quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Lido: A Princesa Abandonada

Um conto com quatro páginas e meia, mais a mais quando todas essas páginas consistem de um único parágrafo é, neste livro, um gigante.

Recolhido em Abrantes, mais a sul do que é habitual em Adolfo Coelho, que raramente sequer se aproximou do Tejo, A Princesa Abandonada é um conto particularmente elaborado, ainda que invulgarmente pobre no que toca às suas características puramente literárias. Este é outro dos tais contos que mostram bem como Coelho pouco ou nada retocou as histórias que recolheu (ao contrário dos Grimm, por exemplo), e quando conjugamos isso com o facto de o enredo desta história ser particularmente complexo fácil se torna perceber o quanto de mangas se poderia criar com o pano que ela apresenta.

Trata-se de mais um dos muitos contos em que um jovem é obrigado a passar por uma série de provas mais ou menos mágicas (e neste caso é mais, pois há poções e gigantes) para demonstrar o seu valor, acabando recompensado por isso. O jovem é filho duma princesa caída em desgraça (por completo; posta na rua pelo rei seu pai) por ter dormido e engravidado de um camareiro, e é o filho que ela dá à luz quem vai fazer provas de valentia e desembaraço, acabando casado com uma princesa.

Este é um conto interessante, muito mais pelo potencial que mostra do que pela sua realização em texto.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Lido: Crepúsculo Matutino

Não vou voltar a desenvolver aqui as ideias que já desenvolvi sobre a natureza e os vários tipos dos romances-colagem, mas parece-me aconselhável que antes de lerem o que segue vão ler o que está no link acima, caso ainda não o tenham feito. É que a natureza do livro é importante para pensarmos no que Gerson Lodi-Ribeiro quis fazer com este Crepúsculo Matutino.

Ou muito me engano, ou não se trata de história que tenha sido publicada independentemente, embora partes dela tenham ficado sugeridas em outras histórias que o foram. Trata-se de um texto longo; se fosse autónomo, seria certamente uma novela. E relata o que aconteceu à espécie do vampiro de Palmares antes de ele se tornar vampiro de Palmares; a vida dos vampiros no litoral pacífico da América do Sul, a chegada dos incas à zona e a forma como os vampiros se aproveitaram da expansão do império Inca, expandindo-se e dispersando-se com ele, a arrogância e o descuido com que encararam a predação, especialmente em plena Cuzco, e a catástrofe que daí adveio. O título refere-se, creio, ao crepúsculo da espécie do vampiro de Palmares na manhã da existência da personagem.

A história é interessante, como de resto é comum acontecer nestas histórias de Palmares e do seu "filho da noite". O problema é que dava um romance. Imagino que o Gerson tenha achado que precisava desta história para contar realmente por completo a história do vampiro palmarino e se tenha visto confrontado com uma escolha entre dividir este livro em dois ou resumir o início de vida do seu protagonista e as condições que lhe deram origem, acabando por escolher esta última opção. Mas essa escolha tem consequências, e a principal é criar um texto muito descritivo e razoavelmente seco, que se lê quase como um manual de história, a história da espécie do vampiro. Embora este esteja presente nessa história, os verdadeiros motores dos acontecimentos são outros porque ele ora era muito novo ora ainda nem tinha nascido. Por isso, existe quase sempre como uma mera ideia de fundo, raramente aparecendo mesmo como personagem... e não há nenhuma personagem que tome realmente o seu lugar de protagonista. O protagonista, aqui, é a própria espécie.

Como já disse, eu conheço várias das histórias que o autor usou para construir este romance-colagem, e nenhuma tem este aspeto descritivo. Ainda não sei de que forma elas terão sido alteradas para se ajustar ao formato de romance, se o foram de todo, pelo que não tenho ainda a certeza de que o tom deste Crepúsculo Matutino termine aqui. Mas parece-me provável que assim seja. Pelo menos eu espero que sim. Porque esta história inicial é a pior de todas as histórias do Vampiro de Palmares que li até hoje.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 13 de janeiro de 2019

Leiturtugas da semana

Voltou a não haver leiturtugas propriamente ditas, mas isso não quer dizer que não haja novidades. O grupo continua a crescer, e esta semana que passou aderiram ao projeto mais duas publicações, subindo o total para nove. Querem saber quais? Está na página.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Lido: O Menino e a Lua

Para confirmar o que disse há dias sobre histórias tradicionais e crueldade, eis mais um continho com pouco mais de uma página em que a primeira coisa que um pai faz quando o filho lhe diz que a lua profetizou que o pai ainda haveria de lhe querer deitar água nas mãos e ele recusar é... deitá-lo ao mar dentro de um caixão. Pois.

O Menino e a Lua, assim se chama o conto recolhido por Adolfo Coelho em Coimbra, é mais uma daquelas histórias cuja moral parece ser "não se brinca com o destino". Que o que está predeterminado acontece, quer se queira, quer não. E é também mais uma história com pano para muitas mangas, que de resto são mesmo necessárias para que a história realmente resulte uma vez que tal como está aqui contada não só padece de forte inverosimilhança (o miúdo acaba como filho adotivo de um rei, por exemplo) como tem também buracos na lógica interna que seria aconselhável colmatar (o rei que o adota, que em princípio só deveria saber que ele tinha sido encontrado à deriva no mar dentro de um caixão, no final da história já sabe quem eram os pais). Ou seja, este não é grande exemplo do talento narrativo dos contadores de histórias populares, mas tem potencial para muito mais.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Os Elfos

Este conto (ou não; já vos conto) pôs-me a folhear o que faltava do livro para ver se a partir de agora ia ser sempre assim. É que pela segunda vez consecutiva, depois d'O Casamento da Senhora Raposa, não estamos perante um conto, mas mais que um. E não, aqui não são dois: são três.

E, ao contrário do que aconteceu com a Senhora Raposa, estes contos sobre elfos são todos bastante diferentes uns dos outros, apesar de terem algumas características em comum, relacionadas quase sempre com a natureza das criaturas.

O primeiro e aquele que é, de longe, o mais extenso e complexo, conta a história de um sapateiro que uma bela noite decide que está demasiado cansado para acabar o par de sapatos que tinha em mãos, e vai descansar, deixando os sapatos apenas cortados na bancada de trabalho. Na manhã seguinte descobre com surpresa que estão terminados e perfeitos. E a coisa repete-se vezes sucessivas, até que ele, já rico de tanto e tão bom trabalho feito por algum misterioso sapateiro noturno, resolve investigar, descobre os elfos e deixa-lhes uma recompensa. Que os elfos aceitam. Só que nunca mais regressam.

O segundo é um conto de uma página sobre uma rapariga boa e trabalhadora que é convidada para ser madrinha de um bebé elfo, aceita e lá vai para as montanhas, onde passa uns dias de festa, regressando depois a casa. Mas quando regressa descobre que não se tinham passado apenas dias cá fora. Já tinha lido vários contos de fantasia com este tipo de desfasamento entre o tempo dos elfos e o tempo humano. Até traduzi um romance que contém este elemento.

O terceiro é um continho muito curto, de menos de meia página, sobre a lenda das crianças roubadas por elfos e substituídas por outras. A mesma tradução que incluía a base do conto anterior (A Criança Roubada, precisamente, de Keith Donohue) baseia-se nesta lenda.

O conjunto é simultaneamente muito interessante e de molde a deixar quem lê algo perplexo, pois os três contos têm pouquíssimos pontos de contacto, pelo que não é muito fácil entender por que motivo foram reunidos desta forma. Ou por outra, fácil é, pois todos revelam diferentes facetas das lendas sobre elfos, mas é algo discutível e, sabendo-se que os Grimm eram useiros e vezeiros em fundir e reescrever os contos que recolhiam, faz-se inevitável a pergunta (sem resposta) sobre o motivo por que não fizeram o mesmo com estas histórias. E desta vez nem a nota que se segue a eles (como a quase todos os outros) o explica.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Livros de 2018

E porque é que eu só faço balanços do ano depois do ano acabar, ao contrário de tantos outros que começam a fazê-los, às vezes, ainda no início de dezembro? Porque até ao lavar dos cestos é vindima, o que quer dizer que até ao fim do ano acontecem coisas. Este ano, por exemplo, acabei de ler o último livro do ano a... 31 de dezembro.

E foi isso o que fez com que tenha acabado o ano com o mesmo número de publicações lidas do ano anterior: 28. Mais uma vez houve este ano extensos períodos em que li muito pouco, ou quase nada, embora este ano a causa tenha sido mais o trabalho do que problemas pessoais como em 2017. Como o meu trabalho consiste em ler e (re)escrever, sempre que entro em sobrecarga não consigo descansar se me puser a ler nos tempos livres. Quando o faço sinto-me quase como se ainda estivesse a trabalhar, e por isso tendo a ir fazer outras coisas. A leitura, claro, ressente-se. Só quando tenho pausas, períodos de descanso, é que leio mais demoradamente.

E não foi só esse número a ser muito semelhante ao ano passado. Tal como em 2017, em 2018 também li 22 livros por lazer, sendo a maioria, 14 (em 2017 tinham sido 18), lusófona, e não só portuguesa e brasileira, mas incluindo também ficção angolana.

A lista completa é a seguinte:

1- Os Informadores, de Bret Easton Ellis (romance em mosaicos com toques fantásticos);
2- Phenomenae, de Ricardo Lopes Moura (coletânea de horror);
3- Sozinho no Deserto Extremo, de Luiz Bras (romance de ficção científica);
4- Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon (romance com toques fantásticos e de ficção científica);
5- Maelstrom, de Peter Watts (romance de ficção científica);
6- Amo-te Para Sempre, de Fernando Alvim (conto mainstream);
7- Invasão Alienígena, org. Ademir Pascale (antologia temática de ficção científica);
8- Kapapa, de Luandino Vieira (conto mainstream);
9- Laços de Família, de Ruy Sant'Elmo (conto mainstream);
10- O Jogo Final, de Orson Scott Card (romance de ficção científica);
11- Na Teia dos Meus Segredos, de Maria Jacinto Uva (conto mainstream);
12- O Boitatá com Olhos de Césio, de Lúcio Manfredi (artigos e críticas fundamentalmente sobre ficção científica);
13- Solarpunk, org. Gerson Lodi-Ribeiro (antologia temática de ficção científica);
14- Xochiquetzal, de Gerson Lodi-Ribeiro (romance em mosaicos de história alternativa);
15- A Corte do Ar, de Stephen Hunt (romance de fantasia steampunk);
16- Pequena Coleção de Grandes Horrores, de Luiz Bras (contos de ficção científica, horror, humor e fantástico, sobretudo);
17- O Engenho dos Sonhos, de Carina Portugal (contos sobretudo de horror, mas também com ficção científica, humor e fantasia);
18- O(s) Fantasma(s) de Fernando Pessoa em O Ano da Morte de Ricardo Reis, de Barbara Juršič (tese de mestrado em literatura portuguesa);
19- Remix, de Lawrence Lessig (ensaio sobre os problemas em volta do copyright);
20- Yazik, de Emanuel R. Marques (conto de horror, com toques de ficção científica);
21- Caminhos do Espaço, de Charles Eric Maine (romance de ficção científica);
22- 100 Livros Portugueses do Século XX, de Fernando Pinto do Amaral (divulgação e crítica literária).

Também li periódicos:

23- Ficções de Guerra, ed. Luísa Costa Gomes (contos fundamentalmente mainstream);
24- Megalon, nº 7, ed. Marcello Simão Branco (contos, artigos e resenhas de e sobre ficção científica e fantástico);
25- Megalon, nº 13, ed. Marcello Simão Branco (contos, artigos e resenhas de e sobre ficção científica e fantástico);
26- Pulp Feek, nº 2, ed. Lucas Rueles e Rafael Marx (contos de ficção científica e artigos sobre FC e técnicas de escrita);

E por obrigação laboral foram lidos:

27- Assassin's Fate, de Robin Hobb (romance de fantasia);
28- Fire and Blood, de George R. R. Martin (romance de fantasia);

Tal como no ano passado a ficção científica predomina, apesar de ter lido poucas obras de FC "pura". A maioria foram obras com alguma FC misturada com outras coisas, por vezes de forma muito minoritária. Mas essas outras coisas, e as que existem nas obras sem qualquer FC, foram mais uma vez bastante variadas, indo de textos académicos sobre literatura ao horror, passando por histórias inteiramente mainstream e por fantasia (ainda que esta se tenha restringido sobretudo aos livros que li como preparação para os traduzir).

E tal como ano anterior, também neste que acabou de acabar não houve nenhum livro que me tenha deixado de queixo caído. Embora tenha havido algumas boas leituras, a maioria foram leituras que não ultrapassaram a mediania e houve umas quantas entre fracas e más. Em parte por isso, este ano tenho real dificuldade em decidir-me pelo habitual top-3 de leituras, porque houve 6 livros que se destacaram dos demais, por motivos diferentes, e não me está a ser nada fácil escolher três entre eles. Acho que vai ter de ser o prazer de leitura a desempatar, e aí ganha a Pequena Coleção de Grandes Horrores, do Luiz Bras, seguido por Maelstrom, do Peter Watts, e por O Jogo Final, de Orson Scott Card. Tudo livros de e com ficção científica, curiosamente. Ou talvez não tão curiosamente.

Os outros três, já agora, foram Remix, de Lawrence Lessig, Xochiquetzal, de Gerson Lodi-Ribeiro, e Sozinho no Deserto Extremo, de Luiz Bras. Sem nenhuma ordem especial. Este último autor, de resto, pode ser encarado como o autor do ano: li dois livros dele e gostei bastante de ambos. Esta listinha de três também dá pistas para se perceber quais foram as três melhores leituras lusófonas do ano, i.e., a Pequena Coleção de Grandes Horrores em primeiro, Xochiquetzal em segundo e Sozinho no Deserto Extremo em terceiro. Tudo brasileiro; este ano li muito poucas coisas portuguesas e as que li estiveram longe de se destacar (umas mais, outras menos). No próximo ano vou ler bastante mais material português, e espero que pelo menos parte dele seja significativamente melhor.

Pelo lado negativo, houve um livro (bem, um livrinho) que se destacou claramente dos demais. A pior leitura do ano foi, pois, Na Teia dos Meus Segredos, de Maria Jacinto Uva. Decidir a segunda e terceira pior foi mais difícil, mas a segunda pior também é relativamente clara: o número 2 do fanzine Pulp Feek. Para a terceira pior a competição foi aguerrida e abundante, reunindo quase uma dezena de livros e outras publicações, mas acabei por escolher outro fanzine brasileiro: o número 7 do fanzine Megalon. Tudo leituras lusófonas, tal como no ano passado, embora neste grupo que lutou por (não) ser a terceira pior leitura também houvesse dois livros traduzidos: A Corte do Ar e Caminhos do Espaço.

E para o ano há mais. Muito mais, na verdade, pois vou ver se leio em 2019 o que falta dos contos DN (aquela coleção de ebooks que inclui o Amo-te Para Sempre, do Alvim, que li este ano), o que só por si já dará uma lista jeitosa de títulos. Até lá.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Lido: 100 Livros Portugueses do Século XX

Um dos paradoxos do estado atual dos meus projetos é continuar a pegar em livros que arranjei para ver se encontrava neles alguma coisa que tivesse interesse para o Bibliowiki, ao mesmo tempo que o próprio Bibliowiki se encontra parado por falta de tempo para lhe dedicar. E assim deverá continuar até que a atual carga de trabalho termine, em fevereiro.

Este 100 Livros Portugueses do Século XX, edição bilingue (português/inglês) do Instituto Camões, preparada por Fernando Pinto do Amaral, cujo objetivo foi apresentar a potenciais interessados estrangeiros a melhor ou mais relevante (no critério do autor, bem entendido) literatura portuguesa do século passado, foi um desses livros. Peguei nele para ver se encontraria aqui alguma obra que eu desconhecesse que podia interessar ao Bibliowiki, i.e., que podia integrar-se na literatura fantástica. E à parte as que já conhecia (de Saramago, por exemplo, ou de Branquinho da Fonseca) até encontrei, pelo que por esse lado esta leitura foi proveitosa. Resta saber é quando conseguirei traduzir isso em conteúdo de wiki propriamente dito.

Mas claro que aqui as ditas paraliteraturas (que são tão literaturas como as outras, mas deixem-nos lá brincar à sobranceria) não entram, entreabrindo-se apenas uma breve exceção à literatura infanto-juvenil. Nada de policial, nada de fantasia e quanto à ficção científica, então, nem pensar em tal coisa. Que só se perceba realmente a abrangência e variedade de uma literatura tendo em conta todas as suas facetas e as várias formas de criação literária que ela inclui nem passa pela cabeça de quem faz listas deste género. Sobre alguns autores menciona-se que estiveram ativos nos malfadados géneros, mas a obra que aqui se apresenta, obviamente, nada tem a ver com eles. Dinis Machado assinou ótimos livros policiais como Dennis McShade? Tá bem, mas o que interessa é O que Diz Molero. A Natália Correia escreveu contos de FC? Chhh... não falem disso que é pecado.

Outra coisa a que achei particular graça, especialmente envergando o meu chapéu profissional de tradutor, é a forma como se tenta promover certas obras sublinhando o seu caráter regionalista, em especial em termos de linguagem. É que se há coisa que não passa numa tradução são os regionalismos de linguagem. Porque uma tradução pressupõe sempre a alteração profunda da linguagem. Podem encontrar-se aproximações na língua de destino, truques para se fazer o leitor evocar alguma região do seu próprio espaço linguístico, na esperança de que isso o faça compreender o regionalismo do original, mas esses truques não passam disso mesmo. Nunca é a mesma coisa.

Diverti-me também com a forma como o autor apresentou os livros integrados na corrente do neorrealismo. Tudo (ou quase) é descrito como "esquemático", o que é uma maneira mal disfarçada de chamar a esses livros simplistas. A ideia que passa é que ele se achou obrigado a referir essas obras e autores, pela relevância que umas e outros tiveram na literatura portuguesa de meados do século, mas muito a contragosto e com grande ranger de dentes, provavelmente ideológico, que o neorrealismo é uma corrente artística de inspiração marxista e isso é palavra que, imagino por algumas frases que foi deixando aqui e ali, causará alguma indigestão ao autor.

Dito isto, este livro é útil. Não só para estrangeiros tomarem conhecimento com uma parte da literatura portuguesa do século XX, mas também para portugueses e não só para aqueles que pegam nele com o objetivo de alimentar um site bibliográfico, que provavelmente são um conjunto de um só. É uma visão do que é relevante que, apesar de assumidamente ser pessoal — o autor deixa-o explícito na introdução — é fruto das escolhas de alguém que está de tal forma mergulhado no pensamento literário dominante que na realidade pouco de pessoal aqui existe. São precisamente as escolhas espectáveis de alguém com o percurso de Fernando Pinto do Amaral e seriam as feitas, com pouquíssimas diferenças, por outro Fernando Pinto do Amaral qualquer. E isso marca um momento, não necessariamente da literatura portuguesa propriamente dita, mas com certeza do pensamento português sobre literatura. Caberá a cada um decidir se as acha relevantes ou não.

Se bem me lembro, descarreguei este livro em PDF do site do Instituto Camões, mas parece já não estar disponível.

Lido: Maria Silva

Apesar de tenderem a sofrer adaptações delicodoces quando são apresentados às criancinhas, muitos dos contos populares nas suas versões originais são violentamente cruéis. Ora são reis que mandam matar toda uma população de crianças porque um oráculo lhes diz que entre essas crianças está uma que os vai matar décadas mais tarde, ora são maus que são castigados das formas mais hediondas que se possa imaginar, ora são feitiços ou provas que forçam quem fica sob a sua alçada a sofrimento prolongado, ora é uma série de outras coisas desagradáveis, estes contos estão repletos de atos e sacrifícios que parecem saídos diretamente das catacumbas mais sombrias da imaginação humana.

É muito o caso deste Maria Silva, mais um conto recolhido por Adolfo Coelho em Coimbra. Trata-se de mais um daqueles contos de profecia em que o alvo da profecia tenta de tudo (ou quase) para evitar que ela se cumpra, quase sempre em vão. Neste caso, trata-se de um príncipe que um dia na floresta ouve choros e uma voz a dizer-lhe que a que chora haveria de ser dele. E que faz? Procura a criança que chora e marca-a na testa com um ferro em brasa, corta-lhe um dos mindinhos e abandona-a numas silvas. Um amor de pessoa, não é? Mas o destino é o destino e depois de crescer rodeada de prodígios mais ou menos impossíveis, a bebé acaba mesmo casada com o príncipe.

Este é mais um dos contos com pano para muitas mangas que se podem encontrar neste livrinho. E dá para ser adaptado de formas muito diferentes.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Em 2018 falou-se de... ficção portuguesa

E agora que chegámos a 2019 e acumulámos 12 meses de referências no Ficção Científica Literária, está na altura de fazer um apanhado das obras de ficção científica (e relacionadas) que mereceram leitura e comentário na rede aberta de língua portuguesa durante o ano que passou. E, como acaba por ser muita coisa, vou dividi-lo em quatro posts: ficção portuguesa, ficção brasileira, ficção traduzida, outras coisas. Hoje é o primeiro: a ficção portuguesa.

Antes de mais, uma nota sobre convenções. Quando aparece um número seguido por um x, 2x, por exemplo, isso significa que houve ao longo do ano duas opiniões à mesma obra. Quando aparece um número seguido por um x e um +, 2x+, por exemplo, quer dizer que ao longo do ano houve pelo menos duas opiniões à mesma obra. É assim porque eu não comecei desde o início a contabilizar o número de opiniões, e pode ter havido opiniões múltiplas que não assinalei nos primeiros meses.

Isto despachado, eis a lista:

? (org.)
  1. Almanaque Steampunk 2017
  2. O Legado de Eros
  3. Uma Terra Prometida
Almeida, Miguel Vale de
  1. Euronovela
Alves, André
  1. Instintos (conto)
Barreiros, João
  1. Crazy Equóides
  2. Se Acordar Antes de Morrer
Barreiros, João; Ferreira, Ana; Gil, Ana Margarida; Claro, Ângelo; Figueiras, Carina; Jales, Filipa; Oliveira, Hugo; Ribeiro, Marta
  1. A Escolha de Hobson, (novela)
Barrento, Pedro
  1. O Algoritmo do Poder
Bizarro, António
  1. O Motor do Caos e da Destruição
Cancela, H. G.
  1. A Terra da Naumãn
Cardoso, Carmo; Machado, José
  1. O Jogo (conto)
Coelho, Alexandra Lucas
  1. A Nossa Alegria Chegou (2x)
  2. Orlando e o Rinoceronte
Dâmaso, Ana Cláudia
  1. Desleais
  2. Imprudentes
  3. Rebeldes
Dias, Ricardo
  1. O Marciano Humanista (conto) 
Elias, Vítor
  1. Pobres Diabos
Garcia, Nuno Gomes
  1. O Homem Domesticado
Gonçalves, Jonuel
  1. E Se... Angola Tivesse Proclamado a Independência em 1959?
Holstein, Álvaro de Soura; Leandro, Marcelina Gama (org.)
  1. Antologia Fénix I
Ladeira, António
  1. Os Monociclistas (3x)
  2. Seis Drones
Lobo, Sofia Guilherme
  1. Holocausto Lunar
Magalhães, Ângelo R. T.
  1. A Submissão dos Inocentes
Magalhães, Ana Maria; Alçada, Isabel
  1. O Ano da Peste Negra
  2. Uma Viagem ao Tempo dos Castelos
Matos, Melo de
  1. Lisboa no Ano 2000
Morais, José Manuel
  1. Livros que não Deviam ter Sido Escritos - XIV (conto)
Oliveira, João Pedro
  1. O Farol Intergaláctico (conto)
Pimenta, Samuel
  1. Os Números que Venceram os Nomes
Portela, Patrícia
  1. A Coleção Privada de Acácio Nobre
Portugal, Carina
  1. Doze Doses de Ilusão (conto)
  2. O Engenho dos Sonhos
Santos, José Rodrigues dos
  1. Sinal de Vida
Saramago, José
  1. A Caverna
  2. Ensaio Sobre a Cegueira (5x)
  3. História do Cerco de Lisboa
  4. O Homem Duplicado
  5. Objecto Quase
Silva, Carlos
  1. Anjos
Silva, Carlos (org.)
  1. Expansão (2x+)
  2. Lisboa Oculta
Silva, Luís Filipe (org.)
  1. O Resto é Paisagem (2x)
Soares, Bruno Martins
  1. Mission in the Dark
  2. Shark-Killer (3x+)
Ventura, João
  1. Conflitos Livrescos (conto)
  2. Tudo Isto Existe (3x)
Parece muito? Não é. Poupo-vos às contas fazendo-as eu. São 49 títulos, nem meia centena, 7 dos quais são contos. 42 títulos que correspondem a livros de novela para cima ou a compilações de contos, portanto. São 29 autores ou equipas de autores e mais dois organizadores de antologias. Isto para um ano inteiro de atividade. É pouquíssimo, mesmo que seja mais do que era norma aqui há alguns anos. E menos ainda parecerá quando compararmos estes números com os números equivalentes que vamos ter nos outros posts.

Como seria de esperar, por vários motivos, o autor mais comentado foi Saramago. Outros autores com quatro ou mais comentários foram António Ladeira (a surpresa do ano), Bruno Martins Soares e João Ventura, todos com novos lançamentos em 2018. E com pelo menos três, Alexandra Lucas Coelho e Ana Cláudia Dâmaso, também ambas com lançamentos este ano e esta última graças aos comentários aos três livros de uma trilogia num blogue.

E à exceção de João Ventura, nenhum destes nomes corresponde a um autor com presença assídua e de longa data (Soares tem-na, mas bastante mais recente) em publicações ligadas ao fandom português de FC. E tanto Saramago como Coelho e Ladeira são autores próximos do mainstream. Os motivos para isso são complexos e não cabe aqui discuti-los mas é um dado relevante que convém sublinhar.

Próximo balanço: ficção brasileira. Fiquem por aí.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Em dezembro falou-se de...

E cá temos, pelo 12º mês consecutivo — há um ano que faço isto, portanto, o que significa que dentro de dias aparecerá por aí o balanço do ano das leituras fc — o apanhado das opiniões literárias que apareceram na web aberta durante o mês que acabou há dias.

Mas comecemos como é costume: pelas notas sobre onde encontrar mais informação sobre o que são estes artigos, de que limitações padecem e quais são os seus objetivos, o que se pode encontrar no primeiro de todos, de janeiro de 2018, e também onde e como encontrá-los a todos, passados, presentes e, no tempo devido, futuros, todos reunidos na tag leituras fc.

E agora que o palavreado habitual está despachado, vamos às listas. No fim, como sempre, há comentários.

Ficção portuguesa:
  1. Euronovela, de Miguel Vale de Almeida
  2. A Submissão dos Inocentes, de Ângelo R. T. Magalhães
  3. Doze Doses de Ilusão, de Carina Portugal (conto)
  4. O Engenho dos Sonhos, de Carina Portugal
  5. Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (2x)
  6. O Resto é Paisagem, org. Luís Filipe Silva
  7. Tudo Isto Existe, de João Ventura
Ficção brasileira:
  1. Names, de Dalton Almeida
  2. Sobre a Imortalidade de Rui de Leão, de Machado de Assis
  3. Dissidentes, de José Beffa (2x)
  4. Dia da Marmota, de Luiz Bras (conto)
  5. Ministério da Verdade, de Luiz Bras (conto)
  6. Pequena Coleção de Grandes Horrores, de Luiz Bras
  7. A Guia, de Évany Cristina Campos
  8. Aqui quem Fala é da Terra, org. André Caniato e Jana Bianchi
  9. Piscina Livre, de André Carneiro
  10. Le Chevalier e a Exposição Universal, de A. Z. Cordenonsi
  11. A Fortaleza, de Day Fernandes
  12. Dias Febris, de Francis Graciotto
  13. O Caçador Cibernético da Rua Treze, de Fábio Kabral
  14. Trasgo, nº 4, ed. Rodrigo van Kampen
  15. Macacos e Outros Fragmentos ao Acaso, de Jorge Moreira Nunes
  16. Fractais Tropicais, org. Nelson de Oliveira
  17. A Ilha dos Mortos, de Rodrigo de Oliveira
  18. A Noiva e o Vampiro, de Gerson Lodi-Ribeiro (conto)
  19. Solarpunk, org. Gerson Lodi-Ribeiro
  20. Pulp Feek, nº 2, ed. Lucas Rueles e Rafael Marx
  21. Heróis de Novigrath, de Roberta Spindler
  22. O Reino de Zália, de Luly Trigo
  23. As Águas-Vivas não Sabem de Si, de Aline Valek
Ficção internacional:
  1. A Loucura de Deus, de Juan Miguel Aguilera
  2. O Poder, de Naomi Alderman (2x)
  3. As Cavernas de Aço, de Isaac Asimov
  4. O Sol Desvelado, de Isaac Asimov
  5. Os Robôs da Alvorada, de Isaac Asimov
  6. A História de uma Serva / O Conto da Aia, de Margaret Atwood (4x)
  7. 4321, de Paul Auster
  8. Sepulcros de Cowboys, de Roberto Bolaño
  9. O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges
  10. There Are More Things, de Jorge Luis Borges (conto)
  11. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (2x)
  12. Em Mãos Humanas, de Algis Budrys (conto)
  13. A Parábola do Semeador, de Octavia Butler
  14. Despertar, de Octavia Butler (2x)
  15. Cyborg, de Martin Caidin
  16. A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada, de Becky Chambers
  17. A Última Profecia, de Suzanne Collins
  18. M 81: Ursa Maior, de Edmund Cooper (conto)
  19. Vox, de Christina Dalcher (4x)
  20. Espere Agora Pelo Ano Passado, de Philip K. Dick (4x)
  21. O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick
  22. O Tempo Desconjuntado, de Philip K. Dick (2x)
  23. Valis, de Philip K. Dick
  24. A Libélula Presa no Âmbar, de Diana Gabaldon
  25. A Viajante, de Diana Gabaldon
  26. EntreMundos, de Neil Gaiman e Michael Reaves
  27. The Difference Engine, de William Gibson e Bruce Sterling
  28. Cannibal Farm, de Ron Goulart (conto)
  29. Uma Coisa Absolutamente Fantástica, de Hank Green (2x)
  30. Tropas Estelares, de Robert A. Heinlein
  31. Duna, de Frank Herbert (2x)
  32. A Terra da Noite, de William Hope Hodgson
  33. A Corte do Ar, de Stephen Hunt
  34. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
  35. A Quinta Estação, de N. K. Jemisin
  36. O Portão do Obelisco, de N. K. Jemisin (2x)
  37. Flores para Algernon, de Daniel Keyes (2x)
  38. A Incendiária, de Stephen King (2x)
  39. Celular, de Stephen King (2x)
  40. A Balada do Black Tom, de Victor Lavalle (2x)
  41. Steampunk!, org. Kelly Link e Gavin J. Grant
  42. A Floresta Sombria, de Cixin Liu
  43. O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu
  44. Legend, de Marie Lu
  45. Almas Roubadas, de Sarah J. Maas
  46. O Corpo Dela e Outras Farras, de Carmen Maria Machado
  47. Estilhaça-me, de Tahereh Mafi
  48. LoveStar, de Andri Snær Magnason
  49. Caixa de Pássaros / Às Cegas, de Josh Malerman (4x)
  50. Estação Onze, de Emily St. John Mandel
  51. Cidade da Meia-Noite, de J. Barton Mitchell
  52. Light Years, de Kass Morgan
  53. Anjos Partidos, de Richard Morgan
  54. Time Traders, de Andre Norton
  55. 1984, de George Orwell
  56. O Elmo do Horror, de Victor Pelevin
  57. Máquinas Mortais / Engenhos Mortíferos, de Philip Reeve (4x)
  58. A Noite dos Mortos-Vivos, de John Russo
  59. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry
  60. Calamidade, de Brandon Sanderson
  61. A Guerra é para os Velhos, de John Scalzi
  62. Head On, de John Scalzi
  63. O Ceifador, de Neal Shusterman (2x)
  64. Regresso à Vida, de Robert Silverberg
  65. As Artes de Xanadu, de Theodore Sturgeon
  66. Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne
  67. Limites do Tempo, de Rysa Walker
  68. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells
  69. Behemoth, de Scott Westerfeld
  70. Goliath, de Scott Westerfeld
  71. Leviathan, de Scott Westerfeld
  72. A Sombria Queda de Elizabeth Frankenstein, de Kiersten White
  73. O Livro do Juízo Final, de Connie Willis
  74. O Beco dos Malditos, de Roger Zelazny
  75. The Courts of Chaos, de Roger Zelazny
  76. The Hand of Oberon, de Roger Zelazny
  77. As Horas Vermelhas, de Leni Zumas
Não-ficção internacional:
  1. Superinteligência, de Nick Bostrom
  2. 21 Lições Para o Século 21, de Yuval Noah Harari (2x)
  3. O Futuro da Humanidade, de Michio Kaku
  4. Nossos Deuses são Super-Heróis, de Christopher Knowles
  5. A Verdadeira História da Ficção Científica, de Adam Roberts
Este mês de dezembro marcou o início do projeto Leiturtugas e, embora o início de uma coisa destas seja sempre hesitante, já parecem notar-se alguns efeitos, pois é preciso recuar a janeiro para a lista de leituras portuguesas ser mais extensa. Até aconteceu algo pela primeira vez nas leituras portuguesas: dois comentários no mesmo mês a uma mesma obra, no caso do Saramago. Ainda não tinha acontecido, julgo que nunca (desde que isto começou, claro), e de certeza que não desde que comecei a contabilizar o número de referências feitas a cada obra em cada mês. Mesmo assim, sete (ou oito, se contarmos os dois comentários ao mesmo título) ainda é um número demasiado baixo. Mas parece haver boas perspetivas para esse número aumentar significativamente a breve trecho.

Quanto aos brasileiros, este mês esmeraram-se. 23 títulos num total que mesmo descontando os que vêm aqui da Lâmpada — cinco — significa um dos mais fortes meses desde que comecei a fazer isto. Efeitos de ser verão lá por baixo? Quiçá. Luiz Bras, com três títulos, tem destaque, embora seja destaque made in Portugal (aqui mesmo), e Gerson Lodi-Ribeiro, com dois títulos, e José Beffa, com duas opiniões a um seu livro, vêm logo atrás.

Em sentido inverso, os comentários à ficção traduzida voltaram a diminuir, contando-se este mês 77. E também não houve nenhum livro com uma quantidade de comentários quase estratosférica como aconteceu em novembro. O máximo foram quatro, cabendo a palma a Malerman, a Dick, a Dalcher e a Atwood. Dick, no entanto, destaca-se, pois além desses quatro comentários a um dos seus livros houve mais quatro comentários a outros três. E só mais um autor chegou aos quatro comentários: King, que os distribuiu por duas obras.

E assim se encerra o ano de 2018. Ou não, que ainda vêm aí balanços globais. É só acabar de escrevê-los. E quanto a estes apanhados mensais, em fevereiro cá nos encontramos outra vez. Até lá.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Lançamentos de FC de 2018 (segundo o FCL)

Pela segunda vez, trago-vos aqui o que foi aparecendo de lançamentos no Ficção Científica Literária ao longo do ano de 2018. Os critérios e notas são idênticos aos do ano passado, pelo que provavelmente escuso de os repetir aqui, pelo menos por extenso. Basta, talvez, que faça uma versão resumida, remetendo os interessados para o post do ano passado para uma versão mais extensa, apesar de ser necessário particularizar melhor certas questões. Olhem, o melhor é mesmo lerem as notas prévias do post do ano passado e aquilo que se segue.

Rapidamente, o FCL adota uma definição bastante lata de "FC", incluindo não só aquilo que o é indubitavelmente como aquilo que só roça o género e até algumas obras que se limitam a sugerir potencial para roçar por ele. Estas listas também são pouco rigorosas cronologicamente porque, por dependerem do que se publica na web, estão dependentes do momento em que é feito o anúncio dos lançamentos, o que leva à probabilidade de algumas obras lançadas no ano anterior só aparecerem nas listas do ano seguinte e vice-versa (se bem que eu este ano não tenha incluído aqui anúncios de longo prazo, ao contrário do que fiz no ano passado; as listas incluem provavelmente alguns livros que só sairão em janeiro ou fevereiro de 2019 mas não incluem livros planeados para mais tarde). A dependência do FCL dos anúncios de lançamentos feitos noutros sites e blogues significa também que é provável que nem todos os lançamentos realmente existentes estejam aqui espelhados. E também podem existir casos de obras que seriam englobáveis nestas listas, e até foram anunciadas, mas foram-no de uma forma que me passou despercebida, ou por terem sido anunciadas em publicações que desconheço, ou porque os textos de apresentação ocultam, deliberadamente ou não, a relação da obra com a ficção científica.

Por vários dos motivos expressos acima, uma comparação da lista deste ano com a do ano anterior irá encontrar algumas obras repetidas. Por vezes trata-se de reedições, pois eu não faço distinção entre primeiras edições e edições subsequentes, mas na maior parte dos casos é simplesmente resultado da mesma edição ter sido anunciada em ambos os anos. Isso tem impacto óbvio no número de obras que consta de cada lista. O facto de a lista de lançamentos de ficção portuguesa deste ano incluir 32 títulos ao passo que a do ano passado incluiu apenas 25 não significa necessariamente, portanto, que a subida foi assim tão relevante. Significa que uma série de fatores, entre mais edições, edições repetidas, o surgimento de mais veículos de divulgação, com a divulgação de diferentes tipos de material e o aperfeiçoamento das ferramentas que uso para apanhar o que vai sendo publicado por aí sobre edições, contribuíram para ampliar esse número. Mesmo sendo uma subida de 25 para 32 (i.e., 28%) bastante interessante.

Outras variações: a ficção brasileira subiu de 49 títulos para 96, quase o dobro. De novo, isto não quer dizer que a edição tenha aumentado assim tanto; quer dizer que talvez tenha havido um aumento na edição mas houve de certeza um significativo aumento no número de fontes brasileiras que uso para recolher informação (de resto, a página sobre as fontes do FCL começa a ficar enorme e isso tem impactos óbvios) e o aparecimento, nas pesquisas que faço no Google, de edições por empresas de autoedição, como a Agbook ou o Clube de Autores, que provavelmente ninguém lê. Mas existem. E existem também em Portugal mas, curiosamente, nunca as vejo nos resultados do Google.

Quanto a ficção traduzida, a edição portuguesa permaneceu basicamente estável (subiu de 64 para 68 títulos) mas a edição brasileira deu também um enorme pulo, de 114 títulos para 183. Aqui, no entanto, e embora também se tenha feito sentir o efeito do aumento no número de fontes brasileiras, o principal motivo do aumento é terem recomeçado a ser divulgadas as edições de Perry Rhodan, que somaram largas dezenas.

E quanto às outras categorias em que dividi estas listas, a edição de periódicos relevantes continua saudável no Brasil e praticamente inexistente (ou invisível) em Portugal, e o resto é tão rarefeito que não faz grande sentido tentar analisar variações entre um ano e outro.

Aqui ficam as listas:

Ficção portuguesa:
  1. A Expansão, de Gonçalo J. N. Dias (ebook)
  2. A Profecia: Asura, de António Costeira
  3. A Terra de Naumãn, de H. G. Cancela
  4. Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, de João Barreiros
  5. Contos de Mundos Anexos, de Nuno Bastos
  6. Crazy Equóides, de João Barreiros 
  7. Deste Mundo e do Outro, de José Saramago 
  8. Diz Não!, de Alberto João Jardim
  9. E se Angola Tivesse Proclamado a Independência em 1959?, de Jonuel Gonçalves
  10. Ecologia, de Joana Bértholo
  11. Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (editado no Brasil) 
  12. EuroNovela, de Miguel Vale de Almeida (ebook)
  13. Expansão, org. Carlos Silva (?)
  14. Frankenstein Contado Tipo aos Jovens, de Mary Shelley, Raquel Palermo e João Lacerda Matos 
  15. História do Cerco de Lisboa, de José Saramago (editado no Brasil) 
  16. Lisboa Oculta, org. Carlos Silva (?)
  17. Máquina Genial, de Nuno Caravela
  18. Meio Homem Metade Baleia, de José Gardeazabal 
  19. Mythos da Lua Nova, de Jorge Ferreira
  20. Novos Tempos, de João Bernardo Silva 
  21. O Desejo e Outros Demónios, de António Bizarro
  22. O Coração é um Predador Solitário, de João Barreiros (conto em ebook) 
  23. O Encantador de Bombas, de João Barreiros (conto em ebook) 
  24. O Farol Intergaláctico, de João Pedro Oliveira (conto)
  25. O Futuro à Janela, de Luís Filipe Silva 
  26. O Jogo, de Carmo Cardoso e José Machado (conto)
  27. O Saque de Lampedusa, de João Barreiros (conto em ebook) 
  28. Os Monociclistas e Outras Histórias do Ano 2045, de António Ladeira 
  29. Quem Chama Pelo Senhor Aventura?, de Rita Garcia Fernandes
  30. Seis Drones, de António Ladeira 
  31. Sentimentos sem Rosto, vol. II, de Joaquim Jorge Costa
  32. Tudo Isto Existe, de João Ventura

Ficção portuguesa e traduzida:
  1. Steampunk Internacional, org. ??

Ficção brasileira:
  1. 2084: Mundos Cyberpunks, org. Lidia Zuin
  2. A Era dos Mortos, de Rodrigo de Oliveira
  3. A Jornada da Morte, de José M. S. Freire (ebook)
  4. A Libertação, de Victor Pereira 
  5. A Lince e a Raposa, de Cristiane Schwinden
  6. A Lucidez da Lenda, de Raul de Taunay 
  7. A Origem, de Marcos L. Rockenbach
  8. A Ponte, de Carol Peace
  9. A Quarta Dimensão, de Eduardo Capristrano 
  10. A Selva do Leão, de Esther Lya 
  11. Absolutos, de Rodolfo Salles
  12. Água, de Hilber Cunha 
  13. Alba, de Matheus Sperafico
  14. Am Timan, de Michele Viviane Vasconcelos 
  15. Areia Fugaz, de Miguel Carqueija e Jorge Luiz Calife (conto em ebook)
  16. Arquidata: A Dama da Espada e o Segredo do Medalhão, de Raquel Cassiano 
  17. As Histórias que Ninguém te Contou, de Renan Xavier
  18. Audaz, de Maurício Benvenutti 
  19. Caos, de Melissa de Sá 
  20. Carruagens de Fogo, de Rogério Amaral de Vasconcellos
  21. Chagas: Uma Ficção Científica, de Antonio Teixeira 
  22. Cidades do Futuro, de Jamila Mafra 
  23. Contos de Terror e Ficção Científica, de Sandro Barbosa
  24. Contos de um Passado Distante, de Adrian Akar 
  25. Cosmo Distante, de Lucas Victor de Freitas
  26. Cratera, de Giorgio Xenofonte (ebook) 
  27. Cúpulas do Diabo, de Wilson Barroso Freire (ebook)
  28. Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela, de Ignácio de Loyola Brandão
  29. Diário 2116, de Bruno H. S.
  30. Em um Mundo Diferente, de Rayume Araujo
  31. Equipe Avanço, de Lydia Ellen Tonani
  32. Eros Ex Machina, org. Luiz Bras 
  33. Estranha Bahia, org. Alec Silva, Ricardo Santos e Rochett Tavares
  34. Ex-Cravo, de Alex Oliveira 
  35. Fractais Tropicais, org. Nelson de Oliveira
  36. Futuro!, de Roberto Fiori 
  37. Glória Sombria, de Roberto de Sousa Causo
  38. Herdeiros de Dagon, org. ??
  39. Hocus Pocus High Tech, org. Luiz Bras (ebook; contém também ficção portuguesa)
  40. Homo Tempus, de F. E. Jacob
  41. Hybris, de Alessandro Candeas
  42. In Tractu, de Alessandro de Paula Moura
  43. King, Poe, Lovecraft, org. Rô Mierling 
  44. Lázaro: A Maldição dos Mortos, de A. Wood
  45. Legados de Lyræh, de Willer Jones
  46. Lovecraftiano, vol. 1, de Marcelo A. Galvão (ebook)
  47. Mantenha a Calma, não Há Rinocerontes Neste Livro, de Daniel Matos
  48. Memórias Pós-Humanas de Quincas Borba, de Sid Castro (ebook)
  49. Mestre das Marés, de Roberto de Sousa Causo
  50. Morando no Espaço, de João Paulo Guerra Barrera 
  51. Mundo Invertido, org. Bruno Godoi e Stêfano Volp
  52. Narrativas do Medo 2, org. Vitor Abdala 
  53. No Coração de Plutão, de Erick Figueiredo
  54. O Astronauta do Século XXX, de Jamila Mafra 
  55. O Brado da Alma, de Bruno L. Freitas
  56. O Chamado de Úlion, de José M. S. Freire 
  57. O Dia da Caça, org. Marcus Souza e Lorhan Rocha
  58. O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou, de Guigo Ribeiro
  59. O Ditador Honesto, de Matheus Peleteiro
  60. O Dom da Lágrima, de Thomas Oden 
  61. O Esforço Abnegado, de T. Anderson
  62. O Fator Camaleônico, de Davidson Capilla
  63. O Fator Caos, de Miguel Carqueija (ebook)
  64. O Início, de Ricardo Quartim
  65. O Inominável, de Gustavo Lopes
  66. O Laço do Enforcado, de Alex Mandarino 
  67. O Mal de Lázaro, de Krishna Monteiro 
  68. O Mistério da Guardiã, de Gabriel Alves Pereira
  69. O Mistério do Sr. Gratus, de Carlos Orsi (conto em ebook)
  70. O Mistério dos Planos Roubados, de A. Z. Cordenonsi
  71. O Mundo Fantástico de R. F. Lucchetti, org. C. B. Kaihatsu
  72. O Orangotango Marxista, de Marcelo Rubens Paiva 
  73. O Passageiro das Estrelas, de Jamila Mafra (conto em ebook)
  74. O Sangue dos Monstros, org. Adriano Siqueira e Dione M. S. Rosa 
  75. O Velocista, de Walter Cavalcanti Costa 
  76. O Viajante do Céu, de Bruno Capellano 
  77. Os 30 Melhores Contos, de Gerson Machado de Avillez
  78. Os Cavaleiros Elementares, de Guilherme Massena 
  79. Os Contos, de Lygia Fagundes Telles
  80. Os Fantasmas de Vênus, de Roberto Schima (ebook)
  81. Os Supremos, org. Raphael Miguel 
  82. Planeta Errante, de Paulo Boaventura 
  83. Possessão Alienígena, org. Ademir Pascale
  84. Profundezas - Cavaleiros Elementares, de Guilherme Messena 
  85. Projeto 94, de Rodrigo Fonseca 
  86. Quãm, de Tadeu Loppara
  87. Quem é Josenildo?, de Ana Maria Gonçalves
  88. Realidades Cabulosas: Ano 1, org. Lucas Rafael Ferraz e Rodrigo Rahmati (ebook; contém também ficção portuguesa)
  89. Relatório da Terceira Órbita, de Pedroom Lanne
  90. Sob a Luz da Escuridão, de Ana Beatriz Brandão 
  91. Super-Humano, de Douglas de Oliveira
  92. T30 - O Menino-Robô, de Saulo Ribas e Dagomir Marquezi
  93. Todo o Tempo do Mundo, de Maurício Gomyde
  94. Vanguardia, de Joe de Lima (conto em ebook)
  95. Vermelhos Varridos, de Flávio Komatsu
  96. Wonder, de Ricardo Santos (conto em ebook)

Ficção angolana:
  1. Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa (editado em Portugal)

Ficção traduzida:

Edições portuguesas
  1. A Chave Maldita, de James Rollins
  2. A Coroa do Demónio, de James Rollins 
  3. A Felicidade é para os Humanos, de P. Z. Reizin 
  4. A Guerra das Salamandras, de Karel Čapek 
  5. A Herança de Judas, de James Rollins 
  6. A Mão Esquerda das Trevas, de Ursula K. LeGuin
  7. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells
  8. A Mulher de Ferro, de Ted Hughes
  9. A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, de Jules Verne
  10. Aceitação, de Jeff VanderMeer
  11. Amatka, de Karin Tidbeck 
  12. Artemis, de Andy Weir
  13. Às Cegas, de Josh Malerman 
  14. As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift
  15. Carbono Alterado, de Richard Morgan 
  16. Catwoman: Almas Roubadas, de Sarah J. Maas
  17. Cell: Chamada Para a Morte, de Stephen King
  18. Cura Mortal, de James Dashner 
  19. Destinos Divididos, de Veronica Roth 
  20. Engenhos Mortíferos, de Philip Reeve
  21. Farenheit 451, de Ray Bradbury 
  22. Felizes para Sempre, de Kiera Cass
  23. Frankenstein, de Mary Shelley 
  24. Fundação, de Isaac Asimov
  25. Guerra: E se Fosse Aqui?, de Jane Teller
  26. Guerra Americana, de Omar El Akkad
  27. Guerracivilândia em Mau Declínio, de George Saunders 
  28. Herança de Judas, de James Rollins
  29. LoveStar, de Andri Snær Magnason 
  30. Light Years, de Kass Morgan
  31. Matar o Presidente, de Sam Bourne
  32. Mentes Poderosas, de Alexandra Bracken 
  33. Nada Enfurece Mais uma Mulher, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois 
  34. O Corpo Dela e Outras Partes, de Carmen Maria Machado
  35. O Duque, de Katharine Ashe 
  36. O Elmo do Horror, de Victor Pelevin
  37. O Falcão da Noite, de Clive Cussler e Graham Brown 
  38. O Gene da Atlântida, de A. G. Riddle 
  39. O Homem de Ferro, de Ted Hughes 
  40. O Navio Fantasma, de Clive Cussler e Graham Brown
  41. O Poder, de Naomi Alderman
  42. O que Serão os Homens no Ano 3000, de Gustave Guitton (ebook)
  43. O Segredo de Nebula, de Trudi Trueit
  44. O Silêncio das Filhas, de Jennie Melamed
  45. O Tacão de Ferro, de Jack London
  46. Os Contos Mais Arrepiantes de H. P. Lovecraft, de H. P. Lovecraft
  47. Os Humanos, de Matt Haig
  48. Os Últimos Jedi: Livro do Filme, de Elizabeth Schaefer
  49. Os Viajantes, de Alexandra Bracken 
  50. Quando a Luz se Apaga, de Nick Clark Windo
  51. Quem Teme a Morte, de Nnedi Okorafor 
  52. Quente e Frio, de Susannah McFarlane 
  53. Quinta Estação, de N. K. Jemisin 
  54. Robot Selvagem, de Peter Brown
  55. Salto para as Estrelas, de Susannah McFarlane 
  56. Sobrevivência Mortal, de J. D. Robb
  57. Solaris, de Stanislaw Lem 
  58. Sonhos Elétricos, de Philip K. Dick 
  59. Spark - Uma Centelha na Escuridão, de John Twelve Hawks 
  60. Ubik, de Philip K. Dick 
  61. Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein 
  62. Um Sopro de Neve e Cinzas, de Diana Gabaldon 
  63. Uma Coisa Absolutamente Incrível, de Hank Green 
  64. Valis, de Philip K. Dick
  65. Vigilante Noturno, de Marie Lu 
  66. Vinte Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne 
  67. Visão Mortal, de J. D. Robb
  68. Zombies & Cálculo, de Colin Adams

Edições brasileiras
  1. 4 3 2 1, de Paul Auster
  2. 20 Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne
  3. 1984, de George Orwell
  4. A América de Philip Roth, de Philip Roth
  5. A Cabeça da Serpente, de Kai Hirdt
  6. A Criatura, de Andrew Pyper
  7. A Cruz de Fogo, de Diana Gabaldon
  8. A Balada do Black Tom, de Victor LaValle
  9. A Elite, de Kiera Cass 
  10. A Escolha, de Kiera Cass 
  11. A Fila, de Basma Abdel Aziz
  12. A Fúria da Besta-Fera, de Kai Hirdt
  13. A Guerra do Óxido, de Rüdiger Schäfer
  14. A Herdeira, de Kiera Cass 
  15. A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells
  16. A Ilha Misteriosa, de Jules Verne
  17. A Incendiária, de Stephen King
  18. A Ira do Reekha, de Michael H. Buchholz
  19. A Libélula no Âmbar, de Diana Gabaldon
  20. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells
  21. A Máquina Pára, de E. M. Forster (conto em ebook)
  22. A Nave-Concha, de Arndt Ellmer 
  23. A Nova Determinação, de Marianne Sydow
  24. A Nuvem, de Neal Shusterman 
  25. A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler 
  26. A Praga, de A. G. Riddle
  27. A Quinta Estação, de N. K. Jemisin 
  28. A Roleta dos Escolhidos, de K. H. Scheer
  29. A Sabedoria dos Mortos, de Rodolfo Martínez
  30. A Seleção, de Kiera Cass 
  31. A Sombria Queda de Elizabeth Frankenstein, de Kiersten White
  32. A Terra da Noite, de William Hope Hodgson
  33. A Terra Longa, de Terry Pratchett e Stephen Baxter
  34. A Viajante, de Arwen Elys Dayton
  35. A Viajante do Tempo, de Diana Gabaldon 
  36. A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada, de Becky Chambers
  37. A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne
  38. Alarme de Nocturni, de Marianne Sidow
  39. Anjos Partidos, de Richard Morgan
  40. Ao Redor da Lua, de Jules Verne
  41. As Crônicas de Marte, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
  42. As Horas Vermelhas, de Leni Zumas
  43. As Sereias de Titã, de Kurt Vonnegut
  44. As Vozes da Agonia, de Ernst Vlcek
  45. Asseclas da Aliança, de Rüdiger Schäfer 
  46. Ataque a Camelot, de Ralf König e Nils Hirseland
  47. Batalha em Derogwanien, de Michelle Stern 
  48. Calamidade, de Brandon Sanderson
  49. Canalhas, de Timothy Zahn
  50. Caos no Humanidrom, de Kurt Mahr
  51. Carbono Alterado, de Richard Morgan
  52. Celular, de Stephen King 
  53. Cidade de Selvagens, de Lee Kelly 
  54. Cinco Semanas num Balão, de Jules Verne 
  55. Complô Contra a América, de Philip Roth
  56. Contato, de Carl Sagan
  57. Criaturas da Noite, de Marie Lu 
  58. Da Terra à Lua, de Jules Verne 
  59. Dança dos Nocturni, de Ernst Vlacek 
  60. Desafiando as Estrelas, de Claudia Gray
  61. Desfecho sobre London's Grave, de Nils Hirseland 
  62. Despertar, de Octavia E. Butler
  63. Duelo dos Arcônidas, de Nils Hirseland
  64. Ele Veio do Nada, de Michael H. Buchholz
  65. Em Nome dos SdG, de William Voltz
  66. Encarcerados, de John Scalzi 
  67. Encontro em Jimmerin, de H. G. Francis 
  68. Espere Agora Pelo Ano Passado, de Philip K. Dick
  69. Estado Zero, de Cam Rogers
  70. Exo, de Fonda Lee 
  71. Felicidade Para Humanos, de P. Z. Reizin
  72. Ficções, de Jorge Luis Borges 
  73. Fim do Império, de Chuck Wendig
  74. Fim do Tempo do Sol, de H. G. Francis 
  75. Flores Para Algernon, de Daniel Keyes 
  76. Fundação e Terra, de Isaac Asimov
  77. Galáxia dos Condenados, de H. G. Ewers
  78. Gesil e o Emissário, de H. G. Ewers 
  79. Grandes Contos, de H. P. Lovecraft
  80. Grandes Obras de Júlio Verne, de Jules Verne 
  81. Guerra aos Curingas, org. George R. R. Martin
  82. Guerreiros Para o Faraó, de Hans Kneifel
  83. H. P. Lovecraft: Medo Clássico, de H. P. Lovecraft 
  84. Herland: A Terra das Mulheres / Terra das Mulheres, de Charlotte Perkins Gilman
  85. Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe 
  86. Iluminador do Céu, de Susan Schwartz 
  87. Indecifrável, de Jessica Brody
  88. Interferências, de Connie Willis 
  89. Jogador nº 1, de Ernest Cline 
  90. Jurassic Park, de Michael Crichton
  91. Justiça Ancilar, de Ann Leckie 
  92. Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler 
  93. Limites da Fundação, de Isaac Asimov
  94. Limites do Tempo, de Rysa Walker
  95. Love Star, de Andri Snær Magnason
  96. Máquinas Mortais, de Philip Reeve
  97. Matem o Presidente, de Sam Bourne 
  98. Medo Clássico, vol. 2, de Edgar Allan Poe 
  99. Mensagem das Estrelas, de Rüdiger Schäfer
  100. Mentes Sombrias, de Alexandra Bracken
  101. Metálise, de Arndt Ellmer 
  102. Metamorfoses do Espírito, de Marianne Sydow 
  103. Missão em Vaar, de H. G. Ewers
  104. Muitas Águas, de Madeleine l'Engle
  105. Mundo de Metano Antau I, de H. G. Francis 
  106. Não me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro
  107. Negócios com Topsid, de Marianne Sydow
  108. No Reino dos Respiradores de Hidrogênio, de Rainer Shorm
  109. No Rio de Chamas, de Rainer Schorm
  110. Noite dos Mortos-Vivos, de John Russo 
  111. Novembro de 63, de Stephen King
  112. Nyxia, de Scott Reintgen 
  113. O Ano do Dilúvio, de Margaret Atwood
  114. O Arquivo Rebelde, de Daniel Wallace 
  115. O Caminho para Achantur, de Rainer Schorm
  116. O Ciclo de Yig, de H. P. Lovecraft 
  117. O Corpo Dela e Outras Farras, de Carmen Maria Machado
  118. O Enigma de Andrômeda, de Michael Crichton 
  119. O Esconderijo da Guarda Estelar, de Rainer Castor
  120. O Herói de Sigris, de Arndt Ellmer
  121. O Jogo das Sombras, de Christine Feehan
  122. O Mapa do Tempo, de Heidi Heilig 
  123. O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson 
  124. O Milésimo Andar, de Katharine McGee 
  125. O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle 
  126. O Mundo Perdido, de Michael Crichton 
  127. O Pedaço do Céu, de Robert Feldhoff
  128. O Poder, de Naomi Alderman
  129. O Poder do Dourado, de Rainer Castor 
  130. O Portão do Obelisco, de N. K. Jemisin
  131. O Projeto, de Kurt Mahr 
  132. O que os Deuses Dão, de H. G. Francis
  133. O Rebelde Secreto, de Robert Feldhoff
  134. O Resgate no Mar, de Diana Gabaldon 
  135. O Sábio de Fornalha, de Ernst Vlcek
  136. O Segredo dos Nakks, de Peter Griese 
  137. O Símbolo do Pombo, de Robert Feldhoff
  138. O Tempo Desconjuntado, de Philip K. Dick 
  139. Oceano da Determinação, de Susan Schwartz
  140. Opostos, de Jennifer L. Armentrout 
  141. Órbita no Nada, de Kurt Mahr
  142. Origens da Fundação, de Isaac Asimov
  143. Oryx e Crake, de Margaret Atwood
  144. Os Lutadores de Efrem, de Peter Griese 
  145. Os Mundos de Truillau, de Peter Griese
  146. Os Relógios de Peregrino, de Ernst Vlcek 
  147. Os Seis Finalistas, de Alexandra Monir 
  148. Os Tambores do Outono, de Diana Gabaldon
  149. Os Últimos Jedi, de Jason Fry
  150. Perseguição ao Jedi, de Michael Reaves e Maya Kaathrynn Bohnhoff
  151. Poeira Lunar, de Arthur C. Clarke 
  152. Ponto Focal: Peregrino, de Ernst Vlcek
  153. Prelúdio à Fundação, de Isaac Asimov
  154. Quando as Estrelas Caem, de Amie Kaufman e Meagan Spooner
  155. Regra de Dois, de Drew Karpyshyn 
  156. Renascer, de Anna Carey 
  157. Restaura-me, de Tahereh Mafi 
  158. Retorno ao Punho de Provcon, de Robert Feldhoff 
  159. Retorno Para Woodbury, de Jay Bonansinga 
  160. Sabotagem na Terra, de Arndt Ellmer
  161. Santuário dos Ventos, de George R. R. Martin e Lisa Tuttle 
  162. Simsi e Paranakk, de Erndt Ellmer 
  163. Skyward, de Brandon Sanderson
  164. Sonhos Elétricos, de Philip K. Dick 
  165. Tempestade na Nebulosa Escura, de Robert Feldhoff
  166. Trilha Através dos Milênios, de Kai Hirdt
  167. Um Amigo dos Linguides, de Peter Griese
  168. Um Planeta em seu Giro Veloz, de Madeleine l'Engle 
  169. Um Sopro de Neve e Cinzas, de Diana Gabaldon
  170. Um Vento à Porta, de Madeleine l'Engle 
  171. Uma Coisa Absolutamente Fantástica, de Hank Green
  172. Uma Dobra no Tempo, de Madeleine l'Engle 
  173. Uma Longa Viagem a um Planeta Hostil, de Becky Chambers
  174. Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade, de Colson Whitehead 
  175. Utopia, de Thomas More
  176. Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne 
  177. Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift 
  178. Visita à Terra, de Peter Griese 
  179. Vocês são Vida Verdadeira?, de Oliver Fröhlich
  180. Voltago, o Servo, de Robert Feldhoff
  181. Vox, de Christina Dalcher
  182. Warcross, de Marie Lu
  183. Zero K, de Don DeLillo 

Poesia portuguesa:
  1. O Ano de 1993, de José Saramago
  2. Poesia, de Mário-Henrique Leiria

Poesia brasileira:
  1. Estuário, de Guilherme Scalzili

Não-ficção portuguesa:
  1. Gótico Americano, org. Maria Antónia Lima (ebook)
  2. José Saramago: Rota de Vida, de Joaquim Vieira

Não-ficção brasileira:
  1. Almanaque da Arte Fantástica Brasileira - Lançamentos 2017, de César Silva (ebook)
  2. Blue Drop, de Miguel Carqueija (ebook)
  3. Coletânea, de Guilherme A. D. Pereira 
  4. Literatura, de Marisa Lajolo
  5. O Horror Cósmico de H. P. Lovecraft, de Daniel I. Dutra
  6. Resenhas de Livros, vol. I, de Miguel Carqueija (ebook)

Não-ficção traduzida:

Edições portuguesas
  1. 21 Lições para o Século XXI, de Yuval Noah Harari
  2. Churchill e Orwell: A Luta Pela Liberdade, de Thomas E. Ricks
  3. O Futuro da Humanidade, de Michio Kaku
  4. O Mito da Singularidade, de Juan-Gabriel Ganascia
  5. O Século da Ciência, de ??

Edições brasileiras
  1. 21 Lições para o Século 21, de Yuval Noah Harari
  2. 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Michael Benson
  3. A Cruzada Mascarada, de Glen Weldon
  4. A Verdadeira História da Ficção Científica, de Adam Roberts

Periódicos:

Edições portuguesas
  1. As Viagens do Feiticeiro, nº 0
  2. Bang!, nº 25
  3. NdZ
  4. Orion, nº 0 (ebook)
  5. Orion, nº 1 (ebook) 
  6. Orion, nº 2 (ebook)
  7. Revista de Estudos Saramaguianos, nº 7 (ebook)

Edições brasileiras
  1. Anuário Todavia, nº 1
  2. Cândido, nº 81
  3. Cândido, nº 86 
  4. Cândido, nº 87
  5. Conexão Literatura, nº 31 (ebook)
  6. Conexão Literatura, nº 32 (ebook)
  7. Conexão Literatura, nº 33 (ebook) 
  8. Conexão Literatura, nº 34 (ebook) 
  9. Conexão Literatura, nº 35 (ebook) 
  10. Conexão Literatura, nº 36 (ebook) 
  11. Conexão Literatura, nº 37 (ebook) 
  12. Conexão Literatura, nº 38 (ebook) 
  13. Conexão Literatura, nº 39 (ebook) 
  14. Conexão Literatura, nº 40 (ebook) 
  15. Conexão Literatura, nº 41 (ebook) 
  16. Conexão Literatura, nº 42 (ebook)
  17. Cósmico, nº 1
  18. ]Cultura[, nº 1
  19. Mafagafo, nº 1.1 (ebook) 
  20. Mafagafo, nº 1.2 (ebook) 
  21. Mafagafo, nº 1.3 (ebook) 
  22. Mafagafo, nº 1.4 (ebook)
  23. Mafagafo, nº 2.1 (ebook) 
  24. Mafagafo, nº 2.2 (ebook) 
  25. Mafagafo, nº 2.3 (ebook)
  26. Revistinha Pulp, nº 3
  27. Somnium, nº 114 (ebook)
  28. Trasgo, nº 17 (ebook)
  29. Trasgo, nº 18 (ebook)
  30. Zzzumbido, edição final (ebook)

Lido: Caminhos do Espaço

O leitor que já tenha alguma experiência destas coisas, já sabe de antemão parte do que vai encontrar sempre que pega num livro de ficção científica publicado nos anos 50 ou 40, especialmente os que foram escritos por homens brancos e anglos — ou seja, quase todos os que eram publicados na época. Por isso não foi nenhuma surpresa encontrar neste Caminhos do Espaço (bibliografia) do inglês Charles Eric Maine a habitual combinação de misoginia e conservadorismo social tão típicos da época e do género. Mas foi surpresa, e não das agradáveis, encontrar aqui um enredo de telenovela.

Trata-se de um livro de FC de futuro próximo, não o nosso, mas o do autor na época em que escreveu. Imagina como se realizariam os primeiros passos humanos no espaço e, sendo o autor inglês, situa com toda a naturalidade a ação nos EUA. A realidade trocou-lhe as voltas, tendo os primeiros passos sido dados pouco mais tarde na URSS, tanto os não tripulados como os tripulados. Mas há bastantes aspetos em que Maine até acerta na antecipação ou pelo menos na verosimilhança: o foguetão da (boa) capa corresponde aos foguetões que o texto nos traz, claramente descendentes dos mísseis alemães do tempo da II Guerra Mundial, e frutos de um projeto de investigação liderado por um cientista alemão fugido para os EUA, a investigação e o lançamento, secretos e militarizados, têm lugar no deserto do Nevada, na mesma zona em que têm lugar os ensaios nucleares e outras atividades secretas das forças armadas norte-americanas, e por aí fora.

Infelizmente, pouco mais há neste livro de bem conseguido. O que faz mover a história é quase por inteiro um enredo telenovelístico de amores cruzados, completados com crimes (reais ou suspeitados) e tragédias de faca e alguidar, muitíssimo desinteressante, e a prosa não passa de razoavelmente competente, muito prejudicada por uma tradução horrenda, cheia de erros e calinadas, até mesmo ortográficos.

O protagonista é um oficial de segurança que acaba como que desterrado para o Nevada, completamente a contragosto, porque... teve uma relação com uma mulher casada, e se calhar vermelhusca, e andava doente de amores. Aí chegado, depara com uma comunidadezinha de técnicos e cientistas que se dedicam a construir o primeiro foguetão orbital da humanidade e... é sucessivamente apanhado de surpresa por tudo o que vai acontecendo. Não, o que acontece nada tem a ver com a construção ou operação do foguetão. Tem a ver com uma secretária que se embeiça por ele e com um triângulo amoroso entre dois dos técnicos e a caprichosa e egoísta mulher de um deles. E depois acontece o lançamento e os amantes desaparecem e o marido chifrudo é suspeito de assassínio. E o drama, e o horror... e a patetice de tudo isto é qualquer coisa de superlativo.

No meio de toda esta telenovela, a ficção científica é secundária. O foguetão é lançado, mas aparentemente esse facto não provoca nenhum impacto na sociedade, apesar do lançamento ter sido difundido. O que tem impacto na sociedade é o julgamento do marido chifrudo suspeito de homicídio. Vá que o homicídio, a ser real, tem algo de insólito, pois as suspeitas — completas com cálculos matemáticos e uma trajetória diferente da antecipada — apontam para ele ter enviado os cadáveres do casal assassinado para órbita dentro do foguetão, o que será a parte mais interessante de toda fração telenovelística do enredo. Por isso, ele só se defende pedindo para ser enviado num segundo foguetão que possa ir recuperar o primeiro e demonstrar que não há nenhum cadáver lá dentro. O que não tem grande lógica, mas enfim. E realmente acaba por não correr bem.

Resumindo e concluindo: este é um livro bastante fracote, e só não o acho realmente mau porque o ramalhete que o compõe contém dois ou três elementos bem concebidos. E porque lhe faço o favor de dar o desconto devido à edição portuguesa, que consegue piorá-lo ainda mais.

Este livro foi comprado.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Lido: Patranha

À medida que este livro se aproxima do fim, parecem tornar-se mais comuns os contos mais mundanos, mais desprovidos de elementos fantásticos, contos que parecem mais histórias realmente acontecidas (e há relativamente pouco tempo) do que velhas ou velhíssimas lendas ou contos exemplares, mais ou menos adulteradas pelo tempo. É o caso deste Patranha.

Recolhido por Adolfo Coelho em Ourilhe, mais uma, esta é uma história divertida sobre um caseiro de fidalgo que não tinha como pagar ao fidalgo o que lhe devia, o que o levou a ser desafiado pelo fidalgo: se conseguisse contar-lhe uma patranha "do tamanho do pai-nosso" a dívida seria perdoada. A sorte do caseiro era ter um "filho tolo" (que não me parece nada tolo, na verdade), o qual foi contar uma tal patranha ao fidalgo que conseguiu livrar o pai da dívida. A patranha é divertida e cheia de fantasia. O "filho tolo", se fosse alfabetizado e vivesse nos dias de hoje, seria certamente um dos nossos.

Um continho de menos de página e meia divertido e interessante.

Contos anteriores deste livro:

Leiturtugas da semana

Voltou a haver leiturtugas esta semana, com o Artur Coelho a inaugurar o ano, logo no dia 1, publicando a sua opinião sobre a Antologia de Ficção Científica Fantasporto, organizada pelo Rogério Ribeiro. Só farei as contas ao deve e haver do projeto em julho, mas para já o Artur vai bem lançado (1c0s).

Mas não foi só o Artur a contribuir esta semana: eu também o fiz, com as minhas ideias sobre o conto Yazik, de Emanuel R. Marques. Não vou incluir no projeto os contos que for lendo, um a um, mas incluirei todos os que tenham sido publicados em publicação autónoma, como neste caso. Trata-se fundamentalmente de um conto de horror, mas como contém alguns vestígios de FC conta como leturtuga com FC, o que me põe também em 1c0s.

E também já está na página do projeto mais um blogue aderente. Já somos sete, embora para já só dois tenhamos realmente começado (a menos que haja por aí publicações que eu não tenha detetado; não me surpreenderia. Se vos acontecer avisem, sim?). E não, muitos não são os suspeitos do costume, o que é ótimo.

E tu? De que estás à espera para te juntares também ao pessoal?

sábado, 5 de janeiro de 2019

Escritas de dezembro

imagem de Drew Coffmann
Havia bastante tempo que, apesar de me julgar totalmente seco, ou quase, o bichinho da escrita não me largava. Mas por um motivo ou por outro, achava eu, as coisas não saíam.

Este dezembro percebi que esses "um motivo ou outro" eram apenas um: uma atitude errada relativamente ao que é necessário para criar.

Antes, procurava sossego, cabeça limpa, calma e tempo livre antes de me sentar a escrever qualquer coisa. E como ora não tinha uma coisa, ora não tinha outra, ora não tinha nenhuma delas, não escrevia. Dizia a mim próprio, e aos outros, que estava bloqueado, seco, apesar de continuar a ter as mesmas histórias de sempre (e algumas novas) a passear-me pela cabeça. Algumas há décadas. E este dezembro percebi que não era nada disso. O resultado?

O resultado foi ter escrito cerca de 2200 palavras ao longo de dezembro, fechando o ano com 3700 (tinha escrito uns quantos contos muito curtos entre março e maio). Não é muito, longe disso; é o equivalente a umas sete páginas (para o ano: 11). Mas havia pelo menos cinco anos que não escrevia tanto num só mês.

Pelo que isto é para continuar. A ver se acabo A Escolha de Diop antes do verão e parto depois para outras coisas. Para já, vai com quase 15 mil palavras, e é texto para chegar a umas 25 mil. Mais coisa menos coisa. Veremos. No início de fevereiro (sim, decidi fazer isto mensalmente), logo vos digo o que este mês rendeu. Até lá.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Lido: Remix

Há livros que são leitura obrigatória nas escolas. Tenho sobre isso uma opinião iconoclástica, de que esse facto faz mais mal do que bem ao objetivo de termos um povo de leitores, embora reconheça a sua utilidade para outras finalidades, e este último facto deve explicar desde logo que a minha oposição a leituras obrigatórias é mais pragmática do que ideológica. Apoio-as quando me parecem úteis, oponho-me a elas quando as acho inúteis ou prejudiciais.

E depois de ler este Remix fiquei com a firme convicção de que ele devia ser leitura absolutamente obrigatória para qualquer pessoa que queira opiniar sobre direitos de autor em particular e sobre as formas de divulgação e comercialização da arte em geral, tanto nos dias que correm quanto num futuro mais ou menos próximo.

Não que esteja à espera que toda a gente vá concordar com tudo o que aqui vem escrito. Nem vamos mais longe: eu não concordei, e até suspeito que o próprio Lawrence Lessig, se relesse hoje este seu livro, tampouco concordaria. Ele foi publicado em 2008, há dez anos, e dez anos na internet é uma eternidade. Em 2008, só para dar um exemplo, ainda nem se suspeitava que a mentira e a falsificação meticulosas e sistemáticas via internet viriam a ter um tão grande impacto na sociedade. O livro está datado, por esse motivo e por mais alguns detalhes. Se fosse reeditado hoje precisaria de uma atualização razoavelmente extensa.

Mas mesmo assim, a análise que ele faz sobre os vários tipos de produção e consumo de cultura e seus aspetos legais, éticos e económicos, e a defesa que é aqui feita do hibridismo cultural são francamente interessantes e cheios de sumo. Mesmo sendo o ponto de partida o de um social-democrata com algumas tendências libertárias (não sei se ele se identificaria politicamente assim, mas foi a ideia com que fiquei), e mesmo não sendo possível concordar parágrafo a parágrafo com o que ele defende, parece-me um facto puro e duro que qualquer pessoa que não seja especialista do tema, depois de ler este livro, fica bastante mais apetrechada para pensar sobre ele.

Daí eu dizer que o livro devia ser de leitura obrigatória. Os autores e artistas, em particular, tantas vezes levados ao engano por intermediários que não têm realmente os seus interesses em mente quando desenvolvem as ações que desenvolvem, lucrariam imensamente em ler este livro. Quanto mais não seja para ficarem com ideias mais firmes sobre onde se enquadram e onde e como pretendem enquadrar-se no vasto espectro da produção cultural. Porque é essa a principal ideia que aqui vem expressa: a de que a produção cultural é um espectro muito multifacetado e que portanto tentar enquadrá-la toda por igual é um disparate tantas vezes castrador da criatividade e da própria produção cultural. E isto, além do mais, entronca diretamente na atual discussão sobre copyright a decorrer na Europa, e muito em particular nos famigerados artigo 11 e artigo 13. Dificilmente seria mais atual, portanto.

Não é um livro perfeito, mas é francamente bom.

Este livro está à venda em vários sítios (incluindo a Wook), mas também é possível obtê-lo legalmente em ebook no archive.org, aqui. Foi o que eu fiz.

Lido: Yazik (#leiturtugas)

Ao longo dos anos fui acumulando uma enorme quantidade de ebooks que, como sempre detestei ler no écran do computador, ficaram quase sempre guardados sem ser lidos. Foi só quando comprei o primeiro tablet que comecei finalmente a lê-los, e entretanto já tinha acumulado tantos livros virtuais (para terem uma ideia: uso o Calibre para os organizar, e as minhas bibliotecas do Calibre contém mais de mil; livros que ainda nem tive tempo para organizar são significativamente mais que isso) que nem me lembro já de como, quando ou porquê muitos deles vieram parar ao meu disco rígido. É o caso deste Yazik, de Emanuel R. Marques.

Publicado em 2012, ajuizando pelos vestígios virtuais que deixou na internet, por uma tal "Editora Online Corujito" que parece não ter passado de uma iniciativa individual de alguém no Brasil, que criou um blogue no blogspot e publicou algumas coisas em PDF em 2011 e 2012, fechando o blogue em seguida e aparentemente transferindo-se para o Facebook, este livro é um conto de horror onírico com levíssimas pitadas de ficção científica a apimentar-lhe o final. O autor, porém, é português.

E cuidado que vêm aí spoilers.

Tudo gira em volta de um homem que é atormentado por uma criatura que designa como duende e lhe invade os sonhos dedicando-lhe versos enigmáticos. E quem diz sonhos diz pesadelos. A vida do protagonista, que já não estava a correr lá muito bem antes de lhe começar a aparecer o duende, cai depois na espiral de destruição que é praticamente inevitável em histórias deste género e que nos é contada com abundância de pormenores. E de adjetivos. Só no final, quando somos de súbito lançados para um futuro distante em que a humanidade já se extinguiu e quem domina o planeta é a espécie do duende, invertendo-se os papéis, o conto ganha realmente algum interesse.

E esse é o principal problema que aqui encontrei. A sucessão de excertos oníricos, intercalada por cenas de degenerescência no ambiente pessoal e social do protagonista, depressa se torna cansativa por obedecer sempre à mesma estrutura e conter muito pouca novidade de capítulo em capítulo. A piorar as coisas, há um português que não me pareceu particularmente estimulante, muito pelo contrário, em boa medida devido à superabundância de adjetivos (é um estilo de que os escritores de horror às vezes gostam. Eu detesto. É das coisas que mais me afastam de Lovecraft, por exemplo). Tudo somado já estava a preparar-me para encerrar a leitura com um rotundo "não gostei" quando aquele final surpreendente e eficaz fez a minha opinião sobre o conto melhorar repentinamente.

Mas não chegou para passar ao "gosto". O conto não me pareceu mau, é certo, mas tampouco me pareceu mais que medíocre, um esforço honesto de um escritor com alguma criatividade mas que há sete anos ainda tinha muito a aprender e fazia escolhas estilísticas que me repelem enquanto leitor. Esta foi uma leitura fraca.

Este livro esteve disponível na internet para descarga gratuita mas parece já não o estar em lado nenhum.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Lido: O Rabil

O Rabil, outra história recolhida por Adolfo Coelho em Coimbra, é mais um pequeno conto de pouco mais de uma página sobre o valor da lealdade dos subalternos aos seus superiores hierárquicos. Sem elementos fantásticos, se não considerarmos como tal a ideia de que um lavrador rico aceita de bom grado que a filha se case com um criado, por mais demonstrações de lealdade que este lhe dê (tenho na família direta um caso bem demonstrativo do que acontecia quando havia situações destas, e não era o que esta história conta), é um continho eficaz a transmitir os valores que pretende transmitir: os valores conservadores do conformismo social e da ascensão via bajulação. Para isso serve-se de um dilema aparentemente insolúvel apresentado ao criado, segundo o qual este teria de ser de alguma forma desleal ao amo, coisa que se recusa a ser. Mas lá se safa e a coisa acaba em bem, como não podia deixar de ser.

Estão a perguntar o que raio quer dizer "rabil"? Nada de especial. É apenas o nome de um boi que a filha do agricultor insiste para o criado matar. Ah, sim e o conto é bom? É eficaz, como já disse. Um pouco desagradável, também. Bom? Não.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Lido: O Menino Açafroado

Era uma vez um rei que era casado mas não tinha filhos. E assim começam dezenas de contos populares, este incluído, embora nem sempre se trate de um rei. Invariavelmente, segue-se um milagre qualquer, uma intervenção divina ou de alguma espécie de espírito ancestral, e o infeliz rei (ou não) lá obtém o filho tão desejado. Mas este vem sempre com um senão qualquer.

Com um título como O Menino Açafroado, está bem de ver que este conto recolhido por Afonso Coelho em Coimbra inclui artes mágicas e feitiços. Mesmo que não se perceba de imediato o que raio quer dizer "açafroado". Mas contrariamente ao que se possa supor, não é o menino o filho do rei. A história é mais complexa do que isso.

Sim, este é dos tais contos que dão pano para muitas mangas, com um enredo que percorre três gerações de uma família e uma maldição (o tal senão ali do primeiro parágrafo) que está relacionada com água de açafrão (e cá está a origem da bizarra palavra). Tudo resumido em três páginas, que apesar de tudo até acabam por transformá-lo num dos contos mais extensos deste livro. Os contos populares estão sempre reduzidos ao osso. Enchendo este de carne poderia ficar-se com um texto de fantasia razoavelmente longo... e basta isso para o tornar interessante.

Ah, sim, e no final tudo acaba em bem, claro. Nem precisavam de perguntar.

Contos anteriores deste livro: