(São sete os textos anteriores a este: este, este, este, este, este, este e mais este.)
É comum pensar-se que a evolução tecnológica e cultural é uma questão de substituição. Que as novas tecnologias, que as novas tendências, que os novos ramos de conhecimento ou cultura, que as novas formas de produzir e divulgar o que se produz, surgem, implantam-se, suplantam as anteriores e levam ao seu desaparecimento.
E é verdade que por vezes é isso que acontece. No entanto, normalmente não é.
A evolução das coisas humanas, em geral, acontece em camadas. O rádio não causou o desaparecimento dos jornais, a televisão não levou ao desaparecimento do rádio, os livros encadernados não fizeram desaparecer os documentos armazenados (ou armazenáveis) em rolo, os carros não causaram a extinção do cavalo doméstico, o rock não matou os blues, a música popular não assassinou a clássica e por aí fora.
O que o aparecimento de novidades causa invariavelmente é adaptações naquilo que as antecedeu. Quando a televisão se popularizou, as radionovelas praticamente desapareceram das grelhas radiofónicas, que se viraram muito mais para a música deixando para a televisão a programação mais generalista. De igual forma, a invenção da encadernação relegou para os rolos de papel certos tipos de documentos muito específicos, como os mapas, as obras gráficas ou as plantas arquitetónicas. Os exemplos possíveis seriam quase infindáveis, mas não vale a pena perder tempo com eles. Vocês já perceberam a ideia.
Mas esta ideia tem um corolário: a criação de novas tecnologias só não leva à substituição das antigas quando nova e antiga conseguem potenciar as respetivas vantagens, transformando-se em media diferentes não só na tecnologia que têm por base, mas também nos objetivos que pretendem atingir.
Ora, é preciso compreender estas ideias para se poder pensar com alguma propriedade no futuro da edição num momento em que se está em plena revolução digital. Quanto mais não seja para evitar cair-se na armadilha de julgar que o digital vai levar ao desaparecimento da edição em papel.
Não vai.
Mas vai, sem dúvida, levar à sua adaptação.
De resto, isso já está a acontecer. Há setores inteiros do antigo mercado livreiro que já praticamente se mudaram de armas e bagagens do velho substrato celulósico para o novo substrato informático, em especial aquela parte da edição que lida com dados em estado mais ou menos puro. Enciclopédias, por exemplo. Dicionários, até certo ponto. Uma panóplia de relatórios disto e daquilo. E, em breve, os livros didáticos. Essa migração corresponde a setores que encontram no digital vantagens de monta relativamente às antigas edições em papel, em especial na facilidade e rapidez com que se fazem correções e atualizações e na possibilidade de integração de conteúdos que não se limitem a texto e material gráfico.
A saída deste tipo de material do conjunto da edição em papel é a primeira fase de um processo razoavelmente longo de reordenação, adaptação e ajuste. Quando este terminar, teremos um mercado de edição eletrónica não só bastante diferente do que existe hoje, como fundamentalmente distinto do mercado de edição em papel que continuaremos a ter (e que por sua vez também será bastante diferente do que temos hoje). Mesmo com o entrecruzamento que mencionei no artigo anterior.
Fazer previsões acarreta sempre o risco de saírem furadas e, passados anos, nos virem apontar os erros crassos no meio de abundantes quantidades de galhofa. Mas que se lixe: vou corrê-lo.
Vejo o futuro mais ou menos assim:
No digital ficará praticamente toda a edição que faz uso intensivo de dados e toda a edição barata mais ou menos massificada, aquela que noutros tempos se recolhia às edições de bolso. É provável que também fique aí aquela edição em que a distância é fator de monta a ter em conta, embora seja possível que, se se concretizar a promessa das impressoras individualizadas em livrarias, o digital se torne, nisso, mais meio de transmissão do que de consumo. Ficará certamente no digital toda a edição que misture outras coisas ao bom e velho texto, com ou sem imagens estáticas. E a interatividade.
A passagem de parte destas coisas para substrato digital vai depender da capacidade que este mostrar para gerar rendimentos. Se a mostrar, muito bem, tudo isto passará ao formato digital, e provavelmente outras coisas também; se não a mostrar, alto e para o baile. Sem haver forma de sustentar financeiramente a indústria, esta resistirá com todas as suas forças a digitalizar-se. É fácil compreender porquê: embora parte dos fluxos financeiros associados aos livros em papel deixe de fazer sentido no mundo digital (a distribuição ou o armazenamento de stocks são as primeiras coisas a vir à mente), outros mantêm-se tal e qual. O que é preciso para procurar conteúdos, ler conteúdos para avaliar o seu potencial de publicação, traduzir conteúdos ou até paginar (ou, no caso, formatar) e encapar conteúdos, entre alguns eteceteras, basicamente não muda. E os profissionais que executam esses trabalhos pretendem, obviamente, continuar a ser pagos.
Claro que há sempre a possibilidade de substituir esses profissionais por formas diferentes de fazer as coisas. Um dia, talvez haja inteligências artificiais capazes de tornar-nos a todos obsoletos e suficientemente baratas para valerem o investimento e os custos de manutenção, mas esse dia ainda vem distante. É bom não esquecer que estamos aqui a falar, em grande medida, de arte, e esta é bem capaz de ser a criação humana mais difícil de ser mecanizada. Provavelmente não impossível. Mas difícil.
(Um breve parêntesis para dizer que é também este um dos principais motivos do meu crescente ceticismo perante as formas mais ou menos mecanicistas de abordar a escrita que tendem a dominar as receitas dadas nos artigos com conselhos a jovens candidatos a escritores e nos ateliês de escrita criativa: escrita mecanizada facilmente se mecaniza; ou a individualidade do autor transparece no que ele produz, ou pouco valor a coisa acaba por ter.)
Mas pondo agora de parte a ficção científica mais futurista e regressando a um futuro mais próximo, o facto de uma parte, maior ou menor, da edição se transferir para suporte digital não implica que o mesmo aconteça com toda.
Porque há uma parte da bibliofilia que consiste numa adoração, por vezes quase fetichista, pelo objeto livro. É comum ler-se e ouvir-se falar do prazer que dá abrir um livro a cheirar a novo, ou desfolhá-lo, ou saltitar ao calhas para trás e para a frente (esta ouve-se principalmente entre os amantes de poesia e/ou de ficção ultracurta), etc. Isso não desaparecerá, e é algo que o digital provavelmente não poderá nunca substituir. Tampouco poderá substituir o livro físico enquanto obra de arte em si mesma, e cuidados especiais com toda a arquitetura do livro podem ser uma das melhores formas de resistir à passagem para o digital. Um bom exemplo é a antologia Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa, que simula fac-similes de edições antigas. Mesmo sendo mais ou menos possível fazer algo de semelhante em digital, falta a um fac-simile digital a credibilidade de um físico, e não é fácil fazê-lo de forma a tornar a leitura descomplicada (ou até possível) em todos os dispositivos.
Porque outra parte da bibliofilia se alimenta da personalização dos exemplares, através de autógrafos e de outros detalhes. Sim, é certo que já existem experiências de autografia digital, mas têm pouca popularidade, e por um motivo simples que nada tem a ver com insuficiências tecnológicas: soam a falso. É muito diferente estar em frente de um autor a assistir enquanto ele assina um livro (ou mesmo que não se assista, desde que haja alguma prova de que foi realmente ele a fazê-lo naquele exemplar em concreto), e ter um ebook decorado com uma assinatura que o autor fez uma vez e depois ficou guardada num ficheiro algures, pronta a ser reutilizada quantas vezes for preciso.
O futuro que eu vislumbro, portanto, é feito de edição digital barata e relativamente banal em termos de formatos, a par de edição digital mais cara (porque mais exigente tecnicamente), que aproveita aquilo em que a tecnologia digital permite ultrapassar a experiência de leitura em papel, e livros físicos, entre os quais a edição barata praticamente desaparece e há uma aposta clara na qualidade de design e na personalização. Para a personalização, tecnologias como o print on demand serão provavelmente fulcrais, pois o print on demand, embora com um custo unitário que deverá ser sempre bastante superior ao da impressão tradicional (por causa das tais economias de escala; quão superior, ao certo, depende portanto das tiragens desta última, para livros de qualidade semelhante), permite fazer com alguma facilidade coisas como impressão nos locais de venda de livros que podem ser preparados até fora do planeta, numeração de exemplares e outras formas de personalização, como inserção de imagens ou até de palavras e frases específicas de um exemplar em concreto (ou, por outro lado, de anúncios personalizados — nem tudo é bom).
E, como é óbvio, também a relação dos autores com toda a indústria tenderá a mudar. Tempos houve em que os autores dependiam quase por completo das editoras para conseguirem chegar ao público. Hoje já não é assim, e tenderá a sê-lo menos ainda no futuro. A panóplia de plataformas, gratuitas ou quase, de que os autores podem dispor para contactar diretamente com os seus leitores faz com que a relação entre autores e editoras tenha tendência a tornar-se bastante mais equilibrada. Julgo que sempre haverá vantagens nessa relação para determinados tipos de conteúdo, muito em particular os que têm um público potencial mais amplo ou aqueles que requerem uma multidisciplinaridade mais elevada, mas para outros tipos os autores tenderão a passar cada vez melhor sem editoras, fazendo as coisas sozinhos ou com o auxílio de fornecedores de serviços, diferentes das editoras atuais.
No futuro que entrevejo, a relação autor-editora será mais simbiótica do que é hoje, e a maior parte dos autores que leva a sério o que faz editará de formas variadas aquilo que produzir. Umas vezes com recurso a editoras, em especial àquelas com dimensão suficiente para lhes poderem ser realmente úteis, outras vezes sem recorrer a elas, umas vezes digitalmente, outras em livro físico. Não só porque têm mais opções disponíveis na hora de decidir o que fazer, como até porque para fazer certas coisas certas formas de edição têm vantagens claras relativamente à edição tradicional através de editoras.
Eis um exemplo do que acabo de dizer:
Como escrevi acima, uma das tendências que vejo para o futuro da edição é a personalização. Esta pode ser em parte automática, mas para ter realmente valor deverá ser coisa feita à mão. Podemos encontrar um exemplo do que digo nas artes plásticas. Além dos quadros, pintados manualmente pelos pintores, terem um valor incomensuravelmente superior às reproduções desses quadros, o mesmo acontece com formas artísticas em que alguma reprodução já está implícita, como a serigrafia. Séries limitadas de serigrafias, assinadas pelo autor, têm um valor muito superior a reproduções executadas mais tarde. De igual forma, o livro personalizado pessoalmente tem algo de original e único que falta por completo aos automatismos.
Ora, hoje em dia, quando se personalizam livros, isso geralmente acontece em eventos específicos com local específico porque só assim é possível juntar o autor a livros produzidos em série e ao público que os comprou. Mas se um autor pretender personalizar toda uma edição com mais que um rabisco, isto é, personalizar cada livro para cada comprador em particular, depara com dois problemas: não pode usar o sistema de vendas normal, que está concebido para uma relação inteiramente anónima e distante entre autor e consumidor, e só o poderá fazer se toda a edição lhe passar pelas mãos. O primeiro problema implica a necessidade de vendas diretas, o segundo impede na prática lidar com qualquer editora que não esteja sedeada perto do lugar onde o autor vive. Noutros tempos, seria quase impossível fazer-se algo deste género. Ainda hoje é muito difícil fazer algo do género se se optar pela edição tradicional, em especial se não se encontrar nas imediações de onde se reside nenhuma editora disposta a pegar na obra. Mas agora há forma de o fazer: a autoedição com impressão em print on demand torna a ideia muito possível. Até porque para se personalizar uma edição inteira esta não poderá ser muito grande, e o POD está otimizado precisamente para pequenos volumes de edição.
Não me custa nada a imaginar, portanto, situações em que a mesma obra seja editada ao mesmo tempo (ou sucessivamente, como acontece no mercado americano com as edições em capa dura e em capa mole) em edição barata e digital, em edição física, industrial e mais elaborada, e em autoedição personalizada vendida em venda direta.
Outra coisa que não me custa nada a imaginar é autores de sucesso montarem estruturas próprias que ultrapassem o simples binómio autor-agente que tem sido tradicional em mercados desenvolvidos. É algo que tem vindo a acontecer no mundo da música de há uns anos a esta parte, e a música, não sendo um guia perfeito para o que poderá acontecer com a literatura porque possui uma componente performativa que falta à escrita, é um bom lugar onde ir buscar ideias sobre o impacto que as novidades tecnológicas poderão ter na indústria porque sentiu esse impacto mais cedo e portanto lhe respondeu também mais cedo.
No fundo, e em resumo, que isto já vai bastante longo, o que julgo que vai acontecer no futuro é uma substituição do modelo quase único que foi característico da era industrial por uma multiplicação de formas de edição, em que esse modelo industrial continua a existir mas convive num pé bastante mais igualitário com uma série de outros modelos, cada um com as suas próprias vantagens e desvantagens, cada um razoavelmente especializado em tipos de edição ligeiramente (ou algo mais que ligeiramente) diferentes uns dos outros. Será um futuro talvez algo confuso, mas interessante.
E vem a caminho. Quer eu acerte nas previsões, quer me engane, uma coisa é certa: ele vem aí com todas as respostas.
E pronto. Esta série chegou ao fim. É mais ou menos isto que eu penso agora sobre edição, livros, editoras, essas coisas boas de que a gente gosta. Sublinho o agora. Não há nenhuma garantia de que o que penso esteja certo — continuo a aprender todos os dias, e pretendo continuar a fazê-lo até ao dia em que ceder a outra coisa qualquer os 0,1 metros cúbicos de universo que ocupo.
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sábado, 14 de dezembro de 2013
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Da edição presente e futura: O digital
(Quem vem seguindo isto, já sabe. Para os outros, este texto vem na sequência de outros seis: este, este, este, este, este e ainda este.)
O digital surgiu como uma enorme promessa. É escusado explicar porquê pela enésima vez; os motivos são múltiplos e de monta, desde o embaratecimento radical do processo de divulgação do que se faz a obter-se instantaneamente uma audiência potencial do tamanho do planeta, ou pelo menos da parcela do planeta que está interconectada digitalmente e compreende a língua que o autor usa, passando pela imensa abreviação do tempo que pode decorrer entre escrita e leitura e por muitos outros eteceteras que já foram dissecados até à exaustão por centenas de outros escribas.
Também os problemas que o digital pode gerar ou amplificar foram já discutidos até ao adormecimento, ainda que nem sempre de forma inteligente. É verdade demonstrável, por exemplo, que o digital potencia a pirataria de obras literárias, mas afirmações de que ler em aparelhos digitais não é ler, entre outras, já caem no campo da parvoíce pura e simples. Vale a pena, portanto, refletir sobre as questões relacionadas com a pirataria, mas afirmações parvas como a exemplificada acima não devem merecer mais que um encolher de ombros, um suspiro e um abanar de cabeça.
Pessoalmente, tenho, desde o início, grandes esperanças no digital. Por isso, depressa comecei a editar online, primeiro com o E-nigma, depois com outros projetos. Mas foi com igual rapidez que fui confrontado com algumas das características perversas deste admirável mundo novo, tanto enquanto autor, como enquanto editor.
O primeiro grande choque foi um caso de pirataria envolvendo os textos publicados no E-nigma, textos de cópia livre e venda proibida, assim mesmo identificados com toda a clareza, que não obstante andaram a ser vendidos em CD-ROM no Brasil, em conjunto com uma quantidade elevada de outros textos obtidos quer da web, quer de livros em papel. Foi em parte esse choque que levou primeiro à perda de ânimo e depois à paralisação do trabalho no site.
O segundo grande choque deu-se mais tarde, com a forma como um par e meio de grandes empresas abarbataram praticamente todo o mercado de edição digital, esmagando tudo à sua passagem, fazendo uso de táticas comerciais no mínimo duvidosas e criando um padrão de relacionamento entre os leitores e a tecnologia digital de leitura que na prática exclui tudo o que não lhes passe pelas mãos. Aquilo que a princípio mais me atraiu para o digital — a enorme liberdade que ele deveria proporcionar — é posto em causa com todos os sistemas de digital rights management (que na prática fazem com que as pessoas não comprem realmente as obras, mas as aluguem, por mais que julguem o contrário), com todos os formatos exclusivos de determinados aparelhos, com todas as capelinhas geradas na procura de conteúdos, com todas as alterações unilaterais de condições, de preços, de relação autor-editor, etc., e etc., e etc.
Como consequência, hoje o meu entusiasmo pelo digital está bastante atenuado. Vejo a edição digital não como uma substituição da edição tradicional, como cheguei a ver em tempos, mas como um complemento, com objetivos fundamentalmente diferentes. Para mim, hoje em dia, e tal como se tem vindo a apresentar, o digital é o lugar das experiências descomprometidas e da divulgação, das ideias mais ou menos em bruto, das obras raras ou fora do mercado, da ficção curta e ultracurta, das coisas para ler em viagem mas não necessariamente para guardar, daquilo que, de outra forma, se torna demasiado difícil, ou impossível, de encontrar.
E do que é gratuito.
Porque me recuso a pagar por coisas trancadas em DRM. Porque não aceito estar a gastar dinheiro em ebooks que depois podem desaparecer dos meus dispositivos de leitura porque uma empresa sem rosto, algures, decide de repente mudar as regras. Ou um autor, com rosto mas também com pouco respeito pelos leitores. Porque não acho que seja assim que as coisas devem funcionar. Porque não acho que seja essa a melhor forma de transferir para os criadores alguma compensação financeira pelo seu trabalho.
Mas acho, por outro lado, que essa compensação financeira é necessária. É em parte uma questão moral, a eterna justiça que existe em ser-se pago por um trabalho de que outros desfrutam. Mas não é só isso; O profissionalismo, mesmo aquele profissionalismo mais imaginário que real dos escritores que vendem um conto de vez em quando e conseguem com essas vendas obter no máximo umas dezenas de euros por ano (ou por década), é necessário para haver uma produção de conteúdos ao mesmo tempo regular e razoavelmente bem trabalhada. É uma questão de estímulo, mas não é só uma questão de estímulo. É também uma questão de responsabilização do autor. Produzir para um público que não paga é, queira-se ou não, goste-se ou não, diferente de produzir para um público que paga, tal como produzir apenas para o próprio umbigo é diferente de produzir para o umbigo e um público, seja este qual for.
Além disso, como também acabei por ir descobrindo aos poucos, o próprio público dá mais valor àquilo que tem de pagar do que ao que obtém gratuitamente, por mais invertida que a relação de qualidade por vezes seja. Por vezes, dar tudo de mão beijada é contraproducente. Para obter reações realmente equilibradas, faz-se também necessário um certo equilíbrio entre a facilidade e a dificuldade (em sentido lato, incluindo nela coisas como o preço) na obtenção das obras. E também se dá mais valor ao que é palpável, ao que tem a solidez de um objeto tridimensional que se pode manusear, do que ao imaterial, à simples informação contida em dispositivos eletrónicos, mesmo quando o conteúdo é nestes bem mais elaborado e completo do que naqueles. É em boa parte daí que vem a persistente má fama de iniciativas como a wikipédia, por contraponto às enciclopédias tradicionais (apesar destas serem as primeiras vítimas reais do digital no que toca aos livros), mesmo havendo abundância de estudos que não encontram diferenças significativas no rigor factual entre uma e as outras.
A psicologia, provavelmente, explica.
É na questão financeira que o digital mais falha, porque não se arranjou ainda nenhuma forma genérica de o financiar de forma sustentada sem recorrer a coisas como o DRM, que violam alguns direitos básicos de quem consome. Há experiências com algum sucesso em certos casos, mas nenhuma delas é aplicável a tudo, ou sequer à maioria dos casos. Experiências de serialização, de crowdfunding, de disponibilização parcial de conteúdos, de publicação atrás de paywalls, etc., etc., etc. Todas resultam às vezes, nenhuma resulta sempre, e todas trazem consigo problemas que por vezes são suficientemente sérios para as porem em causa.
E tudo isto (aqui tratado assumidamente pela rama, porque se fosse aprofundar teria tanto ou mais pano para mangas como o que tenho gasto ao longo destes artigos) é suficiente para me levar a continuar a preferir a edição em papel à digital, seja como leitor, seja mesmo como autor (o que é algo paradoxal, bem sei, tendo em conta que publiquei mais material digitalmente do que em papel). Tenho um tablet, e leio no tablet. A minha experiência diz-me que não existe nenhuma diferença de monta entre a experiência de leitura no tablet ou em papel, a não ser o facto de ser possível, com o tablet, ler à noite e às escuras. Mas continuo não só a ler mais livros tradicionais como a preferir fazê-lo.
Por outro lado, tecnologias como o print on demand e a sua evolução lógica, máquinas de impressão e venda a pedido para instalar em livrarias, bem como sistemas de leitura eletrónica cada vez mais próximos da experiência da leitura em papel, estão a tornar crescentemente difusa a fronteira entre o papel e o digital. Não me custa nada, portanto, a imaginar um futuro relativamente próximo em que as duas coisas estejam praticamente fundidas. Mas aí já estamos a falar do futuro, e o futuro fica para amanhã.
Como é, aliás, da sua natureza.
O digital surgiu como uma enorme promessa. É escusado explicar porquê pela enésima vez; os motivos são múltiplos e de monta, desde o embaratecimento radical do processo de divulgação do que se faz a obter-se instantaneamente uma audiência potencial do tamanho do planeta, ou pelo menos da parcela do planeta que está interconectada digitalmente e compreende a língua que o autor usa, passando pela imensa abreviação do tempo que pode decorrer entre escrita e leitura e por muitos outros eteceteras que já foram dissecados até à exaustão por centenas de outros escribas.
Também os problemas que o digital pode gerar ou amplificar foram já discutidos até ao adormecimento, ainda que nem sempre de forma inteligente. É verdade demonstrável, por exemplo, que o digital potencia a pirataria de obras literárias, mas afirmações de que ler em aparelhos digitais não é ler, entre outras, já caem no campo da parvoíce pura e simples. Vale a pena, portanto, refletir sobre as questões relacionadas com a pirataria, mas afirmações parvas como a exemplificada acima não devem merecer mais que um encolher de ombros, um suspiro e um abanar de cabeça.
Pessoalmente, tenho, desde o início, grandes esperanças no digital. Por isso, depressa comecei a editar online, primeiro com o E-nigma, depois com outros projetos. Mas foi com igual rapidez que fui confrontado com algumas das características perversas deste admirável mundo novo, tanto enquanto autor, como enquanto editor.
O primeiro grande choque foi um caso de pirataria envolvendo os textos publicados no E-nigma, textos de cópia livre e venda proibida, assim mesmo identificados com toda a clareza, que não obstante andaram a ser vendidos em CD-ROM no Brasil, em conjunto com uma quantidade elevada de outros textos obtidos quer da web, quer de livros em papel. Foi em parte esse choque que levou primeiro à perda de ânimo e depois à paralisação do trabalho no site.
O segundo grande choque deu-se mais tarde, com a forma como um par e meio de grandes empresas abarbataram praticamente todo o mercado de edição digital, esmagando tudo à sua passagem, fazendo uso de táticas comerciais no mínimo duvidosas e criando um padrão de relacionamento entre os leitores e a tecnologia digital de leitura que na prática exclui tudo o que não lhes passe pelas mãos. Aquilo que a princípio mais me atraiu para o digital — a enorme liberdade que ele deveria proporcionar — é posto em causa com todos os sistemas de digital rights management (que na prática fazem com que as pessoas não comprem realmente as obras, mas as aluguem, por mais que julguem o contrário), com todos os formatos exclusivos de determinados aparelhos, com todas as capelinhas geradas na procura de conteúdos, com todas as alterações unilaterais de condições, de preços, de relação autor-editor, etc., e etc., e etc.
Como consequência, hoje o meu entusiasmo pelo digital está bastante atenuado. Vejo a edição digital não como uma substituição da edição tradicional, como cheguei a ver em tempos, mas como um complemento, com objetivos fundamentalmente diferentes. Para mim, hoje em dia, e tal como se tem vindo a apresentar, o digital é o lugar das experiências descomprometidas e da divulgação, das ideias mais ou menos em bruto, das obras raras ou fora do mercado, da ficção curta e ultracurta, das coisas para ler em viagem mas não necessariamente para guardar, daquilo que, de outra forma, se torna demasiado difícil, ou impossível, de encontrar.
E do que é gratuito.
Porque me recuso a pagar por coisas trancadas em DRM. Porque não aceito estar a gastar dinheiro em ebooks que depois podem desaparecer dos meus dispositivos de leitura porque uma empresa sem rosto, algures, decide de repente mudar as regras. Ou um autor, com rosto mas também com pouco respeito pelos leitores. Porque não acho que seja assim que as coisas devem funcionar. Porque não acho que seja essa a melhor forma de transferir para os criadores alguma compensação financeira pelo seu trabalho.
Mas acho, por outro lado, que essa compensação financeira é necessária. É em parte uma questão moral, a eterna justiça que existe em ser-se pago por um trabalho de que outros desfrutam. Mas não é só isso; O profissionalismo, mesmo aquele profissionalismo mais imaginário que real dos escritores que vendem um conto de vez em quando e conseguem com essas vendas obter no máximo umas dezenas de euros por ano (ou por década), é necessário para haver uma produção de conteúdos ao mesmo tempo regular e razoavelmente bem trabalhada. É uma questão de estímulo, mas não é só uma questão de estímulo. É também uma questão de responsabilização do autor. Produzir para um público que não paga é, queira-se ou não, goste-se ou não, diferente de produzir para um público que paga, tal como produzir apenas para o próprio umbigo é diferente de produzir para o umbigo e um público, seja este qual for.
Além disso, como também acabei por ir descobrindo aos poucos, o próprio público dá mais valor àquilo que tem de pagar do que ao que obtém gratuitamente, por mais invertida que a relação de qualidade por vezes seja. Por vezes, dar tudo de mão beijada é contraproducente. Para obter reações realmente equilibradas, faz-se também necessário um certo equilíbrio entre a facilidade e a dificuldade (em sentido lato, incluindo nela coisas como o preço) na obtenção das obras. E também se dá mais valor ao que é palpável, ao que tem a solidez de um objeto tridimensional que se pode manusear, do que ao imaterial, à simples informação contida em dispositivos eletrónicos, mesmo quando o conteúdo é nestes bem mais elaborado e completo do que naqueles. É em boa parte daí que vem a persistente má fama de iniciativas como a wikipédia, por contraponto às enciclopédias tradicionais (apesar destas serem as primeiras vítimas reais do digital no que toca aos livros), mesmo havendo abundância de estudos que não encontram diferenças significativas no rigor factual entre uma e as outras.
A psicologia, provavelmente, explica.
É na questão financeira que o digital mais falha, porque não se arranjou ainda nenhuma forma genérica de o financiar de forma sustentada sem recorrer a coisas como o DRM, que violam alguns direitos básicos de quem consome. Há experiências com algum sucesso em certos casos, mas nenhuma delas é aplicável a tudo, ou sequer à maioria dos casos. Experiências de serialização, de crowdfunding, de disponibilização parcial de conteúdos, de publicação atrás de paywalls, etc., etc., etc. Todas resultam às vezes, nenhuma resulta sempre, e todas trazem consigo problemas que por vezes são suficientemente sérios para as porem em causa.
E tudo isto (aqui tratado assumidamente pela rama, porque se fosse aprofundar teria tanto ou mais pano para mangas como o que tenho gasto ao longo destes artigos) é suficiente para me levar a continuar a preferir a edição em papel à digital, seja como leitor, seja mesmo como autor (o que é algo paradoxal, bem sei, tendo em conta que publiquei mais material digitalmente do que em papel). Tenho um tablet, e leio no tablet. A minha experiência diz-me que não existe nenhuma diferença de monta entre a experiência de leitura no tablet ou em papel, a não ser o facto de ser possível, com o tablet, ler à noite e às escuras. Mas continuo não só a ler mais livros tradicionais como a preferir fazê-lo.
Por outro lado, tecnologias como o print on demand e a sua evolução lógica, máquinas de impressão e venda a pedido para instalar em livrarias, bem como sistemas de leitura eletrónica cada vez mais próximos da experiência da leitura em papel, estão a tornar crescentemente difusa a fronteira entre o papel e o digital. Não me custa nada, portanto, a imaginar um futuro relativamente próximo em que as duas coisas estejam praticamente fundidas. Mas aí já estamos a falar do futuro, e o futuro fica para amanhã.
Como é, aliás, da sua natureza.
sábado, 7 de dezembro de 2013
Da edição presente e futura: Como publicar nos dias que correm?
(Este texto vem na sequência de outros cinco: este, este, este, este e mais este.)
Com a edição tradicional em crise, sufocada por um mercado encolhido artificialmente a toque de austeridade, sobrecarregada pela penetração cada vez maior das publicações e leitores eletrónicos, pressionada pela facilidade com que se importam livros na língua original e pelos preços a que mercados bem mais pujantes do que o nosso conseguem chegar, mercados em que não só as economias de escala criadas pelas grandes tiragens, como a valorização do euro face a outras divisas, como até coisas tão básicas como o próprio preço do papel, geram um forte impacto no preço de venda ao público, embaratecendo-o significativamente, publicar é uma aventura de alto risco para qualquer autor. As editoras a sério não têm margem para grandes aventuras, e, compreensivelmente, retraem-se. Umas entram pelo território das epses (ver aqui) e contrapõem contratos duvidosos a quem lhes propõe projetos, outras simplesmente recusam coisas que noutros momentos aceitariam. E assim por diante.
Neste ambiente, qual será a melhor forma de publicar?
A minha resposta a esta pergunta é: depende.
Depende não só do tipo de autor que se é, do tipo de obras que se produz, mas até de cada obra em concreto. Depende de se estar, ou não, disposto a entrar no jogo das modas, das séries, do que vende, do que tem, à partida, mais possibilidade de ser aceite por alguma editora a sério, publicado e ser depois aceite também pelo público. Depende de se ter plataformas de divulgação externas ao ato literário ou não, e em particular de se ser, ou não, uma cara conhecida da TV. Depende de outras coisas menos verticais, do velhíssimo tráfico de influências que permeia toda a sociedade tuga e ao qual o meio literário não escapa nem nunca escapou; de contactos, de conexões, da capacidade de cada um para o sorrisinho e a palmadinha nas costas hipócrita nos momentos convenientes, dos amigos e dos desamigos. Depende da obra ser prosa ou poesia, contos ou romance ou outras coisas. Depende da obra ser enquadrável no mainstream ou ser obra de género, e de que género. Depende de haver nela personagens históricas reais ou não, depende de conter conspirações mais ou menos relacionadas com o Vaticano, depende de poder ser vendida como obra juvenil (ou, como está agora na moda por todo o lado, “young adult”) ou ser demasiado explícita ou elaborada para isso (e, num aparte, ainda estou para perceber quando foi que os jovens se tornaram, para as mentes marqueteiras, gente incapaz de compreender coisas com um mínimo de profundidade). Depende de ser vácua ou substantiva. Depende do seu conteúdo político ser claro ou encapotado, depende de ser politicamente correta ou não e para quem é politicamente correta (a malta tende a esquecer que o que é politicamente correto para um fascista não o é para um democrata e vice-versa). Enfim, depende.
Se vieram aqui ter em busca de conselhos quanto ao que fazer com o que vocês escrevem, o único que vão levar é: tentem evitar colaborar em fraudes. Fingir que publicam por “editoras” a quem pagaram a edição até pode enganar os mais desatentos, mas não engana mais ninguém. O prestígio que podem julgar assim ganhar só vos trará desprestígio. É melhor fazerem as coisas sozinhos, se puderem e souberem. Muitos de nós damos muito mais valor a alguém que apresenta as coisas como o que são, do que a quem procura enganar o próximo com aldrabices, mesmo que estas sejam razoavelmente benévolas.
Mas mesmo assim, há situações em que a opção certa é uma epse. Porque — lá está — depende. Não serão muitas, mas consigo imaginar algumas. Um autor que não saiba fazer nada além de escrever, nem paginar, nem encapar, nem tratar de ISBNs e outras coisas, talvez tenha alguma vantagem em meter-se numa epse. Por outro lado, mesmo assim, talvez não: há empresas de print on demand, basicamente um tipo específico de gráfica, que fornecem auxiliares para esse tipo de preparação. Exigem alguma aprendizagem, é certo, mas não muita. Mas enfim: se um autor não quer ou não consegue fazer essa aprendizagem a sua melhor opção talvez seja mesmo uma vanity, ainda que isso só aconteça devido à inexistência — que eu saiba — de empresas que prestem serviços editoriais sem se tentarem fazer passar por editoras. De resto…
De resto, o que resulta com fulano pode não resultar com beltrano, e o que resulta com este provavelmente não resultará com sicrano.
Mais: o que resulta com um romance escrito por fulano pode não resultar com uma coletânea de contos ou um livro de poemas também escritos por fulano. Porque os interessados num romance não são necessariamente os mesmos que estarão interessados num livro de contos, e estes também não coincidem por inteiro com os interessados num livro de poesia. Se as pessoas a que se vai chegar variam, é natural que a forma de chegar até elas varie também.
O que vos posso dizer é a abordagem que eu, sabendo o que sei hoje (que, é bom sublinhar, é diferente do que sabia ontem e do que saberei amanhã) não só sobre o modo de funcionamento de tudo isto mas também sobre coisas mais técnicas como como paginar um livro ou como conceber uma capa, decidi seguir.
Para começar, para mim, epses nunca. Pedir-me dinheiro para publicar é a maneira mais rápida de me porem bem longe, seja o livro qual for. Nunca verão o meu nome associado a edições dessas empresas, com a possível exceção de antologias pagas pelos organizadores, uma vez que quem submete contos a certas publicações geralmente não tem voz na forma como elas acabam por ver a luz do dia. Tirando essa eventualidade particular, nada de editoras com aspas por aqui.
Em segundo lugar, as experiências que tive com pequenas editoras ensinaram-me que não vale a pena perder tempo com a maioria. Duvido que alguma vez volte a propor um livro a alguma pequena editora, a menos que a veja a trabalhar consistentemente bem durante algum tempo. E mesmo assim é duvidoso, porque tenho plena consciência de que se o fizer o mais certo será não ganhar um tostão furado com o livro e, se é para não ganhar nada, se calhar mais vale disponibilizar tudo gratuitamente na Internet ou nalguma das várias plataformas de ebooks que vão surgindo por aí.
Restam as médias e grandes editoras ou a autoedição. Ou por outra: tirando algumas opções mais exóticas (como a edição cooperativa ou o crowdfunding, que no entanto não me parecem adequadas para o que eu faço), as que restam são essas duas.
Conhecendo a atitude dos meus caros concidadãos para com a leitura de contos, provavelmente também não perderei tempo a tentar propor a nenhuma editora a edição de coletâneas, a menos que se trate de contos suficientemente interligados para poderem ser vistos como uma espécie de romance. Tenho um projeto em andamento que cai nessa categoria, com duas histórias já escritas e publicadas, outra parcialmente escrita e uma mancheia de outras planeadas, tudo no mesmo universo e na mesma sequência temporal. Se e quando estiver tudo escrito, é possível que proponha esse livro a alguma editora (e tenho uma ideia bastante concreta de qual será a primeira), mas só decidirei na altura. Tirando isso, para editoras a sério reservo romances.
Romances que não sejam demasiado bizarros, entenda-se.
O resto? O resto sairá em autoedições. Sei paginar livros, consigo fechar textos já razoavelmente limpos de gralhas, e sei que é necessário revê-los várias vezes para limpar ao máximo as que ficarem no manuscrito definitivo. É trabalho chato, mas que eu sei fazer, até porque já o fiz profissionalmente. O meu ponto fraco são as capas, mas a verdade é que até eu consigo fazer capas melhores do que algumas das aberrações que aparecem publicadas por algumas vanities, e sem usar imagens obtidas por meios menos que lícitos na internet, como algumas empresas fazem. O mais certo será nunca conseguir criar uma capa realmente boa, mas não é menos certo que não serão minhas as piores capas do ano. É quanto baste para me contentar, até porque sempre fui de opinião de que num livro de ficção o que é realmente importante é… a ficção que ele contém.
Dito isto, devo acrescentar que estou aberto a ouvir quem me quiser tentar convencer a seguir outras vias. Como disse, o que sei hoje não é o que saberei amanhã. E também nada impede que se faça uma edição por uma via e uma segunda por outra. Mas para já as minhas opções são estas, pelos motivos expressos acima e por mais um par de outros que, como se prendem com o que vejo ser o futuro da edição, ficarão para o artigo em que falar dele.
Isto, contudo, e volto a sublinhar, sou eu. Outros autores terão necessariamente outros caminhos a seguir. É este o ponto que quero deixar claro: os caminhos de publicação são múltiplos, variados, e dependem fundamentalmente das obras e dos autores, sem que haja necessariamente relações de superioridade ou inferioridade entre eles. Tendo em conta todo o lixo que se tem publicado por editoras convencionais, é no mínimo ridículo achar-se que uma edição convencional é, por princípio, melhor que uma não convencional. No máximo terá uma maior probabilidade de possuir qualidade do que uma edição de autor, mas probabilidade é uma coisa, certeza outra bem diferente.
E porque é que eu acho importante sublinhar este ponto? Por um motivo simples: porque no afã de conseguirem editar de forma “prestigiosa” são demasiados os autores que se sujeitam a condições degradantes, nos quais toda a gente envolvida no processo editorial consegue ganhar algum dinheiro menos eles, precisamente os produtores dos conteúdos sem os quais todo o processo descarrilaria. E porque assim não são só eles que perdem, mas todos nós, todos os autores. Não cedam tão facilmente a chantagens. Lembrem-se de que os autores são o combustível da edição. Não devem nunca ser os mais prejudicados com ela.
Voltarei provavelmente a falar disto quando falar do futuro. Não será o próximo artigo, mas o outro a seguir.
O próximo será sobre o digital.
Amanhã. Talvez.
Com a edição tradicional em crise, sufocada por um mercado encolhido artificialmente a toque de austeridade, sobrecarregada pela penetração cada vez maior das publicações e leitores eletrónicos, pressionada pela facilidade com que se importam livros na língua original e pelos preços a que mercados bem mais pujantes do que o nosso conseguem chegar, mercados em que não só as economias de escala criadas pelas grandes tiragens, como a valorização do euro face a outras divisas, como até coisas tão básicas como o próprio preço do papel, geram um forte impacto no preço de venda ao público, embaratecendo-o significativamente, publicar é uma aventura de alto risco para qualquer autor. As editoras a sério não têm margem para grandes aventuras, e, compreensivelmente, retraem-se. Umas entram pelo território das epses (ver aqui) e contrapõem contratos duvidosos a quem lhes propõe projetos, outras simplesmente recusam coisas que noutros momentos aceitariam. E assim por diante.
Neste ambiente, qual será a melhor forma de publicar?
A minha resposta a esta pergunta é: depende.
Depende não só do tipo de autor que se é, do tipo de obras que se produz, mas até de cada obra em concreto. Depende de se estar, ou não, disposto a entrar no jogo das modas, das séries, do que vende, do que tem, à partida, mais possibilidade de ser aceite por alguma editora a sério, publicado e ser depois aceite também pelo público. Depende de se ter plataformas de divulgação externas ao ato literário ou não, e em particular de se ser, ou não, uma cara conhecida da TV. Depende de outras coisas menos verticais, do velhíssimo tráfico de influências que permeia toda a sociedade tuga e ao qual o meio literário não escapa nem nunca escapou; de contactos, de conexões, da capacidade de cada um para o sorrisinho e a palmadinha nas costas hipócrita nos momentos convenientes, dos amigos e dos desamigos. Depende da obra ser prosa ou poesia, contos ou romance ou outras coisas. Depende da obra ser enquadrável no mainstream ou ser obra de género, e de que género. Depende de haver nela personagens históricas reais ou não, depende de conter conspirações mais ou menos relacionadas com o Vaticano, depende de poder ser vendida como obra juvenil (ou, como está agora na moda por todo o lado, “young adult”) ou ser demasiado explícita ou elaborada para isso (e, num aparte, ainda estou para perceber quando foi que os jovens se tornaram, para as mentes marqueteiras, gente incapaz de compreender coisas com um mínimo de profundidade). Depende de ser vácua ou substantiva. Depende do seu conteúdo político ser claro ou encapotado, depende de ser politicamente correta ou não e para quem é politicamente correta (a malta tende a esquecer que o que é politicamente correto para um fascista não o é para um democrata e vice-versa). Enfim, depende.
Se vieram aqui ter em busca de conselhos quanto ao que fazer com o que vocês escrevem, o único que vão levar é: tentem evitar colaborar em fraudes. Fingir que publicam por “editoras” a quem pagaram a edição até pode enganar os mais desatentos, mas não engana mais ninguém. O prestígio que podem julgar assim ganhar só vos trará desprestígio. É melhor fazerem as coisas sozinhos, se puderem e souberem. Muitos de nós damos muito mais valor a alguém que apresenta as coisas como o que são, do que a quem procura enganar o próximo com aldrabices, mesmo que estas sejam razoavelmente benévolas.
Mas mesmo assim, há situações em que a opção certa é uma epse. Porque — lá está — depende. Não serão muitas, mas consigo imaginar algumas. Um autor que não saiba fazer nada além de escrever, nem paginar, nem encapar, nem tratar de ISBNs e outras coisas, talvez tenha alguma vantagem em meter-se numa epse. Por outro lado, mesmo assim, talvez não: há empresas de print on demand, basicamente um tipo específico de gráfica, que fornecem auxiliares para esse tipo de preparação. Exigem alguma aprendizagem, é certo, mas não muita. Mas enfim: se um autor não quer ou não consegue fazer essa aprendizagem a sua melhor opção talvez seja mesmo uma vanity, ainda que isso só aconteça devido à inexistência — que eu saiba — de empresas que prestem serviços editoriais sem se tentarem fazer passar por editoras. De resto…
De resto, o que resulta com fulano pode não resultar com beltrano, e o que resulta com este provavelmente não resultará com sicrano.
Mais: o que resulta com um romance escrito por fulano pode não resultar com uma coletânea de contos ou um livro de poemas também escritos por fulano. Porque os interessados num romance não são necessariamente os mesmos que estarão interessados num livro de contos, e estes também não coincidem por inteiro com os interessados num livro de poesia. Se as pessoas a que se vai chegar variam, é natural que a forma de chegar até elas varie também.
O que vos posso dizer é a abordagem que eu, sabendo o que sei hoje (que, é bom sublinhar, é diferente do que sabia ontem e do que saberei amanhã) não só sobre o modo de funcionamento de tudo isto mas também sobre coisas mais técnicas como como paginar um livro ou como conceber uma capa, decidi seguir.
Para começar, para mim, epses nunca. Pedir-me dinheiro para publicar é a maneira mais rápida de me porem bem longe, seja o livro qual for. Nunca verão o meu nome associado a edições dessas empresas, com a possível exceção de antologias pagas pelos organizadores, uma vez que quem submete contos a certas publicações geralmente não tem voz na forma como elas acabam por ver a luz do dia. Tirando essa eventualidade particular, nada de editoras com aspas por aqui.
Em segundo lugar, as experiências que tive com pequenas editoras ensinaram-me que não vale a pena perder tempo com a maioria. Duvido que alguma vez volte a propor um livro a alguma pequena editora, a menos que a veja a trabalhar consistentemente bem durante algum tempo. E mesmo assim é duvidoso, porque tenho plena consciência de que se o fizer o mais certo será não ganhar um tostão furado com o livro e, se é para não ganhar nada, se calhar mais vale disponibilizar tudo gratuitamente na Internet ou nalguma das várias plataformas de ebooks que vão surgindo por aí.
Restam as médias e grandes editoras ou a autoedição. Ou por outra: tirando algumas opções mais exóticas (como a edição cooperativa ou o crowdfunding, que no entanto não me parecem adequadas para o que eu faço), as que restam são essas duas.
Conhecendo a atitude dos meus caros concidadãos para com a leitura de contos, provavelmente também não perderei tempo a tentar propor a nenhuma editora a edição de coletâneas, a menos que se trate de contos suficientemente interligados para poderem ser vistos como uma espécie de romance. Tenho um projeto em andamento que cai nessa categoria, com duas histórias já escritas e publicadas, outra parcialmente escrita e uma mancheia de outras planeadas, tudo no mesmo universo e na mesma sequência temporal. Se e quando estiver tudo escrito, é possível que proponha esse livro a alguma editora (e tenho uma ideia bastante concreta de qual será a primeira), mas só decidirei na altura. Tirando isso, para editoras a sério reservo romances.
Romances que não sejam demasiado bizarros, entenda-se.
O resto? O resto sairá em autoedições. Sei paginar livros, consigo fechar textos já razoavelmente limpos de gralhas, e sei que é necessário revê-los várias vezes para limpar ao máximo as que ficarem no manuscrito definitivo. É trabalho chato, mas que eu sei fazer, até porque já o fiz profissionalmente. O meu ponto fraco são as capas, mas a verdade é que até eu consigo fazer capas melhores do que algumas das aberrações que aparecem publicadas por algumas vanities, e sem usar imagens obtidas por meios menos que lícitos na internet, como algumas empresas fazem. O mais certo será nunca conseguir criar uma capa realmente boa, mas não é menos certo que não serão minhas as piores capas do ano. É quanto baste para me contentar, até porque sempre fui de opinião de que num livro de ficção o que é realmente importante é… a ficção que ele contém.
Dito isto, devo acrescentar que estou aberto a ouvir quem me quiser tentar convencer a seguir outras vias. Como disse, o que sei hoje não é o que saberei amanhã. E também nada impede que se faça uma edição por uma via e uma segunda por outra. Mas para já as minhas opções são estas, pelos motivos expressos acima e por mais um par de outros que, como se prendem com o que vejo ser o futuro da edição, ficarão para o artigo em que falar dele.
Isto, contudo, e volto a sublinhar, sou eu. Outros autores terão necessariamente outros caminhos a seguir. É este o ponto que quero deixar claro: os caminhos de publicação são múltiplos, variados, e dependem fundamentalmente das obras e dos autores, sem que haja necessariamente relações de superioridade ou inferioridade entre eles. Tendo em conta todo o lixo que se tem publicado por editoras convencionais, é no mínimo ridículo achar-se que uma edição convencional é, por princípio, melhor que uma não convencional. No máximo terá uma maior probabilidade de possuir qualidade do que uma edição de autor, mas probabilidade é uma coisa, certeza outra bem diferente.
E porque é que eu acho importante sublinhar este ponto? Por um motivo simples: porque no afã de conseguirem editar de forma “prestigiosa” são demasiados os autores que se sujeitam a condições degradantes, nos quais toda a gente envolvida no processo editorial consegue ganhar algum dinheiro menos eles, precisamente os produtores dos conteúdos sem os quais todo o processo descarrilaria. E porque assim não são só eles que perdem, mas todos nós, todos os autores. Não cedam tão facilmente a chantagens. Lembrem-se de que os autores são o combustível da edição. Não devem nunca ser os mais prejudicados com ela.
Voltarei provavelmente a falar disto quando falar do futuro. Não será o próximo artigo, mas o outro a seguir.
O próximo será sobre o digital.
Amanhã. Talvez.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Da edição presente e futura: Edições de autor
(Este texto vem na sequência de outros quatro: este, este, este e ainda este.)
O chato de se fazerem alterações a meio de um texto longo é elas exigirem muitas vezes fazer-se também alterações no resto do texto. E nem sempre há tempo para isso, o que também é chato. A consequência é deixar-se para "amanhã" o que só fica pronto dias depois. Como este artigo.
Mas ficou pronto. No fundo, é o que realmente importa. Vamos lá a ele.
Se pedissem aos intelectuais portugueses uma lista dos dez escritores mais importantes do século XX, muitos incluiriam nessa lista o nome de Miguel Torga. Quando andei na escola, ler os seus Novos Contos da Montanha era obrigatório, e eu, que sempre resisti com toda a determinação a leituras obrigatórias (Os Maias, Os Lusíadas, Viagens na Minha Terra, etc. só muito mais tarde foram lidos de fio a pavio, e tenho vagas recordações de outras leituras teoricamente obrigatórias que até hoje não fiz), até li esse livro sem grande ranger de dentes. Não foi essa a leitura obrigatória que realmente me deu prazer — esse proeza coube a Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes — mas foi a segunda menos desagradável. Acho até que gostei, embora a contragosto. Eu, que odiava ler por ser a isso obrigado, e que abominava qualquer leitura obrigatória por uma questão de princípio, não me cheguei a render a Torga, como rendi a Pereira Gomes, mas não faltou muito.
Torga foi um grande escritor.
E editou toda a sua obra em edições de autor.
É provável que o principal motivo para isso tenha sido a recusa em submeter previamente os seus livros à censura, mas julgo que Torga nunca o esclareceu inequivocamente. Uma coisa é certa: escritores do nível de Torga, mesmo num momento como este, em que os condicionalismos económicos fazem com que na hora de decidir o que publicar a qualidade perca em toda a linha para o potencial comercial, não têm problemas em encontrar editoras. A razão para Torga enveredar pela autoedição, portanto, não foi não encontrar editoras interessadas em publicá-lo.
Este é o velho cliché que se associa sempre às edições de autor. Se alguém se autoedita, pensa quem pouco sabe, é, tem de ser, porque ninguém quer editá-lo. Mas a verdade, como sempre acontece, é bem mais complexa do que isso, e existe uma multiplicidade de motivos possíveis para se virar as costas às editoras e tratar de tudo sozinho ou com alguns amigos.
Obviamente que muitos o fazem por serem sido recusados. Contudo, no ponto em que as coisas estão hoje em dia, só não edita por uma editora (ou “editora”) quem não quer. Ainda que nem sempre assim tenha sido, hoje em dia há no mercado tantas empresas prestadoras de serviços editoriais (o que dá a sigla de EPSE… olhem… e se lhes chamássemos epses em vez de vanities?) disfarçadas de editoras que só fica de fora quem quer ficar de fora. E motivos para isso cada um sabe dos seus.
Pode ser por não se querer interferências editoriais na obra, mesmo que em Portugal não haja grande tradição de editores que trabalham os textos com os autores, melhorando-os, pelo menos segundo o que do seu ponto de vista é melhorar.
Pode ser por não se querer que todos ganhem com a edição mais do que o autor, o qual, mesmo quando alcança um contrato vantajoso, raramente consegue reclamar para si mais do que 10% do preço de venda ao público, e, se não é nome sonante, normalmente tem de contentar-se com muito menos, ou até com exemplares da obra gratuitos em vez de pagamento. Isto, claro, quando não lhe pedem que os pague do seu bolso.
Pode ser por se recusar a pactuar com a atividade das epses e nenhuma editora a sério ver no que escreveu potencial comercial, o que pode dever-se praticamente a qualquer coisa, desde qualidade a menos a qualidade a mais, passando por mil e um outros motivos. Um deles, em especial, é interessante: a inapetência do mercado por determinadas abordagens ou até por géneros inteiros, quer essa inapetência seja real (geralmente até é), quer seja apenas questão de perceção. É bem sabido, por exemplo, que há já muitos anos a edição de poesia vive basicamente de edições de autor, assumidas ou encapotadas. O que é irónico, tendo em conta não só que toda a gente diz à boca cheia que somos um país de poetas (poetas esses que, aparentemente, e apesar de o serem, não leem poesia), mas até porque antigamente era a poesia, não a prosa, a literatura considerada verdadeiramente nobre. Um escritor a sério era alguém capaz de desarrincar uns versos bem concebidos, não quem se dedicasse a esse ofício menor de escrever historietas em (pfff!) prosa.
Para dar um exemplo, António Ramos Rosa, outro nome de vulto nas letras portuguesas do século passado (e que perdemos há um par de meses apenas), iniciou a sua carreira em 1958, ao publicar um livro de poemas intitulado O Grito Claro. Há mais de meio século. Editora? Nenhuma. O livro foi editado por Casimiro de Brito, outro poeta algarvio, que resolveu tratar ele mesmo da edição de livros de poesia, seus e de outros poetas. Juntou-os numa coleção a que deu o título de “A Palavra”, e cujo primeiro número foi precisamente o livro de Ramos Rosa mencionado acima. A coleção foi saindo ao ritmo de menos de um livro por ano entre 1958 e 1964. O segundo volume foi Telegramas, de… Casimiro de Brito, o editor. Mais edição de autor do que isto não é possível. A esses dois livros e ao número 5, também de Casimiro de Brito, acabaram por fazer companhia obras de Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge e… Candeias Nunes, meu pai, e o único dos cinco a que se pode chamar com propriedade obscuro.
Podia continuar a discorrer sobre exemplos de autoedição de alto nível, mas creio que não vale a pena. O ponto é: os motivos possíveis para se optar pela autoedição são múltiplos, muito mais do que esta breve lista enumera. A maior parte das obras autoeditadas é má ou amadora? Sim. Mas são-no todas? Não. Por isso reduzir um tipo inteiro de edição aos seus piores exemplos, como tantas vezes se vê fazer por aí, não é propriamente aquilo a que se poderá chamar inteligente.
E isto é especialmente verdadeiro em momentos em que é a contração do mercado que empurra quem se dedica a certas áreas literárias para a autoedição, por melhor que seja o que produz. Aconteceu com a poesia, mas está longe de só ter acontecido com a poesia. Aconteceu também, nos últimos anos (desde finais dos anos 90, mais precisamente), com algo que me toca bem mais de perto: a ficção científica, especialmente em forma de ficção curta. Mas se os escitores de FC tivessem continuado a escrever, autoeditando-se, estarímos bem. Infelizmente, não foi o que aconteceu. Muitos preferiram deixar de escrever e publicar a continuarem a fazê-lo através de edições de autor, as quais praticamente não têm existido. Não só porque autor que não escreve é autor que vai aos poucos deixando de saber escrever (a escrita exige um exercício constante), mas também, ou se calhar principalmente, porque só é possível ganhar e conservar um público quando se está presente no mercado, por mais que essa presença seja marginal.
E sim, também tenho culpas nesse cartório. O que nos leva à fase seguinte desta série de artigos: que perspetivas vejo eu, enquanto autor, na edição atual? Ou por outra: como e por que vias deverão os autores tentar publicar nos dias que correm?
Mas isso será amanhã, se houver tempo. Ou depois, se não houver.
O chato de se fazerem alterações a meio de um texto longo é elas exigirem muitas vezes fazer-se também alterações no resto do texto. E nem sempre há tempo para isso, o que também é chato. A consequência é deixar-se para "amanhã" o que só fica pronto dias depois. Como este artigo.
Mas ficou pronto. No fundo, é o que realmente importa. Vamos lá a ele.
Se pedissem aos intelectuais portugueses uma lista dos dez escritores mais importantes do século XX, muitos incluiriam nessa lista o nome de Miguel Torga. Quando andei na escola, ler os seus Novos Contos da Montanha era obrigatório, e eu, que sempre resisti com toda a determinação a leituras obrigatórias (Os Maias, Os Lusíadas, Viagens na Minha Terra, etc. só muito mais tarde foram lidos de fio a pavio, e tenho vagas recordações de outras leituras teoricamente obrigatórias que até hoje não fiz), até li esse livro sem grande ranger de dentes. Não foi essa a leitura obrigatória que realmente me deu prazer — esse proeza coube a Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes — mas foi a segunda menos desagradável. Acho até que gostei, embora a contragosto. Eu, que odiava ler por ser a isso obrigado, e que abominava qualquer leitura obrigatória por uma questão de princípio, não me cheguei a render a Torga, como rendi a Pereira Gomes, mas não faltou muito.
Torga foi um grande escritor.
E editou toda a sua obra em edições de autor.
É provável que o principal motivo para isso tenha sido a recusa em submeter previamente os seus livros à censura, mas julgo que Torga nunca o esclareceu inequivocamente. Uma coisa é certa: escritores do nível de Torga, mesmo num momento como este, em que os condicionalismos económicos fazem com que na hora de decidir o que publicar a qualidade perca em toda a linha para o potencial comercial, não têm problemas em encontrar editoras. A razão para Torga enveredar pela autoedição, portanto, não foi não encontrar editoras interessadas em publicá-lo.
Este é o velho cliché que se associa sempre às edições de autor. Se alguém se autoedita, pensa quem pouco sabe, é, tem de ser, porque ninguém quer editá-lo. Mas a verdade, como sempre acontece, é bem mais complexa do que isso, e existe uma multiplicidade de motivos possíveis para se virar as costas às editoras e tratar de tudo sozinho ou com alguns amigos.
Obviamente que muitos o fazem por serem sido recusados. Contudo, no ponto em que as coisas estão hoje em dia, só não edita por uma editora (ou “editora”) quem não quer. Ainda que nem sempre assim tenha sido, hoje em dia há no mercado tantas empresas prestadoras de serviços editoriais (o que dá a sigla de EPSE… olhem… e se lhes chamássemos epses em vez de vanities?) disfarçadas de editoras que só fica de fora quem quer ficar de fora. E motivos para isso cada um sabe dos seus.
Pode ser por não se querer interferências editoriais na obra, mesmo que em Portugal não haja grande tradição de editores que trabalham os textos com os autores, melhorando-os, pelo menos segundo o que do seu ponto de vista é melhorar.
Pode ser por não se querer que todos ganhem com a edição mais do que o autor, o qual, mesmo quando alcança um contrato vantajoso, raramente consegue reclamar para si mais do que 10% do preço de venda ao público, e, se não é nome sonante, normalmente tem de contentar-se com muito menos, ou até com exemplares da obra gratuitos em vez de pagamento. Isto, claro, quando não lhe pedem que os pague do seu bolso.
Pode ser por se recusar a pactuar com a atividade das epses e nenhuma editora a sério ver no que escreveu potencial comercial, o que pode dever-se praticamente a qualquer coisa, desde qualidade a menos a qualidade a mais, passando por mil e um outros motivos. Um deles, em especial, é interessante: a inapetência do mercado por determinadas abordagens ou até por géneros inteiros, quer essa inapetência seja real (geralmente até é), quer seja apenas questão de perceção. É bem sabido, por exemplo, que há já muitos anos a edição de poesia vive basicamente de edições de autor, assumidas ou encapotadas. O que é irónico, tendo em conta não só que toda a gente diz à boca cheia que somos um país de poetas (poetas esses que, aparentemente, e apesar de o serem, não leem poesia), mas até porque antigamente era a poesia, não a prosa, a literatura considerada verdadeiramente nobre. Um escritor a sério era alguém capaz de desarrincar uns versos bem concebidos, não quem se dedicasse a esse ofício menor de escrever historietas em (pfff!) prosa.
Para dar um exemplo, António Ramos Rosa, outro nome de vulto nas letras portuguesas do século passado (e que perdemos há um par de meses apenas), iniciou a sua carreira em 1958, ao publicar um livro de poemas intitulado O Grito Claro. Há mais de meio século. Editora? Nenhuma. O livro foi editado por Casimiro de Brito, outro poeta algarvio, que resolveu tratar ele mesmo da edição de livros de poesia, seus e de outros poetas. Juntou-os numa coleção a que deu o título de “A Palavra”, e cujo primeiro número foi precisamente o livro de Ramos Rosa mencionado acima. A coleção foi saindo ao ritmo de menos de um livro por ano entre 1958 e 1964. O segundo volume foi Telegramas, de… Casimiro de Brito, o editor. Mais edição de autor do que isto não é possível. A esses dois livros e ao número 5, também de Casimiro de Brito, acabaram por fazer companhia obras de Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge e… Candeias Nunes, meu pai, e o único dos cinco a que se pode chamar com propriedade obscuro.
Podia continuar a discorrer sobre exemplos de autoedição de alto nível, mas creio que não vale a pena. O ponto é: os motivos possíveis para se optar pela autoedição são múltiplos, muito mais do que esta breve lista enumera. A maior parte das obras autoeditadas é má ou amadora? Sim. Mas são-no todas? Não. Por isso reduzir um tipo inteiro de edição aos seus piores exemplos, como tantas vezes se vê fazer por aí, não é propriamente aquilo a que se poderá chamar inteligente.
E isto é especialmente verdadeiro em momentos em que é a contração do mercado que empurra quem se dedica a certas áreas literárias para a autoedição, por melhor que seja o que produz. Aconteceu com a poesia, mas está longe de só ter acontecido com a poesia. Aconteceu também, nos últimos anos (desde finais dos anos 90, mais precisamente), com algo que me toca bem mais de perto: a ficção científica, especialmente em forma de ficção curta. Mas se os escitores de FC tivessem continuado a escrever, autoeditando-se, estarímos bem. Infelizmente, não foi o que aconteceu. Muitos preferiram deixar de escrever e publicar a continuarem a fazê-lo através de edições de autor, as quais praticamente não têm existido. Não só porque autor que não escreve é autor que vai aos poucos deixando de saber escrever (a escrita exige um exercício constante), mas também, ou se calhar principalmente, porque só é possível ganhar e conservar um público quando se está presente no mercado, por mais que essa presença seja marginal.
E sim, também tenho culpas nesse cartório. O que nos leva à fase seguinte desta série de artigos: que perspetivas vejo eu, enquanto autor, na edição atual? Ou por outra: como e por que vias deverão os autores tentar publicar nos dias que correm?
Mas isso será amanhã, se houver tempo. Ou depois, se não houver.
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Da edição presente e futura: Fraude?
(Este texto vem na sequência de outros três: este, este e mais este.)
Olhemos um pouco mais de perto para o que faz uma editora a sério. Embora nem todas funcionem da mesma forma, até porque algumas são mais especializadas e outras mais generalistas e nem todas as secções do mercado livreiro têm um funcionamento exatamente igual, regra geral as editoras a sério fazem apostas em livros de retorno certo, ou quase, a fim de cobrir os prováveis (ou certos) prejuízos de apostas mais arriscadas. É daí que vem a cultura do best-seller que invadiu livrarias e supermercados. É também daí que vem a propensão para a série, e frequentemente para a série longa, que infetou boa parte da literatura mais comercial. O best-seller, em especial aquele que vende bem anos a fio, ou a série, na qual um livro se segue a outro mantendo desejavelmente um público fiel que quer saber onde a história vai desaguar, são as apólices de seguro da editora, aquilo que lhe permite manter alguma estabilidade de caixa e dinheiro para pagar a funcionários e colaboradores e para investir em compras de direitos, contratos nacionais, campanhas de marketing (que por sua vez alimentam os best-sellers), etc.
Em países como Portugal, a grande maioria dos best-sellers ou das séries é importada. São livros já testados em outros mercados que as editoras lutam por garantir para si, na esperança de resultarem também no nosso. Nem sempre resultam, e é aqui que reside o risco que este tipo de edição tem. Pode ser pequeno, o risco, mas também pode ser grande, quando a editora investe pesadamente num livro ou numa série que depois não dá o retorno previsto. Uma forma de diminuir ainda mais o risco é apostar em livros ou séries de livros associados a filmes ou séries de televisão de grande sucesso, mais raramente a outros media como os jogos de computador. Reduzir, apenas; na edição a sério não existe ausência de risco.
Outros best-sellers são nacionais: escritores (e “escritores”) com público praticamente garantido à partida, seja pela sua relevância cultural, seja porque são caras conhecidas de outros media, e também aqui o risco existe, se bem que ao editar um livro do Saramago, do Lobo Antunes ou do José Rodrigues dos Santos a editora tenha à partida alguma garantia de vendas significativas.
Chocados com a mistura entre Saramago, Lobo Antunes e JRS? Não fiquem, que na verdade a qualidade pouca influência tem em tudo isto. O best-seller tanto pode ser um livro de um prémio Nobel como pode ser uma biografia do Cristiano Ronaldo ou porno-chanchadas em tons de cinza, passando por uma série de pontos intermédios. Não importa o que seja, basta que se venda bem para que o efeito que tem sobre o funcionamento da editora seja praticamente igual.
(Só não é exatamente igual porque a cada edição está associada uma certa quantidade de prestígio ou desprestígio, embora este fator esteja em acelerada erosão: editoras que há alguns anos se recusariam a publicar certas coisas por temerem o desprestígio a elas associado, hoje publicam-nas alegremente simplesmente porque lhes dá lucros que não obtêm de outra forma.)
Se os best-sellers lhes permitem algum desafogo financeiro, as editoras mais apegadas ao seu velho papel de provedoras do gosto dedicam-se a publicar livros que consideram importantes, relevantes ou de grande qualidade, pese embora a elevada probabilidade de resultarem em vendas fracas e prejuízos. Outras, as que ainda se preocupam com o prestígio, dedicam-se, precisamente, à edição de prestígio: obras premiadas, escritores malditos ou obscuros, etc. Outras estão-se nas tintas e publicam mais do mesmo, sempre mais do mesmo, preocupadas apenas com a obsessão puramente capitalista de ampliar os resultados de tesouraria e arranjar dividendos para entregar aos acionistas.
Mas isto só acontece se e enquanto a editora tem algum desafogo financeiro. Se este desaparece, por exemplo porque o país é entregue a um bando de loucos perigosos que lhe destrói a economia em nome de amanhãs que cantam que só eles conseguem vislumbrar, a primeira coisa a ser sacrificada são as edições deficitárias. E lá se vão os livros que em princípio vendem pouco, lá se vão os autores de prestígio, lá se vai a qualidade como fator razoavelmente decisivo na hora de escolher que livros publicar. Ficam só os best-sellers, que já não o são tanto como isso (passam a ser só sellers). Ficam só as edições que trazem consigo o mínimo risco possível, a máxima garantia de retorno.
O risco, contudo, nunca, nunca desaparece. É isso que todos estes livros e todas estas editoras, apesar de toda a sua variedade, têm em comum: cada edição é um risco, cada edição é um investimento, cada edição é, pelo menos em parte, um salto no escuro.
Depois, as editoras a sério têm de competir com empresas fornecedoras de serviços editoriais disfarçadas de editoras. Estas últimas não correm riscos ou, por outra, o único risco que correm é faltarem-lhes escritores prontos a pagar para verem a sua produção em livro (e estes nunca parecem faltar). Podem vender um total acumulado de zero, que continuam calmamente a funcionar como se nada fosse e a lançar para o mercado obra atrás de obra, quantas mais melhor, porque cada obra “editada” corresponde a xis que entra nas contas bancárias da empresa.
Tenho uma historiazinha pessoal que mostra o tipo de atitude que se pode esperar quando a edição está paga aconteça o que acontecer às vendas. O meu primeiro livro, fruto de um prémio num concurso literário, foi publicado numa edição paga pela entidade que promoveu o prémio. Por conseguinte, a editora nunca se preocupou em tentar vendê-lo, tratou a edição com total indiferença. Chegou até ao ponto do ridículo quando uma conhecida minha se dirigiu à sede da editora — segundo julgo saber, tem livraria própria — para comprar um exemplar, e o funcionário lhe disse que esse livro não existia. Que não existia. Foi preciso ela insistir, dizer até que conhece o autor, para lá lhe arranjarem o exemplarzinho. O qual, milagrosamente, passou de repente a existir.
E é basicamente isto que estas editoras fazem. Põem os livros cá fora, mais ou menos a trouxe-mouxe e com pouco interesse em vendê-los porque pura e simplesmente não precisam: já têm o lucro garantido com a própria edição, podem partir para outra. O autor, que pagou, que trate também das vendas. Se quiser recuperar algum do seu dinheiro.
Aqui reside a primeira parte da fraude. Porque não são raros os autores que vão ao engano, julgando que os seus livros serão distribuídos como os de uma editora a sério, julgando vir a poder encontrá-los nas livrarias, julgando até, por vezes, que à edição vem associada alguma espécie de marketing. Por vezes, isso é-lhes explicitamente prometido, outras vezes é apenas sugerido, outras nem sugerir é preciso; basta deixar que a ingenuidade e a inexperiência da grande maioria das pessoas que embarca na fraude faça o que tem a fazer.
Depois há a parte em que os próprios autores são cúmplices, quando pagam a edição e depois se apresentam como autores de um livro publicado pela editora Tal. Como se a editora Tal tivesse analisado o manuscrito, o tivesse considerado digno de publicação e o tivesse publicado depois de passar por todo o processo por que passam os livros publicados por editoras a sério, quando na verdade o que a “editora” Tal faz é dizer dá cá o dinheirinho, toma lá o livrinho. Tem havido casos de autores que resolveram testar até que ponto chega a indiferença com o tipo de lixo que acaba publicado, propondo a edição das maiores porcarias que conseguem criar, textos manhosos, propositadamente cheios de clichés, de buracos no argumento, de erros de português, de tudo e mais alguma coisa, e acabaram por obter a lógica resposta de oh, meu caro amigo, que obra magnífica, é claro que queremos publicá-la, o preço é xis.
Não, quem assim publica não tem livros publicados por editora nenhuma. Tem edições de autor encapotadas, pelas quais paga mais do que pagaria por uma edição de autor propriamente dita, e que apresenta fraudulentamente como edições a sério, procurando enganar o público, procurando levá-lo a crer que o que produziu teve o aval de uma empresa de profissionais do ramo.
As águas tornam-se ainda mais turvas porque várias destas empresas não se assumem. À primeira vista está tudo normal, mas nos bastidores circula dinheiro no sentido errado, ou são propostos contratos em que o autor é obrigado a comprar parte da edição (o suficiente para esta ficar paga, claro; tudo o que se vender depois é lucro). Mais fraude? Pois.
Se estas empresas não agissem assim fraudulentamente, se se apresentassem como prestadoras de serviços editoriais e não como editoras, nada teria a opor-lhes. As coisas seriam claras. As edições seriam o que são na realidade: edições de autor. E os produtores de conteúdos teriam empresas onde encontrar serviços que poderiam achar necessários. Os que não soubessem fazer paginação teriam onde contratar um paginador; os que precisassem de ilustrações saberiam quanto teriam de pagar pelo trabalho de um ilustrador; quem não fosse capaz de rever os próprios textos poderia ter acesso aos serviços de um revisor, e assim por diante. E depois editariam os seus livros em seu nome, sob a sua própria responsabilidade. Tudo claro, tudo às claras, tudo honesto.
Dir-me-ão: oh Jorge, mas toda a gente sabe que as edições de autor são uma porcaria…
Toda a gente poderá saber tal coisa, mas, se assim é, toda a gente sabe mal. Isso, contudo, já é conversa para amanhã. Por hoje, fiquem-se com um nome: Miguel Torga.
Olhemos um pouco mais de perto para o que faz uma editora a sério. Embora nem todas funcionem da mesma forma, até porque algumas são mais especializadas e outras mais generalistas e nem todas as secções do mercado livreiro têm um funcionamento exatamente igual, regra geral as editoras a sério fazem apostas em livros de retorno certo, ou quase, a fim de cobrir os prováveis (ou certos) prejuízos de apostas mais arriscadas. É daí que vem a cultura do best-seller que invadiu livrarias e supermercados. É também daí que vem a propensão para a série, e frequentemente para a série longa, que infetou boa parte da literatura mais comercial. O best-seller, em especial aquele que vende bem anos a fio, ou a série, na qual um livro se segue a outro mantendo desejavelmente um público fiel que quer saber onde a história vai desaguar, são as apólices de seguro da editora, aquilo que lhe permite manter alguma estabilidade de caixa e dinheiro para pagar a funcionários e colaboradores e para investir em compras de direitos, contratos nacionais, campanhas de marketing (que por sua vez alimentam os best-sellers), etc.
Em países como Portugal, a grande maioria dos best-sellers ou das séries é importada. São livros já testados em outros mercados que as editoras lutam por garantir para si, na esperança de resultarem também no nosso. Nem sempre resultam, e é aqui que reside o risco que este tipo de edição tem. Pode ser pequeno, o risco, mas também pode ser grande, quando a editora investe pesadamente num livro ou numa série que depois não dá o retorno previsto. Uma forma de diminuir ainda mais o risco é apostar em livros ou séries de livros associados a filmes ou séries de televisão de grande sucesso, mais raramente a outros media como os jogos de computador. Reduzir, apenas; na edição a sério não existe ausência de risco.
Outros best-sellers são nacionais: escritores (e “escritores”) com público praticamente garantido à partida, seja pela sua relevância cultural, seja porque são caras conhecidas de outros media, e também aqui o risco existe, se bem que ao editar um livro do Saramago, do Lobo Antunes ou do José Rodrigues dos Santos a editora tenha à partida alguma garantia de vendas significativas.
Chocados com a mistura entre Saramago, Lobo Antunes e JRS? Não fiquem, que na verdade a qualidade pouca influência tem em tudo isto. O best-seller tanto pode ser um livro de um prémio Nobel como pode ser uma biografia do Cristiano Ronaldo ou porno-chanchadas em tons de cinza, passando por uma série de pontos intermédios. Não importa o que seja, basta que se venda bem para que o efeito que tem sobre o funcionamento da editora seja praticamente igual.
(Só não é exatamente igual porque a cada edição está associada uma certa quantidade de prestígio ou desprestígio, embora este fator esteja em acelerada erosão: editoras que há alguns anos se recusariam a publicar certas coisas por temerem o desprestígio a elas associado, hoje publicam-nas alegremente simplesmente porque lhes dá lucros que não obtêm de outra forma.)
Se os best-sellers lhes permitem algum desafogo financeiro, as editoras mais apegadas ao seu velho papel de provedoras do gosto dedicam-se a publicar livros que consideram importantes, relevantes ou de grande qualidade, pese embora a elevada probabilidade de resultarem em vendas fracas e prejuízos. Outras, as que ainda se preocupam com o prestígio, dedicam-se, precisamente, à edição de prestígio: obras premiadas, escritores malditos ou obscuros, etc. Outras estão-se nas tintas e publicam mais do mesmo, sempre mais do mesmo, preocupadas apenas com a obsessão puramente capitalista de ampliar os resultados de tesouraria e arranjar dividendos para entregar aos acionistas.
Mas isto só acontece se e enquanto a editora tem algum desafogo financeiro. Se este desaparece, por exemplo porque o país é entregue a um bando de loucos perigosos que lhe destrói a economia em nome de amanhãs que cantam que só eles conseguem vislumbrar, a primeira coisa a ser sacrificada são as edições deficitárias. E lá se vão os livros que em princípio vendem pouco, lá se vão os autores de prestígio, lá se vai a qualidade como fator razoavelmente decisivo na hora de escolher que livros publicar. Ficam só os best-sellers, que já não o são tanto como isso (passam a ser só sellers). Ficam só as edições que trazem consigo o mínimo risco possível, a máxima garantia de retorno.
O risco, contudo, nunca, nunca desaparece. É isso que todos estes livros e todas estas editoras, apesar de toda a sua variedade, têm em comum: cada edição é um risco, cada edição é um investimento, cada edição é, pelo menos em parte, um salto no escuro.
Depois, as editoras a sério têm de competir com empresas fornecedoras de serviços editoriais disfarçadas de editoras. Estas últimas não correm riscos ou, por outra, o único risco que correm é faltarem-lhes escritores prontos a pagar para verem a sua produção em livro (e estes nunca parecem faltar). Podem vender um total acumulado de zero, que continuam calmamente a funcionar como se nada fosse e a lançar para o mercado obra atrás de obra, quantas mais melhor, porque cada obra “editada” corresponde a xis que entra nas contas bancárias da empresa.
Tenho uma historiazinha pessoal que mostra o tipo de atitude que se pode esperar quando a edição está paga aconteça o que acontecer às vendas. O meu primeiro livro, fruto de um prémio num concurso literário, foi publicado numa edição paga pela entidade que promoveu o prémio. Por conseguinte, a editora nunca se preocupou em tentar vendê-lo, tratou a edição com total indiferença. Chegou até ao ponto do ridículo quando uma conhecida minha se dirigiu à sede da editora — segundo julgo saber, tem livraria própria — para comprar um exemplar, e o funcionário lhe disse que esse livro não existia. Que não existia. Foi preciso ela insistir, dizer até que conhece o autor, para lá lhe arranjarem o exemplarzinho. O qual, milagrosamente, passou de repente a existir.
E é basicamente isto que estas editoras fazem. Põem os livros cá fora, mais ou menos a trouxe-mouxe e com pouco interesse em vendê-los porque pura e simplesmente não precisam: já têm o lucro garantido com a própria edição, podem partir para outra. O autor, que pagou, que trate também das vendas. Se quiser recuperar algum do seu dinheiro.
Aqui reside a primeira parte da fraude. Porque não são raros os autores que vão ao engano, julgando que os seus livros serão distribuídos como os de uma editora a sério, julgando vir a poder encontrá-los nas livrarias, julgando até, por vezes, que à edição vem associada alguma espécie de marketing. Por vezes, isso é-lhes explicitamente prometido, outras vezes é apenas sugerido, outras nem sugerir é preciso; basta deixar que a ingenuidade e a inexperiência da grande maioria das pessoas que embarca na fraude faça o que tem a fazer.
Depois há a parte em que os próprios autores são cúmplices, quando pagam a edição e depois se apresentam como autores de um livro publicado pela editora Tal. Como se a editora Tal tivesse analisado o manuscrito, o tivesse considerado digno de publicação e o tivesse publicado depois de passar por todo o processo por que passam os livros publicados por editoras a sério, quando na verdade o que a “editora” Tal faz é dizer dá cá o dinheirinho, toma lá o livrinho. Tem havido casos de autores que resolveram testar até que ponto chega a indiferença com o tipo de lixo que acaba publicado, propondo a edição das maiores porcarias que conseguem criar, textos manhosos, propositadamente cheios de clichés, de buracos no argumento, de erros de português, de tudo e mais alguma coisa, e acabaram por obter a lógica resposta de oh, meu caro amigo, que obra magnífica, é claro que queremos publicá-la, o preço é xis.
Não, quem assim publica não tem livros publicados por editora nenhuma. Tem edições de autor encapotadas, pelas quais paga mais do que pagaria por uma edição de autor propriamente dita, e que apresenta fraudulentamente como edições a sério, procurando enganar o público, procurando levá-lo a crer que o que produziu teve o aval de uma empresa de profissionais do ramo.
As águas tornam-se ainda mais turvas porque várias destas empresas não se assumem. À primeira vista está tudo normal, mas nos bastidores circula dinheiro no sentido errado, ou são propostos contratos em que o autor é obrigado a comprar parte da edição (o suficiente para esta ficar paga, claro; tudo o que se vender depois é lucro). Mais fraude? Pois.
Se estas empresas não agissem assim fraudulentamente, se se apresentassem como prestadoras de serviços editoriais e não como editoras, nada teria a opor-lhes. As coisas seriam claras. As edições seriam o que são na realidade: edições de autor. E os produtores de conteúdos teriam empresas onde encontrar serviços que poderiam achar necessários. Os que não soubessem fazer paginação teriam onde contratar um paginador; os que precisassem de ilustrações saberiam quanto teriam de pagar pelo trabalho de um ilustrador; quem não fosse capaz de rever os próprios textos poderia ter acesso aos serviços de um revisor, e assim por diante. E depois editariam os seus livros em seu nome, sob a sua própria responsabilidade. Tudo claro, tudo às claras, tudo honesto.
Dir-me-ão: oh Jorge, mas toda a gente sabe que as edições de autor são uma porcaria…
Toda a gente poderá saber tal coisa, mas, se assim é, toda a gente sabe mal. Isso, contudo, já é conversa para amanhã. Por hoje, fiquem-se com um nome: Miguel Torga.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Da edição presente e futura: Vaidade?
(É capaz de convir ler primeiro a primeira e a segunda parte disto)
Afinal foi ainda hoje, não amanhã.
Em inglês, empresas que tenham como clientes os produtores de conteúdos, em particular os escritores, têm um nome, depreciativo, do qual não gostam nem as empresas em si nem os que as contratam para pôr no mercado o que produzem: vanity press. Também não gosto deste nome, confesso, principalmente porque ele tende a subestimar grosseiramente o peso que a vaidade e os egos também têm na edição tradicional. Só quem não conhece escritores pode julgar que as vaidades estão restritas ao mundo das vanities e que só aí se encontra gente cuja noção de auto-importância é incomensuravelmente superior à sua importância real. Há exceções, obviamente, pois em tudo há exceções, mas de uma maneira geral um escritor (e provavelmente poder-se-ia falar aqui de artistas em geral) é um ególatra. Há uma arrogância intrínseca a acharmos que o que temos a dizer interessa a alguém ou tem alguma importância para o que quer que seja exterior ao confinamento do nosso crânio. Mas enfim, goste eu ou não, é isso que os anglófonos chamam a estas empresas. E têm sido elas a estar no centro das mais monumentais zaragatas dos últimos tempos.
E a minha opinião é:
Nada tenho contra elas. Desde que não se tentem fazer passar por editoras.
Porque, lá está, uma editora contrata produtores de conteúdos para satisfazer a procura dos clientes, os leitores, e não é isso que essas empresas fazem. O que essas empresas fazem é fornecer serviços editoriais aos produtores de conteúdos. Para a maioria pouco importa se um livro vende ou não, pouco interessa se existe procura ou esta não passa de miragem. O seu mercado não é o mercado livreiro, habitat das editoras propriamente ditas, mas o dos produtores de conteúdos em busca de ajuda. Que também ponham os livros à venda e que também obtenham lucros daí pouco importa: na generalidade dos casos não estão dependentes das vendas como as editoras a sério estão, porque as edições já foram pagas pelos próprios escritores. São estes quem corre todos os riscos.
E não são eles quem colhe as recompensas, se recompensas existirem.
Apesar disso, não, não tenho nada contra elas, por princípio.
Tal como nada tenho contra um escritor contratar um agente para potenciar a sua carreira. Ou tal como nada tenho contra um escritor que pretende autoeditar-se pagar a uma gráfica para lhe imprimir os livros. Não vejo nenhum mal em empresas fornecerem serviços editoriais, sejam eles quais forem, aos produtores de conteúdos e também não vejo nenhum mal em tentarem lucrar com isso. Se uma empresa pretende funcionar, digamos, como ponto de encontro entre produtores de conteúdos de vária índole — entre escritores e ilustradores, por exemplo — ou entre estes e outros técnicos envolvidos na produção de livros — paginadores, gráficos, etc. — e se conseguir sobreviver assim, atribuindo um preço a cada serviço e informando claramente o que os clientes obtêm desse serviço, parece-me uma atividade económica tão válida como outra qualquer. Nem sequer me parece mal que uma empresa dessas se faça pagar por serviços que se podem obter gratuitamente, como a obtenção do ISBN, desde que o preço não seja exorbitante, ou seja, desde que não ultrapasse um ou dois euritos: não deixa de ser trabalho que alguém tem de fazer, não deixa de exigir gastar-se algum tempo. Se um escritor acha que não tem tempo ou paciência para se informar sobre como se solicitam os ISBN e depois para os solicitar, não vejo que venha nenhum mal ao mundo que pague a quem o faça por ele… desde que não vá ao engano, desde que saiba que, se quisesse, o poderia fazer ele próprio sem gastar um cêntimo.
Não, o problema não está na existência dessas empresas e nem sequer na sua atividade. Está no modo como essa atividade se processa. Está em fazerem-se passar por editoras. Aí é que a porca torce o rabo. Aí é que há fortes elementos de fraude, da qual as empresas são culpadas e os produtores de conteúdos que com elas trabalham são ao mesmo tempo vítimas e cúmplices, embora a lista de vítimas não se restrinja a eles.
Dir-me-ão: fraude, Jorge? Não estarás a exagerar?
Não, não me parece que esteja. Amanhã explico. E desta vez fica mesmo para amanhã.
Afinal foi ainda hoje, não amanhã.
Em inglês, empresas que tenham como clientes os produtores de conteúdos, em particular os escritores, têm um nome, depreciativo, do qual não gostam nem as empresas em si nem os que as contratam para pôr no mercado o que produzem: vanity press. Também não gosto deste nome, confesso, principalmente porque ele tende a subestimar grosseiramente o peso que a vaidade e os egos também têm na edição tradicional. Só quem não conhece escritores pode julgar que as vaidades estão restritas ao mundo das vanities e que só aí se encontra gente cuja noção de auto-importância é incomensuravelmente superior à sua importância real. Há exceções, obviamente, pois em tudo há exceções, mas de uma maneira geral um escritor (e provavelmente poder-se-ia falar aqui de artistas em geral) é um ególatra. Há uma arrogância intrínseca a acharmos que o que temos a dizer interessa a alguém ou tem alguma importância para o que quer que seja exterior ao confinamento do nosso crânio. Mas enfim, goste eu ou não, é isso que os anglófonos chamam a estas empresas. E têm sido elas a estar no centro das mais monumentais zaragatas dos últimos tempos.
E a minha opinião é:
Nada tenho contra elas. Desde que não se tentem fazer passar por editoras.
Porque, lá está, uma editora contrata produtores de conteúdos para satisfazer a procura dos clientes, os leitores, e não é isso que essas empresas fazem. O que essas empresas fazem é fornecer serviços editoriais aos produtores de conteúdos. Para a maioria pouco importa se um livro vende ou não, pouco interessa se existe procura ou esta não passa de miragem. O seu mercado não é o mercado livreiro, habitat das editoras propriamente ditas, mas o dos produtores de conteúdos em busca de ajuda. Que também ponham os livros à venda e que também obtenham lucros daí pouco importa: na generalidade dos casos não estão dependentes das vendas como as editoras a sério estão, porque as edições já foram pagas pelos próprios escritores. São estes quem corre todos os riscos.
E não são eles quem colhe as recompensas, se recompensas existirem.
Apesar disso, não, não tenho nada contra elas, por princípio.
Tal como nada tenho contra um escritor contratar um agente para potenciar a sua carreira. Ou tal como nada tenho contra um escritor que pretende autoeditar-se pagar a uma gráfica para lhe imprimir os livros. Não vejo nenhum mal em empresas fornecerem serviços editoriais, sejam eles quais forem, aos produtores de conteúdos e também não vejo nenhum mal em tentarem lucrar com isso. Se uma empresa pretende funcionar, digamos, como ponto de encontro entre produtores de conteúdos de vária índole — entre escritores e ilustradores, por exemplo — ou entre estes e outros técnicos envolvidos na produção de livros — paginadores, gráficos, etc. — e se conseguir sobreviver assim, atribuindo um preço a cada serviço e informando claramente o que os clientes obtêm desse serviço, parece-me uma atividade económica tão válida como outra qualquer. Nem sequer me parece mal que uma empresa dessas se faça pagar por serviços que se podem obter gratuitamente, como a obtenção do ISBN, desde que o preço não seja exorbitante, ou seja, desde que não ultrapasse um ou dois euritos: não deixa de ser trabalho que alguém tem de fazer, não deixa de exigir gastar-se algum tempo. Se um escritor acha que não tem tempo ou paciência para se informar sobre como se solicitam os ISBN e depois para os solicitar, não vejo que venha nenhum mal ao mundo que pague a quem o faça por ele… desde que não vá ao engano, desde que saiba que, se quisesse, o poderia fazer ele próprio sem gastar um cêntimo.
Não, o problema não está na existência dessas empresas e nem sequer na sua atividade. Está no modo como essa atividade se processa. Está em fazerem-se passar por editoras. Aí é que a porca torce o rabo. Aí é que há fortes elementos de fraude, da qual as empresas são culpadas e os produtores de conteúdos que com elas trabalham são ao mesmo tempo vítimas e cúmplices, embora a lista de vítimas não se restrinja a eles.
Dir-me-ão: fraude, Jorge? Não estarás a exagerar?
Não, não me parece que esteja. Amanhã explico. E desta vez fica mesmo para amanhã.
Da edição presente e futura: Editoras?
Se caíste aqui sem passar pela casa de partida, aconselho a dar lá um salto primeiro.
Antes de mais nada, se calhar convém pensarmos um pouco sobre alguns termos para sabermos bem de que estamos a falar. Começando pelo termo “editora”, que se presta a numerosos equívocos, até por a realidade a que diz respeito estar em mutação.
A verdade é que as editoras que conhecemos são, basicamente, uma realidade do século XX. Nasceram no século anterior, de uma aliança entre as livrarias e as tipografias destinada a dar resposta à industrialização que a crescente classe letrada procurava nos produtos ligados à palavra, mas foi só no século XX, quando a alfabetização ganhou massa crítica, que realmente se geraram as condições para o florescimento da atividade editorial. São, portanto, empresas intimamente ligadas à industrialização, e uma das causas das suas dificuldades atuais reside precisamente aí. É que a industrialização tem como base a produção em série de grande volume de produtos iguais. É isso que embaratece o produto final por gerar economias de escala. Mas para que tal seja viável é necessário que haja procura massificada de produtos iguais. Produção em série necessita de procura em série. Ora, se hoje, como muitos defendem, estamos em plena transição para uma época pós-industrial, em que a procura se pulveriza e a unicidade recupera a primazia, a organização tradicional das editoras fica logo aí em xeque.
Mas esta é a parte puramente económica da coisa. Tem influência, por vezes decisiva, mas está muito longe de constituir alguma espécie de todo.
É que as editoras também serviram durante muito tempo como uma espécie de provedores dos leitores. Sim, é verdade que respondiam à procura. Mas, como a literatura é, sempre foi, uma atividade de prestígio, elas também formatavam a procura. Até os aspetos económicos ganharem a primazia que têm hoje (processo que veio decorrendo paulatinamente ao longo de décadas, por mais que pareça ter acontecido de repente há uns anos quando as editoras começaram a ser compradas quase por atacado por grupos económicos poderosos), autor que se visse publicado podia gabar-se de um certo relevo na cultura de um país. Autor que se visse publicado com consistência mais um pouco.
O que nunca obstou à publicação de lixo com fartura, claro. Porque sempre houve editores mais interessados na parte comercial da atividade do que na cultural, porque sempre houve editores com pouca ou nenhuma perspicácia para distinguir o que pode ter relevo cultural do que não o terá nunca, porque sempre houve quem se autoeditasse sem ter conhecimentos ou qualidade suficiente para tal, porque sempre houve amigos, conveniências, mau gosto, cunhas, jeitinhos, censura, gente politicamente influente a mexer cordelinhos, em especial nos tempos da ditadura, em que a resposta dada aos cordelinhos mexidos por gente politicamente influente podia acarretar perigos vários, enfim, um nunca acabar de impurezas a macular os róseos Olimpos que por vezes se gosta de apresentar, em especial quando se fala do passado.
As coisas nunca foram rosadas. Sempre houve sordidez no meio, golpes baixos, interesses em compita, o diabo a quatro.
E no entanto, as editoras aí estão. Passaram por tudo isso, umas morreram, outras transformaram-se, outras nasceram cheias de genica e ideias, e aí estão.
Só que há um problema: nem todas as empresas que se intitulam editoras merecem que as chamemos assim.
Simplificando bastante para que melhor se entenda: uma editora é uma empresa que é cliente dos produtores de conteúdos e que tem como clientes os leitores, e isto não muda quando a transição pós-industrial acontece. Para que se possa falar com propriedade de editoras, as empresas têm de funcionar assim. Compram os conteúdos aos produtores — escritores, designers, paginadores, tradutores, etc. —, pagando-lhes, e juntam tudo para criar um produto novo, que depois comercializam.
Só que não é assim que funcionam bastantes das autoproclamadas “editoras” que existem por aí, e tem sido esse o principal foco de polémica em tempos mais recentes. Há empresas, e em bom número, que por mais que se disfarcem de editoras não o são, pois têm como clientes não só os leitores, ou até não principalmente os leitores, mas os próprios produtores de conteúdos.
E há uma monumental confusão à volta delas. Da qual falarei amanhã.
Antes de mais nada, se calhar convém pensarmos um pouco sobre alguns termos para sabermos bem de que estamos a falar. Começando pelo termo “editora”, que se presta a numerosos equívocos, até por a realidade a que diz respeito estar em mutação.
A verdade é que as editoras que conhecemos são, basicamente, uma realidade do século XX. Nasceram no século anterior, de uma aliança entre as livrarias e as tipografias destinada a dar resposta à industrialização que a crescente classe letrada procurava nos produtos ligados à palavra, mas foi só no século XX, quando a alfabetização ganhou massa crítica, que realmente se geraram as condições para o florescimento da atividade editorial. São, portanto, empresas intimamente ligadas à industrialização, e uma das causas das suas dificuldades atuais reside precisamente aí. É que a industrialização tem como base a produção em série de grande volume de produtos iguais. É isso que embaratece o produto final por gerar economias de escala. Mas para que tal seja viável é necessário que haja procura massificada de produtos iguais. Produção em série necessita de procura em série. Ora, se hoje, como muitos defendem, estamos em plena transição para uma época pós-industrial, em que a procura se pulveriza e a unicidade recupera a primazia, a organização tradicional das editoras fica logo aí em xeque.
Mas esta é a parte puramente económica da coisa. Tem influência, por vezes decisiva, mas está muito longe de constituir alguma espécie de todo.
É que as editoras também serviram durante muito tempo como uma espécie de provedores dos leitores. Sim, é verdade que respondiam à procura. Mas, como a literatura é, sempre foi, uma atividade de prestígio, elas também formatavam a procura. Até os aspetos económicos ganharem a primazia que têm hoje (processo que veio decorrendo paulatinamente ao longo de décadas, por mais que pareça ter acontecido de repente há uns anos quando as editoras começaram a ser compradas quase por atacado por grupos económicos poderosos), autor que se visse publicado podia gabar-se de um certo relevo na cultura de um país. Autor que se visse publicado com consistência mais um pouco.
O que nunca obstou à publicação de lixo com fartura, claro. Porque sempre houve editores mais interessados na parte comercial da atividade do que na cultural, porque sempre houve editores com pouca ou nenhuma perspicácia para distinguir o que pode ter relevo cultural do que não o terá nunca, porque sempre houve quem se autoeditasse sem ter conhecimentos ou qualidade suficiente para tal, porque sempre houve amigos, conveniências, mau gosto, cunhas, jeitinhos, censura, gente politicamente influente a mexer cordelinhos, em especial nos tempos da ditadura, em que a resposta dada aos cordelinhos mexidos por gente politicamente influente podia acarretar perigos vários, enfim, um nunca acabar de impurezas a macular os róseos Olimpos que por vezes se gosta de apresentar, em especial quando se fala do passado.
As coisas nunca foram rosadas. Sempre houve sordidez no meio, golpes baixos, interesses em compita, o diabo a quatro.
E no entanto, as editoras aí estão. Passaram por tudo isso, umas morreram, outras transformaram-se, outras nasceram cheias de genica e ideias, e aí estão.
Só que há um problema: nem todas as empresas que se intitulam editoras merecem que as chamemos assim.
Simplificando bastante para que melhor se entenda: uma editora é uma empresa que é cliente dos produtores de conteúdos e que tem como clientes os leitores, e isto não muda quando a transição pós-industrial acontece. Para que se possa falar com propriedade de editoras, as empresas têm de funcionar assim. Compram os conteúdos aos produtores — escritores, designers, paginadores, tradutores, etc. —, pagando-lhes, e juntam tudo para criar um produto novo, que depois comercializam.
Só que não é assim que funcionam bastantes das autoproclamadas “editoras” que existem por aí, e tem sido esse o principal foco de polémica em tempos mais recentes. Há empresas, e em bom número, que por mais que se disfarcem de editoras não o são, pois têm como clientes não só os leitores, ou até não principalmente os leitores, mas os próprios produtores de conteúdos.
E há uma monumental confusão à volta delas. Da qual falarei amanhã.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Da edição presente e futura: Prolegómenos e apresentação
Tem havido nos últimos tempos, não só na blogosfera literária portuguesa, mas espalhada por colóquios e revistas, pelo twitter e pelo facebook, ramificando-se, na verdade, bem para lá da restrita realidade nacional, englobando todo o planeta que lê, uma discussão de baixa intensidade, com ocasionais picos de polémica por vezes salpicados até daquela violência típica das polémicas que não se limitam a acontecer mas estalam, com estrondo, sobre o futuro do livro e da leitura e do papel e lugar que as editoras terão nele e têm hoje em dia.
Não tenho intervido. Mas tenho pensado no assunto, na medida do tempo disponível.
Não tenho intervido porque acho o problema demasiado complexo e multifacetado para ser desenovelado em duas penadas truz, pás, já está, como parecem julgar muitos dos que têm guardado menos reserva do que eu. Talvez não seja de surpreender, portanto, que muito do que por aí se tem vindo a dizer me soe a disparate, ou pelo menos a reflexão pouco amadurecida.
Mas como tenho pensado, e até acho que as conclusões ou impressões a que tenho chegado fazem algum sentido, a tentação de intervir tem-se feito sentir, e cada vez com mais acuidade.
Por fim, agora que tenho algum tempo livre nas mãos (que já não tenho, na verdade, mas boa parte disto já está escrita há algum tempo, portanto é como se tivesse), achei boa forma de empregá-lo passar a texto corrido o que me vai pela cabeça. Esta reflexão será publicada aos bocados, aqui no blogue, ao longo dos próximos dias. Não é definitiva, obviamente. Encontramo-nos num momento de mudança, e se há algo que estes momentos têm em comum é as coisas estarem em fluxo. É da natureza de momentos como este que o que parece hoje certo poderá não o ser amanhã. E isso faz com que tudo o que eu aqui escreva tenha em si uma certa dose de contingência. Podem ver nisto um aviso à navegação.
Mas quem diabo é este gajo, e que sabe ele sobre isto?, poderá pensar quem caia por acaso neste obscuro cantinho da internet.
É justo. É melhor que me apresente, não é? O que eu sei e penso sobre estes assuntos vem da seguinte experiência, e deixo ao critério de quem ler isto a avaliação sobre se é suficiente ou não para merecer a vossa atenção:
Trabalho vai para oito anos como tradutor profissional, tendo traduzido tanto livros de pequena visibilidade como alguns dos livros mais visíveis publicados em português nos últimos anos, seja em Portugal, seja no Brasil. Antes de ser tradutor, publiquei um pequeno livro de ficção, fruto de uma menção honrosa num concurso literário. Também antes, tive um romance recusado por uma grande editora, que na altura tinha uma coleção de ficção científica, com o argumento de que o livro tinha muito humor e pouca FC. Pura verdade: tem mesmo. Tive contrato assinado para a publicação de um livro de contos em Portugal, numa pequena editora. A publicação nunca aconteceu; depois de alguma trapalhada, comuniquei-lhes que já não estava interessado. A editora entretanto fechou portas. Tive tudo apalavrado para a publicação de um livro no Brasil, também numa pequena editora, embora sem contrato assinado; depois de vários adiamentos e também de bastante trapalhada que me deixou desconfiado daquilo em que me estava a meter, a edição foi anulada pela editora quando lhes exprimi essa desconfiança. Também esta editora já fechou portas. Não fiz mais nenhuma tentativa séria para publicar através de editoras, embora tenha sondado informalmente uma quarta editora, portuguesa, e não tão pequena como isso, sobre o interesse que teria em publicar uma coletânea de contos meus. Não tinha. Contos não vendem, parece, em especial se forem de ficção científica. Ironicamente, esta editora continua em atividade.
E sim, tudo isto fez parte da tal reflexão.
Que mais?
Ah, publiquei em print on demand um livro de crónicas, originalmente publicadas num jornal algarvio, que achei que pouco interesse teria fosse para quem fosse (não só o achei como o escrevi na introdução, aliás), mais para experimentar o processo do que por qualquer outra razão.
Publiquei ficção curta em vários sítios, de uma forma a que se convencionou chamar “profissional”, se bem que ninguém que o faça ganhe o suficiente para disso viver. Antologias, em especial no Brasil, e uma revista em Inglaterra, pagaram-me por textos meus.
Suponho que também seja relevante ter criado o Bibliowiki, não só pelo acompanhamento a ele inerente do que se vai editando no campo das literaturas fantásticas, por cá e noutros países de língua portuguesa, como por uma certa perspetiva histórica que ele também traz.
Por fim, tenho sido editor eletrónico intermitente desde que, em 2001, criei o E-nigma. Isso nada me disse sobre as editoras e como funcionam, mas deixou-me ensinamentos vários sobre algumas possibilidades de caminhos futuros para a leitura e a edição.
E pronto, é isto que este gajo é. O gajo está apresentado. Está feita a introdução. Seguem-se ideias.
Amanhã.
Não tenho intervido. Mas tenho pensado no assunto, na medida do tempo disponível.
Não tenho intervido porque acho o problema demasiado complexo e multifacetado para ser desenovelado em duas penadas truz, pás, já está, como parecem julgar muitos dos que têm guardado menos reserva do que eu. Talvez não seja de surpreender, portanto, que muito do que por aí se tem vindo a dizer me soe a disparate, ou pelo menos a reflexão pouco amadurecida.
Mas como tenho pensado, e até acho que as conclusões ou impressões a que tenho chegado fazem algum sentido, a tentação de intervir tem-se feito sentir, e cada vez com mais acuidade.
Por fim, agora que tenho algum tempo livre nas mãos (que já não tenho, na verdade, mas boa parte disto já está escrita há algum tempo, portanto é como se tivesse), achei boa forma de empregá-lo passar a texto corrido o que me vai pela cabeça. Esta reflexão será publicada aos bocados, aqui no blogue, ao longo dos próximos dias. Não é definitiva, obviamente. Encontramo-nos num momento de mudança, e se há algo que estes momentos têm em comum é as coisas estarem em fluxo. É da natureza de momentos como este que o que parece hoje certo poderá não o ser amanhã. E isso faz com que tudo o que eu aqui escreva tenha em si uma certa dose de contingência. Podem ver nisto um aviso à navegação.
Mas quem diabo é este gajo, e que sabe ele sobre isto?, poderá pensar quem caia por acaso neste obscuro cantinho da internet.
É justo. É melhor que me apresente, não é? O que eu sei e penso sobre estes assuntos vem da seguinte experiência, e deixo ao critério de quem ler isto a avaliação sobre se é suficiente ou não para merecer a vossa atenção:
Trabalho vai para oito anos como tradutor profissional, tendo traduzido tanto livros de pequena visibilidade como alguns dos livros mais visíveis publicados em português nos últimos anos, seja em Portugal, seja no Brasil. Antes de ser tradutor, publiquei um pequeno livro de ficção, fruto de uma menção honrosa num concurso literário. Também antes, tive um romance recusado por uma grande editora, que na altura tinha uma coleção de ficção científica, com o argumento de que o livro tinha muito humor e pouca FC. Pura verdade: tem mesmo. Tive contrato assinado para a publicação de um livro de contos em Portugal, numa pequena editora. A publicação nunca aconteceu; depois de alguma trapalhada, comuniquei-lhes que já não estava interessado. A editora entretanto fechou portas. Tive tudo apalavrado para a publicação de um livro no Brasil, também numa pequena editora, embora sem contrato assinado; depois de vários adiamentos e também de bastante trapalhada que me deixou desconfiado daquilo em que me estava a meter, a edição foi anulada pela editora quando lhes exprimi essa desconfiança. Também esta editora já fechou portas. Não fiz mais nenhuma tentativa séria para publicar através de editoras, embora tenha sondado informalmente uma quarta editora, portuguesa, e não tão pequena como isso, sobre o interesse que teria em publicar uma coletânea de contos meus. Não tinha. Contos não vendem, parece, em especial se forem de ficção científica. Ironicamente, esta editora continua em atividade.
E sim, tudo isto fez parte da tal reflexão.
Que mais?
Ah, publiquei em print on demand um livro de crónicas, originalmente publicadas num jornal algarvio, que achei que pouco interesse teria fosse para quem fosse (não só o achei como o escrevi na introdução, aliás), mais para experimentar o processo do que por qualquer outra razão.
Publiquei ficção curta em vários sítios, de uma forma a que se convencionou chamar “profissional”, se bem que ninguém que o faça ganhe o suficiente para disso viver. Antologias, em especial no Brasil, e uma revista em Inglaterra, pagaram-me por textos meus.
Suponho que também seja relevante ter criado o Bibliowiki, não só pelo acompanhamento a ele inerente do que se vai editando no campo das literaturas fantásticas, por cá e noutros países de língua portuguesa, como por uma certa perspetiva histórica que ele também traz.
Por fim, tenho sido editor eletrónico intermitente desde que, em 2001, criei o E-nigma. Isso nada me disse sobre as editoras e como funcionam, mas deixou-me ensinamentos vários sobre algumas possibilidades de caminhos futuros para a leitura e a edição.
E pronto, é isto que este gajo é. O gajo está apresentado. Está feita a introdução. Seguem-se ideias.
Amanhã.
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