sábado, 27 de novembro de 2021

Irmãos Grimm: Pele-de-Urso

Neste livro dos Irmãos Grimm é frequente acontecer que contos aparentados uns com os outros surjam a muitas páginas de distância, exigindo um certo esforço de memória para nos lembrarmos da ligação (em especial quando se lê o livro como eu leio, espaçadamente, conto a conto, e intercalando-o com outros). Mas outras vezes surgem colados, o que torna tudo mais fácil. E não me refiro às variantes dos contos que os Grimm incluem frequentemente nas suas notas, mas a contos que consideram independentes o suficiente para os publicarem em separado. E sim, é o caso deste Pele-de-Urso, uma variante do conto anterior.

De novo encontramos aqui um soldado desmobilizado que, para sobreviver, faz um contrato com o Diabo. E de novo esse contrato determina que o soldado estará submetido durante um período de alguns anos, durante os quais estará sujeito a uma série de restrições, que incluem ausência de banhos, de cortes de cabelo, de coisas dessas, e à obrigação de usar umas vestimentas que o afastam visualmente do género humano. O que, de resto, explica o título. A grande diferença é não haver aqui propriamente uma servidão, pois o soldado não só fica livre para deambular pelo mundo como está provido de uns bolsos mágicos onde encontra sempre todo o dinheiro de que poderá precisar. Parece fraco negócio para o Diabo, mas há ainda mais um detalhe: se o soldado morrer durante o período contratado, a sua alma é do Diabo. Não terá vendido propriamente a alma ao Diabo, mas digamos que fez uma espécie de leasing.

No fim, tudo lhe corre bem, e o soldado não só não morre durante o período estipulado como acaba rico e casado com uma princesa. Fazer tratos com o Diabo é porreiro, pelos vistos. Mas este, apesar de tudo, também lucra com o negócio, porque se há coisa capaz de revelar sacanas, daqueles cujas almas segundo a mitologia estão condenadas ao inferno, é a cobiça. E essa, acompanhada por uma panóplia de outros sentimentos pouco nobres, está bem presente nesta história.

Este é um conto curioso. Apesar da mesmice, pareceu-me melhor que o anterior. Mais sofisticado, de certa forma, ainda que talvez seja mais apropriado falar aqui em menos básico. Dito isto, não se trata propriamente de uma das histórias memoráveis dos Grimm; essas parecem já ter ficado para trás, no primeiro volume.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Aldous Huxley: Hubert e Minnie

Há aqui um problema de organização da antologia, o que até tem sido coisa rara nestes pequenos livrinhos. É que Hubert e Minnie tem tantas coisas em comum com o conto anterior que quase parece apenas mais do mesmo. E isso não é bom para a experiência de leitura.

E também não é lá muito bom para Aldous Huxley, não só porque o seu conto vem a seguir ao de Rilke, pelo que é ele a sofrer o impacto da aparência de mesmice, mas também porque não me pareceu tão bem sucedido como o do autor austríaco.

De novo, temos aqui um casal em vias de qualquer coisa. De novo, a rapariga, apaixonada e disposta a tudo, vai descobrir da pior forma que o rapaz não está tão em sintonia com ela como supunha. De novo, é este e as suas dúvidas que quebram a união. Tudo mais ou menos igual à história anterior. Mas se o conto de Rilke parece servir-se destes clichés para atirar alfinetadas irónicas à forma de escrever dos românticos, o de Huxley parece mais uma forma de troçar das suas personagens.

Sobretudo da personagem feminina. Descrita como uma sensaborona, uma daquelas mulheres sem interesse nenhum para ninguém, um daqueles espíritos translúcidos que passam pelo mundo sem nele ter o mínimo impacto, Huxley — e após algum tempo o seu protagonista — parece perguntar a si mesmo por que raio haveria alguém de se julgar apaixonado por tal nulidade. E, inevitável e literalmente, a nulidade vê-se de repente abandonada, de coração partido, sem perceber o que raio lhe acontecera. Parece faltar alguma empatia a tudo isto, o que deixa um sabor amargo ao final da leitura.

Este conto podia ser melhor.

Contos anteriores deste livro:

Philip K. Dick: A Chegada

Esta coisa da arrumação de contos em revistas e antologias tem que se lhe diga. Não é só questão de organizar as coisas por forma a que a experiência do leitor seja a melhor possível, ou a que este se sinta o mais satisfeito possível ao terminar a leitura (são duas coisas próximas, mas diferentes), é também questão de não criar demasiados contrastes entre autores próximos na sequência, especialmente se colados. E às vezes roça a maldade pôr um autor logo antes ou a seguir a outro se bem que, convenhamos, escolher autores para ladear Philip K. Dick não é fácil. No entanto, não sendo fácil, pôr uma história como a de Bob Kurosaka antes deste A Chegada (bibliografia) é maldade.

O conto é Dick escarrapachado e atenção que vêm aí spoilers com fartura. A princípio parece tudo mais ou menos normal, ainda de uma forma algo acidentada. Uma nave, vinda de Marte e trazendo os tripulantes de uma missão que correu mal, desce com muito pouco controlo algures nos Estados Unidos. Combalidos, mas vivos e muito felizes por estarem de volta à Terra, os tripulantes saem da nave e põem-se a caminho, em busca de algum lugar onde possam entrar em contacto com as autoridades e a NASA. Mas...

... mas toda a gente foge deles. E depois veem-se cercados e acossados pelo FBI, que os trata não como heróis regressados improvavelmente ao planeta natal, mas como inimigos, a prender se possível, a abater caso não seja. Como é natural, eles ficam completamente confusos: o que raio está aqui a acontecer? Bem, Dick explica o que raio está ali a acontecer. Eu é que não vos vou revelar a explicação, digo apenas que está muito bem esgalhada. Muito bem esgalhada.

Este conto é francamente bom.

Contos anteriores desta publicação:

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Leiturtugas #129

Mais uma semana, mais Leiturtugas. E desta vez quem arrancou com elas fui eu.

Sim, que neste blogue assinado com o nome de Jorge Candeias foi publicada uma opinião sobre um livro de contos interligados fantásticos e humorísticos de Mário de Carvalho. O título? Casos do Beco das Sardinheiras, como podem ver na imagenzinha junta. Já é antiguinho, tendo saído pela primeira vez em 1982, mas eu li-o numa reimpressão de 2015 de uma reedição de 2013. Isto das edições sucessivas vai-se tornando desnecessariamente complicado, methinks, mas é o que é. Enfim, não importa. O que importa é que este livro não tem FC (além de um levíssimo cheirinho num dos contos) e por conseguinte a minha sinalefa passa a 7c5s. E assim também eu cumpro os mínimos do ano.

E não estive sozinho. Dias mais tarde, a Cristina Alves publicou a sua opinião sobre outro dos contos da antologia Hopepunk. A vez coube a Chamamento Ancestral, de Isabel Vila Pery, um conto de FC que já não altera as sinalefas da Cristina porque ela também já tem o objetivo cumprido.

E de oficiais estamos conversados.

Mas houve também um dos oficiosos: o António Bizarro, que opinou sobre o mais recente livro (em português, pelo menos) de Bruno Martins Soares, Laura e o Rei das Sombras. Trata-se de um romance de FC publicado há muito pouco tempo pela Divergência, ainda que o António tenha lido a versão em inglês.

E por esta semana foi isto. Venha a próxima.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Mário de Carvalho: Casos do Beco das Sardinheiras (#leiturtugas)

Em tempos que já lá vão, Mário de Carvalho foi fundamentalmente um escritor de literatura fantástica, ainda que daquela mais ancorada ao mainstream. O seu primeiro livro, Contos da Sétima Esfera, inclui alguns dos melhores contos fantásticos portugueses dos anos 80 e estes Casos do Beco das Sardinheiras (bibliografia), o livro seguinte, vão muito na mesma onda, ainda que numa faceta significativamente mais virada para o humor.

O Beco das Sardinheiras é um beco lisboeta muito peculiar. Não se trata propriamente de um daqueles lugares fora do espaço comum que todos habitamos, que tendem a aparecer com alguma frequência em várias formas de literatura fantástica, mas é um beco sui generis, onde acontecem as coisas mais bizarras. E é tão comum elas acontecerem que os habitantes já encaram as bizarrias do beco com a fleuma reservada para os pequenos incómodos do quotidiano. De resto, os próprios habitantes têm o seu quê de bizarro, ainda que se trate de um bizarro castiço, um bizarro que como que excreta lisboetice por cada poro.

É esse caráter castiço que dá boa parte da piada a estas histórias. Um pouco à semelhança dos bons malandros do Zambujal, estas personagens de Mário de Carvalho são especialistas em arranjar soluções inovadoras e despachadas para as pequenas e grandes complicações da vida. Desenrascam-se, em suma. Sem recorrer muito à malandragem, é certo, mas com um implacável desrespeito pelas regras. Isso dá-lhes interesse e graça, os quais são ampliados pelas próprias situações que lhes vão caindo em cima, por vezes literalmente. E por mais que confundam género humano com Manuel Germano.

Mas a mim, na verdade, o que mais agrada aqui é a imaginação. Não só a imaginação das situações em si mas a imaginação revelada pela forma como as personagens lhes dão a volta. A imaginação, essa condição superior do espírito humano e que tantas vezes falta a tanta literatura, é o que transforma várias destas histórias, de textos bons e divertidos, em verdadeiras delícias para os olhos de quem lê. Não a todas, é certo; numa compilação de contos quase nunca todos atingem o mesmo nível. Mas a muitas delas. E o resultado é um livro muito bom. Um belo exemplo de como o fantástico pode ser bem usado em português.

Eis o que achei de cada um dos contos:
Este livro foi comprado.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Georgette Silen: Quimera das Cinzas Douradas

Falava eu aqui há muito pouco tempo sobre o subgénero da ficção científica que se dedica a reimaginar enredos e situações mitológicas sob o olhar da imaginação de base tecnológica, e por um daqueles acasos em que a leitura é pródiga eis que poucos dias depois de ler um desses contos, leio outro.

Na verdade, até o ambiente é semelhante. Tanto o conto de Ricardo Dias como esta Quimera das Cinzas Douradas de Georgette Silen se passam na Palestina, este integralmente, o outro em parte. Mas salvo esse e alguns outros detalhes, os dois contos até acabam por ser bastante diferentes.

Aqui, o substrato é profundamente judaico. Silen torna literal o conceito (bem daninho, convenhamos) de povo escolhido, postulando que os judeus do tempo de Moisés eram extraterrestres, ou talvez seres de outra dimensão, que um acidente teria deixado presos na Terra, e cujas atribulações seriam apenas um compasso de espera até que os seus conterrâneos conseguissem encontrá-los e levá-los de volta para o lugar que lhes é próprio. A terra prometida, que nesta história nada tem a ver com a Palestina. O episódio da mitologia judaico-cristã em que Moisés sobe ao topo do Monte Sinai para aí receber as tábuas da lei é transformado num episódio de contacto em que Moisés, líder de um povo abandonado há tanto tempo que se enchera de dúvidas (de resto, ele próprio as tem, pois apaixonara-se por uma humana que não poderá levar consigo e dela tivera filhos), consegue finalmente contactar os seus e recebe instruções para os preparar para o transporte. Mas claro que há um mas.

Esse mas tem a forma dos deuses locais. Outras criaturas extraterrenas, talvez extradimensionais, que vivem na Terra desde muito antes da chegada dos judeus e se dedicam a fazer prodígios para angariar seguidores. Também é ideia antiga na FC (basta lembrarmo-nos do que está na base da série Stargate, para usar um exemplo que quase toda a gente deverá conhecer), e reaparece aqui sob a forma de uma deusa que tenta seduzir Moisés e, não o conseguindo, decide seduzir o seu povo. Com sucesso.

No fim, o resultado é uma história interessante, entre a FC e a fantasia, ainda que haja nela algumas coisas que não me agradaram particularmente. Ou nada, a bem dizer. Abomino, sobretudo, as ideologias do povo escolhido, a ideia de "nós acima de todos os outros" que lhes está inerente, e as suas ficcionalizações tendem a repelir-me com alguma veemência, a menos que se dediquem a denunciá-las. É até certo ponto o caso aqui. E há também o aparecimento dos deuses locais cheirar bastante a um deus ex machina bastante literal, destinado a explicar o motivo porque a viagem de regresso ao planeta ancestral não se chega a concretizar, o que é evidente à partida dado continuarem a existir judeus no planeta Terra e não haver nenhum sinal de Silen ter em mente a criação de um mundo alternativo ao nosso.

Mas apesar de tudo isso, o conto é interessante. É um ponto a seu favor.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Leiturtugas #128

Boas. Prontos para mais uma série de Leiturtugas? Vamos a elas.

Desta vez, ao contrário do que tem sido hábito, quem arrancou com a semana não foi o Artur Coelho, mas sim a Cristina Alves. A opinião que ela nos traz é desta feita sobre um conto de FC de A. M. Catarino, intitulado A Costura de Vidro, publicado numa antologia de edição recente, Farol de Esperança. E com este conto, a Cristina atinge 6c7s e cumpre os mínimos do ano.

Tal como a semana anterior, esta também foi fechada por mim, o tal tipo que responde por Jorge Candeias (podem chamar-me outros nomes, mas provavelmente não responderei), com mais uma opinião sobre um conto publicado pela Fantasy & Co. Desta vez intitulado A Faca, e de um autor que julgo não ter ainda comentado por aqui, André Alves, esta foi uma edição de 2016 e trata-se no fundamental de uma história de horror. A sinalefa passa assim a 7c4s, e fica a faltar uma opinião para também eu cumprir os mínimos do ano.

Mas calma, que quando ali em cima digo que a semana foi fechada refiro-me apenas aos participantes oficiais nesta coisa. É que esta semana houve também uma opinião de um oficioso.

Ou melhor, de uma oficiosa, e em estreia. Refiro-me a Yvette Centeno e à opinião que ela publicou sobre A Mulher sem Pálpebras, de Ana Marques Gastão, um livro de contos publicado este ano pela Letras Errantes, que aparentemente navega por águas literárias próximas ao realismo mágico e/ou ao surrealismo.

E agora sim, a semana chega ao fim. No próximo domingo há mais. Até lá.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

José Viale Moutinho: A Princesa Encantada

Não há nada de literal no título deste conto. Não há no conto princesas, muito menos encantadas. Tampouco há algum sinal de fantástico, seja ele qual for. José Viale Moutinho elabora um conto realista, sobre um momento na história portuguesa em que uma série de revoltas contra a ditadura abala vários pontos do país, incluindo a Madeira que serve de cenário para este texto, e que, provavelmente por falta de preparação e união, acabam derrotadas, acabando Salazar por servir-se delas para solidificar o seu poder. Assim sendo, porque lhe chamou Moutinho A Princesa Encantada? Bem...

Especulando, creio que a princesa encantada a que o título faz referência é a liberdade. A liberdade sonhada mas em grande medida inacessível, não só mas também porque o protagonista da história não arranja à última hora a coragem necessária para lutar por ela. Ou simplesmente não vê como, talvez. Sim, que Moutinho não conta propriamente a história das revoltas, mas sim uma história íntima, sobre o olhar limitado do seu protagonista sobre o que está a acontecer, um olhar que primeiro vem embebido de esperança e medo e depois de desilusão e resignação.

Sim, é bom, este conto. Mas é um conto desencantado, pouco esperançado, sobre alguém que se vê ultrapassado pelos acontecimentos e cruza os braços, acobarda-se, nada faz. Conhecemos bem as consequências, todos os 48 anos delas. Daí que após a leitura fique um certo incómodo. Uma insatisfação. Mas, como o protagonista da história, nada podemos fazer. Ela está escrita. É o que é.

Contos anteriores deste livro:

André Alves: A Faca (#leiturtugas)

Olha... também gostei deste.

Não que tenha gostado muito. Há nele alguns detalhes (um português eficaz mas não perfeito, uma pegada demasiado juvenil nos diálogos e na construção de personagens, alguma desadequação do resultado à ambição, etc.) que não deixaram. Mas este conto de André Alves é sofisticado o suficiente para sustentar o interesse da leitura até ao fim e para evitar tornar-se previsível. Bem retrabalhado, poderia tornar-se realmente muito bom.

Como o título de A Faca leva a suspeitar, tudo gira em torno de uma faca. Uma faca ensanguentada e um cadáver, mais precisamente, mas a coisa torna-se complexa quando o cadáver aparece ao protagonista vivinho da Silva e incólume, o que o deixa mais perturbado ainda porque tinha sido ele a matá-lo uma hora antes. Mas pelos vistos não. Ou será que sim?

E o conto vai por aí fora, numa espécie de terror onírico com uns toques de ficção científica (universos paralelos ligados por portais? será?), levando repetidamente o triângulo amoroso que lhe está na base a consequências trágicas. E o assassino, aparentemente impenitente, a repetir a façanha, ainda que de formas diferentes.

Não sei se o André Alves conhece, muito menos se teve alguma influência vinda daí, mas esta sua história fez-me lembrar um pouco o excelente livro de Alfred Bester O Homem Demolido. Pesem embora as grandes diferenças, há nas duas histórias a mesma base num crime (ou em vários), há a mesma sensação paranoica de que qualquer coisa no mundo está profundamente errada, há a mesma confusão em grande medida impotente, etc. Claro que o romance é bastante melhor, mas a comparação é elogiosa. Este é um conto com verdadeiro interesse.

Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Irmãos Grimm: O Irmão Mascarrado do Demo

Alguém pediu mais uma variante do velho mito de Fausto? Não? Olha, temos aqui uma mesmo assim, em mais um conto que os Irmãos Grimm parecem ter alterado pouco relativamente ao conto original. Mas talvez seja um pouco abusivo chamar "variante" a este O Irmão Mascarrado do Demo, visto que se é verdade que os reflexos do mito faustiano se encontram aqui bem claros, não deixa de ser também verdade que esta história não segue propriamente o bem conhecido enredo da história de Fausto.

O protagonista é, de novo, à semelhança do conto Irmão Jovial, um soldado desmobilizado. Mas se o daquele conto encontra São Pedro, o deste depara com o Diabo na floresta e faz com ele um trato: sete anos ao serviço do demónio, cumprindo uma série de regras, e fica livre e com o suficiente para viver durante o resto da vida. E é dessas regras e das dificuldades que criam ao protagonista que o miolo do conto vive. No final, relata-se o que acontece ao soldado findo o período de servidão diabólica. Tudo de forma bastante breve, sem grande abundância de detalhes.

Longe de ser memorável — é raro que um conto com tantos elementos em comum com outros me fique na memória — este não deixa de ser um conto com o seu quê de curioso, sobretudo pelos traços de família que apresenta.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Leiturtugas #127

Ainda vamos a tempo? Claro que sim. Vamos sempre a tempo. Até porque temos aqui mais uma listinha de Leiturtugas para vocês. Curtinha.

Para não variar, é inaugurada pelo Artur Coelho, que fala desta vez brevemente, com maior desenvolvimento noutro sítio como é seu costume quando comenta álbuns de BD, de uma edição muito recente d'A Seita/Comic Heart: o álbum Alma Mãe de Carlos Silva e Penim Loureiro. Como sabe quem cá costuma vir cheirar estas notas, o Artur já tem o ano cumprido.

E para variar, é fechada pelo gajo que escreve aqui na Lâmpada, Jorge Candeias de seu nome. Desta vez opinei sobre mais um dos contos do Fantasy & Co., este datado de 2015. O título é Os Historiadores, o autor é Ricardo Dias e o género é FC. Mais uma leitura com FC para mim, portanto, o que leva a sinalefa a 7c3s.

Ora, como esta semana voltou a não haver nada vindo dos oficiosos, estamos conversados até à próxima. Até lá.

domingo, 7 de novembro de 2021

Escrita de outubro


Inaudito: outubro seguiu-se a setembro!

OK, isto é palermice, piadola tola. Mas não é só palermice. É que, de facto, o que escrevi em outubro vem em absoluto na sequência do que escrevi em setembro. Continuo a escrever o tal romance, que já se vai aproximando das dimensões mínimas de romance, as quarenta mil palavras da praxe, e a produção do mês foi semelhante à de setembro, só que em mais. Sim, acabámos de deixar para trás aquele que é, pelo menos até agora, o mês mais produtivo deste ano de 2021, ainda que continuemos longe da produção dos meses realmente produtivos de outros anos.

Ao todo foram pouco mais de 6 mil palavras novas, o que dá à volta de 18 páginas. Isso faz com que a produção do ano, apesar de tudo, se vá aproximando rapidamente das 100 páginas de ficção nova, o que não é particularmente bom mas também não é mau de todo. Eu sei, eu sei que os tipos do Nanowrimo despacham isso, ou mais do que isso, num mês. Mas eu não sou um dos tipos do Nanowrimo.

O futuro? Bem, estou outra vez numa daquelas fases em que não sei bem qual a melhor forma de fazer avançar a história, pelo que é possível que o ritmo abrande. E as obras no prédio (sim, outra vez!) não ajudam. Por outro lado, também é possível que resolva a coisa, as obras acabem e o ritmo acelere. Veremos no início de dezembro, não é?

Até lá.

Nuno Costa Santos: Quem Quer Mudar de Família?

E depois há destes contrastes. Este texto não podia ser mais diferente do anterior, praticamente em tudo.

Para começar, trata-se de um conto, não de uma espécie de ensaio. E trata-se de um conto no qual Nuno Costa Santos usa de exagero para melhor criticar uma determinada instituição: os concursos televisivos. Quem Quer Mudar de Família? é uma história fantástica na medida em que traz em si aquela espécie de hipérbole e também de alegoria que tão comuns são naquele fantástico de pés mais assentes na realidade, claramente baseada no concurso Quem Quer Ser Milionário?, mas com uma diferença: as perguntas que o apresentador faz ao concorrente são íntimas e têm a ver com a sua vida privada.

E o prémio é, está claro, mudar de família. Tudo composto com um voyeurismo que faz lembrar The Truman Show, ainda que não me pareça que Santos tivesse essa conexão em mente quando escreveu este texto. É possível que sim, até porque o conto é apenas quatro anos mais novo que o filme, mas não creio. Enfim, pouco importa. O que importa é que este é um bom conto: eficaz na crítica, divertido de uma forma corrosiva e bem escrito. Aprovado.

Textos anteriores desta publicação:

sábado, 6 de novembro de 2021

Ricardo Dias: Os Historiadores (#leiturtugas)

Existe todo um subgénero na ficção científica que consiste em reinterpretar de forma tecnológica, frequentemente futurista, acontecimentos e personagens provenientes das mais variadas mitologias. É, de resto, uma ideia que não se resume à FC, pois também está na base de uma série de revisionismos pseudocientíficos, frequentemente de matriz racista (como ousam povos não brancos fazer coisas que os brancos não conseguem fazer?), entre os quais os mais conhecidos talvez sejam os Deuses Astronautas de von Däniken. Mas a FC fá-lo de uma forma incomparavelmente mais honesta; afinal de contas, quem chama ficção à ficção não está a tentar enganar ninguém.

É nesse subgénero que se insere este Os Historiadores. Neste conto, Ricardo Dias imagina uma nave capaz de viajar no tempo através de viagens no espaço, ideia que radica, obviamente, no conceito do tempo enquanto quarta dimensão de um universo tetradimensional, inerente às teorias de Einstein. Essa nave, apropriadamente chamada Star of Bethlehem, parte com uma missão: assistir ao nascimento de Jesus Cristo. E olhem, sabem que mais? Daqui em diante há SPOILERS.

A viagem, apadrinhada pelo Papa, não deixa de ser ao mesmo tempo polémica. É sempre polémico mexer-se nos dogmas, e quando existe a possibilidade de se assistir a uma verdade histórica diferente daquilo que os mitos defendem como verdade essa polémica só pode aumentar. É uma polémica de que Ricardo Dias não foge, o que é um ponto positivo, ainda que não a trate de forma particularmente convincente, sobretudo devido a uns diálogos que estão longe de serem os ideais.

Essa, na verdade, é a parte mais fraca de todo o conto. A outra face da moeda são as coisas que Dias faz bastante bem. A escolha do nome de Maria para a tripulante que mostra mais dúvidas quanto à missão, e depois vai levar ao seu desenlace através de atos nascidos de uma religiosidade atacada, é uma forma hábil de redirecionamento das atenções por forma a que o final acabe por ser surpreendente. E mesmo todos os indícios que vão sendo deixados de que a missão vai acabar por influenciar a história, que poderiam perfeitamente tê-la estragado, acabam por funcionar devido a esse redirecionamento e a essa surpresa.

Este é um conto entre o razoável mais e o bom. Com melhores diálogos seria claramente bom, com um português mais hábil (é competente mas pouco passa disso) poderia chegar ao muito bom. Mas mesmo assim está uns furos acima do que tenho lido nas publicações Fantasy & Co.

Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Ângelo Brea: Rosas de Admete

Não que este conto seja particularmente bom, que não é. Mas Angelo Brea tem aqui pelo menos o mérito de mostrar como é possível criar uma ficção que é puro infodump mas este não constitui o corpo estranho e frequentemente desagradável que se intromete em tantas histórias, muitas vezes de FC mas não só, fazendo em vez disso sentido no contexto da história que é contada.

Rosas de Admete é no essencial um depoimento. Algo que alguém escreveu, numa época de incerteza, para que pelo menos a sequência de acontecimentos que deram origem a essa incerteza ficasse registada para a posteridade. E é por isso que funciona enquanto conto: o texto é basicamente o que seria de esperar de um texto escrito por alguém com essas motivações, muito mais preocupado em contar uma história tal como a entende do que com qualquer coisa que tenha a ver com literatura. Assim, aqui não encontrarão diálogos ou personagens: encontrarão a história de como a humanidade encontrou num planeta distante os peculiares seres vivos a que chamou rosas de Admete, os efeitos que neles descobriu e as consequências que isso teve. Nada mais, nada menos.

E as explicações que Brea dá são, de uma forma geral, as que seria de esperar que alguém nessas circunstâncias desse. Eu talvez escrevesse este conto de uma forma algo diferente, deixando transparecer mais da personalidade do narrador, imprimindo ao seu depoimento um caráter mais emotivo e deixando cair umas pistas subtis aqui e ali sobre o que aconteceu. Mas Brea é da FC clássica, não costuma prender-se muito com a construção de personagens e não é muito de subtilezas, pelo que não esperava encontrar aqui nada disso como, de facto, não encontrei. Encontrei um infodump que funciona, e isso já é alguma coisa.

Contos anteriores deste livro:

Mário de Carvalho: Epílogo

Eis outro conto que já tinha lido quando tomei inicialmente contacto com estas histórias, na Antologia do Humor Português, e que comentei aqui. Continuo a pensar como pensei nessa altura, em geral: o conto é muito divertido e, se lido como denúncia, é magnífico. O curioso é que nesta segunda leitura já não me pareceu propriamente uma denúncia, apesar das personagens saírem a comentar, desapontadas, que o autor está a confundir género humano com Manuel Germano. Antes, parece-me que Mário de Carvalho é sincero no seu desejo de se integrar na tribo dos literatos e que sente o óbvio gozo que tem na escrita destas histórias como algo de que se deve envergonhar.

Olhando para o seu percurso posterior, só se confirma essa sinceridade. Aos dois volumes iniciais de contos seguem-se romances bastante mais ambiciosos (e julgo que bastante menos fantásticos), embora os contos continuem a aparecer com regularidade na sua bibliografia. Este Epílogo (bibliografia) é, assim, um epílogo para uma forma descontraída e imaginativa de estar na literatura. O epílogo de uma fase. E eu tenho pena de que assim seja, apesar de reconhecer que até compensou em termos de carreira. O intelectualoide português, como se sabe, é avesso à imaginação, especialmente quando temperada de humor. Com coisas destas, de facto, Mário de Carvalho não chegaria onde chegou.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 31 de outubro de 2021

Leiturtugas #126

Então boas. Prontos para mais uma lista de Leiturtugas? Vamos lá.

É uma lista curta, das mais curtas que temos tido nos últimos tempos. Entre os participantes oficiais, arrancou com o Artur Coelho e a sua opinião sobre a antologia Na Imensidão do Universo, uma compilação de histórias de space opera publicada este ano pela Divergência. O Artur já tem os mínimos do ano cumpridos, pelo que não vale a pena continuar a fazer a sua contabilidade. Mas o livro é de FC.

E quanto a oficiais fechou com ele. Mas tivemos também duas participações oficiosas.

Tivemos a Anabela Risso a opinar sobre mais um livrinho infantil, uma fábula de Carlos Nuno Granja intitulada A Zanga das Letras Comadres. Publicado pela Opera Omnia em 2013, este é mais um livro sem qualquer cheiro a FC.

E tivemos também a Isabel Daires, que opinou sobre a coletânea de horror de Mafalda Santos Conta-me, Escuridão, uma edição da Suma de Letras datada deste ano. De novo, nada aqui existe de FC. Ambos estes blogues, de resto, aparecem com frequência nestas listas mas parecem fugir da FC portuguesa como o diabo da cruz.

De FC é o Sally, o meu livrinho, cujo sorteio fiz na antepenúltima destas notas e sobre o qual falei na última informando que ainda não tinha encontrado casa nova. Pois agora já encontrou: vai para casa da Inês Montenegro, onde espero que seja feliz. Parabéns para ela!

E estamos sem nada para sortear. Já sabem: se algum autor ou editor quiser colaborar nisto, venha falar comigo.

Quanto às Leiturtugas, voltam para a semana. Até lá.

Irmãos Grimm: O Espírito na Garrafa

Ai julgavam que as histórias sobre espíritos (ou génios) presos em garrafas (ou em lâmpadas mágicas) eram só coisa das Mil e Uma Noites, é? Que eram só histórias das arábias? Ná. A verdade é que quanto mais contos populares leio, e não me refiro só a estes alemães mas a todos, mais me convenço de que um bom quinhão destas históries têm muito pouco a ver com a cultura específica de um lugar específico e muito a ver com um fundo cultural comum que abrange vastas áreas do planeta. Afinal, desde os tempos mais distantes que os seres humanos deambulam pela grande área continental euroasiatico-africana, e com eles sempre viajaram as suas histórias. E sendo nós como somos, é fácil de ver que assim que surgisse algum rudimento de língua em comum começaria de imediato a surgir também a troca de histórias, lendas, anedotas, enfim, de tudo aquilo de que se compõe a literatura popular.

Não que este O Espírito na Garrafa seja uma simples variante da história de Aladino. Está até bastante longe de o ser. Mas tem vários elementos em comum, a começar, obviamente, pela entidade mágica fechada na garrafa, em tudo semelhante ao génio que só sai da lâmpada quando alguém a esfrega. Nesta história, que não parece ser daquelas que os Irmãos Grimm não alteraram de todo mas também não é das "reconstruídas" a partir de várias fontes, conta-se a história de como um filho de lenhador se transforma num médico rico e famoso (há até versões que a associam a Paracelso). Que tem isso a ver com espíritos em garrafas? Bem...

Tem porque o rapaz vai ajudar o pai para a floresta, de machado em riste, e a dada altura depara com uma voz que vem de dentro de uma árvore. Investigando, descobre a tal garrafa num buraco na árvore. E dentro desta está o tal espírito. Espírito esse que é maligno e tenta matá-lo assim que se vê livre, mas também é estúpido o suficiente para o rapaz o dominar com um truque simples. Vendo-se de novo encurralado, promete-lhe mundos e fundos caso seja libertado, e desta vez cumpre.

Não é dos melhores contos que se podem encontrar por aqui, mas já vi esta ideia retrabalhada em livros de fantasia, o que é um bom indicador de também não ser dos piores. A fantasia literária (e não só) tem vindo beber muito nestas águas mas não bebe em todas. Só nas que considera inspiradoras.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Rainer Maria Rilke: A Fuga

Isto é engraçado. Levei anos a pegar neste livrinho, convencido (ou pelo menos com receio) de que as "histórias românticas" que o título alardeia fossem daquelas tragédias delicodoces e insuportavelmente sentimentalonas tão do agrado dos escritores do século XIX. Afinal, agora que o leio, descubro que não é nada disso. Preconceitos. São sempre uma bodega.

A Fuga, no entanto e a princípio, parece. Um casal de jovens, apaixonadíssimos e confrontados com resistências familiares, faz planos vagos de fugir de casa e partir para algures, juntos. Rainer Maria Rilke parece preparar-se para desenvolver um daqueles dramalhões de faca e alguidar, à moda antiga. Mas depois chega o momento de concretizar os planos, e a proverbial porca torce o rabo.

O rapaz descobre que os arroubos de paixão não resistem ao confronto com a destruição da vida que uma fuga daquelas originaria. Ao descobrir isso, descobre também que a paixão, se calhar, nem é tanta quanto isso. Que, em suma, assim que começa a pensar o romantismo perde para o pragmatismo. E vai tudo por água abaixo. Ou pelo contrário, talvez.

É um conto interessante, este. E, mais do que ser um conto romântico, é um conto que faz uma crítica ao romantismo.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Leiturtugas #125

E muito pouco tempo depois da anterior, aqui temos mais uma nota sobre Leiturtugas. Não foi ainda ao domingo, como é da praxe, mas foi à segunda-feira, que é quase a mesma coisa. Ahem.

Pois esta semana tivemos de tudo.

Tivemos participantes oficiais, começando, uma vez mais, pelo Artur Coelho, que publicou a sua opinião sobre mais um livro velhinho de ficção científica portuguesa: A. D. 2230, romance de Amílcar de Mascarenhas publicado em 1936 pela Parceria A. M. Pereira. Começa a aproximar-se do centenário, este livro. E o Artur passa assim a sinalefar 6c12s e cumpre os objetivos do projeto. A partir daqui é lucro.

Também tivemos uma opinião da Carla Ribeiro, desta feita sobre um daqueles livros infantojuvenis cheios de monstros e coisas horrendas. Com o título de A Criatura do Lago, escrito por Bruno Matos e ilustrado por Raquel Carrilho, suponho que seja basicamente um conto, publicado no mês passado pela Booksmile. Não tem é FC, aparentemente. A Carla passa assim a 3c11s.

O tal Jorge Candeias, que continuo sem fazer a mais pequena ideia de quem possa ser, apareceu a seguir com a sua opinião sobre mais um conto publicado em ebook pelo Fantasy & Co. Datado de 2014, O Caçador é de autoria de Pedro Pereira e trata-se de uma fantasia urbana com uns ecos de horror. FC? Nada. 5c3s para o gajo que opina.

Ah, mas calma que o gajo não se ficou por aí e opinou também sobre mais um conto publicado pelo Fantasy & Co. O Industrioso SL4V3 é de Ricardo Dias, data de 2015 e é uma história de FC, pelo que a sinalefa passa a 6c3s. E assim de repente faltam só três títulos para o objetivo ser cumprido. Vivam os contos, pá!

Quanto aos oficiosos, esta semana trouxe-nos dois:

A Daniela, cuja opinião sobre Ensaio Sobre o Dever, de Rute Simões Ribeiro, só me chegou agora apesar de ter sido publicada ainda em agosto. Bizarrias dos leitores RSS; são extremamente úteis mas às vezes destrambelham um bocadinho. Este livro é um romance distópico publicado em 2017 em edição da autora. Com FC, portanto.

E o Nuno Coelho, que desta vez opinou sobre Os Livros que Devoraram o Meu Pai, de Afonso Cruz, um livro publicado em 2010 pela Caminho que, tanto quanto eu saiba, não tem nenhum sinal de FC.

Para terminar, fica a notinha sobre ainda não termos ganhador do exemplar do Sally. A primeira publicação contactada não respondeu nas 48 horas da praxe, e a segunda está a meio do prazo. Vamos ver se no próximo domingo já cá poderemos revelar o feliz contemplado, como é de bom tom dizer-se. Até lá.

domingo, 24 de outubro de 2021

Bob Kurosaka: Quem Pode, Faz

Nunca tinha lido nada de Bob Kurosaka e, olhando para a quantidade de coisas de sua autoria listadas no ISFDB, o mais certo é nunca mais o voltar a ler. É, ou era, daqueles autores bissextos, que raramente escrevem ou raramente publicam. E não é, realmente, grande coisa como escritor. Mas se tudo o que escreve for como este Quem Pode, Faz (bibliografia) tem pelo menos alguma piada.

Trata-se de uma história de fantasia mais ou menos urbana. Estamos numa sala de aula universitária, e um estudante contrafeito confronta o professor de matemática para que este lhe explique a utilidade da matéria. Acha que para ele, pelo menos, não tem nenhuma, visto que o rapaz tem um dom. É mágico. E quando o professor ironiza com as suas vistas curtas, resolve mostrar o que sabe fazer. Não contava era ter pela frente um adversário mais do que à altura.

Há nesta história uma ironia que vai muito além da superfície da narrativa. Uma ironia que toma como alvo os estudantes universitários e a sua autossuficiência nascida de ideias equivocadas sobre os conhecimentos que realmente adquiriram ou os talentos com que nasceram. E essa ironia tem piada. É a sua melhor qualidade. Porque de resto, é uma historinha banal, sem grandes motivos de interesse.

Conto anterior desta publicação:

Ricardo Dias: O Industrioso SL4V3 (#leiturtugas)

Ah. Este conto é bom.

Estamos num planeta distante, a bordo de uma nave de exploração, a Vasco da Gama, de onde algum tempo antes de nós, leitores, lá chegarmos, os tripulantes saíram a fim de explorarem o planeta, deixando O Industrioso SL4V3 a cuidar da manutenção e proteção da nave. SL4V3 é um robô, e Ricardo Dias consegue com a essa designação de conotações desagradáveis criar logo à partida um clima de inquietação e ameaça, que no entanto não se concretiza de imediato. E já sabem: vai haver SPOILERS.

Quer dizer, existe desde o início ameaça, mas não o tipo de ameaça que a designação agoira. Por algum motivo que SL4V3 não compreende, os nativos do planeta insistem em atacar a nave, que ele vai defendendo como pode, mas com eficácia. Os nativos, no entanto, parecem tão industriosos como SL4V3, ou talvez mais ainda, e não se detêm nem perante fortes baixas, insistindo, insistindo sempre. E o robô lá vai congeminando novos planos de defesa, tendo em conta as reservas cada vez mais reduzidas de que dispõe, sabendo que a continuar assim será só questão de tempo até ser derrotado. E a tripulação, por onde andará?

No fim percebemos por onde anda a tripulação, embora não fosse nada de que não se suspeitasse já. Dias, no entanto, faz bem a revelação, sem deixar as pistas tão óbvias que a tornem dececionante, mas também sem incorrer noutro erro bastante comum em autores pouco experientes (e mesmo em alguns experientes), o deus ex machina.

Com uma prosa que não é famosa mas é funcional, e com um enredo bem concebido, este é dos melhores contos que encontrei até agora no Fantasy & Co.

Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

José Viale Moutinho: «Negra Sombra, Negra Sombra!»

Caraças! Que conto!

José Viale Moutinho leva-nos aqui à raia minhota e aos tempos da guerra civil espanhola, na época em que as tropas franquistas, já dominantes na Galiza, andam à caça de republicanos, reais ou imaginários, a fim de os prenderem, torturarem ou simplesmente assassinarem. Mas não nos leva diretamente; leva-nos através de cartas que um dos membros dos pelotões franquistas envia ao neto de uma das suas vítimas, não se percebe porquê. Ele, nas cartas, diz que é para pedir perdão, mas não parece lá muito. Há uma sombra bem negra sobre tudo, sim, como o título de «Negra Sombra, Negra Sombra!» (sim, com as aspas) bem indica.

A história é contada de modo episódico, entrecruzando-se o passado descrito pelas cartas com o presente, época em que o destinatário daquelas procura descobrir quem é o homem e o que há de verdade ou mentira no que lhe escreve. Pois as cartas são anónimas e enviadas de lugares diferentes, o que só adensa o mistério. E também há narrações de acontecimentos contemporâneos aos descritos nas cartas, mas vistos do lado de cá da fronteira, onde só chegam os ecos e os clarões dos tiros dados em Espanha e um ou outro galego fugido à guerra, sob o olhar atento da instituição que antecedeu a PIDE. O impacto do conto, no entanto, está todo na brutalidade franquista. Ou melhor, na mistura de brutalidade com a forma como o das cartas se pinta em jovem: um tipo normal que se deixa levar pela pressão de grupo e faz assim coisas imperdoáveis. E no fim, temos uma surpresa, que vistas bem as coisas não devia ser surpresa nenhuma.

Este é um conto muito bom. Mesmo muito bom. O melhor do livro até ao momento.

Contos anteriores deste livro:

Pedro Pereira: O Caçador (#leiturtugas)

Sempre achei algo bizarras as histórias contadas em primeira pessoa nas quais o protagonista/narrador acaba por morrer. Especialmente quando são escritas no passado. Há nelas uma violação que sempre me pareceu um bom bocado grosseira de uns quantos princípios de verosimilhança necessários para a suspensão da descrença indispensável para desfrutar de uma obra de ficção. Afinal, quem narra? O morto? E como é que o morto narra, exatamente? Hm?

Não que seja impossível fazê-las bem; há uns truques que, se bem aplicados, até resultam. Mas na generalidade dos casos os autores não usam esses truques e a coisa fica presa numa espécie de uncanny valley de onde não consegue sair.

E sim, se já supõem o que aí vem o mais certo é terem acertado. Pedro Pereira não usou esses truques. E a consequência é a primeira parte de O Caçador cair nesse uncanny valley, o que só é exacerbado pela mudança de ponto de vista na segunda parte. Compreende-se bem o que ele pretendeu fazer, mas o resultado é... bizarro. Sim, a palavra é essa. Bizarro. Atenção que vêm SPOILERS.

Na primeira parte do conto estamos em plena perseguição, na pele (porque a narração é em primeira pessoa, lá está) do perseguido. Parece-nos homem, sentimo-lo como homem, comiseramos com ele por ser homem. Mais bem escrito do que está, este trecho podia até ser bom, uma vez que Pedro Pereira até consegue criar alguma intensidade narrativa... até que o narrador morre e entramos no tal vale de que falo acima. Quem diabo narrou aquilo, afinal? E como?

Na segunda parte, muito curta, mudamos para a pele do caçador... e passamos, incongruentemente, a uma narrativa em terceira pessoa. Esta parte, na verdade, serve exclusivamente como final surpresa, para virar do avesso as expetativas do leitor. O caçado, afinal, não é um homem a ser perseguido por um monstro, mas um monstro a ser perseguido por um homem. É esta a ideia que o autor teve para o conto, e sem a bizarria anterior até talvez funcionasse. Mas como está, não funciona. É pena.

Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.

Leiturtugas #124

Bem... isto desta vez atrasou bué. É esse o termo técnico: bué. Mas finjamos que não aconteceu, pelo menos até chegar o momento de explicar porquê, e façamos o post como habitualmente, referindo-se apenas à semana propriamente dita e não aos (muitos) dias que decorreram desde domingo.

Eis uma semana de Leiturtugas diferente. Porquê? Porque temos vídeo. E sorteio.

Mas antes, temos também aquilo que mais importa, as leiturtugas propriamente ditas. Chegam-nos pela mão do Artur Coelho, que prossegue o seu mergulho na obra de Altino do Tojal, opinando desta vez sobre Viagem a Ver o que Dá, romance fantástico publicado em 1993 pela Dom Quixote. Sem FC, o Artur passa assim a 5c12s.

E chegam-nos também pela mão da Carla Ribeiro, que desta feita nos fala de BD. O livro intitula-se Alma Mãe, primeiro volume da série Umbigo do Mundo, e os autores são Penim Loureiro e Carlos Silva. Edição deste ano d'A Seita e, sendo BD, conta como "sem FC". A Carla passa assim a 3c10s.

E chegam-nos também pela mão de um gajo que tem andado muito desaparecido, um tal Jorge Candeias, não sei se estão a ver quem é. Pois esta semana houve uma pequena desforra, com o aparecimento não de um post relativo às Leiturtugas, não de dois, mas de três.

Em dias sucessivos, falei aqui de três contos publicados pela Fantasy & Co. O primeiro é de autoria de Ricardo Dias, intitula-se Icarus Blues e é um conto de FC publicado em 2015. O segundo é de Pedro Pereira, data de 2013, e é um conto fantástico intitulado O Acordo. E o terceiro, também de Pedro Pereira e também de 2015, é outra história de FC, esta intitulada O Artefacto. Duas histórias com FC e uma sem, o que me leva à sinalefa de 5c2s.

E foi tudo o que aconteceu na semana. Tem sido bastante comum haver semanas só com participações oficiosas, mas acho que é a primeira vez que temos uma só com oficiais, desde que comecei a incluir os outros nestes posts, naturalmente.

Mas vamos aos outros. Temos um vídeo para mostrar. Cá está ele:


Este vídeo é o motivo do atraso deste post. É que não queria publicá-lo sem ter o sorteio do Sally feito, e esta semana tive enorme dificuldade em conjugar os momentos em que estava disponível para gravar isto com aqueles em que havia aqui à volta o sossego necessário para a gravação. Não é por acaso que o vídeo começa com "bom, vamos lá a ver se é desta": fiz várias tentativas, só conseguindo ser interrompido em todas. Ou quase todas. Grumpf.

Mas pronto, lá se fez. Agora vou contactar quem ficou em primeiro, a Despenteada, e se ela não quiser o livro (ou se não responder até domingo) passo à próxima e assim sucessivamente até alguém o querer. Se caírem aqui sem saberem o que raio é isto, está tudo explicado no último post. Onde também está uma fotografia do Sally, para quem não sabe o que é.

E pronto, já está. Retomaremos a programação normal no próximo domingo.

Espero eu.