segunda-feira, 19 de abril de 2021

E ainda dizem que ninguém dá valor à ficção científica portuguesa!

Quer adquirir o meu Sally? Tem uma conta na Amazon? Então, pela módica quantia de 126 dólares e 66 cêntimos (mais 15 dólares de portes de envio), poderá receber no conforto do seu lar esse meu primeiro livro com todas as suas 38 páginas! Apenas 3,33 dólares (mais portes) por página! Encomende já!

Duvida? Então siga o link. Não tem nada que enganar.

E fica aqui a prova, em imagem. Para mais tarde recordar.

(E não, não tenho rigorosamente nada a ver com isto, caso estejam com dúvidas. E se alguém decidir mesmo desembolsar os benditos 3,33 dólares por página nem um cêntimo me virá parar ao bolso. O mundo é injusto, não é?)

E ainda dizem que ninguém dá valor à ficção científica portuguesa!

Obrigado ao Roberto Mendes pelo toque e pela gargalhada.

domingo, 18 de abril de 2021

Leiturtugas #98

Prontos para mais uma semana de Leiturtugas? Então vamos lá.

Entre os participantes oficiais, a semana começou com a Tita, que publicou a sua opinião, como quase sempre em texto e em vídeo, sobre Almas Gémeas: Liberdade ou Ilusão, de Rui Pinto Ferreira. Apesar de um título que remete mais para a autoajuda, este livro, publicado há pouco mais de um ano pela Chiado, é um romance distópico. Com FC, portanto, e a consequência é a Tita passar a 4c1s.

Depois, apareceu por aí um tal Jorge Candeias, que veio opinar sobre Casos de Direito Galático e Outros Textos Esquecidos, um livro que junta quatro livros de Mário-Henrique Leiria e que foi publicado pela E-Primatur em 2016. Um dos livros de que o livro se compõe é praticamente um livro de FC (sim, sim, sim, livro, livro, livro, sim), pelo que passa a sinalefa a dizer 3c1s.

De seguida, a Tita voltou à carga com mais uma opinião, de novo em texto e vídeo, desta feita sobre uma coletânea. Intitula-se A Revolução dos Homens Sentados e foi edição da autora, Rute Simões Ribeiro, datada de há quase exatamente um ano. Pelo texto não cheguei a perceber se o livro contém algum fantástico mas não parece conter nenhuma FC, que é o que mais importa, pelo que a Tita passa a 4c2s.

E como a semana foi muito movimentada, não nos ficámos por aqui. Também tivemos uma opinião da Carla Ribeiro sobre uma pequena coletânea (2 contos; 44 páginas) de Jaime Soares intitulada A Cor Azul. Publicada pela Novembro no mês passado, parece tratar-se de um livro basicamente mainstream mas com elementos de realismo mágico. Sem FC, portanto, pelo que a Carla passa a 1c4s.

E encerramos as leituras dos participantes oficiais com o Artur Coelho e a sua opinião sobre um romance do Rui Zink que tem elementos de FC. Intitulado O Livro Sagrado da Factologia, foi publicado em 2017 pela Teodolito e leva o Artur a 4c3s.

Quanto aos oficiosos, a semana iniciou-se com uma opinião da Raquel, breve como sempre, sobre A Defensora do Oculto, romance de fantasia de Andreia Ramos, outra edição da Chiado, esta de 2019.

E terminou como a semana passada já tinha terminado: com uma opinião da Silvana. O alvo da opinião foi desta feita um romance de Liliana Lavado intitulado Encontro em Itália, que aparentemente é uma fantasia urbana e foi publicado pela Marcador em 2014.

(Apareceu ainda uma menção do LV Paulo a uma antologia portuguesa, mas como não traz nenhum elemento opinativo, por mais mínimo que seja, não vou incluí-la.)

E finalmente chegamos ao sorteio do livro do António Bizarro. Por fim num vídeo decente, que me deu mais trabalho do que devia ter dado (na verdade podia tê-lo pronto na semana passada; descobri que não estava a fazer nada de errado e a dificuldade foi só devida a um bug no programa que usei para sincronizar o vídeo e o áudio, o qual não gosta do formato de vídeo que eu estava a usar... bastou-me convertê-lo para outro formato e voilà, tudo OK). Aqui está ele:


Como veem, depois de ameaçar ir parar às mãos do Artur Coelho, duas vezes às da Cristina Alves e uma às da Carla Ribeiro, o livro acabou por calhar ao Marco Lopes. Agora é contactá-lo, para ver se o quer. Se ele não quiser, como digo no vídeo, segue a lista final até encontrar alguém que o queira. Parabéns ao Marco e o próximo sorteio é em junho. Até lá.

Até lá quanto a sorteios, entenda-se. Quanto a Leiturtugas, até à próxima semana. Provavelmente.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Mário-Henrique Leiria: Casos de Direito Galático e Outros Textos Esquecidos (#leiturtugas)

No mundo lá fora, nomeadamente no anglófono, é comum fazer-se edições destas, embora geralmente a quantidade de páginas com que os volumes acabam seja substancialmente superior a estas meras 218. Chama-se-lhes "omnibus", e consistem da junção de vários livros independentes do autor Xis num único volume. Por cá são raras, embora não desconhecidas. E aqui reúnem-se quatro livros que Mário-Henrique Leiria publicou entre 1974 e 1979, e pelo total de páginas (que ainda abrem espaço a uma nota dos editores) que eles somam depressa se vê quão breves quase todos são. Leiria nunca foi propriamente prolífico ou palavroso; era daqueles escritores para os quais a concisão da palavra é um valor em si mesma. E além disso escreveu bastante poesia, género que tem uma longa história de livros fininhos e cadernos de duas ou três dúzias de páginas, ou até menos.

O título, Casos de Direito Galático e Outros Textos Esquecidos (bibliografia), pode levar a pensar que o texto principal é precisamente o dos Casos de Direito Galático. É verdade e não é. Em extensão, ou melhor, em número de páginas, o maior dos quatro livros é o último, Lisboa ao Voo do Pássaro. Mas sim, os Casos de Direito Galático, com o seu companheiro de sempre, os fragmentos d'O Mundo Inquietante de Josela, são de facto os textos mais extensos que aqui se encontram, até porque os restantes são todos poesia.

E para mim são também, e de longe, os mais interessantes. É que os Casos de Direito Galático são um muito sui generis exemplar de ficção científica portuguesa, escritos e publicados numa época em que praticamente se desconhecia a existência de tal coisa. E os fragmentos de Josela também, embora bastante menos.

Mais: são um exemplar de boa FC portuguesa, o que não deverá surpreender ninguém que conheça pelo menos o livro mais conhecido do autor, os Contos do Gin-Tonic, pois também aí a FC aparece. Mário-Henrique Leiria conhecia obviamente o género, tendo pelo menos feito algumas traduções de livros da Argonauta, ainda que eu não saiba se seria leitor habitual. Parece-me provável, pois não é sem leituras que se atinge a sofisticação que alguns dos casos de direito galático mostram, mas não é algo que eu possa afirmar com qualquer grau de certeza. É uma pena que tenha produzido tão pouco no género (e fora dele também, na verdade); de outro modo podíamos ter pelo menos um autor a fazer consistentemente boa FC já na década de 70, e quem sabe se não se formaria alguma espécie de movimento em volta dele. Mas não; isso é história alternativa. No mundo real tivemos um autor a fazer boa FC na década de 70 mas só de uma forma esporádica.

Claro que é uma FC "impura", tingida de outras coisas. Felizmente, diga-se. De surrealismo, para começar. De humor, muito, e de política, também bastante, ou talvez seja melhor falar em crítica social. De novo, nada que deva surpreender quem saiba quem foi o autor, pois tudo o que ele escreveu tinha esses ingredientes. E é em boa parte isso o que o torna relevante.

São também esses os ingredientes que para mim tornam interessantes as outras coisas que arredondam as contas deste livro, pois não só prefiro a prosa à poesia, em geral, e não só sou apreciador de FC, como tenho a opinião de que Leiria era muito melhor prosador que poeta. Já o disse quando falei dos Contos do Gin-Tonic (ou talvez tenha sido dos Novos Contos do Gin) e repito-o aqui. Por isso não creio que os outros três livros sejam tão bons como os Casos. Mas não deixam de ser interessantes o suficiente para fazer com que este livro de livros seja em geral uma boa leitura. Talvez menos relevante hoje do que na época em que os livros foram publicados, pois é essa a velha pecha da arte de intervenção social direta — tende a perder acutilância quando as circunstâncias mudam —, mas boa.

Eis o que achei sobre os vários textos de que o livro se compõe: Este livro foi comprado.

domingo, 11 de abril de 2021

Leiturtugas #97

Mais uma semana que passa, e mais uma vez que temos Leiturtugas a pedir que se lhes faça referência.

E mais uma vez foi ao Marco Lopes que coube abrir a semana, ao publicar a sua opinião sobre a antologia O Resto é Paisagem, organizada pelo Luís Filipe Silva e publicada em 2018 pela Divergência. Se bem me lembro de opiniões anteriores, este é mais um livro em que não há FC, e por conseguinte o Marco passa a 0c9s.

Também a Carla Ribeiro reaparece nestas notas, através da publicação da sua opinião sobre um livro que tem aparecido frequentemente por aqui nos últimos tempos: Segredo Mortal, de Bruno M. Franco. Já sabem como é: edição deste ano da Cultura, um thriller com um pouco de FC, portanto a Carla passa a 1c3s.

Os oficiosos também regressaram esta semana, ainda que com uma leitura um pouco lateral. Chegou pela mão da Anabela Risso, e é um daqueles livros que não são de nenhum género fantástico mas se relacionam intimamente com eles, muito embora este seja dirigido à juventude: o Bestiário Tradicional Português, de Nuno Matos Valente. Edição de 2016 da Escafandro.

Mas esse foi só o primeiro oficioso da semana. Houve um segundo, uma opinião da Silvana sobre A Rainha Desejada, romance de Telma Monteiro Fernandes que parece ter sido fortemente inspirado por Outlander. Edição da autora, do mês passado.

Relativamente ao sorteio, ainda não tive oportunidade de fazer todos os testes que tenho de fazer à questão do vídeo, pelo que ainda não será esta semana. Será na próxima. Sem falta. E além do vídeo, também haverá mais Leiturtugas. Garanto.

Até lá.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Mário-Henrique Leiria e João Freire: Lisboa ao Voo do Pássaro

Tudo me leva a crer que o ponto de partida para este livro (pois é de um livro que se trata; neste caso um livro dentro do livro) foram as fotografias de João Freire. O tema, como o título de Lisboa ao Voo do Pássaro indica com toda a clareza, é a cidade de Lisboa, embora quem conheça algo da obra de Mário-Henrique Leiria não se surpreenda em nada se eu lhe disser que não é a cidade de Lisboa. E o tempo, que também é aqui de toda a relevância sendo Leiria quem é, é aquele período pós-revolucionário em que o PREC já ficou para trás e a democracia formal já se vai consolidando.

Razoavelmente longo, o livro vai sendo construído de uma forma bastante semelhante à do Conto do Natal para Crianças: cada fotografia de Freire é como que comentada ou complementada por uns quantos versos de Leiria. Não poemas independentes, mas um poema só, apesar de alguns apartes parecerem ser um pouco alheios à história geral. Esta não será propriamente uma história mas vendo bem não deixa de o ser. É sobretudo um comentário, irónico e corrosivo como seria inevitável em Leiria, mas também algo desencantado, agora que o fascismo já ficou para trás mas pouco do sonho que a revolução trouxe se cumpriu, sobre a cidade de Lisboa que Mário-Henrique Leiria parece achar demasiado igual a si própria, demasiado semelhante à de antigamente.

Acutilante e, a espaços, bastante divertido, este texto é claramente Leiria, mas aquele Leiria de que eu tendo a gostar menos. Já o disse várias vezes e continua a ser verdade: prefiro de longe as suas prosas aos seus versos. No entanto, este é dos tais autores de que gosto tanto quando gosto mais que não é por gostar menos que deixo de gostar. Portanto sim, prefiro outras coisas dele a esta, mas não deixei de desfrutar desta leitura.

Textos anteriores deste livro:

Lewis Carroll: Alice no País das Maravilhas

Não sei se isto acontece a muita gente, embora saiba que quando se pergunta "serei só eu que" quase nunca se é, mas o facto é que senti durante anos e anos uma enorme resistência a ler livros ou contos de que tinha visto ou lido adaptações em miúdo. Não sei bem porquê. Talvez o receio de destruir com essa leitura memórias de infância, talvez a ideia de que há coisas que se não forem lidas na idade certa perdem a magia e por consequência o encanto, talvez, simplesmente, não ter calhado ou então ter andado demasiado absorvido por outras leituras para regressar a essas histórias. Talvez uma combinação de todas ou algumas estas coisas e de outras tantas. Seja qual for o motivo, o facto não muda: há obras literárias que nunca li simplesmente por ter visto adaptações delas para cinema ou TV ou por as ter lido adaptadas para BD. Ou até resumidas em conto infantil.

Ultimamente tenho vindo, devagarinho, a remediar essa situação. Foi o que me levou, por exemplo, a comprar os Contos de Grimm, que tenho vindo a ler nos últimos meses. E foi também o que me levou a comprar este Alice no País das Maravilhas (bibliografia), que também nunca tinha lido, apesar de conhecer razoavelmente bem a história através de várias adaptações (e uso o advérbio porque as adaptações tendem a desviar-se dos originais em maior ou menor grau, dependendo daquilo que mais interessa neles a quem as faz).

O problema destas leituras, claro, é chegarem a destempo. O leitor de hoje não é o leitor que seria se as tivesse feito no tempo próprio, e estas histórias infantis já são olhadas com o olhar experimentado e demasiado cínico do adulto, não com a ingenuidade da criança. Há nisso uma vantagem e várias desvantagens. As desvantagens são óbvias, parece-me, pelo que me dispenso de as elencar. A vantagem é o adulto que lê estar mais equipado para compreender as motivações do adulto que escreve e por isso conseguir encontrar nestes textos significados que a criança nunca captaria. Ainda que isso por vezes cause também algum incómodo.

A criança, ao ler esta novela de Lewis Carroll (ou ao ler ou assistir a alguma das suas adaptações), deixa-se simplesmente deslumbrar pela imaginação delirante e absorver pela história. O adulto, por seu lado, diverte-se com a crítica implícita aos desmandos e à crueldade dos poderosos ou ao ridículo (e ineficaz) cerimonial dos tribunais, especialmente dos britânicos. A criança nada encontra de estranho na própria Alice; já o adulto, sabendo que a Alice do livro é homenagem a uma Alice verdadeira, de carne e osso e da mesma idade, com quem o autor conviveu demoradamente... bem... falo acima de incómodo, não é? Pois.

Curioso é que a criança tenha retido na memória sobretudo a cena do chá com todas aquelas personagens estrambólicas, Chapeleiro Louco e companhia, a que se soma o Gato de Cheshire de outras cenas, e o adulto, ao ler o livro, tenha descoberto que essas cenas e personagens pouca importância acabam por ter. De facto, a maior parte da novela tem por base a Rainha de Copas e a sua permanente injustiça sanguinária, numa sucessão de cenas a que a criança pouca importândia deu. Talvez por falta de interesse próprio, talvez pela pouca atenção que lhes terá sido dada pelas adaptações a que a criança teve acesso. O adulto não sabe; já não se lembra. Passaram-se muitos anos.

O tom, no entanto, é aquele de que o adulto se lembra dos tempos de criança. A imaginação fervilhante, como que movida a mescalina, e as personagens excêntricas e antropomorfizadas, à boa maneira das fábulas, são as mesmas, e a história, pesem embora os diferentes pesos dados a este ou aquele episódio, também é. A camada de crítica social é nova mas só porque a criança não se apercebeu dela; o que é a redução de toda a hierarquia a um baralho de cartas falantes se não crítica social? Carroll, provavelmente, tê-la-á concebido apenas como uma crítica aos absurdos do mundo dos adultos, a que Alice por ser criança é alheia, mas o olhar desta acaba por funcionar como visão externa sobre uma sociedade cheia de defeitos, de uma forma muito semelhante ao de Gulliver nas andanças descritas por Swift. De resto, toda a forma de caracterizar a sociedade através do exagero e do absurdo é bastante semelhante em Swift e em Carroll, e isto é mais uma coisa que o adulto não esperava.

E de vez em quando, o adulto deixou-se divertir. Não tanto como gostaria mas mais do que temia. Sendo certo que a idade certa para o ler não é aquela em que o li, não é menos certo que há bons motivos para este livro ser o clássico que é. É um bom livro.

Este livro foi comprado.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Escrita de março


Março foi mais um mês fraco, mas não tanto como os anteriores, e acabou por sê-lo em parte por culpa de eu ter passado a última semana doente e sem escrever uma linha. O resto do mês até viu progressos razoáveis no conto que já vem de fevereiro e está a transformar-se em noveleta; progressos que bastaram para fazer com que março tenha acabado por se tornar o melhor mês do ano até ao momento.

Mas foi um mês fraco, muito abaixo da produção média de 2020. Um pouco mais de 4700 palavras, quase todas aplicadas a essa história, não são nada de especial, e tornam-se ainda menos impressionantes tendo em conta que não houve qualquer espécie de revisão, ou outros trabalhos menos virados para o ato de escrever propriamente dito, a fazer reduzir o total.

É o que temos por estes dias, aparentemente. A motivação não é grande, os problemas são muitos e variados, e tudo se ressente. Mas adiante. As histórias continuam a querer sair, armadas em lava de vulcão islandês, e vão saindo, umas vezes mais depressa, outras mais devagar. No fim de abril logo se verá se o ritmo da erupção continua lento ou arranjou alguma maneira de acelerar. É mais que provável que este conto se deixe acabar durante este mês, transformado em noveleta mas ficando bastante longe da novela, mas probabilidade e certeza são conceitos diferentes. Veremos.

Se quiserem ficar por aí, no início de maio já saberemos.

domingo, 4 de abril de 2021

Leiturtugas #96

Isto não seria uma semana se não houvesse Leiturtugas a divulgar.

Bem... exagero. Mas sim, temos material novo por aí. E tudo publicado ainda em março, pelo que conta para o próximo sorteio... mas sobre isso falamos depois. Para já, a semana começou com...

... o Artur Coelho, que regressa depois de umas semanas de ausência e apresentou logo na segunda-feira a sua opinião sobre a coletânea Seis Drones, de António Ladeira, um livro que a On y Va publicou em 2018. É um livro de FC, portanto o Artur passa a 3c3s.

E terminou com a Tita, que leu e comentou, em texto e em vídeo, o thriller Segredo Mortal, de Bruno M. Franco, publicado em março pela Cultura. Trata-se basicamente de um thriller com elementos fortes de policial e um cheirinho de FC. Este cheirinho basta para que conte como "com FC", portanto a Tita passa a 3c1s.

E esta semana os oficiosos tiraram férias, portanto é só o que tenho para vos mostrar. Mas...

... mas vamos fazer em abril o segundo sorteio do ano, pelo que o material que conta é o que saiu até ao fim de março. Ainda não sei ao certo se o farei esta semana que entra ou na seguinte — vou mudar a forma de filmar, que já basta de écrans filmados por telemóvel, e tenho ainda de fazer uns testes que não sei quanto tempo levarão. Seja como for, o livro a sortear é este que podem ver aqui ao lado: O Invisível, a Sua Sombra e o Seu Reflexo, uma coletânea de António Bizarro. Oferecida pelo próprio.

E quem participa? Montes de gente, que o número de participantes oficiosos cresceu bastante nos dois últimos meses. Eis a lista completa com os quocientes de cada um:

Publicação Já cumprido Falta cumprir Quociente
Rascunhos 4c5s 3 (2c) 27
Intergalactic Robot 3c3s 6 (3c) 27
O Senhor Luvas 0c8s 6 (6c) 15
O Prazer das Coisas 3c1s 8 (3c) 7
A Lâmpada Mágica 2c1s 9 (4c) 25
As Leituras do Corvo 0c3s 9 (6c) 25
Marcador de Livros 2c0s - 1
Book Tales 1c1s - 0,75
Livros de Cabeceira e Outras Histórias 1c1s - 0,75
A Viciada dos Livros 0c2s - 0,5
Atmosfera dos Livros 0c2s - 0,5
Gotika 1c0s - 0,5
No Conforto dos Livros 1c0s - 0,5
Postal do Algarve 1c0s - 0,5
Palavras Sublinhadas 1c0s - 0,5
Quando se Abre um Livro... 1c0s - 0,5
Portugueses Contemporâneos 1c0s - 0,5
D311nh4 0c1s - 0,25
Deus me Livro 0c1s - 0,25
Estante de Livros 0c1s - 0,25
Livros 2009 0c1s - 0,25
O Livro Pensamento 0c1s - 0,25
Papéis e Letras 0c1s - 0,25
The Girl Who Reads Books 0c1s - 0,25

Não me lembro ao certo se é a primeira vez que acontece, mas creio que sim: neste sorteio todos os participantes oficiais estão em dia com as leituras. Na verdade, metade deles vai bem adiantada. Tudo verdinho. Assim é que é bonito.

Além disso, os leitores mais atentos terão reparado em duas coisas: o quociente da Tita (O Prazer das Coisas) é bastante mais baixo que os outros, e os quocientes dos participantes oficiosos são diferentes dos do primeiro sorteio. Bons olhos, bons olhos. A Tita, como levou para casa o último livro, está com a penalização do último vencedor, que lhe corta dois terços ao quociente.

Quanto aos oficiosos, resolvi melhorar-lhes os quocientes: uma leitura sem FC valia um quinto e agora passa a valer um quarto de uma leitura dos participantes oficiais, e uma leitura com FC valia um terço e agora passa a valer metade. Fi-lo por dois motivos:

- para lhes melhorar um pouco as possibilidades (ou antecipar o tempo que terão de esperar / reduzir as leituras que terão de fazer até terem alguma possibilidade real) de ganharem um livro;
- para facilitar as contas, que aquelas divisões por três tendem a dar uns números um bocado intratáveis. Assim já se faz tudo de cabeça sem problema nenhum.

Não sei se para a semana já conseguirei ter cá o vídeo relativo ao sorteio, mas é provável que sim. E quer tenha, quer não tenha, as Leiturtugas não faltarão. Portanto até lá.

Mia Couto: O Monstro Infantil

De cerca de página e meia se faz esta crónica a que Mia Couto chamou O Monstro Infantil, título que daria pano para muitas páginas fantásticas mas designa apenas o pacholas paquiderme (enquanto não o enfurecerem... e desde que não seja macho no cio) trombudo, tal como, de resto, o autor revela logo a seguir num subtítulo aconchegado a parêntesis: Declaração de Amor ao Loxodonta africana. E é o subtítulo que descreve o texto, pois é disso mesmo que se trata: uma declaração de amor ao elefante, escrito na típica prosa de Mia Couto; uma crónica daquelas que se leem bem mas são basicamente inócuas, sem grande coisa que as faça memoráveis.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 28 de março de 2021

Leiturtugas #95

Temos leiturtugas? Temos.

Esta foi a semana da Carla Ribeiro, que começou por publicar a sua opinião sobre O Fato Novo do Sultão e Outros Contos, livro de histórias tradicionais, destinado à infância, e elaborado por Guerra Junqueiro. A Carla parece ter lido o livro na edição da Booksmile, acabadinha de sair, e claro que não há aqui sequer vestígio de FC, pelo que ela passa a 0c2s.

Dias depois, escreveu também sobre um livro de horror de David Costa, A Batalha dos Caídos, segundo romance de uma série intitulada O Despertar do Nefilim. Publicado em novembro do ano passado pela No Tag, é de novo um livro sem vestígios de FC e a Carla passa a 0c3s.

Quanto aos oficiosos, o facto de ter precisado de ir na semana passada à procura da capa do romance de Nuno Gomes Garcia, Zalatune, fez-me descobrir mais uma opinião que havia por aí. Nomeadamente a do Paulo Serra, publicada no início de fevereiro. O mesmo Paulo Serra, de resto, também escreve noutro lugar (onde me será mais fácil seguir o que publica, porque ao contrário do site do Postal, aqui existe feed RSS... que está mal formatado e não é considerado válido pelo meu leitor. Porreiro. Mas há subscrição por email, veremos se funciona) e também publicou aí a sua opinião.

De resto, a semana parece ter sido dedicada a descobrir material atrasado, ainda que desta feita a "culpa" seja do próprio RSS, que é excelente para se ir acompanhando o que se publica por aí mas não deixa de ter as suas falhas. Consequência: só agora me apareceu a opinião do Jorge Almeida, publicada ainda em janeiro, sobre os Contos de Eça de Queiroz, que ele parece ter lido na velha edição dos Livros do Brasil.

Mas não foi só material atrasado, pois a terminar a semana a Maria Manuel Magalhães publicou a sua opinião sobre um romance de Bruno M. Franco que parece ser um daqueles thrillers com elementos de FC (e, no caso, também de policial). Intitula-se Segredo Mortal e foi publicado este mês mesmo pela Cultura.

terça-feira, 23 de março de 2021

Urbano Bettencourt: Tinha (s. fem.)

E estamos de volta ao sr. Fradique Mendes e às tricas e mesquinhices e egos inflados do meio literário. Neste Tinha (s. fem.), a história que Urbano Bettencourt conta é sobre um autor que barafusta com um crítico não só porque a crítica ao seu livro vem lado a lado com a de um outro obscuríssimo "cujo nome se recusa mesmo a escrever", como tem 11 palavras a menos que a dele. E eu continuo a achar tudo isto uma seca, por mais que até conheça autores capazes de atitudes tão ridículas como esta, e por mais que perceba a ironia que Bettencourt aqui aplica. A opinião volta a ser "OK, está bem feito, mas não me interessa minimamente".

Textos anteriores desta publicação:

segunda-feira, 22 de março de 2021

Urbano Bettencourt: A Importância da Retórica

E aqui temos um caso de absoluta compatibilidade do sentido de humor. Também eu me pelo pelos efeitos que é possível alcançar através da literalização das frases feitas, e tenho feitos uns quantos continhos que não me deixam mentir. Ora, é precisamente o que Urbano Bettencourt faz neste curtíssimo conto sobre A Importância da Retórica, através de um protagonista que ouve deus dizer-lhe que comerá o pão com o suor do seu rosto e entende a expressão de forma literal. E eu diverti-me, evidentemente.

Textos anteriores desta publicação:

Irmãos Grimm: Irmão Jovial

Com o regresso dos contos de maiores dimensões, depois de uma série de continhos de uma página e picos ou menos, regressamos também aos contos em que os Irmãos Grimm não se limitaram a recolher material da tradição oral ou de publicações prévias, dando-lhe talvez alguns retoques estilistico-literários mas nada mais, mas compuseram contos que talvez sejam novos apesar de terem base em elementos que eles encontraram em histórias mais ou menos aparentadas e julgaram compatíveis.

Irmão Jovial é um soldado desmobilizado após o fim de uma guerra, que vagueia pelo mundo (ou, vá, pela Alemanha) em busca de algum modo de ganhar a vida. Nessas andanças depara com São Pedro, que lhe testa a bondade, e Jovial passa o teste tornando-se assim companheiro do santo sem saber que este o é. Mas vai-se apercebendo aos poucos de que o santo é milagreiro e depressa se torna evidente que acha uma parvoíce o companheiro ter tantos poderes maravilhosos sem deles tirar proveito, o que leva ao conflito entre os dois e à subsequente série de aventuras e desventuras.

Ao contrário de vários outros dos contos que se podem encontrar aqui e noutras compilações de histórias tradicionais de várias latitudes, mais ou menos fiéis aos originais, esta não me parece ser história originada em tempos ancestrais, pagãos, e recoberta por uma camada de mitologia cristã a fim de a tornar mais palatável para a Igreja. Parece-me ser história mais recente (não a história em concreto, que foi criada pelos Grimm, mas o material que lhe deu origem), criada provavelmente não muito antes de os Irmãos Grimm nela terem tropeçado. Histórias como O Suave Milagre, do nosso Eça, em que Jesus ou algum santo andam pelo mundo a testar a bondade, caridade ou qualquer outro atributo cristão dos mortais mostram um claro parentesco com ela, e muito me surpreenderia se a origem de ambas não estivesse nos sermões dos padres, ansiosos (pelo menos da boca para fora, há que dizê-lo) por incutir no seu rebanho a ideia de que há que praticar sempre as virtudes cristãs pois nunca se sabe quem poderá estar a ver.

Mas é uma história interessante, e uma bem-vinda variação face às curtíssimas e muito esquemáticas historiazinhas que têm sido o pão-nosso de cada dia ao longo das últimas páginas.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 21 de março de 2021

Leiturtugas #94

Olá, olá. Pensavam que esta semana não havia Leiturtugas, é? Pois enganaram-se redondamente. Há. E há bué delas.

E pensavam que lá porque o Marco Lopes tinha acabado de publicar a sua série de opiniões sobre as Crónicas de Allariya do Filipe Faria ele ia fazer uma pausa, ou pelo menos falar de outro autor ou universo? Pois voltaram a enganar-se, que o autor regressou ao universo e publicou A Oitava Era, romance inaugural do segundo ciclo dessa sua fantasia épica. E o Marco opinou. O livro saiu em agosto do ano passado, claro que pela Presença, e continua sem trazer sinal de FC. O Marco passa a 0c8s, portanto.

Outra das suspeitas do costume, a Cristina Alves, também publicou uma opinião no início da semana. O alvo da leitura da Cristina foi desta vez o romance Zalatune, de Nuno Gomes Garcia, um livro de FC distópica (ou uma distopia com alguma FC, talvez) publicado já este ano pela Manuscrito. Passa a Cristina a 4c5s.

A rematar a semana, surge a Tita, a recuperar tempo perdido, trazendo-nos não uma mas duas opiniões. A primeira é sobre Mors-Amor, romance de fantasia (ou com fantasia, talvez) autoeditado por Sónia Ferreira em novembro do ano passado. Nada se vislumbra aqui de FC, pelo que a Tita passa a 1c1s.

A segunda é também sobre Zalatune, de Nuno Gomes Garcia (vocês combinaram-se?), e aqui existe FC pelo que a Tita passa a 2c1s.

Entre os oficiosos, tivemos esta semana uma opinião da Diana também sobre Mors-Amor de Sónia Ferreira. E combinaram-se, tá visto...

Também a Isabel Daires opinou sobre um livro que parece estar cheio de fantasia, embora num registo bem diferente: A Mulher que Prendeu a Chuva e Outras Histórias, coletânea de Teolinda Gersão publicada originalmente em 2007 e reeditada já este ano pela Porto Editora.

Por seu turno, a Carla fala um pouco sobre O Conto da Ilha Desconhecida, um infantojuvenil de José Saramago com a sua dose de fantástico, publicado originalmente em 1997 e reeditado há um par de anos pela Porto Editora.

E por esta semana é só, e já não é nada mal. Siga para a próxima!

Urbano Bettencourt: Fradique e o Desconcerto do Mundo

De Borges saltamos para Eça, que Urbano Bettencourt é muito pós-moderno na forma como enche as suas ficções de referências literárias e nos traz desta vez Fradique Mendes, julgo que em versão queirosiana (mas também pode ser de algum dos outros escritores que se serviram da personagem, ou de todos, ou se calhar de nenhum), no mais extenso destes seus minicontos.

Mas este Fradique e o Desconcerto do Mundo é um pouco mais colado ao original do que aconteceu com as referências anteriores. Na verdade, este continho mais me parece um pastiche, no qual Bettencourt parece procurar escrever o que e como Eça (pela voz de Fradique Mendes) escreveria. Não aprecio grandemente a técnica e não conheço bem o suficiente a personagem para fazer uma avaliação minimamente capaz deste continho, pelo que só posso dizer que este me deixou profundamente indiferente.

Textos anteriores desta publicação:

O Manojas volta a falar de FC


O Bibliowiki tem uma dívida de gratidão para com o Manojas. Nos primórdios do site, a Cronologia do Fantástico, da Ficção Científica, e Géneros Afins, na Literatura Portuguesa, com que Manuel José Trindade Loureiro inaugurou o seu blogue, foi muito útil para ultrapassar lacunas, tapar buracos e indicar rumos de pesquisa no que à FC&F portuguesa dizia respeito, e como consequência o blogue é ainda, estes anos todos mais tarde, uma das fontes que o wiki destaca.

Trata-se, no entanto, de um blogue pessoal, com tudo o que isso implica, e o Sr. Manuel Loureiro (já é bastante idoso, ele) fala aí do que lhe dá na real gana, como é de norma em blogues pessoais, pelo que depois de publicar a Cronologia passou uma série de anos quase sem falar de ficção científica. Mas voltou a fazê-lo agora.

O tema, desta feita, é a ficção científica russa/soviética publicada em Portugal. Até agora estão publicados 5 posts, e talvez seja tudo o que ele tem para publicar. Ou talvez não, não percebi bem. Seja como for, o primeiro está aqui, e não quis deixar de fazer-lhe uma referência, até porque é relativamente raro aparecer por aí um conjunto de artigos sobre FC em lugares onde o tema não costuma aparecer.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Urbano Bettencourt: O Amador e a Coisa Amada

Ah, agora sim. Agora, finalmente, Urbano Bettencourt conseguiu conjugar o interesse e a coisa bem feita. Para mim, obviamente. O Amador e a Coisa Amada volta a ser um miniconto muito curto (cinco linhas apenas), e faz uma referência direta a Borges, mais especificamente ao conto Pierre Menard, Autor do Quixote. De novo, é um continho muito irónico, mas tem a grande vantagem de terminar de forma inesperada, divertida e completamente consistente não só com a história de Borges como com o fantástico que este praticava. Muito bem. Assim gosto mesmo.

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quarta-feira, 17 de março de 2021

Urbano Bettencourt: A Rã e o Boi

Mais um miniconto de Urbano Bettencourt, e mais uma dose de ironia mais ou menos cáustica. Mas desta vez estamos perante um texto que me interessou mais, também, mas não só, pelo inesperado surgimento do fantástico. E basta o título, A Rã e o Boi, para se perceber que tipo de fantástico. Sim, não é por acaso que este parece um título de fábula, embora Bettencourt use esta sua fábula, sobre uma rã que inveja um boi musculoso e vai tratar de muscular-se, não propriamente para dar a típica liçãozinha moral, mas para atirar farpas aos poderes públicos regionais açorianos, e provavelmente não só. O curioso é que embora este miniconto me tenha interessado mais que os anteriores me pareceu menos bem feito do que eles. Paradoxos da leitura.

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Mia Couto: Animais, Animenos

Há muito pouco a dizer sobre mais esta crónica de Mia Couto. Quem tenha vindo a acompanhar esta leitura e tenha lido o que disse sobre o texto anterior, facilmente olha para um título como Animais, Animenos e pensa com os seus botões: "'pera lá, pá, o tipo não se terá enganado? O que ele disse sobre a outra não seria para dizer sobre esta?" A resposta é não, o que o tipo disse sobre a outra é mesmo sobre a outra. Mas sim, sobre esta podia dizer-se quase exatamente as mesmas coisas, pois esta crónica parece uma espécie de segunda parte da visita ao zoo-ilógico. É a mesma coisa, com outra bicharada. E continua a ser muito engraçada.

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terça-feira, 16 de março de 2021

Urbano Bettencourt: Ladrão que Rouba a Ladrão

Pois. Mais um miniconto de Urbano Bettencourt, mais um miniconto sobre as tricas do mundo literário, e de novo sobre plágio como o título de Ladrão que Rouba a Ladrão deixa de imediato supor. Começa a instalar-se o receio de que este seja autor de uma nota só, o que seria francamente aborrecido, até porque o tema, convenhamos, está longe de ser dos mais apelativos. Está bem feito, este contículo onde U. Bettencourt até se introduz como personagem? Sim, até está. Mas a minha falta de interesse no tema, e por conseguinte nos contos, só se aprofunda a cada texto que leio.

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Mia Couto: No Zoo-Ilógico

Eis-nos de regresso às crónicas que o são mesmo com esta No Zoo-Ilógico, apesar de haver aqui uma tenuíssima camada de ficção a decorar a prosa. E é, de longe, a mais divertida das crónicas que Mia Couto incluiu neste livro (das lidas até agora, pelo menos), uma crónica em que o autor se diverte com as palavras e nos diverte com o seu divertimento.

A ideia é não só que a própria existência dos jardins zoológicos é ilógica, mas que os nomes que damos aos bichos também o são. Porque haveria de se chamar falcão a uma ave tão felina? Falgato não seria mais adequado? E como admitir que se chame leitão a um bicho tão pequenino, quando melhor seria chamar-lhe leitinho? E por aí fora. Este é um texto de humor e de amor pelas palavras, um texto em que Couto se serve dos trocadilhos tão característicos da sua prosa com o único fito de brincar, divertir-se e divertir quem o lê. Ou quase único, vá. Semiúnico. Há por aqui umas mensagenzinhas mais ou menos ocultas, também.

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segunda-feira, 15 de março de 2021

Mário de Carvalho: A Torneira

No Beco das Sardinheiras, um bando de putos resolve entrar num barracão (ou casarão) abandonado e muito proibido para lá fazerem o que os putos desde sempre fizeram em lugares abandonados e muito proibidos: investigar, explorar, vencer o medo que os adultos lhes tentam incutir. É assim que começa este A Torneira de Mário de Carvalho, mas já se sabe que não é assim que termina. Afinal, estamos no Beco das Sardinheiras, onde pode acontecer tudo e qualquer coisa. E geralmente acontece mesmo.

Aqui, o que os putos encontram é uma espécie de oficina cheia de estranhos mecanismos enferrujados. Resolvem acionar um deles, uma espécie de roda, o que fazem com dificuldade. Nada parece acontecer. Desinteressam-se e vão-se embora em debandada, pois o pai de um deles vem-se chegando e pode dar sarilho. Mas pouco depois aparece uma espécie de trovoada fixa sobre o bairro, e um fio de água, não muito abundante mas contínuo, despenca céu abaixo sempre no mesmo sítio. Toda a gente em espanto, a tentar perceber o que se passa, e a água vai de cair, não tanta que cause alarme na cidade em geral, mas a suficiente para começar a fazer estragos no sítio específico onde cai. Até que um dos putos soma dois e dois e resolve a situação.

Este é, como se vê, um conto fantástico muito interessante e bastante divertido. Mas para mim, o que ele tem de mais interessante é poder integrar-se num subgénero recente, que trabalha este tipo de histórias em que a tecnologia classicamente mecânica interage com o mágico e o bizarro, e fazê-lo quase toda a certeza sem que o autor disso tenha conhecimento, até porque o conto foi escrito e publicado muitos anos antes do subgénero ser identificado e individualizado. Aliás, dois subgéneros. Há aqui elementos de fantasia steampunk e também de new weird. Interessante, muito interessante.

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Urbano Bettencourt: Ossos do Ofício

Mais um miniconto de Urbano Bettencourt, e ainda mais curto que o primeiro (apenas quatro linhas), este Ossos do Ofício continua a remoer nas cenas literárias, atirando-se agora aos plagiadores, ou pelo menos a um plagiador em específico cujo nome, Macário, dá uma ideia da obra (ou autor) plagiada. O continho tem alguma graça mas continua a interessar-me pouco, e esta opinião já tem mais linhas que o conto pelo que me fico por aqui.

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domingo, 14 de março de 2021

Leiturtugas #93

Cá estamos com mais uma nota de divulgação das Leiturtugas, e mais uma vez tudo começa...

... pelo Marco Lopes. Ele continua a falar sobre a série de Allariya, do Filipe Faria, e esta semana chegou a vez do sétimo e último volume, Oblívio. Publicado originalmente em 2011, como sempre pela Presença, este é mais um livro de fantasia épica, sem nada de FC, que põe o Marco em 0c7s.

Entre os oficiosos, tivemos esta semana um livro repetente, trazido pelas mãos de uma leitora repetente, a Inês Montenegro. Falou ela sobre Alice do Lado Errado do Espelho, a coletânea de fantasia de Pedro Rodrigues publicada no ano passado pela Cultura.

E também tivemos uma brevíssima opinião da Carla sobre A Fada Oriana, conto de fantasia infantojuvenil de Sophia de Mello Breyner Andresen, que ela parece ter lido numa edição da Porto Editora de há quase precisamente um ano.

Por fim, a Maria Manuel Magalhães encerrou a semana com a sua opinião sobre Correria dos Pássaros Presos, romance de FC de Ana Gil Campos publicada em edição da autora no ano passado.

E agora vamos lá então fechar 2020.

Mesmo a acabar dezembro, o Pedro Miguel Silva escrevia sobre, entre outras coisas, Tropel de Manuel Jorge Marmelo. E também sobre Felicidade de João Tordo.

Também a acabar dezembro, a Daniela falava sobre Sombras, de Patrícia Morais.

Por fim, também em dezembro mas a meio do mês a anónima autora de Um Tom Diferente divulgava o que pensa sobre outro livro de Andreia Ramos, intitulado A Força da Escuridão.

E pronto, está feito. A partir de agora, é tudo deste ano. A ver vamos o que aparece por aí. E quando.

sábado, 13 de março de 2021

Urbano Bettencourt: Provincianismo

Às vezes, aos autores dá-lhes para falar de si na terceira pessoa. Parece ser precisamente o que Urbano Bettencourt aqui faz neste Provincianismo, um miniconto bem feito sobre um autor açoriano, prolífico e prolificamente publicado, que se sente triunfal por finalmente conseguir uma nota de rodapé num suplemento literário lisboeta. Ou talvez não seja, talvez seja algum Beltrano que ele conheça. Ou que imagine. Seja como for, o miniconto está bem feito, ainda que eu não lhe tenha achado grande interesse pois raramente me interessam os textos construídos em volta do umbigo do meio literário.