quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Lido: When the Great Days Came

Sempre achei especial piada a contos que parecem ser uma coisa mas no fim, ao fazer-se as contas, se revelam outra bem diferente. Nem a todos, sublinhe-se: às vezes o resultado é demasiado forçado, e esses raramente têm motivos de interesse suficientes para serem resgatados à mediocridade. Mas quando a reviravolta é total e tudo faz pleno sentido... ah!

When the Great Days Came, do recentemente falecido Gardner Dozois que conhecemos muito melhor na qualidade de editor (esteve longos anos à frente da Asimov's) e antologista (com muitas antologias em seu nome, incluindo várias, organizadas em colaboração com George R. R. Martin, que têm visto publicação recente em português) mas também era escritor, parece à primeira vista ser apenas uma história sobre ratazanas. Sobre a sua vida nas zonas esconsas — e não só — de Nova Iorque, sobre o que fazem, por onde andam, como sobrevivem. Tudo escrito com o detalhismo típico da ficção científica hard, é certo, mas sem que nada pareça realmente ser ficção científica: nada na atividade das ratazanas que protagonizam a história é minimamente futurista, e esta podia tão facilmente passar-se no futuro como no presente ou no passado. E faz sentido, afinal: a vida das ratazanas hoje em dia não se diferencia muito da vida das ratazanas de 1600 ou, imagina-se, em 2600.

Nada, isto é, até que um acontecimento que não revelarei porque dele depende todo o desfrute da história força o leitor a uma mudança total de perspetiva. E surge o "Ah, sim! Isto realmente é FC".

Este conto, bastante curto, é daqueles de final surpresa, um conto de ficção científica engenhoso (que dispensava por completo a introdução que os editores da revista resolveram colar-lhe, já agora) e bem construído. Bom. Dozois sabia do seu ofício.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: Solarpunk

Há uns anos, que já se vão alargando, o Gerson Lodi-Ribeiro e o Luís Filipe Silva lançaram as mãos à organização de uma antologia de steampunk que pudesse trazer para o espaço lusófono os temas e perspetivas do steampunk internacional. A iniciativa foi pioneira por vários motivos, entre os quais ser transatlântica na própria organização do livro e não apenas nas obras que dele viriam a constar, coisa em que já existe alguma tradição, e o resultado, a antologia Vaporpunk, teve bastante sucesso.

Tanto sucesso, na verdade, que a editora decidiu alargar o conceito para fora do vapor, agora só sob a organização do Gerson. Apareceram assim mais duas antologias, uma sob a égide da combustão interna, a Dieselpunk, e outra dedicada às energias renováveis, esta Solarpunk (bibliografia). Participei nas duas primeiras com histórias longas ambientadas no mesmo universo ficcional e comecei a escrever uma história também para esta, também parte da mesma série, mas a história quis seguir outros caminhos (está mais próxima de atompunk que de solarpunk) e acabei por não participar. Na verdade, acabei até por nem terminar a história. Parece que ter um objetivo concreto me é bastante útil no que toca a escrever.

(Um parêntesis: sublinhando o sucesso de todo o projeto, a editora, a Draco, veio mais tarde a publicar um outro volume de Vaporpunk, mas agora exclusivamente brasileiro e já sem o Gerson à cabeça.)

Como dito acima, estas são histórias dedicadas às energias renováveis, mas vão mais longe do que isso. São quase todas histórias sobre o futuro, o nosso ou futuros alternativos, nos quais o planeta se libertou das formas de produção de energia limitadas pelos recursos existentes e passou a sobreviver exclusiva ou primordialmente por intermédio de alguma forma de energia renovável. Curiosamente, a história que o João Ventura publicou na Vaporpunk já era um pouco sobre isso. São portanto histórias de ficção científica, de um cariz que à partida se poderia supor otimista, porque a sustentabilidade energética é um dos garantes de um futuro minimamente decente, mas que raramente o é de facto. Nada de mal existe nisso, naturalmente, mas não deixa de ser curioso que assim seja.

Globalmente, a antologia deixou-me um pouco insatisfeito. À parte a primeira história e a última, raras foram as que me tivessem parecido realmente boas, ficando-se a maioria por uma mediania totalmente legível, sim, mas pouco entusiasmante, e havendo mesmo uma que achei fraca. Como é óbvio, entra aqui a conversa do costume sobre a publicação (e a leitura) valer a pena pelos bons contos e novelas que contém: sobretudo o de Gerson Lodi-Ribeiro e o de Carlos Orsi, mas também os de Telmo Marçal e de André S. Silva. E também é verdade que muitas vezes o que mais prejudicou a qualidade final das histórias foram elementos de concretização que não me agradaram, sendo os conceitos, as ideias de base, quase sempre bastante interessantes, o que também é fator a ter em conta. Mas a verdade é que esperava mais. É o problema das expetativas: quando não são inteiramente correspondidas instala-se a desilusão.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro foi uma oferta do organizador.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Lido: Corpo, Alma e Coração

Parece-me que reparei num padrão nestes contos de Carina Portugal. Quanto mais despretensioso é o conto, quanto mais descontraído e divertido pretende ser, menos a autora corre riscos com a linguagem e portanto menores são as probabilidades de esses riscos correrem mal. Pelo caminho inverso, quanto mais pretende usar a linguagem como elemento de efeito mais ou menos poético, mais as fragilidades que mostra no domínio do português vêm ao de cima e o resultado, longe de ficar melhor, fica pior. Às vezes bastante pior.

De resto, não é caso único; é fenómeno comum em escritores pouco experientes, que tentam ocultar a inexperiência elaborando a prosa sem se darem conta (também por causa dessa mesma inexperiência) de que ao fazê-lo só conseguem realmente sublinhá-la.

Certamente já terão compreendido que é isso mesmo o que acontece com este Corpo, Alma e Coração, conto em que o fenómeno é algo exacerbado pelo contraste que faz com a história que o antecede no mesmo livro. Enquanto A Menina que não Gostava de Doces funciona bem com a sua abordagem descontraída e bem-humorada ao ato de contar a história, Corpo, Alma e Coração é um conto sobrecarregado com palavras que procuram causar terror sem realmente conseguirem fazê-lo, em parte porque por vezes são mal usadas. Exemplo, um de muitos possíveis: "Aos meus olhos pareceu tudo tão lento, mas na verdade não demoraram mais do que um instante de segundo." É uma frase que abre um parágrafo, portanto nada existe que explique o plural de "demoraram" quando a referência é o singular de "pareceu tudo". E também nada existe que justifique a expressão "instante de segundo", pois um instante é sempre coisa instantânea em si mesma e aquele "de segundo" não está ali a fazer nada. Um instante não é uma fração; esta sim, é sempre de alguma coisa e só se sabe se é grande ou pequena com a referência da coisa que fratura.

Trata o conto de um sacrifício, não se percebe ao quê e porquê. Estritamente falando não seria necessário perceber-se, pois a história foca-se no medo do protagonista, atirado para uma situação mortífera que não tem nenhuma esperança de controlar (este, de resto, parece ser tema recorrente nestas histórias), mas na sequência de alguns dos contos anteriores isso faz com que acabe por reforçar a impressão de falta de contexto de que eles sofrem. À parte esse pormenor, no entanto, o que o conto tem de melhor é o ambiente, seguido de perto pelo enredo, mas a verdade é que a concretização deixa bastante a desejar. Este é, de forma clara, o mais fraco dos contos deste livro até agora.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Lido: O Boitatá com Olhos de Césio

Se a edição de ficção científica propriamente dita é relativamente rara na língua portuguesa, especialmente quando falamos de originais, não de traduções, a edição de livros de um caráter mais ensaístico total ou parcialmente dedicados à ficção científica é pouco menos que inaudita, pelo menos fora do âmbito de teses de licenciatura ou doutoramento. Acontece raríssimas vezes em círculos académicos, não acontece quase nunca fora deles.

E quando acontece é quase sempre por intermédio de edições de autor, em papel ou, o que é mais frequente desde há alguns anos a esta parte, em formato eletrónico. Caso deste O Boitatá com Olhos de Césio, de Lúcio Manfredi, um PDF de 86 páginas publicado em 2003 sob a chancela virtual criada pelo próprio autor, a Metaxy, no qual ele compilou 15 artigos e críticas previamente publicadas nos fanzines brasileiros e que disponibilizou gratuitamente na web (o livro entretanto parece ter-se sumido; não o encontrei em lado nenhum).

E tem o seu interesse, para quem gosta deste tipo de coisa, mas também tem defeitos sérios. O principal? Uma forte tendência para a polémica estéril que esvazia alguns destes textos do interesse que poderiam ter, transformando-os mais em ataques quase ad-hominem a inimigos pessoais (e figadais) do que propriamente em ensaios minimamente objetivos. Servirão para afagar o ego do autor e irritar os dos visados, mas para o leitor comum que não seja propriamente amigo daquela muito humana tendência para parar para ver o acidente tornam-se chatos, bocejantes, totalmente dispensáveis.

Felizmente só alguns destes textos sofrem desta enfermidade, e alguns dos outros são realmente interessantes, umas vezes por causa da perspetiva adotada pelo autor, outras vezes apesar dela. É que Manfredi tem tendências místicas (ele provavelmente discordará), é dickiano naquilo que Philip K. Dick tinha de mais extranatural, irracionalista (de novo, ele provavelmente discordará), e por isso vê a realidade sob esse prisma. Ou melhor, as coisas e não a realidade, porque esta é para ele inerentemente duvidosa. E todos os textos estão imbuídos desta ideologia, a qual por vezes os enriquece mas a meu ver de outras vezes os empobrece porque os assemelha àqueles enormes castelos de cartas filosóficos que por mais elaborados e complexos que sejam se desmoronam se e quando um mero sopro fizer ruir alguma das suas premissas básicas.

Mas existe quase sempre a atravessar tudo um elemento de erudição, de coisa pensada. À parte as polémicas, que parecem quase sempre esgotar-se em si mesmas e seguirem pelos caminhos que o autor achou mais convenientes para construir uma oposição ao adversário, há aqui pouco de gratuito. Por mais estrambóticas que me pareçam, e parecem muitas vezes pois, sendo como sou racionalista, tenho uma opinião solidamente negativa sobre cabalices e gnosticismos e outros delírios do género, as opiniões do autor mostram quase sempre bases tão sólidas quanto o é a ideologia que o anima. E isso não só tem o seu valor intrínseco como por vezes consegue levá-lo por caminhos realmente interessantes e para mim inesperados.

Quem frequenta regularmente a Lâmpada facilmente suporá que peguei neste ebook principalmente para ver o que nele poderia existir com relevância para o Bibliowiki, e supõe corretamente. Já esquecido do que me levou a guardá-lo no disco do meu computador, esperava ficção, talvez contos, talvez uma mistura de ficção e não-ficção. Não foi o que obtive, mas o conteúdo deste ebook tem relevância para o Bibliowiki. Artigos sobre ficção científica, sobre José Saramago, sobre Fábio Fernandes, sobre Heinlein, sobre o figadal inimigo Roberto Causo, sobre vampiros na literatura, etc., encaixam certamente lá. Só terei de decidir ainda o que considerar resenha (o wiki não acolhe resenhas nem críticas pouco elaboradas; é inviável, há demasiadas) e o que considerar artigo ou ensaio. Mas isso pode ficar para depois.

Para já fica uma leitura com o seu interesse, que não me terá agradado assim muito mas que também não deixou de agradar.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Lido: Ficções de Guerra

Volta e meia, a Ficções interrompia o fluxo normal de edições para publicar números especiais, temáticos, os quais eram em tudo iguais aos restantes números da revista à parte esse pequeno detalhe; de nos números normais a Ficções era, em essência, um livrinho com 150 a 200 páginas, uma antologia de contos diversificados, nos números especiais, como este Ficções de Guerra, era uma antologia temática com um número de páginas equiparável.

Sendo uma espécie de antologia temática, um dos aspetos relevantes na avaliação é o grau de adequação ao tema de cada um dos contos constituintes. E neste caso, com uma notável exceção (O Uso da Força) que me continua a parecer muito deslocada, todos os contos se ajustam claramente ao tema. Pouco a opor por esse lado, portanto.

No que toca à qualidade, e mais ainda à satisfação do meu gosto pessoal, é um número um bom bocado irregular. Mas há dois contos muito bons, o do Graham Greene e o do Andrei Platónov, e portanto entra aqui a tal conversa do costume sobre valer a pena se houver contos bons e patati e patata. Mesmo com a repugnância que me causou a história do Kipling. A parte portuguesa, que é muitas vezes a que mais me interessa por aquilo que me traz quase sempre de conhecimento de autores que desconhecia ou de reencontro de autores há muito afastados das minhas leituras e que já me tem trazido boas surpresas, é que foi desta feita bastante fraca: um Herculano ridículo e um Garcia arrastado não me deixaram nada satisfeito.

Por fim, o fantástico. Julgo que todos os números da Ficções que li até agora incluem pelo menos um ou dois contos passíveis de inserção em algum dos géneros fantásticos, mas este quase não inclui. E com este quase quero dizer que só com alguma boa vontade interpretativa o conto de Villiers de l'Isle-Adam pode considerar-se fantástico, tendo os restantes um cariz claramente realista. É pena. É que não é preciso escrever-se de forma realista para se falar de guerra, e há uma ampla literatura de guerra nos géneros fantásticos. Mas vamos buscar um exemplo ao cinema para tornar claro para o máximo de pessoas o que eu quero dizer: um dos melhores filmes de guerra que conheço é o Apocalypse Now, do Coppola. E esse filme simplesmente não seria o mesmo, teria um impacto incomensuravelmente menor, sem os fortíssimos elementos de horror que contém. Ora, também há literatura assim, tal como existe literatura fantástica que aborda a guerra por outras vias. Mas ela está ausente desta publicação. E isso contribui para eu achar este número da Ficções bonzinho, sim, pois afinal de contas inclui dois contos bem acima da média, mas longe de ser tão bom como podia ter sido.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Esta revista foi comprada.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Lido: A Menina que não Gostava de Doces

Há algo de Ray Bradbury neste conto de Carina Portugal. Não sei se a inspiração existe, se é coincidência, mas ao ler esta história protagonizada por uma jovem bruxa a interagir com os humanos em pleno dia das bruxas (ou num dia das bruxas muito americanizado, muito halloweenico) lembrei-me vivamente das histórias bradburianas em que se torna ternurento todo o imaginário macabro que rodeia essa festa, com as suas crianças sonhadoras, com os seus monstros de bom coração e frequentemente incompreendidos, até mesmo com o seu elogio da imaginação lendária enquanto determinante de humanidade.

Sim, A Menina que não Gostava de Doces é uma bruxa, o que fica claro bem depressa assim que se começa a ler o conto. Este, uma fantasia urbana ternurenta e bem-humorada, descreve, segundo o ponto de vista dela, a sua primeira experiência com o dia das bruxas e o choque cultural que vai tendo à medida que se vai apercebendo de que aquilo não tem nada a ver com o que estava à espera. Para que quer ela os doces? O que lhe interessa é pregar partidas. Mágicas, de preferência.

É um conto divertido e bem escrito, com um enredo seguro que apesar de tentar manter algum mistério quanto à natureza da personagem não se esforça muito para isso e não depende desse mistério para funcionar. Um conto quase desprovido das fragilidades que tenho vindo a apontar à autora. Provavelmente o melhor do livro até agora.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Lido: Xochiquetzal em Cusco

Tal como aconteceu com Xochiquetzal e a Esquedra da Vingança, conto do qual este é sequência direta, também Xochiquetzal em Cusco (bibliografia) já tinha sido lida por mim há alguns anos. Ainda antes de ser publicada, na verdade, pois quem seguir o link ali em cima verá que ela viu pela primeira vez a luz do dia na antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados, que organizei com o Luís Filipe Silva. Sou, portanto suspeito: já antes tinha gostado o suficiente deste texto para o escolher entre dezenas de outros para uma antologia (e na verdade sempre o achei um dos melhores contos contidos nesse livro), não deverá ser grande admiração que continue a gostar dele hoje.

Mas esta história não é a que eu li.

Oh, é parecida. O enredo é basicamente o mesmo, a voz narrativa também, o estilo idem aspas. Mas Clara Cristina Pereira, o pseudónimo, cede agora lugar a Gerson Lodi-Ribeiro, o ortónimo, e com esse chega-para-lá vem uma expansão bastante considerável do texto que, sendo originalmente uma noveleta (embora grande), entra agora sem qualquer dúvida no campo das novelas.

Relata a novela a intervenção portuguesa (e "lusíada", termo usado para designar os vassalos de Portugal) na guerra civil que dilacerou o Império Inca quando o imperador Huayna Capac morre e dois dos príncipes, Atahualpa e Huáscar, lutam pelo poder. E aqui tanto faz falar-se da linha histórica alternativa postulada neste livro como na linha histórica real, pois a guerra existe em ambas, gerada pelos mesmos fatores e com os mesmos protagonistas. Os acontecimentos, como já acontecera com Xocuiquetzal e a Esquadra da Vingança, são narrados pela princesa azteca Xochiquetzal, mulher de Dom Vasco da Gama, a qual está presente em todas as viagens e combates do marido mas geralmente sem participar, mantendo-se como mera observadora, muito embora aqui acabe por ter uma ação direta de caráter mais diplomático.

Menos movimentada do que o primeiro conto do livro, por estranho que possa parecer quando se sabe que contém mais episódios de ação, o principal motivo de interesse desta história é um desenvolvimento muito bem feito das relações de poder, das cumplicidades e rivalidades e da teia de interesses nem sempre coincidentes que Lodi-Ribeiro tece entre os suseranos portugueses e os povos americanos que lhes prestam vassalagem. A páginas tantas surge o melhor exemplo disso mesmo, quando Xochiquetzal intervém diretamente na ação, a pedido do príncipe Atahualpa, explicando-lhe por que motivo os mexicas aceitaram aliar-se, em posição subalterna, aos portugueses.

Outro pormaior nesta história é a forma como o autor joga com as culturas dos povos americanos, pondo-as em confronto com a cultura portuguesa (essencialmente a cultura marcial, mas não só), baseando-se em investigação histórica que tem todo o ar de ter sido intensa. São particularmente interessantes os apontamentos de choque cultural sofridos tanto pela narradora azteca, Xochiquetzal, como pelas personagens andinas. É quase palpável a luta interna que uns e outros têm de levar a cabo para conseguirem harmonizar a superioridade tecnológica e a eficiência militar portuguesa com costumes que para eles são particularmente bárbaros. Os portugueses surgem aos olhos americanos como brutamontes malcheirosos e porcos, que fazem a guerra sem a ritualização e o respeito pelo inimigo que seriam naturais, e simultaneamente como semideuses invencíveis e praticamente invulneráveis, e isso é muito bem transmitido no texto, graças em boa medida à escolha da narradora. E trata-se também de uma inversão muito interessante do discurso eurocêntrico que tem sido habitual ao longo da história (ainda popular em certos setores mais matarruanos), segundo o qual os povos civilizados, isto é, os europeus, partiram à conquista para levar a civilização aos bárbaros do resto do planeta.

Em suma, outra boa história. Não gostei tanto desta como da primeira, porque lhe falta um pouco da frescura que aquela tem e porque há trechos em que se arrasta um pouco em demasia — não creio que a expansão para novela tenha sido inteiramente bem sucedida — mas é na mesma bastante boa.

Conto anterior deste livro:

domingo, 9 de setembro de 2018

Lido: Na Teia dos Meus Segredos

Para ser franco, já não me lembro, de todo, como este Na Teia dos Meus Segredos veio parar ao meu disco rígido. Quer dizer, eu sei de onde vem, porque a folha de rosto (sim, que a isto aqui ao lado não se pode dar propriamente o nome de capa) o diz. Vem de um concurso de escrita criativa integrado numa iniciativa de busca de "Novos Talentos" de alguma forma ligada ao site educare.pt, por sua vez propriedade da Porto Editora. E foi publicado em 2001 em PDF, e imagino que disponibilizado na internet. Mas não me lembro da iniciativa, não me lembro do motivo por que baixei o PDF para o meu computador, não me lembro de nada. Por isso, quando dei com este conto de Marta Jacinto Uva, o primeiro pensamento foi "mas que raio é isto?!" e o segundo foi mais ou menos que só saberia que raio era aquilo lendo. Portanto li.

E fiquei na mesma sem saber o que raio era aquilo.

Mas fiquei a conhecer o conto. É um conto adolescente, em todos os sentidos, que parece ter sido publicado tal e qual foi entregue, sem um mínimo de revisão que evitasse os erros ortográficos (ex: "côco"), os múltiplos pontos de exclamação, as redundâncias (ex: os diálogos são indicados por travessão e por aspas... sim, ao mesmo tempo), a paginação bizarra, por aí fora. A qualidade do português é deficiente e o único ponto positivo que encontro no conto é parecer honesto, só que isso de pouco serve porque essa honestidade lhe dá mais ar de desabafo, do derramar para o papel de sentimentos de perda pela morte de gente querida, do que propriamente de ficção. Ora, a literatura que me interessa não é assim, e foi principalmente por isso que não gostei deste texto. Para mim, a literatura é tanto mais interessante quanto mais consegue integrar os sentimentos que pretende transmitir numa efabulação exterior ao umbigo do autor, universalizando aquilo que é pessoal (pelo menos no que toca à prosa; a poesia tem outras regras). E este texto é umbiguista por inteiro.

Lido: Megalon, nº 13

Porque sim, porque me apeteceu, logo depois de ter lido o número 7 do fanzine Megalon peguei neste Megalon, nº 13 (bibliografia), publicado quase exatamente um ano mais tarde. Foi uma escolha de impulso, mas também deu para ficar com uma ideia da evolução do fanzine nos seus primórdios pois, embora a estrutura e ambiente genéricos da publicação sejam semelhantes, existem diferenças, e algumas razoavelmente importantes.

Desde logo, a maior dessas diferenças relaciona-se com o número e a ambição dos contos publicados. Quatro contos, contra dois no número 7, numa quantidade de páginas que nem subiu muito, apesar de ter subido um pouco, é um aumento significativo. Mas o mais relevante é outra coisa: embora neste número continue a haver contos fracos (na verdade um deles é pior que fraco), um conto, O Voo do Ranforrinco, é bom o suficiente para ter merecido publicação profissional alguns anos mais tarde, erguendo-se bem acima de todos os outros em ambos os números do fanzine lidos até agora, e aqui entra a minha conversa habitual sobre as publicações valerem a pena se contiverem contos bons. Apesar de já ter lido esse conto, incluído numa das coletâneas que Gerson Lodi-Ribeiro publicou em Portugal, foi bom relê-lo.

Em sentido inverso, os artigos são menos interessantes, em especial porque os mais desenvolvidos estão muito centrados no fandom brasileiro da época: um artigo a marcar o 5º aniversário do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica, para quem não sabe; ainda existe) e uma crónica sobre uma convenção de FC. Terão interesse histórico para quem quiser conhecer as andanças de gerações anteriores da FC brasileira, mas para o leitor comum de hoje em dia pouco interesse podem despertar, e esse pouco deverá resumir-se ao que de semelhante e de diferente existe hoje na dinâmica das comunidades de fãs de ficção científica e à constatação de que certas esperanças e otimismos são tão eternos como eternamente adiados.

As páginas que não são ocupadas com ficção e artigos acolhem críticas e ilustrações, pois desta vez a BD está ausente. Para mim, as críticas (e os artigos em que se noticiam as novidades editoriais ligadas à FC&F) são, a par da ficção, a parte mais interessante destes fanzines porque me fornecem grande quantidade de informações que tenho vindo a integrar no Bilbiowiki. Mas esse é um interesse muito pessoal; não serão muitas as pessoas com um interesse semelhante. Portanto o que posso dizer é que para a generalidade dos leitores este número do Megalon vale a pena sobretudo por O Voo do Ranforrinco, em especial agora que os livros da coleção de FC da Caminho se tornaram raridades por incineração de stocks.

Eis o que achei sobre cada um dos contos:

sábado, 8 de setembro de 2018

Lido: O Jogo Final

Vamos pôr isto logo aqui a abrir para despachar esta questão desde o princípio: Orson Scott Card é um indivíduo execrável. Homofóbico, misógino, na pior tradição da extrema-direita americana que elegeu e continua a apoiar aquele bebé birrento da Casa Branca, Card tem uma história de declarações que podiam perfeitamente ter sido proferidas por algum fundamentalista evangélico, apesar de ele próprio ser mórmone, declarações que qualquer análise objetiva só pode enquadrar no discurso de ódio. Por outro lado, é dos escritores de ficção científica mais aclamados das últimas décadas.

Não é o primeiro caso, nem será o último, em que a figura repugnante do autor contrasta fortemente com a qualidade mais ou menos consensual da obra. E não é o primeiro caso, nem será o último, em que para uma porção significativa dos leitores essa figura do autor contamina a perceção sobre a obra e/ou a disponibilidade para de lhe dar uma oportunidade. Esse foi um dos motivos por que eu hesitei durante muitos anos quanto a comprar este livro: a curiosidade estava lá a alimentar a vontade de ler, mas sempre que esta ameaçava atingir o ponto em que a compra se tornaria provável, lá ficava a saber de mais uma declaração troglodita do autor, e passava-me.

Até que deixou de passar.

Mas a demora não teve só esse motivo. É que eu sabia de antemão que O Jogo Final (bibliografia) é mais um livro de ficção científica militar, um pouco na senda do Starship Troopers, do Heinlein. E mesmo que Card afirme nunca ter lido o livro de Heinlein, logo não poder haver influência de um livro sobre o outro, as semelhanças existem e foram notadas por muita gente. Criatividade paralela, provavelmente. Seja como for, a comparação é praticamente inevitável. Ora, eu detestei o Starship Troopers. E, embora seja verdade que a existência de semelhanças ou influências entre dois livros não signifique que quando se escava um pouco mais eles sejam realmente semelhantes, o que se comprova, se necessário for, pelo facto de livros que são de facto respostas diretas ao Starship Troopers — como Guerra Sempre, do Joe Haldeman — serem magníficas obras de ficção científica militar, sim, mas também pacifista, não é menos verdade que as posições políticas e sociais de Card me faziam temer que este seu romance pendesse bastante mais para o lado do de Heinlein que para o de Haldeman. Ou seja: que não fosse só o autor a ser detestável; que o próprio livro também o fosse.

Mas não é, mesmo não estando isento de problemas.

A história básica é banal e é aquilo que mais se assemelha ao livro de Heinlein: uma espécie alienígena insetoide e imperialista ameaça o império interestelar terrestre, e fá-lo com uma tecnologia, um poderio estratégico e uma tenacidade que põem as forças militares humanas sob enorme pressão. Para lhes resistir, essas forças humanas recorrem a medidas desesperadas, passando a população a pente fino em busca dos mais promissores candidatos a oficiais. Ou melhor, do mais promissor candidato a oficial. De um génio militar, comparável aos grandes conquistadores da história. E não querem um qualquer. Querem um muído, porque só um miúdo é moldável e treinável segundo os parâmetros que estabeleceram de antemão.

Aqui começa o que há de mais problemático neste romance. As crianças-soldados têm uma longa e tristíssima história neste planeta, que de resto ainda prossegue, e é por isso tema que não pode ser tratado com ligeireza. Card, além disso, põe o seu miúdo-oficial a ser alvo de um treino que ultrapassa largamente o limite da tortura, psicológica, sobretudo, mas não só. Porque esta é a história de como se transforma um miúdo brilhante mas razoavelmente normal, na medida do que é possível quando se é irmão mais novo de um psicopata, num monstro.

E é isso o que acompanhamos no decorrer do romance: a forma como Ender Wiggin, assim se chama o protagonista, vai sendo transformado num monstro por força do treino que lhe é dado na escola de oficiais, uma instalação isolada, orbital, onde os miúdos são postos em competição uns contra os outros das formas mais variadas, com recurso a jogos de computador (ou pelo menos àquilo que julgam ser jogos de computador), a simulações de combate em gravidade zero, etc. e mais etc. Mas um monstro extraordinariamente eficaz, precisamente aquilo que os militares pretendiam. Um monstro capaz de ganhar a guerra.

E pairando sobre tudo existe uma sensação de inevitabilidade, mesmo quando se percebe que o resultado de toda a atividade militar é simplesmente o genocídio, mesmo quando, no final, Ender se revolta, aparentemente de vez, contra aquilo que dele fizeram e quem o levou a cometer atos monstruosos. A sensação de que, no fundo, todos os crimes foram necessários. Até porque Ender é predestinado à grandeza, e o mesmo acontece com os irmãos, tanto o psicopata que o torturava em pequeno e ao crescer se transformou em estadista como a irmã que tentava protegê-lo, que ele amava e que acaba por se aliar a um e a outro dos irmãos para alcançar alguma espécie de equilíbrio entre eles.

No fundo, Card pergunta se há limites e responde de forma ambígua. À superfície, a revolta de Wiggin parece dizer que sim, que há limites, que tem de haver limites. Mas se escavarmos um pouco mais fundo o que vemos é uma sucessão de acontecimentos que, depois de serem postos em movimento, se tornam inevitáveis, imparáveis, o que justifica todas as escolhas e todos os crimes. Se o livre arbítrio é no mínimo limitado, se as atrocidades são pelo menos em grande medida inevitáveis, tudo o que se faça tem justificação e a culpa, no fundo, não existe realmente.

Mas a verdade é que o livro é bastante bom. A história, por mais incómoda que seja por vezes, e na verdade também por causa disso, está muito bem contada, sem rodriguinhos, com um estilo direto que encaixa como uma luva no tema e no ambiente, sem nenhuma das longas divagações ideológicas que transformam o Starship Troopers num livro imensamente chato, antes levando os leitores a ingerir a ideologia subjacente de uma forma bastante mais subtil. De certa forma é mais insidioso e por isso mais perigoso. Mas a qualidade é inegável. Levar-me-ia a comprar a sequência se ela tivesse sido publicada em Portugal?(*) Sim, levaria, tanto por causa dessa qualidade como para ver se nos livros seguintes Card resolve alguma da ambiguidade que aqui deixa ou a reforça. E talvez o faça, mesmo em inglês.

Este livro foi comprado.

(*) A sequência foi publicada em Portugal. Tolamente, não fui verificar ao Bibliowiki antes de publicar isto e saiu disparate.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Lido: Megalon, nº 7

Muitos dos que me leem sabem perfeitamente do que falo quando falo de fanzine, mas na eventualidade de haver quem não saiba, aqui fica uma brevíssima explicação: um fanzine é uma publicação periódica (geralmente; há exceções), feita por fãs de uma determinada área cultural e destinada a outros fãs, de forma amadora ou quase e muitas vezes muito mais por carolice e vontade de contribuir para a movimentação e desenvolvimento dessa área cultural do que com vista ao lucro. Foram durante muitos anos indissociáveis da produção artística em áreas underground, marginais ou marginalizadas e só perderam fulgor (apesar de terem continuado a existir, embora sob outras formas) com o advento da internet, para onde se deslocou a grande maioria das atividades que em anos anteriores só encontravam vazão em fanzines. O que faço aqui na Lâmpada, por exemplo, nos anos 80 do século passado só poderia ser feito num fanzine.

Com a disseminação das fotocopiadoras, nos anos 80, os fanzines tornaram-se mais fáceis de fazer, e apareceram por todo o lado. Houve-os em Portugal, embora nunca tivessem tido muita importância na FC nacional — tirando as pessoas ligadas à FC que também se ligaram aos círculos policiários e portanto participaram em fanzines e revistas policiárias, houve muito poucos fanzines portugueses ligados ao género nos anos 80 e 90 (agora de repente só me lembro de dois, ambos com poucos números) e a circulação dos que houve nunca alcançou mais que um punhado de pessoas — e também os houve no Brasil, onde, aí sim, tiveram uma importância bastante grande na consolidação de um fandom e no aparecimento e treino de novos autores. Um dos mais relevantes foi o Megalon.

Há anos, o editor do Megalon, Marcello Simão Branco, resolveu digitalizar e disponibilizar na internet todos os números do fanzine, que originalmente tinham sido publicados em papel. E eu resolvi descarregá-los e ir lendo um número de vez em quando, mais ou menos ao calhas, prestando especial atenção, naturalmente, aos contos. Este é o primeiro que li, mas não o primeiro que foi publicado. É o Megalon nº 7 (bibliografia), publicado em 1989, uma publicação de 34 páginas com artigos, críticas e uma BD, além da ficção.

Começando por esta última, não é de molde a deixar-me bem impressionado. Um conto bastante fraco e um conto que pouco passa do razoável parecem querer confirmar a velha ideia feita (que hoje em dia se transferiu para a web) de que os fanzines eram o lugar onde a ficção de má qualidade encontra lugar onde se ver publicada. Era ideia falsa à época e continua a sê-lo agora, mas é verdade que o grau de exigência era e é menor, o que não implicava nem implica que tudo fosse fraco.

De resto, isto é confirmado mesmo aqui neste número de fanzine com um artigo interessante sobre a evolução da figura do herói na banda desenhada, entre outros que me interessaram menos, ora por serem menos intemporais e desde o final dos anos 80 já se terem passado quase trinta anos — incluo aqui um artigo de divulgação científica, por exemplo, já muito obsoleto —, ora por outros motivos, mas que também possuem qualidade intrínseca. Também os há mais fracos, naturalmente, mas este número do Megalon é francamente melhor na parte de não-ficção do que na de ficção.

A edição completa-se com uma curta BD (uma piadinha que pouco me agradou) e várias críticas razoavelmente detalhadas, pois há que não esquecer que uma publicação em papel, seja amadora ou não, tem constrangimentos de espaço que na web não existem. Como o que mais me interessa na leitura destes fanzines é a ficção, saio dela um pouco desapontado, mas só um pouco, e é provável que outros leitores encontrem nele motivos de interesse que me passaram mais ao lado.

Eis o que achei de cada um dos dois contos:

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Em agosto falou-se de...

E cá estamos em setembro, a falar sobre aquilo sobre que se falou em agosto. A frase é arrevesada mas faz sentido. E inesperadamente para mim, este mês de agosto foi bastante melhor no que toca a leituras portuguesas do que eu estava à espera. Agosto, pensava eu, é o mês em que neste país tudo para, o mês em que as visitas aos blogues descem às vezes quase a metade do nível habitual noutros meses, e portanto se em junho e julho pouco se leu e comentou de português, em agosto o deserto deverá ser total. Não foi, mas disso falarei depois em mais detalhe, no fim das listas. Para já ficam as habituais notas sobre o lugar onde podem ser encontradas informações mais detalhadas sobre o que são estes posts e o link do costume para todos os posts marcados com a tag leituras fc, que os reúne a todos, passados, presente e futuros. E vamos às listas:

Ficção portuguesa:
  1. O Jogo, de Carmo Cardoso e José Machado (conto)
  2. Seis Drones, de António Ladeira
  3. Holocausto Lunar, de Sofia Guilherme Lobo
  4. O Farol Intergaláctico, de João Pedro Oliveira (conto)
  5. Expansão, org. Carlos Silva
  6. Shark Killer, de Bruno Martins Soares
Ficção brasileira:
  1. Sobre a Imortalidade de Rui de Leão, de Machado de Assis
  2. Mafagafo, vol. 1, org. Janayna Bianchi
  3. Sob a Luz da Escuridão, de Ana Beatriz Brandão (2x)
  4. Paraíso Líquido, de Luiz Bras
  5. A Fuga, de Herbert Silva Costa
  6. O Lado Real do Abstrato, de Caroline Fortunato (conto)
  7. O Chamado de Úlion, de José M. S. Freire
  8. Oráculo de Cristal, de Rodrigo Galves (2x)
  9. Corrosão, de Ricardo Labuto Gondim (2x)
  10. O Imortal, de Mauricio Lyrio
  11. Perdidos Para Sempre, de Nuno Morais
  12. A Era dos Mortos, volume 2, de Rodrigo de Oliveira
  13. Monstros Entre Nós, org. Davi Paiva (2x)
  14. Invasão Alienígena, org. Ademir Pascale
  15. O Ditador Honesto, de Matheus Peleteiro
  16. Ficções, nº 15, org. Dorva Resende
  17. Azul Cobalto e o Enigma, de Gerson Lodi-Ribeiro (conto)
  18. Absolutos, de Rodolfo Salles
  19. Lázaro - A Maldição dos Mortos, de A. Wood
Ficção portuguesa e internacional:
  1. Steampunk Internacional, org. ?? (2x)
Ficção internacional:
  1. O Poder, de Naomi Alderman (4x)
  2. Todos os Pássaros no Céu, de Charlie Jane Anders (3x)
  3. O que Acontece Quando um Homem Cai do Céu, de Lesley Nneka Arimah
  4. Opostos, de Jennifer L. Armentrout
  5. As Cavernas de Aço, de Isaac Asimov
  6. Segunda Fundação, de Isaac Asimov (2x)
  7. Surface Tension, de James Blish (conto)
  8. Mentes Poderosas / Mentes Sombrias, de Alexandra Bracken (2x)
  9. Farenheit 451, de Ray Bradbury (2x)
  10. Fúria Vermelha, de Pierce Brown
  11. Golden Son, de Pierce Brown
  12. Morning Star, de Pierce Brown
  13. Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler
  14. Bloodchild, de Octavia E. Butler (conto)
  15. Felizes Para Sempre, de Kiera Cass (2x)
  16. The Cloven, de Brian Catling
  17. A Muralha das Trevas, de Arthur C. Clarke (conto)
  18. Poeira Lunar, de Arthur C. Clarke
  19. Caliban's War, de James S. A. Corey
  20. Zero K, de Don DeLillo
  21. O Tempo Desconjuntado, de Philip K. Dick (3x)
  22. O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle
  23. Runa, de Rodolfo Fogwill
  24. Um Sopro de Neve e Cinzas, de Diana Gabaldon (2x)
  25. Nas Asas do Tempo, de Diana Gabaldon
  26. Deuses Americanos, de Neil Gaiman
  27. Neuromancer, de William Gibson
  28. Light, de Michael Grant
  29. Os Humanos, de Matt Haig
  30. Um Estranho numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein
  31. Quando as Estrelas Caem, de Amie Kaufman e Meagan Spooner
  32. Flores Para Algernon, de Daniel Keyes (6x)
  33. A Incendiária, de Stephen King
  34. Celular, de Stephen King
  35. Justiça Ancilar, de Ann Leckie
  36. Solaris, de Stanislaw Lem
  37. Mortos Entre Vivos, de John Ajvide Lindqvist
  38. Nas Montanhas da Loucura, de H. P. Lovecraft
  39. O Advogado do Diabo, de Jonathan Maberry
  40. O Corpo Dela e Outras Partes, de Carmen Maria Machado (2x)
  41. Nightflyers & Other Stories, de George R. R. Martin
  42. Nada Enfurece Mais uma Mulher, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
  43. Ficção Científica: Os Melhores Contos, org. Romeu de Melo
  44. Cinder, de Marissa Meyer
  45. Perdido Street Station, de China Miéville
  46. Os Seis Finalistas, de Alexandra Monir
  47. Lágrimas na Chuva, de Rosa Montero
  48. O Meu Amigo de Outro Mundo, de Ross Montgomery
  49. The Malice, de Peter Newman
  50. Binti, de Nnedi Okorafor
  51. Home, de Nnedi Okorafor
  52. Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon
  53. A Coroa do Demónio, de James Rollins
  54. Calamidade, de Brandon Sanderson
  55. Guerra do Velho, de John Scalzi
  56. A Invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick
  57. A Nuvem, de Neal Shusterman
  58. O Ceifador, de Neal Shusterman
  59. Piquenique na Estrada, de Arkádi e Boris Strugátski
  60. Cinco Semanas num Balão, de Jules Verne
  61. Cama de Gato, de Kurt Vonnegut
  62. Maelstrom, de Peter Watts
  63. Chronos: Viajantes do Tempo, de Rysa Walker
  64. Artemis, de Andy Weir (4x)
  65. A Ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells
  66. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells (5x)
  67. All Systems Red, de Martha Wells
  68. Artificial Condition, de Martha Wells
  69. Marcas da Guerra, de Chuck Wendig
  70. Interferências, de Connie Willis
  71. Quando a Luz se Apaga, de Nick Clark Windo
  72. Thrawn: Alliances, de Timothy Zahn
Poesia brasileira:
  1. O Homem Que Subiu em Aeroplano Até a Lua, de ?? (João Martins de Athayde ou Leandro Gomes de Barros)
Não-ficção internacional:
  1. Alternate Worlds, de James Gunn
  2. Where's My Jetpack?, de Daniel H. Wilson
Pois é, como digo acima isto em agosto correu melhor do que eu esperava. Mesmo descontando a parte nisso que é ilusória, pois quando agosto começou o material no Ficção Científica Literária levava alguns dias de atraso e por isso há mais material do mês anterior a só aparecer no mês seguinte do que é hábito (há sempre algum material que salta o mês, pela própria natureza da coisa), os números foram não só consistentes como denotam algum progresso em praticamente todos os aspetos. E não, não é por eu ter descongelado a Lâmpada em finais de agosto, embora isso também tenha dado uma pequena contribuição, particularmente à lista brasileira: a vasta maioria do material que aparece nestas listas, em todas elas, nada tem a ver com a Lâmpada.

Começando pelo Brasil, regressámos às 19 obras mencionadas que já tinha havido em junho, mas com um detalhe: quatro delas foram mencionadas por duas vezes, o que ainda não tinha acontecido até agora. Ou seja: o número de opiniões subiu acima de 20, e vindas da Lâmpada foram só duas, uma das quais a um conto. Ah, sim, e de notar também uma raridade: uma opinião a um livro de poesia. Eu sei que é arriscado estar a fazer previsões, mas parece haver um crescimento sustentado no material brasileiro que é lido e comentado, em parte por haver várias publicações que se dedicam total ou parcialmente a isso. Já são números bastante aceitáveis, estes. Os brasileiros continuam a trabalhar bem.

Os portugueses nem por isso, mas aqui agosto marcou um crescimento bastante forte e sem qualquer intervenção da minha parte, pois as minhas leituras portuguesas continuam a restringir-se a outros géneros. Seis obras comentadas, às quais há que somar duas opiniões à antologia Steampunk Internacional que no mês passado incluí na ficção internacional mas este mês achei melhor autonomizar, e das quais só duas são contos. É, com a única exceção do mês de janeiro, o mês em que se falou mais de material português até agora, e em janeiro a Lâmpada estava bastante mais ativa do que esteve em agosto. Mais: ao contrário da maioria dos outros meses, desta feita todas as opiniões foram sobre obras mais ou menos recentes, o que também tem a sua relevância.

Sinal de que algo está a mudar para melhor? Não sei, mas suponho que veremos nos próximos meses.

Quanto aos comentários a material traduzido, há uma coincidência engraçada que é termos precisamente 72 títulos pelo terceiro mês consecutivo. Daniel Keyes e H. G. Wells são os mais comentados do mês, com seis cada, graças à publicação, no Brasil, de Flores para Algernon (inédito em Portugal) no caso de Keyes e de mais uma edição de A Guerra dos Mundos no de Wells, o qual também recebeu uma opinião a outro livro. A seguir vêm autores com 4 opiniões cada: Naomi Alderman e Andy Weir, cujos O Poder e Artemis, respetivamente, têm sido bastante lidos, este último apenas em Portugal, pelo menos por enquanto. Como se vê, foi um mês dominado não pela leitura de séries, como o anterior, mas pela de livros isolados, o que em princípio me parece mais saudável.

E quanto a agosto estamos conversados. Isto não chegou logo no início de setembro mas foi tão perto disso que não há diferença; para todos os efeitos, o atraso chegou ao fim. Que assim continue e venham as leituras de setembro. Até daqui a um mês.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Lido: A Luz dos Vermes

E ao quarto conto voltamos ao terrir. Agora Carina Portugal apresenta-nos uma história de uma mulher ciumenta que faz gato-sapato do pobre do homem (marido? namorado? não interessa) sempre que ele ousa sequer olhar com algum interesse para outra. Brincando com humor com velhíssimos clichés (há um rolo da massa que voa logo no início do conto, e tal), pondo o seu protagonista como um autêntico joguete nas mãos da mulher, a qual lhe dá ensinadelas que no entanto parecem não ter nenhum efeito, este é claramente um conto bem-humorado de poder feminino. Mas não se pense que o conto é só galhofa e um título como A Luz dos Vermes aparece por acaso.

É que a ensinadela que constitui a maior parte do conto, e que é usada para o intitular, é terrível. Ao sair de casa, o desgraçado é engolido pelo passeio que se fragmenta numas engenhocas deslizantes com forte cheiro a steampunk, e quando dá por si acha-se num túnel habitado por uns vermes gigantescos e muito malcheirosos, que inevitavelmente acabam por o atacar. Não se percebe bem se se trata de algo que lhe acontece realmente, se é fruto de alguma espécie de alucinação, mas desta vez ainda bem que não se percebe; aqui a indefinição funciona bem.

O conto está bem concebido e tem um enredo bem amarrado. E é divertido, a menos que nos identifiquemos em demasia com o homem. Não convém. No entanto, não é isento de problemas, e as já mencionadas fragilidades da autora voltam a fazer-se sentir. Palavras de utilização algo estranha (exemplo: quando o homem é engolido pelo passeio esbraceja "incessantemente" antes de cair, o que é bizarro porque um ato pouco mais que momentâneo nada tem de incessante) e repetições desadequadas (exemplo: "[...]retratos de nobres seculares, e janelas, onde tão depressa era dia como noite. Contudo a gravidade puxava-o tão depressa que mal conseguia ver o que havia para além delas") reduzem a qualidade do texto, fazendo com que o conto não seja tão bom como podia ter sido. Ter-se-ia resolvido com um revisor que soubesse do seu ofício. São úteis, os revisores.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 2 de setembro de 2018

Lido: A Bênção da Floresta

Mais um conto de Carina Portugal, este A Bênção da Floresta é mais longo que o anterior e tem uma abordagem bastante diferente tanto da desse como da do primeiro conto do livro. Embora continue a haver algo de terrorífico a ameaçar a vida dos protagonistas, aqui o tom é muito mais de fantasia do que de horror e o humor que surge em Já Sinto é aqui substituído pelo romantismo dos contos de fadas. É basicamente disso que se trata, na verdade: de um conto de fadas um pouco expandido.

Começa o conto à noite com um homem numa floresta encantada, de novo sem que se perceba minimamente o que lá está a fazer, como e porquê lá foi parar (tal como no primeiro conto do livro, também neste faltam as motivações, sendo essa a sua maior falha, a meu ver). E como é costume suceder em florestas encantadas, é atacado por algo de monstruoso. Mas de repente vê-se agarrado e absorvido por uma árvore. Julga-se perdido. Mas a árvore fala-lhe, sossega-o, promete-lhe que o protegerá, ela e outras, propiciando-lhe passagem segura até ao outro lado da floresta. Dias de viagem, sendo o homem absorvido todas as noites pelas árvores, com as quais conversa, embora este plural esteja aqui a mais porque aquilo que anima as plantas é um só espírito. Um espírito feminino, e eis a raiz do romantismo do conto, pois aquela intimidade noturna leva ao amor.

E o final é adequadamente agridoce, como é de bom tom em histórias românticas deste género, com o amor (embora a coisa tão súbita talvez seja má ideia dar tal designação) a mostrar-se impossível dadas as grandes diferenças existentes entre os putativos amantes. No fim fica uma história globalmente bem contada, embora sem grande originalidade e pese embora a já referida falta de motivações e uma ou outra fragilidade na escrita.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 1 de setembro de 2018

Lido: Laços de Família

Tenho vindo a pegar nestes livrinhos publicados pela Expo'98 por me ter apercebido de que embora o tema comum seja o da exposição, os oceanos, vários possuem componente fantástica (o Bibliowiki, nesta época triste mas provisoriamente abandonado, continua ainda a influenciar-me as leituras), mas essas leituras também me têm trazido outra coisa: o primeiro contacto com uma série de escritores que desconhecia e que sem eles, muito provavelmente, nunca leria. Ruy Sant'Elmo é um desses escritores.

De resto, suponho que, no caso de Sant'Elmo, para quase todos os leitores deste livro o contacto será o primeiro. Praticamente esquecido, sem edições recentes além desta, tanto quanto eu saiba, Sant'Elmo publicou ao longo da primeira metade do século XX uma série de livros, virados sobretudo para o Oriente. Laços de Família é um excerto bastante curto (35 das pequenas páginas detas edições da Expo) de um desses livros: China, País da Angústia, um romance.

E é uma história com o seu interesse, tanto em termos de temática como de enredo, estrutura e ritmo narrativo. No início encontramos dois irmãos, pescadores, num barquito de pesca algures ao largo da China, e um tufão surge sem que eles notem a sua aproximação, forçando-os a navegar rumo a terra o mais depressa que lhes é possível. Mas o combate com a tempestade é inevitável e empresta ao texto a tensão que é fácil imaginar. No entanto, ao chegar aí Sant'Elmo interrompe-se para voltar atrás no tempo e contar como os dois irmãos acabaram naquele barco, e apercebemo-nos de que a fraternidade não é natural mas adquirida e os rapazes são na verdade órfãos que em dada altura se encontraram. Depois regressa ao presente narrativo e descreve o desenlace da luta com a tempestade. Coisa dramática. E com várias reviravoltas dignas de um thriller moderno em ponto pequeno. E isso, para mim, foi um problema: as técnicas usadas para tentar manipular o leitor, para o levar a assumir uma determinada resposta emocional, foram demasiado óbvias e despidas de subtileza, tornando-se assim contraproducentes.

No final fica a ideia de que família são mais aqueles que escolhemos como tal do que os que o parentesco de sangue determina. Não conheço a cultura chinesa o suficiente para saber se existe aqui algo de especificamente chinês, mas parece-me que a mensagem é válida independentemente de haver ou não. E mais: é moderna, apesar da relativa antiguidade do texto. Esta não foi, portanto, uma má leitura, ainda que também não me tenha agradado lá muito; teve pontos positivos e negativos. E foi mais um autor que passei a conhecer, pelo menos um pouco, o que é sempre positivo.

Este livro está disponível gratuitamente no site do Instituto Camões, aqui (onde se pode também encontrar a maior imagem da capa disponível na internet, uma coisinha quase invisível de tão minúscula, motivo pelo qual este post vai sem ilustração).

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Lido: A Elsa Esperta

Os contos tradicionais fartaram-se de viajar ao longo dos séculos, na companhia de comerciantes e mercadores, exércitos invasores ou bandos de fora-da-lei, emigrantes e refugiados, aventureiros, enfim, todas as espécies de nómadas, de gente que anda de um lado para o outro, levando consigo as histórias que aprendeu e transmitindo-as a quem nunca as tinha ouvido. Assim, as recolhas de contos tradicionais, mais ou menos alterados por quem as fez, e quase independentemente do país em que tenham sido feitas, estão repletas de histórias que são meras variantes umas das outras, e até de histórias praticamente idênticas. E isso torna-se particularmente claro quando se lê praticamente em simultâneo duas recolhas do género feitas por pessoas diferentes em dois países diferentes e em dois momentos diferentes. E é isso o que eu tenho vindo a fazer com este livro dos Irmãos Grimm e com o livro do Adolfo Coelho.

Já por várias vezes identifiquei em histórias de Adolfo Coelho versões de histórias de Grimm que tinha lido antes ou que já conhecia de miúdo. Mas este A Elsa Esperta é diferente: é praticamente uma cópia a papel químico de uma história lida há algum tempo no livro português, A Machadinha. Bem... exagero: a cópia não é assim tão perfeita. Há algumas diferenças, uma maior elaboração dos motivos neste conto dos Grimm, mais rodeios, mais gente a descer à adega, em suma, a história é contada de forma menos direta. Mas o enredo básico é precisamente igual e o resultado final também, e por isso praticamente tudo o que eu disse sobre o conto português se aplica ao alemão. Com um senão: o conto português era razoavelmente divertido; este nem por isso. Provavelmente porque eu já conhecia a "punch-line".

Contos anteriores deste livro:

Lido: Kapapa

Antes de começar a escrever este texto estive a puxar pela memória, tentando lembrar-me se alguma vez tinha lido alguma coisa de José Luandino Vieira. É autor que tem presença há muitos anos na biblioteca dos meus pais, e por isso conheço-lhe bem o nome de o ver a passear-se pelas estantes cá de casa. Até me lembro de ter ido com os velhotes a um ou dois lançamentos de livros seus na biblioteca cá da terra. Mas não me consigo lembrar se esse conhecimento superficial do autor chegou alguma vez a transmutar-se em conhecimento de alguma obra sua até ao momento em que li Kapapa. Não consigo mesmo.

Mas sei que o texto deste livro não faz soar campainhas na lembrança, não do texto propriamente dito, que isso seria sempre altamente improvável (até porque, como vem escrito na ficha técnica do livro, "esta narrativa faz parte do romance Águas-do-Mar, o Guerrilheiro, inédito por incineração"), mas de estilo literário. E isso leva-me a concluir que provavelmente terá sido este o meu primeiro contacto com a prosa de Luandino.

Trata-se, pelo menos aqui, de uma prosa muito elaborada, muito poética, ajoujada sob o peso de tantas imagens, num português salpicado de termos africanos não sei ao certo de que língua ou línguas, mas provavelmente do kimbundo, ou não fosse o Luandino luandino se não de origem (nasceu em Portugal, em Vila Nova de Ourém) pelo menos de coração. Esta tensão entre o português e as línguas de Angola é o que está subjacente ao conto (pois de conto de trata, mesmo sendo extrato de romance incinerado; este é um daqueles livrinhos com tema marítimo publicados em formato muito reduzido por ocasião da Expo'98, e tem 50 páginas) e a resistência do protagonista à influência da língua europeia serve como espelho do colonialismo e da luta de libertação do povo de Angola, ou não tivesse estado o próprio Luandino profundamente empenhado nessa luta.

Em pano de fundo, uma trama marítima (na qual o mar se metamorfoseia em rio e vice-versa), pois o protagonista é pescador e parte para o mar desconhecido no seu barco de pesca, onde é confrontado com uma tormenta. Uma tormenta tão alegórica como tudo o resto, pois a referência é a luta de libertação de Angola e a forma como cada indivíduo, cada angolano, a ela reage — ou não fosse essa epopeia marítima pessoal fundida ao longo do conto com cenas de guerrilha propriamente dita. E eu, apesar de ter compreendido a ideia geral (acho) e de simpatizar com a ideologia subjacente, não gostei particularmente do conto. Convenhamos também que não pertenço ao público-alvo: o público a que este texto se destina é angolano e eu sou português, faltando-me portanto o conhecimento sobre os mais que muitos termos angolanos que Luandino usa, o que tornou o texto, a espaços, quase totalmente impenetrável. A prosa poética já por si tende a exigir mais do leitor do que a prosa objetiva; quando está repleta de termos desconhecidos, então...

Mas exemplifiquemos para perceberem do que falo. Escolhendo mais ou menos ao calhas, a páginas tantas (11) lê-se o seguinte: "As águas vungutavam, a canoa já dava de dançar, aproada; saltei, ximbiquei só de passar aqueles sete dibucos, ondas de senga do baixio até a canoa ficar menguenando no princípio do mar [...]" Percebem? E o texto é todo mais ou menos assim. Imagino que para um angolano com este substrato linguístico (que nem todos o têm; diferentes zonas de Angola têm diferentes línguas nacionais e nem todas sequer são línguas bantas) isto faça pleno sentido; para mim, português, faz muito pouco.

Este livro está disponível gratuitamente no site do Instituto Camões, aqui.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Lido: As Três Línguas

Muito curto, com duas páginas, pouco mais, este As Três Línguas é um conto tradicional que parece ter sido pouco alterado pelos Irmãos Grimm. Trata-se de uma fábula contaminada de catolicismo sobre os mal-entendidos da inteligência ou da falta dela, protagonizada por um rapaz cujo pai o achava burro porque ele "não conseguia aprender nada". Só que o rapaz na realidade aprendia, não o que o pai queria que aprendesse, é certo, mas as línguas dos animais. Pelo menos três. E essa aprendizagem leva-o a subir radicalmente na vida; no fim acaba em papa, nem mais nem menos.

É um conto tradicional muito típico, que corresponde bastante de perto ao que se encontra também nas recolhas feitas em Portugal: uma narrativa simples e apressada, temperada pelo maravilhoso, que pinta os acontecimentos de uma vida a pinceladas largas e traz consigo uma lição de moral, no caso a de que nem todos os conhecimentos são óbvios à primeira vista. Essa é a boa; há outra, mais negativa, pois esta história também pode ser interpretada como querendo passar a ideia que mais vale confiar na sorte e nos dons que as divindades (neste caso, claramente, o deus cristão) nos atribuem do que fazer algum esforço para se alcançar o que se deseja.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Invasão Alienígena

Quando se reúnem contos de diversos autores numa publicação única, seja revista, antologia ou qualquer outra variante do mesmo tema, é inevitável que o resultado tenha alguma desigualdade. Não só há sempre uns contos melhores que outros, como há também inevitavelmente alguns autores que ressoam melhor ou pior com cada um dos leitores da obra. Este facto é tão intrínseco a este tipo de publicações, e pouco importa se o tema é livre, se existe tema comum ou até se as histórias pertencem a um universo partilhado, que nem valeria a pena fazer-lhe menção, se não se desse o caso de ser mencionado com frequência de forma depreciativa quando as pessoas falam de revistas ou antologias.

E se não se desse também o caso de por vezes se exagerar na dose.

É este último o caso deste Invasão Alienígena, antologia temática sobre aquilo que a intitula, título que só por si já indica imediatamente que estamos perante ficção científica. Foi organizada e publicada em ebook por Ademir Pascale, que também contribui com um conto (a que chama introdução, mas que não deixa por isso de ser conto). O volume virtual inclui contos que vão do excelente, Nas Catacumbas de Luiz Bras, ao péssimo, Invasão Retomada de Macelo Bighetti, incluindo tudo o que se possa imaginar de permeio, e até um erro de casting, O Hóspede de Flávia Muniz, e é prejudicado por essa variabilidade tão intensa, demonstrando que não, contrariamente ao que por vezes se sugere não é por as antologias serem temáticas que elas ganham mais coesão interna. Nem em universo partilhado existe verdadeira coesão quando a qualidade dos textos varia brutalmente entre uns e outros. Pelo contrário, uma antologia de tema livre com textos de um nível de qualidade regular (e para isto não importa se elevado, médio ou baixo) é uma publicação coesa.

Esta não o é, bem longe disso. Creio que nem chega a ser uma antologia mediana, apesar dos contos bons que contém. Por outro lado, e como eu digo sempre, basta que numa publicação exista um conto excelente ou dois ou três bons para essa publicação ter valido plenamente a pena, e é o que acontece aqui. Bastaria o conto do Luiz Bras para dar a esta Invasão Alienígena razão para existir, mas ainda há os do Gian Danton, do Claudio Parreira, do Roberto Causo e até do Gerson Lodi-Ribeiro, apesar de ser talvez o pior conto dele que eu já li, a contribuir para que valha a leitura.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro foi distribuído gratuitamente pela internet.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Lido: Já Sinto

Conhecem o termo terrir? É uma palavra de cunho relativamente recente que serve para designar aquelas narrativas que unem temas típicos do terror (o macabro, o sanguinolento, o sobrenatural e as suas medonhas criaturas, etc.) à comédia ou pelo menos a uma abordagem bem-humorada à coisa. Pois bem: Já Sinto, conto cujo protagonista de chama Jacinto, é uma dessas narrativas.

Neste conto curto macabro de Carina Portugal, Jacinto é um coveiro, à primeira vista humano, cuja principal responsabilidade parece ser impedir que os mortos-vivos, apropriadamente desmiolados, saiam das tumbas, ou pelo menos do cemitério, e se ponham a vaguear pela cidade à procura dos miolos que lhes faltam. Talvez não todos os dias, mas pelo menos na noite de 31 de outubro, véspera do dia de todos os santos. Como faz ele isso? À pazada, claro está, embora tenha outros métodos lá dele se a pazada não for suficiente. E é isso o que o conto conta.

E conta-o em geral bem, embora haja alguns detalhes que uma revisão feita por um revisor ou editor que soubesse do seu ofício não deixaria passar. Exemplo: a frase "O olhar de alguns mortos voltaram-se de imediato para ele" é incorreta porque é o olhar que se volta, não os mortos, logo devia ser "voltou-se" e não "voltaram-se". Mas sim, o conto está engraçado e de um modo geral bem escrito.

Conto anterior deste livro:

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Lido: Maelstrom

Na opinião que deixei ao primeiro livro desta série de Peter Watts, Starfish, queixei-me de que a ficção científica tendeu demasiado, ao longo da sua história e pesem embora algumas exceções relevantes, a ignorar o mundo submarino quando comparado com as regiões exteriores ao nosso planeta. E saudei esse livro por ir contra a corrente. Tinha portanto a expetativa de que este Maelstrom continuasse na senda do livro anterior, dedicando às regiões submersas da Terra a atenção que lhes é devida.

Pois enganei-me.

Maelstrom retoma a história onde Starfish a deixou e, embora no primeiro post eu tenha conseguido não deixar spoilers quase nenhuns, a partir daqui isso torna-se impossível. Estão avisados? Querem mesmo assim continuar? Então vamos lá.

No fim de Starfish, quem tem poder para isso decide tomar uma opção drástica para tentar conter a infeção da nossa biosfera pelos organismos da biosfera abissal, designados como ßehemoth, pois, segundo as conclusões da investigação, não fazer nada, deixar os simbiontes à solta, iria causar uma catástrofe à escala global. E a contenção terá de ser rápida: é que análises ao sangue dos tripulantes da estação de monitorização mostram-nos já irremediavelmente contaminados. A solução? Fazer-se explodir um engenho nuclear perto da estação e, portanto, da dorsal Juan de Fuca, garantindo assim que nenhuma daquelas pessoas, nada que esteja contaminado, voltará algum dia à superfície. Mas aquelas pessoas não são nem passivas nem estúpidas, muito menos ingénuas; pelo contrário, tudo nas suas vidas as dotou de doses substanciais de paranoia, e o plano falha.

Porque os aquanautas fogem. Talvez não todos (não fica claro), mas pelo menos dois, e em particular um, a protagonista do livro (e da série, aparentemente): Lennie Clarke, uma mulher vítima de abuso, tornada anfíbia para sobreviver nas profundezas, o que acaba por dar uma inestimável ajuda à sua sobrevivência, com uma abordagem muito niilista ao mundo que a fez como fez mas com uma inabalável determinação em sobreviver. Essa determinação leva-a a vir dar à costa Oeste da América do Norte, onde a situação geopolítica já não é a que temos hoje (o futuro de Watts é profundamente distópico, e já o era antes mesmo da emergência ecológica ser declarada) e a geográfica também não, pois a explosão em Juan de Fuca desencadeou um gigantesco terramoto acompanhado de tsunami, que arrasou e alterou profundamente a costa pacífica da América do Norte. De qualquer forma ela seria irreconhecível, pois está transformada numa gigantesca zona de ninguém onde se acumulam milhares e milhares de refugiados vindos da Ásia e do Pacífico, em sobrevivência precária.

O gigantesco campo de refugiados está isolado do resto do continente, mas Lennie Clarke é uma mulher cheia de recursos e, auxiliada pelo seu equipamento anfíbio, escapa, penetrando pelo território do nosso Canadá dentro, contaminando todos os lugares que toca. E não é ela o único vetor do cataclismo, pois o ciberespaço de Watts é uma autêntica selva de IAs virais, todas a procurar sobreviver e multiplicar-se enquanto se defendem e escondem dos bots e dos operadores humanos que tentam identificá-las e eventualmente exterminá-las, e um dos principais vetores do romance é o que vai acontecendo no Maelstrom, um redemoinho de organismos cibernéticos, descendente longínquo (ou talvez não tão longínquo assim) da internet que hoje temos, onde Lennie Clarke se transforma em meme, usado por uma linhagem de vírus para se multiplicar mais eficazmente, o que vai ter como consequência que os agentes encarregados de a apanhar para controlar a disseminação do ßehemoth ficam praticamente cegos.

E o romance é isso: uma caçada em que Lennie Clarke é simultaneamente presa, caçadora e vetor de catástrofe, ao mesmo tempo inocente e culpada, celebridade involuntária quando se torna absolutamente por acaso ícone da contracultura, da contestação ao status quo. É essa caçada que serve de motor ao romance, mas a ela junta-se uma elaboração do universo ficcional tão detalhista como seria de esperar da ficção científica mais dura e uma reflexão muito interessante sobre a moralidade do assassínio seletivo para a (incerta) salvação de milhões e os dilemas a que uma decisão dessas pode levar quem tem necessidade de a tomar.

Simultaneamente, a construção do futuro de Watts também tem vastos motivos de interesse. O paralelismo que ele faz entre a evolução biológica e a muito acelerada evolução dos sistemas virais de software é fascinante, faz pensar e podia perfeitamente ser usada para ensinar a ligação que existe entre o acaso, as mutações e a sobrevivência dos mais aptos, e a própria tensão entre a biosfera normal e aquela que a invade com o surgimento do ßehemoth tem aspetos interessantíssimos, em especial para leitores ligados de uma forma ou de outra às ciências biológicas (como é o meu caso).

Em suma, este é outro livro de ficção científica bastante bom, e de que gostei bastante apesar do meu desapontamento com o abandono quase completo dos espaços subaquáticos em prol de ambientes mais comuns na FC em geral e no ciberpunk em particular. E sim, tal como o volume anterior também este está disponível para download ou leitura, em vários formatos, no site do autor, sob a mesma licença Crative Commons. Toca a ler.

Lido: Arco-Íris da Gravidade

Não sei bem que livro será mais aconselhável como introdução à escrita de Thomas Pynchon, mas suspeito que este Arco-Íris da Gravidade será dose demasiado pesada para iniciar a maioria das pessoas, e falo não só em sentido figurado mas também num sentido muito literal: a edição portuguesa é um mastodonte de 1021 páginas de linhas longas e razoavelmente apertadas e quase quilo e meio de peso, e esse gigantismo reflete-se na estrutura do próprio romance, o qual contém um imenso conjunto de personagens, várias das quais desaparecem por completo ao longo de centenas de páginas para reaparecerem de repente mais tarde, aparentemente caídas do céu por não terem unhas.

Não há grande complexidade na história básica (uma busca, entre os últimos anos da II Guerra Mundial e os anos subsequentes à guerra, de uma arma secreta alemã, um misterioso aparelho chamado schwarzgerät, o qual estaria instalado num foguete V2 com um número de série especial), mas as ramificações dessa história e tudo o que Pynchon decide somar-lhe transformam o romance num autêntico labirinto.

Leitores e estudiosos com muito mais paciência (e tempo disponível) do que eu já se dedicaram a escalpelizar detalhadamente todo o manancial de influências, temas, piscadelas de olho, detalhes estruturais, trocadilhos e jogos de palavras e dezenas de eteceteras que o romance contém, portanto só falarei aqui de algumas coisas muito básicas e de um punhado de ideias que a sua leitura me deixou. É livro que dá para teses de doutoramento em literatura; isto é uma opinião pessoal de leitura num blogue.

O livro divide-se em quatro partes. A primeira, com as suas 238 páginas, já tem o tamanho de muitos romances e desenrola-se em Inglaterra, mais especificamente em Londres em pleno Blitz. Esta primeira parte define o tom do romance, centrando-se numa investigação, levada a cabo pelos agentes de uma agência de guerra psicológica, sobre a relação existente entre os pontos de impacto das V2 alemães e os locais dos encontros sexuais daquele que é, pelo menos na aparência, o protagonista do romance: Slothrop, um agente secreto americano e que parece ter capacidades premonitivas. Já aqui, como se vê, surge pelo menos a sugestão de algo de fantástico, algum piscar do olho, até, à ficção científica, mas o tom do texto acaba por ser muito mais alucinatório ou onírico do que concreto. E irónico, e sem tabus, e por aí fora. Pós-moderno, em suma.

A segunda parte que, com meras 132 páginas (também muitos livros há que são mais curtos do que isso) é a mais breve das quatro, tem lugar ainda durante a guerra, num casino situado na Riviera francesa, região já libertada pelas forças aliadas, para onde Slothrop é enviado por motivos que nunca chegam a ficar claros (de resto, a falta de clareza é uma constante no livro todo), e onde a sensação mais relevante é a de uma imensa paranoia. De novo temos episódios que tanto podem ser encarados como alucinatórios quanto podem ser vistos sob o prisma do fantástico ou até, de raspão, da ficção científica.

A terceira parte é de longe a maior das quatro, com as suas 450 páginas, e consiste de uma infindável deambulação do Slothrop pela Alemanha destruída do pós-guerra enquanto procura o tal schwarzgerät e vai encontrando umas personagens bizarras atrás das outras (sendo ele próprio uma das mais bizarras), numa multiplicidade de episódios que continuam a mostrar o mesmo caráter alucinatório que se encontra em partes anteriores, interrompidos frequentemente por canções. Foi esta parte do livro que mais contribuiu para a impressão geral que ele me deixou, como de resto é natural dada a sua extensão.

Por fim, a quarta parte conclui o livro com mais 192 páginas. Esta é a parte mais complexa de todas. São várias as personagens que tínhamos perdido de vista durante centenas de páginas e reencontramos aqui, o romance ganha uma não-linearidade bastante intensa, pois não só Slothrop é assaltado por alucinações (ou episódios de presciência, talvez?) que nos levam a, entre outros sítios, uma distopia fascista futurista, a parte do romance em que ele roça mais claramente na ficção científica, como mais tarde a ação se transfere para os anos 70, entrecortada por numerosos regressos aos tempos da guerra. Tudo isto salpicado por histórias aparentemente laterais a todo o enredo, cada uma mais bizarra do que a outra e todas elas mais ou menos fantásticas. Slothrop desintegra-se numa espécie de loucura paranoica e alucinada, numa dissolução pessoal que espelha em grande medida a dissolução social e económica que o rodeia.

Eu respeito bastante o que Pynchon tentou fazer aqui. O tema da desintegração pessoal, ligado à desintegração social provocada pela guerra, qualquer guerra, a sugestão de que tempos enlouquecidos promovem a loucura individual, é algo que me parece muito bem sucedido neste livro ao mesmo tempo que ressoa comigo, ou seja não só respeito como gosto. O mesmo se passa com uma irreverência generalizada, que percorre todo o livro, uma ironia corrosiva que procura subverter tudo. Outras coisas há de que não gosto por aí além, mas respeito na mesma, em especial o labirintismo do enredo, o imenso novelo de pontas que Pynchon deixa soltas durante páginas e mais páginas e mais páginas para voltar a amarrar (nem sempre de forma particularmente definitiva, há que dizê-lo) mais à frente. Mas isto tem uma forte ligação a algo de que definitivamente não gosto.

É que acabo a leitora com a sensação de que o livro podia ter pouco mais de metade das páginas que tem sem que com isso se perdesse grande coisa. Não foram raros os momentos, em especial naquela interminável terceira parte, em que interrompi a leitura e fechei o livro, farto de mais uma deambulação irrelevante, de mais um diálogo que nada acrescenta, de mais uma nota de paranoia a somar-se a dezenas de outras. Assaltado por uma intensa sensação de que não estava a obter nada da leitura, de que estava apenas a perder tempo.

Juntando a isso uma omnipresente temática metafísica, que costuma dizer-me pouco ou nada, uma tradução que ora tem momentos de puro génio (e não o digo só para ser simpático; há soluções de tradução verdadeiramente geniais), especialmente nos muitos poemas que pontilham o livro, ora se perde numa selva de eles e elas e seus e anglicismos semânticos (as genialidades mencionadas acima levam-me a suspeitar que isto aconteceu por falta de tempo para fazer uma revisão cuidada; traduzir um livro destes é trabalho duríssimo e muito demorado e eu nem invejo o tradutor nem lhe censuro realmente as falhas, digo apenas que elas acabam por ter o seu impacto na experiência global de leitura) e também, porque também tem relevância, uma experiência física de leitura francamente incómoda (experimentem segurar durante muito tempo num livro com quase quilo e meio de peso), o resultado é um daqueles livros a que reconheço a qualidade mas cuja leitura me deu comparativamente pouco. Não posso dizer que não tenha gostado, globalmente, mas este livro de Pynchon ficou muito, muito longe de se transformar num dos meus livros preferidos. Seja como for, não é livro para ser compreendido por inteiro à primeira, portanto decerto que tem facetas que me passaram despercebidas. Não sei é se algum dia voltarei a ele; a vida é mais curta que comprida.

Este livro foi comprado.

domingo, 26 de agosto de 2018

Lido: Amo-te Para Sempre

Há uma verdade, daquelas insofismáveis, daquelas verdades universais sem contestação possível, de que muito mais gente devia ter consciência: não é por alguém aparecer na televisão com maior ou menor regularidade que tem alguma coisa a dizer. Exemplo: o Fernando Alvim. O Fernando Alvim construiu uma carreira com base na rádio e na gandamaluquice temperada de romantismo, lançando pseudópodes para todos os lados, e fez ele muito bem. É um entrevistador competente, profissionalmente simpático, o que o levou a ter algum êxito em talk-shows e programas do género, e construiu uma persona pública, que parece ser genuína mas na verdade não tenho como saber até que ponto corresponde à realidade, que o tornou até certo ponto figura de um certo culto em certos setores. Certo. Mas nada disto implica que seja bom escritor. Ou até que o que ele escreve tenha algum interesse.

A ideia que quero exprimir acima pode ser resumida numa frase: não é por alguém ter algum destaque numa atividade que deve ter destaque em outras. E não é relevante se esse destaque é merecido ou não.

Amo-te Para Sempre é um conto escrito em parágrafo único, em modo de escrita torrencial, palavrosa, uma confissão de amor absoluto salpicada de piadolas na qual o Alvim se mostra igual a si mesmo: um gandamaluco temperado de romantismo. A persona pública está escarrapachada no texto, sem qualquer novidade, o que faz com que provavelmente aqueles que são fãs dessa persona gostem do conto, e aqueles para quem a persona é pelo menos indiferente não gostem. Como me incluo neste segundo grupo, creio que não será difícil perceber-se o que retirei da leitura do conto: sim, o português é correto, sim, há no conto um despretensiosismo, uma forma de manter coerência relativamente à personagem que o Alvim-figura-pública inevitavelmente será, e isso tem o seu apelo, mas no fundamental o texto deixou-me indiferente. É conto para ler, encolher ombros e esquecer.

Este ebook, como todos os desta coleção, foi distribuído gratuitamente.