Mostrar mensagens com a etiqueta ficções. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ficções. Mostrar todas as mensagens

domingo, 7 de janeiro de 2018

Revolucionário

Ao rebentar o ano de 2017, tomei uma espécie de resolução de ano novo. Já algum tempo que andava com o bichinho da escrita a formigar, com as histórias às voltas na cabeça a querer sair e outras histórias semiescritas a suplicar por uma conclusão, e disse aos meus botões (e, se bem me lembro, ao twitter) algo como "macacos me mordam se este ano não acabo pelo menos uma das coisas que tenho incompletas".

A vida, claro, tinha feito outros planos: primeiro uma inundação de trabalho, depois uma doença não identificada (na altura; entretanto já foi) mas muito chata e a seguir um braço partido na família e outra inundação de trabalho, reduziram a quase zero a disponibilidade, mental e de tempo, para escrever fosse o que fosse.

Mas recusei-me a continuar mais um ano a seco e, quando o Sérgio Gaut vel Hartmann, um editor argentino que tem intensa atividade como antologista de ficções curtas e ultracurtas, me surgiu no Facebook com uma proposta nova para contos até 300 palavras, tive imediatamente uma ideia e, algum tempo mais tarde, passei-a a escrito, pensando que nada como ficções ultracurtas para descongelar, desenferrujar os músculos ficcionistas depois de terem passado demasiado tempo adormecidos. Mais tarde ainda, tive outra ideia e também a escrevi. Ao enviar os contos, prometi aos que me seguem nas redes sociais que o(s) que não fosse(m) aceite(s) seria(m) publicado(s) aqui na Lâmpada.

Ora, a proposta do Sérgio estava limitada a um conto por autor, portanto eu sabia de antemão que um desses dois contos seria recusado. Originalmente, estava previsto ficar a saber a 31 de dezembro se algum conto meu (e qual) iria entrar no livro, mas essa data foi postergada para o fim de janeiro. Mas entretanto já sei qual não irá ser aceite. Portanto improvisei uma ilustraçãozinha, a fingir de capa, e aqui está como prometido. É ficção científica razoavelmente hard e, dos dois contos, é aquele de que mais gosto, embora também concorde que é aquele que menos respeita a proposta da antologia. Espero que gostem.

Revolucionário

Quando lhe trocaram a mão esquerda por um implante multifuncional não se importou muito. O trabalho exigia-o. E, bem vistas as coisas, o aumento de versatilidade compensava a perda de sensibilidade.
Quando lhe queimaram ambos os olhos com hélio líquido e os substituíram por lentes de largo espectro aborreceu-se um pouco. Gostava de se rever nos seus olhos castanhos e, apesar de passar a ver mais e melhor, nunca evitava algum incómodo ao ver-se ao espelho, como se não fosse bem ele quem ali estava.
Quando um dia acordou sem ambas as pernas e se viu transportado para o centro de reformulação para lhe implantarem dos novos fleximembros de cinco articulações teve um momento de verdadeiro mau humor. Mas o contrato de escravatura temporária era claro: durante cinco anos era propriedade integral da empresa; podiam fazer com ele o que quisessem. Por isso, fez um esforço para se resignar.
Quando o mindinho e o anelar da mão direita lhe foram cortados a sangue-frio e substituídos por interfaces de média velocidade teria encolhido os ombros se a ligação não tivesse ficado mal feita, causando-lhe um certo desequilíbrio neuronal.
Quando o esfolaram meticulosamente, recobrindo-o depois com uma sintetiderme multifuncional, ficou realmente irritado. Mas a sintetiderme era fotossintética e por isso negra, como a pele velha, portanto tentou convencer-se de que a mudança nem era assim tão grande.
Mas depois ligaram-lhe o mindinho direito ao mainframe do asteroide e percebeu, quando um curto-circuito fez com que recebesse alguns pacotes que não devia ter recebido, que se preparavam para lhe substituir a consciência por uma dócil IA de baixo espectro.
Foi um erro. Sério.
Há anos que ninguém se atreve a pousar no asteroide. Diz-se que ele ainda por lá anda, revolucionário, sozinho entre os cadáveres.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Primeira Gralhalândia (excerto)

Primeira Gralhalândia (título muito provisório) está previsto como um divertimento razoavelmente absurdista, razoavelmente longo, construído a partir das gralhas que me foram acontecendo ao longo dos anos e fui deixando no twitter sob a tag genérica de #gralhalandia. Por ordem. O desafio é, com isso, escrever uma história coerente, e ainda estou muito longe de saber se consigo. Talvez chegue ao tamanho de romance, mas é cedo para perceber. Para já estão escritas menos de 2000 palavras.

O que se segue é o início.

Primeira Gralhalândia

Desta vez, cheguei à Gralhalândia num dia de tempestade. Chovia a potes. Trovejava ao longe. O vento soprava emborrascado, aos arrancos, de direção indefinida. Apresentei-me na fronteira, a pé, segurando como podia o guarda-chuva por cima da cabeça. Ia munido dos documentos obrigatórios e de alguns facultativos, e esperei. A Gralhalândia é sítio de bizarra tecnologia, diferente do resto do mundo. Se cá fora sabemos mais ou menos com o que contar e as redes informáticas permitem, aparentemente, tudo e mais umas botas, ali as coisas são mais complicadas. Ora podemos ver-nos mergulhados em utopias cibernéticas dignas do mais otimista ciberpunk — e sim, na Gralhalândia existe esse gambozino da ficção científica, o ciberpunk otimista —, ora podemos achar-nos mergulhados num atraso de vida medieval ou mais antigo ainda. É conforme os apetites da deidade enlouquecida que manda no local. Ou de algum ET munido de um sentido de humor perverso. Ou de outra coisa qualquer. Ninguém sabe. Por outro lado, eu, como não sou ninguém, não sei.
Só sei que esperei até me doerem as pernas e ficar com os pés enregeladinhos de tão molhados. Mas por fim lá me abriram a porta. Um guarda de fronteira barrigudo e com um farfalhudo bigode mandou-me entrar com um gesto enquanto roía os restos de uma sandocha. Apresentei-lhe os documentos, ele passou-lhes uma rápida vista de olhos aborrecidos e assomou-se a uma sala contígua, berrando lá para dentro:
— Ó Aleido! Anda cá, Aleido!
Devo esclarecer, num parêntesis rápido, que, devido às frequentes visitas que faço ao país, já falo fluentemente gralhalandês, tanto quanto é possível seja a quem for falar tal língua com fluência. Se isto fosse um daqueles questionários sobre o domínio de línguas estrangeiras, a cruzinha cairia sobre “experiente”. O que isso significa é que ela me causa frequentes perplexidades, e não raro não a entendo de todo, no que tenho a companhia da quase totalidade dos próprios gralhalandeses. E só não afirmo que é de todos porque, enfim, não os conheço a todos.
Portanto, percebo a língua.
Mais ou menos.
Digamos que dá para o gasto, e arrumemos assim o assunto e o parêntesis.
Ia eu dizendo que da sala saiu um jovem, coberto de borbulhas, vestido com um berrante uniforme vermelho estrambolicamente decorado com dragonas, botões dourados, cordões, a parafernália completa de um ditador sul-americano. Ao peito, entre medalhas que tilintavam a cada passo (é que, ainda por cima, o tipo coxeava violentamente da perna direita), uma placa informava, entre berlicoques policromáticos:

ALEIDO CASTÁLIO
ESTAFETA REAL

— Chamou, chefe? — disse o jovem coxo, todo prestável.
— Chamou chefe, chamou chefe — resmungou o barrigudo bigodudo. — Claro que chamei. Se cá vieste ter é porque me ouviste chamar, e se me ouviste chamar é porque chamei. Não é?
O jovem coxo abriu a boca, mas não teve oportunidade de lhe dar uso porque o barrigudo bigodudo atalhou de imediato:
— Temos aqui este tipo. Quer entrar. Parece que tem os papéis em ordem, mas é preciso uma assinatura do capitão. Manca chamá-lo.
Abri a boca para corrigi-lo, dizer-lhe que não era manca que se dizia e sim manda, mas um olhar ao modo como o jovem Aleido Castálio, Estafeta Real, saiu a mancar da sala fez-me engolir a objeção.
Na Gralhalândia as coisas são mesmo assim.
Entretanto, o dos bigodes tirara um impresso de uma gaveta, pegara numa anacrónica pena e numa espécie de tinteiro com um ar muito pouco funcional, mergulhara a ponta da pena na tinta e pusera-se a rabiscar, deitando olhadelas aos papéis que eu trazia. Às tantas parou, franziu o sobrolho, procurou qualquer coisa no meio da pequena pilha de papéis que eu lhe entregara e olhou-me, ainda se cenho franzido:
— O amigo não trouxe uma declaração de idoneidade dos pelos públicos?
Abri muito os olhos.
— De quê?!
— Uma declaração de idoneidade de pelos públicos. É obrigatório, sabe?, segundo a lei… — hesitou — deixe ver… — resmungou, folheando um livro de registos. — Ah, cá está. Não é lei, é decreto. Segundo o decreto régio 322, do ano passado. — Ergueu o olhar para mim. — Não conhece? Quer que leia?
— Bem — disse eu, sem saber bem o que dizer — se calhar é melhor. Mas antes disso, se calhar convinha explicar-me o que são pelos públicos.
O guarda soltou uma fungadela divertida.
— Vê-se mesmo que é estrangeiro. Então não se está mesmo a ver? Os pelos públicos são a barba e o bigode, homem! Os outros são privados, não é?
E riu-se.

Tempo Quente na Ilha Calma (excerto)

Tempo Quente na Ilha Calma será um romance de ficção científica, parte de um universo que venho desenvolvendo devagarinho há anos e do qual ainda só publiquei um continho muito curto chamado Miel Lê. Acompanha o nascimento, crescimento e dilemas de um miúdo nascido numa sociedade voluntariamente atrasada. Tenho escritas cerca de 21600 palavras, e estimo que isso corresponda a uns 10% do total.

O que se segue é o início.

Tempo Quente na Ilha Calma

Prólogo

De certa maneira, pode dizer-se que as viagens de Zel começaram no momento preciso do Big Bang, quando, segundo certifica a cosmologia, do nada surgiu num rompante toda a matéria, toda a energia e todo o espaço e tempo de que o Universo se compõe. Zel faria assim parte, através dos átomos e moléculas de que foi sendo constituído ao longo da vida, da grande viagem universal, que durará o tempo que demorar até que o todo se transforme de novo em nada, ainda ninguém sabe muito bem como nem quando. Uma etapa insignificante, perdida num minúsculo recanto do cosmos, que começa e acaba tão depressa que no grande esquema das coisas nem se dá por ela.
Mas poucas pessoas decidem pensar a escalas tão incompreensivelmente vastas, e as que o fazem são olhadas com estranheza pelos demais, que incompreendem esta maneira de olhar para a vida e o mundo. Preferem outras mais pragmáticas, que afirmam que as viagens de Zel começaram na verdade no momento em que a mãe, Riia, soltou um grito que ressoou num misto de dor e alívio, e o pôs no mesmo mundo em que ela nascera duma forma muito idêntica algumas dezenas de anos antes, ainda que não no mesmo local desse mundo.
Entre uma e outra perspetiva a ligação parece impossível de tão ténue, mas, bem vistas as coisas, Riia só solta o tal grito porque está na ponta duma longuíssima cadeia de relações de causa e efeito que, se puxasse por ela com força e tempo suficiente, lhe traria até à porta de casa o próprio Big Bang em pessoa.
De modo que se pode afirmar com toda a propriedade que, entre o longínquo Big Bang e o pequeno bang que foi o grito da mãe, qualquer momento serve para se dizer que é aqui que começa a história de Zel e das suas viagens. Esse momento é arbitrário. Podíamos fechar os olhos, apontar para um ponto e dizer “é aqui”, e não erraríamos, pois a verdade verdadeira é que Zel começa muito antes de começar.
Contudo, também é verdade que não temos tempo nem, com toda a franqueza, paciência para percorrer toda a eternidade. Esqueçamos, pois, tudo o que aconteceu entre o Big Bang e uns dias depois de Zel ser concebido. Esqueçamos o período inicial de expansão acelerada do Universo, esqueçamos a solidificação dos primeiros átomos, a formação das primeiras moléculas, a condensação das primeiras estrelas e sua organização nas primeiras galáxias. Deixemos de lado a explosão das primeiras estrelas gigantescas e os elementos pesados que estas espalharam para irem formar as gerações seguintes de estrelas e planetas antes de se engolirem a si próprias e se transformarem nos primeiros buracos negros. Não nos interessa aquele planeta azul em que a vida surgiu, os milhões e milhões de anos que ela levou a evoluir até dar origem a uma bizarra criatura com dois braços e duas pernas e uma grande cabeça redonda empoleirada no topo de um pescoço que parece fraco demais para a suster. Deixemos em paz os avanços e tropeços da sua ascensão a animal civilizado e tudo o mais que daí se seguiu. Nada disso nos importa agora. Interessa-nos, sim, chegar a um ponto no espaço e no tempo em que…


Noite Longa

… Ton baixa a cabeça para não bater com ela na soleira e entra na taberna. Nesse momento Ton já tem um filho, a começar as primeiras fases do seu crescimento numa bolha protegida no interior do útero da mãe. Mas ainda não o sabe. Se soubesse, o mais certo seria não entrar na taberna com aquela expressão calma que tanto tempo demorara a readquirir, mas sim com o ar torturado que fora sua imagem durante bastante tempo. Não nos adiantemos ao desenrolar próprio da história, porém. Ton está agora a entrar na taberna. Para no átrio, fecha firmemente a porta exterior atrás de si, trancando lá fora a ventania, faz o sinal do Triângulo, abre a porta interior e entra na sala a passos decididos. Lá dentro estão cinco homens, todos robustos, bem mais do que ele, todos de rostos tisnados pelo sol, tanto como ele, todos vestidos apenas com uns calções e uns suspensórios de couro por cima duma camisa justa, tal como ele. O interior da taberna está comparativamente fresco, e Ton passa a mão pela testa, sacudindo o suor e respirando fundo. É com alívio que ergue uma mão calejada para cumprimentar Seg, o taberneiro, o qual passa um pano mosqueado de antigas nódoas por um conjunto acabado de lavar de canecas de barro, e se vai sentar sozinho numa mesa de canto. Ainda nenhum dos amigos chegou, e Ton recusa-se sequer a reconhecer a presença dos quatro homens que ocupam uma mesa na outra ponta da sala.
Todos aqueles anos depois, e apesar de todos os esforços, quer do próprio Ton, quer da mulher e respetiva família, quer mesmo do padre, há ainda quem o olhe com a desconfiança que se reserva aos forasteiros, e não perca uma oportunidade para fazer-lhe sentir que continua a não ser bem-vindo ali. De nada adianta mostrar provas de devoção ao Santíssimo Triângulo, de nada serve ser dos homens mais assíduos aos serviços no templo, presente mesmo quando o tempo das colheitas ou das sementeiras aperta, é inútil até que a sua devoção ao Triuno seja atestada pelo próprio padre. Para alguns, uma vez forasteiro, forasteiro para sempre, e nada do que diga ou faça alterará isso. Para quê, portanto, prestar-lhes atenção?
Claro que o que acontecera também não ajudara nada.
Mas não. Esse é caminho que Ton não voltará a trilhar. Ele e Riia não têm filhos, ponto, parágrafo. Nada mais há a dizer.

A Decisão de Diop (excerto)

A Decisão de Diop é uma novela (muito provavelmente) integrada na minha série de história alternativa do Tempo das Passarolas, passando-se um par de décadas depois de Só a Morte te Resgata. Até agora tem escritas cerca de 11 mil palavras, e calculo que vá mais ou menos a meio, talvez um pouco mais.

O que se segue é o início.

A Decisão de Diop

O Estreito Caminho – Parte 1

Pela janela panorâmica da grande passarola vê-se o mar. Uma vasta extensão dele, plácida e vazia, sem um pontinho que seja a macular-lhe a uniformidade. No céu, a uma altura pouco superior à da passarola, vogam nuvens baixas, algumas acasteladas, a maioria cúmulos pequenos cuja brancura só não contrasta mais fortemente com o azul do céu porque este está atenuado por uma fina camada de cirro-estratos que se estende de horizonte a horizonte, lá bem no alto.
Em volta de Santos Diop a Almirante Ganço e a sua tripulação produzem os ruídos típicos de uma máquina em perfeito estado de funcionamento. Na cabina, bem isolada do mundo exterior, não se ouve o vento mas escuta-se o rugido abafado dos motores, os estalidos de atuadores e alavancas, o tilintar das campainhas dos comunicadores, o ronronar das impressoras, as vozes baixas dos tripulantes. Estes debruçam-se sobre mostradores, falam a microfones, observam o mar com óculos de longa distância, em pé ou empoleirados em bancos pouco confortáveis. Diop passa os olhos pelos seus homens. Pensa que é uma boa tripulação, bem treinada e experiente. Todos conhecem bem as respetivas funções e todos as desempenham com calma e eficiência. Pensa que apesar da diversidade de tons de pele e de cabelo, a expressão de todas aquelas caras é só uma, a expressão neutra de homens que têm mais em que pensar do que no que fazer com os músculos que enrugam testas, retesam bocas, contraem bochechas.
De todas aquelas caras? Serão mesmo todas?
Diop lança uma olhadela rápida ao subcomissário mas afasta logo o olhar. Nada o distingue dos demais, e no entanto tudo o distingue. O uniforme é o mesmo, sem sequer uma insígnia a marcar-lhe a diferença, mas a expressão é outra, a forma como os olhos se demoram nas coisas não tem paralelo, o porte é único. Pode estar, como está agora, debruçado sobre uma consola, aparentemente tão concentrado nela como qualquer outro dos tripulantes, mas há sempre nele qualquer coisa que como que irradia intimidação e vigilância.
Uma perturbação no mar, à frente e a estibordo, chama-lhe a atenção. Leva o óculo ao olho, foca-o, mas sabe de antemão o que vai ver. Golfinhos, um pequeno grupo deles, talvez seis ou sete, todos adultos, nadam a grande velocidade quebrando a superfície para respirar e voltando logo a mergulhar. Diop vê dois ou três saltos mas a maioria dos animais limita-se a mostrar o dorso, do espiráculo à barbatana. Desinteressa-se. Sempre gostara daqueles animais, mas está demasiado tenso para desfrutar das suas cabriolas.
Aproxima-se um ponto de leitura.
Já não deve faltar muito para chegarem à Corrente do Atlântico Norte propriamente dita, mas só os dados obtidos dos pontos de leitura lho poderão dizer com certeza. Já no último, quase vinte milhas atrás, se registou um aumento na temperatura da água, mas foi tão ligeiro que facilmente poderia ser um falso positivo. O próximo dará mais certezas… ou talvez não. A corrente é coisa fugidia. Serpenteia para norte e para sul, fragmenta-se em redemoinhos que se isolam da corrente principal e vão rodopiando oceano fora até se dissiparem, numa espécie de jogo do gato e do rato pleno de travessura em que parece procurar frustrar quem tenta encontrá-la. Em circunstâncias normais pouco importaria; passarolas não querem saber de correntes, a não ser as atmosféricas e, no que a essa diz respeito, a Almirante Ganço tem vindo há longas milhas a lutar contra o já esperado vento oeste. Mesmo para um navio, mais sujeito aos efeitos dessas variações, a importância seria pouca, pois bastar-lhe-ia encontrar-se mais ou menos na zona da corrente para se ver empurrado para leste, com maior ou menor força.
Mas a Almirante Ganço está numa missão.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Um conto em podcast

Esta é mais uma novidade para mim. Nunca antes tinha ouvido um conto meu a ser lido em formato podcast. Aconteceu agora, via PodEspecular, e o conto é um dos velhinhos: "O Telepata Experiente no Reino do Impensável". Está um pouco adaptado ao dialeto brasileiro, mas nada de especial. Quem quiser ouvi-lo, pode dar um saltinho até aqui, onde têm acesso a download, em mp3 ou em zip, e a audição direta. Divirtam-se. Ou não.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Ratolândia

Esta é a história de um lugar chamado Ratolândia. Ratolândia era um lugar onde todos os ratinhos viviam e brincavam, nasciam e morriam. E viviam duma forma muito semelhante a vocês e a mim.

Até tinham um parlamento. E de quatro em quatro anos tinham eleições. Iam às assembleias de voto e depositavam os seus votos. Alguns deles até apanhavam boleia até às assembleias de voto. E apanhavam boleia também para os quatro anos seguintes. Tal como vocês e eu. E sempre, no dia das eleições, todos os ratinhos iam às urnas e elegiam um governo. Um governo composto por grandes e gordos gatos pretos.

Ora, se acham estranho que ratos elejam um governo feito de gatos, olhem bem para a história do Canadá nos últimos 90 anos e talvez vejam que não eram mais estúpidos do que nós.

Reparem que eu não estou a dizer nada contra os gatos. Eram tipos simpáticos. Dirigiam o governo com dignidade. Aprovavam boas leis — isto é, leis que eram boas para gatos. Mas as leis que eram boas para gatos não eram lá muito boas para ratos. Uma das leis dizia que os buracos dos ratos tinham de ser suficientemente grandes para um gato conseguir lá enfiar uma pata. Outra lei dizia que os ratos só podiam viajar a certas velocidades — para que um gato pudesse apanhar o pequeno-almoço sem grande esforço.

Todas as leis eram boas leis. Para gatos. Mas, oh, eram duras para os ratos. E a vida ia-se tornando cada vez mais dura. E quando os ratos deixaram de conseguir aguentá-la, decidiram que alguma coisa tinha de ser feita a respeito delas. Portanto foram maciçamente às urnas. Puseram os gatos pretos na rua. Elegeram os gatos brancos.

Os gatos brancos tinham feito uma ótima campanha. Tinham dito: "Tudo o que a Ratolândia precisa é de mais visão." Tinham dito: "O problema da Ratolândia são estes buracos de ratos redondos que temos. Se nos elegerem, decretaremos buracos de rato quadrados." E foi o que fizeram. E os buracos de rato quadrados eram duas vezes maiores do que os redondos, e agora o gato podia enfiar neles ambas as patas. E a vida tornou-se mais dura do que nunca.

E quando deixaram de aguentar, os ratos puseram na rua os gatos brancos e voltaram a eleger os pretos. Depois voltaram aos brancos. Depois aos pretos. Até experimentaram gatos metade pretos e metade brancos. E chamaram a isso coligação. Até arranjaram um governo feito de gatos com malhas: eram gatos que tentavam fazer ruídos de rato mas comiam como gatos.

O problema, meus amigos, não estava na cor do gato. O problema era eles serem gatos. E, como eram gatos, naturalmente preocupavam-se com os gatos e não com os ratos.

A dado passo apareceu um ratinho com uma ideia. Meus amigos, cuidado com o tipo pequenino com uma ideia. E ele disse aos outros ratos: "Olhem, rapazes, porque é que continuamos a eleger governos feitos de gatos? Porque é que não elegemos um governo feito de ratos?" "Oh," disseram eles, "este é um bolchevique. Prendam-no!" Portanto puseram-no na cadeia.

Mas quero lembrar-vos de que podem prender um rato ou um homem, mas não é possível prender uma ideia.

Fábula política de origem canadiana mas bastante universal, criada por Clarence Gillis, popularizada por Tommy Douglas e traduzida para português por Jorge Candeias.

sábado, 28 de agosto de 2010

Vaporpunk é lançada amanhã.

É já amanhã que é lançada, em São Paulo, na Fantasticon, a antologia Vaporpunk, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva. São oito histórias steampunk em mais de 300 páginas, quase todas noveletas, saídas da imaginação e das teclas de Octavio Aragão, Flávio Medeiros, Eric Novello, Carlos Orsi, o próprio Gerson, Yves Robert e João Ventura...

... e das minhas.

A minha história, intitulada Unidade em Chamas, tem a sua origem mais remota numa interrogação: o que poderia ter acontecido a Portugal, e portanto ao seu império, se as elites nacionais (o que basicamente significa o rei; a época era de absolutismo) tivessem tido a visão de futuro necessária para colocar os recursos não tão escassos de que o reino então dispunha à disposição de Bartolomeu de Gusmão (e família) e de outros espíritos criativos da época, protegendo-os da sanha persecutória da Inquisição e incentivando-os a voltar a seguir o mesmo caminho de inovação e empreendedorismo que tinha sido fundamental para os descobrimentos, dois séculos antes. Uma revolução industrial? Mas como seria uma revolução industrial movida não pelos artesãos e sua vontade de ganhar dinheiro e viver melhor, mas pela Casa Real, cujo interesse primário sempre foi ampliar o reino e o comerciar com (e pilhar) terras distantes? E como se adaptaria uma revolução industrial desse género ao aparecimento duma ameaça externa? Seria completamente militarizada? E haveria na metrópole homens suficientes para controlar todo o território?

Em Unidade em Chamas não dou respostas a essas perguntas, porque não é essa a história que me interessa contar. As perguntas serviram-me para criar um ambiente, esboçar um percurso histórico até chegar ao ponto em que a novela decorre, no início do século XIX, mas nunca foi meu objetivo responder-lhes detalhadamente. Interessa-me mais ver como as pessoas reagem ao ambiente, e principalmente as pessoas comuns, que não determinam diretamente o curso dos acontecimentos, antes reagem a eles... e acabam por moldá-los também sem dar por isso, às vezes de formas inesperadas, através de mudanças coletivas de mentalidade e dos atos que são consequência dessas mudanças. É uma história com duas camadas principais e mais umas coisas extra por baixo (todo este background, pelo menos), de que gosto bastante, e que espero que agrade aos leitores.

Querem um cheirinho? Então aqui fica um cheirinho, os dois primeiros parágrafos:

As passarolas erguem-se da lezíria, lentas e imponentes, uma atrás da outra. É um espetáculo inédito: nunca tantas passarolas haviam descolado ao mesmo tempo, nunca tantos balões, aletas e cascos pintados em desenhos irregulares azuis e brancos se haviam visto a flutuar no ar calmo do Verão de São Martinho. Sidónio não pode ver por completo esse espetáculo: ele vai-se desenrolando a todo o seu redor, e a longa formatura de que faz parte não lhe permite mais do que um olhar de soslaio por baixo da continência, um movimento impercetível de cabeça, um desfocar de olhos para prestar atenção à visão periférica. Mas ouve-o. O ranger das cordas e o ruído oco das alavancas de bambu, os gritos de gaivota dos mestres de manobra, as ordens imperativas dos oficiais, e acima de tudo o crepitar das chamas a devorar o carvão e o silvo dos gases a sair em turbilhão dos recipientes onde são guardados sob pressão, para irem encher os pequenos balões auxiliares que rodeiam o comprido conjunto principal de balões enclausurados numa rede, onde o brasão nacional e o do Corpo sobressaem discretamente da camuflagem aérea. O gás secreto, sem o qual provavelmente não existiriam passarolas, fornecido em exclusivo a El-Rei pelas oficinas Gusmão que se estendem mesmo em frente, do outro lado de um rio incaracteristicamente vazio das embarcações que noutro dia qualquer já o teriam enchido de cor e movimento, num longo complexo de edifícios baixos dominado pelo grande barracão principal e, claro, pela capela. O gás que, por tudo isso, é conhecido no Corpo como gás gusmão.
São sons que Sidónio conhece bem. Pertence ao Corpo Aéreo há quase dois anos, depois de ter sido arrancado à aldeia pelos recrutadores do Conde de Alvor. Um arrebanhar de rapazes e homens mais novos, mesmo que já casados, algumas perguntas feitas por um homem de fala estranha, um subordinado qualquer vindo de alguma ilha, talvez mesmo colónia, e um papel rabiscado entregue aos pais, lamurientos porque é esse o papel que a condição de pais lhes atribuiu, mas secretamente aliviados por terem menos uma boca a alimentar. O papel lá se há de encontrar na aldeia, guardado na caixa das preciosidades da família junto do crucifixo e dos brincos que a mãe usou uma única vez no dia do casamento, sem que nunca nenhum dos seus membros o tenha lido, embora a mãe talvez tenha pedido ao padre ou ao senhor Francisco, escrivão do regedor, que lhe traduzisse os rabiscos em algo que pudesse entender. Sidónio também já sabe o que contém. Primeiro disseram-lho, e, mais tarde, ler e escrever papéis daqueles fez parte do que aprendeu antes de pela primeira vez pôr os olhos numa passarola.
 Gostaram? Querem mais? Amanhã, na Fantasticon.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Conto: O Eterno Otimista

Nota: tinha publicado isto originalmente seguindo o estilo geral do blogue. Mas depois achei que ficava melhor usando o estilo dos contos, e aqui está.

O Eterno Otimista

A função dele era ser o eterno otimista. O gajo que dizia sempre que as coisas iam correr o melhor possível, e que explicava porquê, econtrando essa explicação entre suposições e aquilo a que por falta de termo melhor se deu o nome de pensamento positivo. Quando se olhava ao espelho da mente, quando pesava os prós e os contras dessa sua condição, a conclusão a que chegava era sempre igual. Seja, suspirava. Alguém tem de desempenhar esse papel, e se não há mais ninguém pois que seja eu.
Até que o dia chegou em que o peso de tudo o que teve de ficar calado para que ele conseguisse desempenhar o seu papel deixou de se contentar em entortar-lhe os ombros. Começou por uma racha num ladrilho à entrada da cozinha, mesmo junto ao seu pé direito. Depois outra, perpendicular à primeira, que não viu por lhe passar uma tangente aos calcanhares. E de súbito, antes de ter tempo de se dar conta do que estava a acontecer, viu-se soterrado, submerso em camadas após camadas de pensamentos silenciados, os sedimentos de várias vidas, cercado de negrume e poeira.
Tentou gritar, sem sucesso. Tentou empurrar nas nada se movia. Tentou atingir a superfície emitindo raios de desespero, mas se alguns conseguiu produzir foram defletidos pelas rochas e desfizeram-se em ecos intraduzíveis. Acabou por desistir, por se resignar à espera, e foi-se lentamente transformando em fóssil na esperança de que um dia, milhões de anos mais tarde, algum longínquo descendente dos descendentes da sua espécie, acabasse por encontrá-lo e lhe arranjasse um lugar num museu qualquer, com um letreiro a dizer numa língua que nem conseguia imaginar "Fóssil de otimista, antropoceno".
E aquilo que lhe ocupa o espírito é a angústia de não saber como foram os outros capazes de sobreviver sem que lá estivesse ele sempre a dizer que as coisas iam correr o melhor possível, explicando porquê através de explicações encontradas entre suposições e aquilo a que por falta de um termo melhor se deu o nome de pensamento positivo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sexo! Sexo! Sexo! E mais sexo!

Já perceberam, não é? A segunda parte do podcast do PODespecular sobre sexo na ficção científica e fantasia, em que eu participo, já está online, aqui. É basicamente a continuação da conversa divertida e algo caótica da primeira parte (ver aqui), após o que se segue uma secção mais focada sobre a antologia Como Era Gostosa a Minha Alienígena (bib.), na qual eu faço revelações inéditas sobre a origem do conto com que nela participo. E também falo de um outro conto erótico que escrevi, o Aniversário, e só ao ouvir o podcast me lembrei de que tinha prometido o link ao Paulo Elache. Esqueci-me por completo. Má onda, Paulo, desculpa aí.

Mas mais vale tarde do que nunca, não é? Então o conto pode ser lido aqui. Divirtam-se. Mas não se divirtam demasiado, vejam lá!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

And the winner is...

Quando lancei o passatempo imaginários pensei cá com os meus botões que, se tivesse mesmo muita sorte, obteria uma ou duas histórias boas, tanto no que toca à criação dos ETs, como na história propriamente dita. Desde o princípio achei que era mais provável que me aparecessem histórias com fragilidades, ou num lado ou no outro, e por isso mesmo esclareci logo à partida que iria dar prioridade à qualidade na construção dos ETs.

O resultado foi mais ou menos o que eu esperava. A melhor história chegou-me do Brasil, o que a deixa apenas candidata ao tal e-book (logo vos digo alguma coisa sobre ele se e quando se concretizar). E entre as demais, houve uma que se destacou no uso do português, na qualidade na construção da história e na escolha de um bom final, embora não tivesse conseguido levar-me a acreditar no alienígena que apresenta, motivo que a levou a ser preterida. E houve a vencedora, aquela que leva o livro para casa.

É uma história com fragilidades, que denota claramente ter saído dos dedos dum escritor ainda imaturo, mas a verdade é que já li coisas bem piores publicadas em fanzines, revistas e até em livros. E foi, das histórias portuguesas, aquela em que se notou um maior cuidado na criação de uma espécie ET simultaneamente estranha e verosímil. Por isso, os meus parabéns ao Francisco Norega, e aqui a têm:

O Acordar dos Amot

"O meu avô dizia-me que vivemos nas costas de um grande animal" atirou o rapaz de cabelos e olhos negros para os outros dois, por nenhuma razão em especial. Estavam deitados numa pequena clareira, a descansar depois de uma tarde típica de trapalhadas.
Estava tudo calmo, o vento trazendo de tempos a tempos os ténues sons da povoação.
"Dizia que todas as aldeias estavam construídas por cima de uns bichos gigantescos em forma de montanha, que formavam um manada," continuou o rapaz "e que, de vez em quando, eles acordam e se movem."
Silêncio. O céu estava cinzento — como sempre — e, o ar, frio.
"Tenho fome" disse o outro rapaz, virando-se, depois, para o louro. "Vamos a tua casa?"
"Vamos."
Levantaram-se e puseram-se a caminho, em silêncio. Era sempre a descer até à aldeia, por isso não tardaram a lá chegar.
As ruas eram estreitas e as casas, de dois ou três andares, encavalitavam-se umas nas outras. No centro da aldeia havia um grande buraco. Não era um poço, não dava acesso a sítio nenhum (pelo menos que alguém soubesse), e nunca ninguém tinha atingido o seu fundo. Não se sabia a razão de aquilo existir, mas ninguém se questionara com isso — simplesmente sempre tinha existido, e não deixaria de existir tão cedo. Tampouco se sabia a função que tinham as grandes estruturas de madeira que formavam arcos por toda a povoação, encabeçadas por uma sólida e gigantesca trave de madeira que ligava as casas dos dois lados das ruas.
Mas estes não eram assuntos com que se preocupassem os habitantes daquela aldeia, nem os das outras aldeias da região, todas elas construídas à volta de um buraco semelhante e com as mesmas traves.
"Olá rapazes" disse a mãe do rapaz louro, sorridente — não sabia, com certeza, das trapalhadas que o seu filho e os amigos tinham andado a fazer. Ou talvez soubesse — mas se eles não o fizessem naquelas idades, quando seria? "Acabei de fazer uns bolos deliciosos, e vocês devem estar cheios de fome!"
Os três rapazes sorriram, tão genuinamente como só as crianças conseguem fazer. Apressaram-se a ir até à sala e sentaram-se à frente do forno, aquecendo-se com o calor das brasas ainda acesas, e recebendo com um agradecimento silencioso os bolos que a mãe lhes levou.
Comeram o seu lanche com uma felicidade silenciosa, mas verdadeira. Ficaram ali até começar a anoitecer e se retirarem para o calor das suas famílias.

Um pequeno tremor assolou a aldeia, já a pouca luz com que o sol a brindava se tinha extinguido. As chamas da lareira foram rapidamente apagadas por um homem, como que num gesto reflexo.
Um novo tremor, desta feita ligeiramente mais forte, voltou a sentir-se. Uma criança de cabelos castanhos olhava para os toros agora encharcados, dando por si a pensar nas palavras que o seu amigo, nessa mesma tarde, proferira, a pensar nos míticos seres nas costas dos quais supostamente havia sido construída aquela aldeia — e muitas outras.
O filho, o pai e a mãe abraçaram-se e deram as mãos, com um brilho sereno nos olhos. E assim entraram pela noite dentro, enfrentando os sucessivos estremecimentos da terra com esperança e calma.

Os estremecimentos tornaram-se cada vez mais frequentes e não demorou muito até se tornarem num único tremor contínuo e avassalador. As pessoas permaneceram dentro de casa, providas de uma calma aterradora — todas as lareiras haviam sido apagadas de uma forma quase mecânica, e todos as famílias se haviam reunido.
Graças às estruturas de madeira que antes poderiam parecer excessivas, os edifícios — ou grande parte deles — iam resistindo. As traves de madeira e as estruturas anexas evitavam que os edifícios desabassem uns contra os outros, e as reforçadas estruturas internas das casas impediam que estas ruíssem. A esperança, essa, também ajudava — ou pelo menos nisso todos acreditavam.
Nas ruas ainda intactas apareceu um louco, proclamando o acordar dos Amot e profetizando a morte de toda a gente. Amot, era esse o nome que o meu avô dava aos grandes animais nos quais tinham sido construídas as aldeias, relembrou-se, aterrado, o rapaz de cabelos pretos como a Morte. Porque estaria aquilo a acontecer, logo naquele dia, que tinha contado as histórias do avô aos seus amigos? Seria culpa dele?
Amot.
"Vamos todos morrer! Os Amot acordam esfomeados, sedentos de carne que lhes dê energias para a sua migração. As casas não tardarão a ruir e os que não morrerem debaixo do tecto que sempre os abrigou serão asfixiados pelos gases que sairão de dentro do Buraco! Vamos todos morrer!" A sua voz estridente e rouca enchia todas as casas da aldeia e ecoava na floresta que cobria a montanha.
Depois, silêncio, por momentos. Meu Deus, que fiz eu? O rapaz sentia-se culpado e rompeu o abraço que os pais lhe davam, correndo para a rua. Rompeu a força da esperança, a esperança à qual a aldeia parecia agarrar-se. Era difícil andar na rua, o chão fugia-lhe debaixo dos pés e ele caía constantemente — quando finalmente chegou perto do buraco, o rapaz estava completamente ensanguentado, lavado em lágrimas de culpa.
Mas do buraco saía um odor estranhamente agradável, sedutor. O rapaz aproximou-se, rastejando, e inspirou profundamente, sentindo os tremores de uma forma cada vez mais ténue, sentindo-se leve. Leve.
Dois gritos de desespero fizeram-se ouvir quando o rapaz se deixou cair para o grande buraco. O pai e a mãe do rapaz caíram no chão, num lamento angustiado, desprovido de esperança.
"Não há esperança! Vamos todos morrer!" repetiu o louco. Os seus gritos assemelhavam-se ao crocitar de um corvo. "Só há Salvação para quem chegar às Planícies puro! A Terra deixará de tremer e todos pensarão que tudo ficará bem, mas depois virá o Cheiro e todos morrerão!" profetizou ele.

Quando o céu começou a clarear os estremecimentos tornaram-se mais e mais fracos, como previsto pelo louco.
Numa casa, ouviu-se uma voz feminina, algo hesitante. “Se calhar ele tem razão.”
"É só um louco" respondeu um homem — mas nem ele estava seguro do que dizia.
"Pode ser que sim. Mas…" pausa, como que para ganhar coragem, "e se não for?"
Da rua, como que em resposta, o louco voltou a gritar. "Vamos todos morrer! Quem sentir o Cheiro não terá salvação!"
O homem pareceu mudar de ideias. "Vamos embora, antes que seja tarde de mais" disse, tentando pela primeira vez transmitir algo não completamente genuíno — um sentimento de confiança.
A mulher não hesitou, e correu a meter os bolos que tinha confeccionado no dia anterior numa trouxa. O homem pegou num ramo de uma qualquer erva com um cheiro muitíssimo intenso. "Vamos" disse a mulher, despenteando os cabelos louros do filho e pegando-lhe pela mão. Este resistiu, e afastou-se da mãe.
"Vou chamar os meus amigos", disse, decidido. E, perante o olhar repreensivo do pai, continuou, batendo o pé. "Não os vou deixar cá. Não vou, não vou, não vou!"
"Vamos todos morrer!" voltou a fazer-se ouvir o louco, qual corvo agoirento.
"Não é altura para fazer destas birras, filho!" disse o pai, enquanto se aproximava dele, agarrando-o o pegando-o ao colo. Depois, voltou-se para a mulher. "Leva esse ramo de erva-das-neves, proteger-nos-á na floresta."

Tão rápido quanto os tremores ocasionais lhes permitiam correr, afastaram-se da aldeia, descendo a montanha. Ao chegarem ao pé de um pequeno riacho, o pai pousou o filho no chão durante um momento e, então, ele desatou a correr, com uma energia que só as crianças com um sentimento de amizade tão puro conseguem ter. Em poucos segundos tornou-se inalcançável, mas a mãe começou a correr atrás dele, desesperadas, sofrendo a perda antecipadamente, mas rapidamente caiu e se deixou ficar no chão, estendida a soluçar.
"Nestes momentos é preciso frieza" disse o homem para si mesmo, enquanto observava o seu filho a desaparecer nos confins da floresta, mais rápido do que ele alguma vez conseguiria correr.
Aproximou-se da mulher e tomou-a nos braços. Esta continuava a soluçar, mas encontrava-se já quase inconsciente. Apressou-se a descer o resto da montanha, num passo determinado, e, chegado ao seu sopé, pousou o corpo adormecido da mulher na erva verde.
Avançou, entrando pela planície verdejante dentro. O ar gelado que sentira centenas de metros acima, na aldeia, fora-se transformado numa brisa quente à medida que ia descendo a montanha.
Parou, observando à sua volta. Da planície vasta, erguiam-se abruptamente várias montanhas, distantes umas das outras, mas numa disposição que quase fazia lembrar uma manada.
De repente, um ruído ensurdecedor encheu-lhe os ouvidos — todo o mundo parecia desabar naquele momento. Mas não, eram as montanhas! Elas… estavam-se a… mover!
"Deus me valha!" A base das montanhas separavam-se da planície e as grandes massas de rocha moviam-se agora, qual imponente manada em migração.
De repente, um pensamento assolou-lhe a mente, e ele virou-se assustado. A sua mulher, onde estava? Deixara-a ali, a umas parcas dezenas de metros de onde se encontrava, mas esse sítio não mais existia, era sim uma grande massa de terra e rocha desordenada, deixada pelo levantar da montanha.
"Deus me valha…" repetiu ele, desalentado. Agora sim, tinha perdido tudo. A calma deu lugar ao desespero e um laivo de loucura despontou-lhe nos olhos — assim como tinha acontecido ao velho louco que vagueara pela aldeia naquela noite várias dezenas de anos atrás. Agora, a sua sina seria avisar os próximos aldeões que viessem a habitar no topo dos Amot, assim como o louco fizera.

Nas montanhas, a terra que circundava os buracos começou a desabar, levando consigo todos os seres atraídos pelo sedutor gás para o interior do sistema digestivo dos Amot — eram eles que lhes iam alimentar a migração.
Isto acontecia sempre que se iniciava uma nova migração, fazendo os buracos ficar maiores ao longo dos tempos. E é o tamanho do buraco que nos diz a idade de cada Amot.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Conto: Escultura-Homenagem

Haverá melhor maneira para começar um ano do que escrevendo um conto? Provavelmente há. Mas, convenhamos, há-as bem piores. Ir ouvir o Emanuel debaixo de chuva, por exemplo.

Este conto foi escrito ontem de madrugada. Pouco mais de uma hora de trabalho, e estava pronto, três páginas de texto, pouco mais de mil palavras. Hoje, meia hora de revisão e ficou melhor. Publicável. Pronto para vos ser oferecido neste primeiro dia de 2010. De modo que aqui o têm.


Escultura-Homenagem

A abertura nada tem de impressionante. Apenas um buraco redondo numa parede branca, pequeno demais para que Henrique não seja obrigado a dobrar-se, com cuidado para não tropeçar. É o que faz, apertando ao peito o pictogramógrafo. Da entrada parte um túnel, cujo diâmetro se vai alargando progressivamente até desembocar numa espécie de gruta, iluminada por uma luz difusa que parece vir das paredes, e obstruída por uma floresta de estalactites nitidamente artificiais, cones perfeitos que terminam em pontas agudas a centímetros do chão. Mas é claro não se tratar de nada de sólido ou pesado, pois basta a leve aragem criada pelos movimentos de Henrique para as fazer oscilar lentamente. Pêndulos solenes.
Olha em volta, olha para cima. Dá dois passos para um lado, outros quatro para outro, examinando a disposição das estalactites, tentando encontrar nelas algum motivo escondido. Nada encontra. Outra abertura escancara-se, negra, ao seu lado direito e é para lá que se dirige. Esta está concebida de modo a que possa ser percorrida confortavelmente, mas Henrique precisa de parar alguns momentos para conseguir adaptar-se à escuridão e ver um muito ténue veio de luz a sobressair no negrume e a indicar-lhe o caminho. Segue-o. Um pouco mais adiante, o corredor vira à esquerda, e vai desembocar numa segunda sala, esta brilhantemente iluminada com pequenos projetores multicoloridos que derramam todas as cores do arco-íris através duma miríade de estruturas que se assemelham a uma espécie de biombos translúcidos que lhe chegam aos ombros. Alguns fios de seda prendem-nos ao teto, e outros, mais grossos, geram padrões abstratos e variados nos próprios biombos. O caminho aberto entre eles leva Henrique a atravessar o centro da sala, onde todas as cores se fundem em brancura e os padrões formam um desenho em mutação constante, de novo causada pela levíssima aragem dos seus movimentos.
Henrique para um momento, maravilhado. Aquilo é, lembra a si próprio, o resultado de pouco mais de vinte e quatro horas de trabalho ininterrupto.
Continua a avançar. A saída da sala é, desta vez, uma larga arcada tapada por uma cascata de fios de seda aos quais estão presas a intervalos regulares minúsculas gotas iridescentes de algo que parece um líquido. Hesita antes de lhes tocar, instintivamente convencido de que aqueles filamentos são pegajosos e se lhe irão prender nas mãos ou no corpo. Mas ao vê-los ondular com a aragem da sua respiração, apercebe-se de que não se prendem uns aos outros, não se entrelaçam, não se emaranham, antes deslizam como se estivessem imunes a qualquer tipo de atrito. Por isso avança uma mão, tateia os filamentos com dedos cautelosos, sentindo-os fluir e fazer cócegas como longos cabelos secos. Segue a mão e penetra noutro corredor. Este é curvo desde o início, uma curva larga e suave para a direita, iluminada com uma luz muito forte cuja origem Henrique não consegue ver dali.
Percorre lentamente o corredor, cada vez mais ofuscado. Para por um instante. Procura nos bolsos os óculos de ajustamento de frequência, amaldiçoando-se por só agora se ter lembrado deles, e leva-os à cara. Assim que os põe, o corredor como que ganha vida. A luz, que parecia tão simples e potente como a dum projetor, dissolve-se em subtileza, e as paredes cobrem-se de desenhos realistas de animais e plantas, cenas de um mundo natural que lhe é estranho. Grandes animais voadores com quatro asas, minúsculos seres carnudos que parecem ser propulsionados a jato, milípedes gigantescos de corpo achatado, saltitões assentes num único pedúnculo semelhante a um caule e com uma coroa de apêndices a rodear aquilo que provavelmente será uma cabeça, plantas de folhas gigantescas e esburacadas, inflorescências de formas bizarras. Uma janela aberta para um mundo alienígena que Henrique só conhece muito vagamente. Demora-se, maravilhado, mas por fim arranca-se àquela contemplação e continua a avançar. À frente, ouvem-se ruídos, uma espécie de frufru, estalidos musicais. No fim do corredor, uma nova cortina de filamentos de seda define o início duma nova sala. Henrique atravessa-a e estaca.
O tórax do alienígena roda sobre si próprio, perfazendo cento e oitenta graus com uma velocidade excessiva, brandindo dois braços numa grande agitação. O abdómen em forma de pêra, de onde saem quatro patas carnudas com três articulações cada termina em mais dois apêndices, muito mais curtos do que os restantes, que trabalham num frenesi a seda que sai duma glândula bolbosa situada entre eles, um pouco mais abaixo. Trabalham-na dando-lhe a forma de cordões ou fitas, e vão adicioná-la a um objeto qualquer que Henrique não consegue ver dali por estar escondido pela parte mais larga da pêra. Através dos óculos de ajustamento de frequência, o alienígena parece tão colorido como uma arara ou um peixe-dragão. Henrique pega no pictogramógrafo, carrega na combinação de teclas que faz apresentar o pictograma de saudação interespecífica e apresenta-o ao alienígena. Este, sem nunca deixar de trabalhar a seda com todo o afã, dispara um braço articulado em quatro pontos e em menos de um segundo faz suceder no pictogramógrafo um conjunto de imagens que se atropelam com demasiada rapidez para que Henrique as consiga captar. O auricular ligado ao aparelho vem em seu socorro, traduzindo-as para áudio, a uma velocidade mais adequada.
— Saudação-interespecífica / resposta-enfática.
— Aguardar / caro-amigo / quase-feito / escultura-homenagem.
— Pronto-pronto.
E de novo o rodopio de tórax. Henrique espera, sentindo curiosidade de saber o que faltará para concluir aquela obra de arte, mas sem que essa curiosidade seja suficiente para o levar a cometer a provável indiscrição de se aproximar ou de espreitar. Mas não tem de esperar muito. Minutos mais tarde, o tórax do alienígena volta a rodopiar com grande rapidez e sem aviso prévio, e o seu abdómen desvia-se para o lado, com tanta velocidade que é como se num momento estivesse parado num sítio e no instante seguinte se encontrasse noutro, igualmente parado. Os braços teclam no pictogramógrafo uma breve sucessão de pictogramas, e o auricular traduz:
— Feito-feito / escultura-homenagem.
Henrique aproxima-se, já a introduzir no pictogramógrafo os pictogramas de admiração e elogio que sabe serem adequados. Mas é com dificuldade que os conclui, com mãos que começaram a tremer e braços cuja pele se enruga num arrepio. De repente, toda aquela sucessão fantasticamente bela de grutas de seda como que se transforma num túmulo. Pois na sua frente está uma representação humana em tamanho natural, uma representação humana com feições que não tem qualquer dificuldade em reconhecer como suas, e Henrique sente o coração na garganta porque essa representação humana tem os olhos fechados e a coloração uniformemente branca duma mortalha.

domingo, 12 de abril de 2009

Conto: Ange e Damune

Hoje, em conversa no twitter, este conto veio à baila. A bem dizer, foi trazido à baila por mim, mas uma das minhas interlocutoras manifestou interesse em lê-lo, e eu lamentei mentalmente, não pela primeira vez, que seja tão simples perder a informação presente na web.

É que o conto tinha sido publicado. Foi em 2005, no site Filhos de Atena, antes de alguém ter achado boa ideia hackeá-lo, fazendo assim com que se perdesse toda a informação lá contida. Desapareceram assim da web dois contos meus, este e outro, e mais uma série de textos duma série de gente, dos quais não resta nem sinal, a não ser que algum desses autores tivesse mantido consigo cópia daquilo que lá foi publicando.

Não foi, aliás, caso único. Com o site da Intempol aconteceu algo de muito semelhante, e as dezenas de ficções e não-ficções que lá se encontravam publicadas só puderam ser recuperadas porque parte delas foi arquivada pelo Web Archive. Um desses contos também é meu. E quando David Soares decidiu mudar de blogue, apagando o antigo, também desapareceu um dos meus contos, além de tudo o que o David tinha aí escrito e de um conto de um brasileiro de que não resta rasto, nem de título nem de autor.

Mas pelo menos Ange e Damune regressa hoje à "vida". Agora mesmo.


Ange e Damune


— Boa tarde, damun Kahaath — disse-me a secretária, uma mulherzinha minúscula de cornichos cor de rosa, um par de desnecessários e anacrónicos óculos pendurado do nariz, cabelo apanhado no alto da cabeça e umas asas raquíticas e cinzentas a despontar das espáduas. Purgatório típico, híbrida e agarrada aos tiques, manias e modas de quem fora na antevida.
— Os ange estão um pouco atrasados — prosseguiu, mantendo o ar circunspecto de burocrata que o era por ideologia e vocação. — Se desejar, pode esperar na sala. Eles não devem tardar.
Grunhi um assentimento e mostrei-lhe os colmilhos. Não custa ser simpático, e o damune tem em alta conta as relações públicas.
A sala era vasta, dominada por uma longa mesa e decorada com aquilo que no purgatório passa bom gosto: metade repleta de não muito subtis mas bastante banais referências ao andar de baixo, a outra com não mais subtis e não menos banais referências ao de cima. Sentei-me no braço de uma das cadeiras dos ange. Apeteceu-me. Ter-me-ia sentado na cadeira propriamente dita, mas são diabolicamente incómodas, com perdão do trocadilho: nada de buraco para o rabo e umas costas que não lembram ao menino jesus, feitas de três paus verticais, juntos a meio das costas como um tridente. É para os mariconços meterem as asinhas, naturalmente, mas não há damun que se consiga enfiar naquilo, muito embora o design esteja imbuído de uma deliciosa ironia.
Levantei-me. Estava a ficar impaciente, o que era precisamente o que os ange queriam. Os antevivos que ainda pensam que a malta do andar de cima respeita escrupulosamente todas as regras deviam ser convidados para vir assistir a uma destas reuniões. Talvez perdessem as manias.
Impaciência, paciência, pum, pam, pim, tralalá, prilimpimpim, não faz mal esperar assim...
Sentei-me numa cadeira do "meu" lado, uma cadeira decente, depositei a maleta sobre a mesa, abri-a e retirei os documentos. Pus-me a ler, apesar de já os conhecer de trás para a frente.
Demonstrando um timing perfeito, os ange escolheram entrar no momento em que acabava a primeira frase.
Eram três. Saudámo-nos com simpatia. Eu mostrei-lhes os colmilhos, eles mostraram-me as bochechas e adejaram as asas, adequadamente brancas e penugentas. Penojentas, diria eu se alguém me perguntasse. Mas ninguém pergunta, pois a moda dos ange é dos ange, só dos ange e ai de quem se intrometa. Lá em baixo conhecemo-los por paneleirotes, por uma questão de tradição, mas a verdade é que se não fossem as asas e o ar bochechudo de querubins, aqueles três até escapavam do cliché efeminado. Um trazia um mohawk e um piercing na asa esquerda, outro era tão barbudo quanto a sua compleição permitia, ostentando uma valente penugem no queixo, e só o terceiro era mais tradicional, mas mesmo esse trazia uma túnica tão curta que mais parecia uma camisa, metida displicentemente para dentro de um par de calças. Aquelas asas repugnantes é que eram, por si só, um atentado ao bom gosto.
Damun Kahaath, certamente? — disse o do mohawk. Mostrei os colmilhos e grunhi. O angi prosseguiu:
— Sou o angi Fuiriri, este é o angi Toriti e este o angi Patatati. Estamos aqui para tratar do caso do senhor Costa Maclaren, não é verdade? Deve ser rápido. Dada a documentação que recolhemos, não nos opomos a que no-lo leve lá para baixo, embora, como sabe, seja nosso dever salvar o máximo de almas que for possível. Infelizmente, somos constantemente confrontados com situações em que, para nosso grande pesar, nos vemos impedidos de exercer esse desígnio dadas as falhas irremediáveis que as almas apresentam à chegada aos nossos serviços. Suponho que esteja de acordo?
O mohawk engana, pensei. Este gajo é tão chato como todos os outros, safa!
— Não — resmunguei. — Não estou nada de acordo. Pelo contrário, acho que o Maclaren é material vosso. De caras.
Os ange pareceram chocados. Genuinamente. Deviam estar à espera que isto fosse favas contadas.
— Desculpe?! — disse o da penugem quando recuperou a fala (O Toriti? Patatati? Bah, não importa).
— Naturalmente. Temos aqui provas concludentes da sua intrínseca bondade — insisti, sacudindo o maço de papéis — e não podemos aceitar gente dessa lá em baixo, de modo algum.
Os ange entreolharam-se e dois levaram as mãos à raiz dos cabelos encaracolados. O terceiro respondeu-me.
— Desculpe, caro colega, mas não me parece que seja possível encontrar nesta alma motivos de redenção. Afinal de contas, o Maclaren fez dois desfalques e assaltou uma drogaria, que diabo... oh! Perdão!...
Soltei uma baforada de fumo das narinas, querendo com isso dizer que por mim podiam falar mal do chefe à vontade.
— Por amor à família — expliquei — por amor à família. O Maclaren tinha uma mãezinha doente, como sabem, padecendo de um caso grave de esquizofrenia paranóide e uma filha aleijadinha...
— Porque ele lhe deu uma surra quando ela tinha três anos! — interrompeu um dos ange. Não lhe fiz caso e continuei a ladainha.
— Aleijadinha, coitada, necessitando de cuidados permanentes e caros que o nosso amigo não podia comportar. — Sou o maior, pensei, comigo a jogar o jogo deles estes três palhaços não têm a mínima hipótese.
— Mas e as vítimas... a propriedade privada... — exasperou-se o da túnica — o que os actos do Macdonald causou nas vidas dos inocentes que atacou!...
— Inocentes? Quais inocentes? — Escolhi uns maços de folhas e atirei-lhos através da mesa. — Têm aí os vossos "inocentes". São todos clientes nossos, salvo a Cátia Castilho, que ainda está anteviva mas já tem um ficheiro lá em baixo bastante agradável e sem dúvida acabará por juntar-se-nos mais cedo ou mais tarde. O Maclaren não só roubou pela família, como escolheu muito bem quem roubava...
— ... ou teve uma sorte diabólica — resmungou o da barbinha, folheando os documentos. Desta vez nem se incomodou em pedir desculpa: estava a ficar zangado. Óptimo!
— Seja — disse o do mohawk, pondo os documentos de lado. — Aceitemos por agora que os roubos são inconclusivos. Isso não invalida o facto de que o Costa Maclaren assassinou duas pessoas a sangue-frio. Como pode sugerir que acolhamos um assassino lá em cima?
Reprimi a tentação de responder que não seria o primeiro. Não seria bom para a negociação. Em vez disso, escolhi uma tangente.
— Qual é o valor que se preza mais lá por cima?
— Como?
— Que é que vocês mais prezam? Qual o valor que está no topo da vossa escala?
— O amor?
— Tá bem, o amor, mas que amor? Isto é, o amor a quê?
— Não percebo onde quer chegar, damun.
— É ou não é verdade que lá em cima o valor supremo é o amor ao vosso chefe? O amor ao que é transcendente? Àquilo que não é humano?
— Bem, sim, mas...
— E é ou não é verdade que é bem aceite lá por cima fechar os olhos a pecadilhos menores quando eles são resultado e consequência desse amor?
— Não propriamente. Nós...
— Não? Então aquilo que você disse no começo da nossa conversa é mentira?
— Como?! Os ange nunca mentem, damun! Nós...
— Desculpe. Mas julgo tê-lo ouvido dizer que é "vosso dever salvar o máximo de almas que for possível". Disse isto, não disse?
— Disse e é verdade! O nosso...
— Certo. E, segundo a última versão do manual operativo dos agentes ange, que os vossos serviços amavelmente nos ofereceram, capítulo terceiro, parágrafo 54, alínea f, cito, "os dilemas e casos omissos devem ser resolvidos a favor da alma sempre que sejam resultado, no todo ou em parte, de amor transcendente ao não humano". Confirmam que citei correctamente, não confirmam?
— Confirmo, sim. Mas se nos deixar argumentar e não nos interromper gostaríamos de salientar que não vemos nenhuma relação entre esse ponto do nosso regulamento e o caso em análise.
— Ah, mas ela existe. Conhecem o caso da cadelinha?
— O caso da cadelinha?!
— Sim, a cadelinha que o Costa Maclaren teve em criança.
— Ah, sim claro. Uma tragédia. Pobre animal.
— Exacto. Pois bem, os nossos serviços psicométricos determinaram, sem margem para dúvidas que no momento de ambos os assassínios o Maclaren evocou a sua cadelinha. Têm aqui os resultados da análise. Ora bem, o que isto significa é que no momento dos assassínios ele não estava em nenhum estado que nos interesse a nós e, bem pelo contrário, se encontrava em pleno êxtase místico, repleto de amor, defendido do pecado por um sentimento que, ainda por cima, obedece às determinações do vosso manual operativo. Segundo os vossos regulamentos, aqueles actos não têm peso e a alma deve ser, como vocês dizem, salva.
Quando me calei os ange olhavam-me de boca aberta e breves lampejos de fúria no mais fundo dos olhos. Provavelmente continham-se para não arrancar a fina camada de bondade e compreensão com que se vestiam todos os dias de manhã e desatar aos palavrões e aos socos na mesa. Quanto a mim, também me continha mas para não me rir. O nó estava atado. E não tinha maneira de ser desatado.
— Isto é, isto é... — acabou por gaguejar o da barba — isto é altamente irregular.
Não disse nada. Limitei-me a mostrar os colmilhos.
O do mohawk estudava a análise psicométrica, provavelmente à procura de falhas. Chato mas inteligente, pensei, mas não vais encontrar nada: não te preparaste suficientemente bem para um caso que pensaste que ia ser apenas rotina e não vais ser capaz de ver para lá dos resultados mais óbvios. Acabou por colocar o documento sobre a mesa e olhar-me, de bochechas rosadas e um tremor pouco saudável nas asas.
— Parece estar tudo em ordem, realmente. Parece que não temos outro remédio senão aceitá-lo... quer dizer — corrigiu rapidamente — teremos todo o gosto em salvar mais esta alma dos tormentos lá de baixo, para maior glória do andar de cima. Como sabe, vivemos imersos em compaixão, o que este caso comprova à saciedade.
Pois, pois, pensei, lá por baixo damos outros nomes a esse tipo de compaixão. Mas disse apenas:
— Assinamos?
— Com certeza.
Fui o último a sair. Os ange esgueiraram-se a toda a pressa assim que puseram um trio de rabiscos ilegíveis no documento de entrega da alma do Maclaren ao andar de cima, levando consigo a sua cópia e a que se destina aos serviços de encaminhamento do Purgatório. Muito simpáticos. Arrumei a minha tralha com todo o vagar. Tinha sido fácil, afinal de contas. E muito divertido.
Quanto ao Costa Maclaren, era um pulha, um canalha, um javardolas da pior espécie. Merecia o inferno sete vezes. Mas para ele, ficar lá em baixo seria como passar a eternidade num parque de diversões. Agora lá em cima... no meio dos chatos todos do universo...
Danação eterna!
Quase que tive pena do homem.
Quase.
Em vez disso, soltei por fim a gargalhada que trazia atravessada. Saiu bastante diabólica. Foi uma boa gargalhada.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Fechado o trabalho no romance

Há dez minutos, com a publicação do índice do romance, fechei o trabalho no blogue Por Vós lhe Mandarei Embaixadores. Não pretendo voltar a mexer-lhe, embora tencione responder aos comentários que por lá sejam eventualmente colocados, para lá de lhe acrescentar alguma informação relativa à edição em papel quando ela ficar pronta.

Relativamente a esta, não há novidades. O empecilho continua a ser a capa, claro. Tenho andado a fazer experiências, mas ainda nenhuma me satisfez. No entanto, há progressos. O que quer dizer que a capa acabará por ser feita, demore o tempo que demorar. Seja como for, aquilo que pretendia fazer com o livro foi feito em cacos com o atraso na outra capa, de modo que agora já não há propriamente pressa. Mas julgo que antes do fim de Fevereiro, ou em Março, talvez tenha alguma novidade a este respeito.

Nessa altura, logo voltarei a falar do livro por minha iniciativa. Até lá, espero que se divirtam. E se for com aquela história, melhor.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

E chegámos ao fim

Pois é, pois é, pois é. Tudo o que é bom tem um fim, e tudo o que é mau também. É assim que, com a publicação, há pouco, do vigésimo oitavo capítulo de Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, termina esta longa série de posts aqui na Lâmpada e o romance fica finalmente completo no seu blogue. Fica apenas a faltar um índice, que será colocado online daqui a uma semana, e por ali o trabalho encerra-se. O blogue não, esse ficará disponível até que me dê alguma coisinha má. Ou talvez até depois de me dar uma coisinha má.

O último capítulo é muito curto, em jeito de epílogo, e faz um apanhado geral do que aconteceu aos nossos amiguinhos depois daquela Tona. E já que estamos em onda de apanhados gerais, o que acharam? Gostaram? Divertiram-se? O sistema de publicação tem pernas para andar? Digam de vossa justiça (ou até de vossa injustiça) aqui na caixinha de comentários ou nas caixinhas de comentários lá do blogue do romance ou então, se não vos apetecer escrever, um cliquezito nas estrelas já é alguma coisa.

E agora vejamos... que posso eu arranjar para alimentar a Lâmpada com regularidade, além dos posts semanais? Hm...

Hm...

Hmmmmmm......

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Na recta final

Pois é, malta, estamos na proverbial recta final da publicação de Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, e mais próximos da meta ficámos com o vigésimo sétimo capítulo, que acabou de ser disponibilizado lá no blogue.

É o último capítulo razoavelmente grande da história, e mostra-nos o que era, afinal, que vinha a descer, e porquê. Serra, descontrolado, a ver a vidinha a andar para trás, procura remediar o que ainda puder ser remediado, enquanto o ET se prepara para pôr em prática uma decisão que parece que já tinha tomado algum tempo antes.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Capítulo 26

Já pouco falta para deixarem de ver por aqui estas notas semanais, mas por enquanto ainda vos vou dando a novidade habitual das segundas-feiras: há mais um capítulo de Por Vós lhes Mandarei Embaixadores no blogue do romance. O vigésimo sexto.

Trata-se de outro capítulo muito curtinho, no qual acontece algo de inesperado em pleno discurso do ET, e Serra dá mostras de abundante valentia, paixão e altruísmo. Ou então não dá.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Vinte e cinco

Com o capítulo acabado de publicar no blogue que vocês já devem estar fartos de conhecer, sobe a vinte e cinco o número de capítulos de Por Vós lhe Mandarei Embaixadores que estão disponíveis online. E à medida que nos vamos aproximando do fim, mais a trama se vai adensando.

Desta vez temos mais um capítulo de tamanho médio, no qual finalmente termina o interminável discurso do presidente demissionário (demonstrando que não era interminável, afinal de contas) e o protocolo da Tona é quebrado mais uma vez, para grande exasperação do Meneres e consternação do nosso amigo Serra.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Chegou o vigésimo quarto

Então, rapaziada? As saídas foram boas? As entradas foram melhores? Já vos passou a ressaca? Se já, então têm ali ao lado o vigésimo quarto capítulo de Por Vós lhe Mandarei Embaixadores. E se ainda não, também têm, que o meu romancezito não faz destrinça entre os sóbrios e os bêbados.

Este capítulo é curto, e nele, após muita insistência e perguntas, o ET finalmente compreende uma série de coisas. Serra está cada vez mais enrascado, e a cerimónia da Tona prolonga-se, prolonga-se, proloooonga-seee... Se ninguém tomar nenhuma atitude, ainda o romance acaba antes dela. Acho eu. Mas que sei eu?

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

E o vigésimo terceiro...

... capítulo de Por Vós lhe Mandarei Embaixadores foi publicado há dez minutos lá do outro lado. Agora que já está tudo preparado para a bebedeira do ano novo, que haverá melhor do que divertirem-se com uma historinha maluca? Hm?

Este capítulo não é grande nem pequeno, antes pelo contrário. E é ocupado integralmente com um discurso do presidente demissionário. Mas não se assustem: o discurso tem tanto interesse que a gente não lhe liga pêva, e em vez disso estamos de ouvidos à escuta da conversa que se desenrola logo atrás entre Serra e o ET.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Capítulo 22

Então? Já encheram a casa de prendas e os bolsos de vazio? Já têm todas as ofertas que irão enfiar em sapatinhos de amigos, familiares e receptores de conveniência? Já? Pois de minha parte tomem lá uma oferta de que de certeza não estavam à espera: mais um capítulo, o vigésimo segundo (curiosa coincidência, atendendo-se à data), de Por Vós lhe Mandarei Embaixadores. Nunca imaginariam que eu vos oferecesse uma tal coisa, pois não? Eu sei, eu sei. Sou um mãos-largas.

Pois desta vez temos um capítulo de tamanho médio, no qual o ET, já sóbrio, começa a fazer perguntas incómodas. Parece um puto na idade dos porquês. Porquê? Porque... hm... aaa... olhem, perguntem ao Serra.