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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Macaé

Nos mundinhos da FC lusófona o discurso mais comum é o discurso ranheta. Que nunca nada é bom, que nada se faz, nada acontece, que o mar de mediocridade não tem fim, que ninguém nos liga, que ninguém gosta de nós, que ninguém nos entende, mimimi, mimimi, mimimi. O velho pintainho preto com a casca de ovo na cabeça, o Calimero, não faria melhor. A choradeira parece imparável, e isso tanto acontece do lado de cá como do lado de lá, embora do lado de cá seja geralmente bem mais intensa, temperada que costuma vir com o fadinho do desgraçadinho.

Depois acontecem coisas destas. Do lado de lá, está claro. Um projeto de educação organizado pela perfeitura de Macaé (no Brasil a perfeitura é equivalente às nossas câmaras municipais), cidade de 200 mil habitantes no estado do Rio de Janeiro, ganhou um prémio de responsabilidade ambiental. O que é que isto tem de invulgar? É que o projeto foi idealizado por um escritor de ficção científica, Clinton Davisson, a partir de um livro de ficção científica, Hegemonia.

Sim, é isso mesmo. Um livro de FC e um autor de FC não só tiveram um projeto educativo aprovado e implementado por uma câmara municipal duma cidade que, para os padrões brasileiros, tem uma dimensão média, como ainda por cima foram premiados por isso.

Como é a tal cançoneta? Mimimi, mimimi, mimimi?

Pois.

domingo, 27 de março de 2011

Isto de ter razão é giro

Recebi há minutos uma notificação. Alguém tinha deixado um comentário num velho post aqui da Lâmpada. Neste velho e polémico post, mais precisamente. O comentário trazia um link para um vídeo do YouTube, doze minutos sobre a coleção Argonauta e principalmente sobre as edições do livro Estação de Trânsito do Clifford D. Simak. O vídeo arruma o assunto de vez, espera-se. Com factos, livros, essas coisas. Nem um deliriozinho para amostra. Assim é que deve ser.

Do que lá é dito só discordo de uma coisa: na minha opinião, a Argonauta não acabou por causa da mudança de formato. Já antes lhe tinham dado o golpe de misericórdia, aí por meados da década de 90, desbaratando décadas de prestígio com as piores traduções que vi na vida e livros que se começavam a desfazer no momento em que eram abertos. Foi isso que matou a Argonauta. A mudança de formato foi apenas uma tentativa desastrada de tapar o rombo. Concordo que só conseguiu escancará-lo mais, mas o rombo já estava feito. E o navio foi mesmo ao fundo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sexo! Sexo! Sexo! E mais sexo!

Já perceberam, não é? A segunda parte do podcast do PODespecular sobre sexo na ficção científica e fantasia, em que eu participo, já está online, aqui. É basicamente a continuação da conversa divertida e algo caótica da primeira parte (ver aqui), após o que se segue uma secção mais focada sobre a antologia Como Era Gostosa a Minha Alienígena (bib.), na qual eu faço revelações inéditas sobre a origem do conto com que nela participo. E também falo de um outro conto erótico que escrevi, o Aniversário, e só ao ouvir o podcast me lembrei de que tinha prometido o link ao Paulo Elache. Esqueci-me por completo. Má onda, Paulo, desculpa aí.

Mas mais vale tarde do que nunca, não é? Então o conto pode ser lido aqui. Divirtam-se. Mas não se divirtam demasiado, vejam lá!

terça-feira, 27 de abril de 2010

Sexo! Sexo! Sexo!

Chamei-vos a atenção? Eu sei que sim.

Pois é só para vos informar de que já está no ar a minha estreia no estranho mundo dos podcasts. Trata-se do 4º episódio do podcast brasileiro PODespecular, para o qual fui convidado para conversar sobre sexo na ficção científica e fantasia com uma série de gente ligada à FC brasileira. E a conversa foi tão prazerosa (ahem!) que, prevista para um episódio, teve de ser dividida em dois! O que está no ar é a primeira parte, e a seu tempo haverá uma segunda. Os interessados podem encontrar essa primeira parte aqui. Não se assustem com a longa secção de "cartas ao podcast": quando chega ao sexo a coisa fica mais viva. E informativa, espera-se.

Espero ter defendido bem as honras do convento lusitano naquela terra brasilis virtual. Curiosamente, lá os participantes entenderam na perfeição o meu sotaque algarvio. Veremos se acontece o mesmo com os ouvintes.

PS de 29 de Abril: Os links estão de momento indisponíveis, por o tráfego ter excedido o limite, suponho, mensal. Se assim for, é provável que voltem a estar funcionais a 1 de Maio.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Limpeza dos últimos pratos

Já agora, e para limpar os pratos todos no que a esta nojeira diz respeito, vou aqui assumir, e fechar de vez, a minha "carreira anónima".

Criei, anonimamente, dois blogues. O Galgo Fedoralgo e o MacJête, ambos com a ambição de serem humorísticos. O primeiro nunca teve leitores, provavelmente por nunca ter tido piada; o segundo teve leitores e, segundo alguns desses leitores, alguma piada. Ambos estão mortos há muitos anos.

Em fóruns em que a regra era usar pseudónimos (cada vez é menos, mas numa dada altura isso era norma), fui semianónimo em alguns. Em todos já não escrevo há anos. E digo semi porque nunca neles me inscrevi com endereços de email que não fossem os mesmos que uso para tudo o resto e, portanto, ainda que os utilizadores normais não soubessem com quem estavam a falar, os administradores sempre souberam. Estão nesse caso o Bad Books Don't Exist, onde tive umas trocas azedas de palavras com o "dono" daquilo, o qual sabia perfeitamente que o "itsfullofstars" era eu, O Cantinho dos Livros, cujo admin revelou, assim que me inscrevi, e com a minha autorização, que eu era o "CantoInferiorEsquerdo", e julgo que também usei um pseudónimo qualquer no SciFreaks, que parece estar extinto (ou pelo menos inacessível de momento) e não me permite ir confirmar. E só. Noutros sítios sou ou Candeias, ou Jorge, ou uma mistura das duas coisas. Quando comento em blogues, por exemplo, é invariavelmente como Jorge, e sempre assim foi, exceto, se bem me lembro, um caso há uma porção de anos em que comentei como Jorge C. num blogue político qualquer para me distinguir de outro Jorge que andava por lá a dizer disparates.

E agora, graças a recentes canalhices provenientes do mesmo sítio de onde elas provém sempre neste deprimente fundown lusitano, só me encontrarão ou no fórum da Saída de Emergência (onde sou "candeias"), ou na minha conta de twitter ou na de facebook, ou no Thousands of Planets ou aqui na Lâmpada, ou então em blogues que me exijam autenticação. Se vir a opção de comentar anonimamente, vou-me embora, quer tenha alguma coisa a dizer, quer não tenha. As coisas chegaram ao ponto em que quem aceita comentários anónimos está a promover a canalhice, a calúnia e o respingar de lama para todos os lados. O mais certo é os anónimos serem eles próprios (na verdade, em certos casos, sei que são). E eu, de certos vigaristas e canalhas só quero uma coisa: distância. Muita.

E se vos disserem, ou de alguma forma sugerirem (certa gentalha é perita na insídia), que algum texto que não obedeça ao que ficou aqui escrito acima é meu, exijam provas. Elas não existirão. E quem o afirmar ou sugerir é um mentiroso e um canalha.

PS de alguns minutos mais tarde: entretanto consegui, por vias travessas, verificar qual o nome que usava no SciFreaks, e não era pseudónimo: era "candeias". Ficam só aqueles dois, portanto.

PPS de algumas horas depois: Esquecimento imperdoável, que no entanto se explica por nada ter a ver com o fundown! Fui também anónimo noutro sítio: no chat que o Markl tinha. Aí era itzemi. Deixei de lá ir mais ou menos na altura em que abri conta no twitter.

domingo, 30 de agosto de 2009

Dagon

Chegou ontem. A Dagon é o mais recente fanzine eletrónico do fantástico português, e este número zero é enorme: 188 páginas de textos diversos, entre artigos, contos, entrevistas e outras coisas daquelas de que se compõem as publicações periódicas. Alguns destes textos já tinham sido antes publicados em vários sítios, em particular no Correio do Fantástico, mas a maioria é inédita.

Eu lá estou representado com três textos. Seguindo a ordem por que aparecem no fanzine, começam por uma entrevista já antes publicada no Correio. Depois vem um conto humorístico sobre viagens no tempo, ou se calhar sobre a evolução da linguagem, ou na volta sobre o confronto das gerações. Nem sei bem. Mas espero que curtam bué. E por fim um longo artigo de opinião, assumidamente desprovido de certezas, sobre os clichés e a literatura, centrado na fantasia épica e na ficção científica, que acaba por tocar também em muitas outras coisas.

A lista completa de autores, sacada do índice, é: Pedro Ventura, Roberto Mendes, Carla Ribeiro, Luís Filipe Silva, Fábio Júnior, Jorge Candeias, Francisco Norega, Marcelo Ferroni e Michael Tagge.

Edit: Os editores fizeram uma nova versão com alguns detalhes alterados, que pode ser descarregada daqui. Tudo o que escrevi na Lâmpada até ao post de 1 de Setembro refere-se à primeira versão. A partir daí será à segunda.

domingo, 5 de julho de 2009

E eis que o João Seixas desce às catacumbas do asco

Com isto caíram todas as máscaras que ainda pudessem existir. Nunca vi ninguém descer tão baixo, nunca vi tamanho arraial de deturpações, mentiras, insultos, e a mais vil das baixarias. O João Seixas revelou-se com absoluta clareza como aquilo que sempre foi.

Ainda bem. Quando o sol brilha sobre as coisas feias deste mundo, os homens sabem finalmente com o que contam.

Ainda pensei se valeria a pena meter as mãos em tal lodo, porque se há coisa certa quando se metem as mãos no lodo é ficar-se com elas sujas. Mas a coisa é demasiado grave para ficar sem resposta. Portanto, mola no nariz, e vamos lá mostrar quem aqui fala verdade e quem mente.

Escreve o Seixas:

É que quer o Jorge, quer o Nuno, parecem pensar que estamos ainda nos primórdios da FC Portuguesa. O Jorge, por exemplo, acredita que a FC Portuguesa nasceu com ele, em 2000, e que desde essa data o devia orbitar, fascinada pela sua capacidade de luminosa condução do género na agreste travessia dos vários desertos que tem enfrentado.


Se o Seixas acha que o Jorge e o Nuno pensam isso, lá com o Seixas. Nada de novo. Mas o exemplo sobre as "crenças do Jorge" chega a ser divertido quando se tem em vista que naquilo que eu realmente escrevi é referida uma quantidade de colecções que já estavam todas mortas ou moribundas em 2000. A honestidade resplandece.

O que o Nuno pensa ele o dirá, se quiser, mas o que eu penso é que se foram cometendo variadíssimos erros ao longo da história da edição de FC em Portugal, erros esses que foram afastando público, que, no entanto, continua a estar lá à espera de quem o saiba ir encontrar. Nenhuma semelhança, como qualquer pessoa com olhos na cara poderá ver, com a bojarda do Seixas. E sim, Seixas, editar colecções antes do seu tempo é um sinal de incompetência, é sinal de que o editor não está sintonizado com o seu público, e que portanto é um mau editor, seja ou não membro de alguma cáfila (de camelos?), seja ou não sinistro. A Contacto é por isso mesmo um excelente exemplo do tipo de erros que afastou os leitores. Posts como este do Seixas são outro exemplo, igualmente excelente na vertente asquerosa da coisa. São precisamente estas coisas que enterram a FC portuguesa. E a culpa dos erros é de quem os comete, certamente não do público leitor.

Mais. Escreve o Seixas:

No meio da sua diatribe, meio contrafeito, ele lá acaba por dar razão àquilo que eu aqui escrevi: o principal problema, assumido ou não, que assola a presente situação da FC Portuguesa é o público leitor. Isso transparece quando afirma, referindo-se aos Editores nacionais, que “nunca lhes entrou na cabeça que públicos leitores diferentes tomam opções diferentes de leitura, e tentaram impingir aquilo que achavam o supra-sumo da modernidade ou dos clássicos, importando padrões alheios que, como deveria ser evidente para qualquer um, não funcionam necessariamente por cá (…)”. Ou seja, o nosso público leitor, pelo menos de há 45 anos para cá (embora pudéssemos alargar isso à data da criação da Colecção Argonauta) não tem padrões de cultura que lhe permitam apreender e apreciar, nem as obras clássicas da FC, nem as mais recentes evoluções do género. Ou, porque o Jorge espalha esta sua asserção indiscriminadamente pelos anos 1980s, 1990s e 2000s, seria de perguntar quando perderam os leitores esses padrões? Ou mesmo, se alguma vez os chegaram a ter?


Admire-se o grau de deturpação que aqui está patente. Eu escrevo que editores incompetentes são incapazes de se aperceber de que públicos diferentes têm necessariamente opções diferentes quando chega a hora de preferir leituras, e que portanto é erro crasso tentar simplesmente macaquear padrões alheios como bom macaquinho de imitação. Aqui o nosso impoluto amigo diz que eu digo que o público português não tem padrões de cultura. Eu falo em padrões diferentes, o tipo diz que falo em ausência de padrões. Palavras para quê? É um artista português, e se calhar até lava os dentes.

E depois tem o desplante de pedir consultadoria grátis. Paguem-me, e eu explico. Se bem que de certos tipos nem a transferência do Cronaldo chegaria, até porque o mais certo seria o cheque vir sem cobertura. E porque de nada valeria. Há gente que é incapaz de acolher uma ideia nova na caixa craniana.

Depois, vem isto:

Certamente, uma editora gerida pelo Jorge Candeias seria um motor imparável na criação de um público leitor de FC em Portugal. Aliás, a actividade do Jorge Candeias nesse campo está cheia de sucessos e bons exemplos. Ele conhece perfeitamente o público leitor, e escreve especificamente para ele. Infelizmente, os seus trabalhos foram recusados por TODAS as editoras nacionais a que foram submetidos; o seu romance on-line, gratuito, teve um afluxo de leitores digno de um best-seller, alcançando quase… duzentos! Tudo isto, observe-se, são dados objectivos e frios, independentes de qualquer consideração sobre o mérito dos trabalhos do Jorge (que, como todos nós, é capaz tanto do melhor como do pior). Mas que impõe mais uma vez a questão: culpa dos Editores que não compreendem o Público Leitor? Culpa do Público Leitor que não compreende o Jorge? Culpa do Jorge que não compreende nada?

É verdade, os meus trabalhos foram recusados por todas as editoras nacionais a que foram submetidos. A contagem completa é a seguinte: O Por Vós lhe Mandarei Embaixadores foi submetido a uma editora: a Presença. E... hm... é só. Além dessa, houve uma única submissão (que não é bem submissão, é mais um sondar de interesse sobre trabalhos que ainda precisariam de ser trabalhados) cuja resposta ainda não chegou. E rejeitei um convite para publicar um livro de contos por achar que não tinha na altura nenhum conjunto suficientemente coerente. Isto quanto a trabalhos grandes, claro. Em contos e afins tive um rejeitado pela Ficções, e sei que estou aí em óptima companhia. E é só, porque as outras antologias foram todas organizadas por convite e não por submissão, e como toda a gente sabe no convite entra-se mais no território da clique do que de qualquer outra coisa. Os dois convites que tive rejeitei-os a ambos, embora por razões diferentes. O livro que publiquei não foi propriamente submetido à edição (foi a concurso), portanto se calhar não conta. E as publicações pagas que tenho lá fora não estão em Portugal. Voltando ao Por vós..., os dados da edição electrónica estão desactualizados. Neste momento, segundo o Google Analytics, o número de visitantes já soma 277. Fizeram 420 visitas e viram quase 700 páginas.

E é esta a verdade, pura e inadulterada por seixices.

Agora vamos à mentira. A mentira é dizer-se que eu "escrevo especificamente para [o público leitor]". Nunca na vida escrevi para o público leitor, e menos ainda quando escrevi o Por vós... Este foi escrito para me divertir a mim, como, aliás, está claramente dito aqui, onde também quem souber ler nas entrelinhas verá que não o considero propriamente o supra-sumo da minha produção literária. Se o Seixas não fosse o exemplo de honestidade que é... mas que digo eu? Se o Seixas não fosse o exemplo de honestidade que é, o inferno estaria coberto por um glaciar. Há hipóteses demasiado absurdas para sequer perder tempo com elas.

Quanto ao resto, sim, tenho feito pela vida. Nos últimos três anos passaram-me pelas mãos quase cinco mil páginas, que me esforcei por traduzir o melhor possível e respeitando escrupulosamente os prazos, e estou a contar só os livros já publicados. Há mais dois por aí a rebentar - mais umas 800 páginas, mais ou menos. Garanto que foi mais fruto dos timings da editora do que de opções próprias - eu teria preferido um ritmo mais brando, especialmente no ano passado. E construí quase sozinho um site bibliográfico com 16500 entradas. Não é nada, diz o tipinho. E depois acaba dizendo uma coisa óbvia:

Quem reclama a falta de publicação de ficção curta nacional, deve divulgá-la e criticá-la (e, já agora, comprá-la) quando esta é publicada.

Isto pretendendo subentender que não é o meu caso, claro. Ora, como sabe qualquer pessoa que tenha lido ainda que um punhado dos tais posts semanais, se há coisa que neles falo é dos contos que vou lendo. Lamento só ter começado a fazê-los depois de ter lido tanto a Sombra Sobre Lisboa, como as Ficções Científicas e Fantásticas, como os Contos de Terror do Homem-Peixe. É pena. Teria tido todo o gosto em esfregá-los na cara do Seixas, até porque felizmente bits não se sujam. Mas o que não falta ali é apreciações a contos e livros nacionais. Quem tiver dúvidas vá lê-los.

Mais palavras para quê? É este tipo que acusa os outros de má-fé. É este exemplo de honradez que acusa os outros de desonestidade.

Nota: post editado para remover o pior dos insultos. Foi estúpido publicar este post de cabeça quente. Os insultos fizeram-me descer ainda mais baixo do que o tipo. Não que não ache que os mereça, e a mais alguns, mas há coisas que fazem perder a razão onde ela existe e esta é uma delas. Por mais razão que eu tenha, ela ficou diminuída com a atitude à carroceiro. Depois de respirar fundo, lamento-a.

sábado, 4 de julho de 2009

A quem interessar possa

Gosto do twitter. É, ou pode ser se bem utilizada, uma ferramenta poderosa para fazer uma série de coisas, mas há algumas para as quais é manifestamente desadequado. E dificilmente poderia ser mais desadequado para discussões complexas.

Hoje meti-me numa. Partiu duma consideração que me parece perfeitamente óbvia: se um editor se queixa de não se editar o tipo de literatura xis, o que tem a fazer é ao menos tentar editá-la. Decentemente, se for capaz.

Esta constatação óbvia gerou uma série de reacções por parte de gente ligada ao editor em causa, levantando uma porção de lebres que serviram basicamente para desviar as atenções. Não podendo atacar a consideração, precisamente por ser evidente, atacou-se uma porção de outras coisas, incluindo a pessoa do constatador. Enfim. É o triste hábito.

Mas como as lebres foram muitas, e continuaram a insistir nelas, aqui vai o que eu penso a seu respeito.

Para mim, uma editora profissional é uma editora cujos editores são profissionais. Ou seja, é uma editora cujos editores obtêm da editora rendimento suficiente para se sustentarem. Uma editora cujos editores, mesmo que façam trabalhos por fora, não precisem de os fazer.

Pelo menos os editores. Já não falo de empregados e de outros profissionais que lhes prestem serviços.

Editoras que não cumpram este requisito não são editoras profissionais. Podem ser semi-profissionais ou amadoras, mas profissionais com toda a certeza que não são.

Há diferenças significativas entre uma editora que é profissional e outra que não o é, e a principal dessas diferenças é que uma editora profissional é obrigada, por uma questão de sobrevivência económica, a gerir muito bem o seu catálogo por forma a gerar um rendimento suficiente para continuar a pôr o pão na mesa dos seus trabalhadores e colaboradores.

Este objectivo pode ser atingido de várias formas. Pode apostar-se em grandes sucessos de vendas, independentemente da respectiva qualidade. Um único grande sucesso de vendas pode manter uma editora em funcionamento durante meses a fio, mesmo que nada faça a não ser preparar o próximo (e gerir as chatices com distribuidores, gráficas, e todas as outras coisas que se desenrolam nos bastidores). Outra forma é apostar em livros que lucrem apenas o suficiente para manter a máquina em funcionamento, o que implica um ritmo de edição acelerado, pois se cada livro lucrar pouco é preciso mantê-los a sair com regularidade para manter os profissionais alimentados, vestidos e, quando a coisa corre bem, com uma conta bancária não completamente depauperada.

É assim que funcionam as nossas editoras profissionais, e é por isso que tanta gente se queixa das prateleiras das livrarias estarem cheias de lixo. Eu, Carolinas, livros pretensamente escritos por vedetas de TV ou com presença assídua na TV e coisas que tais. É lixo, mas é lixo lucrativo, e capaz de pôr o pão na mesa dos profissionais. Estes editam o lixo precisamente porque são profissionais, e muitas vezes profissionais competentes. Goste-se ou não, a realidade é esta.

Uma editora que não é profissional funciona de forma bem diferente. Tanto as semi-profissionais como as amadoras aspiram no máximo a obter um rendimento modesto, que é complementado pelas outras actividades dos respectivos editores. Algumas podem mesmo dar-se ao luxo de perder sistematicamente dinheiro, desde que as outras actividades do(s) editor(es) lhe(s) dêem essa liberdade.

Como consequência, estas editoras são bem mais livres no que toca ao que editam e ao modo como editam, embora o reverso da medalha seja estarem geralmente em franca desvantagem no momento de negociar direitos. Mas tirando este detalhe, têm muito mais possibilidade de fazer uma edição de gosto, de prazer, do que as profissionais. E têm muito mais liberdade para editarem precisamente o quê e como lhes apetecer. Liberdade essa que é sagrada. Cada um que edite o que muito bem entender e como muito bem entender. Agora que não venha é depois, armado em Calimero, de ovo na cabeça, choramingar que não se edita aquilo que ele próprio não edita.

Entretanto, enquanto eu escrevia isto, o Seixas, no seu jeito troca-tintas e insultuoso do costume, deu um ar de sua falta de graça. Já que o fez, e já que o fez da maneira como fez, além de revelar que o tal editor que calimera porque não se edita o que ele não edita é precisamente o Seixas, acrescento o seguinte:

A edição de FC em Portugal tem sido, toda ela, baseada numa táctica simples: atiram-se livros cá para fora, geralmente muito mal traduzidos, não raro muitíssimo mal editados (com um texto que só com lupa se consegue ler, ou com páginas que começam a saltar assim que se abre o livro, etc.), sem qualquer tipo de promoção e reza-se para que o povo goste. A FC que se tem editado, quase exclusivamente estrangeira, é de dois tipos: a barata (autores obscuros e fraquinhos ou obras obscuras de bons autores) e a que o editor acha aposta segura (autores que já antes se editaram por cá, e com sucesso — motivo que leva a termos montes de material editado dum par de mãos-cheias de autores já bem entrados nos anos, e nada da generalidade dos mais novos.

(Um parêntesis para dizer que no que toca à ausência de divulgação, existe uma excepção. O romance Ar, de Geoff Ryman, que a Gailivro promoveu intensamente, com uma campanha de ofertas que provavelmente acabou por ser contraproducente quando chegou a hora de tentar vendê-lo — motivo pelo qual eu não aproveitei a oferta e preferi comprá-lo... mas suspeito de ter sido um entre poucos.)

As colecções de FC mais bem sucedidas e longevas que tivemos em Portugal seguiram um destes caminhos, ou ambos. A única excepção foi a colecção da Caminho, que sobreviveu durante década e meia com uma aposta na diversificação na origem geográfica e cultural dos autores, fugindo ao sufoco de autores anglo-saxónicos que sempre dominou as outras colecções (a Argonauta teve autores franceses, mas isso acabou nos anos 60) e em autores lusófonos, que têm a grande vantagem de não custarem direitos astronómicos nem precisarem de tradutores a que há que pagar, mesmo que mal.

Além disso, sempre reinou a incompetência. Algumas das pessoas que julgam que sabem alguma coisa de FC tentaram seguir parcialmente por outros caminhos, sempre com resultados desastrosos, porque nunca perderam cinco minutos que fosse a ponderar se aquilo seria, ou não, adequado ao público português. Nunca lhes entrou na cabeça que públicos leitores diferentes tomam opções diferentes de leitura, e tentaram impingir aquilo que achavam o supra-sumo da modernidade ou dos clássicos, importando padrões alheios que, como deveria ser evidente para qualquer um, não funcionam necessariamente por cá, e saltando apressadamente para a conclusão de que se aquilo que eles acham que devia vender não vende só pode ser porque não existe público para a FC.

Alguns exemplos foram a colecção Limites, da Clássica (que nem sequer foi distribuída para o país todo) ou a Contacto, da Gradiva, cujo único verdadeiro êxito foi um livro publicado à revelia do organizador da colecção. Esta última, que de facto tem livros muito bons e de autores suficientemente conhecidos do público para poder ter sido um êxito, falhou na parte física da edição e provavelmente no timing: numa época em que o público de FC estava acostumado às edições baratas dos livros de bolso, tentar impôr uma colecção de livros caríssimos de capa dura só podia ser suicídio. Como veio a ser. Se fosse hoje, a história teria provavelmente sido outra.

Culpa do público ignaro? Ou pura e simples incompetência? Eu voto, de caras, na segunda hipótese.

Para mim, é bastante evidente que existe um vasto público potencial para a FC em Portugal. Prova-o a quantidade de gente que consome ocasional ou regularmente ficção científica, ainda que muitos o façam através de outros media que não os livros e/ou em inglês, porque a imagem que o livro de FC em português tem é de ser pessimamente traduzido e caro. Muitas vezes merecida, há que admiti-lo.

De modo que pessoas que sejam sérias na tentativa de transformar esse público potencial em público real, e que tenham algum grau de competência, têm de partir desta base, e não de outra qualquer, sabendo à partida que o processo é necessariamente demorado. Têm de adaptar as suas estratégias à situação existente, fazendo as apostas correctas. A todos os níveis. Não me surpreende que muitos tenham medo sequer de tentar: não é um caminho fácil. É algo que só poderá ser feito por uma editora profissional respaldada por um grande sucesso, ou vários, ou por uma editora não-profissional com gente inteligente ao leme, gente com tempo para pensar bem na estratégia a seguir. Porque é preciso ter uma estretégia. Não basta querer e desistir à primeira dificuldade, e muito menos cair na choraminguice antes mesmo de se tentar.

E também é preciso ter estômago para aguentar os grãos ou verdadeiros calhaus que põe à primeira oportunidade na engrenagem quem diz ter interesse na evolução do género em Portugal mas na verdade faz todos os possíveis para destruir qualquer hipótese da FC singrar por cá, decretando a "ausência" de um mercado que ninguém procurou como deve ser criar, procurando desmoralizar quem produz, esforçando-se por diminuir as publicações que, apesar de tudo, existem, ou até, na verdade, toda e qualquer iniciativa que outros levem a cabo, etc., etc., etc. Os verdadeiros assassinos da FC em Portugal são estes, é esta gente que seria de toda a conveniência abrir a câmara de vácuo com eles lá dentro e deitar borda fora.

E se fosse só o Seixas, estaríamos nós bem.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Odisseias Fantásticas

Como provavelmente já saberão quase todos os leitores deste blogue mais interessados nestas coisas, tornei-me editor do Odisseias Fantásticas. Para quem não sabe, trata-se de um blogue que agrega aquilo que se vai postando noutros blogues ligados de uma forma ou de outra ao fantástico, sob todas as suas vertentes. E eu, enquanto editor, o que tenho de fazer é gerir as pertenças: verificar se os candidatos reúnem condições para se tornarem membros, identificar novos blogues com potencial, lidar com blogues inactivos ou extintos, esse tipo de coisa. Não é muito trabalho, espero — não tenho tempo para coisas que me dêem muito trabalho (como o estado meio dormente da própria Lâmpada atesta, aliás) — embora ainda seja algum nesta fase inicial, até as coisas entrarem em velocidade de cruzeiro. Seja como for, já sabem: se conhecem ou têm algum blogue que julguem poder inserir-se ali bem, avisem. O editor agradece.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A má notícia

Chegou-me por via dupla uma má notícia, ainda que não propriamente inesperada: O Phantastes já era. Compreendo perfeitamente os motivos que levam ao encerramento. Mesmo que eles não os explicitem não tenho qualquer dificuldade em imaginá-los: a falta de tempo para fazer um trabalho tão bom como se gostaria, a falta de gente com vontade de arregaçar as mangas e ajudar, e os silêncios, a má-língua e as sabotagenzinhas mesquinhas que perseguem todos aqueles que procuram fazer alguma coisa neste meio, e que eu conheço oh! tão bem demais. Oh, mas tão, tão bem.

Mas não é lá por compreender os motivos que tenho menos pena do fecho do fanzine. Antes pelo contrário. É que de cada vez que alguém desiste, aqueles que se só se sentem bem funcionando como grãos na engrenagem vencem um pouco mais, derrotando-nos a todos.

Por isso, Tiago, o que eu desejo agora é que das cinzas do Phantastes nasça qualquer outra coisa. Uma Fénix, quem sabe?

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Ah, os grandes, esses próceres

«Pois é, para verem que também os grandes tropeçam». Oh, que lindo é ver um grande homem ter a humildade de reconhecer que errou. Que alegria, que coisa de elevar o coração às alturas, que êxtase quase, diria eu, religioso. Como que se vê um halo de grandeza em volta da cabeça do prócer, só mais engrandecida ainda pelo reconhecimento do erro. Como que levita mais alto acima do pedestal da estátua equestre, qual monge budista em pleno nirvana. Cavalo e tudo.

As justificações do erro também são lindas de se ler. Que era o sono, a directa, os prazos, as casas, que havia factos a latir ao ouvido béu-béu-béu a dizer que não era assim, que o «bias» é perigoso, esse malandro, e ainda por cima um «bias» anglo-saxónico, portanto com muito mais nível do que o rasteirinho e lusitaníssimo viés, que provavelmente tira macacos do nariz e cheira mal dos pés. Oh, só vos digo, oh!

Mas voltemos à terra.

Curioso é que o Bibliowiki continue a ser tratado como pouco fiável, quando a informação que dele consta, neste caso concreto, é a certa, ao contrário da desinformação do João Seixas. Curioso é que depois do ataque à credibilidade de todo um projecto, com base em dados falsos, e por alguém que nunca moveu uma palha que fosse para que sejam corrigidas as falhas, omissões e erros que um site com quase quinze mil páginas necessariamente terá, se insista na sua infiabilidade, ainda que (vá lá) mitigada pelo «caos nas edições portuguesas». Curioso que a Biblioteca Nacional continue «descredibilizada de vez», sem saber como nem porquê. Curioso que a reacção ao duplo ataque seja atirada para a conta de «frustrações», enquanto o ataque propriamente dito e outras cutucadas menores passem sem sequer um simulacro de pedido de desculpa. Curioso que, em tudo isto, o autoproclamado «grande homem», que sabe onde eu estou, tem o meu número de telefone e conhece pelo menos dois dos meus endereços de correio electrónico, nunca tenha feito a mínima tentativa de me contactar com as dúvidas que diz que teve e provavelmente continuará a ter, a menos que voltem a ser substituídas por mais certezas falsas à próxima oportunidade. Curioso, curioso, curioso e mais uma camada de curioso a cobrir o bolo.

Sim, o fandom português tem problemas. E a presunção balofa, a diarreia verbal, o achar-se que só os «grandes homens» são inteligentes enquanto todos os outros não passam duma cambada de imbecis, ao mesmo tempo que se vai escrevendo asneira atrás de asneira, estão longe de ser os menores desses problemas. No fandom, e no país em geral.

E assim ponho uma pedra neste assunto, espero. Será preciso algo de muito grave para voltar a ele. É que tenho mais que fazer. Coisas a traduzir, por exemplo. Ou fazer o que as más-línguas não fazem: tornar o Bibliowiki um site melhor, mais completo e com menos erros, uma referência para o futuro o mais completa e correcta possível, e não uma série de lamentos sobre tristes tristezas disfarçados de artigos.

domingo, 23 de novembro de 2008

Tristes tristezas seixianas

O João Seixas gosta de falar mal. De tudo, de todos, menos dele e dos amiguinhos. E o último amor de estimação do João Seixas parece ser o Bibliowiki. Em vez de contribuir para o projecto, corrigindo os erros e omissões que necessariamente nele haverá, não: compraz-se em tentar destruir a credibilidade do projecto em posts sucessivos. É a atitude habitual na personagem, que já deixou um longo rasto de carinho, amizade e consideração e certamente contribui para transformar em sucesso tudo aquilo em que ele toca, e vá lá que pelo menos se conseguiu desta vez escapar a epítetos mais contumazes, pelo menos até ver.

Mas o mais divertido é que o João Seixas, que destrata o Bibliowiki por nem sempre ser credível, incorre, ele próprio, em erros de palmatória que, se eu quisesse ser mauzinho, diria que em muito diminuem o valor dele, João Seixas, como fonte de informação fiável e inteligente acerca do que quer que seja. O caso presente: o livro Estação de Trânsito de Clifford D. Simak, que é tema do seu último post.

Neste post, o João Seixas inventa que o livro em causa é o número 200 da colecção Argonauta, e parte para o ataque cerrado à Biblioteca Nacional (que é "descredibilizada de vez", pobre coitada) e ao Bibliowiki com base nesta inventona. Ora eu, como tenho o livro, sei que em nenhum sítio se diz que ele é o número 200 da colecção Argonauta. Se o João Seixas antes de falar mal usasse a massazinha cinzenta que tem debaixo do penteado, teria talvez reparado que no livro aparece apenas uma das habituais listas de livros da colecção, no caso a da Vampiro. O lado do volume duplo ocupado pelo romance do Simak vem sem lista de livros. Porquê?

Elementar, meu caro Seixas. Porque o volume duplo não é comemorativo dos 200 volumes das colecções Vampiro e Argonauta e sim apenas da Vampiro. Porque as duas colecções não são simultâneas, tendo a Vampiro surgido primeiro. De facto, a lista de livros da Argonauta que em tempos esteve publicada no site da Livros do Brasil listava o Estação de Trânsito com o número 130-A. Suponho, dadas as datas envolvidas numa e noutra edição (e partindo do princípio que esta informação é fidedigna, e não tenho motivo nenhum para supor que não seja), que a Livros do Brasil tenha resolvido editar este livro em separado mais tarde, mas não o quis incluir na numeração habitual da Argonauta, não me perguntem porquê.

E eu ao Seixas sugeriria que em vez de procurar por todas as formas desqualificar o trabalho alheio se esforçasse por ele próprio fazer um trabalho decente, porque há poucas coisas mais deprimentes do que ler artigos incompetentes cobertos por telhados de vidro rachados, em que se procura atirar pedras aos telhados dos vizinhos.

É só uma sugestão amigável que eu faço ao Seixas. Afinal de contas, convém que o homem conserve alguma credibilidade. E não é com posts destes que a conserva, muito pelo contrário.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Mania das odisseias que esta malta tem

A malta da FC tem a mania das odisseias. Não que o Homero faça parte da malta da FC, note-se... embora se calhar até fizesse, se fosse vivo hoje. Mas há qualquer coisa em odisseias que parece apelar ao córtex pré-frontal dos feceítas. Ou ao sistema límbico, não sei bem.

Seja como e porque for, o certo é que apareceu por aí mais uma. Ou várias, porque em vez de Odisseia é Odisseias. Fantásticas, claro.

Está aqui, e é um blogue agregador de blogues de gente ligada, de uma forma ou de outra, ao chamado fandom português. Escritores, tradutores, editores, críticos, organizadores de eventos, consumidores, estamos por lá já vários e como o blogue está muito no início e é assumidamente um trabalho em andamento o mais certo é que daqui a uns meses sejamos bastante mais. Eu pessoalmente conheço vários outros blogues que podiam perfeitamente entrar também no bando. E se se começar a incluir também brasileiros, mais um pouco.

A Lâmpada por lá anda, evidentemente. O que é giro. Porque este post, que fala do Odisseias Fantásticas, vai aparecer não tarda no... Odisseias Fantásticas. De cá liga-se para lá, e de lá para cá, sendo que "cá" e "lá" são relativos ao local onde este texto for lido.

É o chamado post circular.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Cinismo, optimismo, inteligência e um pouco de política americana

Grande post, este, do Daniel Oliveira. É sobre o Obama, mas não é só sobre o Obama; na verdade vai muitíssimo além do Obama, muitíssimo além dos Estados Unidos, muitíssimo alêm da simples política. O que ele diz (e como tem razão no que diz) pode aplicar-se a praticamente tudo aquilo em que exista uma componente realmente humana, da política americana e - nas entrelinhas - portuguesa, como o Daniel faz, à atmosfera abafadiça da ficção científica portuguesa.

sábado, 1 de setembro de 2007

Os fãs

Sabe-se da objectividade dos fãs. Conhece-se bem até onde podem chegar na distorção da realidade para justificar os seus gostos. E por isso, em tudo o que mete fã, dá-se desconto. Tem de ser. É a única forma de se poder conversar com eles.

Para o fã, o seu ídolo é o maior. Pode ter a cara cheia de verrugas, que é invariavelmente lindo. Pode escrever ou proferir as maiores cretinices, que tem sempre razão. O fã não pensa: justifica. A realidade só faz sentido quando vista através de um filtro.

Por esse motivo, um jornalista não pode ser um fã. Ou por outra: pode sê-lo, mas na "vida civil"; assim que chega perto da profissão tem de deixar-se de fanzices. Caso contrário, arrisca-se, e seriamente, a cair no ridículo.

Vem isto a propósito da mais recente entrada de Nuno Galopim sobre FC, no blog que partilha com João Lopes, sound + vision. Depois de uma série de notas que, apesar de alguns erros de facto sobre a edição portuguesa (e que simples teria sido corrigi-los caso se soubesse informar onde a informação está disponível), são no essencial correctas, chega a nota sobre Heinlein. E o fã revela-se em todo o seu dúbio esplendor.

Arranca o Galopim a nota da seguinte forma:

Um dos mais destacados e importantes autores de ficção científica de “linha dura”, elevou consideravelmente a fasquia da plausibilidade factual e científica nestes domínios da ficção, tendo igualmente contribuído enormemente para a sua valorização literária.


E um tipo que saiba alguma coisa sobre o assunto começa-se logo a rir. Ah o Heinlein fez isto?

Vejamos: a carreira de Heinlein inicia-se em 1939, tendo editado o primeiro livro em 1941. É um dos chamados autores da "golden age", um grupo de autores norte-americanos e alguns ingleses que desenvolvia a sua actividade literária, essencialmente, nas revistas baratas (os pulps) da época. Não eram, no entanto, nem os primeiros autores nem os únicos autores de ficção científica. Bem antes da Golden Age, gente como Verne e Wells, entre outros, tinha desenvolvido o género com uma qualidade literária muito acima da que Heinlein alguma vez atingiu, e com uma plausibilidade científica, tendo em conta o estado de desenvolvimento científico da sua época, que em nada fica a dever ao melhor Heinlein.

OK, dirão vocês, mas ele referia-se à FC organizada enquanto género literário, não à proto-FC do tempo de Wells e Verne. Meus caros, respondo eu, não é isso que ele escreve, mas dando de barato que têm razão, vamos então cavar mais fundo.

E cavamos mais fundo, por exemplo, olhando para outros autores da mesma época. Ray Bradbury, por exemplo, iniciou a carreira nos pulps em 1943, tendo publicado o primeiro livro em 1947. A de Arthur C. Clarke arrancou em 1937, com o primeiro livro a sair só em 1951. Asimov também publicou os primeiros contos ainda nos anos 30, embora só tenha livros seus já nos anos 50.

Se algo se pode dizer a respeito de Heinlein é que foi o primeiro a conhecer sucesso. Não por especiais qualidades do que escrevia, mas porque as suas histórias estavam mais próximas do gosto militarista do público americano da época. Afinal, estava-se em guerra, ou recém-saídos dela. Porque se pensarmos em qualidade literária, Heinlein nem chega a ser uma unha no pé de Bradbury (e também é muito pior que Clarke), ao passo que a "linha dura" esteve sempre muito melhor servida por Clarke do que por Heinlein, que tem mesmo algumas histórias de fantasia, sem qualquer ciência mas cheias de magia. Clarke tem no currículo um número considerável de verdadeiras invenções, algumas tão relevantes para todos nós como o satélite de comunicações; a única coisa semelhante de que Heinlein se pode gabar é o remoto, descrito na novela (novela mesmo e não, como tantas vezes aparece, a tradução errada de "novel", que se traduz correctamente como romance) Waldo.

Heinlein foi, no máximo, o melhor dos escritores medíocres da "Golden Age" pulp. As suas histórias estão repletas dos defeitos característicos da FC comercial da época (personagens sem profundidade, enredos esquemáticos e formulaicos, etc.) e só raramente têm algo de redentor que as salve da mais banal das medianias. Pior: enquanto outros autores da "Golden Age" chegaram aos anos 60 e evoluíram, casos de Dick, Pohl, Silverberg e tantos outros, Heinlein ficou teimosa e conservadoramente no mesmo sítio, a produzir romancezinhos juvenis sem ponta de interesse, em tom vaga ou não tão vagamente de space opera, com as mesmas personagens estereotipadas, narcisistas e machistas dos anos 40. Salva-se um par de coisas, não mais.

Mas há um certo tipo de adolescente que gosta daquilo. Ainda hoje. E que depois de adulto não é capaz de aprofundar um pouco a análise.

Caso do Galopim, ao que tudo indica.

É que, ainda por cima, na mesma nota lê-se isto:

O seu célebre romance de 1959 Starship Troopers foi vilipendiado por alguns detractores seus como sendo fascista, confusão feita com o rigor da visão militarista de um texto nascido como resposta à decisão unilateral dos americanos em abandonar testes nucleares.


Pondo de lado o facto, esse sim objectivo, de que o militarismo é, na essência, e em si mesmo, fascizante, o nosso jornalista acha que quem vilipendia aquele romance (que é, realmente, uma enorme porcaria, e por motivos que vão bem mais fundo que a mera política) são "alguns detractores" que se "confundiram". Achará, porventura, o Galopim que gente como o autor de FC e veterano do Vietname Joe Haldeman não é capaz de compreender onde quer um livro como aquele chegar. E quem fala de Haldeman pode falar de Moorcock e de muitos outros (sim, não são "alguns"; são bem mais), que leram esse romance mas também leram os livros que Heinlein cometeu depois, nos quais as mesmas opiniões são reiteradas uma e outra vez, embora nunca mais com a crueza presente nos Troopers.

Ora, ora, Galopim!... Manda mais postais, que com esse não vais lá.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Que bom que é acabar as coisas que se começam

Quem chegou aqui ao blogue ao longo dos últimos tempos, achou-o imóvel. Congelado no tempo, numa paralisia que nem chegava à anemia. Parecia-se mais com a imobilidade de um cadáver. Mais um dos milhões de blogues mortos que há por essa internet fora, milhões de monumentos à brevidade dos entusiasmos humanos. Em especial os diletantes.

A primeira entrada visível na página, láááá ao fundo, data de 6 de Março. De então para cá passaram-se quatro meses e meio em que o ritmo de posts esteve entre o eventual e o imóvel. Lamento pela meia-dúzia de visitantes que vêem cá porque gostam de facto do blogue. Mas...

... mas a verdade é que nestes entretantos se passou uma semana de estaleiro, doente, sem conseguir fazer nada a não ser estar na cama. 800 páginas traduzidas. Dois contos escritos e revistos e um deles publicado. Duas mil novas entradas no Bibliowiki. A vida banal de todos os dias com as suas exigências banais (mas exigentes) de todos os dias. E mais algumas coisas de que provavelmente vos darei conta mais tarde.

Por mais que goste disto dos blogues e de blogar, e tenho de admitir que já gostei bastante mais, o tempo não estica. Tenta-se puxar por ele e falta sempre do outro lado, como uma manta demasiado estreita numa noite fria de inverno. E assim, o blogue parou. Diletantamente. Aqui, posso dar-me ao luxo de ser irresponsável à vontade para que não o seja também noutros sítios. Para que cumpra prazos. Para que avance com projectos (pelo menos até ficar farto de sabotagens vindas de onde não deviam vir). Para acabar as coisas que começo.

É que é bom acabar as coisas que se começam. Sabe bem. É como tirar um peso de cima, como respirar uma golfada de ar fresco, como todos os lugares-comuns que se costumam dizer nestas ocasiões, que apesar de serem lugares-comuns são todos verdadeiros.

Precisamente por isso, decidi há alguns meses que não me voltarei a meter em nada que não possa acabar. Sozinho, se necessário. Claro que há coisas que não têm um fim, que estão continuamente em fluxo, a menos que se decida "OK, não faço mais, acabou-se". Este blogue, por exemplo. Ou o Bibliowiki. Mas há coisas que só são, realmente, depois de acabarem, de ficarem completas e feitas, depois do último ponto final. É dessas que falo. É nessas coisas que não participarei nunca mais a menos que saiba que se for necessário as poderei levar a cabo sozinho. Nunca mais. A menos que me paguem. Bem.

Um gato que escalda uma vez é inexperente, duas é teimoso, mais é burro. E eu já sou gato burro há demasiado tempo. Basta.

E mãos à obra. Mãos à obra de terminar coisas que ficaram pendentes em parte porque devotei tempo e esforço a coisas que achava mais importantes mas não chegaram a lado nenhum por irresponsabilidades e diletantismos alheios. E mãos à obra do mais importante: o trabalho.

É que tenho aqui 300 páginas já começadas e à espera do tal ponto final, sabem? E mais 1000 (isso mesmo, mil) à espera de vez para começar.

Portanto, é bastante provável que a Lâmpada continue no ritmo actual, entre o parado e o imóvel. Lamento, caros amigos, mas como dizia o Zarolho (de que ouvirão falar um destes dias, adianto desde já... e não, não me refiro a este Zarolho), outros valores mais altos se levantam.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

De volta...

... ajoujado sob o dobro do peso que me acompanhou até Lisboa, satisfeito com a parte que me coube no Fórum e por um lançamento de livro à tarde de um dia de trabalho e sem o autor presente não ter sido o completo desastre de público que temi que fosse, com todos os músculos a protestar violentamente e uma tremenda dor de garganta a servir de cereja no topo do bolo do incómodo corporal, chateado por não encontrar na FNAC o que precisava de encontrar (alguém conhece em português algum livro de referência que fale de mitologias célticas e germânicas?), com um guarda-chuva a menos no inventário pessoal, certamente o guarda chuva que menos tempo passou na minha posse pois foi comprado no próprio dia da partida para Lisboa, com muitas novidades a dar a várias pessoas, e com centenas de mensagens de email por tratar.