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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Por outro lado...

Por outro lado, se os valores avançados aqui pelo Miguel Madeira são verdadeiros, o caso muda de figura. As notícias da comunicação social tinham-me levado a crer que a quantidade de grávidas vacinadas era significativa, e não os menos de 10% que ele refere. Julgava que por esta altura andasse pela metade. E, que eu saiba, o número de mortes de fetos referidos pelos media é de 3, não de 4. Mesmo assim, é o dobro do esperado com um nível de vacinação tão baixo. Isso pode querer dizer que há realmente qualquer coisa ali, mas também pode ser simples acaso. Por mais que se publiquem livros a dizer que não há coincidências, elas existem mesmo. E quando os números são muito baixos, e 3 ou 4 são números muito baixos, é praticamente impossível fazer inferências estatísticas com um mínimo aceitável de solidez.

De resto, mesmo que haja algum fogacho a causar este fumo, não se justifica de forma nenhuma o alarmismo que tem sido gerado por certos media. Mesmo se todas as mortes de fetos fossem provocadas pela vacina, que comprovadamente não são, estamos a falar de 3 ou 4 mortes fetais em cinco mil grávidas. Mantendo embora em mente a advertência sobre a nula solidez de inferências estatísticas com números destes, eles parecem indicar que a probabilidade do mesmo acontecer a qualquer grávida vacinada nem a 0,1% chega.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Péssimo jornalismo

Muitas vezes, ao assistir a telejornais ou enquanto lemos jornais, somos confrontados com informações e abordagens à informação que nos parecem duvidosas, mas somos obrigados a ficar na dúvida porque não sabemos o suficiente sobre o tema para decidir com certeza.

Mas noutras vezes basta fazer contas.

É o caso do muito que se tem falado nas últimas semanas sobre uma "relação" entre mortes de fetos e a vacina contra a gripe A que tem sido dada às grávidas. Não raro, sugere-se que é a vacina que causa essas mortes, ou pelo menos lança-se a dúvida. Será? Não será? Não perca as notícias de amanhã para mais pormenores.

Ora isto é péssimo jornalismo.

Péssimo.

Porquê? Porque não se destina a informar, mas sim a vender jornais e anúncios nos intervalos dos telejornais e noticiários radiofónicos. Porque cria uma suspeita sem qualquer razão de ser, disseminando entre as pessoas a incerteza e o medo. Porque é sensacionalista, mesmo nas suas versões mais suaves. E porque basta fazer contas para se ver que o assunto é uma não-notícia.

Fetos morrem durante a gestação. Sempre morreram, e sempre morrerão. É um processo biológico inteiramente normal, e que nunca desaparecerá. Por muito que custe aos pais que não o serão, por muito que possamos solidarizar-nos com a sua dor, há fetos que simplesmente não são viáveis. Há fetos que dão nós no cordão umbilical que interrompem o fornecimento de sangue. Há fetos com doenças genéticas que não permitem um desenvolvimento normal. Há uma série de motivos que desembocam todos num resultado comum: a morte do feto.

Ora, em Portugal sabe-se que esse desfecho acontece a cerca de 300 gravidezes todos os anos. É quase um feto morto por dia. De modo que agora que se está a vacinar primordialmente as grávidas, continua a morrer cerca de um feto por dia, e inevitavelmente alguns morrerão pouco depois da mãe ser vacinada. É evidente, é óbvio, é claro. De tal modo claro que a única notícia que se justifica é relatar este facto e passar à frente.

Mas não. O péssimo jornalismo que vamos tendo tem feito disto tema de notícias atrás de notícias, reportagens, o diabo a quatro.

Depois admiram-se.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

Gripe

A gripe é tramada. Ataca um gajo quando um gajo está de costas, nem aviso dá, e um gajo não pode fazer nada que não seja cair de cama, torcendo-se com a dor de cabeça e as convulsões da tosse, enquanto desespera pela hora de tomar a dose seguinte de comprimidos que baixem a febre dos 39 e contribuam, deseja-se, para uma cura rápida.

Ao fim de demasiados dias, pois são sempre demasiados, chega a convalescença, aquela fase ridícula em que ainda se está doente mas já não se está propriamente doente, em que se faz uma vida que se tenta ir fazendo regressar ao normal mas com muito, muito cuidadinho, como se ela, a vida, se tivesse de repente tornado frágil como cascas de ovos.

Mas nem tudo é mau. Na convalescença, enquanto se espera que o corpo recupere o suficiente para tomar um banho e sair para a rua a fazer a vida de todos os dias, há tempo e disponibilidade de pôr algumas coisas em dia. E para fazer um primeiro post no blog.

segunda-feira, 26 de julho de 2004

Despendurar coisas penduradas

OK, sei que não é bem assim, mas sinto que devo uma explicação a alguns dos que gostam deste blog: tive umas semanas lixadas.

Em grande parte porque o meu pai foi operado às cataratas. A operação correu bem, mas gerou grandes tensões domésticas, que se somaram às que já havia com a dieta para a diabetes. Isto agora é assim, parece.

Do que se passa lá fora nem é preciso falar. Sobre o cabeça-lambida que foi ineleito para estragar este país um pouco mais, basta o que se vê todos os dias na imprensa. A evidência da catástrofe que aí vem avoluma-se hora a hora. Estão a ver mais ou menos o que é um tsunami? Então agarrem-se.

Tudo somado, deu para abandonar o blog às moscas e aos visitantes que teimaram em cá vir. Nem os comentários li, nestes dias.

Mas li-os hoje, e respondi a vários. Ao menos isso.

quinta-feira, 10 de junho de 2004

Bem-vindos ao admirável mundo novo dos hospitais-empresa

O meu pai passou esta noite no hospital.

Uma diabetes recém-descoberta, com níveis de glicémia que em análises realizadas há algum tempo eram acima do máximo, mas não muito, mas que entretanto tinham já subido para mais de quatro vezes o máximo, levou-o, primeiro, ao centro de saúde e, depois, às urgências do Hospital do Barlavento Algarvio, onde acabou por ficar internado para observação.

Já saiu, felizmente, com uma receita e instruções vagas sobre o que pode e não pode comer daqui para a frente.

Chegado cá fora, contou-nos a noite que passou.

Uma maca, num corredor, serviu de cama. Um corredor movimentado e, obviamente, bem iluminado, por onde passaram pessoas a noite inteira. Um corredor por onde também se passeou uma corrente de ar frio a noite inteira. Ele, vestido com um pijama fino do hospital, teve direito a um lençol como cobertura e nada mais. Diz que passou frio a noite inteira.

Também passou sede a noite inteira, apesar de a sua ficha dizer explicitamente que precisava de bastante água. Não lha deram. Ou antes, deram um par de garrafinhas pequenas e nada mais.

Também passou fome, apesar do soro, porque o pequeno-almoço chegou já bem depois das 10 de manhã.

E teria ficado entregue à miopia, a tentar adivinhar o que se passava em volta de si pela interpretação do significado de vultos desfocados, se não tivesse exigido (e conhecendo-o, deve ter sido um espectáculo ruidoso) ficar com os óculos. Queriam tirar-lhos. São normas, diziam.

Eu não vi nada disto. Como quando deixam entrar alguém para falar com os doentes é só uma pessoa, fiquei cá fora, à espera, enquanto a minha mãe tratava do que havia a tratar. À espera e na mais absoluta ignorância porque não há ninguém disponível para explicar a quem espera o que se vai passando lá dentro e porque é que as coisas demoram horas.

Para as estatísticas, contam os números: um doente internado, uma dormida, uma alta. Análises ao sangue. Soro, x litros. Duas garrafas de água. Um iogurte.

Poupadinho.

Bem-vindos ao admirável mundo novo dos hospitais SA. Vão-se mentalizando, porque de futuro serão todos assim.