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quarta-feira, 5 de março de 2025

Paulo da Costa: In the News

E eis que chegámos ao fim, de novo com um conto, desta vez com um autor português (o nome de Paulo da Costa não engana), nascido em Angola e emigrado no Canadá há várias décadas, motivo pelo qual, provavelmente, o conto vem escrito também em inglês.

É uma história curiosa. Um daqueles contos do quotidiano que seguem as vidas de pessoas banais, procurando assim, dessa forma impressionista, traçar um retrato mais amplo da condição humana. No caso de In the News, os protagonistas são três, muito diferentes uns dos outros, a viver vidas que não se intersetam mas são intercaladas por manchetes noticiosas. Como quem diz que o mundo lá fora existe, e é só um e toca-nos a todos, mas de formas diferentes.

É uma verdade um tanto ou quanto lapalissiana, mas se calhar não faz mal nenhum lembrá-la, porque parece que há por aí gente que julga que o mundo é só aquilo que orbita o seu umbigo.

Especialmente quando a forma de o fazer está bem feita. Um protagonista morre? Acontece. Os outros dois continuam a viver as suas vidas em aberto, sem fim à vista. Não sou, confesso sem problemas, grande fã de finais em aberto, mas quando eles servem para vincar uma ideia, como aqui, não tenho nenhum problema com eles.

Gostei deste conto. Não é o tipo de literatura que mais me agrada, de uma forma geral, pelo que não posso dizer que tenha gostado muito. Mas gostei.

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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Mark Cox: Parakeet

E para terminar o triunvirato de poemas do Mark Cox, temos este Parakeet. E de novo há muito em comum com os dois poemas anteriores, não só no que toca à minha capacidade para me lembrar dele, como no que diz respeito a questões mais literárias, à atmosfera, por aí fora.

Embora a paisagem mude, continuando a ser americana mas transferindo-se para os campos de milho do Kansas, este é de novo um texto cheio de vazio criado pelo que esteve mas já não está. Pelo que existiu mas já não existe. Pelo que viveu mas já morreu. Um texto melancólico que, mais uma vez, falhou em atingir-me as alavancas do gosto da forma mais eficaz, embora me tenha levado a gostar de algumas das suas características.

E como eu pouco percebo de poesia, blá blá blá.

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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Mark Cox: Sill

Nem sempre é assim, mas por vezes acontece: os autores não só desenvolvem a sua própria voz, como parecem ganhar uma espécie de obsessões temáticas que os acompanham ao longo de tudo ou de parte daquilo que escrevem. Não sei se é o caso de Mark Cox — dois poemas são muitíssimo insuficientes para tirar esse tipo de conclusão, mesmo que aproximada — mas o facto é que este Sill tem muito em comum com Natural Causes.

Incluindo o facto de não me lembrar de todo de o ter lido pela primeira vez. E incluindo o facto de muito rapidamente a memória de o ter lido da segunda se começa a desvanecer.

E incluindo o facto de, apesar disso, até o ter achado relativamente interessante.

É outro poema cheio de quotidiano, que parte da morte de uma tia-avó e das mudanças que ela traz para tentar chegar a alguma espécie de entendimento do sentido da vida através do efeito que isso tem na sobrinha-neta. Gostei bastante da capacidade que Cox mostra de construir uma atmosfera complexa em muito poucas palavras, mas não foi realmente um texto que me tivesse acionado os botõezinhos do gosto da forma mais completa.

O que, como eu de poesia pouco percebo, deverá ser para Cox completamente igual ao litro. E para vocês também.

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sábado, 1 de fevereiro de 2025

Mark Cox: Natural Causes

Mais uma historinha americana, mais um texto cuja recordação se começa a desvanecer quase assim que acaba. Sim, zero lembrança de o ter lido. Dito isto, achei-o agora, na releitura, mais interessante que o anterior.

Natural Causes é uma pequena reflexão sobre os pequenos acasos de que é feita a vida. A vida e a memória, o que talvez explique em parte o motivo de eu ter achado interessante este poema de Mark Cox, uma vez que tem ligação direta com o motivo por que estive a relê-lo. Não me parece que seja muito bom (mas que sei eu de poesia?), mas tem interesse, o que por vezes é melhor do que ser bom.

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quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Janet Homer: Family Trees

Contrariamente ao que aconteceu com o último, este poema de Janet Homer não me disse nada, basicamente. É outra história americana em verso, mas achei-a tão esquecível que não só não tinha a menor memória de a ter lido há dois anos, como, relendo-a agora, noto que se começa a desvanecer assim que fecho a revista. Há aqui algum humor, parece-me, uma certa procura de raízes, refletida em parte no título de Family Trees, mas o poema pareceu-me sobretudo desconexo, uma espécie de fragmento de conversa sem princípio nem fim, repleto de peculiaridades tipográficas cuja razão de ser só raramente consigo descortinar.

Por outro lado, eu pouco percebo de poesia, pelo que é perfeitamente possível, ou até provável, que esta seja uma obra de grande nível, com demasiada areia para a minha pequena camioneta.

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domingo, 26 de janeiro de 2025

Michael Garcia Spring: Path to the Lighthouse

Antes das pausas, dizia com frequência, sempre que me deparava com poemas naquilo que ia lendo, que não percebia grande coisa de poesia. Pois bem: continuo sem perceber.

Apesar disso, achei este poema de Michael Garcia Spring bastante interessante, em grande medida pela capacidade que tem de evocar uma paisagem muito característica de uma geografia onde eu nunca estive mas que até conheço de a ter visto numa variedade de écrans.

Path to the Lighthouse é uma exploração fantasiosa e surreal, até um tanto ou quanto onírica, da costa ocidental da América do Norte, algures entre o norte da Califórnia e a Colúmbia Britânica. Sim, sobre essa paisagem paira a figura fantasmagórica de uma mulher. Mas o importante é mesmo, parece-me, a paisagem propriamente dita.

Mas lá está: posso perfeitamente estar completamente errado. Afinal, eu pouco percebo de poesia.

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segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Andrew L. Wilson: Ariel Sharon's Dream

OK, deste lembrava-me.

Não me lembrava dos pormenores, dos detalhes de enredo, mas sim, lembrava-me de o ter lido e do clima geral desta breve história de Andrew L. Wilson. E também me lembrava de ter gostado, o que foi coisa rara no período que antecedeu o meu piripacozinho. Refiro-me a lembrar-me do que lia e também a gostar do que lia.

Ariel Sharon foi um criminoso de guerra israelita que finalmente deixou o mundo um pouco melhor ao morrer em 2014. Na altura em que este conto presumivelmente terá sido escrito (a revista data de 2004; imagino que a criação literária tenha acontecido nesse ano ou no anterior), Sharon era primeiro-ministro de Israel, e o conto é claramente motivado pela fúria por um monstro daqueles estar naquela posição. Mas apesar disso, não é um conto furioso. É uma história de denúncia branda, servindo-se das técnicas do realismo mágico, da fantasia e de alguma metaliteratura para mostrar Sharon tal como era.

Ariel Sharon's Dream só é sonho na medida em que talvez fosse o sonho de Wilson: ver Sharon morto. Não só vê-lo morto, mas reencarnado na pessoa de uma das suas vítimas, um palestiniano, órfão ao nascer em consequência direta da ocupação israelita da Palestina, da opressão israelita na Palestina, que acaba assassinado, aos dez anos de idade, por uma bala disparada por soldados israelitas na Palestina. Um algoz a viver a breve vida de uma das suas vítimas.

Sim, gostei mesmo deste conto. Quando o li, e agora, ao relê-lo.

E agora ao relê-lo não consegui evitar interrogar-me sobre o que sentirá Andrew Wilson, se ainda andar por aí, ao ver que hoje, vinte anos depois, alguém ainda pior que Sharon dirige um genocídio ainda mais mortífero na mesma terra amaldiçoada por decisões tomadas há muitas décadas em salas aquecidas a milhares de quilómetros de distância.

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domingo, 5 de janeiro de 2025

Jack Smith: Dread

Começo por uma releitura, e é possível que sejam também releituras as próximas coisas a publicar aqui na Lâmpada. Uma releitura que, atestando o estado em que eu estava quando fiz a leitura inicial, foi quase como ler pela primeira vez; só mesmo no fim do conto se me agitou a memória com uma vaga recordação de já o ter lido.

Sim, Dread é um conto. Um conto de alguém com um nome tão genérico que quase parece pseudónimo: Jack Smith. Um conto muito americano, escrito em inglês (a revista é portuguesa, mas todos os textos finais estão em inglês), com uma atmosfera de realismo mágico cheia de foreshadowing. O protagonista, um vendedor de seguros em plena crise existencial, decide num impulso fazer gazeta ao trabalho (que odeia, embora pareça odiar mais os colegas que o trabalho) para pensar sobre a vida vazia que vive. E é basicamente sobre isso, o conto: o vazio da vida de um trabalhador de colarinho branco, enfiado até ao pescoço nas areias movediças do corporativismo americano. Vale uma tal vida a pena ser vivida? Smith parece achar que não, embora o seu protagonista não tenha grandes certezas. Ele detesta-a, sim, mas que alternativa existe?

O foreshadowing chega ao volante de condutores perigosos, armados daquelas tão americanas aberrações de quatro rodas, aqueles híbridos de SUV e camioneta, enormes, sôfregos de combustível e, aparentemente, de sangue. Numa manhã de viagem entre casa e o trabalho, escapa-se por pouco a pelo menos duas colisões fatais com uma coisa dessas. E depois, bem...

É um conto interessante, este. Não posso dizer que seja a melhor coisa desde a invenção da batata frita, que não é. Mas é interessante.

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

António Mesquita: O Pôr do Sol de um Louco

Não que eu perceba alguma coisa de poesia, e se calhar repito-me, mas uma vez mais tudo me leva a crer que António Mesquita é fã de Álvaro de Campos. E não que eu perceba alguma coisa de poesia, mas digamos que há coisas bem piores de que se ser fã.

O Pôr do Sol de um Louco é, pois, um poema — outro poema — que me parece fortemente influenciado pelas poesias do caro heterónimo racionalista, mostrando o mesmo tipo de caos pujante que este costuma mostrar nesses textos. É bastante mais curto do que é hábito ver-se nos poemas saídos da pena de Campos, ocupa só uma página, mas quem gosta de Campos provavelmente gostará dele, apesar (ou por causa?) do caráter aparentemente desconexo das imagens que as palavras surreais e enlouquecidas de Mesquita despertam. E eu gosto.

Não que eu perceba alguma coisa de poesia.

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quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Richard Simpson: Eucalyptus

Este Eucalyptus é mais um poema, longo, que me pareceu mais interessante do que o anterior, se bem que se Richard Simpson lhe tivesse tirado a organização em versos e estrofes e disposto as mesmíssimas palavras em frases e parágrafos, eu estaria aqui a falar de um conto e não de um poema, sem sequer sentir a necessidade de referir que a prosa é particularmente poética.

Simpson conta aqui uma história. Uma história nostálgica, aparentemente autobiográfica mas pode perfeitamente não o ser, sobre viagens pelas regiões ocidentais dos Estados Unidos nos anos 40 e pelos próprios anos 40, uma viagem de crescimento e descoberta, na qual o protagonista começa rapaz e termina pré-adulto. É uma história sobre aquilo a que os anglófonos chamam "coming of age", um conceito que é semelhante ao nosso amadurecimento mas não exatamente igual.

E também faz uma espécie de declaração de amor à música, e sobretudo ao jazz. Para isso só tenho aplausos.

Quanto ao poema enquanto objeto literário, posso dizer que gostei. Não muito, propriamente, mas gostei. Mas lá está: eu não percebo nada disto.

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domingo, 27 de novembro de 2022

Tex Taylor: As Montanhas Negras

O meu pai lia muito. A minha mãe também lia muito, de resto, até ficar com grandes problemas de visão, mas aqui falo só do meu pai por um motivo. Ele lia muito e sempre leu muito, desde miúdo. Tinha os seus gostos, as suas preferências, mas sempre foi um leitor eclético, tão capaz de mergulhar em Proust como de devorar livrinhos de bolso policiais, tão capaz de ler a poesia mais erudita como de se deliciar com ficção científica (tentou, de resto, convencer muitos dos intelectuais com que se dava de que Ray Bradbury era dos melhores escritores americanos vivos... sem grande sucesso, ao que me consta), tão capaz de gastar dinheiro numa edição em capa dura do Quixote como nos muito baratos livrinhos de bolso espanhóis. Livrinhos como este As Montanhas Negras.

Sim, não deixem que o nome de Tex Taylor vos engane. O autor é espanhol, o nome é pseudónimo e o livro pertence a um conjunto razoavelmente abundante de livrinhos de vários géneros, que foram editados durante anos e vendidos (exclusivamente?) em quiosques, todos eles com origem em Espanha, onde recebem o nome de "novelas de a duro". Aqui há tempos fui descobrir três ou quatro na biblioteca do meu pai e, porque sei que parte desses livros espanhóis são de géneros relevantes para o Bibliowiki, decidi a páginas tantas ler um para ver ao certo como são. Que tipo de escrita, que tamanho têm, essas coisas. O escolhido, sem grande escolha pois foi simplesmente o primeiro em que agarrei, foi este.

Não esperava nada de especial e não foi nada de especial o que li. A prosa é tão básica e o enredo é tão formulaico como eu já esperava. Surpresa, e apenas relativa, foi a exiguidade da obra. No bibliowiki, estes livros estão rotulados como romances, mas esse rótulo está errado. Apesar de ultrapassarem as 100 páginas, o formato do livro é tão pequeno e o tipo de letra tão grande que o texto pouco ultrapassa o tamanho de noveleta. E também surpresa, de novo relativa, foi a fraca qualidade da tradução, carregada de castelhanismos um tanto ou quanto estapafúrdios.

De resto, como a capa revela sem deixar margem para dúvidas, esta é uma história de faroeste protagonizada por uma mulher jovem que chega à fronteira acompanhada por uma tia, vinda de Nova Iorque, em busca do noivo que partira em busca de fortuna e deixara de dar notícias. Mas o que encontra nos territórios que formalmente pertenciam a índios mas estavam a ser invadidos pelo homem branco é muito perigo, canalhas decididos a violá-la e um galante galã (pleonasmo? acham?) que a protege. Claro que há perseguições, sopapos, índios que atacam e são mortos às dezenas, enfim, todos os clichés de uma história do faroeste. E amor instantâneo, obviamente. O galã fica sempre com a rapariga.

É tudo muito mauzinho, em vários detalhes é altamente duvidoso, quem goste de ser surpreendido com o que lê deverá ficar bem longe deste livro. Mas por outro lado, ele tem a qualidade principal do pulp: distrai. Sim, que pulp é isto. Pulp puro. É daquelas leituras feitas de propósito para desligar o cérebro, tirá-lo da cabeça e enfiá-lo no jarro de formol sobre a mesa de cabeceira. Não gosto, nunca gostei, nunca gostarei, mas há quem goste.

O meu pai? Não sei. A escassa quantidade destes livros cá em casa leva-me a crer que também não gostava, mas arranjava um ou outro de vez em quando, talvez quando andasse mais apertado de finanças e não pudesse comprar coisas mais interessantes e mais caras. E ao contrário dos livros de FC, que me aconselhou a ler quando cheguei à adolescência, não me lembro de alguma vez me ter tentado passar estes livros para as mãos. Portanto desconfio que a opinião que deles tinha era muito semelhante à minha. Mas só desconfio. Já não lhe posso perguntar, essa é que essa.

Escusado será explicar que este livro veio da biblioteca dos meus pais, mas aqui fica na mesma.

sábado, 26 de novembro de 2022

Philip K. Dick: Segunda Variedade

Nada como um conto (ou melhor, uma novela) profundamente dickiano para abrir uma coletânea de contos de Philip K. Dick.. Mas só mesmo com uma máquina do tempo quem escolheu esta história para abrir este volume poderia saber que se tornaria tão relevante para os tempos que estamos a viver neste momento. Sim, que ler hoje este Segunda Variedade (bibliografia) tem um impacto bem diferente, e bastante maior, do que teria se a novela fosse lida em 2017, o ano em que este livro foi publicado.

Porquê?

Por causa da guerra.

É que esta é uma história de guerra. Uma guerra longa que opõe as Nações Unidas à União Soviética, por motivos que os combatentes que a protagonizam já nem conhecem. E quando hoje olhamos em volta e vemos uma Rússia fascista a lançar, por interposta Ucrânia, uma guerra contra as regras internacionais corporizadas pelas mesmíssimas Nações Unidas, o arrepio de contemporaniedade é inevitável. E pior se torna quando nos lembramos que esta guerra do mundo real é em grande medida travada através de drones, veículos não tripulados de vários tipos, e a história de Dick se centra no perigo constituído por máquinas auto-replicantes que os americanos criaram para tentarem defender-se dos ataques russos... e que depois lhes fugiram completamente ao controlo.

Há muito em comum entre este enredo e as ideias que estão na base dos filmes do Terminator, embora aqui esteja ausente o elemento de viagem no tempo presente na obra de Cameron. Mas o mundo descrito por Dick é muito parecido ao mundo futuro de onde a personagem de Swarzenegger vem: um mundo arruinado, uma distopia absoluta, onde uma Terra devastada é palco de uma guerra de extermínio movida por máquinas contra os últimos resistentes da espécie humana. Que aqui não exista Skynet pouco importa. Que nesta novela haja três lados e não dois, por mais difusas que sejam as fronteiras entre esses três lados, importa ainda menos. Mas já tem mais importância que o fulcro do enredo, aquilo que o faz mover, seja outro. Ou seja: o cenário é muito semelhante, mas as histórias contadas são diferentes.

Os filmes da franquia Terminator centram-se na tentativa de salvar um combatente da guerra futura, sem o qual a derrota face às máquinas seria inevitável. Mas, fiel a si próprio, Dick centra-se na própria infiabilidade daquilo que os olhos nos dizem, na impossibilidade de certezas quanto à natureza das coisas. É que as máquinas nesta história arranjaram uma forma infalível para se infiltrarem nos bunkers russos (e será que só russos?): transformaram-se em androides praticamente indistinguíveis de pessoas comuns, salvo pelo facto de serem produzidos em massa, em séries de "pessoas" todas iguais. As variedades de que o título fala. E resulta. A guerra está prestes a terminar quando, a um muito delapidado bunker de tropas da ONU, chega um soldado russo com uma mensagem: a guerra está quase a ser perdida. Não por eles, russos, mas por toda a humanidade. Os da ONU desconfiam, mas vão investigar. E assim arranca um enredo dickiano no qual nada é realmente o que parece.

Ler esta história em tempo de guerra é particularmente terrível. Não que já existam androides assassinos a exterminar combatentes humanos, mas a desumanidade nas trincheiras é tal que é quase como se houvesse. E há evoluções tecnológicas que vão nesse sentido. Parece ser apenas questão de tempo até se chegar a este ponto, e isso é de arrepiar o mais fleumático.

Este é uma história invulgarmente política para o que é hábito em Dick. É uma novela antiguerra, cuja mensagem principal, além da ideia habitual de não se dever acreditar naquilo que à primeira vista parece ser real, é que da guerra não saem realmente vencedores, só derrotados, e que em última análise derrotados seremos todos.

É uma ótima história. Uma história perturbadora e de toda a relevância para os dias que vivemos.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Mário Cláudio: O Passeio da Tarde

Não tenho muito a dizer sobre este conto de Mário Cláudio. Há contos que se leem com agrado mas causam um impacto tão inexistente que se esquecem num ápice e este O Passeio da Tarde é uma dessas histórias. Ambientado entre o Porto e a Holanda, protagonizado por judeus portugueses que, na Holanda, se tornam criados de judeus holandeses, é um conto impecavelmente escrito que pretende, e consegue, esboçar o retrato de uma certa vivência. É um bom conto: faz na perfeição aquilo que, segundo me parece, pretende fazer. Mas também é um conto que não (me) aquece nem arrefece. Um conto indiferente. Não um conto aborrecido, note-se; enquanto durou a leitura não foi causa de bocejos. Mas terminada a leitura, virada a última página, o cérebro está pronto a expulsá-lo para bem longe da memória por não ter encontrado nele nada de realmente interessante.

Às vezes, maus contos podem ser interessantes ou ficar na memória por outros motivos (até por serem muito maus, simplesmente). Outras vezes, bons contos podem não ter interesse rigorosamente nenhum. Não me lembrarei deste conto. Mas é bom.

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domingo, 20 de novembro de 2022

Carlos Guilherme Riley: Lusitania Expresso

A maré de poemas continua, mas agora estamos de regresso à língua portuguesa, deixando o francês para trás.

Este Lusitania Expresso é um poema razoavelmente extenso, no qual Carlos Guilherme Riley usa as reminiscências de uma viagem pessoal para a Europa para manifestar choque e consternação pelos ataques terroristas de 11 de março em vários pontos do sistema ferroviário madrileno, especialmente mortíferos na estação de Atocha.

É uma visão pessoal de um acontecimento que hoje é já apenas histórico mas na época (esta edição é de 2004, o ano dos ataques) estava absolutamente fresco na vivência das pessoas. Dezoito anos é muito tempo, e ler este poema hoje é certamente diferente de lê-lo então. O impacto é muito menor e é muito maior a proporção de atenção dada à parte literária do texto face ao que ele tem de mais saído das entranhas, por assim dizer.

Não tenho nada contra os sentimentos expressos no poema, muito pelo contrário. Mas do poema propriamente dito não gostei muito. Felizmente, eu de poesia não percebo nada, portanto o que gosto ou deixo de gostar pouco importa.

Textos anteriores desta publicação:

Renato Carreira: O Fim Chega Numa Manhã de Nevoeiro

Dizer-se que não há regra sem exceção é um lugar-comum dos mais aborrecidos, mas não deixa de tender à verdade, especialmente quando essas regras e exceções se referem a conjuntos alargados de elementos. E a literatura pulp é um conjunto alargado de elementos, pelo que quando eu digo que não gosto de pulp, coisa que faço com regularidade e verdade, fica sempre entreaberta a porta para a chegada de alguma exceção que contrarie a regra.

Este romance de Renato Carreira quase foi essa exceção. Quase.

Se se tivesse mantido até ao fim com as características que mostrou no início, tê-lo-ia sido. De início, até chegar talvez a metade do livro, O Fim Chega Numa Manhã de Nevoeiro é uma ficção pulp de uma forma muito assumida e consciente, mas que não se leva a sério, mostrando uma autoironia bastante interessante. Com as características boas do pulp — a prosa ágil, o enredo movimentado, etc. — mas sem que os seus defeitos — clichés, caráter formulaico, personagens unidimensionais, por aí fora — sobressaíssem demasiado, ou pelo menos envolvendo esses defeitos em ironia, como quem diz "eu sei que vocês sabem que isto é uma treta, mas estou-me a divertir e espero que vocês também estejam". E a leitura flui entre sorrisos.

Mas com o avanço do romance, essa frescura vai-se perdendo.

Será isso que explica que quando a leitura se encerra a sensação que fica é que qualquer coisa se perdeu pelo caminho. Que se acabou de ler uma história pulp com algum interesse, mas apenas uma história pulp, tão repleta de clichés e tão formulaica como qualquer outra. Fica de mais positivo a ironia de desconstruir o mito de D. Sebastião, desfazendo séculos de exaltação do rei-herói pátrio que um dia haveria de regressar para pôr ordem nesta bandalheira e retratando essa figura como um velho e poderoso taumaturgo pronto para instaurar o seu reino maligno, matando mundo e meio ao fazê-lo. E fica a pena por tão promissora ironia não ter conseguido soltar-se do lastro de clichés criado pelo ambiente de fantasia urbana, cheio de vampiros e feiticeiros e mais ou menos discretas criaturas mágicas, escondidas de olhos indiscretos nos interstícios do mesmo mundo que nós, simples mortais, habitamos e por o protagonista que Carreira vai buscar ao policial negro também ter trazido consigo todos os clichés do género, incluindo a inevitável femme fatale que o deixa embeiçado e acaba por traí-lo.

Se Renato Carreira tivesse querido ou conseguido subverter a estrutura narrativa que escolheu para o seu romance, talvez todos estes clichés servissem como efeitos poderosos de prestidigitação literária, elementos de reforço de um truque que leva o leitor a instalar-se confortavelmente no sofá do que já conhece para no fim lhe tirar o tapete, mergulhando-o em algo de novo. Durante a primeira parte do romance pareceu-me (ou nutri a esperança de) que era precisamente para aí que a história se encaminhava. Mas não, ou pelo menos não de uma forma eficaz. Há no desenlace do enredo uma certa subversão da jornada do herói, mas é uma subversão tão ambígua que não tem o poder necessário para criar esse efeito de "ha, por esta não esperavas tu!" E assim, o romance termina como uma mera história pulp.

Será uma história pulp genericamente bem feita e com alguns elementos realmente interessantes, mas é apenas uma história pulp. É muito provável que agrade a quem goste de histórias pulp, mas quem tiver alergia a clichés o mais certo é não gostar. É um livro que entretém; se foi apenas esse o objetivo, ele foi alcançado. É também um livro que teria potencial para ser bastante mais e pela parte que me toca tenho pena que não tenha querido ou conseguido sê-lo.

Não é mau. É pelo menos razoável, talvez um pouco mais que isso. Mas podia ter sido bem melhor.

Este livro foi comprado.

sábado, 19 de novembro de 2022

Marc-Ange Graff: Exil et Exuvie

Provavelmente estarão a pensar qualquer coisa como "lá vem este outra vez dizer que não percebeu nada de outro poema do Marc-Ange Graff", e se o pensarem têm certamente motivos para isso. Afinal, é basicamente o que tenho vindo aqui dizer sobre os dois anteriores, e este Exil et Exuvie também tem título de poema em francês. 1+1=2, assunto arrumado.

Mas não, não propriamente.

Ou seja, sim, estamos perante um poema, ainda que um poema de versos tão longos que quase parecem parágrafos, e sim, começa por ser em francês. Mas é um poema muito musical, e o francês de que se serve é significativamente mais acessível do que o dos textos anteriores, o que faz com que eu não tenha ficado nem por sombras tão aos papéis com ele. É um poema sobre a língua, com um ritmo francamente interessante em que o som das palavras quase parece ser mais importante do que o seu significado. Quase.

E além disso, a segunda metade do poema é em inglês, o que por um lado torna tudo muito mais fácil para mim e por outro transforma todo o texto numa espécie de metáfora de emigração e exílio (a perda da língua como equivalência da perda da pátria?). E da solidão que isso acarreta.

Se bem o entendi, claro. Que eu, como digo sempre, não percebo nada de poesia.

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quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Marc-Ange Graff: Nanan

Pelo nome do autor, Marc-Ange Graff, já calcularão que o que vou dizer aqui é basicamente o mesmo que disse sobre Facture 2. Nanan é mais um poema em francês que pouco entendi. De diferente só o seguinte: o meu francês chega para captar o ritmo do poema, e disso gostei. E ficamos por aqui.

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terça-feira, 15 de novembro de 2022

Marc-Ange Graff: Facture 2

Falo cinco línguas, talvez seis se as contar com boa vontade, e o francês é uma delas. Compreendo, sem as falar, mais algumas. Nem todas, no entanto, falo ou compreendo com o mesmo grau de fluência, e o meu francês, se é suficiente para ler textos literários que não sejam demasiado exigentes, fica coxo quando a exigência aumenta. E este Facture 2, de Marc-Ange Graff é um texto exigente: poesia.

Portanto esta opinião não é uma opinião; é um marcador. Serve para dizer que a coisa existe, que a li, que pouco compreendi porque o meu francês é insuficiente, e nada mais.

Venha a próxima.

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terça-feira, 8 de novembro de 2022

Philip K. Dick: O Impostor

Toda a gente sabe que há autores que ficam conhecidos por um determinado tipo de história, ou de abordagem à arte de contar histórias. Mas o que nem toda a gente sabe é que por vezes as histórias que corporizam esse tipo ou essa abordagem de forma mais perfeita nem são as mais lidas ou famosas.

Olhem o Philip K. Dick, por exemplo. Ficou conhecido pelas suas ficções convolutas, cheias de reviravoltas, que traduzem uma visão paranoica do mundo e muito duvidosa da consistência da realidade ou da identidade. E de facto, as suas obras mais conhecidas traduzem em grande medida essa visão. Mas este conto, O Impostor (bibliografia), apesar de não ser dos seus contos mais conhecidos, é capaz de ser o conto mais dickiano de todos os contos de Dick que eu conheço. E se não for mesmo o mais dickiano, está com toda a certeza no topo.

A humanidade está em guerra com uns alienígenas de Alfa do Centauro. O protagonista é Olham, um homem envolvido no esforço de guerra, que um belo dia é surpreendido em casa por uma visita inesperada. Alguém vem prendê-lo, acusando-o de ser alguém que ele sabe perfeitamente que não é. Alguém, ou por outra, algo: um robô criado pelos centaurianos e enviado para a Terra com uma bomba rebenta-planetas nas entranhas. E o bom do Olham vai ter de arranjar alguma maneira de provar que os que o rodeiam estão enganados, e ele é simplesmente quem sabe ser, não um robô assassino qualquer.

O enredo é conhecido. Não só o lemos várias vezes nas ficções de Dick como o encontrámos nas numerosas adaptações cinematográficas que as histórias dele sofreram. Mas aqui está como que destilado até à sua expressão mais pura. E está cá tudo aquilo que faz de Dick Dick.

Este conto não será tão bom como alguns dos outros contos do seu autor, talvez. Mas é Dick em estado puro. E é bom.

Conto anterior deste livro:

Irmãos Grimm: O Dinheiro das Estrelas

Um fã de ficção científica alimentado a livros da Argonauta provavelmente olha para um título como O Dinheiro das Estrelas e passa-lhe pela cabeça a possibilidade de se tratar de uma história de FC, especialmente se não vir ao lado o nome dos Irmãos Grimm. Mas não é nada disso. É mais uma historinha muito curta, milagreira, sobre as coisas boas que acontecem às pessoas generosas.

É uma história de fundo muito cristão, mas não sei ao certo se será mesmo cristã ou as suas origens são outras. Para variar, a nota dos Grimm é curtíssima, dizendo apenas que o conto foi "escrito a partir de uma recordação muito ténue" (isto é: é mesmo deles), pedindo também que quem a conhecer completa a complete, o que implica que a consideram um mero fragmento. Pode ser que o seja, mas a verdade é que contém um arco narrativo completo, apesar da brevidade: menina parte pelo mundo e vai entregando tudo o que possui a quem pede, ficando absolutamente sem nada, após o que as estrelas se transformam em moedas, enriquecendo-a para o resto da vida.

Não, não é nada de especial. Mas há piores.

Contos anteriores deste livro: