domingo, 16 de fevereiro de 2020

Isaac Asimov: Uma Noite de Canto

Ao ler este Uma Noite de Canto (bibliografia), a minha cabeça pôs-se automaticamente a fazer comparações entre os dois contos sobre o demónio de dois centímetros chamado Azazel que li até agora, este e o anterior, e os contos mais conhecidos de Isaac Asimov: os seus contos sobre robôs positrónicos.

Existem, naturalmente, pontos de contacto, ou não fosse o autor o mesmo. Existe uma comunhão de estilo literário, por exemplo. Mas também existe algo que podia perfeitamente não existir, uma vez que estes contos sobre Azazel são fantasia: rigor lógico. O rigor lógico é dos aspetos preponderantes nos contos de robôs, os quais consistem geralmente de um problema levantado pela aplicação prática das Três Leis da Robótica em situações extremas e da respetiva investigação e/ou solução. E aqui podia não se encontrar nada disso, dado o caráter mais ligeiro, humorístico e fantasioso destas histórias. Mas a verdade é que se encontra.

É que, se é certo que dois contos é pouco para ter uma ideia global sobre todos, não é menos certo que este conto é o segundo em que temos um problema que o bom do Azazel é chamado a resolver, o que ele faz de uma forma tão literal que o resultado é, em vez de uma verdadeira solução, uma catástrofe. Aqui o problema é uma mulher que gosta de cantar é cruel e põe um pretendente a andar de uma forma particularmente humilhante. E o ex-pretendente decide vingar-se dando-lhe, por um dia, uma voz perfeita. Com a ajuda do Azazel, naturalmente. Mas o que vos parece que acontece a quem experimenta a perfeição uma só vez e se vê depois condenado à imperfeição quotidiana? Precisamente.

Veremos se os outros contos seguem também este esquema. Para já fica a segunda história que, sem ser realmente nada de especial, não deixa de ser divertida e interessante.

Conto anterior deste livro:

Leiturtugas da semana #53

E tudo como dantes no quartel de Abrantes. Em mais uma semana de Leiturtugas, elas voltaram a ficar nas mãos do Artur Coelho, que ao contrário de todos nós, os outros, ainda em prolongadas férias, soma e segue, tendo desta vez publicado a sua opinião sobre um velho e esquecido livro com quase noventa anos, intitulado Novelas Submarinas. O autor, tão velho e esquecido como o livro (ou mais, talvez), chama-se Fernando Branco e o livro foi publicado por uma editora que, claro, já não existe: a Sá da Costa. Não tem FC, pelo que o Artur passa a 1c3s.

E por esta semana é só. Para a semana poderá ser que o Artur deixe de ficar sozinho. Poderá haver qualquer coisa nova vinda aqui da Lâmpada, mas também pode ser que só saia para a outra semana. Ou talvez haja qualquer coisa vinda de outras paragens.

Antes de fechar, aproveito para relembrar que quem quiser ler FC&F portuguesa e esteja apertado de finanças pode dar um salto aos vários locais onde existe material online e servir-se. Preparei uma lista e pu-la online aqui na Lâmpada. E qualquer publicação pode associar-se ao projeto em qualquer momento, portanto estão à vontade.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Em janeiro falou-se de...

Em janeiro leu-se e comentou-se muitas coisas, mas poucas dessas coisas foram portuguesas, o que, pela parte que me toca, o transforma num mês mau. E se não fosse Saramago, então, seria um mês péssimo. Portanto, olhem, viva Saramago! Mas vamos à conversa habitual destinada aos que cá cheguem pela primeira vez? Bora lá.

A explicação sobre o que vem a ser isto está no primeiro destes posts, aqui, onde também se dão conta das limitações que isto tem, do lugar de onde isto vem, do que se pretende alcançar com isto, e por aí fora. E se quem aqui chegar pela primeira vez tiver curiosidade sobre o que já se publicou de semelhante no passado (e no futuro, que se o leitor cá cair depois de março de 2020 já haverá coisas semelhantes posteriores a esta), basta-lhe clicar na tag leituras fc e empanturrar-se de informação. E siga para as listas, que depois delas há comentários.

Ficção portuguesa
  1. Orion, nº 5, ed. Renato Abreu
  2. A Nossa Alegria Chegou, de Alexandra Lucas Coelho
  3. Mistério na Praia da Rocha, de Susana Custódio (conto)
  4. Imortal, de José Rodrigues dos Santos
  5. Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (2x)
  6. Ensayo Sobre la Lucidez, de José Saramago
  7. O Futuro à Janela, de Luís Filipe Silva
Ficção brasileira
  1. Aqui quem Fala é da Terra, org. ??
  2. Vislumbres de um Futuro Amargo, org. ??
  3. Amália Atrás de Amália, de Marco Aqueiva
  4. A Droga da Obediência, de Pedro Bandeira
  5. Escalpo, de Ronaldo Bressane
  6. As Aventuras de Honey Bel, de Miguel Carqueija
  7. Serpentário, de Felipe Castilho
  8. Gastaria Tudo com Pizza, de Pedro Duarte
  9. Hannah, de Bruno Godoi
  10. Janete, de Nicolás Irurzun (2x)
  11. Rio: Zona de Guerra, de Leo Lopes
  12. Incompletos, de Sabine Mendes Moura
  13. O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci (4x)
  14. A Volta do Relógio, de Simone Paulino
  15. Hiperhelix, de Michel Peres
  16. Páginas do Imaginário, de E. E. Postali
  17. Eles Herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz
  18. A Taverna, nº 2, ed. Diogo Ramos, Otniel Pereira e Ian M. M. Duarte
  19. Abismo do Mal, org. Gabriel G. Sampaio
  20. Favela Gótica, de Fabio Shiva (2x)
  21. Traição, de Márcia Silva
  22. Cinco Júlias, de Matheus Souza
  23. Oceanïc, de Waldson Souza
  24. Heróis de Novigrath, de Roberta Spindler
  25. 17 Histórias, de Ataíde Tartari
  26. Juca Pirama, de Enéias Tavares
  27. A Morte e o Meteoro, de Juca Reiners Terron
  28. Viajantes do Abismo, de Nikelen Witter (2x)
  29. WOW! O Primeiro Contato, de Pablo Zorzi
Ficção internacional
  1. Lua Ano Um, org. ??
  2. Planolândia, de Edwin A. Abbott
  3. Mundos Apocalípticos, org John Joseph Adams (5x)
  4. Stolen Souls, de Mike Allen (conto)
  5. A Máquina que Ganhou a Guerra, de Isaac Asimov (conto)
  6. As Cavernas de Aço, de Isaac Asimov
  7. Fundação, de Isaac Asimov (2x)
  8. Fundação e Império, de Isaac Asimov
  9. O que os Olhos Vêem, de Isaac Asimov (conto)
  10. Um Lugar Aquoso, de Isaac Asimov (conto)
  11. O Conto da Aia / A História de uma Serva, de Margaret Atwood (3x)
  12. O Coração é o Último a Morrer, de Margaret Atwood
  13. The Testaments / Os Testamentos, de Margaret Atwood (10x)
  14. Unrequited Death, de Tamara Rose Blodgett
  15. Farenheit 451, de Ray Bradbury (3x)
  16. Laranja Mecânica, de Anthony Burgess (2x)
  17. Uma Princesa de Marte, de Edgar Rice Burroughs
  18. A Parábola dos Talentos, de Octavia E. Butler
  19. Despertar, de Octavia E. Butler
  20. Kindred, de Octavia E. Butler
  21. A Menina que Tinha Dons, de M. R. Carey
  22. A Seleção, de Kiera Cass
  23. To Be Taught if Fortunate, de Becky Chambers (conto)
  24. Liking What you See: a Documentary, de Ted Chiang (conto)
  25. The Shape of My Name, de Nino Cipri (conto)
  26. 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke
  27. O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke
  28. Jogador 1, de Ernest Cline
  29. Ten Little Aliens, de Stephen Cole
  30. Abbadon's Gate, de James S. A. Corey
  31. Auberon, de James S. A. Corey
  32. Leviatã Desperta, de James S. A. Corey
  33. Recursão, de Blake Crouch (2x)
  34. Babel-17, de Samuel R. Delany (2x)
  35. Estrela Imperial, de Samuel R. Delany
  36. A Invasão Divina, de Philip K. Dick
  37. Espere Agora Pelo Ano Passado, de Philip K. Dick
  38. O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick (2x)
  39. O Tempo Desconjuntado, de Philip K. Dick
  40. Sonhos Elétricos, de Philip K. Dick
  41. Ubik, de Philip K. Dick
  42. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry
  43. Alien, de Alan Dean Foster
  44. Alphabet Squadron, de Alexander Freed (2x)
  45. Guia do Explorador da Galáxia, de Jason Fry
  46. A Cruz de Fogo, de Diana Gabaldon
  47. Seres Mágicos e Histórias Sombrias, org. Neil Gaiman e Al Sarrantonio
  48. Saturn 3, de Steve Gallagher
  49. Agente do Caos, de Kami Garcia
  50. The Man Who Folded Himself, de David Gerrold
  51. Extraordinary Engines, org. Nick Gevers
  52. Lord of the Flies, de William Golding
  53. A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin
  54. Os Despossuídos, de Ursula K. Le Guin
  55. Metrópolis, de Thea von Harbou
  56. Pátria Amada, de Robert Harris
  57. O Armazém, de Rob Hart (2x)
  58. O Mapa do Tempo, de Heidi Heilig
  59. Children of Dune, de Frank Herbert
  60. Duna, de Frank Herbert
  61. Dune Messiah, de Frank Herbert
  62. God Emperor of Dune, de Frank Herbert
  63. Ei... ii, Sai cá pr'a Fo... ora!, de Shinichi Hoshi (conto)
  64. À Beira da Eternidade, de Melissa E. Hurst
  65. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
  66. Flores Para Algernon, de Daniel Keyes (2x)
  67. O Bazar dos Sonhos Ruins, de Stephen King
  68. O Instituto / The Institute, de Stephen King (3x)
  69. Contágio, de David Koepp
  70. O Ano da Graça, de Kim Liggett
  71. A Floresta Sombria, de Cixin Liu
  72. O Despertar dos Legados, de Pittacus Lore
  73. O Chamado de Cthulhu e Outras Histórias, de H. P. Lovecraft (3x)
  74. A Vida Antes de Legend, de Marie Lu
  75. O Jogo do Coringa, de Marie Lu
  76. Warcross, de Marie Lu
  77. O Retorno de Jedi, de George Lucas
  78. Almas Gémeas, de John Marrs
  79. Nightflyers, de George R. R. Martin
  80. The Quiet War, de Paul McAuley
  81. Máquinas Como Eu, de Ian McEwan
  82. The Eleventh Tiger, de David A. McIntee
  83. Dia 21, de Kass Morgan
  84. 1984, de George Orwell (5x)
  85. O Centro do Labirinto, de Agustín Fernández Paz
  86. Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe
  87. A Faca Sutil, de Philip Pullman
  88. Os Reinos do Norte, de Philip Pullman
  89. Intruso, de Iain Reid (2x)
  90. U.G.L.Y., de H. A. Rhoades
  91. Reencontro Mortal, de J. D. Robb
  92. Ano Um, de Nora Roberts
  93. De Sangue e Ossos, de Nora Roberts
  94. O Forjador de Almas, de James Rollins
  95. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry
  96. Coração de Aço, de Brandon Sanderson
  97. Starsight, de Brandon Sanderson
  98. A Última Colônia, de John Scalzi
  99. As Brigadas Fantasma, de John Scalzi
  100. Guerra do Velho, de John Scalzi
  101. Vilão, de V. E. Schwab
  102. Ômega, o Planeta dos Condenados, de Robert Shekley
  103. O Médico e o Monstro & Outros Experimentos, de Robert Louis Stevenson (3x)
  104. Battle Royale, de Koushun Takami (2x)
  105. Reiniciados, de Teri Terry
  106. Através do Vazio, de S. K. Vaughn (2x)
  107. A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne
  108. Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne
  109. Segunda Hipótese, de Charles V. de Vet (conto)
  110. Café da Manhã dos Campeões, de Kurt Vonnegut (2x)
  111. Fragmentos do Tempo, de Rysa Walker
  112. O Monstro que Veio do Gelo, de David Walliams
  113. O Homem Invisível, de H. G. Wells (2x)
  114. O País dos Cegos e Outras Histórias, de H. G. Wells
  115. Interferências, de Connie Willis
  116. O Livro do Juízo Final, de Connie Willis
  117. O Monstrologista, de Rick Yancey
  118. O Último Comando, de Timothy Zahn
Não-ficção internacional
  1. Science Fiction a New Mythos, de Ednita P. Bernabeu
  2. O Zen e a Arte da Escrita, de Ray Bradbury
  3. A Nova Idade das Trevas, de James Bridle
  4. Major Trends in American Science Fiction, de Thomas D. Clareson e Edward S. Lauterbach
  5. 21 Lições Para o Século XXI, de Yuval Noah Harari
  6. Homo Deus, de Yuval Noah Harari
  7. O Guia Geek de Cinema, de Ryan Lambie
  8. Sobre Histórias, de C. S. Lewis
  9. Monstros Fabulosos, de Alberto Manguel (2x)
  10. A Vida de Philip K. Dick, de Anthony Peake
  11. Childhood's End: A Median Stage of Adolescence?, de David N. Samuelson
  12. A Terra Inabitável, de David Wallace-Wells
Pois é... o mês foi mau para a FC portuguesa. 7 títulos fica abaixo do que me parece ser o mínimo dos mínimos para haver alguma saúde, e isso ainda é sublinhado pelo facto de um desses títulos ter tido de vir de Espanha (Saramago, claro) e outro se dever ao autor ter ido desenterrar uma velha crítica a um livro seu. Eu também não ajudei, é certo, ainda que um destes títulos venha aqui da Lâmpada, mas o afastamento do pessoal da FC portuguesa durante o mês de janeiro foi bastante generalizado. O destaque do mês? Saramago. Foram três comentários a dois títulos; o único autor a receber mais que um comentário a uma só obra e o único autor a receber comentários a mais que uma obra.

Em contraste, foi um mês excelente para a brasileira, um dos melhores de sempre. Foram mencionados por aí 29 títulos, nada mais, nada menos, e foram vários os que o foram por mais que uma vez. De resto, estes correspondem aos destaques do mês, pois não houve nenhum autor a ter mais que um título comentado em janeiro. Nicolás Irurzun recebeu dois comentários, Fausto Luciano Panicacci quatro, Fabio Shiva dois e Nikelen Witter outros dois.

Quanto à FC internacional, a abundância foi muita e voltámos a ultrapassar os 100 títulos. A abundância e a diversidade, e desta vez até nem se dá o caso de não haver títulos muito lidos, como noutros meses em que os números foram tão elevados, pois na lista ali em cima surgem dois títulos com 5 leituras cada e um com 10. O mês foi de Margaret Atwood, com 14 opiniões distribuídas por 3 títulos, mas também tiveram destaque John Joseph Adams, que organizou uma antologia comentada 5 vezes, Isaac Asimov, com 7 comentários distribuídos por 6 títulos, Philip K. Dick, também com 7 comentários distribuídos por 6 títulos, e George Orwell, com 5 comentários ao seu romance mais famoso.

Para acabar, cabe uma nota para a grande quantidade de obras de não-ficção lidas e comentadas durante o mês de janeiro. Foram 12 títulos, julgo que o número mais elevado da não-ficção internacional que apareceu nestas listas desde que elas começaram, que correspondem a 13 comentários, pois um desses títulos foi comentado por duas vezes. Não sei se isto quer dizer alguma coisa ou não, e se é epifenómeno ou tendência só o futuro o dirá. Futuro esse que começará a desvendar-se daqui a cerca de um mês. Até lá.

Corvo: Dois Mais Meio Igual a Um

Mais um autor brasileiro, este que assina apenas como Corvo. E até escreve bem, conseguindo com este Dois Mais Meio Igual a Um (bibliografia) criar uma história equilibrada, contando-a de uma forma adequada ao espaço disponível. Trata-se de uma versão algo onanista do tema do duplo, provavelmente inspirada por O Homem Duplicado do Saramago, e talvez também em parte pelo conto de Poe intitulado William Wilson.

E é precisamente aqui que reside a principal insuficiência desta história: é impossível lê-la sem nos lembrarmos dos textos acima mencionados. Isso não seria problemático se o Corvo tivesse conseguido introduzir na sua história algo que a tornasse única, mas embora existam alguns elementos que, se bem explorados, poderiam fazê-lo, eles não chegam a passar do esboços. Não existe aqui nada que se compare com a exploração da consciência presente na história de Poe ou a da individualidade presente em Saramago. O Corvo parece querer apenas explorar a ideia do duplo e ver onde ela o leva, mas isso resulta num conto insuficientemente coeso, algo onírico no sentido de as coisas irem acontecendo de uma forma um tanto ou quanto incoerente. E como resultado, o conto, não sendo mau, também não chega propriamente a ser bom.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Luís Cardoso: Cadeira de Sândalo

De Timor, Luís Cardoso escreve uma história com elementos de realismo mágico sobre uma Cadeira de Sândalo. Uma história sobre a História de Timor-Leste, uma história sobre lealdades cruzadas, colonialismo e rebelião. É sabido que, desde o início, o colonialismo português recorreu ao auxílio de aliados locais, povos, regiões e classes descontentes com os seus senhores que viram nos portugueses um aliado poderoso, capaz de os ajudar a inverter em seu favor as relações de poder, mesmo que no fim dessem por si tão subjugados como antes. O protagonista desta história é um desses aliados, numa época indeterminada do século XX, um timorense coronel do exército português que é encarregado pelo governador de ir combater uma rebelião e volta vitorioso mas frustrado.

Porque em vez de trazer da vitória a rainha rebelde, como era seu desejo e tradição do seu povo, recebera do governador a ordem para a deixar em paz. E por isso só trouxera a cadeira de sândalo do título, uma espécie de trono, símbolo do poder da mulher. Mas esta parece ter enfeitiçado a cadeira fazendo com que quem nela se sentasse mergulhasse numa espécie qualquer de estado catatónico e não conseguisse levantar-se. Até que a filha do protagonista, que também é a narradora da história, resolve o assunto de uma forma drástica e inesperada.

É bastante bom, este conto. Não só a história em si é interessante como a forma como está escrita, numa prosa sinuosa e cheia de qualidades, é francamente boa. Chegando ao fim, apetece ler mais, apesar de este não ser daqueles contos frustrantes que deixam o final em aberto. Demasiadamente em aberto, melhor dizendo. Não; o final desta história é um final inteiramente conclusivo para a história. Apetece ler mais porque apetece conhecer mais sobre aquele ambiente e personagens e porque a prosa é agradável. Ou seja: não é defeito, é qualidade.

Contos anteriores deste livro:

André Silva: O Cenotáfio de Lorelei

Este livro ainda não me proporcionou a leitura de nenhuma história que me tenha parecido realmente boa, sem reservas, e a esta altura o mais certo é que acabe sem proporcionar, mas entre o muito material fraco, deficiente ou até mau que contém encontram-se várias histórias interessantes, com qualidade suficiente para inclusão numa publicação mais exigente, ainda que talvez numa segunda linha. O Cenotáfio de Lorelei (bibliografia), de André Silva, é uma dessas histórias.

Trata-se de um daqueles contos macabros que vão beber na tradição do romantismo mas, felizmente, André Silva resiste à tentação de ultrapassar a mera inspiração e fazer mais um dos pastiches ou cópias mais ou menos mal amanhados que muitos outros autores tendem a produzir. O seu é um conto delicado, sem problemas de vulto a nível de escrita, sobre a relação entre um homem e uma mulher que talvez não seja propriamente uma mulher. O casal ganha a vida com um negócio funerário, que se calhar não é apenas um negócio. E o conto está bem concebido o suficiente para que o final funcione como surpresa ao mesmo tempo que é inteiramente coerente com o que fica para trás.

Este é um dos melhores contos desta antologia. Talvez não chegue ao bom, porque afinal de contas também inclui uma dose razoável de clichés e porque a prosa não é inteiramente "lisa", mas não anda longe.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Em 2019 falou-se de... ficção brasileira

Depois da portuguesa, aqui está o apanhado da FC brasileira que mereceu leitura e comentário na rede aberta de língua portuguesa (principalmente) e não passou entre as malhas da rede lançada pelo Ficção Científica Literária durante o ano de 2019. Antes de passar à lista, relembro muito rapidamente que isto vem do FCL, e mais especificamente da secção do FCL dedicada a resenhas. Se alguma não consta, é porque não foi detetada ou porque está encerrada num jardim privado (aka rede social). E siga para a lista:

?? (org.)
  1. Confinados (3x)
  2. Histórias (Mais ou Menos) Assustadoras
Almeida, Dalton
  1. Names
Alvarez, Rodrigo N.
  1. O Primeiro Imortal
Amaral, Olavo
  1. Dicionário de Línguas Imaginárias
Aqueiva, Marco
  1. Amália Atrás de Amália (2x)
Aragão, Octavio
  1. A Mão que Pune
Assis, Machado de
  1. Sobre a Imortalidade de Rui de Leão (9x)
Azevedo, Fernando
  1. O Antissocial
Barbieri, Marco; Nascimento, Will
  1. Autômato (3x)
Barbosa, Lucas
  1. Amaimon
Benjamin, Márcio
  1. Fome
Beraldo, J. M.
  1. Jogos de Guerra (2x)
Bergalo, Laura
  1. A Revolta da Sucata
Bianchi, C. Nan
  1. A Melhor Idade (2x)
Billy, Gabriel
  1. Sonhos e Pesadelos
Borges, Roberto Pio
  1. Só os Objetos Salvam!
Brandão, Ana Beatriz
  1. Entre a Luz e a Escuridão (8x)
  2. Sob a Luz da Escuridão (6x)
Brandão, Ignácio de Loyola
  1. Desta Terra Nada vai Sobrar a Não ser o Vento que Passa
  2. Não Verás País Nenhum
Bras, Luiz
  1. Anacrônicos
Braz, Júlio Emílio; Martins, Patrícia
  1. Asimov e os Perseguidores da Lua
Bresnau, Brenda
  1. No Cosmo, Assim Como no Coração
Bueno, Ruth
  1. Asilo nas Torres
Campos, Évany Cristina
  1. A Guia (3x)
Caniato, André; Bianchi, Jana (org.)
  1. Aqui quem Fala é da Terra
Capellano, Bruno
  1. O Viajante do Céu
Carcereri, Pedro
  1. Sob o Trópico de Capricórnio
Carneiro, André
  1. Amorquia
  2. O Teorema das Letras
  3. Piscina Livre
Carvalho, Nohane
  1. A Ordem
  2. O Caos
Carvalho, Pedro
  1. O Jogo dos Sonhos
Castilho, Felipe
  1. Serpentário (12x)
Castro, Beatriz
  1. Killian
  2. Pietra
  3. Serafine
Castro, Paulo de
  1. O Androide
Causo, Roberto de Sousa
  1. Mestre das Marés (4x)
  2. Selva Brasil
Causo, Roberto de Sousa (org.)
  1. Fronteiras (3x)
  2. Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica
Coelho, Maurício (org.)
  1. Teslapunk (2x)
Conrado, Laura
  1. O Dia Depois do Fora
Costa, Tulio
  1. O Ladrão de Palavras
Dellú, Thunder
  1. As Pirâmides Revolucionárias
Demétrius, B.
  1. LOG#1525 (3x)
Dodsworth, Alexey
  1. Dezoito de Escorpião
  2. Extemporâneo (3x)
Dugim, Claudia
  1. Matando Gigantes
  2. Rede Vermelha em um Oceano de Merda e Outros Contos
Dutra, Daniel I.
  1. A Eva Mecânica e Outras Histórias de Ginoides
Fernandes, Day
  1. Colonização (3x)
  2. Mundo Sombrio
  3. Sencientes (conto)
Fernandes, Fábio
  1. Back in the USSR (2x)
  2. Charlotte Sometimes (conto) (2x)
Fernandes, Fabio; Oliveira, Nelson de
  1. Oneironautas (2x)
Filho, Ozias
  1. A Maratonista (conto)
Flaibam, Denise
  1. As Coisas que Encontramos
Fonseca, Rodrigo
  1. Projeto 94
Fontana, Fernando
  1. Deus, o Diabo e os Super-Heróis no País da Corrupção
Fraeman, Raphael
  1. Krystallo (3x)
Freire, José M. S.
  1. A Lua Negra de Patânia
  2. Caçada Cósmica
Freitas, Emília
  1. A Rainha do Ignoto
G., Mai Passos
  1. A Herdeira do Trono
Giffoni, Luís
  1. Infinito em Pó
Gonçalves, Priscila
  1. Alys - Elemento Alpha (3x)
Grossos, Vinícius
  1. Feitos de Sol (4x)
Irurzun, Nicolás
  1. Janete (2x)
Issa, Nelson
  1. As Esferas
Jacob, F. E.
  1. Homo Tempus (2x)
Junqueyra, Beto
  1. O Código de Camões (2x)
Kriptocaipora, Coletivo (org.)
  1. A Era de Aquária
Kuperman, Mario
  1. Labirinto Digital
Kupstas, Marcia (org.)
  1. Sete Faces da Ficção Espacial
Lasaitis, Cristina
  1. Além do Invisível (conto)
Lee, Thiago
  1. O Homem Vazio
Lessa, Jefferson
  1. A Ascensão da Trindade
Lobato, Monteiro
  1. O Macaco que se Fez Homem
  2. O Presidente Negro
Lodi-Ribeiro, Gerson
  1. Assessor Para Assuntos Fúnebres (conto)
  2. Aventuras do Vampiro de Palmares
  3. Capitão Diabo das Geraes (conto)
  4. Crepúsculo Matutino (conto)
  5. Morcego do Mar (conto)
  6. O Vampiro de Nova Holanda (conto)
Lopes, Angélica
  1. Operação Meleca Mutante
Loppara, Tadeu
  1. Quãm e os Indícios Mortais
Ludwig, P. H.
  1. Omnes Viae
Maia, Ana Paula
  1. Assim na Terra como Embaixo da Terra (2x)
Mallmann, Max
  1. Zigurate
Marinho, João Carlos
  1. A Viagem
Martins, Camila
  1. Muito Além das Rosas
Matheus, L.
  1. A Queda dos Nove
Medeiros, Diego
  1. A Caçada do Imortal
Mesquita, Ricardo
  1. Casulos (2x)
Miguel, Raphael (org.)
  1. Os Supremos
Miquelino, Bruno
  1. Vende-se Este Futuro
Monteiro, Jeronymo
  1. Tangentes da Realidade
Morais, Bárbara
  1. A Retomada da União
Morales, Danilo
  1. ABC da Morte
Moreira, Alexandre
  1. Escuridão (2x)
Nascimento, Gabriela S.
  1. O Fantasma da Máquina
Neto, Miguel Sanches
  1. A Segunda Pátria (2x)
Neves, Reinaldo Santos
  1. News for Mr. Name
Nicacio, Clovis
  1. As Cinco Esposas de Nathan (8x)
Novello, Eric
  1. Ninguém Nasce Herói (3x)
Oliveira, Nelson de
  1. Às Moscas, Armas! (2x)
Oliveira, Nelson de (org.)
  1. Fractais Tropicais (7x)
Oliveira, Rodrigo de
  1. A Era dos Mortos, parte 1
  2. A Era dos Mortos, parte 2
  3. A Ilha dos Mortos
  4. A Senhora dos Mortos
  5. Elevador 16
  6. O Vale dos Mortos (2x)
Oliveira, Wallace
  1. Filhos do Homem
Pacheco, Márcio Cardoso
  1. O Senhor do Tempo
Panicacci, Fausto Luciano
  1. O Silêncio dos Livros (23x)
Pascale, Ademir (org.)
  1. Possessão Alienígena
Patati, Carlos
  1. A Sorte dos Girinos
Pattal, M.
  1. A Revelação (2x)
Pereira, Francélia
  1. Fallen Angels
Pereira, Luiz Gabriel
  1. Delírios Mortais
Pitz, Allan
  1. A Revolução dos Animais Transmutantes
Pivatto, Loraine
  1. Pseudônimo Mr. Queen
Rahmati, Rodrigo
  1. Aquecimento Global (Em Fogo Alto) (conto)
Ramos, Diogo; outros (ed.)
  1. A Taverna, nº 1 (4x)
Ramos, Diogo; Pereira, Otniel (ed.)
  1. A Taverna, nº 2 (2x)
Rebello, Pablo Amaral
  1. Peixeira&Macumba
Regina, Ivan Carlos
  1. O Fruto Maduro da Civilização / O Éter Inconsútil
Rocha, Newton
  1. Nana-Neném (conto)
Rüsche, Ana
  1. A Telepatia São os Outros (2x)
Saint, Sandro J. A.
  1. Manjedoura
Santos, Ricardo; Tavares, Rochett; Silva, Alec (org.)
  1. Estranha Bahia
Scavone, Rubens Teixeira
  1. O Projeto Dragão
Schinzare, Romy
  1. Contos Reversos (2x)
Schwinden, Cristiane
  1. A Lince e a Raposa
Sena, Junno (org.)
  1. Afrofuturismo
Shiva, Fabio
  1. Favela Gótica (2x)
Silva, Márcia
  1. Interferência
  2. Traição
Sophie, T. L.
  1. O Anel de Tekarin (conto)
Spindler, Roberta
  1. A Torre Acima do Véu
  2. Heróis de Novigrath (2x)
Sybylla, Lady
  1. Cão 1 Está Desaparecido (conto)
Tavares, Braulio
  1. Fanfic (2x)
  2. Histórias Para Lembrar Dormindo
Tavares, Braulio (org.)
  1. Páginas do Futuro
Tavares, Enéias; Witter, Nikelen; Cordenonsi, A. Z.
  1. A Alcova da Morte (2x)
Terron, Joca Reiners
  1. A Morte e o Meteoro (4x)
Tiburi, Marcia
  1. Sob os Pés, meu Corpo Inteiro (2x)
Tremeschin, Leonardo; Costa, Andriolli; Ferraz, Lucas R. (org.)
  1. Mitos de Origem (2x)
Trigo, Luly
  1. O Reino de Zália
Vaccaro, Giovanna
  1. E Se... (2x)
  2. Stowe
Valek, Aline
  1. As Águas-Vivas não Sabem de Si (2x)
Veríssimo, Erico
  1. As Aventuras de Tibicuera (2x)
Villela, T.
  1. O Último Dia
Witter, Nikelen
  1. Viajantes do Abismo
Zorzi, Pablo
  1. WOW - O Primeiro Contato (3x)
Zuin, Lidia
  1. Deus Sonha o Homem
Zuin, Lidia (org.)
  1. 2084: Mundos Cyberpunks
Salta imediatamente à vista que esta lista é significativamente maior que a portuguesa. No entanto, a diferença é muito menos pronunciada do que tinha sido no ano anterior. De facto, embora o número de autores e equipas de autores tenha aumentado um pouco (119 autores e equipas de autores contra 109; 15 antologistas e editores contra 16), o número total de títulos mencionados teve uma ligeira redução, de 169 para 166. Por outro lado, há este ano uma proporção muito mais reduzida de contos, que este ano são apenas 13 face aos 54 do ano passado, o que implica um aumento bastante razoável nas publicações completas que foram alvo de leitura e comentário. Ou seja, há um progresso, ainda que ligeiro.

Entre toda esta gente, há alguns destaques, claro. Em certos casos, o destaque deve-se a campanhas de (auto)promoção bem sucedida e também a alguma demora da minha parte em identificar que aquilo que à primeira vista parece ser uma resenha não passa na realidade de um texto promocional que é republicado em vários sítios, por vezes com pequenas variações, por quem muito provavelmente nem se deu ao trabalho de ler os livros. Escusado será dizer que isso me deixa com muito má impressão dos livros e das publicações que assim agem, perdendo por completo a vontade de ler uns e outros, mas eu sou um tipo esquisito; se calhar resulta com outras pessoas.

Incluindo estes casos, os destaques do ano foram Machado de Assis, graças aos 9 comentários que recebeu uma obra sua, Ana Beatriz Brandão, com 14 comentários distribuídos por dois livros da mesma série, Felipe Castilho, com 12 comentários ao seu lançamento do ano, Roberto de Sousa Causo, com 5 comentários distribuídos por 2 títulos, a que acrescem mais 4 a duas antologias que organizou, Day Fernandes, com 5 comentários distribuídos por 3 obras, Gerson Lodi-Ribeiro, com 6 comentários a outros tantos títulos, Clovis Nicacio, com 8 comentários a um só título, Nelson de Oliveira, com 7 comentários a uma antologia que organizou, Rodrigo de Oliveira, com 7 comentários distribuídos por 6 obras e Fausto Luciano Panicacci, com 23 comentários a um só título.

E siga para a FC internacional. Essa é que vai ser uma lista e peras.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

António Orta: Feridas de Ódio e Amor

E aqui temos mais uma fantasia científica, a pender fortemente para o lado da fantasia, como de resto é comum acontecer. Inspirado pelo Frankenstein (sim, é daí que vem a parte de FC) e pelos contos de fadas, António Orta funde os dois mundos num conto de vingança e violência bastante mal escrito, especialmente, mas não só, devido ao péssimo uso das vírgulas. Feridas de Ódio e Amor (bibliografia) são a justificação para a violência, mas qualquer pessoa que conheça o livro de Mary Shelley percebe que este monstro sanguinário de Orta não é a criatura criada pelo Dr. Frankenstein, cujas únicas aspirações são ser amada, não fazer mal a ninguém e não sofrer mal de ninguém.

Essa é uma das coisas que me desagradaram neste conto; e sim, bem sei que esta não é a primeira história a subverter a natureza da criatura de Shelley, mas o facto é que gostaria que menos o fizessem. Uma das grandes qualidades do romance de Shelley reside na sua denúncia da xenofobia, porque é o medo do outro e a violência que este gera que leva o monstro a ser violento em autodefesa, e histórias como esta só a reforçam. E esse desagrado existiria mesmo se o conto fosse bom.

Mas não é. Não só a prosa é má, como a história, de uma fada com sede de vingança que aprende a criar o seu próprio monstro segundo a receita do Dr. Frankenstein e depois usa a natureza sanguinária do monstro que cria para se vingar das outras fadas, está um bom bocado mal amanhada. E o resultado é que este é dos contos mais fraquinhos de todo o livro.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Franz Kafka: Josefina, a Cantora ou o Povo dos Ratos

E mais uma vez aqui desponta a fina ironia com que Franz Kafka insufla as suas histórias. Josefina, a Cantora ou o Povo dos Ratos é uma noveleta cujo conteúdo segue fielmente o guião estabelecido pelo título. Estamos entre ratos, e um desses ratos analisa, com a frieza clínica e cerebral que também encontramos noutros textos, o estranho comportamento de Josefina. Ou por outra, os estranhos comportamentos que se desenvolvem em torno de Josefina, tanto o desta quanto o dos restantes ratos para com ela.

É que Josefina é uma artista. Uma cantora, ainda que o narrador não consiga encontrar nenhuma diferença entre os assobios dela e os dos outros membros do povo dos ratos. E Kafka usa esta qualidade para se divertir um pouco à custa do vedetismo em particular, e da condição artística em geral, pois, como é costume acontecer nos seus contos mais ou menos fabulosos, não parece haver diferença realmente substantiva entre o povo dos ratos e o povo dos homens.

Kafka diverte-se não só a si mas também a quem lê porque Josefina, sempre a diva, é um retrato perfeito das Castafiores deste mundo (não sabem quem é a Castafiore? Uma palavra: Tintim). A dada altura julga-se, como é óbvio, injustiçada pela plebe ignara, que nunca lhe falha como público mas não lhe confere o respeito e consideração que ela julga merecer. E o que acontece a seguir não é bem o que ela esperava, naturalmente. Esta é uma bela forma de fechar esta coletânea; um conto carregadinho de ironia e, para lá da ironia, de suminho crítico ao mundo artístico e a algumas das suas personagens.

Contos anteriores deste livro:

Susana Celina Augusto: O Submundo dos Antigos

Dois contos consecutivos relacionados com ficção científica? Ena. Se bem que este seja uma fantasia científica, com alguns toques de FC mas um enredo baseado em portais interdimensionais que soam mais a fantasia que a FC. Susana Celina de Oliveira Augusto, a autora deste O Submundo dos Antigos (bibliografia), não escreve mal, propriamente, ainda que sobrecarregue demasiado a sua prosa de adjetivos e advérbios; o ritmo, que essa adjetivação quase estraga, é a sua melhor qualidade, e podia ter dado muito bom uso a esse ritmo nesta história se não fosse um detalhe.

A história é daquelas de enredo movimentado, um conto de mistério e investigação envolvendo mortes não naturais e por aí fora. Com a camada adicional de fantasia científica em cima e uma prosa bem ritmada a acompanhar, o resultado podia ser bastante interessante... se, mais uma vez, o tamanho do conto fosse o adequado. Não é, longe disso. A ideia dava para uma noveleta, no mínimo, mas a autora viu-se obrigada a encafuá-la num conto curto, sem espaço para desenvolver personagens, ambiente e até o enredo e despachando um enredo promissor com um final a que só posso chamar desastrado.

Nem todas as histórias dão contos curtos; nem todas as histórias dão noveletas, novelas ou romances. Uma das qualidades mais importantes de quem escreve reside na capacidade de perceber que tamanho resulta melhor para cada história. E os autores presentes neste livro, salvo algumas exceções, parecem ainda não ter desenvolvido essa qualidade. O resultado é a grande quantidade de contos como este: promissores, mas apenas isso. E já escrevi algo de semelhante a isto e suspeito que vou voltar a escrever.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Leiturtugas da semana #52

Neste princípio de ano, ao que parece, estamos todos de férias de Leiturtugas. Todos? Não! Uma pequena aldeia resiste ainda e sempre ao invasor... ah, esperem. Isto é de outra história.

A esta história pertence o Artur Coelho, que continua sozinho a carregar o archote leiturtuga, pelo menos até que eu acabe algum dos seis livros enquadráveis que tenho atualmente em várias fases de leitura. Sim, sim, seis. Mas isso é para o futuro. No presente temos mais uma opinião do Artur sobre uma BD, como de costume mais desenvolvida noutro sítio. Desta vez, o alvo da leitura arturiana foi o álbum Andrómeda de Zé Burnay, publicado já este ano por A Seita. E o Artur passa a 1c2s.

E por esta semana é só. Haverá mais para a semana que vem? No domingo veremos.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Lançamentos de FC de janeiro 2020 (segundo o FCL)

Pela primeira vez mensalmente, cá temos os lançamentos de que o FCL foi tendo conhecimento durante o mês de janeiro. Há várias coisas que convém ter em conta (e eu se calhar devia mesmo criar uma página com todas estas ressalvas para evitar estar a ter de as fazer a cada post destes), nomeadamente que isto se refere ao momento em que o FCL toma conhecimento dos lançamentos, não ao momento em que os lançamentos são efetuados, que por isso, e porque há uma janela de cerca de três meses para trás e outros três para diante, é inteiramente possível que lançamentos anunciados no ano passado voltem a sê-lo no início deste, que lançamentos que não aparecerem anunciados na rede aberta não são apanhados pelo FCL e por conseguinte não aparecem aqui, que há sempre algumas dúvidas sobre se certos lançamentos contêm FC ou não, pelo que por vezes acontece que um lançamento irrelevante é anunciado ou outro relevante não é, e por aí fora (e sim, devia mesmo criar a tal página).

Adiante.

Isto começa muito fraquinho para a FC portuguesa, com três lançamentos anunciados em janeiro, o que, se tivermos em conta que este é o primeiro mês e portanto apanha também lançamentos planeados para os dois ou três meses seguintes, estamos em plena sequência do ano passado, entre o devagar e o parado. E de gente com pergaminhos, nada.

Quanto ao Brasil, vai de vento em popa, mesmo que vários destes títulos só apareçam aqui devido aos atrasos de alguns sites ou blogues na divulgação dos lançamentos brasileiros (e aos três meses de tolerância, obviamente). De resto, a variedade é grande, com clássicos, coisas de gente nova e um pouco de tudo o que existe no meio.

No que toca à ficção traduzida, dá-se o caso curioso e invulgar de termos mais lançamentos anunciados em Portugal que no Brasil (e zero nos outros países lusófonos, como sempre). É um facto que se explica em parte pela existência em Portugal de editoras que divulgam no início do ano o seu plano de lançamentos semestral ou anual, e este é reproduzido em alguns veículos, o que no Brasil tende mais a ser feito mensalmente ou quando os lançamentos se efetuam de facto. Assim, estes lançamentos portugueses incluem também lançamentos de fevereiro e março, pelo que nos próximos meses estes números já deverão ser menores. E em parte, a explicação é também a ausência de anúncios de novos lançamentos de Perry Rhodan no Brasil, pois estes costumam ser numerosos e fazer subir bastante os números por lá.

De resto, há um lançamento angolano a registar, mais uma vez a cargo de Agualusa, que gosta de misturar realismo mágico e FC, normalmente em vertente distópica, há um lançamento de não-ficção portuguesa e académica e há uma só publicação periódica brasileira a ter sido divulgada. Isto apesar de uma portuguesa também ter saído e até ter sido criticada num blogue; as notas de lançamento só chegaram em fevereiro. E por falar em fevereiro, lá nos encontraremos.

Ficção portuguesa:
  1. Na Imensidão do Universo, org. ??
  2. O Despertar da Múmia, de Nuno Caravela
  3. Raus Human, de Michel Alex
Ficção brasileira:
  1. Ad Tempore, de Irenia
  2. Alcântara, de Miriam Rezende Gonçalves
  3. Caminhantes do Céu, de Paulo Maurício P. Péres
  4. Eles Herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz
  5. Encontre-me no Passado, de Mari Scotti
  6. Jornadas Além das Fronteiras, de Raphael Fraeman
  7. O Canto das Mulheres Livres, de Lucas R. Machado 
  8. O Espectro de Iks, de Guilherme Pimenta 
  9. O Ovo do Tempo, de Finisia Fideli
  10. O Silêncio dos Livros, de Fausto Luciano Panicacci 
  11. Patrulha Para o Desconhecido, de Roberto de Sousa Causo
  12. Relicário da Maldade, de Jefferson Sarmento
  13. Traição, de Márcia Silva 
  14. Três Meses no Século 81, de Jeronymo Monteiro
Ficção angolana:
  1. No Princípio Era a Palavra, de José Eduardo Agualusa (publicado em Portugal)
Ficção internacional:

Edições portuguesas:
  1. O Ano do Oráculo, de Charles Soule
  2. A Máquina Pára e Outros Contos, de E. M. Forster
  3. A Quinta, de Joanne Ramos
  4. Cerimónia Mortal, de J. D. Robb 
  5. Fundação e Império, de Isaac Asimov
  6. Nós e Outras Novelas, de Evguéni Zamiátin
  7. O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry 
  8. O Último Oráculo, de James Rollins
  9. Os Testamentos, de Margaret Atwood 
  10. Tono-Bungay, de H. G. Wells
  11. Um Terrível Verdor, de Benjamín Labatut 
Edições brasileiras:
  1. 1984 - Edição Especial, de George Orwell
  2. A Marcha dos Zumbis, de Max Brallier
  3. Café da Manhã dos Campeões, de Kurt Vonnegut, Jr.
  4. Cidade das Trevas, de Adam Christopher
  5. De Sangue e Ossos, de Nora Roberts
  6. Fragmentos do Tempo, de Rysa Walker
  7. Frankenstein, de Mary Shelley
  8. O Napoleão de Notting Hill, de Gilbert K. Chesterton
  9. O Tempo em Marte, de Philip K. Dick
  10. Recursão, de Blake Crouch
Não-ficção portuguesa:
  1. Imaginários Distópicos, org. João Carlos Correia, Anabela Gradim e Ricardo Morais
Periódicos:

Edições brasileiras:
  1. Conexão Literatura, nº 55

E. T. A. Hoffmann: O Homem da Areia

Foi com bastante surpresa que encontrei sinais de ficção científica nesta noveleta de E. T. A. Hoffmann, autor que sempre associei exclusivamente ao fantástico e sobretudo ao horror. Mas a verdade é que esses sinais existem n'O Homem da Areia (bibliografia), ainda que seja impossível falar deles sem incorrer nos famigerados SPOILERS, pelo que o caro leitor faça favor de se considerar prevenido.

A história, uma noveleta, é bastante típica do romantismo. Relata as oscilações passionais de um jovem endinheirado cuja sanidade mental é perturbada por uma estranha personagem, um tal Coppelius (ou mais tarde Coppola), que ele identifica como o monstro folclórico do Homem de Areia, uma espécie de híbrido entre o Homem do Saco e o João Pestana, e que culpa pela morte do pai.

Parcialmente contada de forma epistolar, a história segue as andanças desse jovem, sempre mergulhado em arrebatos exagerados de sentimentos, como era moda do romantismo. Até que a história se encaminha para o seu desfecho quando o jovem, agora universitário, conhece um tal professor Spalanzani, com o qual tem aulas de física e vem a descobrir que mora à frente do seu alojamento. E que tem uma filha, aparentemente, a qual surge por vezes na janela situada à frente da do seu quarto. E que ele dá em espiar. E por quem se perde de amores, claro está, apesar de ter deixado na terra natal uma apaixonada com quem é trocada parte da correspondência que surge na porção epistolar da noveleta.

É aqui que vai aparecer a ficção científica... e os spoilers.

O desfecho da história surge por intermédio de um baile e da sequência desse baile. O baile é organizado por Spalanzani e destina-se a apresentar a filha ao mundo, e o jovem protagonista, naturalmente, marca presença. Mais: passa a noite inteira a falar com a filha do professor, a qual lhe responde de uma forma desajeitada, mas ele, com a sua paixão arrebatada, acha-a encantadora. Toda a gente acha a mulher extraordinariamente estúpida, menos ele. Toda a gente comenta depreciativamente o seu comportamento invulgar, menos ele. Ele, cego e surdo para tudo, mas não mudo, acaba a pedi-la em casamento. Ao pai, que a moçoila mal responde às perguntas, ela sim, praticamente muda. O pai, eufórico, aceita.

E depois temos o desfecho de tudo, revelando-se que a jovem não é nenhuma jovem mas sim um autómato. Um robô, basicamente. Um ginoide. E assim se cruza nesta noveleta de Hoffmann, publicada apenas dois anos antes do célebre Frankenstein de Mary Shelley, o romantismo com a ficção científica, ainda bastante proto- mas já bem reconhecível. Basta isso para tornar a leitura de O Homem da Areia obrigatória para quem quer conhecer bem o género.

Textos anteriores deste livro:

José Guilherme Pinto: Crónica Extra-Terrestre

É por intermédio de mais um autor brasileiro que a ficção científica regressa a esta antologia, e mais uma vez o resultado deixa a desejar. A Crónica Extra-Terrestre (bibliografia) que José Guilherme Correa Pinto apresenta é basicamente um longo infodump no qual ele traça um cenário que até poderia ser interessante para uma novela ou romance mas decididamente não resulta em conto curto. Especialmente quando o autor cede à pulsão pedagógica e se lança em explicações completamente desnecessárias, que cortam ainda mais o ritmo narrativo, o qual já não é grande coisa à partida por causa do infodump inerente ao esboço do cenário.

Mas Correa Pinto escreve suficientemente bem para este conto não ser mau. É apenas daqueles contos em que existe uma desadequação muito grande entre a história que se pretende contar e o espaço disponível para contá-la. Uma história de viagem no tempo para tentar corrigir uma situação distópica que, se bem aproveitada, se bem desenvolvida, podia dar uma leitura realmente agradável. Costumo chamar a estes contos (e são muitos!) oportunidades desaproveitadas. Este é mais uma.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Robert F. Young: Projecto Grande Ascenção

Sim, sim, não é gralha nem me tornei analfabeto agora de repente. O título deste conto, tal como está na revista, é mesmo Projecto Grande Ascenção (bibliografia), e não "ascensão" como devia ser. E também não é gralha no título, porque é assim que está escrito tanto no título, quanto no índice ou no texto do conto. É para ficarmos logo bem situados quanto à qualidade das traduções e revisões que estas revistas continham.

Quanto ao que se esconde por trás deste título gatado, é uma história híbrida de ficção científica e fantasia, com predominância da fantasia. Uma história bastante cínica, que descreve uma greve dos trabalhadores do Projeto Grande Ascensão... hm... Ascenção..., em luta por melhores condições de trabalho. Há elementos de século XX, mas Robert F. Young baralha muito o seu ambiente, enchendo-o de elementos anacrónicos. Na verdade, a base da história é, apesar da existência de greves e de sindicatos, algo de muito semelhante à Torre de Babel, uma construção faraónica, criada porque o rei — que se desloca de liteira, como todos os outros ricos — quer disparar setas contra deus. Ou Yhaweh. Pelo menos é o que se diz à boca pequena entre os trabalhadores.

Mas, e atenção que aí vêm spoilers, vem-se a perceber que os trabalhadores estão a ser manipulados por um "organizador", que incentiva a greve não porque queira de facto a melhoria das condições de trabalho dos trabalhadores, mas porque foi enviado por deus para impedir que o rei alcance o seu intento. Para os fins do organizador, a greve tem sucesso; a empresa responsável pela obra abandona-a, e a torre não se conclui. Para os trabalhadores é que não: não só as suas condições de trabalho não melhoram como ficam sem ele. Eu avisei que o conto era cínico. Cínico e bastante direitolas, apesar da ideologia estar (mal) escondida por trás da ironia. E eficaz, o que é diferente de ser bom, ainda que a tradução seja demasiado má para poder ter grandes certezas sobre a sua qualidade. Há uma coisa, contudo, que não será a tradição que irá alterar: o facto de se tornar demasiado óbvio onde vai levar demasiado depressa. Não há aqui grandes subtilezas. Ou pequenas.

Contos anteriores desta publicação:

Dio Fontes: Alimento

Uma das coisas que me parecem mais importantes numa história de terror é a criação de uma atmosfera. Não é fácil; exige a compreensão de como a linguagem afeta a perceção emocional dos ambientes e situações. Não exige necessariamente que se escreva bem — um autor que não escrevia bem mas sabia fazer isso como poucos era Lovecraft, por exemplo — mas exige que se saiba como instilar no leitor um estado de espírito propício à história. Há nisto uma parte de subjetividade, há técnicas que funcionam com alguns leitores mas não com outros, mas seja como for convém conhecê-las e tentar utilizá-las.

Dio Fontes não escreve bem — ou pelo menos não escrevia quando este seu conto foi publicado, em 2013; convém fazer frequentemente esta ressalva porque há autores que evoluem, e por vezes de forma significativa. E, ajuizando por este  Alimento, também não parece ter bem a noção de como criar uma atmosfera de terror. Conta uma história sobre um misterioso monstro devorador no Rio Paraná, de forma direta, seca, sem qualquer espécie de subtileza, e o enredo vai-se desenrolando à filme americano, de um modo formulaico e sem surpresas.

E como consequência, o conto é mauzinho. Não só o enredo é banal como, o que é pior, não existe nele qualquer espécie de emoção. Em todo o caso, não é o pior conto publicado neste fanzine (refiro-me à publicação, não a este número em concreto), mas disso falarei mais quando falar deste número.

Nuno Bragança: A Tia de Inglaterra

Não sei se foi por acaso ou de propósito, mas se há coisa que abunda nesta antologia são textos escritos na primeira pessoa nos quais as marcas de oralidade estão bem vincadas, como se cada um desses textos fosse apenas uma transcrição de uma ou de várias falas de uma certa personagem. Não creio que seja questão de momento literário, pois o livro data de 1997 e inclui textos publicados originalmente nas duas décadas anteriores, o que é um período razoavelmente extenso (e, segundo me parece, demasiado amplo para que a explicação seja essa). Mas é um facto curioso de que me dei conta agora.

A Tia de Inglaterra, conto de Nuno Bragança, é, claro, mais um desses textos. Trata-se de um conto (ao contrário de outros textos deste livro, excertos de romances), quase todo escrito dessa forma, isto é, como uma espécie de confissão do protagonista, em primeira pessoa e em discurso direto, durante a qual ele narra o seu despertar sexual, em adolescente, escandalosamente levado a cabo com uma tia, também razoavelmente jovem mas já bem adulta, que viera de Inglaterra visitar a família. Pedofilia, perguntam? Pedofilia, sim. No entanto, como de resto é comum encontrar-se em muita literatura, e especialmente naquela que procura subversivamente o choque com as convenções sociais — embora neste caso o choque não seja grande — não há a mínima censura implícita. Há um tipo, personagem e protagonista, a contar como se estreou nessas coisas do sexo e do amor, de tal forma que quase se consegue ver o brilhozinho nos olhos apesar de fingir que a história se passara com outro, e no fim há a reação de quem ouve a história, entre o espanto e a admiração.

Mas é bom, o conto? É, independentemente do que se possa pensar sobre a história que narra. Está bastante bem concebido, o discurso direto é totalmente credível enquanto tal, o que implica que também está muito bem escrito, e por aí fora. Trata-se de boa literatura, mesmo que este tipo de história tenda a deixar-me frio.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Leonor M. Ferrão: Fata

Mais um texto imaturo, este Fata (bibliografia), de Leonor M. Ferrão, é uma história de fantasia em que acontecem muitas coisas, quase invariavelmente caídas do céu por não terem unhas. A ideia parece ter sido escrever uma história de fundo romântico sobre o poder do amor, pelo menos no mundo das fadas, mas é tudo tão apressado, as personagens são tão mal caracterizadas, as motivações tão básicas que a história simplesmente não funciona. E nem é daqueles casos de não haver espaço suficiente para contar adequadamente a história nos limites impostos para a antologia; aqui, a pressa foi escolha da autora, visto que o conto é significativamente mais curto que muitos outros.

Mais um conto fraco, portanto, do qual o melhor que posso dizer são duas coisas: está razoavelmente bem escrito no que toca à língua propriamente dita, o que não é coisa que se possa dizer de muitos destes contos, e parece ter havido nele um certo esforço para subverter alguns clichés. Não chega, mas sempre é alguma coisa.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Escrita de janeiro


Temi que, terminado o romance, e sendo eu por isso confrontado com a necessidade de conceber cenários novos e novas personagens para as histórias que fosse contar a seguir, o ritmo de escrita abrandasse neste início de 2020, mas não foi o que aconteceu. Concluí um conto que já vinha de dezembro e escrevi um miniconto e pelo menos metade de uma noveleta ou novela curta que deverá ficar concluída em fevereiro, acabando o mês com cerca 9100 palavras de nova ficção, o que corresponde a um pouco menos que 30 páginas. É significativamente mais que a média mensal do ano passado, e um pouco mais que a média dos últimos 8 meses do ano (uma vez que os primeiros quatro tiveram médias ainda um bom bocado baixas). Ou seja, se continuar assim durante todo o ano, vou acabar com uma produção total superior à deste. Mas não é muito provável que assim seja.

Por outro lado, pode acontecer. A questão é que eu quero ver se faço dentro de dois ou três meses uma revisão profunda ao romance que escrevi no ano passado, e isso é coisa para demorar algum tempo e para abrandar significativamente (ou mesmo reduzir a zero) a produção de texto novo durante esse tempo. Por outro lado, estou numa fase em que ao mesmo tempo que vou escrevendo uma noveleta vou também planeando mentalmente o conto seguinte (que também deverá ser noveleta), o que pode atrasar essa revisão. Ou não. Depende.

Seja como for, o que fica são as vinte e muitas páginas escritas em janeiro. O resto adiante se verá. Se ainda estiverem por aí, eu depois conto como foi.

Emanuel Haza: Quando a Noite Cai

Mais um autor brasileiro, este Emanuel Haza, ainda que a sua forma de escrever pareça algo híbrida, misturando elementos dialetais brasileiros e portugueses. Híbrida e muitíssimo anacrónica, uma vez que este Quando a Noite Cai (bibliografia) se lê como um texto oitocentista, cheio dos clichés dos textos da época, da escrita em primeira pessoa à identificação das personagens por iniciais, passando pelo comportamento e entorno social aristocrático dessas personagens e pela indefinição das datas, que no entanto não são oitocentistas mas novecentistas. A história passa-se em "19..", assim mesmo.

E por falar em história, esta é uma história de vampiros também muito cliché, que o autor tenta sem grande sucesso rematar de forma surpreendente. Com uma ou outra referência clara a alguma obra ou autor específicos, este conto poderia passar por pastiche, mas essas referências não existem, o que leva o leitor à conclusão de que estamos simplesmente perante um autor inexperiente, que ainda não saiu da fase da imitação da espécie de história que mais lhe agrada ler e por isso recorre a estilos, ambientes e abordagens ultrapassados há pelo menos um século. Não escreve mal, é certo, mas o extremo conservadorismo e caráter derivativo deste conto não permitem que o resultado se aproxime de ser bom.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Franz Kafka: A Toca

Mais um texto bastante longo, este A Toca tem tamanho de novela e, aparentemente, está incompleto. É um texto póstumo, no que de resto não está sozinho neste livro; Franz Kafka escreveu-o seis meses antes de morrer. Mas a verdade é que a incompletude lhe confere um significado que se estivesse completo talvez não tivesse.

O protagonista é um animal carnívoro não identificado, talvez qualquer coisa de semelhante a um furão, ou coisa que o valha. Mas um animal hiper-racional, descrevendo na primeira pessoa a sua luta pela construção e manutenção da toca perfeita, absolutamente confortável, capaz de o proteger dos predadores ao mesmo tempo que lhe fornece uma base para caçar. Hiper-racional e mais que um pouco neurótico, na verdade.

O animal que faz a toca é, claro está, uma metáfora para o ser humano e para a vida que muitos vivemos, encerrados nos nossos labirintos mais ou menos subterrâneos, numa constante busca neurótica pelo seu aperfeiçoamento, que no entanto, no final de contas, vem a revelar-se inútil. Porque envelhecemos, nós e a toca. Porque esta, que deve proteger-nos dos predadores e das intempéries, acaba por revelar-se sempre impotente, penetrável, e o derradeiro predador acaba sempre por arranjar maneira de entrar.

E é isso que o animal da toca de Kafka descobre na parte final da novela: que a toca tem fugas, que um predador invisível se aproxima, que pode surpreendê-lo a qualquer momento. Saber-se que este texto foi escrito nas vésperas da morte do autor confere-lhe um significado inteiramente novo: o de que o animal é Kafka, o próprio, já a sentir a iminência do fim depois de passar uma vida às voltas na sua toca. E é também esse o significado acrescido que vem de estar incompleto, de se ter interrompido abruptamente. Porque uma vida é sempre uma coisa incompleta; fica sempre qualquer coisa por fazer, qualquer coisa por dizer, qualquer coisa por ouvir. Qualquer coisa, até, por pensar. Termina sempre a meio de qualquer coisa, ou de várias coisas.

Este não é texto para todos os leitores. É um texto enovelado, meticuloso, introspetivo. Para muita gente poderá tornar-se aborrecido. Por outro lado, Kafka é frequentemente assim, pelo que quem vier lê-lo já deverá saber com o que pode contar. Eu, apesar de ter passado por um período de algum cansaço a meio da leitura, antes de me aperceber do caminho que a história acabaria por seguir, acabei por gostar bastante mais do que cheguei a temer.

Contos anteriores deste livro:

Paulo Roderick: Àquele Amor que Nunca o Foi

Há histórias de amores desencontrados no tempo muito eficazes, mas normalmente são-no tanto mais quanto mais subtil e psicologicamente credível é a situação, que na sua essência é altamente inverosímil. Precisamente pelo contraste e por uma questão de compensação: situações inverosímeis tendem a funcionar melhor quando outros elementos da construção narrativa são credíveis. Paulo Roderick, ajuizando pelo exemplo de Àquele Amor que Nunca o Foi (bibliografia), parece não saber disso, ou não querer saber disso.

Se soubesse, ou quisesse saber, talvez não tivesse escrito a sua história de amor desencontrado no tempo com este estilo hiperromântico, exageradíssimo, mais que lamechas, que até os escritores românticos do século XIX teriam pensado duas vezes antes de usar. Mas escreveu. E a consequência é que o português é essencialmente correto, a história de um amor entre jovens de décadas diferentes, unidos por missivas enviadas para trás e para a frente no tempo por uma pedra de um jardim, podia ser bastante interessante, mas este conto é penoso de se ler. E mais que um pouco ridículo, e não o ridículo bom das cartas de amor do Pessoa.

Textos anteriores deste livro:

Leiturtugas da semana #51

E depois de uma semana de pausa, sem nada a assinalar, voltamos a ter Leiturtugas, ainda pela mão do Artur Coelho, que está a carregar sozinho o archote do projeto neste início de 2020. A opinião que ele nos trouxe refere-se ao nº 5 do fanzine Orion, editado por Renato Abreu. O fanzine dedica-se à publicação de ficção e BD e costuma conter FC, o que acontece neste número, pelo que o Artur passa a 1c1s.

Além disto, tenho a anunciar que estive aqui a remexer no meu sistema de sorteio e, depois de arranjar maneira de implementar algumas das ideias que me foram sugeridas e de pensar mais um bocadinho sobre o assunto, fiz algumas mudanças.

Assim, agora os coeficientes já são reduzidos por atrasos. Isto é: os participantes que não cumpriram no ano passado (Ideias de Leitora e The Portuguese Portal) veem ser-lhes deduzido do coeficiente o que lhes faltou para cumprirem, e assim será todos os anos. Também os participantes que estiverem atrasados no objetivo anual ao iniciar-se o mês de cada sorteio veem ser-lhes deduzida a dimensão do atraso (se o sorteio fosse agora em fevereiro seriam todos exceto o Artur a perder um ponto do coeficiente). Os que estiverem adiantados, por outro lado, não são beneficiados — não quero que a malta se ponha a fazer as coisas à pressa para ter vantagem em algum dos sorteios nem dar demasiadas vantagens aos suspeitos do costume.

Também andei a experimentar logaritmos e raízes para não dar uma vantagem tão grande e tão prolongada no tempo aos participantes mais antigos, e acabei por me decidir por utilizar um expoente de 2/3; parece-me que resulta num equilíbrio melhor entre dar a vantagem que pretendo dar aos mais fieis e/ou antigos e dar alguma hipótese de vitória aos que o são menos. Para os interessados, a fórmula que dá o resultado final é agora:

(Coeficiente^(2/3))*ALEATÓRIO()

Por fim, decidi filmar os sorteios. O excel fará as contas cinco vezes (faz-se carregando em F9), e o sorteio que conta é o 5º. Em abril, talvez por volta da segunda semana, deverá aqui estar o primeiro.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Alan M. Clark: Desencanto Fúngico

Se há coisa que parece ter invadido a imaginação dos autores, e em particular daqueles mais dados à conceção de histórias mais ou menos terroríficas, é a zombificação de alguns insetos, caracóis e outros animais pequenos por intermédio da infeção por diversas criaturas parasíticas, muito em especial os fungos. Deve ser essa a explicação para esta já não ser a primeira doença deste livro que se baseia precisamente nisso. E o livro vai ainda muito no início.

O nome da doença que Alan M. Clark apresenta revela-a, mas não por completo. Desencanto Fúngico (bibliografia) começa como uma espécie de apatia mas vai-se desenvolvendo até as pessoas simplesmente deixarem de se mexer, deixarem-se dominar por completo pelo fungo que as invade e transformarem-se no fungo que as invade. E Clark é dos tais que conta realmente uma história ao descrever a doença — na verdade até conta mais que uma — atenuando através da ironia o macabro da enfermidade que descreve. Gosto mais assim, confesso.

Textos anteriores deste livro:

Isaac Asimov: O Demónio de Dois Centímetros

Isaac Asimov ganhou fama sobretudo como escritor de ficção científica; uma ficção científica cerebral, bastante sisuda, interessada sobretudo por problemas lógicos e grandes tendências sociológicas de longo prazo. Secundariamente, também ficou conhecido pela sua intensa produção de trabalhos de divulgação científica sobre os mais variados tópicos. Mas a sua obra não se circunscreveu a essas duas facetas. Um exemplo disso são as histórias que escreveu sobre O Demónio de Dois Centímetros (bibliografia) que inventou.

Esta, assim intitulada, é a primeira. Nela somos apresentados à criaturinha, um demónio chamado Azazel, que aqui aparece como bem intencionado mas interminavelmente desastrado. E digo "que aqui aparece" porque me cheira que nem sempre será assim. O que deverá ser sempre assim é o facto de estas histórias serem fantasias humorísticas. E, de facto, esta é divertida, ainda que não seja um divertimento de gargalhada, até porque alguns dos gags são um bom bocado óbvios. É um divertimento de sorriso, que conta com a reconhecida habilidade de Asimov para contar histórias de forma simples para funcionar.