sábado, 21 de setembro de 2019

Sofia Duarte: Sheftu Nubia

Mais um poema fantástico com pendor para o horror. Sheftu Nubia (bibliografia) é um diabrete e estes versos de Sofia Duarte põem-no a fazer uma espécie de declaração de intenções. Não são tão maus como alguns dos outros, em parte porque a autora escreve em verso livre, não tentando usar técnicas mal sabidas como acontece por vezes nos poemas desta antologia, mas mesmo assim estão a alguma distância de serem bons. Falta solidez ao poema e até à personagem, falta musicalidade e há excesso de rimas em "mento" ou "mentos" (é a única rima que o poema tem, incluindo as internas), por sinal das rimas mais feias que conheço. Como poema fantástico creio que não passa do razoável, simplesmente como poema julgo que não chega a tanto. Mas é melhor que alguns dos anteriores.

Textos anteriores deste livro:

Michael Cisco: Vida do Dr. Thackery T. Lambshead (1900- )

A abrir um livro de "doenças excêntricas e desacreditadas", que é como quem diz inventadas, compilado por um tal Thackery T. Lambshead, original médico que não consta dos registos de cidadão de nenhum país do mundo, nada como escrever um texto sobre a Vida do Dr. Thackery T. Lambshead (1900- ) (bibliografia), pois há que se enquadrar na história falsa do mundo a história falsa do homem. Esteve o empreendimento aqui a cargo de Michael Cisco. Perdão: do Dr. Michael Cisco.

É um empreendimento muito borgesiano, este, como compreenderá imediatamente quem conheça os pseudofactuais de Borges e leia o parágrafo anterior. Mas Cisco não usa propriamente a abordagem de Borges. Este era muito sério, erudito e académico mesmo quando (ou especialmente quando) estava a inventar de fio a pavio as suas biografias e bibliografias pretensamente verdadeiras, num esforço dedicado para levar o leitor a acreditar no que escreve. Cisco não. Cisco não se coíbe de encher a biografia do bom do Thackery de gags, piscadelas de olho e pormenores surreais que deixam muito evidente a falsidade da história. Assim é mais divertido, mas também se perde qualquer coisa, o que não quer dizer que não seja inteiramente adequado aos fins a que se dedica. Mas ainda não sei dizer se é ou não. Só a leitura do resto do livro dirá se esta biografia introdutória estabelece o tom geral ou é um tiro ao lado. Portanto, olhem, toca a lê-lo.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Sérgio Franclim: Assombração

Outro conto que de uma forma geral está bastante bem escrito, este Assombração (bibliografia) tem vários outros pontos de contacto com o conto que o antecede: também tem como fulcro a morte e alguma forma de fantasmagoria. Mas esta história de Sérgio Franclim é muito mais carregada de clichés, ao ponto de ser daquelas histórias que se leem e logo se esquecem por nada terem que as destaque de muitas outras histórias mais ou menos iguais.

Trata-se sobretudo dos clichés da literatura gótica. O protagonista — homem, claro — amantíssimo e platónico ou, como neste caso, não correspondido. O amor como sentimento doentio, violento, destrutivo ou autodestrutivo. O fantasma vingativo. A narração em primeira pessoa e profundamente umbiguista, de um egocentrismo total. Tudo isto se encontra em profusão na literatura gótica original, novecentista, e tudo isto se encontra também neste conto.

Mas o que realmente falha com estrondo nesta história é outra coisa. A ideia, supõe-se, é transmitir-se ao leitor a dor do protagonista e, por extensão, o terror que ele sente ao ver-se assombrado pelo fantasma da sua vítima. O problema é que o protagonista é um incel, com quem nos dias de hoje só outro incel poderá solidarizar-se. A generalidade das pessoas, longe de sentir terror, sentirá indiferença ou, no máximo, uma sensação de "sofre para aí, anormal". Um pouco de schadenfreude, talvez. E isso é fatal para um conto destes. Daí, também, tornar-se tão esquecível tão depressa.

Sim, está bem escrito. Até está razoavelmente bem concebido. Mas isso não chega.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Catherine Wells: O Espectro

Suponho que seria pedir demasiado. Entusiasmado que estava com a forma como os primeiros contos deste livro fugiam aos clichés das histórias de fantasmas, alimentei a esperança, embora ténue, de que os restantes também o fizessem. Era demasiada esperança. Desfez-se agora, com este O Espectro (bibliografia) de Catherine Wells.

O conto não é mau. Mas é bastante previsível. A protagonista é uma miúda de catorze anos que está doente com gripe, presa à sua cama. Coisa por que todos passamos ao longo da vida. Nada, portanto, que deva causar grande aflição ou tristeza. Só que neste caso, há no casarão uma festa de família (e não só) em que a rapariga não pode marcar presença. Pior: um dos convidados de fora da família é alguém que ela sonhava conhecer; um ator famoso. Tragédia.

Mas pronto, o tio (a casa é do tio) tenta minorar a tragédia, trazendo o ator ao seu quarto para a conhecer. Durante a conversa, menciona-se que o ator vai disfarçar-se de fantasma para pregar um susto aos convivas, voltando a passar pelo quarto quando estiver disfarçado, para ela poder ver bem a qualidade dos disfarce. E é aqui que o conto se torna inteiramente previsível, passando o resto do texto apenas a seguir fielmente o guião que se antevê neste momento.

Não é um mau conto, como disse mais acima, mas está vários degraus abaixo dos primeiros. É razoável.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Lídia Silvestre: Esta Casa não Foi Feita de Paredes

E eis mais uma boa surpresa. Esta Casa não Foi Feita de Paredes é um conto fúnebre escrito com grande sensibilidade e um uso da língua bastante bom, que poupa nos arrebiques mas não deixa de ser eminentemente literário. Ou até poético, por vezes. O protagonista é um homem que regressa à velha casa de família logo após perder a mãe, o último progenitor que lhe restava, e aí se confronta com as velhas recordações de um tempo mais luminoso.

Lídia Silvestre usa vários truques para dar maior profundidade e impacto à sua história. Altercar narração descritiva com o discurso direto dos pensamentos do protagonista é um deles, e usar "frases de mãe" como uma espécie de separadores de capítulo é outro, mas no fundamental o que torna este conto realmente bom é a sua verdade. Tudo nele é absolutamente credível.

Não é um conto em que o enredo tenha grande importância, apesar de ele existir e até contribuir para que o impacto do final (que não revelarei) seja maior. É uma daquelas histórias de situação e de personagem, que funcionam por intermédio da tensão psicológica que aquela desperta nesta. E, neste caso, também porque qualquer pessoa que já tenha passado pela perda de uma pessoa amada facilmente se sente identificada com muito do que Lídia Silvestre descreve.

Este conto é bom. Bastante bom, até.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 15 de setembro de 2019

José António Barreiros: Anamorfose

Sem ter ainda concluído a leitura deste livro não posso garantir que o será mesmo, mas como já não faltam muitos contos posso apresentar a forte suspeita de que este Anamorfose (bibliografia), de José António Barreiros, será o mais bem escrito entre todos os textos que nele se reúnem. Provavelmente. Muito provavelmente.

(Este primeiro parágrafo foi escrito há já alguns dias. Entretanto li o resto e confirma-se. É mesmo.)

Trata-se no fundamental de uma experiência. Barreiros parece ter decidido tentar criar um texto anamórfico em si mesmo, isto é, uma representação deformada e confusa de alguma coisa. Para isso recorre ao processo da morte e a uma espécie de metamorfose fantasmagórica post mortem, com muito de surrealismo à mistura, e fá-lo com grande eficácia. Neste sentido, como no que toca ao uso do português, este conto é bastante bom. Mas...

... mas o sucesso da experiência implica que o resultado teria sempre de ser um texto confuso, o que dá azo à questão: este texto é realmente sobre alguma coisa? Isto é: tem algum conteúdo que ultrapasse a mera busca do virtuosismo literário? E parece-me que não. Pode-se argumentar que não era isso o que o autor procurava, e eu concordo. Por isso digo que o conto é bom. Mas o facto é que não gostei dele; sou, como sabe quem me lê regularmente, mais leitor de conteúdo que de forma. E aqui pouco mais vi do que forma.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas da semana #32

E após uma longa pausa nas publicações relacionadas com este projeto, eis que as Leiturtugas estão finalmente de volta, e de novo por mão da Cristina Alves. Traz-nos ela a sua opinião sobre o livro Osso, de Rui Zink, um pequeno romance (ou novela longa?) publicado pela Teodolito. O livro parece conter algum fantástico, mas não ficção científica, pelo que a Cristina passa a 5c6s. Está mesmo quase a cumprir mínimos.

E por esta semana é só. Haverá mais para a próxima? Se os últimos tempos forem indicação de alguma coisa, não. Aqui na Lâmpada certamente não haverá, que embora eu esteja atualmente a ler dois livros que virão cá ter e tenha acabado um terceiro há dias, ainda falta algum tempo para chegar o momento de falar deles aqui (mesmo o já terminado: ainda há vários contos à espera de texto específico). Por outro lado, nos últimos tempos foram (finalmente!) publicados alguns livros portugueses de ou com FC, pelo que é possível que sim. Veremos. Até lá.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Robert P. Kirshner: O Universo Extravagante

Às vezes compro livros porque me interessam as premissas ou os temas, mas depois dou por mim a adiar a leitura e a voltar a adiá-la, seja porque outros livros adquiridos mais tarde me despertam mais o interesse, seja porque vão parar ao fundo de alguma das várias pilhas de livros por ler que tenho cá em casa e se torna demasiado incómodo estar a desenterrá-los. O Universo Extravagante foi um desses livros, embora no caso dele também tenha contribuído o facto de a editora ter achado boa ideia usar letras tão pequenas que praticamente exigem que o pobre leitor se arme com uma lupa antes de se lançar à leitura.

Escrito por Robert P. Kirshner, um astrónomo especializado no estudo de supernovas, este livro narra a evolução das ideias cosmológicas sobretudo ao longo das últimas décadas e o lento surgimento do panorama comummente aceite atualmente. Da descoberta dos vários tipos de supernovas e das suas propriedades o como e porquê os cosmólogos foram aceitando (muito a contragosto, diga-se) a ideia de que o nosso universo é mais bizarro, ou extravagante, do que alguém se teria atrevido a supor algumas décadas antes. Daí o título de O Universo Extravagante.

Um livro como este, de divulgação científica sobre um campo do conhecimento que está em evolução rápida, tende a ficar datado muito depressa. Ou seja, seria desaconselhável fazer o que fiz: comprá-lo e depois deixar que ele se enterrasse sob camadas geológicas de outros livros comprados mais tarde. Mas, embora seja verdade que entre 2002, data da publicação original deste livro (a edição portuguesa é de 2005, já agora), e hoje já tenha sido acumulada bastante informação que à época era desconhecida, também é verdade que isso não tem tanto impacto como poderia ter. Porque o que este livro tem de mais relevante e interessante não é a informação em si; é o processo.

Porque é isso o que Kirshner nos conta: o longo e sinuoso processo da descoberta de que o Universo em que vivemos é mais bizarro do que aparece nos mais descabelados sonhos dos autores de ficção científica, cheio de coisas esquisitas que ninguém entende, nem mesmo os próprios astrónomos, e a que por isso dá nomes que nada dizem como "matéria negra" ou "energia negra". E de passagem, dá uma autêntica lição sobre o método científico. Nos dias de hoje, convenhamos, essa lição é muitíssimo necessária. Temos senso comum arrogante a mais e respeito a menos por quem realmente estuda e compreende os fenómenos. Ou às vezes estuda e ainda não compreende os fenómenos.

E também o facto de ser muito eficaz a transmitir a ideia de que tudo neste vastíssimo Universo em que vivemos está profundamente interligado. A ideia de que a informação que deu origem à moderna noção de um Universo não só em expansão mas em aceleração foi obtida através do estudo detalhado das supernovas descobertas não só aqui relativamente perto de nós mas também em regiões do espaçotempo muito, muito distantes, que se mostram idênticas o suficiente para ser possível medir a taxa de expansão do Universo, o que mostra que as mesmas leis da física agem aqui e lá, o que por sua vez implica que são as mesmas partículas e os mesmos tipos de desestabilização nuclear que causam, aqui e lá, as gigantescas explosões de estrelas a que chamamos supernovas.

E repararam? Nesta única frase liguei o infinitamente grande do Universo inteiro e a da sua evolução desde as origens do Todo ao seu provável fim ao infinitamente pequeno das partículas subatómicas. Sim, a frase é razoavelmente longa, mas essa interligação é precisamente o que o livro mais traz.

E trá-lo sem esquecer os comos e os porquês, mostrando que a evolução das ideias cosmológicas vem a reboque da evolução das técnicas instrumentais, que permitem medições cada vez mais precisas do que realmente existe e das suas características, sem se esquecer de mostrar também as múltiplas formas como a falibilidade e a criatividade humanas podem interagir com esse ciclo virtuoso de observação e interpretação. Uma lição sobre o método científico, como dizia ali em cima.

É, portanto, um livro francamente bom. E pode ser lido por pessoas sem grandes conhecimentos no campo da física e da astronomia, ainda que, para ser plenamente apreciado, convenha que a ignorância não seja total; a linguagem é, de uma forma geral, acessível. Pena é a opção editorial da Europa-América, que resolveu poupar papel atafulhando o máximo possível de texto em cada página. Como? Publicando o livro com um tamanho de letra simplesmente minúsculo. Deve ter conseguido poupar assim umas 50 páginas (o livro tem 246; a edição americana que encontrei à venda na Amazon tem 304), mas à custa de leitores vesgos e cheios de dor de cabeça. Obrigadinho, sim?

Este livro foi comprado.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Pedro Manuel Calvete: No Topo da Cadeia Alimentar

Alguém devia ter explicado a Pedro Manuel Calvete que uma coisa é um final surpresa que seja coerente com o que vem atrás e outra completamente diferente é tentar criar surpresa com um absoluto disparate caído do céu por não ter unhas. Ou seja: que uma coisa é escrever inteligentemente, usando uma coerência lógica no texto e enchendo-o de detalhes que podem indicar o final e de outros que podem não o indicar, orientando a atenção do leitor para estes últimos, e outra coisa completamente diferente é não só recorrer ao deus ex machina, artifício de que os bons escritores fogem como o diabo da cruz, mas recorrer a ele, ainda por cima, de forma particularmente tontinha.

Infelizmente, Calvete resolveu seguir na segunda direção. A única indicação que deixa para o final é o título, No Topo da Cadeia Alimentar (bibliografia), que pode perfeitamente ser metafórico mas no fim se revela absolutamente literal. Dificilmente resultaria bem, mesmo que o final não fosse tão pateta; mas o final é pateta. E porque o final é pateta ao ponto de estragar o conto não vou estar aqui com cuidados para não estragar a leitura.

É que ainda por cima, até esse momento as coisas até iam bem. Uma história alternativa daquelas de entregar informação ao leitor, mas bem feita, ao contrário de várias das histórias anteriores, transmitindo essa informação através de um miúdo que procura saber informação sobre o regicídio que, na sua linha temporal, falhou, e as consequências que isso teve. Nada de "como sabes, Zé", porque aqui o Zé não sabe. A oralidade está bem usada, a linguagem infantil também, os diálogos são ágeis e a informação transmitida é na maior parte relevante. E depois...

... e depois borra a pintura por completo com a tolice absoluta e irreparável de transformar aquela família em... "tiranossauros sapiens sapiens". Sim. Nem tem piada, nem tem lógica, nem traz nada de jeito à história (muito pelo contrário) nem sequer consegue acertar na porcaria do nome científico!

Ora raios partam, Calvete!

Contos anteriores deste livro:

John Updike: A Outra Vida

Seria certamente em histórias como esta que Tzvetan Todorov estava a pensar quando centrou na dúvida entre a natureza natural ou sobrenatural de acontecimentos literários a sua definição de fantástico. É que é precisamente essa dúvida que está subjacente a esta história de John Updike.

Começa logo pelo título, ainda que aqui a tradução portuguesa ponha um pouco de aditivos na dúvida. A Outra Vida é e não é tradução fiel do The Afterlife original, que remete mais diretamente para a vida após a morte, sendo o título português mais ambíguo. Curiosamente, isso não é propriamente desadequado para a história que Updike conta.

A história gira em volta de um casal americano que decide ir passar uns dias com uns velhos amigos que se tinham mudado para Inglaterra alguns anos antes. E a princípio é uma história perfeitamente banal sobre pessoas que procuram reatar uma amizade posta em perigo pelo tempo e a distância e se confrontam com o facto de os amigos já não serem exatamente as pessoas que recordam. Mas depois, o marido cai de umas escadas.

A partir desse momento, a história toma um tom diferente. A queda é resolvida sem consequências, mas Updike não perde uma ocasião para fazer lembrar ao leitor a improbabilidade dessa ausência de consequências, deixando nas entrelinhas que na verdade houve consequências e o homem já não está propriamente vivo, antes existe numa espécie de limbo, ou de sobrevida, provavelmente fantasmagórica. Isso só se amplifica com o desenvolvimento da história: por exemplo, a páginas tantas os dois casais vão passear, cai sobre a zona uma violenta tempestade e eles escapam-se por uma unha negra e muita sorte a uma série de acidentes. Ou será que não se escaparam? Ou será que na verdade morreram todos nalguma das várias ocasiões propícias a isso e agora não passam de reflexos fantasmagóricos do que foram antes?

É um truque estilístico que é usado para mais do que a mera sugestão de fantástico, a qual, na verdade, me parece quase mais acidental do que propositada. A ideia é levar à reflexão sobre quem somos realmente, sobre até que ponto a nossa identidade é constante, até que ponto é alterável pelas circunstâncias da vida. Ao aludir à fantasmagoria, e ao reforçar a alusão com a estranheza de os velhos amigos estarem tão diferentes, Updike pretende dizer, julgo eu, que no fundo todos somos fantasmas de quem fomos em tempos e que, por mais que nos sintamos fundamentalmente os mesmos, na realidade o tempo nos altera de formas tão profundas que passamos a ser outras pessoas, a viver outras vidas. Não sei bem se concordo com esta ideia, mas o conto é inteiramente eficaz na sua transmissão. Este é um conto bastante bom.

Contos anteriores desta publicação:

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

JoaKim Santos: Um Vento Gelado de Morte

Já estava a estranhar a demora em aparecer um poemazinho destes: a quadra é das formas poéticas mais comuns no nosso país, e já estranhava que não surgisse aqui nenhum poema composto por quadras. São poemas que podem ser bastante bons — António Aleixo, por exemplo — mas que também podem ser muito maus quando quem as faz não lhes conhece as regras. E parece ser este o caso de JoaKim Santos. As quadras de que se compõe Um Vento Gelado de Morte (bibliografia), que como o título sugere conta uma história de terror sobrenatural, têm uma métrica caótica e uma rima basicamente banal. É um poema sem ritmo, quando o ritmo é um dos elementos mais relevantes das quadras, que conta uma história que seria mais bem contada em prosa. Muito fraquinho. Muito fraquinho.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 8 de setembro de 2019

António Manuel Venda: Os Romanos

Um escritor, chamado António Manuel Venda, vai a Vila Real de Santo António para uma daquelas sessões literárias de que é feita parte da vida de tantos escritores, e antes da hora marcada para o encontro resolve dar um salto à marginal para ver o Guadiana e recordar velhas passagens para o lado de lá quando era miúdo. Mas às tantas o que vê espanta-o: um barco romano, provavelmente uma galé, sobe o rio vindo do mar. O escritor não sabe bem o que se passa, se será alguma espécie de animação turística — afinal, é verão e Vila Real fica no Algarve — ou outra coisa qualquer. Até que lhe aparecem uns barrigudos da GNR a mandar sair rapidamente dali e a zona se enche de aparato bélico e basbaques.

É que quem aí vem são mesmo Os Romanos (bibliografia). Uma tripulação de romanos genuínos, guerreiros e imperialistas, vindos dos confins do tempo para invadir a Península, Guadiana adentro. Fica implícito um portal qualquer, uma descontinuidade no espaçotempo que tivesse arrancado aquele barco e aqueles homens da época que lhes é própria, trazendo-os para a nossa. Uma ideia muito de ficção científica, apesar de o tom da história ser mais mágico-realista.

E o autor-protagonista, dividido entre a curiosidade, as ordens dos GNR, o medo e o compromisso literário que o trouxera a Vila Real, vai-se embora, voltando costas à insólita cena. É uma escolha de enredo que talvez desagrade a alguns leitores (e a tendência do autor para a divagação sinuosa é outro motivo potencial de desagrado), mas a mim parece que faz pleno sentido; afinal, há uma coisa a retê-lo ali e três a afastá-lo. Sim, o protagonista volta costas ao motor da história, mas essa atitude é coerente com quem o protagonista é e reforça a solidez da personagem. E de resto, o afastamento não é definitivo.

Sim, porque quando termina a apresentação do livro o protagonista volta à marginal, curioso para saber o que acabou por acontecer com os romanos. E ainda vai a tempo de assistir ao desfecho de toda a história. Este é um bom conto, daquela espécie de realismo mágico que roça na ficção científica, e muito em particular na FC conforme era praticada entre finais dos anos 60 e os anos 70. Há neste conto de Venda qualquer coisa de ballardiano e, entre os escritores portugueses, aquele que Venda mais faz lembrar será provavelmente João Botelho da Silva. Nem todos gostam; eu gostei.

Em agosto falou-se de...

Mais um mau mês para a FC portuguesa, o que a bem dizer nem é particularmente surpreendente porque sem que se publique nada há vários meses aquela malta que costuma correr atrás das novidades não tem nada para ler, logo nada tem a comentar. Mas esperem. Estou a adiantar-me. Esta conversa é só para depois das listas. Antes há que fazer aquela conversa habitual destinada a quem aqui cair de paraquedas sem saber o que isto é, de onde vem e para que serve.

Então olá, paraquedistas, sejam bem vindos. O que isto é, para que serve, que limitações tem e de onde vem está explicado no primeiro post da série. E se quiserem saber onde estão os outros posts da série, basta clicarem na tag leituras fc, que lá encontrarão todos os já publicados e, a seu tempo, os que vierem a sair no futuro. Depois das listas que veem aqui em baixo, poderão ler os comentários que elas me suscitam. Voltem sempre!

E vamos às listas:

Ficção portuguesa:
  1. Ecologia, de Joana Bértholo
  2. O Invisível, a sua Sombra e o seu Reflexo, de António Bizarro
  3. Winepunk, org. Joana Neto Lima, A. M. P. Rodriguez e Rogério Ribeiro
  4. Premonição, de Ana Cristina Luz (conto)
  5. A Realidade, Não Fora a Loucura, de João Afonso Machado (conto)
  6. O Preço de uma Coroa, de Sacha Andrade Ramos (conto)
  7. No Muro, de David Soares (conto)
Ficção brasileira:
  1. Names, de Dalton Almeida
  2. Desta Terra Nada vai Sobrar a Não ser o Vento que Passa, de Ignácio de Loyola Brandão
  3. Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão
  4. Killian, de Beatriz Castro
  5. Pietra, de Beatriz Castro
  6. Serafine, de Beatriz Castro
  7. Fronteiras, org. Roberto de Sousa Causo
  8. O Ladrão de Palavras, de Tulio Costa
  9. A Maratonista, de Ozias Filho (conto)
  10. Feitos de Sol, de Vinícius Grossos (3x)
  11. Janete, de Nicolás Irurzun (2x)
  12. Ninguém Nasce Herói, de Eric Novello (2x)
  13. Fractais Tropicais, org. Nelson de Oliveira
  14. O Senhor do Tempo, de Márcio Cardoso Pacheco
  15. A Taverna, nº 2, ed. Diogo Ramos e Otniel Pereira
  16. O Projeto Dragão, de Rubens Teixeira Scavone
  17. Sob os Pés, Meu Corpo Inteiro, de Marcia Tiburi
Ficção lusófona e internacional:
  1. Granta, nº 3, ed. Pedro Mexia
Ficção internacional:
  1. O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams
  2. Mundos Apocalípticos, org. John Joseph Adams
  3. Steamborn, de Eric R. Asher
  4. Steamforged, de Eric R. Asher
  5. Steamsworn, de Eric R. Asher
  6. Fundação e Império, de Isaac Asimov
  7. Marooned Off Vesta, de Isaac Asimov (conto)
  8. O Fim da Eternidade, de Isaac Asimov
  9. Ponto Chave, de Isaac Asimov (conto)
  10. Vazio, de Isaac Asimov (conto)
  11. Vigilance, de Robert Jackson Bennett
  12. Isaac Asimov Magazine, nº 3, ed. Ronaldo Sergio de Biasi
  13. Raízes do Mal, de Gwenda Bond
  14. Mentes Sombrias, de Alexandra Bracken
  15. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (2x)
  16. Caçadores da Lua Vermelha, de Marion Zimmer Bradley
  17. Filho Dourado, de Pierce Brown
  18. Fúria Vermelha, de Pierce Brown
  19. Laranja Mecânica, de Anthony Burgess
  20. A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler
  21. A Parábola dos Talentos, de Octavia E. Butler
  22. Kindred - Laços de Sangue, de Octavia E. Butler (3x)
  23. Seres do Espaço, de Steven Caldwell
  24. O Castelo dos Destinos Cruzados, de Italo Calvino
  25. The Last Evolution, de John W. Campbell Jr. (conto)
  26. When the Atoms Failed, de John W. Campbell Jr. (conto)
  27. A Menina que Tinha Dons, de Mike Carey
  28. O Príncipe, de Kiera Cass (conto)
  29. 2001, uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke
  30. Naves Espaciais, 2000 a 2100, de Stewart Cowley
  31. O Enigma de Andrômeda, de Michael Crichton
  32. Matéria Escura, de Blake Crouch
  33. Recursion, de Blake Crouch
  34. Vox, de Christina Dalcher (3x)
  35. The Good Doctor, de Juno Dawson
  36. Zero K, de Don DeLillo
  37. O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick (2x)
  38. O Profanador, de Philip K. Dick
  39. O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry
  40. Coisas Frágeis, de Neil Gaiman
  41. Deuses Americanos, de Neil Gaiman
  42. Neuromancer, de William Gibson
  43. O Dia do Perdão, de Ursula K. Le Guin
  44. Os Despossuídos, de Ursula K. Le Guin
  45. Como Parar o Tempo, de Matt Haig
  46. Os Humanos, de Matt Haig
  47. O Mapa do Tempo, de Heidi Heilig
  48. O Navio Além do Tempo, de Heidi Heilig
  49. Life-Line, de Robert A. Heinlein (conto)
  50. Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein
  51. Tempo Estranho, de Joe Hill
  52. A Voz de Deus, de Winifred Holtby (conto)
  53. Serotonina, de Michel Houellebecq (2x)
  54. À Beira da Eternidade, de Melissa E. Hurst (3x)
  55. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
  56. Lords of the Sith, de Paul S. Kemp
  57. Buick 8, de Stephen King
  58. O Bazar dos Sonhos Ruins, de Stephen King
  59. Sob a Redoma, de Stephen King
  60. Nenhuma Máquina Seria Capaz Disso, de Eugene Lim (conto)
  61. O Doador de Memórias, de Lois Lowry
  62. Ladra de Almas, de Sarah J. Maas (2x)
  63. Defy Me, de Tahereh Mafi
  64. Shadow Me, de Tahereh Mafi (conto)
  65. A Ilusão do Tempo, de Andri Snær Magnason (2x)
  66. Às Cegas, de Josh Malerman
  67. Estação Onze, de Emily St. John Mandel
  68. Nightflyers, de George R. R. Martin (4x)
  69. A Sabedoria dos Mortos, de Rodolfo Martínez
  70. Máquinas Como Eu, de Ian McEwan (4x)
  71. A Altura Deslumbrante, de Katharine McGee
  72. Gather the Daughters, de Jennie Melamed
  73. Winter, de Marissa Meyer
  74. Utopia, de Thomas More (2x)
  75. 1984, de George Orwell (4x)
  76. Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe
  77. Medo Clássico, v. 2, de Edgar Allan Poe
  78. Blasfémia, de Douglas Preston
  79. Intruso, de Iain Reid
  80. Ano Um, de Nora Roberts (2x)
  81. A Ordem Negra, de James Rollins
  82. Amazónia, de James Rollins
  83. The Beetle Horde, de Victor Rousseau
  84. Skyward, de Brandon Sanderson
  85. Flash Forward, de Robert J. Sawyer
  86. A Última Colônia, de John Scalzi
  87. As Brigadas Fantasma, de John Scalzi
  88. Guerra do Velho, de John Scalzi (2x)
  89. Missão Stardust, de K. H. Scheer
  90. Desintegrados, de Neal Shusterman
  91. Seca, de Neal Shusterman e Jarrod Shusterman (2x)
  92. Selva de Gafanhotos, de Andrew Smith
  93. Rebelde, de Amy Tintera
  94. Planeta Duplo, de Jack Vance
  95. Através do Vazio, de S. K. Vaughn (3x)
  96. Matadouro Cinco, de Kurt Vonnegut (2x)
  97. Artemis, de Andy Weir
  98. O Marciano, de Andy Weir
  99. A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells
  100. Impostores, de Scott Westerfeld (2x)
  101. Leviatã, de Scott Westerfeld
  102. A Estrada Subterrânea, de Colson Whitehead (2x)
Não-ficção portuguesa:
  1. Oh que Cousas Grandes e Raras Haverá, de Álvaro Domingues
Não-ficção brasileira:
  1. A Invenção do Monstro, de Fernando Vugman
Não-ficção internacional:
  1. 21 Lições Para o Século 21, de Yuval Noah Harari
  2. A Identidade Secreta dos Super-Heróis, de Brian J. Robb
  3. The Uninhabitable Earth / A Terra Inabitável, de David Wallace-Wells (3x)
Pois é. Como ia dizendo lá em cima, este mês de agosto foi mau no que toca às leituras e comentários da FC portuguesa, o que talvez tenha tido a ver com o mês ser agosto e estar tudo de férias (mas no ano passado agosto nem foi muito fraco para o que então era hábito, o que me deixa com dúvidas), mas provavelmente tem mais origem no facto de já se terem passado vários meses desde a última edição de algum livro ou qualquer outra publicação que possa ser englobada no termo FC portuguesa, mesmo com a definição lata que eu uso. 7 títulos é muito insuficiente, ainda que lhe acrescentemos um oitavo, uma publicação com ficção lusófona e traduzida, e mais insuficiente se torna quando se percebe que 4 desses títulos são contos referenciados aqui na Lâmpada. Mais: de novo não há qualquer destaque a fazer, pois cada autor tem uma só presença na lista.

Já os brasileiros, pelo contrário, depois de um mês incaracteristicamente mau voltaram a níveis de atividade aceitáveis. 17 títulos diferentes, entre os quais só um é conto (e também veio aqui da Lâmpada), distribuídos entre 14 autores é precisamente aquilo que eu gostaria de ver, pelo menos de vez em quando, na FC portuguesa. E ainda por cima há comentários múltiplos, pelo que o número de comentários ultrapassou os 20. Destaques para Ignácio de Loyola Brandão, com dois títulos comentados uma vez cada, Beatriz Castro com três títulos comentados uma vez cada, Vinícius Grossos com 3 comentários a um seu romance e Nicolás Irurzun e Eric Novello, ambos com dois comentários a um só livro.

Mas é a ficção traduzida que teve o grande destaque no mês, ultrapassando pela segunda vez os 100 títulos, ainda que por pouco: 102. Ou seja: não se vê sinal algum de mudança no que toca à renitência em consumir ficções de origem lusófona, muito pelo contrário: a desproporção parece tender a agravar-se (um dia destes, se tiver tempo, sou capaz de pegar nestes quase dois anos disto e fazer uns gráficos para ver se dá para encontrar algumas tendências). Os destaques do mês vão para Isaac Asimov, com 5 opiniões distribuídas por outros tantos títulos, Octavia Butler, também com 5 opiniões distribuídas por 3 títulos, George R. R. Martin, com 4 opiniões sobre um só livro, Ian McEwan, também com 4 opiniões sobre um livro, George Orwell também com 4 e 1 e Jonh Scalzi também com 4 opiniões mas distribuídas por 3 títulos. Todos nomes habituais, com a exceção de McEwan.

Por fim, uma nota para um livro de não-ficção de David Wallace-Wells, que tem sido bastante comentado (para o que é hábito nas não-ficções, entenda-se), tanto na versão original, quanto na recentemente publicada tradução brasileira. Trata-se de um dos tais livros que, não sendo de FC nem parecendo fazer qualquer referência ao género, mostra muito potencial para servir de inspiração aos autores de ficção científica.

E quanto ao que o futuro reserva, no início de outubro começaremos a perceber. Até lá.

Ademir Pascale: O Lado Oculto de Rose

Uma das eternas questões com que inevitavelmente se confronta quem pretende produzir qualquer coisa de minimamente artístico, ou pelo menos de criativo, é: o que é preferível, produzir muito e se calhar deixar a qualidade um pouco (ou muito) de lado, ou apostar num esforço dedicado à procura de qualidade mesmo que isso signifique que a produção não tem a regularidade que talvez fosse desejável?

Este é um dilema sem resposta. Porque o ideal, produzir muito e bem, é inatingível, e a realidade obriga a chegar-se a alguma forma de compromisso. Porque a procura da maior qualidade possível pode levar à insatisfação permanente com a realidade do que é produzido, e esta à paralisia e à inatividade, e a publicação de qualquer coisa, sem um mínimo de elaboração ou de reflexão prévia, leva quase sempre à irrelevância e à incapacidade de arranjar ou segurar um público. Ora, para cada autor o compromisso está num lugar diferente.

Para Ademir Pascale, autor que além de o ser se multiplica numa miríade de atividades, focadas principalmente na edição de antologias e revistas, parece estar bem mais perto da segunda opção do que da primeira. As três histórias que compõem este O Lado Oculto de Rose podiam ser bastante melhores do que são, bastando por vezes uma revisão atenta para eliminar gralhas e erros de português para já lhes fazer subir a qualidade de forma visível, ainda que talvez não o suficiente para as içar até ao nível de boas histórias. Para isso, faltaria mais uma coisa: reflexão.

Porque a execução de qualquer obra de ficção exige algum tempo de reflexão sobre uma série de detalhes, incluindo a mais importante de todas: aquela que decorre depois de escrever e guardar e antes de recuperar o que está escrito, reler e, idealmente, reformular tudo aquilo que está mal. Porque há sempre coisas que estão mal, e uma leitura atenta depois da história passar algum tempo a marinar na gaveta faz milagres. Às vezes descobre-se que a dinâmica das personagens não faz tanto sentido como se julgava, por vezes é o enredo que precisa de ajustes, outras vezes é a própria escrita que não funciona a contento. E, sem poder saber, naturalmente, se Pascale tem o hábito de deixar as suas histórias a "marinar" durante algum tempo, a ideia que me fica é, intensamente, que não.

Seja qual for o motivo, a verdade é que este livrinho eletrónico é bastante fraco. Das três histórias, só uma chega a ser razoável, e os textos que as acompanham, dois textos curtos sobre dois filmes, também de horror e com uma protagonista chamada "Rose" (ou Rosemary), e um terceiro texto, também curto, sobre a construção do livro, padecem de muitos dos males que atormentam os contos. É neste último texto que fica mais claramente explícita a ideia de que os três contos formam uma sequência, relacionada com "a maldição de Rose", como o autor lhe chama; nos contos propriamente ditos, à parte a repetição do nome, há poucos ou nenhuns sinais de que assim seja.

Em suma: não foi uma boa leitura.

Eis o que achei dos três contos deste livro:
Este livro foi publicado gratuitamente em ebook, mas parece já não estar disponível através da editora. No entanto, continua disponível em vários outros sítios, como o Yumpu.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

António de Macedo: A Conjura

E dos infodumps, mais ou menos desagradáveis de ler e mais ou menos desastrados, saltamos para doses maciças de outro velho defeito estilístico de demasiadas histórias de FC (e não só). Conhecido nos meios críticos anglófonos como "as you know, Bob", este é mais fácil de aportuguesar do que a purple prose, e eu proponho usar-se "como sabes, Zé". Mas o que vem a ser o "como sabes, Zé"?, perguntam vocês.

É uma forma de transmitir informação necessária ao leitor, não como um despejo de informação a seco, o indofump, mas através de uma ou várias conversas. Mas não quaisquer conversas; há conversas, nas quais uma das partes ignora a informação transmitida pela outra, que fazem pleno sentido e são uma boa forma de a entregar ao leitor. O "como sabes, Zé" refere-se especificamente àquelas conversas em que ambos os intervenientes têm obrigação de conhecer a informação. "Como sabes, Zé", diz um deles, "foi o António Fernandes quem primeiro pôs os pés no asteroide Apófis". "Sim," responde o outro, "e como sabes o segundo foi o Fernando Antunes". Coisas destas. Que até podem existir, em pequena quantidade, mas em demasiados contos tendem a estender-se por longas páginas. O que por vezes é mau. Por vezes é péssimo.

E é o que acontece neste A Conjura (bibliografia) de António de Macedo. Porque o conto é mais curto do que teria de ser para que a informação necessária fosse transmitida aos leitores sem recorrer a este tipo de truque. E é pena: a ideia do conto é ao mesmo tempo boa e engraçada, brincando, em ambiente de ficção científica, com a história alternativa, com universos paralelos (de certa forma), com os ambientes limitados e com a ideia das vidas observadas na ignorância dos observadores, que em parte remete às velhas instituições de saúde mental, e em parte a coisas do género de Truman Show. A conjura é sobretudo uma conversa entre dois homens que têm o objetivo de derrubar a monarquia num mundo em que esta não acabou em 1910 e no meio de todo o "como sabes, Zé" ainda conseguem discutir algumas opções de ação política, mas no fim do conto, que é de muito longe a melhor parte do texto, esta conjura é contextualizada em camadas cada vez mais surpreendentes.

O resultado é um conto muitíssimo desequilibrado que tinha potencial para ser bastante bom mas, por cair em armadilhas que um escritor tão experiente como Macedo teria a obrigação de ter evitado, não consegue sê-lo. Aquele final consegue levá-lo a ser razoável, mas o início impede-o de ser realmente bom.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Edith Wharton: Mais Tarde

Este livro parece que poderia ter-se intitulado Histórias Invulgares de Fantasmas, pelo menos ajuizando pelas três que o abrem. Todas são invulgares à sua maneira, mesmo quando parecem à primeira vista conformar-se aos clichés do género, como acontece com esta noveleta de Edith Wharton.

Sim, que as coisas neste Mais Tarde (bibliografia) começam banais. Um casal, americano, aproveitando uma prosperidade razoavelmente súbita, resolve comprar uma propriedade campestre em Inglaterra e instalar-se na velha casa da propriedade, a qual tem fama de estar assombrada. Tal como eles queriam, de resto. E a vida segue o seu calmo rumo, que só não é mais calmo porque a casa precisa de obras e reparações, o que leva a um certo corrupio de trabalhadores a sobressaltar o sossego.

Até que, um belo dia, o homem do casal julga ver um conhecido a encaminhar-se para a casa e se precipita escadas abaixo para ir ao seu encontro. Misteriosamente, pois todo o conto é narrado sob o ponto de vista da mulher, a qual nada sabe sobre os negócios do marido e as pessoas com quem ele os faz, o estado de espírito do homem torna-se instável a partir desse momento, ora calmo e feliz como fora até aí, ora nervoso e preocupado. E algum tempo mais tarde, ele simplesmente desaparece.

E fica a mulher sozinha, em desespero, tentando perceber o que se tinha passado. O que acaba por fazer, num final revelador e razoavelmente surpreendente, no qual se encaixam de forma bastante inteligente as várias pontas que tinham ficado soltas até aí. Não revelarei a solução do mistério, pois esse mistério constitui boa parte daquilo que faz mover a trama e sustenta o interesse do leitor até ao fim. Mas tem a ver com fantasmas, cujo aparecimento é tão invulgar que até justifica o título.

Este é um conto bastante bom. Pena é esta edição o ter enchido de tantas gralhas, palavras em falta e por aí fora. A revisora estava a dormir?

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Escrita de agosto


Se já acabei a ex-novela transformada em romance? Não, ainda não acabei. Quer dizer, acabei o penúltimo capítulo, o que é qualquer coisa, visto que agora só falta um capitulozinho e está o romance feito. Capitulozinho é como quem diz. Pelo andar da carruagem vai ser zão, como os outros. Este, por exemplo, levou-me agosto inteiro e parte de julho, e só em agosto foram mais de onze mil palavras. Umas 30 páginas, mais ou menos. Mais para mais que para menos. E sim, foi mesmo agosto inteiro: acabei-o no dia 31. Agora segue-se uma pequena pausa, para limpar o sistema e escrever outra coisa qualquer, breve de preferência, e siga para o próximo.

Ah, sim, e essas onze mil palavras num mês é novo máximo desta nova fase, com perdão da repetição. E sim, ó dois ou três com pendor para a aritmética que estão a ler isto, fizeram bem as contas: este romance novo já ultrapassa em muito o limite provável que eu tinha deixado aqui há uns meses. Já é o texto de ficção mais longo que escrevi até agora, deixando bem para trás o Por Nós lhe Mandarei Embaixadores. Vai com 56 mil palavras. Umas 160 páginas, mais ou menos. Se chega às 200? Como querem que eu saiba? Não tenho propriamente acertado sempre que falo em números futuros, não é verdade? Ou em datas, já agora. De modo que fechou a loja: já não dou mais palpites.

Quando começar outubro logo se verá. Se se vir alguma coisa.

Até lá.

Teresa Avillez Ereira: É Rua Cá Dentro

Já repararam como por vezes as histórias de linguagem mais arrebatadamente poética são as mais parcas em verdadeira emoção, ao passo que outras histórias, escritas com a maior simplicidade, extravasam emoção em cada traço de cada letra? E isto independentemente de qualidade, elaboração narrativa, por aí fora. E também independentemente do sentimentalismo da escrita (sentimentalismo e emoção são coisas por vezes bastante diferentes). Uma frase como "só conheci realmente o meu pai momentos antes de ele fechar os olhos para sempre", que acabei de inventar agora mesmo e é composta exclusivamente por palavras simples que qualquer um de nós poderia dizer em qualquer momento da vida, pode ser mais emotiva do que contos inteiros cheios de imagens poéticas que pretendem transmitir emoção.

Foi um pouco isto o que senti ao ler este conto de Teresa Avillez Ereira (que com as suas 30 páginas é bem capaz de não ser conto mas sim noveleta, diga-se de passagem). O pendor poetizante já é óbvio desde o título de É Rua Cá Dentro, e mais óbvio se torna assim que a leitura começa. Ereira parece ser daquelas autoras muito mais preocupadas com a forma do que com o conteúdo, e isso tem consequências, mas convém que se sublinhe desde já que a sua prosa não é daquelas prosas poéticas cheias de mau gosto que os anglófonos englobam sob a etiqueta de "purple prose". Não. No que toca à prosa propriamente dita, este conto é francamente bom, e está cheio de imagens muito bem conseguidas, ainda que por vezes soem demasiado gratuitas por parecerem existem por existir e não como meio para alcançar um fim.

Quanto à história propriamente dita, é uma daquelas histórias feitas em registo de realismo mágico, baseadas em alguma bizarria incomum. No caso, a bizarria é o protagonista: um rapaz que não fala. Não por não saber ou por ser sudo ou mudo (apesar de ser assim que muitos o tratam), mas simplesmente porque não quer. Acha que nada tem a dizer, e prefere a posição de observador do mundo do que propriamente de seu agente. A narrativa, altamente sinuosa e ainda mais palavrosa, segue basicamente um dia da vida do miúdo e da sua mãe, uma fisioterapeuta que reserva um dia na semana para fazer visitas ao domicílio na vilória costeira em que vivem. Uma vilória imaginária, chamada Vila da Areia, mas cuja geografia parece apontar para a zona da Ria de Aveiro ou coisa que o valha.

E é de deambulações que se faz a história, com personagens que aparecem de forma aparentemente irrelevante para depois desaparecerem e reaparecerem mais adiante, sugestões sinuosas sobre relações que para o miúdo protagonista são mistérios quase totais e a autora nunca chega a esclarecer, e personagens pouco claras: uma estrangeira misteriosa, um pintor com artrite nas mãos, uma velha maluca mas cheia de juízo, um gato e um cavalo. Muito simbolismo à mistura. Para muitos leitores, imagino, toda a bruma que envolve este texto será de molde a causar alguma rejeição. Para mim, o que mais me afastou foi o que mencionei ali em cima: a sensação de que tudo isto pretendia despertar emoções que é incapaz de despertar por puro excesso de literatura. Mas o conto não é mau. Até talvez seja bom.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 1 de setembro de 2019

Ademir Pascale: Rose: Assassina de Sonhos

Mais um conto de Ademir Pascale, mais uma Rose (ainda que haja ténues sinais de que talvez seja sempre a mesma... mas disso falarei noutro post). Esta vez é uma Rose: Assassina de Sonhos, e o conto não é tão fraco como o primeiro mas também não chega ao nível de qualidade do segundo. O principal motivo é, mais uma vez, a qualidade do próprio português.

E de novo, estamos perante de uma história de horror sobrenatural. O protagonista/narrador, que portanto conta a história em primeira pessoa, é um jovem que arranja emprego num alfarrabista, mesmo sem precisar grandemente disso, enquanto espera a publicação de um livro com o qual aparentemente conta ganhar dinheiro a sério. Mas as coisas não lhe correm como espera. Em boa parte porque se mostra seriamente estúpido. Estúpido? Estúpido como?

Porque logo no primeiro dia de trabalho no alfarrabista, o tipo encontra uma sala com uma espécie de altar satânico nas traseiras da loja, a dona da dita loja dá com ele nessa sala, fica furiosa e proíbe-o de se voltar a aproximar dela. E ele o que faz? Despede-se e vai embora sem olhar para trás? Ná! Amocha. E continua a trabalhar no alfarrabista, apesar de ir sendo cada vez mais maltratado pela patroa. Idiotice completa.

Claro que depois disso as coisas só podem ir de mal a pior, tanto mais que o rapazola em vez de se pôr na alheta fica curioso e vai meter o nariz onde não deve. Não há, portanto, grandes surpresas no desenrolar da história, o que contribui para fazer com que não haja também grande envolvimento emocional e muito menos horror. Assim, o conto teria de depender de um uso particularmente talentoso da linguagem para funcionar a contento, mas este deixa a desejar. O conto é, pois, fraco. Não chega a ser bastante fraco como o primeiro, mas é fraco.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 31 de agosto de 2019

Isabel Cristina Pires: O Príncipe Mais que Perfeito

E de novo, o infodump. Tal como no conto de Sacha Ramos, também este conto de Isabel Cristina Pires tem no despejo da informação necessária para se compreender o universo ficcional em que se desenvolve o seu principal calcanhar de Aquiles, ainda que aqui o problema seja menos sério por haver menos informação a despejar. Porque, embora O Príncipe Mais que Perfeito (bibliografia) seja um conto de história alternativa, também é um conto de ficção científica mais tradicional, e é esta a sua faceta predominante.

Assim, a alteridade da linha histórica é despachada em pinceladas rápidas e é também em pinceladas rápidas que ficamos a saber que o príncipe, protagonista da história e herdeiro do trono, é um indivíduo geneticamente manipulado a fim de realmente ter as qualidades "superiores" que a propaganda monárquica atribui aos membros das famílias reais. Surpreendentemente para os cientistas que lhe manipularam o ADN, e de forma preocupante para a casa real, que vê no facto um atavismo indesejável, o miúdo afeiçoa-se a um cão. O que fazer para anular tal anomalia? Argumente-se com ele, decide-se. E o resultado da argumentação constitui um final surpresa eficaz e vagamente arrepiante.

Este é um conto que é bom apesar do infodump. Ou bonzinho, vá. Realmente bom seria se o infodump não estivesse lá, mas em menos de quatro páginas não é possível fazer milagres e há que reconhecer que Isabel Cristina Pires reduz o infodump ao mínimo indispensável. E escreve bem. Consequentemente, apresenta o melhor conto de história alternativa que o livro inclui até ao momento.

Contos anteriores deste livro:

Ray Bradbury: O Anão

Um dos temas recorrentes de Ray Bradbury, especialmente nos seus contos mais afastados da ficção científica, é o dos parques de diversões. Por vezes, são os próprios parques a servir de tema, mas é mais frequente que o tema seja a população frequentemente bizarra que neles trabalha e, até certo ponto, que os frequenta. O Anão (bibliografia) é uma dessas histórias.

O protagonista é, naturalmente, um anão. Um anão que frequenta habitualmente uma daquelas casas de espelhos que havia em algumas feiras, onde a troco de umas quantas moedas as pessoas podiam ver-se grotescamente distorcidas pelos espelhos côncavos ou convexos ou com outras formas ainda mais estranhas que lá existiam. Não faço a mais pequena ideia se tal diversão ainda existe nesta era de filtros fotográficos de todos os tipos em qualquer telemóvel, mas houve tempo em que essa era a única forma que as pessoas tinham para se verem como pessoas diferentes.

Claro, a subtileza deste conto reside na inversão. O anão sente-se ele próprio grotesco e visita o parque de diversões não para sublinhar esse grotesco mas para se poder ver distorcido como um homem tão alto como os outros. E isso desperta a piedade da personagem feminina da história, a qual se enche de boas intenções. Mas de boas intenções...

... está o companheiro dela farto. E cético. E isso leva ao desfecho da história, no qual surge um toque de horror psicológico num texto que até aí é basicamente realista, por mais incomuns que sejam o ambiente e as personagens. Este é um bom conto, mas não está ao nível das melhores histórias de Bradbury.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Sacha Andrade Ramos: O Preço de uma Coroa

Tão militantemente monarquista como a história de João Afonso Machado, e apesar de um início que parece querer enveredar pelos mesmos desagradáveis caminhos, rapidamente se percebe que tais receios têm pouco fundamento. É que ao contrário de Machado, Sacha Andrade Ramos já leu história alternativa e sabe o que está a fazer.

A história praticamente abre com um longo infodump, e este é a pior parte do conto. Um infodump usado para despejar a informação necessária para o leitor compreender as premissas da linha temporal alternativa em que o conto se desenrola e que, numa história mais extensa, poderia e deveria ser mais bem distribuída ao longo do texto, intercalada com elementos mais interessantes, mas numa história deste tamanho se torna praticamente inevitável e por isso aceitável. O que não quer dizer que seja bom. O protagonista é o príncipe herdeiro da coroa portuguesa, e o ambiente é uma das praias da Linha, fechada ao público para que sua senhoria pudesse ter uma crise existencial em paz e sossego.

A crise existencial tem a ver com uma decisão fundamental: aceitar a coroa, ou não? Ou por outra, aceitar pagar O Preço de uma Coroa (bibliografia) ou não? A autora usa esse dilema para desenvolver a sua visão do que seria uma monarquia portuguesa moderna caso a república nunca tivesse sido implantada, mas fá-lo bastante bem, introduzindo na trama uma rapariga que atenta contra a vida do príncipe. Uma antagonista com razões de queixa e por isso não propriamente uma vilã, o que impede este conto de resvalar para caminhos mais simplórios. E o risco de isso acontecer era real, pois o príncipe é muito escarrapachadamente o herói; um autor mais ingénuo ou ignorante na arte de contar histórias facilmente se deixaria encurralar nessa armadilha, mas Sacha Andrade Santos não o faz.

E o resultado é um conto que só aquele longo infodump inicial estraga. Não o suficiente para o tornar mau, longe disso, mas o suficiente para não permitir que seja realmente bom. Está entre o bom e o razoável o que, neste livro, parece ser motivo para destaque.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

E. M. Forster: O Obelisco

É sempre uma complicação escrever sobre contos que dependem de um final surpreendente que obriga a reavaliar o que ficou para trás, ao mesmo tempo que se tenta não dar demasiadas pistas a quem lê sobre qual a surpresa que existe nesse final para não lhes estragar a experiência de uma eventual leitura. Mas torna-se ainda mais complicado fazer isso quando a surpresa está tão entrelaçada com quem o autor é (ou era, vá) como acontece neste conto.

E até a frase anterior já deixa várias pistas a todos os que já conhecerem alguma coisa sobre E. M. Forster e a sua obra. Assim, valerá a pena tentar manter o jogo relativamente escondido? Ou mais vale abri-lo de uma vez?

Bem, vou entreabri-lo. Porque tem de ser. Todos os que conhecem Forster saberão não só que ele era homossexual, mas que escrevia com certa frequência sobre temas homossexuais. Ora, neste O Obelisco parece a princípio não o fazer. O conto é sobre um casal heterossexual invulgar, pois o homem do casal é anão. Em férias longe de casa, param numa terra onde um obelisco erguido nas falésias junto ao mar é uma das principais atrações turísticas da região. Aí, conhecem fortuitamente dois marinheiros de licença, um dos quais, obtuso, grande e musculoso, tem a irónica alcunha de "Tiny", "minúsculo".

No meio de uma névoa de recriminações e frustrações, pois nenhuma das personagens neste conto é realmente simpática e muito menos feliz, o casal sai da vila rumo ao tal obelisco, porque há que se ver as atrações turísticas quando se é turista. Depressa, no entanto, os marinheiros se lhes juntam, e após alguma conversa os quatro decidem seguir juntos até ao obelisco. Mas não demoram a formar-se dois grupos, um que a narrativa continua a seguir, pois apesar de contado na terceira pessoa o ponto de vista do conto é sempre o da mulher, e outro que perde de vista. No primeiro, está a mulher e o mais educado dos dois marinheiros; no segundo, o anão e "Tiny".

Isolada do marido, sexualmente frustrada e envaidecida pelas atenções que lhe são prestadas pelo marinheiro, a mulher deixa-se seduzir. E os dois afastam-se do caminho e entregam-se a uma cópula clandestina no meio do campo. E o conto prossegue com essa infidelidade a servir de mote às dúvidas, vergonhas, desafios, temores e inseguranças da mulher, enquanto o marinheiro tenta sossegá-la, que ele se encarregará de não deixar que ninguém suspeite de nada quando reencontrarem os companheiros. E é o que acontece até chegar o final surpresa sob a forma de um postal que representa o obelisco e das palavras que são trocadas a respeito do postal e do que ele representa.

Este é mais um dos tais contos em que eu acabo a leitura com um considerável respeito pelo autor e a sua habilidade narrativa, mas essencialmente aborrecido. O conto é bom, mas daí até eu ter gostado dele vai alguma distância. Em termos de gosto pessoal, esta leitura termina com um "meh".

Contos anteriores desta publicação:

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Jorge Ribeiro de Castro: Toca-me um Sumptuoso Frio

Toca-me um Sumptuoso Frio (bibliografia) é mais um daqueles poemas que se vistos sob um certo ponto de vista mais literalista são fantásticos, mas nos quais os elementos fantásticos podem com igual facilidade ser encarados como meras metáforas poéticas. Jorge Ribeiro de Castro, embora introduza no seu texto elementos sobrenaturais, não escreve realmente sobre fantasmas ou espíritos: escreve sobre a morte.

E escreve sobre a morte de uma forma algo mais sofisticada que a da maioria dos poemas que li até agora neste livro. Há rimas não muito básicas, há rimas internas aos versos, há um ritmo que não é inteiramente óbvio, por aí fora. É certo que não gostei, mas isso deve-se sobretudo ao facto de este tipo de poema ter o condão de me aborrecer. Abstraindo-me disso, reconheço alguma qualidade a este esforço.

Textos anteriores deste livro:

Ademir Pascale: Rose, a Estranha

Apesar do título de Rose, a Estranha, remeter qualquer leitor brasileiro para o título local do livro de Stephen King, Carrie, e isso poder levar à suposição de que Ademir Pascale se terá inspirado nesse romance para criar o seu conto, ao ler-se este último não se encontram muitas semelhanças com King. ou com o livro deste.

Mas esta história é muito melhor que a anterior, partilhando com ela a classificação como horror sobrenatural e pouco mais. É mais coerente (embora continuem a existir incoerências), mais enxuta, tem menos fragilidades a nível de escrita, é menos cliché e está de uma forma geral mais bem concebida e executada. O protagonista é um tal Marcos, que perde o emprego como webdesigner numa empresa do ramo só para descobrir que a mulher que secretaria o seu despedimento, nova na empresa, é sua vizinha. E resolve ir bater-lhe à porta.

Má ideia. Rose, assim se chama a mulher (mas não a mesma Rose do conto anterior, aparentemente), não é bem o que ele julga. E as consequências são desagradáveis.

Este conto está entre o razoável e o bonzinho e é, se bem me lembro, o mais bem sucedido texto do autor que eu li até hoje (não foram muitos; pode haver melhores).

Conto anterior deste livro: