terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Lido: São Jorge

Mais um conto recolhido por Adolfo Coelho em Coimbra, mais um conto em que o burilamento da língua marca presença, mas sem que esse burilamento da língua venha acompanhado de grande elaboração narrativa. E esta história até que daria para isso.

Trata-se de uma versão da célebre lenda de São Jorge, o matador de dragões venerado pelos cristãos, misturada com outra história cristã, a do pescador que pesca um peixe que lhe pede que o poupe. E mais uma vez temos um rei que promete a mão da filha ao aventureiro que consiga resolver-lhe um problema, o que parece ser dos temas mais comuns neste tipo de história. No caso, o problema é um dragão, ou bicha de sete cabeças (o conto usa os dois termos), que anda a causar grande devastação e o rei quer ver morto. Jorge mata-o, o rei quer casá-lo mas Jorge, por ser santo, recusa, mas tudo acaba em bem como tem de ser.

Além de abrir portas a desenvolvimentos abundantes e potencialmente interessantes, o que mais curioso achei neste conto foi a identificação da bicha de sete cabeças (mais uma vez no feminino e não no masculino, como eu sempre conheci) com o dragão, tratando esses dois exemplos de criptozoologia como uma e a mesma coisa. De resto, é uma história que corresponde ao que seria de esperar, promovendo valores de lealdade e honra numa rápida historinha de menos de duas páginas.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 16 de dezembro de 2018

Lido: Biscoitos da Vida Eterna

Sempre fui de opinião que a forma com que se encerra uma coletânea ou antologia é importante, pois embora alguns leitores vão lendo conto a conto, saltitando para trás e para diante ao sabor dos apetites, a maioria não o faz e acaba por ler sequencialmente, começando pelo primeiro e acabando com o último. Assim, se o primeiro conto é como que o átrio de um edifício artístico, que pode atrair os visitantes ou repeli-los, o último é a porta de saída, e a última oportunidade de causar um bom impacto. Assim, julgo importante que tanto o primeiro conto como o último sejam obras fortes. Talvez não as mais fortes de todas, mas fortes o suficiente para causar ou deixar boa impressão ao leitor.

Carina Portugal, aparentemente, não é dessa opinião. É que este texto com que termina o seu livro, Biscoitos da Vida Eterna, está muito longe de ser um dos pontos altos desta compilação.

Reparem que falo em texto, não em conto. É que não estamos perante um conto no sentido tradicional da palavra. Trata-se de uma receita de bruxa, para fazer os biscoitos da vida eterna do título, completa com instruções para a obtenção dos ingredientes mais problemáticos. Meia dúzia de aventureiros ou raspa de escama de dragão, entre outras coisas do género, não são propriamente artigos que se possa ir comprar ao supermercado mais próximo.

A coisa até diverte um pouco, e está razoavelmente bem escrita, mas falta-lhe bastante para poder ter alguma esperança de ser um ponto alto neste livro. É um textozinho divertido e inconsequente, e só pretende mesmo ser isso. Pouco teria a apontar-lhe se o encontrasse no miolo do livro, mas encontrá-lo no fim não me pareceu nada boa ideia.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 15 de dezembro de 2018

Finalmente voltei a escrever

É... é isso que o título diz. Finalmente, depois de anos de quase completa seca, voltei a escrever.

Começou em agosto, quando, depois de ter tido aqui a Lâmpada parada durante mais de um mês por causa do trabalho, com toda a acumulação de textos atrasados que isso implicou, resolvi fazer uma experiência: e se em vez de esperar até ter tempo e disponibilidade para escrever textos razoavelmente longos de uma assentada, como era meu hábito e tem levado ao longo dos anos a interrupções mais ou menos longas em tudo o que não tenha diretamente a ver com o trabalho sempre que este aperta, eu começasse a escrever um parágrafo aqui, outro ali, nos intervalos das traduções? Coisinhas rápidas, de cinco, dez minutos de cada vez? Resultaria? Isto é: conseguiria eu ir escrevendo o que tenho para escrever sem pôr em causa o trabalho que paga?

Como sabe quem costuma visitar a Lâmpada, a coisa resultou bastante bem. Desde agosto, com esta técnica de ir escrevendo um parágrafo de vez em quando, descongelei a Lâmpada, recuperei quase por completo o imenso atraso de que as minhas opiniões literárias vinham sofrendo há anos, escrevi mais algumas coisas não diretamente relacionadas com aquilo que vou lendo, e tudo no meio de um período de trabalho intenso (que continua e só terminará em fevereiro), sem que este tenha sofrido minimamente com isso.

Quando me apercebi de que a ideia estava a resultar, perguntei aos meus botões: "e resultará também com a ficção?" No início deste mês resolvi-me a fazer o teste.

De modo que peguei n'A Escolha de Diop, texto que os leitores aqui do blogue escolheram há ano e meio como aquele que gostariam de ver primeiro, revi o que já estava escrito, mais para voltar a situar-me do que propriamente para fazer uma revisão em termos, e pus-me a acrescentar texto novo. Um parágrafo de cada vez.

Nestes 15 dias, entre revisão e texto novo, a novela (ainda não o é, mas vai ser) cresceu 741 palavras. Duas páginas, mais coisa, menos coisa. É pouco, pois é, mas bate aos pontos o zero palavras por mês que tem sido habitual. Há vários anos que não produzia tanto em 15 dias.

Ou seja: o truque também resulta com a ficção. E vou continuar com isto e vou fazer outros posts como este a dar notícia do andamento da coisa. Ou das coisas, que é possível que vá também escrevendo outras coisas a par desta. Provavelmente uma vez por mês, talvez de quinze em quinze dias. Ainda não decidi. Tenho um mês para decidir.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Lido: Pedro e Pedrito

Pedro e Pedrito é mais um conto recolhido em Coimbra por Adolfo Coelho e, talvez por causa disso, tem uma elaboração literária superior ao que é comum encontrar-se nestas histórias. Mas só em termos de texto propriamente dito, pois a narrativa é tão apressada tem sido em tantos outros destes contos portugueses, deixando a sensação de que ficou aqui muito pano por transformar em mangas.

Trata-se de um conto sobre a lealdade. Pedro é rei e Pedrito não é, mas é seu irmão de leite, e leal sem falta, o que o leva a pôr-se em risco para salvar o rei quando ouve por acaso uma conversa que indica que o este pode vir a morrer. Duas ou três peripécias depois, incluindo umas inconvenientes transformações em pedra, os dois revelam-se leais um ao outro e tudo acaba em bem. Expandida e acrescentada de alguns elementos, esta história podia vir a ser interessante, mas como está aqui não o é lá muito. A extrema brevidade não costuma dar-se lá muito bem com enredos complexos.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Civilização

Parece ser praticamente unânime que Eça de Queirós, sendo sempre bom, é melhor quando se carrega de ironia, coisa que fazia com frequência. E neste conto, que tal como os anteriores consiste principalmente de um estudo de personagem, fê-lo de forma particularmente incisiva. Mas só na primeira parte.

Civilização não será um conto sobre a civilização, propriamente (embora até acabe por ser), mas sobre um civilizado. Ou melhor, sobre um ultracivilizado, palavra de Eça, um homem de finais do século XIX fascinado com toda e qualquer inovação saída das engenhosas mentes dos inventores. Autores de steampunk podem encontrar aqui inspiração com fartura porque o homem, podre de rico, instala no seu palacete urbano tudo quanto é engenhoca e assim vive, rodeado de coisas mecânicas.

Que volta e meia avariam.

Nesta fase do conto, a ironia fina de Eça transborda e chega a provocar gargalhadas. Mas depois, uma viagem até à decrépita propriedade rural do ultracivilizado protagonista corre mal e ele é obrigado a descobrir as alegrias da simplicidade da vida campestre. E aí o conto muda radicalmente de tom, tornando-se bucólico e romântico... e perdendo boa parte do interesse que me despertara até aí.

A palavra "romântico" não está ali em cima por acaso. Há muito de romantismo neste conto, mesmo não existindo nele grandes amores... romantismo no sentido literário do termo: a exaltação da natureza e da simplicidade da vida campestre em detrimento da sofisticação tecnológica, por exemplo; a exaltação do indivíduo... Eça chega a mostrar-se quase ludita, mas enquanto o faz com ironia é uma pequena delícia. O problema é que a páginas tantas abandona a crítica e passa à exaltação, e aí torna-se algo monótono, previsível e até um pouco panfletário. O conto continua a estar tão magnificamente escrito como antes, mas isso não é suficiente.

Contos anteriores deste livro:

Lido: There Are More Things

Não, não é engano. O conto está mesmo num livro do argentino Jorge Luis Borges, e tem mesmo este título shakespeariano, em inglês, There Are More Things. Mais: é dedicado a nada mais, nada menos, que H. P. Lovecraft, esse mesmo, o do horror cósmico. E mais ainda: é um conto de horror cósmico muito lovecraftiano e tem, de facto, aquela espécie de horror pintalgado de ficção científica que é característica do subgénero.

Como acontece muitas vezes quando a ficção lovecraftiana é escrita por autores não americanos (e se viu entre nós, por exemplo, na antologia Sombra Sobre Lisboa), Borges como que "nacionaliza" o universo de Lovecraft, ambientando este seu conto na Argentina. Tudo gira em torno de uma casa isolada, vendida pelo narrador da história a um misterioso estrangeiro o que, por o estrangeiro ser misterioso e porque à venda se seguiram obras demoradas que o vendedor sente como um ataque às suas memórias, o vão levar a investigar o que se passa. E o que encontra é o que qualquer leitor que conheça Lovecraft imagina.

Em parte por isso, porque o que vamos encontrar neste conto ser quase precisamente o que esperamos encontrar assim que percebemos que estamos perante uma ficção lovecraftiana, e em parte porque Borges se afasta neste conto do seu próprio estilo e imaginário (embora não completamente) para assumir até certo ponto os de Lovecraft, este é um conto competente mas não é nada de transcendente. O escritor genial que Borges foi cria aqui uma história que poderia ter sido criada por muitos outros escritores. É uma boa história? É, claro, que não é por criar uma obra derivativa que Borges desaprende de escrever. Mas está muito longe das suas melhores histórias.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Lido: O Príncipe com Orelhas de Burro

O Príncipe com Orelhas de Burro é outro dos contos da minha infância, embora tenha causado menos impacto no pequeno Jorge do que O Pequeno Polegar, de que aqui falei há pouco tempo. Mas, tal como aconteceu com o Pequeno Polegar, também tomei contacto com o príncipe numa versão bastante mais desenvolvida do que a que encontro nos livros de histórias populares que tenho andado a ler. Neste caso, no do Adolfo Coelho.

Fala a história, naturalmente, sobre um príncipe que tinha umas espampanantes orelhas de burro. E explica porquê: o rei andava triste por não ter filhos e pediu ajuda a três fadas que concordaram ajudá-lo; mas se as duas primeiras se contentaram com a convencionalidade dos atributos que deram à criança, já a terceira, não se percebe se por maldade ou matreirice, achou por bem dar-lhe as tais orelhas.

Umas peripécias atrás das outras, sempre com o fito de esconder dos súbditos que o herdeiro ao trono tem orelhas de burro, e tudo acaba por ficar em bem, como é natural neste tipo de história. Este é dos tais contos que dão pano para mangas de desenvolvimento, e neste caso esse desenvolvimento existiu mesmo, que o conto de que eu me lembro (vagamente, é certo) era bastante maior e mais complexo que a página e picos que ele ocupa nesta recolha. E também é conto que literariamente está bem mais elaborado do que muitos dos que o acompanham. Parece ser o padrão habitual nos contos recolhidos em Coimbra.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Lido: Doze Doses de Ilusão

E de repente, eis que Carina Portugal surpreende. Depois de um número razoável de contos sempre virados para o horror sobrenatural ou para outras formas literárias em que a magia tem papel de relevo, e mesmo quase a chegar ao fim do livro, eis que neste Doze Doses de Ilusão surge, sem aviso, a ficção científica.

E é um conto de ficção científica bastante interessante, no qual a autora consegue inserir de forma eficaz os territórios que lhe são mais familiares. Por outras palavras, conseguiu encontrar maneira de sair da sua zona de conforto mantendo-se no entanto nela escorada.

Estamos no futuro, claro, e acompanhamos um pai desesperado que perdeu uma filha. A dor leva-o a tomar uma sobredose de umas pílulas claramente inspiradas nas pílulas azul e vermelha da série Matrix, que lhe fornecem uma fuga para um mundo ilusório onde a miúda ainda está viva. O resultado dessa sobredose deveria ser a morte, mas algo de inesperado acontece e, com viagem no tempo à mistura, uma espécie de milagre mediado pela tecnologia surpreende toda a gente.

Apesar de se notar que as principais referências de FC da Carina Portugal são audiovisuais, não literárias, este é um bom conto, razoavelmente bem escrito e bem concebido se suspendermos a descrença o suficiente para ultrapassar algumas inverosimilhanças científicas no enredo (no fundo, o mesmo que o Matrix nos pede), tendo ainda a qualidade de facilmente poder ter caído na lamechice mas ter evitado fazê-lo.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Lido: Pequena Coleção de Grandes Horrores

Quem olhar para a extensa lista de links que se segue, sem dispor de mais nenhuma informação (além da capa aqui ao lado a indicar que se trata de um livro de contos, provavelmente), facilmente poderá pensar que a Pequena Coleção de Grandes Horrores é um livro volumoso. Mas não. O "pequena" do título é inteiramente adequado para este livro de Luiz Bras que tem apenas 144 páginas.

Trata-se, portanto, de uma coleção de textos muito curtos, raramente ultrapassando as duas páginas, contos quase todos, ou pelo menos algo de híbrido mas mais próximo da prosa que da poesia, ainda que alguns se aproximem mais desta que daquela. O "horrores" do título nem sempre é fiel ao conteúdo, pois várias destas histórias são francamente divertidas, chegando mesmo a provocar a gargalhada, ainda que em muitas o horror esteja de facto presente. Mas também aqui raramente se trata de algo de puro. É um horror que vem quase sempre misturado com outras coisas, e entre estas outras coisas a ficção científica tem posição de relevo.

Mas o que aqui se encontra é sobretudo um conjunto de exercícios com o objetivo de transmitir o máximo de significado com o mínimo de palavras, reduzindo a ficção ao osso e mais além. Nisso, estas histórias aproximam-se muito da poesia, que tem também aí um dos seus principais apelos. E disso há aqui exemplos que chegam quase ao sublime. Alguns, retirados dos últimos contos do livro, e haveria muitos mais para dar, incluem Temporada de Caça, Selvagens, Nas Catacumbas ou Ventania.

Como é natural em qualquer compilação de contos, e mais ainda numa que, como esta, tem no experimentalismo literário um dos seus esteios principais, alguns textos foram mais bem sucedidos que outros. Mas não há aqui textos maus. Há alguns que me parece não terem saído da mediania, mas são poucos; a maioria são bons contos e/ou poemas, e um número razoável é mesmo muito bom. Entre estes, destacam-se, a meu ver, O Homem sem Sombra, Total Recall e Coronel Pança em Pânico.

Em suma: este é um livro francamente bom. Não será para todos os gostos, que não é. Quem goste dos seus géneros bem definidos é capaz de ficar pouco impressionado com as misturas que Bras faz, e quem não ache grande graça a ficção ultracurta provavelmente não achará grande graça a esta ficção ultracurta. Dois exemplos, entre outros possíveis. Mas para os outros, por exemplo para os que, em Portugal, gostam de Mário-Henrique Leiria (apesar de aqui irem encontrar uma acutilância política menor e mais movida a raiva) ou, entre os mais recentes, das ficções mais breves de gente como João Ventura, este é livro que vale muito a pena. Muito mesmo.

Eis o que achei de cada texto:
Este livro foi-me oferecido pelo autor.

Uma pequena história cautelar para autores aspirantes... e não só

... ou como não fazer as coisas.

Há coisa de um ano, dei por acaso pela edição deste livro cuja capa apresento aqui ao lado. Não foi, que eu tivesse dado por isso, divulgada em lado nenhum e não esteve, que eu tivesse notado, à venda em nenhum sítio. Mas é, aparentemente, um livro de ficção científica de um autor de que nunca tinha ouvido falar. E isso, claro, desperta-me a curiosidade.

Há dias resolvi comprá-lo. Como o único lugar onde o livro parece estar à venda (à parte a Amazon, e eu não estou disposto a ir importar da Amazon um livro português) é o site da editora, foi lá que me dirigi. Afinal de contas, estamos em 2018. O comércio eletrónico, em especial de livros, é uma realidade testada e afinada por duas décadas de experiência, certo?

Bem...

Ao entrar tudo parece estar certo. O design é atraente, os livros estão bem categorizados e acessíveis. Os dados sobre os livros são escassos, mas isso é praga que ataca muito mais do que esta editora específica, infelizmente. Às vezes quase parece que demasiadas editoras portuguesas acham que fornecer dados completos sobre os livros que pretendem vender viola alguma espécie de segredo de estado. Que esta também sofra disso não é nem surpreendente nem invulgar.

De modo que eu lá fui encomendá-lo, todo lampeiro. Má ideia.

Em vez de se clicar num botão "encomendar" e o livro ficar adicionado a um carrinho de compras, como é padrão do e-commerce, temos um formulário. Pede-se nome, endereço, email, essas coisas necessárias, e por aí tudo bem. Depois pede-se para indicar o livro. Um livro. Quem quiser encomendar mais que um, não pode... ou por outra, pode encomendar vários exemplares do mesmo livro, mas não pode, por exemplo, encomendar A Fonte da Juventude do Rúben Pais e As Nuvens de Hamburgo do Pedro Cipriano.

Pior: depois de ser obrigado a só escolher um livro, o pobre candidato a cliente tem a opção de comprar também um e só um ebook. Informação sobre o formato em que o ebook virá? Não existe. Pode ser PDF, pode ser um formato decente (EPUB, por exemplo), pode ser um formato bizarro qualquer que ninguém consegue ler, pode ser qualquer coisa. E não é possível comprar ebooks, ou pelo menos um ebook. Quem prefira ler livros digitais está com azar, que se o campo dos ebooks é facultativo, o dos livros em papel é obrigatório.

Mas pronto. Se é assim que querem, assim terão. E eu lá fiz a encomenda: este livro cuja capa está aqui em cima, em papel, e o do Cipriano em ebook, já que este último sei onde poderia comprar em papel se a venda do ebook desse barraca. Sim, que já estava a ver o filme mal parado.

Mas não tanto como acabou por ficar. É que depois da encomenda feita recebi o email de confirmação, típico destas coisas. Tudo bem, portanto? Não propriamente, não. É que o que veio no email foi, em resumo, isto:

Livro - Encomendar Ficção
Versão - 1
Quantidade -
Envio - Envio Ebook - imediato
Preço - 14

Como não encomendei nenhum livro intitulado "Encomendar Ficção", assinalei uma quantidade de 1 exemplar e o preço do ebook (de envio imediato) não é 14 €, assim que vi isto fugi imediatamente para bem longe. Não confirmei o email, evidentemente, e muito menos procedi ao pagamento.

E foi assim que o Rúben Pais não vendeu um livro.

Moral da história: de pouco servem as boas intenções (a carta de intenções da editora é um exemplo a seguir por muitas outras; não estamos perante uma vanity press) quando não vêm acompanhadas por saber-se fazer as coisas. E o facto é que quem vai tentar comprar livros online sai da experiência com péssima impressão, que não se fica pela experiência de compra, antes transborda para outras áreas: afinal, se a venda é assim quem garante que a paginação está bem feita ou os livros não vêm cheios de gralhas (não estão disponíveis excertos, claro) ou não se desfazem assim que forem abertos?

E outra moral da história: seria sensato que os autores testassem as editoras antes de lhes entregar as suas obras. Comprem-lhes qualquer coisa, pelos vários meios (se é que são vários os meios) que elas põem os livros à venda. Verifiquem a qualidade das edições, vejam se e como os livros são divulgados. É que caso contrário pode acontecer-vos o que aconteceu ao Rúben: podem não vender livros que poderiam ter vendido.

E por falar nisso: alguém sabe de algum lugar físico onde eu poderia comprar este A Fonte da Juventude? É que agora já só mesmo tendo o livro nas mãos, sabem?

domingo, 9 de dezembro de 2018

Lido: A Bicha de Sete Cabeças

Há muitos contos populares cuja moral principal se pode resumir na velhíssima máxima "o crime não compensa". E este A Bicha de Sete Cabeças é um deles.

Mas é mais do que isso. Recolhido por Adolfo Coelho em Ourilhe, a tal terreola com um peso absolutamente desproporcionado nesta recolha, também é um conto que desmente de forma categórica a velha ficção nacional sobre os portugueses não serem racistas. Quem juntar as duas coisas percebe imediatamente: há aqui um preto, e é o preto o criminoso. Claro.

O enredo anda em volta de um caçador que caça a tal bicha de sete cabeças, sem saber que o rei instituíra um prémio pela morte de tal monstro: a mão da filha em casamento, como de costume. O tal preto, malandro e vigarista, aproveita-se da ignorância do heroico caçador, apropria-se das cabeças da bicha, leva-as ao rei, afirmando ter sido ele o bravo a matar o monstro. E claro que tudo acaba em bem, com o preto impedido de casar com a princesa e o branco bonzinho recompensado.

Esta é das tais histórias que, a reboque de uma moral positiva (mas falsa, infelizmente; demasiadas vezes o crime compensa mesmo), inculca em quem a lê e ouve uma série de valores francamente negativos, quando não são mesmo repugnantes. E também é uma história com uma curiosidade: o facto de se referir à bicha assim, no feminino. É que eu sempre ouvi falar em bicho de sete cabeças, masculino, uma expressão que se utiliza como sinónimo de coisa muito complicada. E isto desde bem antes de o brasileirismo bicha se generalizar para designar os homossexuais masculinos. Regionalismos, talvez? Não sei.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas da semana

A primeira semana de Leiturtugas, ainda com um grupo pequeno (há mais interessados? Informem-me), já começou a render leituras e comentários. O estreante do projeto foi o romance de Miguel Vale de Almeida, premiado com o Prémio Caminho e recentemente republicado, Euronovela, lido e comentado pelo Artur do Intergalactic Robot. Mínimos do ano compridos pelo Artur; a partir daqui o que vier é lucro.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Já anda por aí...

Eu traduzo profissionalmente desde 2006. Já lá vão uns aninhos, portanto. E já tenho uns quantos livritos no currículo. Ou umas quantas dezenas de livritos no currículo, mais propriamente. Segundo as contas do Goodreads há no momento em que escrevo isto 86 trabalhos distintos associados ao meu nome, embora parte destes trabalhos sejam os que contêm a minha ficção e haja uma praga no Goodreads que torna estes números extremamente imprecisos: a malta que introduz repetidamente os mesmos livros (e não os associa uns aos outros), compensada em parte pela malta que se esquece de que o tradutor é um tipo especial de autor dos livros traduzidos e não o inclui na ficha dos livros que introduz.

Neste tempo todo, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que falei do meu trabalho aqui na Lâmpada. Dei há dias por isso, e seguiu-se imediatamente uma das minhas expressões favoritas: "mas por que raio?!"

É que realmente faz muito pouco sentido.

Bem, acho que isso vai mudar. Se as coisas não fazem sentido faz menos sentido ainda insistir nelas. E por isso, digo-vos que já por aí anda o penúltimo livro que traduzi: o primeiro volume de Sangue & Fogo, do George R. R. Martin. E não é só no site da editora que o podem encontrar, ou seja, já não está em pré-lançamento. Eu já o vi até no Continente.

É o primeiro volume de uma história imaginária sobre o que aconteceu em Westeros entre a Conquista de Aegon e a Rebelião de Robert, e se não sabem que nomes são estes o livro também explica. Tal como O Mundo de A Guerra dos Tronos (título que faz todo o sentido comercial mas que não me agrada particularmente, diga-se de passagem), é, no contexto do universo ficcional do Martin, um livro de não-ficção, escrito por um dos eruditos da Cidadela de Vilavelha. Mas enquanto O Mundo é um livro iminentemente descritivo, uma obra que seria verdadeiramente de não-ficção se não se desse o caso de tudo aquilo que descreve ser ficcional, estes livros de Sangue & Fogo são mais híbridos.

Quero eu dizer com isto que este livro se lê quase como um romance. Há descrições, é certo, como seria natural num livro de História, assim com letra grande, mas também há diálogos e uma voz do homem que narra, o qual, apesar de procurar ser eruditamente objetivo, deixa transparecer a sua humanidade, os seus preconceitos, a sua moral, as suas opiniões, e por aí fora.

Este é um dos truques que o Martin usa para anular o aborrecimento que se poderia esperar do equivalente westerosiano de um livro académico.

Outro é o humor. Ao longo deste livro (e do próximo, que isto são dois volumes a sair com poucos meses de intervalo), há várias personagens, apartes e situações que emprestam às típicas convulsões políticas e militares de qualquer história de qualquer entidade política uma nota de ironia, que por vezes chega a provocar o riso. Por mais sisudo que se tente mostrar o erudito que narra a história, as alfinetadas que atira a um ou outro dos colegas, os comentários que tece sobre a fiabilidade das fontes que utiliza para a elaboração do seu livro, e até algumas citações dessas mesmas fontes, conseguem ser francamente divertidas.

No entanto, se o livro se lê quase como um romance não se lê exatamente como um romance. Sendo como é uma história (fictícia) sobre um período prolongado, de 100 anos, e apesar de várias personagens nos acompanharem ao longo de dezenas e por vezes de centenas de páginas, não existe aqui propriamente o tipo de protagonista que costuma existir nos romances. Ou por outra, o verdadeiro protagonista desta história é a dinastia Targaryen propriamente dita, não Aegon I, a rainha Alysanne ou qualquer outra das pessoas (e dragões) que passam pelas suas páginas.

Pessoalmente posso dizer que foi bom regressar a Westeros. No processo de tradução dos 10 volumes da série, e de mais uns apêndices, passei lá vários anos da minha vida e os Sete Reinos (a par dos Seis Ducados da Robin Hobb, que também já somam vários anos de trabalho) tornaram-se ao longo desses anos uma espécie de casa virtual, pelo que foi uma espécie de regresso a casa. A uma casa um pouco diferente, sem nenhum dos velhos amigos que lá deixei quando terminei a tradução de Os Reinos do Caos, mas mesmo assim foi agradável conhecer um pouco melhor pessoas e acontecimentos que até aqui só conhecia de ouvir contar, de referências dispersas por aqui e ali, ao longo das milhares de páginas das Crónicas do Gelo e Fogo. E também algumas personagens e factos até aqui desconhecidos.

E só vos digo mais uma coisa, um cheirinho não para este livro propriamente dito, mas para o próximo volume: o Martin é uma delícia a escrever anões.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Em novembro falou-se de...

Aqui temos, pela 11ª vez (e é um espanto que isto esteja quase a completar um ano; o tempo voa), a lista da ficção científica e material próximo que mereceu comentário na internet aberta de língua portuguesa ao longo do mês que passou.

A malta que costuma vir à Lâmpada já sabe o que se segue e já sabe que pode saltar à frente. Vem aí a conversa habitual sobre onde encontrar mais informação sobre o que são estes artigos, que objetivos têm e de que limitações sofrem (no primeiro post da série), sobre o lugar onde se pode encontrá-los a todos, passados, presente e, a seu tempo, futuros (na tag leituras fc) e por fim sobre onde encontrar os comentários que eu tenho a fazer sobre as listas que seguem já a seguir (depois das listas).

Ficção portuguesa:
  1. O Legado de Eros, org. ??
  2. A Nossa Alegria Chegou, de Alexandra Lucas Coelho
  3. Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago
  4. O Homem Duplicado, de José Saramago
  5. Lisboa Oculta, org. Carlos Silva (?)
  6. Tudo Isto Existe, de João Ventura
Ficção brasileira:
  1. As Coisas que Aprendi Depois que eu Morri, de Victoria Aldrin
  2. Desta Terra Nada Vai Sobrar, a não Ser o Vento que Sopra Sobre Ela, de Ignácio de Loyola Brandão
  3. Alien, de Luiz Bras (conto)
  4. Compreendam, Imbecis, de Luiz Bras (conto)
  5. Laboratório Aleatório, de Luiz Bras (conto)
  6. Máquina Macunaíma, de Luiz Bras (conto)
  7. O Robô que Desenha Monstros, de Luiz Bras (conto)
  8. Rodamoinho, Talvez, de Luiz Bras (conto)
  9. The Walking Dead, de Luiz Bras (conto)
  10. Anjos, Mutantes e Dragões, de Ivanir Calado
  11. Mundo Sombrio, de Day Fernandes (3x)
  12. Krystallo, de Raphael Fraeman
  13. Fantástico Brasileiro, org. Bruno Anselmi Mantagrano e Enéias Tavares
  14. O Viajante, de Rafael Marx (conto)
  15. Casulos, de Ricardo Mesquita
  16. King-Poe-Lovecraft, Do Terror ao Horror, org. Rô Mierling
  17. Boas Meninas não Fazem Perguntas, de Lucas Mota
  18. Jardim dos Famintos, de Adams Pinto
  19. Absorção, de Diedra Roiz
  20. Reflexão, de Diedra Roiz
  21. Transmissão, de Diedra Roiz
  22. Deixe as Estrelas Falarem, de Lady Sybylla
Ficção internacional:
  1. À Boleia Pela Galáxia / O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams (2x)
  2. O que Acontece Quando um Homem Cai do Céu, de Lesley Nneka Arimah
  3. Eu, Robô, de Isaac Asimov
  4. O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov
  5. A História de uma Serva / O Conto da Aia, de Margaret Atwood (2x)
  6. O Ano do Dilúvio, de Margaret Atwood (2x)
  7. Faca de Água, de Paolo Bacigalupi
  8. Mentes Sombrias, de Alexandra Bracken (2x)
  9. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (2x)
  10. Uma Sombra Passou por Aqui, de Ray Bradbury
  11. Fúria Vermelha, de Pierce Brown
  12. A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler (2x)
  13. Despertar, de Octavia E. Butler
  14. A Escolha, de Kiera Cass
  15. A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada, de Becky Chambers (2x)
  16. A Sentinela, de Arthur C. Clarke (conto)
  17. Abandonado, de Arthur C. Clarke (conto)
  18. Acidente Espacial, de Arthur C. Clarke (conto)
  19. Antes do Éden, de Arthur C. Clarke (conto)
  20. Ao Centro do Cometa, de Arthur C. Clarke (conto)
  21. Encontro ao Amanhecer, de Arthur C. Clarke (conto)
  22. Fora do Berço, em Órbita para Sempre..., de Arthur C. Clarke (conto)
  23. Grupo de Salvamento, de Arthur C. Clarke (conto)
  24. Quem Está Aí?, de Arthur C. Clarke (conto)
  25. Respire Fundo, de Arthur C. Clarke (conto)
  26. As Borboletas, de Edmund Cooper (conto)
  27. Dia de Juízo, de Edmund Cooper (conto)
  28. O Menhir, de Edmund Cooper (conto)
  29. O Enigma de Andrômeda, de Michael Crichton
  30. Vox, de Christina Dalcher (7x)
  31. Espera Agora pelo Ano Passado, de Philip K. Dick (2x)
  32. Nas Asas do Tempo, de Diana Gabaldon
  33. Uma Coisa Absolutamente Fantástica / Uma Coisa Absolutamente Incrível, de Hank Green (10x)
  34. Aqueles que se Afastam de Omelas, de Ursula K. Le Guin (conto)
  35. Nunca me Deixes, de Kazuo Ishiguro
  36. Flores para Algernon, de Daniel Keyes
  37. Quando as Estrelas Caem, de Amie Kaufman e Meagan Spooner
  38. Celular, de Stephen King (2x)
  39. A Balada do Black Tom, de Victor Lavalle (3x)
  40. Justiça Ancilar, de Ann Leckie
  41. Solaris, de Stanislaw Lem
  42. A Floresta Sombria, de Cixin Liu
  43. Os Contos Mais Arrepiantes de Howard Philips Lovecraft, de H. P. Lovecraft
  44. Criaturas da Noite, de Marie Lu
  45. Jovens de Elite, de Marie Lu
  46. Love Star, de Andri Snær Magnason
  47. Wild Cards, org. George R. R. Martin
  48. Omega, de Jack McDevitt
  49. Anjos Partidos, de Richard Morgan
  50. Destiny’s Road, de Larry Niven
  51. O Dom da Lágrima, de Thomas Oden
  52. Quem Teme a Morte, de Nnedi Okorafor (2x)
  53. The Night Masquerade, de Nnedi Okorafor
  54. 1984, de George Orwell
  55. Medo Clássico, vol. 2, de Edgar Allan Poe
  56. Boneshaker, de Cherie Priest
  57. Clementine, de Cherie Priest
  58. Dreadnought, de Cherie Priest
  59. Ganymede, de Cherie Priest
  60. Jacaranda, de Cherie Priest
  61. Tanglefoot, de Cherie Priest (conto)
  62. The Fiddlehead, de Cherie Priest
  63. The Inexplicables, de Cherie Priest
  64. Máquinas Mortais, de Phillip Reeve (2x)
  65. A Praga, de A. G. Riddle
  66. A Cidade Perdida, de James Rollins
  67. Amnésia, de Jennifer Rush
  68. A Noite dos Mortos-Vidos, de John Russo
  69. Ar, de Geoff Ryman
  70. Frankenstein, de Mary Shelley
  71. A Nuvem, de Neal Shusterman
  72. 20 Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne
  73. Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne
  74. Artemis, de Andy Weir
  75. A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells
  76. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells
  77. Marcas da Guerra, de Chuck Wendig
  78. The Underground Railroad: Os Caminhos Para a Liberdade, de Colson Whitehead
  79. Interferências, de Connie Willis (2x)
  80. Sign of the Unicorn, de Roger Zelazny
Não-ficção portuguesa:
  1. José Saramago - Rota de Vida, de Joaquim Vieira (2x)
Não-ficção internacional:
  1. 21 Lições Para o Século 21, de Yuval Noah Harari
  2. Homo Deus, de Yuval Noah Harari
  3. Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços, de Kazuo Ishiguro
Novembro vem muito na sequência de meses anteriores. Ainda sem o grupo leiturtugas a funcionar, e ainda sem contributos aqui da Lâmpada, os seis comentários a ficção portuguesa voltaram a ficar bem abaixo dos 10 que me parecem o mínimo aceitável, e a maioria debruçou-se sobre livros que só roçam ao de leve pela ficção científica. Mesmo assim, se contarmos também com as duas críticas de imprensa a uma biografia de um certo autor nobelizado que escreveu FC e coisas próximas à FC, já temos um número que começa a ser razoável. Em todo o caso, isto irá começar a melhorar no próximo mês, espero. Pelo menos a Lâmpada irá dar um contributo para que melhore.

Quanto ao Brasil, o número de títulos comentados, 22, é algo enganador, pois 8 desses títulos correspondem a contos e vieram aqui da Lâmpada. Mesmo assim, os 14 que sobram constituem uma boa melhoria relativamente aos 10 do mês passado (que sem a Lâmpada seriam só 9). Destaque para Luiz Bras, com 7 comentários a 7 títulos, todos vindos da Lâmpada e todos contos, para Day Fernandes, que graças a uma campanha de marketing (livros enviados para leitura) conseguiu obter 3 comentários a um só livro e para Diedra Roiz, também com 3 comentários mas a outros tantos livros.

A ficção traduzida tem menos 8 títulos do que no mês passado: 80. Mas isto não quer necessariamente dizer menos comentários, pois dois desses títulos, sozinhos, somaram 17 comentários. Sim, dois títulos de ficção traduzida foram tão comentados como toda a ficção brasileira que não passou pela Lâmpada e receberam quase o triplo dos comentários dedicados à ficção portuguesa. Se isto não é revelador, não sei o que será. São esses títulos o romance de Hank Green, que se no mês passado já tinha batido recordes com 9 comentários este mês voltou a batê-los com 10, e a distopia de Christina Dalcher, alvo de 7 opiniões.

Além destes dois autores, destaque também para Arthur C. Clarke, alvo de 10 comentários a outros tantos contos, Cherie Priest, alvo de 8 comentários a outras tantas obras e Margaret Atwood, alvo de 4 comentários distribuídos por duas obras. Tanto Clarke como Priest devem estes números a uma única pessoa cada. No caso de Clarke, foram passados em revista os contos que influenciaram o clássico 2001; no de Priest foi lida e comentada uma série completa.

E para o mês que vem haverá mais, embora talvez um pouco mais tarde, que o início do ano é época de muitos balanços.

Lido: Por Ti, Pequenina

Não sei se Por Ti, Pequenina foi conto escrito na mesma altura de Frio, Cada Vez Mais Frio, eventualmente parte do mesmo desafio (sei que a Carina Portugal participou num projeto que tinha numa das vertentes a produção de ficções sujeitas a tema e é possível que esta história esteja relacionada com isso). Mas parece-me claro que, quer tenha sido separada no tempo, quer seja contemporânea, a inspiração é idêntica.

De novo temos um tom delicodoce, a aproximar-se perigosamente da lamechice, uma criancinha moribunda e um brinquedo animado de uma vida secreta. Mas este conto pareceu-me um pouco melhor, por conseguir evitar até certo ponto algumas das armadilhas que este tipo de história tende a armar a quem as faz. Não muito melhor, até porque as tais fragilidades na escrita da autora continuam a cá estar, mas um pouco. O final é menos previsível, por exemplo, e o tom de tragédia, que também aqui é pesado, acaba por ser um pouco aliviado. Este é um conto mediano, bastante pior que o antecedente mas melhor que alguns dos outros contos do livro.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Lido: The Last Akialoa

A Fantasy & Science Fiction tem o costume de fazer anteceder as histórias que publica por pequenas introduções escritas, presumivelmente, por um ou outro dos editores. Costumam ter alguma utilidade para enquadrar os textos que introduzem, embora por vezes sejam um pouco redundantes. E de outras vezes, mais raras, são algo discutíveis.

Esta, por exemplo, é algo discutível. Começa por aconselhar os puristas a passar à frente, e explica que o faz porque esta história de Alan Dean Foster não é nem ficção científica nem fantasia, uma vez que se podia perfeitamente passar hoje.

E eu, provavelmente por não ser purista, discordo. The Last Akialoa é uma história passada numa região de chuva intensa e persistente numa das ilhas havaianas, um pântano situado na caldeira de um vulcão extinto. As personagens são ornitólogos (e um guia) que penetram nessa região à procura de uma ave que se julga poder estar extinta, o akialoa. Problema: expedições anteriores resultaram invariavelmente no desaparecimento e presumível morte de parte da expedição, porque as condições são de tal forma inóspitas que nem as comunicações modernas lá funcionam nem a tecnologia de busca e salvamento lá consegue chegar com um mínimo de eficácia.

E já sem contar com uma cena, perto do desfecho, que pode perfeitamente servir para enquadrar esta história tanto na fantasia (se for essa a perspetiva do leitor) quanto no fantástico todoroviano (pois existe uma clara ambiguidade quanto à realidade ou irrealidade do que é descrito), uma coisa é certa: existe um elemento claro de tensão e morte iminente que pode perfeitamente ser encarado como horror psicológico, e existe uma referência que me pareceu igualmente clara a um conto de ficção científica de Bradbury, A Longa Chuva. Pelo que a inclusão da história numa revista como esta faz todo o sentido. Nada a ver com a crónica de viagem da outra senhora num dos números da Paradoxo (e esta devem contar-se pelos dedos duma mão os que entenderão).

Mas isso, no fundo é secundário. O que é realmente importante é saber se o conto é bom. E a meu ver até é, mas não muito. Consegue criar a atmosfera de tensão pretendida, é contado com a mão segura de um autor carregadinho de experiência, mas falta-lhe um certo... como explicar? Falta-lhe conseguir que o leitor (ou este leitor, pelo menos) mergulhe realmente na história, se interesse realmente pelo destino das personagens e/ou pela descoberta que estas pretendem fazer. E falta-lhe também ser menos previsível, pois o desfecho vai tendo demasiados prenúncios ao longo da narrativa.

Contos anteriores desta publicação:

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Lido: Ministério da Verdade

E para concluir o livro, uma pequena narrativa metaficcional, na qual Luis Bras, autor, se converte também em Luis Bras, personagem.

E este Ministério da Verdade é mais um pequeníssimo conto de ficção científica. Bras, personagem, está a escrever as últimas palavras do livro quando recebe um aviso no écran a informá-lo de que tudo não passa de um glitch cósmico. E assim, muito dickianamente mas com uma economia de palavras que é mais uma vez notável, põe em causa a realidade, incluindo a própria realidade do leitor. A realidade consensual, no fundo.

E bom, é? Bem, não creio que funcionasse noutro contexto qualquer: é daqueles contos intimamente ligados à publicação a que pertencem. Mas no contexto deste livro funciona em pleno; parece-me que dificilmente se conseguiria arranjar melhor forma para lhe pôr ponto final. Portanto sim, é bom.

Textos anteriores deste livro:

Lido: Pintado a Sangue

Deixando para trás os contos ultracurtos, Carina Portugal regressa a histórias mais elaboradas com este Pintado a Sangue. E regressa bastante bem.

E regressa levando-nos à Rússia, aparentemente oitocentista, onde uma jovem toma posse de uma casa onde encontra múltiplos avisos de assombração. Mas ela, prática, cética e desembaraçada, não lhes liga. Aqui chegado, o leitor pode ter desculpa se imaginar que já sabe onde a história vai dar: a uma história de fantasmas clássica, na qual o ceticismo da rapariga é destruído por um paroxismo de terror sobrenatural. Mas não é esse o caminho que a autora segue, e é muito por isso que este é um bom conto.

Não que as fragilidades na escrita de Carina Portugal, já por várias vezes mencionadas, tenham desaparecido. Elas estão lá, ainda que atenuadas, incluindo alguns detalhes em que só quem saiba como as coisas funcionam chega a reparar. Por exemplo, a protagonista recebe o nome de Selena Yelizarov, o que me informa que a Carina não sabe que os apelidos russos são alterados consoante o género. Um homem poder-se-ia chamar Yelizarov, mas uma mulher teria de ser Yelizarova.

Mas a narrativa é segura, o desenvolvimento da trama mantém com eficácia o mistério que gera a curiosidade e a vontade de continuar a ler, as várias curvas que o enredo vai fazendo trazem quase sempre alguma surpresa mas mesmo assim fazem todo o sentido no contexto da história, e o final é bastante bom. Este é, com falhas e tudo, um dos melhores contos deste livro.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Lido: O Senhor das Janelas Verdes

Já o tinha dito e, porque vem a propósito, repito: muitos contos populares soam a histórias muito antigas que ao longo dos anos foram incorporando uns elementos e perdendo outros, e um subconjunto desses contos parece ter ganho uma camada mais ou menos espessa de mitologia cristã. É o caso deste O Senhor das Janelas Verdes que além disso, não sei se por influência de Adolfo Coelho (mas duvido), até que não é mau enquanto literatura propriamente dita.

A história é mais uma das muitas em que há uma princesa casadoira mas caprichosa, que só aceita casar com quem seja capaz de satisfazer uma certa condição (e é curioso que tantas histórias tradicionais apresentem princesas caprichosas, quando a história as mostra mais sujeitas aos caprichos das conveniências políticas dos pais que outra coisa). Mas quando lhe aparece o Senhor das Janelas Verdes a satisfazer essa condição a princesa mesmo assim não fica satisfeita, apela à Nossa Senhora, esta intervém a seu favor e após mais algumas peripécias tudo acaba em bem com a princesa casada com outra pessoa (uma pessoa que lhe dá o valor que merece, isto é, que a ama por ser bela... e assim se deseducam as criancinhas...) e feliz.

Há neste conto uma elaboração da prosa que não é muito comum neste livro, mas não deixa de ser um conto algo desconexo, em que o elemento cristão parece enxertado um pouco à pressão para contentar o pároco da aldeia (OK, ele foi recolhido em Coimbra... mas percebem a ideia). Não me parece ser dos contos mais interessantes e/ou que mais pano deem para mangas que aqui se podem encontrar.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 1 de dezembro de 2018

Leiturtugas: pontapé de partida

Chegou dezembro, portanto vá, vamos lá arrancar com isto.

Como ninguém mais comentou sobre o nome, decido eu e fica Leiturtugas. Já pus uma busca permanente no google; espero que dê com o que for sendo publicado.

Para o logotipo, tive uma ideia que é capaz de ficar engraçada, mas vamos a ver quando e se consigo arranjar tempo e habilidade para a pôr em prática. Para já, arranca mesmo sem logo.

O meu passo seguinte será criar uma página específica para este projeto aqui na Lâmpada. Ainda não decidi ao certo o que lá vou pôr, mas uma breve explicação do projeto e uma lista de participantes parecem-me um bom ponto de partida. Vou começar por pôr lá quem já declarou vontade de aderir (eu, o Artur "Intergalactic Robot" Coelho e a Cristina "Rascunhos" Alves, para já... houve mais pessoas a manifestar interesse mas não a dizer taxativamente que sim, vão participar). Seria bom que quem se quisesse também juntar me informasse disso para que o/a acrescente. E, já agora, me dissesse se pretende cumprir os mínimos do Leiturtugas ou vai apontar à versão light, a Leiturtuguinhas.

No que toca a divulgação, estou a contar fazer um post de apanhado por semana, provavelmente aos domingos. Imagino que para começar seja suficiente (até calculo que haja semanas sem nada, e portanto sem post), e depois logo veremos.

E mais uma nota: isto não é projeto de portugueses, é projeto para a leitura de ficção portuguesa. Se algum não-português quiser aderir, é totalmente bem-vindo.

E está aberta a coisa. Toca a ler.

Lido: Dia da Marmota

Há uma série de obras de vários géneros fantásticos, mas sobretudo de ficção científica, que lidam com bolsas de tempo cíclico. Sabem como é? Aquelas situações em que as personagens são forçadas a repetir uma e outra vez o mesmo dia, semana, mês, ano, etc., geralmente tendo disso consciência, por vezes inconscientes do facto à parte uma incómoda sensação de déjà vu. É um tema comum o suficiente para ter chegado à televisão e ao cinema e tem uma relação por vezes íntima com as viagens no tempo.

Luiz Bras serve-se da ideia neste Dia da Marmota, cujo título é referência a uma festa norte-americana em que se usa marmotas como uma espécie de oráculos sobre a duração do inverno. Não que essa festa tenha grande influência na narrativa, para além de esta usar uma marmota como uma espécie de senhora do tempo. O conto pouco mais é do que uma sucessão de ciclos de cinco minutos que se repetem milhares de vezes sem que ninguém disso se dê conta.

É muito difícil fazer-se isto literariamente de forma que resulte. Conheço vários exemplos que não resultaram. Mas Bras consegue fazer com que a sua historinha resulte, em parte por encaixar a ideia em apenas duas páginas de texto, e por lhe somar um muito Borgesiano elemento de recursividade. Não creio que este seja um dos seus melhores contos, mas é bom.

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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Lido: A Corte do Ar

Há livros que têm tudo para dar certo. Um cenário imaginativo, personagens com potencial, uma história igualmente cheia de potencialidades, por aí fora. Basta arranjar um bom fio condutor, juntar as peças num todo coerente, descobrir a dimensão certa para esse todo melhor fazer sentido (conto? romance? série?) e escrever. Escrever bem.

Há livros que têm tudo para dar certo e dão. Outros, talvez em maior número, têm tudo para dar certo e apesar disso não dão. Há qualquer coisa que falha, por vezes várias qualquer-coisas, e o resultado fica aquém, por vezes muito aquém, das potencialidades que teria à partida. E quando isso acontece, o sabor a potencial desperdíçado que fica ao terminar a leitura é francamente desagradável.

A Corte do Ar (bibliografia) tinha tudo para dar certo. Uma sociedade complexa onde coexistem, com pessoas aparentemente iguais a qualquer de nós, criaturas diversificadas, incluindo uma espécie de caranguejos inteligentes e grandes robôs movidos aparentemente a vapor; vários países, cada um com a sua própria organização política e social, umas mais absurdas que outras, umas mais semelhantes que outras a caricaturas de sistemas políticos vindos direitinhos do mundo real, e dentro deles fações diversas; uma tensão subjacente que vai cresscendo à medida que os interesses e propósitos de um verdadeiro exército de personagens vão chocando, e por aí fora. Em suma, uma ambientação rica e imaginativa.

Este livro de Stephen Hunt tinha tudo para dar certo. A verdade, porém, é que não dá.

Porquê? Por vários motivos, mas sobretudo por questões relacionadas com o enredo e com a escrita propriamente dita.

O enredo tem vários problemas. O principal, a meu ver, é contrastar sobremaneira com o caráter imaginativo da ambientação. Por um lado é, na sua essência, demasiado simples: dois jovens que não se conhecem são perseguidos ao longo de meio mundo por serem especiais, o que vai sendo deixado claro aos poucos. Apesar das peripécias, a história é absolutamente previsível, pois é claro desde o início que os dois vão acabar por se encontrar e vão ser fulcrais para um enfrentamento final mais ou menos apocalíptico. E as peripécias são demasiadas vezes desleixadas, pois Hunt usa e abusa do famigerado deus ex-machina sempre que se mete nalgum assado de que não sabe bem como sair. A impressão geral que fica é de um enredo construído um pouco em cima do joelho, deficientemente pensado e pior planeado.

A escrita tem problemas que a meu ver são piores. Nos diálogos, sobretudo, Hunt usa um tom de tal forma artificial que chega a tornar o texto quase insuportável. As personagens não conversam: discursam. Não dizem coisas: soltam diatribes. É possível que em parte isso seja uma tentativa de tornar o texto mais próximo de um certo tom vitoriano em voga entre uma parte dos escritores que se dedicam ao steampunk, mas a verdade é que não resulta (e a tradução não ajuda): o resultado, longe de ser evocativo, é extraordinariamente maçador o que, num livro com mais de 500 páginas, é fatal.

Tudo somado, este foi um livro custoso de se ler. Como sou teimoso e não gosto de deixar livros a meio (é preciso serem mesmo muito maus) cheguei até ao fim, mas foram várias as ocasiões em que pensei que se calhar me estava a apetecer ler qualquer coisa e, quando olhava para ele, ou desistia ou me punha a ler contos em outros livros. Não o posso considerar mau porque a ambientação é rica o suficiente para lhe dar um certo encanto, mas sem dúvida digo que o achei francamente aborrecido e em parte por isso demorei longos meses a acabá-lo (e também me atrasou outras leituras; foram mais as vezes que perdi as ideias de ler do que aquelas em que me lancei aos contos). A palavra mais correta para o descrever é, suponho, insatisfatório.

Este livro foi comprado.

Lido: O Preço dos Ovos

O Preço dos Ovos é das pouquíssimas histórias incluídas neste livro de Adolfo Coelho que têm todo o ar de caso acontecido, mesmo que possivelmente alterado com o passar dos anos e a sucessão de contadores (quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto, e coiso e tal).

Fala de uma dívida, de um credor que se tentou aproveitar da dívida para obter aquilo a que não tinha direito, e da forma astuta como o devedor se livrou da ameaça que sobre ele pairava. Tudo sem magias, intervenções divinas ou coisas do género. Tudo em plano realista. E tudo a ressoar a coisa não só possível, não só acontecida, mas bem conhecida. Afinal, dívidas e credores a tentar aproveitar-se das dívidas para obter aquilo a que não têm direito são o pão-nosso de cada dia na vida das nações.

Esta é, pois, uma história que pese embora a sua ambientação rural e antiga facilmente se adapta aos dias de hoje e que facilmente reconhecemos. Uma história interessante, apesar de eu preferir quando elas trazem consigo algo fora do comezinho quotidiano.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Lido: A Cartola Mágica

A Cartola Mágica é o último dos minicontos que Carina Portugal preferiu aglomerar num conjunto de minificções. E é mais um conto humorístico não particularmente bem sucedido, embora desta vez não seja o título a estragar o conjunto.

O protagonista é um mágico que, como a história é de fantasia, tem mesmo poderes. Mas mesmo assim o truque de magia corre mal (já agora, se o mágico tem mesmo poderes, faz "truques" porquê? Não devia fazer magia propriamente dita?) à conta de um coelho caprichoso e de umas quantas palavras impensadas, proferidas no calor da irritação, mas cheias de consequências. Porque, lá está, o mágico tem poderes.

Percebe-se que a ideia básica desta história é mostrar, de forma divertida, como aquilo que se diz impensadamente tem consequências. Mas o tamanho do conto não se adequa bem à abordagem seguida e ao que se quer com ele dizer. Precisava de mais espaço, no mínimo o dobro, provavelmente mais, para construir alguma tensão e depois rebentá-la com alguma punchline eficaz. Mas não tem nada disso, e portanto fica-se pela ideia e pouco mais. Não é mau, atenção. É... chocho.

Textos anteriores deste livro:

Lido: Pulp Feek, nº 2

Em março deste ano falei (muito atrasado) da opinião com que fiquei após a leitura do número 1 da Pulp Feek, e muito do que aí digo aplica-se também e esta Pulp Feek nº 2. Em particular, o que digo sobre a ideia geral do periódico, sobre a ideia de serializar quase todo o conteúdo e sobre a abordagem pulp. Nesse mesmo post prometo também para o número dois um desenvolvimento maior da ideia da publicação e, como o prometido é devido, aqui está ele.

Quando falei do nº 1 disse que a ideia base desta publicação era, por um lado, abordar as histórias de uma forma pulp e, por outro, publicá-las maioritariamente de forma serializada. Acrescentei que havia ainda um terceiro elemento, pois o comentário ao número 1 não era suficiente para que este elemento se percebesse sem grandes explicações adicionais. Agora, se vos disser que o número 1 contém apenas histórias de fantasia épica e espada e magia, ao passo que este só contém histórias de ficção científica, já se torna simples: cada número é especializado no género que cobre.

E isso tem como consequência que a serialização, que noutra publicação qualquer se faz em números consecutivos, aqui não. Para se ler a sequência da história x é necessário esperar até ao número seguinte dedicado ao género da história x, o que torna a demora muito maior e exacerba todos os defeitos da ideia de serializar ficção. Se a ideia de subdividir uma publicação periódica em edições especializadas não é necessariamente má, a ideia de o fazer numa publicação que coloca um foco grande na serialização da ficção é péssima.

Consequentemente, claro que não vou comentar os dois inícios de contos que aqui se encontram, além de dizer que o primeiro, do Alaor Rocha, é prometedor, pois a qualidade da escrita, pelo menos, parece estar vários degraus acima dos outros textos que li até agora (parcial ou completamente) nesta publicação. Na verdade, os textos de ficção pareceram-me em geral mais interessantes do que os do número 1. Mas lá está: dois deles, sendo apenas inícios, pouco contam para as contas globais. E como em sentido inverso os artigos me pareceram mais fracos do que os do primeiro número, a apreciação geral deste número não é boa. Também não é má, propriamente, mas...

Eis o que achei do único conto completo desta edição:
Esta publicação esteve disponível gratuitamente online, aqui, mas parece já não ser possível encontrá-la.