tais elementos, pelo menos em algumas histórias. É o que me sugere a comparação que tenho vindo a fazer entre estes seus contos e os que foram recolhidos em Portugal por Adolfo Coelho, autor que alterou muito menos do que os irmãos alemães o material de base.

O Alfaiate no Céu parece ser um caso diferente: um conto desde o início baseado na mitologia cristã, sem elementos exteriores a ela. Pode não o ser, note-se: pode tratar-se de história mais antiga mas tão alterada que os elementos originais se tornam impercetíveis, pelo menos para o leitor não especialista. E também é possível que as alterações feitas pelos Grimm (o conto foi feito por eles a partir de um conto tradicional) tenham contribuído para o despir dos elementos pré-cristãos que pudessem ter havido.

Seja como for, trata-se de um conto moral como é da praxe, ingénuo, sobre um alfaiate que chega ao Céu cristão num dia em que este está praticamente deserto porque o divino manda-chuva resolveu ir dar um passeio. Só São Pedro terá ficado à porta, o que não é grande ideia porque ao que parece São Pedro não é grande inteligência e deixa-se endrominar por um simples alfaiate, apesar de saber que este não é propriamente a pessoa mais honesta que já caminhou pela face da terra. O certo é que o alfaiate consegue entrar e deambular por aí e fazer um disparate. Disparate esse que acaba por ser descoberto, o que torna óbvia a moral da história: Deus tudo vê e não há escapatória à justiça divina.

Sem grandes subtilezas e com menos surpresas ainda, não posso dizer que este conto seja realmente interessante como literatura. O interesse que tem, pelo menos para mim, é sobretudo sociológico.

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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Lido: Divagações da Caixa-Preta

Se bem me lembro, ainda não tinha encontrado neste livro de Luiz Bras dois contos consecutivos desprovidos de qualquer relação com FC, mas é o que acontece agora, com este Divagações da Caixa-Preta a seguir-se a Famigerada Fome.

Mais uma vez, trata-se de um conto de horror, e mais uma vez para falar dele é impossível não revelar detalhes importantes do enredo, portanto aconselho vivamente quem tem pavor aos famosos spoilers a parar de ler neste preciso momento.

O título, mesmo misterioso como é, diz tudo sobre o que o conto é: uma divagação, em prosa de muito boa qualidade com uma mistura interessante entre acutilância e poesia, de alguém que está reduzido à pura consciência, depois de ter perdido o contacto com o mundo ao desaparecerem, um após um, todos os seus cinco sentidos. E está tão bem feito que quando o leitor se apercebe de que é isso o que se passa o arrepio é inevitável (mesmo que cientificamente a coisa seja algo insegura, pois os sentidos humanos são bastante mais que cinco).

Outro conto bastante bom, portanto.

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terça-feira, 30 de outubro de 2018

Lido: O Príncipe das Palmas Verdes

O Príncipe das Palmas Verdes, um dos muitos contos recolhidos por Adolfo Coelho em Ourilhe, uma minúscula terreola de Celorico de Basto (e não deixa de ser curioso que tanto deste livro tenha vindo de terra tão pequena), é uma das muitas histórias tradicionais, algumas famosíssimas, em que uma pobrezinha acaba casada com um príncipe.

É aí, no entanto, que terminam as semelhanças com histórias como a da Cinderela. A pobrezinha deste conto anda a roubar por necessidade, por não ter o que comer, e é ao fazê-lo que dá com um buraco onde vai encontrar uma mesa posta à semelhança da célebre história dos três ursos e da Caracóis Dourados. Mas aqui não eram ursos os donos da mesa, mas sim "uma pessoa" que a engravida e vem mais tarde a revelar-se o tal Príncipe das Palmas Verdes, que na altura estava enfeitiçado.

Este engravida-a mas acaba por expulsá-la, ainda grávida, obrigando-a a voltar à vida de miséria e a fazer o que for preciso para sobreviver, agora com uma criança nos braços. Mas, claro, histórias destas acabam quase sempre no "e viveram felizes para sempre" e esta, depois de uma série de peripécias, não é exceção.

Mas é uma história interessante. Interessante em boa medida porque, mais uma vez, tem pano para longas mangas de desenvolvimento em histórias maiores e mais elaboradas. Também interessante muito por causa da espécie de moralidade que nela vem incluída. A protagonista é uma boa rapariga com má sorte e comete atos reprováveis porque a vida a força a isso, não porque seja essa a sua natureza imutável. Isto, que segundo tudo indica brota diretamente da forma de estar mais profunda do povo português, está bem longe do puritanismo importado de outras paragens. Posso enganar-me — ainda não as li todas, longe disso — mas parece-me que dificilmente se encontrará uma história assim entre as que foram recolhidas e retrabalhadas pelos Grimm. E isso é para mim muito interessante. Mesmo.

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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Lido: O Enigma da Cartola

Uma das lacunas mais sérias na minha cultura literária é nunca ter lido Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. O livro, traduzido, até está aqui ao lado, enterrado algures nas imensas pilhas de material para ler que fui acumulando, e tenho também a versão original em ebook, distribuída com um dos leitores de ebooks que descarreguei para o tablet, mas ainda não calhou pegar nele e lê-lo de fio a pavio.

Em parte isso deve-se a eu até já conhecer razoavelmente bem a história, graças a várias adaptações a vários media com que me fui cruzando ao longo da vida, especialmente em miúdo. Entre uma história que conheço mas no fundo se calhar nem conheço e outra que de certeza não conheço tenho até agora preferido sempre pegar nesta última, e a pobre Alice foi ficando para trás. Isso há de mudar um dia, espero eu. Até porque até que mude fico coxo quando encontro contos como este O Enigma da Cartola.

Porque esta história de Carina Portugal é declaradamente uma homenagem a Lewis Carroll e à sua obra mais conhecida.

E pareceu-me bem feita. Sem as fragilidades que tenho encontrado em outros contos da autora, e bastante fiel ao que conheço do universo e ambiente de Carroll, esta é uma historinha divertida sobre uma cartola que desaparece deixando no ar uma nuvem de suspeitas amalucadas quase tão substancial como o gato de Cheshire. E claro que no fim tudo se esclarece. Amalucadamente.

Não posso aferir ao certo até que ponto chega a fidelidade a Carroll, nem que grau de originalidade a Carina insufla nesta sua espécie de fanfic, se é que insufla alguma, pelo que não consigo formar uma opinião definitiva sobre ela. Mas não desgostei do que li.

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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Lido: Famigerada Fome

Muitos dos contos deste livro de Luiz Bras têm qualquer coisa a ver com ficção científica. Geralmente é uma FC bastante "impura", muito contaminada com outras coisas, ou é sobretudo outras coisas com alguns elementos de FC, mas são raros os que estão totalmente despidos de ficção científica. Famigerada Fome é um destes raros contos. Um conto de horror canibalístico (e, sim, alegórico). E atenção que não posso dizer sobre ele o que pretendo dizer sem uma quantidade razoável de spoiler. Estão avisados.

O protagonista-narrador é um assassino em série cuja insaciável curiosidade por compreender o feminino o leva a investigar, de uma forma bastante sui generis, mulheres atrás de mulheres. Muito bem escrito e muito bem concebido, com a dose certa de suspense e mistério e uma pequena reviravolta final que faz com que tudo ganhe uma perspetiva subtilmente nova, este é outro dos contos bastante bons incluídos neste volume.

Ah, sim, e onde está a alegoria? Bem, é que também é inteiramente possível uma leitura menos literal desta história, uma leitura segundo a qual o protagonista-narrador é apenas um homem bem mais comum, bem menos monstruoso, e as suas presas são simples conquistas, uma sucessão delas, que matam uma fome de outro tipo e lhe fornecem outra espécie de informação sobre a natureza do feminino.

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Lido: O Conde de Paris

Há algumas histórias de fantasia, maravilhoso, horror, etc., em que os elementos supranaturais são óbvios: coisas que aparecem e desaparecem, pessoas que se transladam de e para mundos secundários, forças e criaturas misteriosas que se manifestam de forma palpável, por aí fora. Outras, no entanto, dependem de interpretação. E O Conde de Paris, recolhido por Adolfo Coelho em Coimbra, é uma destas últimas.

E também é daquelas histórias protagonizadas por reis e princesas, muito comuns nos contos tradicionais. Neste caso acrescentadas de um conde, o de Paris, com quem o rei trata o casamento da filha. Mas a filha não está pelos ajustes e o conde, espertalhão, decide dar-lhe uma ensinadela. Como? Por intermédio de um preto (assim mesmo), que seduz a princesa ao ponto de ela fugir com ele. Ora, se a maioria dos pretos na Europa de hoje em dia não têm propriamente a vida facilitada, na Europa oitocentista (época da recolha; a história é provavelmente anterior) muito menos, e portanto a princesa vai passar por uma série de dificuldades e indignidades.

No fim revela-se que o preto sempre foi o Conde de Paris, que acaba por casar com a princesa e foram muito felizes para sempre como é da praxe. Não fica claro é como passou o conde por preto durante meses, talvez anos. Disfarce? Metamorfismo? Interpretando de uma forma, temos realismo (ainda que inverosímil), interpretando da outra, temos magia, logo fantasia. Ou seja, no fundo, temos aqui uma aproximação clara aos casos que Todorov tipifica na sua definição de fantástico, ainda que de uma proveniência bem distinta. E quanto ao conto em si, é daquelas histórias que bem espremidas davam para muitas mais páginas do que as duas que ocupa. Há várias assim neste livro, o que não deixa de ser interessante.

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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Lido: Sortilégio, Feitiço e Magia

E de repente, sem que nada o anunciasse nem fizesse prever, eis que neste livro de Carina Portugal, depois de uma série de contos, surge um poema.

É frequente encontrar-se poemas nos romances de fantasia, para mal dos meus pecados de tradutor pois trazem sempre uma dificuldade acrescida à tradução. Sendo geralmente poemas bastante clássicos na sua estrutura, muitas vezes integrados no texto sob a forma de canções, têm o duplo objetivo de naturalizar ambientes mais ou menos festivos (é um pouco como se o leitor estivesse a ouvir a música que neles se toca) e remeter para o formato de poema épico de que a fantasia (especialmente a épica, claro) deriva em parte considerável. Não é necessário que sejam bons enquanto poemas, e geralmente não o são (o que sempre me facilita a vida, há que reconhecer); basta que resultem no contexto que lhes é próprio.

Este Sortilégio, Feitiço e Magia vai um pouco nessa linha. Composto por 18 sextilhas, conta uma história mágica, trágica e medieval sobre um cavaleiro que procura libertar a amada enfeitiçada. Resultaria perfeitamente bem no contexto de um romance de fantasia, talvez sob a forma de história ou canção contada ou cantada numa taberna ou à volta de uma fogueira. Mas isoladamente...

Isoladamente não me parece que resulte. Apesar da estrutura de versos ser rígida, a métrica parece ter sido encarada como coisa de somenos, as rimas são demasiadas vezes banais e a história é contada quase como se fosse prosa, sem grande subtileza. Tudo somado, pareceu-me um texto fraco. Não o pior do livro mas o segundo pior até ao momento.

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terça-feira, 23 de outubro de 2018

Lido: Face a Face

Muitos não sabem ou não querem saber, mas a ficção científica é sempre pelo menos em parte uma forma alegórica de falar de questões e preocupações muito contemporâneas e/ou das eternas contradições da condição humana (de resto, nisso não tem nada de único entre os géneros não realistas; a fantasia, o horror, todos, em suma, fazem o mesmo). Por vezes os autores fazem-no de forma mais ou menos inconsciente, mas a melhor FC é e sempre foi aquela em que essa componente é introduzida conscientemente.

E é o que Luiz Bras faz em Face a Face, dando ao conto pinceladas de ficção científica (o texto começa em pleno combate apocalíptico e termina com alusões cosmogónicas) mas falando na realidade da relação entre o eu e o outro, sendo que neste caso o eu é um indivíduo superiormente misantropo. Um indivíduo cuja misantropia está sob cerco e é amplificada por esse mesmo cerco, um indivíduo que dispara para todos os lados em plena guerra civil contra o mundo inteiro como quem grita DEIXEM-ME EM PAZ! às hordas de atenciosos.

Não sei se na inspiração para este conto de página e meia estão incluídas as redes sociais, mas há nele qualquer coisa que me levou o cérebro para os facebooks e twitters da vida, o que talvez diga mais sobre mim e a minha relação com eles do que propriamente sobre o conto. Mas seja como for esta é outra história bastante interessante, mais por aquilo que deixa subentendido do que pelo que fica expresso.

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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Umas notas sobre festivais de canções

Que soe a pythoniana frase "e agora, algo completamente diferente"!

Quem realmente me conhece sabe que a música é uma parte relevante da minha vida. Em miúdo andei algum tempo a aprender piano (e entretanto esqueci-me de tudo), depois peguei numa guitarra e hoje toco por puro prazer (embora seja recordado de quão mal sempre que ouço tocar alguém que realmente saiba o que fazer com o instrumento), mas o mais relevante é que a música me serviu desde sempre como defesa contra muitas agressões, nomeadamente as sonoras. Quando me entram ruídos esúpidos casa adentro, por exemplo, música alta isola-me deles e permite-me manter a funcionalidade.

Não sei se me posso considerar um melómano, mas definitivamente gosto de música e tenho um gosto solidificado ao longo de muitos anos a ouvir muita coisa. Mais: ao contrário de muita gente que chega a uma certa idade e estagna, deixa de ouvir seja o que for além daquilo que já conhece e ama, eu mantenho a curiosidade intacta e ando sempre a ouvir coisas novas.

E acho que tenho bom gosto. Prefiro música com alguma complexidade, com musicalidade. Música estimulante, que não seja sempre a mesma treta. A que prefiro é o jazz, algum rock, especialmente o progressivo (e, desde recentemente, também prog metal que não abuse dos urros), alguma world music, em particular a que mais se aproxima do jazz (flamenco ao jeito de Paco de Lucia, Piazzolla, muita da música portuguesa que tem o fado como base ou influência mas não se deixa prender no espartilho do fado clássico, etc.), o blues, e também alguma clássica. Mas não só; o meu gosto é bastante eclético e, dependendo do estado de espírito, vai de algumas coisas (poucas) de EDM a algumas das mais bizarras experiências sonoras da música concreta e do free jazz, passando por música popular em oposição à popularucha (conhecem um projeto chamado "a música portuguesa a gostar dela própria"? Adoro aquilo), por hip-hop (mas não esta porcaria monótona e lamurienta que está agora em voga, o trap) e por aí fora.

Notam aqui alguma ausência? O pop. Pois.

Não que não goste de pop, assim, taxativamente. Há ramos do pop que me agradam, especialmente o mais indie ou o mais virado para o rock, acho gente como o Michael Jackson ou o Prince artistas de primeira água, e por aí fora. Mas essas são ilhas no imenso mar de mediocridade que é, e sempre foi, a música que recebeu o rótulo de pop. Música formulaica, toda mais ou menos igual, mais preocupada em seguir tendências, em estar na "crista da onda" comercial, em vender, do que em ser arte. Música feita por executivos da indústria discográfica com o único objetivo de encher mais os bolsos aos executivos da indústria discográfica, mesmo quando usam gente que até sabe de música como ferramentas. Música chiclete, como diriam os Taxi.

E detesto particularmente pimbalhadas, ao ponto de fugir (literalmente de mãos nos ouvidos) quando me aparecem à frente.

Em tempos que já lá vão há tanto tempo que já nem todos os protagonistas estão entre nós, os festivais de canções eram um evento cá por casa. A família reunia-se para assistir, tanto ao nosso como ao internacional e, embora sempre tivesse havido canções melhores e canções piores, era raro o ano em que não saía desses concursos qualquer coisa de realmente relevante. Em tempos em que aquela a que na época se dava o nome de "música ligeira" (nunca percebi qual seria a pesada... o metal?) dominava na rádio e nas TVs, muitas das canções que saíram dos festivais, tivessem ganho ou não, fossem ou não realmente bem feitas, tornavam-se êxitos populares. E passaram por lá muitos nomes sonantes da música, tanto a portuguesa (Simone de Oliveira, Fernando Tordo, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, por aí fora) como internacional (só para dar dois nomes: Abba e Celine Dion).

Mas depois, lá pelo fim dos anos 80, princípio dos 90, a coisa começou a descambar de forma significativa. O festival internacional passou a ser mais celebração do kitsch gay em que o que realmente interessava eram as luzes e o "show", cheia da pior versão do pop (que recebeu o elucidativo rótulo de eurotrash) misturado com canções românticas tão pirosas como as nossas pimbalhadas, do que propriamente espetáculo musical. E o português seguiu-lhe o precipitoso rumo, na afanosa procura de uma canção "festivaleira" o suficiente para resgatar a honra nacional depois de décadas de insucessos na tabela classificativa final. O pimba, mais ou menos disfarçado, tornou-se presença assídua.

E a consequência pessoal foi eu ter virado as costas aos festivais de canções e me manter firmemente de costas voltadas para eles durante quase duas décadas. Para mim era lixo. Muitas vezes ouvi-os de longe (quando não me refugiava em auscultadores e outras músicas), porque não moro sozinho e há cá em casa quem não partilhe da minha repulsa, mas ver nunca mais vi.

(Parêntese rápido: esse virar de costas teve uma interrupção no ano dos Homens da Luta. Adorei a ideia de mandar os festivais de canções ao tal sítio com aquele gozo descarado dos Homens da Luta e voltei, mais de uma década depois da última vez, a assistir à final nacional e à meia-final eurovisiva em que o Jel e companhia participaram. E sim, a canção era uma porcaria: era precisamente essa a ideia. Fecha parênteses.)

Tudo isto mudou com o Salvador Sobral.

Como aconteceu muitas vezes antes, não assisti às meias-finais do festival da canção de 2017, mas ouvi-as à distância da sala. E ao ouvir a canção do Sobral arrebitei imediatamente as orelhas. Olá?, pensei, música a sério no festival da canção? Que anormalidade é esta? Dias depois voltei a não ver mas ouvi a segunda meia-final, e depois fiz questão de assistir à final, pela primeira vez em longos anos. Além da canção do Salvador e da irmã, claramente a melhor, vi um espetáculo globalmente fraco, como era hábito, com mais duas ou três canções a destacar-se um pouco da mediocridade geral. Mas também vi outra coisa, quando reuni mais informação sobre este novo modelo de festival que a RTP implantou: compositores de créditos firmados, com excelente música no currículo, compositores que, muitas vezes, não eram adequadamente representados pelas canções que levaram a concurso.

E este ano voltei a assistir ao festival da canção, agora com um interesse acrescido, e voltou a acontecer o mesmo. Vi um espetáculo globalmente fraco, com um punhado de canções interessantes lá perdidas no meio e a sensação de que os compositores, e até vários dos intérpretes, não ficaram adequadamente representados por aquilo que ali apresentaram.

Por outro lado, vi gente que não conhecia, ou pelo menos que não conhecia bem. Vi o Janeiro, com uma das melhores canções, vi a Cláudia Pascoal, que não sei se é capaz de compor alguma coisa de jeito e ainda precisa de ganhar experiência mas tem pelo menos todas as condições para se tornar uma intérprete de primeira água, e fico por aqui para não abusar dos exemplos. Há mais.

Ou seja, confirmei a ideia que me tinha ficado do ano anterior: embora o festival em si mesmo possa ser coisa pouco interessante (até pela própria ideia de competição de canções, que é um bom bocado absurda), ele pode servir para descobrir gente nova com interesse, tanto na parte da interpretação como na da composição. Mas para que esse interesse se cumpra seria de toda a conveniência que o festival não se resumisse a si mesmo, isto é, seria necessário que canções, autores e intérpretes tivessem uma vida que o ultrapassasse. Nem sempre acontece; há gente que vi no ano passado e não voltei a ver desde então, por exemplo.

Felizmente hoje há coisas como o spotify. E havendo coisas como o spotify a tarefa de ver o que há, o que ficou para trás, reunir o que houver de mais interessante e divulgá-lo de forma fácil e rápida fica bastante facilitada. Longe vai o tempo em que se queríamos fazer isso tínhamos de conhecer quem tivesse os discos e gravar em cassetes tudo o que interessasse. Agora é uns quantos cliques e já está.



E é precisamente isso o que tenho vindo lentamente a fazer ao longo dos últimos meses. Tenho vindo a ouvir o que está disponível no spotify dos vários artistas envolvidos no festival da canção deste ano e a reunir numa playlist o que me parece mais interessante. Raramente são mesmo as canções apresentadas no festival (mas há casos), e nem sempre gosto mesmo muito do que lá ponho, mas em geral aquilo que está na playlist são coisas que, a meu ver, vale a pena conhecer e dar a conhecer. E ouvir pelo menos de vez em quando.

E sim, há por lá pop.

Comecei pelos intérpretes, porque era mais rápido e mais fácil (há no spotify um disco que reúne todas as canções apresentadas no festival, associadas aos respetivos intérpretes, e basta um clique para seguir para o resto da discografia... que em vários casos não existe), e estou agora a passar a pente grosso os compositores, que me obrigam a algum trabalho de investigação e têm muito mais coisas por onde escolher. Ou seja: esta playlist vai crescer. Devagarinho. E não, não vou encavalitar lá tudo aquilo que me agradar. Gente como o Palma, por exemplo, tem demasiados hinos para uma playlist deste género. Mas alguns não poderão escapar.

Quem se interessar, aqui a tem.

Talvez um dia, havendo tempo e paciência, faça o mesmo para o festival da canção do ano passado. Talvez um dia me atreva até a fazer algo semelhante ao da eurovisão, que é capaz de também esconder algumas pérolas por trás de toda aquela cacofonia tantas vezes desagradavelmente chunga. Talvez. Para já, fiz isto.