quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

domingo, 25 de fevereiro de 2007

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Interrogação metalinguística

Em quantas línguas será possível dizer "raios partam quem passa a vida a fazer obras em casa"?

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Tamanhos e populações de cidades e zonas metropolitanas

Refletindo mais um pouco sobre o que escrevi no fim deste post, cheguei à conclusão de que devia colocar aqui uma palavrinha de cautela, porque embora tenha a certeza de que a ideia geral está certa, os valores concretos dependem de alguns fatores que não tenho informação suficiente para avaliar. É que aquilo a que o WG chama área metropolitana depende daquilo a que as fontes, geralmente organismos oficiais (no nosso caso, o INE), chamam áreas metropolitanas, e isso varia bastante de país para país. Não faço a mínima ideia do modo como os espanhóis agregam as cidades em zonas metropolitanas, mas sei que os portugueses têm quanto a isso uma abordagem restritiva.

Explicando:

Portimão é a maior cidade do Barlavento do Algarve, e serve de pólo de atração de pessoas vindas de cerca de 20 km em redor, ou em certos casos até mais, seja para trabalhar, descansar ou fazer compras. É, sob esse ponto de vista, um pequeno centro metropolitano, que tem uma espécie de Almada, Seixal e Barreiro do outro lado do rio, que no nosso caso se chamam Parchal, Ferragudo e Mexilhoeira da Carregação, terras tão intimamente ligadas a Portimão (e umas às outras, até por uma urbanização que já é contínua) como a Margem Sul está a Lisboa. Ou mais até: pelo menos temos mais pontes.

Mas não são só as duas margens do Arade que são urbanizadas. A vila de Alvor, cujo centro dista 5 km do de Portimão, está também já unida à cidade por uma urbanização que é basicamente contínua. E já nem falo duma sére de antigas aldeias, outrora próximas da cidade, que se transformaram primeiro em dormitórios e que acabaram depois engolidas pela malha urbana: Cardosas, Sesmarias, Donalda, Três Bicos, Praia da Rocha, Pedra Mourinha, Boavista, etc., etc.

Não sei se os 39783 habitantes calculados pelo World Gazetteer para Portimão incluem estas antigas aldeias ou não (suponho que sim), mas sei que não incluem nem Alvor nem as nossas "Almadas" do outro lado do rio. Quando se segue o link para as áreas metropolitanas portuguesas lá está a de Portimão em 12º lugar, incluindo apenas a cidade propriamente dita. Não é real. A verdadeira área urbana da cidade que aqui existe deveria incluir tudo o que é urbanização contígua, pelo menos de Alvor até Estômbar, uma cidade que se deverá aproximar dos 60 mil habitantes e que se vai também "esticando" para Lagoa de um lado e para a Mexilhoeira Grande do outro, mais cerca de 10 mil habitantes.

Sei que Portimão não é caso único. Ainda no Algarve, Faro é o centro de uma área metropolitana que vai das Gambelas, Montenegro e da Ilha de Faro à periferia oriental de Olhão, uma zona metropolitana com urbanização contínua que deverá superar os 80 mil habitantes, mas que no WG também surge restringida à cidade propriamente dita, no 10º lugar da lista. E imagino que o mesmo aconteça com outras cidades portuguesas, em particular as do Minho.

Se os dados espanhóis refletirem melhor do que os nossos a realidade no terreno, é possível que o desequilíbrio no número de cidades relevantes não seja assim tão grande como parece. Não deverá haver alterações nas maiores, pois a terceira área metropolitana portuguesa - a de Braga - está demasiado longe dos 500 mil habitantes para que chegue lá se lhe forem agregados núcleos populacionais que poderão eventualmente estar intimamente ligados à cidade, mas as áreas urbanas portuguesas com mais de 100 mil habitantes não deverão ser apenas 4.

Por outro lado, estarão sempre muito longe das 42 de Espanha.

Sim, mas não

Também gosto (bastante) de grafittis, e não é de hoje.

Odeio, mas de raiva, é a porcaria dos tags.

E como são as duas faces da mesma moeda...

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Diz que...

Hoje houve finalmente uma gaja nua.

Tamanhos e populações

Isto não vem a propósito de coisa nenhuma, mas hoje, ao procurar na internet por outras coisas mais úteis no imediato, fui cair num site chamado World Gazetteer, que tem dados sobre a população de uma aparente infinidade de áreas urbanas e divisões administrativas de todo o mundo, e resolvi aproveitar para verificar umas ideiazinhas que tenho vindo a ter, pelo menos, desde o referendo à regionalização. Ou seja, desde 1998.

Dizia-se, na altura, no campo adversário da regionalização, que Portugal não se devia regionalizar porque "é do tamanho de uma região espanhola".

Isto já eu sabia ser relativamente falso, pois das 17 regiões espanholas só 3 têm uma dimensão comparável à do nosso país (92 mil quilómetros quadrados): as duas Castelas e a Andaluzia (com 94, 87 e 79 mil quilómetros quadrados). Todas as outras são bem mais pequenas, e a maioria nem chega sequer ao tamanho do Alentejo.

Mas acontece que o Alentejo, que é a maior das nossas regiões, conta muito pouco no todo nacional. Porquê? Porque o que faz um país ou uma região, muito mais que um território, são as pessoas e aquilo que essas pessoas produzem. E no Alentejo não só não vive mais que meio milhão de pessoas, vez e meia menos que na zona Centro, e sete vezes menos que no Norte ou em Lisboa e Vale do Tejo, como ainda por cima o que esse meio milhão produz tem menos relevância para a economia nacional do que, por exemplo, o que produzem os habitantes do Algarve, que são menos 100 mil.

Situação simétrica existe em Espanha, com a Catalunha, por exemplo, pequena (pouco mais do que a soma do Alentejo e do Algarve), mas rica e populosa (sete milhões de habitantes), logo com um peso enorme no todo espanhol.

Quis por isso verificar se a ideia de Portugal ser do tamanho de uma região espanhola era mais ou menos válida quando se pensa na população em vez da área. E uns quantos cálculos de somar mais tarde tinha a resposta.

A ideia é menos válida ainda.

Portugal tem dois milhões e meio mais pessoas do que a mais populosa das regiões espanholas: a Andaluzia. E, uma vez mais, há três regiões muito mais populosas do que as restantes: a Andaluzia, quase com 8 milhões de habitantes (quase um décimo dessa gente vive em Sevilha, e esse valor sobe para cerca de um sexto quando é tida em conta a área metropolitana), a Catalunha com 7 milhões de habitantes (milhão e meio em Barcelona e quase 5 milhões se incluirmos a área metropolitana) e a Comunidade de Madrid com 6 milhões de habitantes, metade dos quais na cidade propriamente dita. Das outras regiões de Espanha só Valência tem mais população do que as mais populosas das atuais (e não-autónomas) regiões portuguesas, quase 5 milhões de pessoas, e de novo com grande peso a cair na capital. As restantes andam pelos dois milhões, um milhão, e, sem contar com as cidades autónomas do Norte de áfrica, Ceuta e Melilla, há três com uma população comparável ao Alentejo ou Algarve: a Cantábria, La Rioja e Navarra.

Comparando as sete regiões portuguesas (as cinco CCRs do continente e as regiões autónomas) com as espanholas, o Norte viria em 5º lugar, Lisboa e Vale do Tejo viria logo a seguir, e o Centro ainda viria na parte superior da tabela, com o seu milhão e 800 mil pessoas a encaixar-se entre Castela-La Mancha (pouco mais de 1 milhão e 900 mil) e Múrcia (quase 1 milhão e 400 mil). Das regiões do Continente só o Alentejo e o Algarve ocupariam posições na parte de baixo da tabela, ambos a encaixar-se entre a Cantábria e La Rioja, a menos populosa das regiões europeias de Espanha. Curiosamente, as duas autonomias que temos de facto, a Madeira e os Açores, só conseguem ter mais habitantes do que os dois enclaves espanhóis em Marrocos.

Portanto da próxima vez que alguém vos vier dizer que Portugal é do tamanho duma região espanhola, já sabem: mandem-no dar uma curva. Portugal é maior do que qualquer das regiões de Espanha, e as cinco regiões que temos hoje enquadram-se harmoniosamente no contexto ibérico, quer em dimensão, quer no que é realmente importante, em população. Os espanhóis têm duas vantagens sobre nós: cidades bastante maiores que as nossas (em Espanha há nove zonas urbanas com mais de 500 mil habitantes e em Portugal há duas; em Espanha as zonas urbanas com mais de 100 mil habitantes são 42, e em Portugal não passam de 4), e poder regional democraticamente eleito.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Porreirinho!

Porreiro: alguém que fala de uma das minhas traduções. E mais porreiro ainda: fala bem:

As palavras de Howard estão muito bem servidas pela tradução. Costuma-se dizer que traduttore traditore, mas a tradução cuidada destes contos preserva-lhes o vigor e a chama que são tão vitais a este género literário.


Tinha algum receio desta, confesso. Porque não gosto dos contos do Howard, receei que esse não-gosto se refletisse na tradução. Parece que não, e fico contente.

Obrigado, Artur. E olha: há mais na calha...

Queixo-me à Deco?

Fui buscar um Público, deram-me um P. Podem roubar-me o úblico assim sem mais nem menos?

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Posta recomendável

Muito recomendável ler esta posta do Miguel Vale de Almeida.

E acabou por ser bastante melhor do que parecia à hora do almoço

Sim, parece que vamos ficar com o referendo entre nós durante mais algum tempo. A participação acabou por não ser tão catastroficamente fraca como parecia que ia ser, bem longe disso. é certo que ainda não chegou aos 50%, mas aproximou-se bastante, e fazendo as contas verifica-se que houve mais um milhão e duzentos mil votos do que em 1998, o que neste país são muitos votos.

Até é possível que tenham votado mais de metade dos eleitores que o são de facto. Não sei bem quanto será a abstenção técnica por estes tempos, é caso para perguntar ao Pedro, que ele é que é o especialista, mas é bem capaz de ser coisa para cobrir os 6,4% que faltaram para chegar aos 50.

(E não seria, já agora, boa ideia arranjar para eventuais futuros referendos um limite de vinculatividade - ui! que palavrão! - que tome a abstenção técnica em conta?)

Quanto ao resultado, foi ótimo. Contra a hipocrisia da igreja católica, contra a mentira sistemática e a histeria demagógica da maior parte dos "nãos", contra a deturpação de quem nos queria convencer de que as palavras não significam aquilo que significam, contra a intolerância dos que acham que a ética deles deve valer mais do que a ética dos outros, o povo que foi às urnas, e em especial o povo jovem que parece que hoje resolveu mesmo aparecer, deu uma lição de inteligência.

Agora passa-se a bola aos deputados, esperando que acabem por aprovar uma lei decente. Com medidas de acompanhamento, com um período de reflexão suficientemente curto para não pôr em causa os prazos, mas suficientemente longo para permitir uma ponderação de cada caso individual, com medidas de incentivo ao aborto químico em detrimento do cirúrgico, muito mais perigoso, muito mais invasivo e muito mais lucrativo para as célebres clínicas privadas. Etc. Há muitos e bons exemplos onde ir buscar inspiração. Façam favor de a ir buscar.

E até pode ser que isto tenha como consequência que até os maiores talibãs do não, aqueles que sempre se opuseram não só ao aborto como também ao uso de contracetivos, ao planeamento familiar e à educação sexual nas escolas, os mais ratos dos ratos de sacristia, acabem por chegar à conclusão de que essas coisas, comparadas com o aborto, são um mal menor e as comecem a promover em vez de lhes pôr travão como até aqui. Não será muito provável, concordo, mas não custa sonhar.

Este referendo não terá posto Portugal no século XXI, como exagerou o Louçã, mas é inegável que nos deixou um pouco mais livres de teias de aranha.

Adiante!

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Isto é mesmo irónico

Alanis?!




Your 1996 Theme Song Is: Ironic by Alanis Morisette



It's like rain on your wedding day

It's a free ride when you've already paid

It's the good advice that you just didn't take

Who would've thought ... it figures

Votei

E lá votei, naquele que provavelmente será o último referendo que se fará em Portugal. Para quê dar voz ao povo quando o povo não a quer?

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Escrever ficção

Escrever ficção é ter uma arena onde gastar toda a mentira e poder assim viver a vida real de forma verdadeira.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Se fosse em Lisboa...

Isto que estão a ver aqui ao lado em ponto pequeno (podem clicar para ver em ponto grande) é algo que, se tivesse acontecido em Lisboa, ou até no Porto, receberia honras de telejornal e teria já todas as televisões em cima, de objetivas apontadas e repórteres sequiosos de mais informação: uma árvore que caiu, desenraizando-se por completo, em cima de um par de automóveis que estavam pacatamente a descansar junto ao passeio.

Mas não foi nem em Lisboa nem no Porto, de modo que se não fosse este blog ninguém saberia. Tal como ninguém soube quando, há um par de meses, outras duas árvores desabaram da mesma forma na mesma rua, ou quando, pouco antes do natal, e ainda na mesma rua, um apartamento ardeu por completo porque a velhota saiu esquecendo-se da comida ao lume. Nem sombra de notícia em nenhum sítio, pois estas coisas não se passaram em Lisboa ou no Porto. Passaram-se na minha rua, que macacos me mordam se não é uma rua bestialmente atreita a peripécias, por mais que as televisões as ignorem.

(E não, nenhum destes acontecimentos me afetou a mim, pessoalmente, de nenhuma forma. Esclareço caso estejam curiosos)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Outra treta do não

Mais uma. Só uma, que isto em doses pequenas digere-se menos mal:

"O sim implica que basta a mulher querer fazer um aborto para que ele se faça"

MENTIRA. Isso talvez fosse assim se a pergunta interrogasse os portugueses se concordam com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez por vontade exclusiva da mulher. Mas não é isso que está na pergunta. A palavra "exclusiva" não se encontra em lado nenhum. Que seja por vontade da mulher que o aborto se faça não exclui nem que o pai seja tido em conta, nem que haja um aconselhamento prévio e obrigatório por pessoal de saúde nem nada que se pareça. Exclui apenas que o aborto seja despenalizado quando é feito contra a vontade da mulher. Tudo o resto é possível e depende apenas da forma como a lei for regulamentada na assembleia da república.

Tretas do não

Os pró-prisão andam doidos a atirar cuspo para o ar, a ver se conseguem confundir as pessoas o suficiente para as levar a ficar em casa ou a votar não. São tantas as tretas, as mentiras, as manipulações, as grandes e pequenas canalhices que o estômago, ao ouvi-los, dá um nó e trepa exófago acima até à garganta.

Estas são algumas:

"O sim significa aborto livre"

MENTIRA. O sim significa aborto restringido. Restringido às primeiras 10 semanas de gravidez, logo proibido às 20 ou às 30. Restringido a ser essa a vontade da mulher e não do padre, do patrão ou do violador. Restringido a ser realizado em estabelecimento de saúde legalmente autorizado, logo proibido em talhos, vãos de escada, à beira da estrada ou na sacristia.

"O sim significa mais aborto"

MENTIRA. Ninguém sabe nem pode saber a priori se o número de abortos irá aumentar, ficar igual ou baixar. Depende de demasiadas coisas. Depende da forma como o sistema for montado, depende da regulamentação da lei que for aprovada na AR, depende de se poder ou não, finalmente, pôr em prática a educação sexual nas escolas, depende de haver, ou não, aconselhamento prévio à interrupção (que com o aborto clandestino não existe), etc., etc. E etc. O que se pode dizer com toda a segurança é, isso sim, que o sim significa menos aborto realizado em condições medievais, com as consequências óbvias que isso tem quanto à mortalidade feminina e a problemas de saúde graves que os abortos clandestinos provocam.

"Com o não pode-se despenalizar depois"

MENTIRA. Ao responder não à pergunta do referendo está-se a dizer que não se quer despenalizar, e se essa resposta for vinculativa, isto é, se houver mais de 50% de participação, a AR não pode despenalizar sem violar grosseiramente a vontade do eleitorado, o que tem consequências óbvias quanto à validade e relevância de futuros referendos. Julgo até mesmo que se a AR tentasse aprovar uma lei que desrespeitasse o resultado de um referendo vinculativo, essa lei seria travada pelo tribunal constitucional.

Já para não falar do que aconteceu depois do último referendo. Houve palavras e mais palavras e mais palavras e o que foi realmente feito foi quase nada. Palavras? A essas, meus caros, leva-as o vento. E com grande frequência para bem longe

"Esta lei não prende ninguém"

MENTIRA. Há pessoas condenadas a penas de prisão que só por acaso (ou por uma interpretação benévola da lei por parte dos juízes que nada garante que se prolongue) não é prisão efetiva. E mais: um julgamento e uma condenação, mais do que uma humilhação e uma devassa da vida de uma pessoa, é algo que fica para toda a vida. Um julgamento e uma condenação fica no cadastro de quem é julgado e condenado, e um cadastro conspurcado por uma condenação tem consequências várias, e todas negativas, para o resto da vida.

"Há um consenso em que a vida humana começa na conceção"

MENTIRA. Não há consenso nenhum. Há quem pense que a vida humana, com tudo o que isso implica, começa na conceção, e há quem pense que não, que no momento da conceção a única coisa que acontece é a junção de duas células humanas para formar uma outra célula humana, que está viva é humana da mesma forma que uma célula de fígado, pele ou intestino está viva e é humana. Há quem ache que essa célula que se forma no momento da conceção deve ter direito a toda a proteção que qualquer um de nós tem, e há quem julgue que não tem direito a mais proteção do que uma célula de fígado, pele ou intestino. Há quem tenha a certeza de que no zigoto existe já toda a humanidade possível e há quem tenha igual certeza de que no zigoto nada há além de um potencial de humanidade que se irá gradualmente concretizando ao longo da gravidez. Mais: ambas as visões são inteiramente defensáveis à luz do conhecimento científico corrente.

E é precisamente por não haver consenso nenhum que o voto "não" implica a imposição totalitária e intolerante de uma visão sobre outra. é tão aberrante criminalizar quem faz um aborto, revestido da absoluta certeza de que não está a cometer nada que se pareça ainda que remotamente com um homicídio por o feto não ser um ser humano, como seria criminalizar quem não o faz por ter as certezas inversas.

E muitas mais haveria, todas tão rebatíveis como estas. Mas basta, que este assunto me deixa mal disposto. Se querem mais disto, vão ao blogue dedicado ao assunto.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Não me chamo Alice, mas...

... às vezes sinto que estou do outro lado do espelho. Então agora não acabei de ver um tipo do CDS a alertar contra o perigo das clínicas privadas?!

Às tantas é Portugal que fica do outro lado do espelho e só agora dei por isso...

Por onde andará o gato de Cheshire? Fazia-me falta agora aquele sorriso.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Isto tem MESMO que ser lido

Eu nunca faço isto, e sou mesmo contra, por princípio, a que se faça isto, mas por uma vez sem exemplo abro uma excepção e republico um texto alheio sem pedir licença nem ao autor nem ao lugar onde ele veio publicado (como forma de minorar a prevaricação, vão links para os sites de ambos lá no fim). Porque concordo com cada letra, vírgula e espaço e, mais importante, porque é indispensável que, perante a monumental e torpe campanha de desinformação a que temos assistido por parte dos pró-prisão, textos como este sejam lidos, relidos e voltados a ler. Muitas vezes. Por muita gente.

Uma pergunta directa para uma resposta honesta

A pergunta a que vamos responder no referendo do próximo dia 11 é compreensível para qualquer pessoa que saiba ler e isso é algo que nenhum contorcionismo político ou gramatical poderá mudar. "Concorda com a despenalização..." A despenalização é, evidentemente, a palavra-chave desta pergunta. é talvez surpreendente, mas o referendo do próximo dia 11 não é acerca de quem gosta mais de bebés, tal como não é acerca de quem mais respeita o sofrimento das mulheres. A pergunta do referendo também não é "dê, por obséquio, o seu palpite acerca de quando é que a alma entra no corpo dos seres humanos", matéria que sempre intrigou os teólogos. Não é acerca de quem gosta de fazer abortos e quem gosta de dar crianças para orfanatos. Por isso e acima de tudo, devo confessar que sofro de cada vez que ouço na televisão jornalistas falarem dos dois campos em debate como o "sim ao aborto" e o "não ao aborto".

Numa pergunta que começa com aquele "concorda com a despenalização", os dois votos possíveis não se dividem em pró-aborto e antiaborto, e muito menos pró-escolha e pró-vida. Os que respondem "sim" à pergunta são "pró-despenalização". Os que respondem "não" são "pró-penalização" (ou "antidespenalização", o que é forçosamente ser a favor da penalização). Tudo o mais é responder com alhos a uma pergunta sobre bugalhos, e qualquer chefe de redacção deveria saber isso. "... da interrupção voluntária da gravidez...". Até agora sabemos que a pergunta é sobre despenalizar, mas ainda não falámos de quê. Há quem tenha problemas com a expressão "interrupção voluntária da gravidez" por considerá-la um eufemismo, mas acontece que é a fórmula correcta para designar um aborto não-natural, não-espontâneo.

Mesmo assim, isto não atrapalha o debate: toda a gente parte do princípio de que IVG é aquilo que, em linguagem corrente, genérica e imprecisa, chamamos "aborto". Os problemas surgem quando nos aproximamos da segunda parte da pergunta. "... se realizada, por opção da mulher". No mundo real, o que quer dizer esta parte da pergunta? Quer dizer que a concordância com a despenalização da IVG deve ser dada (apenas e só) no pressuposto de que ela seria realizada por opção da mulher. Basicamente, significa que se uma mulher for forçada a abortar por uma terceira pessoa, esse aborto é crime e essa tal terceira pessoa será punida. Quer dizer que, se fulano apanhar uma mulher grávida, a anestesiar e lhe interromper a gravidez, não poderá eximir-se respondendo que "o aborto foi despenalizado", precisamente porque graças à segunda parte da pergunta o aborto só é despenalizado se for por opção da mulher. No mundo do "não", porém, esta parte da pergunta é a que causa mais engulhos. Percebe-se porquê. "Por opção da mulher"? A mulher, grávida de poucas semanas, a tomar uma decisão? Sozinha? Deve haver aqui qualquer coisa de errado.

Quando se lhes retorque que não poderia ser por opção de outra pessoa, e se lhes pergunta quem queriam então que fosse, a informação não é computada. Algures, de alguma forma, teria de haver alguém mais habilitado para tomar a decisão. O pai? O médico? O Estado? Então e se qualquer deles achasse que a mulher deveria abortar, contra a vontade desta? Pois é. é precisamente por isso que aquele inquietante "por opção da mulher" ali está. "...nas primeiras dez semanas...". Aborto livre, grita o "não"! Aqui está a prova, o aborto é livre até às dez semanas! Ora, meus caros amigos, o limite de dez semanas significa precisamente que o aborto não é livre... Ou o facto de só se poder andar até 50 quilómetros por hora dentro de uma localidade significa "velocidade livre"? Não faz muito sentido, não é verdade?

Enquanto digerem esta pergunta, os adeptos do "não" mudam de estratégia. Então o que acontece às 11 semanas? E o que acontece, meus amigos, quando se anda em excesso de velocidade? é-se penalizado, e a penalização vai-se agravando quanto maior for o excesso de velocidade. Isso quer dizer que, nos pressupostos da pergunta, o aborto não é livre. Não era esse o problema? "... em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" Esta parte final é tão clara que vou poupar palavras. Um "estabelecimento de saúde" quer dizer que não é um estabelecimento desportivo, e "legalmente autorizado" quer dizer que não é ilegal, ou que não é legalmente desautorizado, se tal coisa existisse.

Mas vale a pena notar o que "legalmente autorizado" não quer dizer. Não quer obrigatoriamente dizer do Estado, mas também não quer dizer privado, particular, ou o que seja. Quer dizer apenas que é num estabelecimento de saúde conforme com os procedimentos legais e que foi expressamente autorizado para a operação em causa.Não há melhor barómetro da má-fé neste debate do que dizer que estamos em face de duas perguntas diferentes, ou até duas perguntas de sinal contrário (uma legítima, a outra capciosa), tentando fazer passar a ideia de que a "segunda pergunta" de alguma forma perverte a primeira, rompendo com ela. Não há aqui primeira nem segunda pergunta: há apenas uma pergunta, que se refere a determinadas condições, condições essas que qualificam e restringem o âmbito da questão. Dizer o contrário disto não é só má-fé, é principalmente má-lógica: se a segunda metade da pergunta está contida na primeira, ela não pode ser mais aberta do que a anterior. Como é natural e faz sentido, cada passo da pergunta a fecha um pouco.

Dizer que é "despenalização da IVG" significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é "por opção da mulher" significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até "às dez semanas" significa que não é sem qualquer limite, dizer que é "em estabelecimento de saúde" significa que não é no meio da rua, e dizer que a pergunta se refere a um estabelecimento de saúde "legalmente autorizado" significa que não pode ser no dentista, ou na farmácia, ou no ginásio. Tudo o resto é apenas uma desculpa para não se assumir as responsabilidades do voto. Pessoalmente, não vejo nesta pergunta nada que não me agrade, e vejo muita coisa que me agrada.

é uma pergunta de compromisso, cautelosa, que prevê os limites mais importantes, deixando a definição das políticas (de saúde, de planeamento familiar, judicial, etc.) para os actores e momentos certos. Pode responder-se sim ou não, e eu responderei "sim". Sou pela despenalização, naquelas condições, como outros são pela penalização mesmo naquelas condições. O que não se pode é invalidar a pergunta, degradando a sua lógica. Trata-se de uma pergunta directa. Como tal, pede apenas uma resposta honesta.

Rui Tavares
«Público» de 3 de Fevereiro de 2007