quarta-feira, 3 de junho de 2020

Tito Couto (org.): Dez Contos Para Ler Sentado (#leiturtugas)

Curioso objeto literário, este Dez Contos Para Ler Sentado, mais um dos livros de que tomei conhecimento primeiro e depois resolvi arranjar como consequência da produção de conteúdos para a web. Resulta de um daqueles programas autárquicos destinados a promover determinados municípios, no caso o de Paredes, e que geralmente estão (ou estavam no tempo das vacas gordas) principescamente financiados. Aqui, tratava-se de promover Paredes como centro do design de mobiliário, e uma das ações do programa foi a organização e financiamento (considero este certo, mas aqui trata-se de uma opinião, não de certeza factual) de uma antologia de autores provenientes dos mais variados pontos do mundo lusófono, cujas ficções teriam de estar unidas por um tema comum: a cadeira.

Não sei, obviamente, como foi organizada a antologia, mas suspeito que Tito Couto terá convidado autores que lhe parecia poderem representar bem os respetivos países, produzindo ficções interessantes. Não está representada toda a lusofonia, mas quase: há dois autores portugueses (um dos quais nascido na então Rodésia, hoje Zimbabwe), três brasileiros, e Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor-Leste e Guiné-Bissau têm um representante cada. Isto, só por si, confere algum interesse ao projeto: não é frequente encontrá-los assim tão abrangentes, pois o mais comum é que projetos internacionais deste género se resumam ao eixo Portugal-Brasil, por vezes com um ou outro africano pelo meio.

Claro que, com tanta diversidade, o risco do livro acabar por ficar algo desequilibrado existia, mesmo unido por um tema comum. E de facto ficou, até porque vários dos autores resolveram em maior ou menor grau ignorar o tema, usar a cadeira como mero adereço bem distante do núcleo da narrativa. São opções inteiramente legítimas mas que retiram um pouco do interesse que a antologia poderia ter. E o facto de o organizador ter optado por apresentar os contos por ordem alfabética dos respetivos autores também criou um efeito secundário um pouco desagradável: os contos menos interessantes são precisamente aqueles que abrem e sobretudo que fecham o livro, deixando ao terminar a leitura um sabor algo mais amargo do que tipicamente acontece quando as antologias são encerradas em grande.

Mas há aqui contos bastante bons, pelo que, como eu costumo dizer, valeu a pena tanto a iniciativa como a leitura. Destaco em especial os contos do Onjaki, do Luís Cardoso e do Arthur Dapieve, embora haja mais dois ou três que não lhes ficam a dever muito.

E além disso, esta é uma antologia cheia de fantástico. Em dez contos, são cinco os que incluem elementos fantásticos, com graus variados de intensidade e de sucesso. Quase sempre na vertente realista-mágica, claro, mas ele está lá e por vezes há toques de outras coisas. Terror, por exemplo. Curioso é também ambos os autores portugueses enveredarem por aí... enquanto Mia Couto que, como é sabido, tem um imaginário muito fantástico, aqui se remete ao realismo mais estrito.

Por tudo isto, não tendo eu achado esta leitura nada de extraordinário, não deixei de gostar dela.

Eis o que achei dos contos um a um:
Este livro foi comprado.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Escrita de maio

Uma navezinha desta vez, porque em maio só escrevi FC

Sim, sim, sim, desta vez acabou mesmo.

Falo da tal novela que andei a escrever durante uns mesitos, claro, e que eu no mês passado admitia com grande embaraço que ainda não tinha acabado. Agora já. Está feita e a descansar do trabalho de parto, ali na gavetinha, que é onde ela está bem. Um dia destes (ou mais que um dia, que a coisa ainda é comprida) revejo-a.

Além disso, também escrevi um par de contos, um dos quais foi publicado há dias aqui mesmo na Lâmpada. Sim, é obra recém terminada; quase nem revista foi. Normalmente não gosto muito de fazer isso porque só sei realmente se gosto dos meus resultados quando os vou reler passado algum tempo de os ter feito, mas de vez em quando apetece-me pôr logo as coisas cá fora. E preferi publicar um conto novo a ir remexer no material velho e engavetado há anos. Na maior parte dos casos, se está engavetado há anos é por bom motivo.

E está em produção mais um conto novo, e ainda há outro que foi começado. Quatro contos fruto do brainstorming que fiz para arranjar uma história que celebrasse a FC antes de acabar maio; dois acabados, um em curso e um só começado. Nada mau, hã? O mês foi produtivo, portanto, não só em número de histórias mas também em quantidade de texto produzido, ainda que não tenha batido nenhuma espécie de recorde. 10900 palavras, mais coisa menos coisa. Mais do que tem sido hábito, mas já houve meses melhores, mesmo depois de ter voltado a escrever privilegiando a regularidade à quantidade produzida em cada fase de atividade mais ou menos intensa. Em páginas dá pouco mais de 30. O que também quer dizer que desde o início do ano já escrevi mais de 100. Ainda não dá para um Nanowrimo, mas eu já sabia que não era gajo de Nanowrimos. Participei na coisa uma vez, fiquei a milhas de cumprir o objetivo e chegou-me. Adiante.

Quanto a qualidade, mais tarde veremos.

Tal como mais tarde veremos o que vai acontecer durante junho. Quero acabar este conto que estou a escrever, também gostava de ver o que sai do outro, o que só comecei, mas anda a dar-me alguma comichão para ir rever o romance que acabei no fim do ano passado.

Veremos. Em julho conto-vos como foi.

Mia Couto: A Ascensão de João Bate-Certo

É engraçado como a fantasia está cheia de histórias sobre ascensões mais ou menos mágicas a mundos fantásticos aéreos. Entre feijoeiros mágicos e mitologias várias, passando por asas de cera e uma interminável variedade de formas mais ou menos imaginativas, parece que os inventores de histórias sempre sentiram um apreciável fascínio por essa fantasia. Consequência de sermos uma espécie fisiologicamente presa ao chão, possivelmente, com uma atávica associação psicológica entre a ascensão (às árvores, originalmente) e a segurança. Até eu cometi uma historinha dessas aqui há uns anos. Esta é a versão do Mia Couto.

O que, de resto, já se vê desde o título. A Ascensão de João Bate-Certo é daqueles títulos descritivos que representam fielmente o conteúdo da história. Mas claro que nenhuma história se pode realmente resumir a um título sem deixar muito de fora. Esta é sobre a ascensão de uma personagem chamada João Bate-Certo, sim, mas também é sobre a sua mãe angustiada por ver o filho enveredar por caminhos que não compreende, sobre a irrisão daquelas pessoas terra-a-terra que estão sempre prontas a criticar e a troçar de quem decide seguir por vias invulgares, e em última análise sobre a morte. João ascende aos céus através de uma escada que vai construindo de caminho, e arranja sempre maneira de continuar a construí-la por mais que os outros lhe tentem frustrar os intentos. Sim, a história também é sobre perseverança.

E boa, é? Sim, é. Bastante.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Marta Collell Font: Espejos Rotos

Não tenho grande coisa a dizer sobre este Espejos Rotos, de Marta Collell Font. Não se trata de um conto mas de um poema, e dos breves (quatro quadras), que nos oferece a visão da autora sobre o caráter distante dos deuses. Olímpico, mesmo. Adequado à proposta desta publicação, sem dúvida, e transmite com alguma eficácia a opinião de quem escreve, mas não me parece bem sucedido enquanto obra literária. Um texto fraco.

Contos anteriores desta publicação:

G. Eric Schaller: Gripe de Wuhan

Bem, parece que se faz necessária uma nota prévia. Esta Gripe de Wuhan (bibliografia) é uma obra de ficção. Não tem rigorosamente NADA a ver com a covid-19 (que de qualquer forma também não é uma gripe e possivelmente nem de Wuhan é). É, repito, uma obra de ficção. Foi publicada em 2003 na língua original e saiu em português em 2010. Portanto, caríssimo ou caríssima, se vieste cá cair ao engano podes ir-te embora. Ou ficar para ler mais coisas, se preferires. Estás à vontade. Lamento imenso trazer-te cá, mas o título é mesmo este. É das tais coincidências que acontecem às vezes.

Afastado da sala este elefante, de que trata o conto de G. Eric Schaller? Não, não é de uma gripe, muito menos de uma gripezinha. É de uma estranha doença que leva ao desaparecimento dos pacientes através da pura e simples desagregação do corpo, a qual terá sido desencadeada por um conjunto específico de palavras. Uma cena à Thanos, mas sem luva. Ao ler esta história, a sensação de que já tinha encontrado algures algo de semelhante não me largou, mas não consegui, e ainda não consigo, lembrar-me de onde. Não propriamente nos efeitos (não é o Thanos, portanto), mas nas causas.

E não me parece que seja dos contos mais bem sucedidos deste livro, apesar de, em princípio, ser daqueles com mais potencial para me agradar por contar realmente uma história. Creio que o motivo aqui é um insuficiente desenvolvimento dessa história, ou talvez um desenvolvimento que não me agrada por inteiro. Não sei bem. Há qualquer coisa de indefinido neste texto que me leva a torcer-lhe um pouco o nariz. Não é mau, mas não me agradou por aí além.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 30 de maio de 2020

Eça de Queirós: O Defunto

Não, não é engano. Não fiz confusão nenhuma. A imagem que ali está ao lado é mesmo do livro do António Bettencourt Viana, os links dos contos anteriores ali em baixo são mesmo dos contos do livro do António Bettencourt Viana, mas o conto da vez é mesmo O Defunto (bibliografia), de Eça de Queirós. Está tudo certo e tudo tem a sua justificação.

Sobre a noveleta de Eça propriamente dita, não tenho nada a acrescentar ao que aqui deixei das últimas duas vezes que a li, uma no ano passado, a outra em 2011. A única referência que cabe aqui fazer é, portanto, ao motivo por que Viana decide incluí-la no seu livro.

E esse motivo é um artigo, que antecede a noveleta, sobre como Eça elaborou a sua ficção com insuficiente precisão. Existem no texto de Eça várias referências a fases da Lua e estações do ano, e no artigo Viana argumenta que essas referências não fazem sentido em termos de cronologia da história. A publicação da noveleta é, pois, uma forma de ilustrar o argumento; de resto Viana chega mesmo a alterá-la, destacando em itálico todas as referências que acha relevantes. Não é um tipo de crítica que me diga muito, francamente. É óbvio que Eça se refere a acontecimentos astronómicos e a estações do ano para estabelecer o ambiente, não para dizer que o facto tal sucedeu a tantos do tal, e nesse sentido parece-me absurdo estar a criticá-lo porque as referências que usa impossibilitam que o facto tal tenha sucedido a tantos do tal. Mas se isto serviu para apresentar esta ficção fantástica do Eça a alguém, já não é mau.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Isaac Asimov: O Mal que a Bebida Faz

E se no conto anterior as ironias de Isaac Asimov acertam no alvo, neste O Mal que a Bebida Faz (bibliografia) erram-no em absoluto. Em parte, tal falhanço deve-se à passagem do tempo, pois há alvos alvos que talvez pudessem ser atingidos de certas formas em 1984 mas são totalmente impossíveis de atingir da mesma forma em 2020. Mas só em parte.

Aqui a história é sobre uma mulher grande e musculosa que não consegue atrair homens. Aparentemente intimida-os. A solução que o Asimov arranja? Beba uns copos. Mas que bem! O problema é que a mulher não pode beber porque lhe basta um copito para ficar KO. E lá vai o homem do costume pedir ajuda ao demónio do costume, e este lá faz as suas manigâncias para resolver o assunto, as quais, claro, correm horrivelmente mal.

Há que dizê-lo com frontalidade, já lá dizia o outro: este conto é bastante fraquinho. É Asimov de volta ao que estes contos do Azazel têm de pior. Alguns conseguem ser bons, é certo, mas outros, demasiados, são bastante medíocres. É o caso.

Contos anteriores deste livro:

Jeffrey Thomas: Exostose Extrema

Mais uma descrição de doença inventada que é mais que uma mera descrição de doença inventada e conta uma história propriamente dita, a do paciente cujo caso terá revelado ao mundo a existência da maleita, este Exostose Extrema (bibliografia) baseia-se numa doença de ossos. Estes são atacados por tumores, os quais crescem descontrolada e desordenadamente.

Faz lembrar qualquer coisa, não faz? Quem conheça a história do Homem Elefante (e quem não conhece?) certamente fará a associação, mas existem diferenças significativas entre o caso e a doença reais e esta doença imaginada. Para começar, a doença de que sofria o Homem Elefante não atacava os ossos, ao contrário desta, e os efeitos desta são, realmente, extremos.

E Jeffrey Thomas consegue criar um enredo, e até alguma tensão. Tal como acontece com Steve Rasnic Tem, que o antecede, Thomas conta um conto de quase terror, que só não o é por completo porque apesar de tudo o narrador da história procura conservar algum distanciamento científico face ao caso, narrando-o de uma forma fria, ainda que não inteiramente fria. O resultado é bastante bom.

Textos anteriores deste livro:

Andrés Díaz Sánchez: Las Puertas del Valhalla

Há autores que acham que para escreverem uma história épica precisam de usar uma linguagem épica, tonitruante, carregada de palavreado cujo único propósito é atirar à cara do leitor que aquilo é uma história épica, portanto que faça o favor de a ler assim. Outros, mais subtis, preferem descomplicar e deixar o épico da história na história propriamente dita. E eu tendo a detestar os primeiros e a gostar bastante dos segundos.

Infelizmente, Andrés Díaz Sánchez, pelo exemplo lido, é dos primeiros. Las Puertas del Valhalla é uma daquelas histórias movidas a heroísmo guerreiro, sobre um viquingue que morre em combate e por isso vai tentar conquistar o seu lugar no Valhalla, ou pelo menos no exército que defende as portas do sítio contra o contínuo assalto das hostes infernais, cumprindo uma missão impossível no submundo. E como se não bastasse o constante estrondear de trombetas heroicas na história propriamente dita, Sánchez resolve carregá-lo ainda mais com uma prosa que chega a ser ridícula de tão empolada.

Não terei propriamente detestado esta história; não chegou a tanto. Mas não gostei nada dela. Mesmo nada.

Conto anterior desta publicação:

Charles Nodier: Uma Hora ou A Visão

Às vezes noto em algumas pessoas uma certa perplexidade por eu ler coisas que têm grandes possibilidades de não me agradarem, seja por uma questão de estilo, de tema, de ideário, pelo que seja. Não seria mais simples e proveitoso ler apenas aquilo de que provavelmente irei gostar, coisas próximas de que, à partida, poderei desfrutar mais?

Sim, até seria, mas só há uma coisa pior do que lermos coisas que não nos agradam: lermos tão frequentemente as coisas que nos agradam que elas acabam a aborrecer-nos. E além disso, sofro daquela condição grave chamada "curiosidade literária" que me leva sempre a querer saber o que está por trás daquela capa ou a seguir à próxima folha. E por isso continuo a ler coisas como este Uma Hora ou A Visão (bibliografia), de Charles Nodier, apesar de saber à partida que, sendo Nodier um romântico e não costumando agradar-me o estilo e a abordagem romântica, haveria uma elevada probabilidade de não gostar disto. De resto, às vezes há surpresas e às vezes até são agradáveis.

Não foi o caso, no entanto. Este conto tem todos os defeitos que encontro nas ficções românticas — o sentimentalismo exagerado, a prosa empolada, etc. — e muito poucas das qualidades. Trata-se de uma história de fantasmas com amores à mistura (ou paixões, pelo menos; não é bem a mesma coisa) e é uma daquelas histórias de ouvir contar, muito mais comuns nos tempos de antanho do que agora (e felizmente), através das quais os autores se distanciam das narrativas colocando os seus protagonistas/narradores como meros ouvintes de histórias narradas por outros. Aqui, o outro é um fantasma, o que muda um pouco as coisas. Mas não muito.

Não posso dizer que o conto seja mau. Não creio que seja. Mas digo que não gostei de o ler.

Susana Fonseca: O Chá Fantástico

A ideia para este conto — um dos textos das pessoas que colaboraram na estruturação da antologia, i.e., "extra-concurso", como eles dizem — parece ter sido algo como "vamos lá a ver se eu consigo juntar todas as facetas do fantástico num conto só e deixá-lo interessante". É um desafio curioso mas bastante complicado de fazer bem porque existe alguma tensão, ou pelo menos alguma compatibilidade problemática, entre os vários géneros de que se compõe o fantástico. E de facto, em parte por isso, Susana Fonseca só conseguiu fazer um conto entre o razoável e o bonzinho.

O Chá Fantástico (bibliografia) tem pelo menos uma qualidade que nem sempre se encontra nestas páginas: está bem escrito. A história que conta é que não me pareceu das mais interessantes, ou até das mais bem construídas. É a história de um homem que recebe um convite inesperado, um pouco à Willy Wonka, para um chá very British. Com uns conhecidos. Aceita, lá vai, mas depara com coisas bem diferentes das que esperava. Há um tom juvenil em tudo isto, mas sem protagonistas jovens, há vampiros e ETs à mistura e um final surpresa que é ao mesmo tempo esperado e mal explicado. O resultado... enfim, não é mau. Mas não me satisfez.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 28 de maio de 2020

FC? FC!


O mês de maio tem vindo nos últimos tempos a ganhar uma espécie de tradição de ser o mês da ficção científica devido à confluência de duas datas comemorativas do género nos seus 31 dias.

A primeira, o 4 de maio, vem da confluência fonética entre as palavras inglesas "may, the 4th" (i.e., 4º de maio) e "may the force", o início da saudação jedi "may the force be with you". Esse trocadilho levou o 4 de maio a passar a ser comemorado como dia de Star Wars.

A segunda, o 25 de maio, tem duas proveniências e por conseguinte dois nomes. É conhecido como "Dia da Toalha" em homenagem ao escritor inglês Douglas Adams, e cai a 25 de maio porque foi nesse dia do ano de 2001, duas semanas após a morte de Adams, que se realizou a primeira homenagem. Porquê da toalha? Leiam os livros dele que perceberão. E acima de tudo não entrem em pânico.

E também é conhecido como "dia do orgulho nerd" ou "dia do orgulho geek" e também está ligado ao Star Wars, embora de uma forma mais indireta: quando os fãs espanhóis resolveram arranjar um dia para comemorar a sua nerdice/geekice optaram pelo 25 de maio por ter sido nesse dia que estreou o primeiro filme da série de George Lucas, em 1977.

Por extensão, todo o mês de maio começou a estar ligado à FC. Pela blogosfera literária é frequente dedicar-se o mês à leitura de ficção científica, por exemplo, e há algumas iniciativas exteriores às duas datas que também se relacionam com o género. Lá fora, pelo menos.

E eu, no fim do mês passado, resolvi que durante maio ia publicar aqui na Lâmpada um conto meu de FC. E pensei que era capaz de ser giro se houvesse mais malta a fazer o mesmo. Uma espécie de celebraçãozinha da FC portuguesa, que merece ser celebrada por conseguir apesar de tudo ir resistindo a ventos e marés. E lancei a ideia, sem realmente esperar grande adesão. Ou nenhuma.

Até houve alguma. E além do meu conto apareceram mais alguns. Termino este post com uma lista dos contos que sei terem sido publicados, a qual será acrescentada caso me cheguem mais ao conhecimento. São estes:

Mudam-se os Tempos... - Miguel Hernâni Guimarães
O Gato Duplicado - João Ventura
Ondulações Sobre o Fundo Cósmico - Jorge Candeias

Ondulações sobre o fundo cósmico

Mais um conto. E este é meu.


Ondulações Sobre o Fundo Cósmico


Na noite interestelar toda a nave dorme.
Quem a visse de fora julgá-la-ia morta. Nem um ampere é gasto em aquecimento, nem uma luz está acesa, nem um tudo-nada de radiação ou de matéria se lhe escapa dos motores. O revestimento enegrecido do casco, iluminado apenas pela tenuíssima luz das estrelas distantes, exibe as marcas de incontáveis microimpactos que se sobrepõem em camadas como as crateras num mundo sem ar. Está ali toda a história da nave, pronta para ser lida por quem a souber ler. Mas ninguém se aproxima, nada a examina, nenhuma criatura ou aparelho a sonda. Tudo à volta é vácuo e até a radiação é rarefeita.
Mas eis que uma estrela se vai aproximando devagar. Dentro da nave, o núcleo básico, a única coisa a consumir um tudo-nada de energia, deteta nos seus instrumentos o aumento na radiação e como que abre um olho estremunhado. O olho olha a estrela, analisa a sua posição relativa à nave, calcula rumos, órbitas, distâncias relativas, presentes, passadas e futuras.
Não se preocupa com planetas. Que importam os planetas?
Decide que tudo está bem. Que nenhum ajuste é necessário. E volta a dormir, até serem mesmo horas de despertar.
Quando essa hora chega, o núcleo básico como que boceja, como que se espreguiça. Escancara toda a instrumentação necessária para proceder à recolha de informação. Eriça-se de antenas e emissores. Depois estende a vastíssima vela solar e começa a captar energia, fotão a fotão, transformando-a por enquanto integralmente em eletricidade, passando mais tarde a armazenar uma parte para uso futuro e a usar outra para a navegação.
A nave vai despertando ao longo de meses, em função da energia disponível.
Primeiro computam-se rotas, calculam-se objetivos seguintes, planeiam-se ajustes de rumo, fazem-se observações da estrela e do ambiente que a rodeia e, sim, agora os planetas já interessam. Tudo é armazenado na memória interna e classificado. Tudo o que é considerado interessante é comprimido e preparado para a transmissão.
Depois, a nave descansa. Repõe as reservas de energia, usa uma parte dessa energia para conduzir iões para os coletores de matéria, repondo assim também as reservas desse outro aspeto da mesma entidade universal. E vai-se sempre aproximando da estrela, mais e mais. Alguém que a visse e não tivesse grande capacidade de navegação poderia julgar que segue em rota de colisão, mas enganar-se-ia. Não é uma colisão que se prepara, é coisa diferente.
A certa altura, o núcleo básico decide que é hora de ativar os ambientes simulados. Visivelmente, nada na nave se altera, mas nas entranhas do seu sistema nervoso como que renascem dias. Ou tempos. Sóis sobem em céus irreais, ou reais apenas para quem sob eles vive, luzes acendem-se, veículos terrestres automatizados retomam o movimento. E as personalidades despertam, olham em volta, sorriem ou viram-se para o outro lado e tentam dormir só mais um bocadinho. Para elas, passara-se uma noite, ou um segundo. O ambiente renasce para o momento em que se apagara, e a nova situação da nave, no tempo e no espaço, é irrelevante e em grande medida desconhecida. Mas não para todos, só quase. Há alguns, um punhado de eleitos, um número ínfimo entre todas as personalidades que habitam os ambientes simulados, que se dirigem para salas de controlo e analisam os dados, e tomam decisões, em conjunto e separados, tendo em atenção as recomendações do núcleo da nave. São personalidades que vivem como todas as outras, mas mais um pouco, pois acrescentam ao seu mundo próprio alguma interação com o mundo exterior.
Sim, pois cada ambiente simulado é um mundo. E durante os meses seguintes cada mês equivale a anos. Lá dentro vive-se e morre-se, brinca-se e chora-se. São escritos poemas e livros inteiros, são feitos filmes, é composta música e canta-se e dança-se e há discussões e faz-se amor. Todas as coisas de que é feita a experiência humana lá se encontram, e quase não há limites ao que é possível.
Mas eis que tudo começa de novo a apagar-se, com grande rapidez. Cá fora, no espaço real, a vela recolhe, a maioria dos instrumentos e antenas encolhe-se, a nave volta a reduzir-se ao velho casco cheio de cicatrizes. Aproxima-se do sistema interior, onde a matéria é mais densa, onde bastaria um grão de poeira no lugar errado, e há ali tantos, e tão velozes, para causar danos custosos de reparar. Mas agora não é o casco sem vida de outrora, pois o que ali vai é uma nave ativa. Configurações alteram-se, ajusta-se a atitude, os motores preparam-se para serem ligados. Sê-lo-ão no momento em que a nave estiver mais próxima da estrela, a fim de tirar partido da gravidade desta para tornar mais económica a manobra. Nesse momento, os motores disparam durante o tempo precisamente necessário e suficiente e, assim que analisa o resultado da manobra, a nave decide que sim, está bem, ela fora precisa, e já segue rumo à estrela seguinte.
Mas ainda tem muito a fazer.
Assim que fica para trás a porção mais densa do sistema, as gigantescas velas desfraldam de novo, a energia volta a inundar os sistemas internos, os espaços simulados voltam a si e, nos meses seguintes, neles passam-se mais anos, vivem-se mais vidas, nascem sonhos e morrem esperanças. Cá fora, a recolha de dados prossegue, bem como o seu processamento, até que a distância entre a nave a e estrela começa a ser demasiada e a capacidade de captação de energia pelas velas começa a tornar-se insuficiente. Então, tudo se vai apagando, devagarinho, um ambiente atrás do outro. As personalidades adormecem e não despertam, os sóis põem-se e não voltam a nascer, os sonhos, esperanças e desejos ficam adiados sine die, restando de novo apenas o núcleo básico. Antes de recolher as velas, a nave vira a grande antena principal para um ponto distante, e transmite tudo o que aprendera, sem saber ao certo se ainda restará alguém para receber a mensagem, mas também sem querer realmente saber. É uma coisa que tem de fazer, simplesmente, e por isso fá-la.
Depois a antena como que se desmonta, as velas recolhem uma última vez, e o núcleo básico volta a adormecer. À frente, espera-a a longa extensão da noite interestelar.
E ao fundo, muito, muito ao fundo, um pontinho de luz quase invisível como que tremula de expetativa.

Mudam-se os Tempos...

Eis uma ficçãozinha para vocês, a primeira de duas. Não é minha; só uma das duas o será. Mais tarde explico.

Mudam-se os Tempos...
Miguel Hernâni Guimarães


Gianni Foglia suava abundantemente enquanto observava o grande alienígena. Não por estar calor ou por ter vestido o seu melhor fato, embora estivesse demasiado calor para aquilo que o seu melhor fato estava preparado para suportar. Sim, Sua Excelência, o Alienígena, não se dignara pôr a temperatura naquela sua nave (se é que aquilo era uma nave; a viagem até ali fora… esquisita) a um nível mais suportável pelos convidados humanos. Não ajudava. Mas o que o punha a suar, o que lhe derramava vastas lagoas por baixo dos sovacos, não era isso.
Tinham preparado o relatório com todo o cuidado, após anos de reflexão. Anos? Décadas! Treze comités depois, um número infindável de emendas mais tarde, aquela era a melhor apresentação possível da espécie, escrita numa linguagem que obedecia rigorosamente às diretivas recebidas para a tradução para galáctico padrão. Não era um documento perfeito porque a perfeição era inalcançável, mas estava tão perto disso quanto era possível ao engenho humano.
E Sua Excelência, o Alienígena, passara-lhe os olhos por cima, literalmente — apesar de todas as diferenças, parecia ser uma criatura tão visual como qualquer humano com dois olhos funcionais — e pusera-o de parte.
Mas ainda não era por isso que Gianni Foglia suava.
Suava porque Sua Excelência, o Alienígena, logo a abrir a conversa, sem ter ainda sequer passado os olhos pelo relatório, os mirara de alto a baixo e perguntara:
— Vocês são os dois machos, não são?
Perante a confirmação, interrogara:
— E estão aqui em representação da espécie toda? Incluindo as fêmeas?
Outra confirmação, algo embaraçada, e o alienígena insistira:
— Porquê?
E Gianni não havia conseguido arranjar resposta melhor do que “porque calhou assim, excelência; eu sou diplomata, ele linguista, e ambos fomos nomeados pelos nossos pares”, resposta que fora acolhida com um pequeno grunhido. O companheiro, Gordien Sibomana, que não parecia estar a suar apesar do reluzente brilho na pele muito escura, murmurara-lhe ao ouvido que o grunhido era uma expressão de ceticismo.
Mas Gianni suava sobretudo porque Sua Excelência, o Alienígena, se pusera a ver as notícias. E a navegar pela internet.
E ali estava ele há bem mais que uma hora, coadjuvado por uma coisa esquisita que não se percebia bem se era organismo vivo ou máquina e parecia funcionar como uma espécie de tradutor ou processador de dados (ou talvez as duas coisas), a percorrer canais de televisão e sites de internet, redes sociais, jornais e até o velho rádio, sem esquecer as caixas de comentários de tudo isso, captando, absorvendo e entendendo sabe-se lá o quê de toda a cacofonia da espécie humana.
Suava porque não via como podia o seu querido relatório resistir às notícias de um planeta que nos últimos anos parecia ter enlouquecido ainda mais do que era costume, ao fel que era derramado pelas redes sociais, segundo a segundo, hora a hora, dia a dia, ao destrambelhamento completo das teorias da conspiração, às crenças sem qualquer base, à irracionalidade quotidiana. E nem os atos de generosidade e inteligência, que também os havia, o sossegavam: estes eram esperados; aqueles nem tanto. Por isso suava, e aguardava o veredito como um condenado ao cadafalso resignado à sua sorte, sem se atrever a esperar um milagre que o salvasse no último momento, apenas à espera, numa ânsia de que aquela tortura terminasse depressa.
Ainda por cima, a seu lado Sibomana era a imagem da calma. Quase impassível, quase esfíngico, só um levíssimo sorrisinho que retorcia as comissuras dos lábios do grande africano revelava um tudo-nada do que lhe ia por dentro.
Deslocou o peso de um pé para outro e Sua Excelência, o Alienígena, continuou a vasculhar as entranhas informativas da espécie humana. E repetiu o movimento ainda umas três ou quatro vezes antes que Sua Excelência soltasse finalmente um bramido grave, no limiar da audição. Olhou para Sibomana com um ponto de interrogação nas sobrancelhas.
— Está a rir — sussurrou o companheiro. — É o riso deles. — E o sorrisinho irónico nos lábios grossos tornou-se quase impercetivelmente mais pronunciado, como quem diz eu também me ria, se fosse a ele. Gianni suspirou e suou mais um pouco, sentindo uma grossa gota a escorrer-lhe pela têmpora direita. Já não deve faltar muito, pensou. Mas faltava, pois Sua Excelência, o Alienígena, estava claramente a divertir-se.
Quando acabou por se dar por satisfeito, Sua Excelência, o Alienígena, voltou a virar para os dois homens os seus apêndices fonadores e interrogou:
— Então vocês acham-se prontos para aderir à Comunidade Galáctica, é isso?
Gianni engoliu em seco. Que outra coisa poderia fazer?
— Sim, excelência. — Pigarreou. — Julgamos ter feito progressos suficientes desde o último processo de candidatura para… — e calou-se, pois Sua Excelência, o Alienígena, estava de novo a bramir, grave e longamente. Um apêndice situado em algo de semelhante a um pescoço tremia convulsivamente.
Quando finalmente lhe passou o ataque de riso, Sua Excelência, o Alienígena, dignou-se enfim a lavrar a sentença.
— Pedido indeferido — proclamou, cheio de formalidade. — A espécie não está pronta. Poderá voltar a candidatar-se dentro de dez anos galácticos padrão. Até lá, continuará sem ter acesso à comunicação interestelar.
— São duzentos e vinte e três anos e meio, aproximadamente — murmurou-lhe Sibomana ao ouvido.
Gianni olhou-o de soslaio. Este está a gozar o pratinho, pensou, talvez injustamente.
Mas o alienígena ainda não tinha acabado.
— Vocês são uma espécie divertida — disse, agora já sem formalidades. — Tanta ambição. Tão pouca noção. Era capaz de ser engraçado deixar-vos entrar e ficar a ver-vos estrebuchar. Infelizmente, a comunidade não partilha o meu sentido de humor e não vos acha grande piada. É pena. Melhor sorte da próxima vez.
E pô-los na rua.
Literalmente.
Num momento estavam no ambiente de Sua Excelência, o Alienígena, e no seguinte estavam na rua, a dois quarteirões da porta da sede da Sociedade Para o Contacto.
Gianni ficou um momento imóvel no passeio, um obstáculo aborrecido para a multidão de transeuntes que por algum motivo não parecia ter reparado no seu súbito aparecimento. Olhava em frente sem nada ver, tentando apenas decidir o que dizer ao Conselho Superior da SPC. Mas o seu cérebro negava-se a planear fosse o que fosse, preso num ciclo de recriminações e frustração, rogando pragas silenciosas ao universo, às leis inapeláveis da física, aos alienígenas e sobretudo aos que não o eram. Trinta anos. Haviam-se passado trinta anos entre o pedido de adesão e aquele momento. Trinta anos de história, trinta anos de mudanças, doze anos entre a emissão da mensagem e a sua receção, dezoito para os alienígenas arranjarem maneira de enviar alguém até cá. Trinta anos ao todo. Como tudo parecia bem encaminhado há trinta anos! E de repente… o descalabro.
Os tempos mudam, mudando as vontades. Demasiado depressa. Sempre demasiado depressa.
Um encontrão seguido de resmungo despertou-o. O africano olhava-o, colado às casas, fora da corrente de humanidade apressada. O sorrisinho irónico continuava a entortar-lhe os cantos da boca e, nos olhos inteligentes, brilhava algo mais, algo que Gianni não era capaz de identificar.
Foi ter com ele. Juntos, juntaram-se ao rio humano, caminhando rumo à sede da SPC. A princípio em silêncio, mas Gianni não o aguentou por muito tempo.
— Você parece divertido, Gordien — comentou. — Não consigo perceber porquê. Com certeza que sabe o que isto quer dizer.
— Claro que sei, Gianni — respondeu o outro. — vamos continuar entregues a nós próprios. Como até aqui.
— E isso diverte-o?
— Não. Não é isso o que me diverte. Na verdade, não estou divertido…
— Então esse sorrisinho é o quê, se me permite a pergunta?
— É um bocadinho de ironia, só isso. — Uma pausa. Depois: — Espero que não me leve a mal, não pretendo de forma alguma ofender, mas acho o seu ar desapontado bastante irónico.
Gianni estacou, surpreendido.
— Acha irónico que eu esteja desapontado? Não posso acreditar que não perceba a enorme oportunidade que acabámos de perder.
— Não se irrite, meu amigo, não se irrite. Claro que percebo. Ou por outra, sei de que oportunidade fala, mas sei que não perdemos nada porque nunca tivemos oportunidade alguma.
Gianni ficou apenas a olhá-lo, boquiaberto. Sem entender. O outro estendeu uma mão, pegou-lhe no braço.
— Vá, venha. Eles estão à nossa espera. Eu explico. Vocês fizeram a candidatura há trinta anos porque se achavam preparados. Falo de vocês em geral, não de si em concreto; bem sei que ainda não estava na SPC nessa época. Tal como eu. Mas você talvez nunca tenha tido a curiosidade de verificar as votações. Eu tive, porque quis confirmar uma ideia que não me largava, e de facto confirmei. A decisão não foi unânime, sabe?
— Ora. Nestas coisas nunca é.
— Sim, tem razão, claro. Mas há sempre muita informação a retirar da análise de quem vota como. E porquê. E essa decisão foi tomada pelos representantes do norte, juntamente com aqueles que, no sul, julgavam conseguir alguma vantagem acompanhando-os num voto que achavam ser sobretudo simbólico. Muita gente, naquela época, nem sequer acreditava lá muito que isso de uma Comunidade Galáctica sequer existisse. Mas o que interessa é que quem votou por convicção votou contra.
— Continuo sem perceber.
— Eu sei; é italiano. Se tivesse nascido no Burundi, como eu, compreenderia muito mais facilmente.
Gianni voltou a estacar, olhando o companheiro de cenho um pouco franzido.
— Meu caro amigo, não me parece que as nossas nacionalidades tenham grande relevância para esta conversa.
— Oh, mas têm. Toda. Por uma questão de história. De cultura. Da forma como a história influenciou a cultura. Vocês, no norte, achavam-se preparados. Mas eu sou africano. Vocês veem-se de uma forma, eu vejo-vos de outra. É inevitável. E por isso sei que não estavam, que não estão, que não estarão durante muito tempo. Nem vocês, nem nós, nem ninguém neste nosso turbulento planeta.
Gianni não respondeu. Ficou simplesmente a olhar o outro, num rosto onde o sorrisinho irónico desaparecera, substituído por uma expressão de uma certa melancolia. Foi Gordien quem interrompeu o silêncio.
— Só lhe estou a dizer isto para o ajudar a decidir o que dizer aos conselheiros. Você é um bom homem, Gianni, mas, como acontece com todos nós, os seus antecedentes culturais geram alguns pontos cegos na sua visão do mundo. Achei que lhe seria útil se eu iluminasse um desses pontos cegos para a conversa que vai ter daqui a bocadinho. Espero não me ter enganado nem o ter magoado sem necessidade. Vamos?
E foram. Em silêncio, pois Gianni Foglia tinha mesmo muito em que pensar.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Mia Couto: Sangue da Avó, Manchando a Alcatifa

Mais uma história muito política, este Sangue da Avó, Manchando a Alcatifa, contada por Mia Couto em jeito de realismo mágico, com aquele seu jeito de contar uma história à superfície para contar outra nas catacumbas do texto.

Aqui, a história que surge à superfície é uma visita de uma avó orgulhosa, camponesa, aos familiares que tem na cidade grande. E o choque cultural sofrido pela velhota, a desilusão com os modos de vida citadinos, que acaba com a destruição de uma televisão à bengalada e com uma nódoa de sangue espalhada pela alcatifa.

Por baixo está o contraponto e o conflito entre a pureza e honestidade do Moçambique tradicional e a corrupção do Moçambique urbano, muito mais próximo dos centros de poder. Na verdade, é aqui que Mia Couto quer chegar: aos centros de poder. E o que nos diz é que o país sangra porque o poder não o compreende, não o aceita e, no fundo, não quer saber dele. Há que lembrar que em finais dos anos 80, quando estas histórias foram escritas, ainda se combatia na longa guerra civil moçambicana.

Quando somamos ao que ficou dito acima a sempre interessantíssima prosa de Mia Couto, não é difícil concluir-se que este conto é francamente bom.

Contos anteriores deste livro:

Irmãos Grimm: A Noiva do Senhor Lebre

A Noiva do Senhor Lebre é um continho muito curtinho, com pouco mais de uma página, que pela forma como está escrito parece não ter sido grandemente editado pelos Irmãos Grimm, pelo menos até que se lê a nota e se percebe que mesmo esta vinheta foi composta com base em dois contos que, embora sejam aparentemente versões um do outro, não deixam de ser diferentes.

Trata-se de uma fábula muito simples, com muito de lengalenga (em grupos de três, naturalmente), que conta como uma rapariga camponesa que foi mandada pela mãe apanhar "o senhor lebre" que lhe andava a comer as couves foi por ele apanhada e forçada a casar, e o modo como ela se escapou de tal sarilho. Um conto tradicional razoavelmente puro, sem grande (ou pequena) sofisticação nem muito sumo a espremer.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 26 de maio de 2020

Têssevê: As Bruxas e Eu

E aqui está outra história, se é que se pode chamar tal coisa a este texto, que eu nunca publicaria num livro como este. Não por estar mal escrita, que não está, ainda que também não haja nada de especial no português, mas porque Têssevê parece não ter percebido, de todo, o que é isso de literatura fantástica. E vai daí, arranjou um título mais ou menos alusivo, As Bruxas e Eu (bibliografia)... e depois escreveu uma crónica umbiguista sobre a sua relação (ou a relação de alguém, talvez, alguma personagem que transforme isto em ficção) não com as bruxas propriamente ditas mas com o dia das bruxas.

E eu pergunto: para quê? Ainda por cima se a crónica pouco mais é que uma descrição da tradição americana, que toda a gente que já tenha visto uns filmes (ou lido uns contos do Bradbury, bastante mais interessantes do que este) está farto de conhecer? Sim, acho muito bem que as pessoas que tenham histórias para contar as contem, mesmo quando o resultado deixa a desejar, mesmo que não as publiquem e as guardem na gaveta, mas será uma descrição de uma tradição e pouco mais realmente uma história para contar? Não percebo o interesse, francamente.

Textos anteriores deste livro:

Steve Rasnic Tem: Espectare Necrosis

Neste Espectare Necrosis (bibliografia), Steve Rasnic Tem foge um pouco ao tom mais ou menos humorístico da maior parte destas doenças fictícias (ou pelo menos de muitas delas) e em vez de se limitar à descrição mais borgesiana da doença, conta realmente uma história. Uma weid fiction inquietante, bastante próxima do terror. Quem tenha vindo a seguir estas notas que vou aqui deixando já saberá que isso é meio caminho andado (embora não condição necessária nem suficiente) para eu gostar mais desta história do que da maioria das outras. E de facto, aconteceu.

A doença é estranha, como não podia deixar de ser. De repente, determinados órgãos entram em necrose (i.e., morrem) sem que nada o faça prever. Não são sempre os mesmos; cada caso é um caso. Em comum existe apenas uma coisa: antes da necrose, os pacientes avisam que ela vai acontecer. É como se soubessem... ou como se a sua expetativa de que a parte x do seu corpo vai necrosar fosse a própria causa da necrose. Uma doença psicossomática levada ao extremo.

Juntando a isso, existe aqui uma história propriamente dita, a história da descoberta da doença contada por quem a descobriu. Não com a habitual frieza e objetividade factual, mas construindo a personagem do descobridor nas suas várias facetas, incluindo a emotiva. O resultado é bastante bom.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Isaac Asimov: Uma Questão de Princípio

E de vez em quando as ironias corrosivas de Isaac Asimov conseguem acertar bastante bem nos alvos. Em Uma Questão de Princípio (bibliografia), o alvo é o meio literário, ou por outra, um certo conjunto de pessoas que, segundo diz, sonham ser escritores mas por algum motivo não conseguem. Por algum motivo é força de expressão: eles sabem precisamente porquê. Geralmente o culpado é o emprego, esse ladrão de tempo que por sua vontade seria melhor gasto a produzir arte literária. Conheço bem o tipo; na verdade, ao longo de vastos períodos da minha vida fiz parte dele. Pelo menos parcialmente.

É um destes que o homem que controla o demoniozinho Azazel vai aqui tentar ajudar. Desinteressadamente, claro, porque o dinheiro que o outro lhe promete, parte dos ganhos que antevê caso chegue a ser um escritor famoso, é um mero pormenor. E o Azazel lá lhe corta uns nós que o estavam a impedir de usar as palavras a contento, e o homem lá começa finalmente a conseguir escrever decentemente. Tudo bem, certo? Temos novo escritor de primeira água no mercado, não é?

Claro que não. O homem era publicitário, aquela profissão desprezível que muito o desgostava e da qual desejava libertar-se para melhor se dedicar à literatura. Mas com os cortes que o Azazel faz consegue pela primeira vez usar o talento recém-desbloqueado para melhor vender desodorizantes. Ou seja: tem pela primeira vez sucesso como publicitário. Ora, com o sucesso vem um aumento salarial. E com um aumento salarial... literatura? Que é isso?

Um dos problemas que encontro nestes contos do Azazel é a ironia não funcionar. Seja por se tornar repetitiva, seja por estarmos numa época diferente, seja por questões relacionadas com a personalidade do próprio Asimov, seja por alguma incompatibilidade com o meu sentido de humor, seja pelo que seja. Mas nesta história funciona. Por isso, apesar de ser uma história tão formulaica como a maior parte das outras, gostei mais dela.

Contos anteriores deste livro:

Julieta Pereira de Melo: Brenda, Blenda e Bienda

Ao ver-se um título como Brenda, Blenda e Bienda (bibliografia), não é muito difícil concluir-se que estamos perante mais um conto infantil, e até que este tem raízes nos contos populares. E quem assim conclua não se engana, pois é de facto aí que Julieta Margarida Pereira de Melo (mais um nome comprido) vai buscar inspiração.

É um conto com algum potencial não é um bom conto. Narra uma história confusa de amizade e lições entre as criaturas mitológicas do folclore popular, fadas e gnomos e antropomorfizações de outras coisas, com uma quantidade demasiado elevada de personagens para história tão curta, cada uma com o seu nome, e ainda por cima com vários desses nomes demasiado parecidos uns com os outros, o que só aumenta a confusão. Para o público-alvo de uma história destas também me parece que há demasiadas frases demasiado compridas e nem sempre bem pontuadas, o que contribui para que o português não seja mau mas pudesse ser melhor. E há um estilo bastante seco, o que não é em si mesmo nem mau nem bom mas não me agrada por aí além numa história deste tipo. Mas há aqui material para ser trabalhado e resultar em obra realmente interessante. A base está lá. Falta é construir bem construído o edifício narrativo, que como está deixa a desejar.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 24 de maio de 2020

António Bettencourt Viana: Dois Sóis Para um Planeta Azul

E eis que logo a seguir a um conto que é sério candidato a pior conto do livro, aparece outro que está na competição para ser o melhor. Dois Sóis Para um Planeta Azul (bibliografia), sem perder o tom didático que é imagem de marca de António Bettencourt Viana (ou pelo menos deste livro em concreto), é uma história de amor movida a efeitos relativísticos francamente interessante.

Trata-se de uma daquelas histórias de ficção científica que têm como cenário o envio de naves de colonização para planetas que giram em volta de outros sóis, próximos à escala cósmica, mas longínquos à escala humana. Nesse cenário, o protagonista é alguém que se apaixona por uma mulher que parte numa dessas naves. Não há aqui viagens mais rápidas que a luz: Viana cinge-se ao que é possível à luz do nosso conhecimento da física e de uma tecnologia que poderá não estar muito distante. Mas há efeitos relativísticos, pois as naves aceleram até perto da velocidade da luz, dilatando significativamente o tempo de bordo. E isso vai influenciar diretamente o enredo.

É que anos mais tarde ele parte também rumo ao mesmo planeta. Numa nave mais moderna, aperfeiçoada. Mais rápida, mesmo que não muito. O suficiente, no entanto, para que, embora ele fosse mais velho que a mulher antes de ambos partirem (o que contribuiu para que ela não tivesse qualquer relutância em deixá-lo para trás), ao chegarem, com poucos meses de diferença, ele é mais novo.

Como veem, este é um conto bastante interessante, muito embora coisas semelhantes já tenham sido escritas, e por vezes melhor, por outros autores. Mas não portugueses. No tão rarefeito ambiente povoado pelas escassas obras portuguesas de FC hard, este conto é digno de nota.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas #60

Vá, deixem-me lá. Tem mesmo de ser. Eu sei que é frase feita, cliché, o diabo a quatro (ops! outro!), mas, caneco, se se aplica, aplica-se. Não há fome que não dê em fartura. Pronto. Já está. Não doeu nada, pois não?

Refiro-me, claro está, às Leiturtugas, que esta semana encheram a barriguinha, graças à Cristina Alves que publicou não uma, não duas, não três, mas quatro opiniões integradas no projeto. Bem, quase. Uma delas foi publicada na semana anterior mas eu só dei por ela agora: um álbum de BD de Paulo J. Mendes, intitulado O Penteador e publicado pela Escorpião Azul.

Esta semana começou por falar de um livro do Rui Zink de que eu também já falei por aqui há tempos, O Anibaleitor, reeditado em 2014 pela Teodolito. É uma fantasia alegórica, sem nada de FC.

Depois passou à banda desenhada de Luís Louro. Na terça-feira passada publicou uma opinião sobre o álbum O Corvo, edição de 2007 da Asa, e ontem publicou a sua opinião sobre o mais recente álbum centrado na personagem do Corvo, Inconsciência Tranquila, publicado já este ano pela Ala dos Livros. Esta última opinião não traz a etiqueta "leiturtugas", mas suponho que seja para incluir.

Três álbuns de BD e uma alegoria; conta tudo como "sem FC", pelo que a Cristina passa a 0c5s.

E por esta semana estamos conversados. Acho. Com o fim do Ficção Científica Literária perdi um bocado o rasto ao que vai sendo publicado por aí e nem sempre encontro logo aquilo que é devido, até porque o google nem sempre é adequadamente lesto a mostrar-me que alguém usou o nome do projeto algures (e há ocasiões em que não mostra de todo). Se me escapou alguma coisa, avisem, sim?

Irmãos Grimm: Mil-e-Uma-Peles

Mais um conto reconstruído pelos Irmãos Grimm, este Mil-e-Uma-Peles mostra um parentesco claro com a história da Cinderela, ou Gata Borralheira, embora o seu ponto de partida seja bastante mais sombrio: uma tentativa de incesto. Mesmo que justificada por amor.

A princesa que protagoniza a história foge ao pai e, depois de umas peripécias, acaba na cozinha de outro castelo real, como ajudante. Mas às tantas, tal como acontece na história da Gata Borralheira, há um baile e a princesa tem uma oportunidade de ir ao baile, onde deslumbra toda a gente, rei incluído. E, claro, há outra festa e outra ainda, porque estes contos não passam sem o número três, sendo ela descoberta ao fim da terceira e acabando casada com o rei, como teria de ser.

Fala-se muitas vezes, e muitas vezes com razão, do caráter formulaico da literatura comercial, a que muita gente chama popular (incluindo aquela que gostaria de ser comercial mas é sobretudo marginal). Mas em quase nenhuma dessa literatura a fórmula é tão dominadora como nestas histórias tradicionais, estes sim, parte da literatura popular. Chega a tal ponto que encontrar neles os vários elementos da fórmula acaba por se tornar numa espécie de jogo. Senti isso ao ler este conto, por exemplo. Já não é a primeira vez, mas foi a primeira vez que tomei consciência do facto de uma forma tão estruturada. Suspeito que isso explica parcialmente o apelo que eles têm pelo menos junto de parte dos seus leitores.

Conto anterior deste livro:

sábado, 23 de maio de 2020

Waldir Araújo: Sapateiro Pela Liberdade da Pátria

E para fechar a antologia, uma história de um autor guineense, Waldir Araújo, e de novo a cadeira, pretenso tema, não passa de adereço. O título de Sapateiro Pela Liberdade da Pátria já deixa entrever o tema do conto e este corresponde ao anunciado no título. Trata-se de uma história sobre uma série de conversas, entre o narrador e uma personagem de vida atribulada, ex-guerrilheiro, ex-combatente pela independência, ex-frequentador dos corredores do poder interno do PAIGC, agora sapateiro, durante as quais este conta ao narrador a sua vida e o que pensa dela, de uma série de sucedidos históricos, incluindo o assassinato de Amílcar Cabral, e da sociedade da Guiné-Bissau independente.

Calculo que para um leitor interessado na história guineense, especialmente se conhecedor dela, este conto tenha bastante interesse pois fornece uma perspetiva aparentemente algo iconoclástica sobre vários momentos importantes. Araújo parece usar a sua personagem para transmitir o que sabe (ou julga saber) sobre esses momentos. A mim, no entanto, não interessou, em parte por ignorância, em parte por verdadeiro desinteresse. As duas coisas, de resto, estão ligadas: a história da Guiné nunca foi das coisas que mais me interessaram e por isso nunca procurei informar-me sobre ela. Sobre os assuntos aflorados neste texto, sei o básico muito básico, e só, sendo incapaz de formar uma opinião sobre a perspetiva oferecida no conto.

Para que o conto me agradasse, portanto, seria necessário que fosse literariamente forte. Não é. É um conto bastante banal em termos literários, um daqueles contos de ouvir dizer, um conto sobretudo narrativo e opinativo, sem grande enredo que se veja. O uso do português é correto, mas sem grande rasgo, o que de resto é bastante típico em alguém com a profissão do autor: jornalista.

Sim, este conto pode interessar a outros leitores, e até bastante. Mas a mim? Deixou-me apenas indiferente.

Contos anteriores deste livro:

Mia Couto: O Viajante Clandestino

Mia Couto é frequentemente ternurento, o que de resto é um fator que não se pode ignorar quando se tenta explicar o seu sucesso. E este conto em forma de crónica (ou vice-versa) sobre O Viajante Clandestino é um bom exemplo disso mesmo.

O protagonista é uma criança, e a história gira em torno do contraste da fantasia e poesia existente nas crianças, no jeito infantil de brincar com e embaralhar as palavras, com a objetividade dos adultos, preocupados com coisas mais sérias, sem grande paciência para tais infantilidades. Claro que Mia Couto, sendo quem é, alguém que usa no seu ofício a poesia, a fantasia e o brincar com e embaralhar as palavras, toma o partido do miúdo. Isso, que já estava subentendido desde o princípio, fica claro no fim, quando o narrador aparece a intervir na história.

E esta é bonita, repleta daqueles neologismos cheios de novos significados, muito característicos de Mia Couto. Um conto bastante bom.

Contos anteriores deste livro: