A Origem das Espécies é um livro que dispensaria apresentações se não fossem tantos os que dele falam sem nunca o terem lido. Esse facto faz com que não só a apresentação se torne necessária, mas até talvez indispensável. Portanto vamos a ela.
A Origem das Espécies é a obra mais conhecida de Charles Darwin, na qual esse famosíssimo naturalista inglês explana e defende a sua teoria sobre a formação e evolução das espécies biológicas. Em vida, Darwin fez várias edições deste livro, e esta que o Público publicou é pelo menos a terceira. Uma referência, algures no volume, a qual edição, ao certo, é aqui traduzida teria sido útil, porque Darwin foi, em cada edição, atualizando o texto, somando-lhe respostas a ataques e contestações à teoria, clarificando certos aspetos e reformulando pormenores cuja natureza e explicação foi sendo afetada por novos conhecimentos.
Ou seja, trata-se de um livro científico até ao âmago, refletindo até na sua história de publicação a natureza eternamente incompleta e dialética do conhecimento científico. A ausência de uma referência a esse facto nesta edição é uma das suas grandes falhas, em especial quando praticamente todos os outros livros publicados na coleção em que este se insere ("Livros que Mudaram o Mundo") são de uma natureza bem distinta. Na verdade, até o próprio título da coleção pode induzir em erro. Não creio que tenha sido tanto o livro de Darwin a mudar o mundo, mas a filosofia e metodologia que lhe está subjacente: o método científico. Este livro é apenas filho do método científico. Um filho dileto, certamente, mas um filho mesmo assim. O método precede-o e sucede-o, e o livro em si é apenas dele consequência.
Mas, meus caros amigos, que consequência!
Trata-se de um livro brilhante, no qual Darwin explana extensamente as suas ideias sobre a evolução, explicando o raciocínio que esteve na sua génese (muitissimo simplificadamente: Darwin encontrou um paralelismo claro entre a criação das variedades nas espécies domesticadas e o surgimento de variedades em tudo semelhantes em espécies selvagens; todo o edifício teórico nasceu daí, concentrando-se o cientista em seguida nos mecanismos que poderiam substituir, na natureza, a ação que em cativeiro é desempenhada pelo homem). E fá-lo sem nunca fugir às maiores dificuldades que a teoria enfrentava no seu tempo, reconhecendo com frequência o caráter insuficiente do conhecimento científico da sua época, mas considerando que aquilo que já era conhecido era suficiente para que a sua explicação para como e porquê a natureza está repleta de variedade fosse a mais apoiada pelos factos.
Lembremo-nos de que na época de Darwin factos fulcrais como a deriva continental ou a existência do ADN eram completamente desconhecidos. Até a realidade do tempo geológico estava envolta em densas brumas, e o máximo de que os geólogos eram capazes eram ideias vagas baseadas em grande medida na velocidade de criação de depósitos sedimentares. Começava-se apenas a ter alguma solidez na ideia de que a Terra, e por conseguinte a vida na Terra, existiu durante uma quantidade praticamente inimaginável de tempo antes de ser marcada pelas primeiras pegadas humanas.
Com estas limitações, a correção genérica da teoria darwinista é absolutamente notável. Tal como notável é o rigor e honestidade intelectuais, e a dedução lógica sempre baseada em factos tão sólidos quanto possível, com que ele chega à teoria. Obviamente, nem tudo o que escreve neste livro é verdade. Seria impossível que fosse, e o próprio Darwin o reconhece, dando como exemplo do porquê algumas ideias que ele próprio nutriu em tempos e depois abandonou por terem colidido com novas observações. Mas não há qualquer dúvida de que Darwin fez o melhor que alguém poderia fazer com os dados que tinha à disposição. Incluindo a sua explanação a uma vez rigorosa e didática, inteiramente legível por qualquer pessoa que tenha um conhecimento mínimo destas matérias (ainda que para melhor apreciar o livro convenha ter mais do que um conhecimento mínimo, em especial no que toca à história da ciência).
A Origem das Espécies é, sem sombra de dúvida, um grande livro. Não terá mudado o mundo, mas anunciou ao mundo que ele estava a mudar. Para grande incómodo de algumas pessoas, incapazes de compreender que a realidade é o que é, independentemente de acreditarem nela ou não. Que o incómodo e alguma polémica (inteiramente estéril, diga-se de passagem) perdurem ainda hoje, mais de cento e cinquenta anos depois da publicação desta obra, é eloquente testemunho do poder que as ideias falsas podem ter quando demasiado entranhadas em psiques mais avessas ao pensamento.
Para o leitor português há ainda um motivo adicional de interesse: o papel central que os nossos arquipélagos atlânticos, e em especial o da Madeira, têm no argumentário de Darwin. Estamos habituados a associar Darwin e este seu livro às ilhas Galápagos, mas a verdade é que a Madeira surge nas suas páginas com muito maior frequência.
Este livro foi comprado.
(e finalmente terminam as opiniões de leitura referentes a... 2013!)
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segunda-feira, 17 de março de 2014
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Lido: Contos Fantásticos
Contos Fantásticos (bibliografia) é uma pequena antologia que esconde por trás desta designação razoavelmente genérica (embora adequada) uma antologia de contos clássicos de horror. Uma boa antologia de contos clássicos de horror, diga-se, pois não só é sólida no que toca à qualidade das obras que a compõem, em geral elevada, como também o é em termos temáticos.
Paradoxalmente, foi aí mesmo que ela falhou comigo. O problema não será tanto desta antologia em concreto, há que dizê-lo. O problema é o cânone.
Há quem adore o cânone, enchendo a boca com obras incontornáveis, leituras obrigatórias, o diabo a quatro. Mas eu, confesso, não pertenço a esse grupo, e quanto mais leio mais me afasto dele. Por vários motivos, alguns dos quais esta antologia serve lindamente para ilustrar.
O principal problema de que o cânone enferma é tornar-se limitativo. Limitativo na edição, por exemplo, fazendo com que se reeditem sucessivamente as mesmas obras uma e outra vez e outra ainda. Para quem lê pouco, isso é ótimo: permite-lhe tomar facilmente contacto com o que de melhor, segundo gerações sucessivas de leitores e literatos, se foi produzindo num determinado campo. Para quem lê um pouco mais, no entanto, já não é, porque vai chegar inevitavelmente a um ponto em que encontra as mesmas obras em edições diferentes. Como aqui.
Onde esta antologia falhou comigo foi na completa ausência de novidade. Nem uma única, para amostra. Já tinha lido todos estes contos em outras edições. É certo que eles não são muitos, mas a verdade é que se a seleção não se tivesse restringido ao cânone o resultado provavelmente teria sido bem mais interessante, não me limitando a releituras ao mesmo tempo que mantinha a qualidade razoavelmente inalterada.
Pois esse é o segundo aspeto em que o cânone é limitativo. É que não há, geralmente, diferença de monta em termos de qualidade entre as obras que pertencem ao cânone e as melhores obras que não pertencem. Poder-se-ia construir com estas um cânone alternativo tão abundante e praticamente tão bom como o verdadeiro. E no entanto, a ideia de que o cânone é o ápice da produção cultural, é o necessário e (pior) o suficiente para arrancar uma pessoa às trevas da bronquice e transformá-la num intelectual, está de tal modo disseminada que provoca um forte esquecimento relativo de muitos trabalhos, e até alguns autores, cheios de qualidades.
O cânone é, pois, e de uma forma muito concreta, um cliché. E todos sabem como é vantajoso tentar escapar aos clichés, não é verdade? Ou pelo menos disfarçá-los, usá-los de forma criativa.
Voltando a esta antologia, não foi isso que aqui aconteceu. Com outras obras de outros autores, ou até dos mesmos, estes Contos Fantásticos teriam provavelmente recebido da minha parte uma opinião mais favorável. Mas quem os selecionou ficou-se pelo cânone, pelo cliché, e o resultado sofreu com isso.
Eis o que achei de cada uma das três histórias, ou pelo menos eis links para o que já antes tinha achado delas:
Este livro foi comprado.
Paradoxalmente, foi aí mesmo que ela falhou comigo. O problema não será tanto desta antologia em concreto, há que dizê-lo. O problema é o cânone.
Há quem adore o cânone, enchendo a boca com obras incontornáveis, leituras obrigatórias, o diabo a quatro. Mas eu, confesso, não pertenço a esse grupo, e quanto mais leio mais me afasto dele. Por vários motivos, alguns dos quais esta antologia serve lindamente para ilustrar.
O principal problema de que o cânone enferma é tornar-se limitativo. Limitativo na edição, por exemplo, fazendo com que se reeditem sucessivamente as mesmas obras uma e outra vez e outra ainda. Para quem lê pouco, isso é ótimo: permite-lhe tomar facilmente contacto com o que de melhor, segundo gerações sucessivas de leitores e literatos, se foi produzindo num determinado campo. Para quem lê um pouco mais, no entanto, já não é, porque vai chegar inevitavelmente a um ponto em que encontra as mesmas obras em edições diferentes. Como aqui.
Onde esta antologia falhou comigo foi na completa ausência de novidade. Nem uma única, para amostra. Já tinha lido todos estes contos em outras edições. É certo que eles não são muitos, mas a verdade é que se a seleção não se tivesse restringido ao cânone o resultado provavelmente teria sido bem mais interessante, não me limitando a releituras ao mesmo tempo que mantinha a qualidade razoavelmente inalterada.
Pois esse é o segundo aspeto em que o cânone é limitativo. É que não há, geralmente, diferença de monta em termos de qualidade entre as obras que pertencem ao cânone e as melhores obras que não pertencem. Poder-se-ia construir com estas um cânone alternativo tão abundante e praticamente tão bom como o verdadeiro. E no entanto, a ideia de que o cânone é o ápice da produção cultural, é o necessário e (pior) o suficiente para arrancar uma pessoa às trevas da bronquice e transformá-la num intelectual, está de tal modo disseminada que provoca um forte esquecimento relativo de muitos trabalhos, e até alguns autores, cheios de qualidades.
O cânone é, pois, e de uma forma muito concreta, um cliché. E todos sabem como é vantajoso tentar escapar aos clichés, não é verdade? Ou pelo menos disfarçá-los, usá-los de forma criativa.
Voltando a esta antologia, não foi isso que aqui aconteceu. Com outras obras de outros autores, ou até dos mesmos, estes Contos Fantásticos teriam provavelmente recebido da minha parte uma opinião mais favorável. Mas quem os selecionou ficou-se pelo cânone, pelo cliché, e o resultado sofreu com isso.
Eis o que achei de cada uma das três histórias, ou pelo menos eis links para o que já antes tinha achado delas:
Este livro foi comprado.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Lido: Histórias Fantasmagóricas
Histórias Fantasmagóricas (bibliografia) é uma coletânea de horror de Hugo Rocha assumidamente derivativa. Ou seja, é o próprio Hugo Rocha que afirma que um dos seus principais objetivos ao escrever estas histórias, tanto por moto próprio como por pedido editorial, foi como que importar para a literatura portuguesa o conto de fantasmas gótico que tanto sucesso fez décadas mais cedo — e, na verdade, continua ainda hoje a fazer em certos círculos — em outras latitudes, e muito em particular em países anglófonos.
E, de facto, essa qualidade derivativa, de emulação de exemplos alheios, é muito evidente na maioria das quinze histórias que compõem o livro, pese embora a tentativa, também ela deliberada (e afirmada) de como que aclimatar a planta transplantada, enraizando-a no novo clima. Quase todas as histórias se passam em Portugal, e as exceções ou se ambientam em geografias próximas, geográfica ou culturalmente, ou têm personagens portuguesas.
Não me parece que se trate de um livro realmente bom. Em parte por causa dessa natureza derivativa, mas também porque Hugo Rocha recorre a um estilo algo estranho. A sua prosa é labiríntica, enovelada, repleta de vírgulas, com frases tão retorcidas que por vezes mal se percebe onde começam e onde acabam. Para que uma prosa assim resulte em algo agradável de ler é necessário que seja produzida por um grande escritor, coisa que Hugo Rocha não é. É um escritor com um vocabulário rico. É um escritor que sabe desenvolver e estruturar histórias, mesmo que nesse desenvolvimento e estruturação emule exemplos estrangeiros. Mas está longe de ser um grande escritor.
Por outro lado tampouco me parece que este livro seja mau. Sim, é derivativo, mas a derivação é em geral bem feita. As histórias fantasmagóricas são credíveis enquanto histórias ambientadas nas nossas geografia e cultura, e por vezes são até mais do que isso. Por vezes Rocha mergulha mais fundo, aborda temas polémicos ou sensíveis, revelando, não sei bem se deliberadamente se por acidente, as preocupações que tem quanto à sociedade repressiva que o rodeia (o livro é de 1969, em plena ditadura e com guerras coloniais em curso, por mais que se falasse na época de primavera), e as contradições de si mesmo enquanto homem do seu tempo. E foi precisamente isso que mais me interessou durante a leitura deste livro, e foi em boa medida por isso que acabei por gostar dele. Por isso e porque entre as histórias que são na sua maioria medianas também se encontram algumas realmente boas.
Eis o que achei delas:
E, de facto, essa qualidade derivativa, de emulação de exemplos alheios, é muito evidente na maioria das quinze histórias que compõem o livro, pese embora a tentativa, também ela deliberada (e afirmada) de como que aclimatar a planta transplantada, enraizando-a no novo clima. Quase todas as histórias se passam em Portugal, e as exceções ou se ambientam em geografias próximas, geográfica ou culturalmente, ou têm personagens portuguesas.
Não me parece que se trate de um livro realmente bom. Em parte por causa dessa natureza derivativa, mas também porque Hugo Rocha recorre a um estilo algo estranho. A sua prosa é labiríntica, enovelada, repleta de vírgulas, com frases tão retorcidas que por vezes mal se percebe onde começam e onde acabam. Para que uma prosa assim resulte em algo agradável de ler é necessário que seja produzida por um grande escritor, coisa que Hugo Rocha não é. É um escritor com um vocabulário rico. É um escritor que sabe desenvolver e estruturar histórias, mesmo que nesse desenvolvimento e estruturação emule exemplos estrangeiros. Mas está longe de ser um grande escritor.
Por outro lado tampouco me parece que este livro seja mau. Sim, é derivativo, mas a derivação é em geral bem feita. As histórias fantasmagóricas são credíveis enquanto histórias ambientadas nas nossas geografia e cultura, e por vezes são até mais do que isso. Por vezes Rocha mergulha mais fundo, aborda temas polémicos ou sensíveis, revelando, não sei bem se deliberadamente se por acidente, as preocupações que tem quanto à sociedade repressiva que o rodeia (o livro é de 1969, em plena ditadura e com guerras coloniais em curso, por mais que se falasse na época de primavera), e as contradições de si mesmo enquanto homem do seu tempo. E foi precisamente isso que mais me interessou durante a leitura deste livro, e foi em boa medida por isso que acabei por gostar dele. Por isso e porque entre as histórias que são na sua maioria medianas também se encontram algumas realmente boas.
Eis o que achei delas:
- O Guarda-Vestidos de Porta de Espelho
- A Mulher da Saia Pela Cabeça
- A Maldição do Almocreve
- A Aposta
- O Lobisomem
- A Casa à Beira da Estrada
- O Retrato do «Quimbanda»
- A Noite de Walpurgis
- O Cão da Quinta do Diabo
- A Vingança do Ciclista
- A Esfera de Cristal
- O Hóspede do Hotel sem Hóspedes
- «A Costureira»
- Os Irmãos Gémeos
- Francesca
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Lido: O Centésimo em Roma
O Centésimo em Roma é um romance histórico de Max Mallmann passado, como é fácil perceber, na antiga Roma. Mas a antiga Roma foi um sítio vasto, tanto territorial como temporalmente, portanto é necessário dizer mais alguma coisa para situar o romance. O tempo é o século I depois de Cristo, embora na época ainda não se contasse o tempo assim. Nero incendiara a cidade não muito tempo antes, e as ondas de choque da sua liderança ainda se sentem, altaneiras e espumejantes. O lugar, esse, é Roma, a própria Cidade Eterna, onde o cristianismo vai alastrando clandestinamente, ao mesmo tempo que se sucedem imperadores cada um mais enlouquecido que o outro e tropas romanas, apoiantes de imperadores alternativos, ameaçam marchar contra a capital do império.
No meio de toda esta conturbação surge-nos Desiderius Dolens, o principal protagonista. Um cínico contraditório, que ora se mostra um brutamontes sanguinário, ora um amigo verdadeiro. Um plebeu, nado e criado num dos bairros pobres de Roma, movido por uma ambição de toda a vida: a de sair de lá. Um soldado das legiões com fama de ter massacrado uma aldeia inteira de germanos (o que lhe deu um cognome que tolera a contragosto, por motivos que aos poucos se vão compreendendo) e que volta para Roma casado com uma germana. Que ama, embora continue a fazer visitas a prostitutas. Um homem que tenta a todo o custo manter-se são no meio da loucura dos tempos, em boa medida porque é filho de pai louco. Um homem que é centurião de uma espécie de corpo policial romano, mas que verdadeiramente desejava ser cavaleiro.
É como se os tempos conturbados tivessem o seu reflexo na vida conturbada do protagonista e das vidas com que se cruza. A família, os camaradas de armas, os nobres e os senadores a cujo grupo sonha vir um dia a pertencer. Uma galeria de personagens com mais cómico que trágico, embora várias sejam as que se mostram bastante palpáveis, com bastante mais que a mera superfície típica das personagens secundárias e/ou humorísticas.
O livro é francamente bom. Divertido, quase sempre, por vezes algo comovente, está estruturado como um relato duplo dos tempos e dos acontecimentos. Mallmann afirma basear a história de Dolens num relato contemporâneo dos factos, que teria chegado até hoje, chamado Vita Dolentis (A Vida de Dolens, na última flor do Lácio), e escrito por um tal Quintus Trebellius Nepos. Obviamente, nem este nem aquele são verdadeiros, o que não impede o autor de intercalar fragmentos do texto de Nepos na sua interpretação ficcional dos acontecimentos neles descritos. Nepos, ao mesmo tempo cronista e personagem, é um filho de família nobre de Roma, letrado e coxo e por esses motivos relegado a subalterno de Dolens, com quem tem uma relação algo atribulada, especialmente a partir do momento em que alguém lhe mata o pai e ele fica obcecado com a descoberta do ou dos assassinos, o que tem consequências nefastas não só para si próprio (provavelmente terá acabado por gostar do serviço de limpeza às latrinas, tantas foram as vezes que lá foi parar) como para Desiderius Dolens, que por causa disso acaba por ter a surpresa da sua vida. Francamente desagradável.
O livro, já disse?, é francamente bom. Carregado de ironia, cheio de paralelismos não muito bem camuflados entre as realidades políticas romanas e as contemporâneas e até com uma hilariante partidinha de (uma espécie de) futebol à mistura, ou não fosse o autor brasileiro, bem pesquisado e por isso credível enquanto recriação histórica (pese embora alguns anacronismos), bem escrito, com um sem-fim de capítulos muito curtos que, não raro, nem a uma página chegam, o que contribui para uma leitura quase saltitona de tão ágil, este foi dos melhores livros que li no ano passado... depois de ficar quase três anos à espera de vez aqui nas minhas pilhas centenárias. Depois de o ler, tive pena de o ter feito esperar tanto.
Este livro foi-me oferecido pelo autor.
No meio de toda esta conturbação surge-nos Desiderius Dolens, o principal protagonista. Um cínico contraditório, que ora se mostra um brutamontes sanguinário, ora um amigo verdadeiro. Um plebeu, nado e criado num dos bairros pobres de Roma, movido por uma ambição de toda a vida: a de sair de lá. Um soldado das legiões com fama de ter massacrado uma aldeia inteira de germanos (o que lhe deu um cognome que tolera a contragosto, por motivos que aos poucos se vão compreendendo) e que volta para Roma casado com uma germana. Que ama, embora continue a fazer visitas a prostitutas. Um homem que tenta a todo o custo manter-se são no meio da loucura dos tempos, em boa medida porque é filho de pai louco. Um homem que é centurião de uma espécie de corpo policial romano, mas que verdadeiramente desejava ser cavaleiro.
É como se os tempos conturbados tivessem o seu reflexo na vida conturbada do protagonista e das vidas com que se cruza. A família, os camaradas de armas, os nobres e os senadores a cujo grupo sonha vir um dia a pertencer. Uma galeria de personagens com mais cómico que trágico, embora várias sejam as que se mostram bastante palpáveis, com bastante mais que a mera superfície típica das personagens secundárias e/ou humorísticas.
O livro é francamente bom. Divertido, quase sempre, por vezes algo comovente, está estruturado como um relato duplo dos tempos e dos acontecimentos. Mallmann afirma basear a história de Dolens num relato contemporâneo dos factos, que teria chegado até hoje, chamado Vita Dolentis (A Vida de Dolens, na última flor do Lácio), e escrito por um tal Quintus Trebellius Nepos. Obviamente, nem este nem aquele são verdadeiros, o que não impede o autor de intercalar fragmentos do texto de Nepos na sua interpretação ficcional dos acontecimentos neles descritos. Nepos, ao mesmo tempo cronista e personagem, é um filho de família nobre de Roma, letrado e coxo e por esses motivos relegado a subalterno de Dolens, com quem tem uma relação algo atribulada, especialmente a partir do momento em que alguém lhe mata o pai e ele fica obcecado com a descoberta do ou dos assassinos, o que tem consequências nefastas não só para si próprio (provavelmente terá acabado por gostar do serviço de limpeza às latrinas, tantas foram as vezes que lá foi parar) como para Desiderius Dolens, que por causa disso acaba por ter a surpresa da sua vida. Francamente desagradável.
O livro, já disse?, é francamente bom. Carregado de ironia, cheio de paralelismos não muito bem camuflados entre as realidades políticas romanas e as contemporâneas e até com uma hilariante partidinha de (uma espécie de) futebol à mistura, ou não fosse o autor brasileiro, bem pesquisado e por isso credível enquanto recriação histórica (pese embora alguns anacronismos), bem escrito, com um sem-fim de capítulos muito curtos que, não raro, nem a uma página chegam, o que contribui para uma leitura quase saltitona de tão ágil, este foi dos melhores livros que li no ano passado... depois de ficar quase três anos à espera de vez aqui nas minhas pilhas centenárias. Depois de o ler, tive pena de o ter feito esperar tanto.
Este livro foi-me oferecido pelo autor.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Lido: O Sangue de Âmbar
O Sangue de Âmbar (bibliografia) é um romance de fantasia de Roger Zelazny, parte da sua série de Âmbar, que...
Esperem. Vou começar de outra forma.
Por vezes acontecem destas, suponho, a todos os leitores. Alguém, animado das melhores intenções, sabendo que gostamos de ler, e tendo uma ideia mais ou menos vaga sobre o tipo de livro que gostamos de ler, decide comprar um que, acha, será ao nosso gosto e fazer dele oferta. Por vezes acerta. De outras, mete os pés pelas mãos.
Pois comigo aconteceu com este livro. Alguém, sabendo que eu gosto de ficção científica, e sabendo que a Argonauta é uma coleção de ficção científica, achou que este livro seria mesmo a coisa ideal, e pimba, toma lá! Pois calhou que o livro é de fantasia, não de ficção científica. E, pior, calhou que é, conforme a forma de os contar, ou o sétimo da série de Âmbar, ou o segundo da segunda subsérie em que esta se divide. E não, ao contrário dos romances de Bas-Lag de China Miéville, os de Zelazny não podem ser lidos em qualquer ordem.
Eu podia, é certo, ter arranjado o primeiro e começado por aí. Mas, como tinha nas mãos este livro, achei que, já agora, podia perfeitamente lê-lo primeiro para ver se valeria a pena comprar o resto da série.
Foi má ideia.
O universo criado por Zelazny parece ser de uma fantasia algo mestiça, que brinca com os conceitos dos mundos paralelos entre os quais se encontra o nosso, muito caro da FC, mas alguns dos quais — os principais nesta história — são movidos a magia. Parece também ser veículo para Zelazny fazer uma série de homenagens a outras obras da literatura fantástica, integrando os mundos ficcionais destas no seu multiverso, e/ou deixando referências a elas espalhadas por aqui e por ali. Parece.
E parece porque este livro é uma salganhada tal que não se percebe realmente o que se está a passar. O protagonista é perseguido não se sabe bem por quem e não se sabe bem porquê, escapa-se de sucessivas tentativas de assassínio nem ele sabe bem como (mas com muito deus ex machina à mistura, aparentemente), e depois a coisa acaba não se percebe bem porquê, tudo isto com menos profundidade do que em muitas histórias de banda desenhada. Falta, obviamente, informação indispensável que deverá constar de volumes anteriores da série, mas temo que seja mais do que isso. Afinal, quem pegar em algum livro intermédio de séries boas de fantasia pode não perceber uma série de pormenores de enredo e motivações de personagens, mas ao menos encontra nestas alguma solidez e naquele arcos de história com a sua lógica própria e que servem para dar forma a cada parte da série, mesmo na falta de informação importante. Nota-se que há neles profundidade, mesmo que não consigamos abarcá-la por completo.
Aqui, longe disso. Ler este livro isoladamente é quase como tentar entender um texto escrito por algum dos proverbiais macacos sentados à frente de uma máquina de escrever.
É então um mau livro? Devido à falta de informação sobre o resto da série, reluto em dizê-lo assim taxativamente. Mas acho que posso afirmar com segurança que não se trata de um bom livro. E parece-me que a própria série pouco interesse terá. Eu, com toda a certeza, não fiquei com grande curiosidade pelos restantes, embora provavelmente acabe mais cedo ou mais tarde por comprar o primeiro para ver se a impressão que este me deixou se confirma ou não.
Este livro foi oferecido por gente amiga e bem intencionada. É pena não ter gostado da oferta, mas agradeço-a na mesma.
Esperem. Vou começar de outra forma.
Por vezes acontecem destas, suponho, a todos os leitores. Alguém, animado das melhores intenções, sabendo que gostamos de ler, e tendo uma ideia mais ou menos vaga sobre o tipo de livro que gostamos de ler, decide comprar um que, acha, será ao nosso gosto e fazer dele oferta. Por vezes acerta. De outras, mete os pés pelas mãos.
Pois comigo aconteceu com este livro. Alguém, sabendo que eu gosto de ficção científica, e sabendo que a Argonauta é uma coleção de ficção científica, achou que este livro seria mesmo a coisa ideal, e pimba, toma lá! Pois calhou que o livro é de fantasia, não de ficção científica. E, pior, calhou que é, conforme a forma de os contar, ou o sétimo da série de Âmbar, ou o segundo da segunda subsérie em que esta se divide. E não, ao contrário dos romances de Bas-Lag de China Miéville, os de Zelazny não podem ser lidos em qualquer ordem.
Eu podia, é certo, ter arranjado o primeiro e começado por aí. Mas, como tinha nas mãos este livro, achei que, já agora, podia perfeitamente lê-lo primeiro para ver se valeria a pena comprar o resto da série.
Foi má ideia.
O universo criado por Zelazny parece ser de uma fantasia algo mestiça, que brinca com os conceitos dos mundos paralelos entre os quais se encontra o nosso, muito caro da FC, mas alguns dos quais — os principais nesta história — são movidos a magia. Parece também ser veículo para Zelazny fazer uma série de homenagens a outras obras da literatura fantástica, integrando os mundos ficcionais destas no seu multiverso, e/ou deixando referências a elas espalhadas por aqui e por ali. Parece.
E parece porque este livro é uma salganhada tal que não se percebe realmente o que se está a passar. O protagonista é perseguido não se sabe bem por quem e não se sabe bem porquê, escapa-se de sucessivas tentativas de assassínio nem ele sabe bem como (mas com muito deus ex machina à mistura, aparentemente), e depois a coisa acaba não se percebe bem porquê, tudo isto com menos profundidade do que em muitas histórias de banda desenhada. Falta, obviamente, informação indispensável que deverá constar de volumes anteriores da série, mas temo que seja mais do que isso. Afinal, quem pegar em algum livro intermédio de séries boas de fantasia pode não perceber uma série de pormenores de enredo e motivações de personagens, mas ao menos encontra nestas alguma solidez e naquele arcos de história com a sua lógica própria e que servem para dar forma a cada parte da série, mesmo na falta de informação importante. Nota-se que há neles profundidade, mesmo que não consigamos abarcá-la por completo.
Aqui, longe disso. Ler este livro isoladamente é quase como tentar entender um texto escrito por algum dos proverbiais macacos sentados à frente de uma máquina de escrever.
É então um mau livro? Devido à falta de informação sobre o resto da série, reluto em dizê-lo assim taxativamente. Mas acho que posso afirmar com segurança que não se trata de um bom livro. E parece-me que a própria série pouco interesse terá. Eu, com toda a certeza, não fiquei com grande curiosidade pelos restantes, embora provavelmente acabe mais cedo ou mais tarde por comprar o primeiro para ver se a impressão que este me deixou se confirma ou não.
Este livro foi oferecido por gente amiga e bem intencionada. É pena não ter gostado da oferta, mas agradeço-a na mesma.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Lido: The Scar
The Scar é um romance de China Miéville, o segundo da sua série passada no mundo fictício de Bas-Lag, onde uma quantidade apreciável de espécies inteligentes convivem, nem sempre pacificamente, e a vida é vivida em contacto direto com uma espécie de magia mais ou menos científica, conhecida como taumaturgia (thaumaturgy) e uma tecnologia meânica baseada na maquinaria novecentista, e por isso com grandes pontos de contacto com o steampunk.
Com tal ponto de partida pode-se escrever histórias de diversos géneros, consoante o tipo de abordagem que é feita. As histórias de Bas-Lag poderiam ser uma espécie de fantasia steampunk à semelhança de diversos livros e contos recentes, que colam a histórias tipicamente de fantasia, urbana ou não, uma camada steampunk que raramente ultrapassa a superfície da simples estética. Julgo que, mesmo sem ter (ainda) lido os outros romances (eles são independentes, portanto podem ler-se em qualquer ordem), posso afirmar que Miéville não é isso que faz. Pelo contrário: não só a maquinaria pseudovitoriana, mas sobretudo a sociologia que lhe está associada, o capitalismo desenfreado e exploratório, a forma complexa, intrincada e muitas vezes como que suja de óleo ou ferrugem como tudo é retratado enraizam-se profundamente nas mais puras nascentes do steampunk. A parte fantasiosa, sendo embora igualmente central, é tratada quase cientificamente; afinal, não é por acaso que não existe propriamente magia, mas sim taumaturgia, e que esta é retratada como uma disciplina técnica com os seus códigos próprios. E que criaturas que Miéville vai muitas vezes buscar ao horror possuem também nestes seus livros uma solidez muito pouco sobrenatural. Pelo menos neste livro, mas tudo isso constitui uma parte tão fulcral da estruturação do seu mundo que muito me surpreenderia que nos restantes fosse diferente.
E ainda bem que assim é.
A história de The Scar passa-se inteiramente no mar. Bellis, a protagonista, é uma neocrobuzonita (trocando por miúdos: uma cidadã de New Crobuzon, cidade-estado que é uma das principais potências de Bas-Lag e o local onde se desenrolam os outros dois romances da série) que foge da cidade rumo a uma colónia noutro continente porque pensa estar a ser perseguida pelas autoridades. Mas essa viagem é interrompida quando o navio em que segue é atacado por piratas, que o levam, e a toda a tripulação, passageiros e prisioneiros até aí a caminho do desterro, para um lugar extraordinário: a cidade flutuante de Armada, livre e pirata, composta por gerações e gerações de navios capturados e alterados para se fundirem com a cidade. Aí, Bellis, naturalmente revoltada com a sua condição de cidadã à força (e, pelo menos a princípio, de segunda) de Armada, com a lealdade ainda presa à sua pátria, vai ser ao mesmo tempo espetadora e catalizadora de uma série de acontecimentos que vão levar toda a cidade aos mais estranhos confins dos mares de Bas-Lag: a scar a que o título se refere, precisamente.
O livro é brilhante. Escrito com uma prosa de grande qualidade, em que tudo é descrito com uma tal profusão de pormenores, com uma tal texturização, que confere solidez e realidade mesmo às coisas mais extrordinárias, com um grupo razoavelmente numeroso de personagens, as mais importantes, também elas de grande solidez, é daqueles romances que como que abrem portais e sugam o leitor para as suas próprias realidades. Tudo é credível, por incrível que seja. Tudo é verosímil, por mais inverosímil que possa ser. E a história, sempre movida a mistérios por mais que ziguezagueie pelos vastos oceanos de Bas-Lag, em que o esclarecimento de um só serve para criar novas perguntas, nunca perde o interesse. Pelo contrário. As quase oitocentas páginas passam quase sem se dar por isso.
E além disso é um livro com conteúdo. É um livro sobre a identidade, sobre o patriotismo, sobre a lealdade. É um livro sobre a manipulação e as obsessões. É um livro sobre o amor, os sentimentos que não são propriamente amor mas andam por perto dele, e as coisas que por esses sentimentos somos levados a fazer. É também um livro sobre perda (e são múltiplas as perdas que nele têm lugar) e superação da perda. E é, ainda, um livro sobre informação, sobre o seu valor, sobre o perigo que pode advir quer da sua falta, quer da sua posse.
Este é dos tais livros que o Jorge tradutor adoraria traduzir. Seria um desafio: não se trata de um romance fácil. Mas também seria um prazer. Editoras portuguesas, editem este livro, façam esse favor aos vossos leitores. E passem-mo para as mãos.
Prometo aqui solenemente tratá-lo bem.
Este livro foi comprado.
Com tal ponto de partida pode-se escrever histórias de diversos géneros, consoante o tipo de abordagem que é feita. As histórias de Bas-Lag poderiam ser uma espécie de fantasia steampunk à semelhança de diversos livros e contos recentes, que colam a histórias tipicamente de fantasia, urbana ou não, uma camada steampunk que raramente ultrapassa a superfície da simples estética. Julgo que, mesmo sem ter (ainda) lido os outros romances (eles são independentes, portanto podem ler-se em qualquer ordem), posso afirmar que Miéville não é isso que faz. Pelo contrário: não só a maquinaria pseudovitoriana, mas sobretudo a sociologia que lhe está associada, o capitalismo desenfreado e exploratório, a forma complexa, intrincada e muitas vezes como que suja de óleo ou ferrugem como tudo é retratado enraizam-se profundamente nas mais puras nascentes do steampunk. A parte fantasiosa, sendo embora igualmente central, é tratada quase cientificamente; afinal, não é por acaso que não existe propriamente magia, mas sim taumaturgia, e que esta é retratada como uma disciplina técnica com os seus códigos próprios. E que criaturas que Miéville vai muitas vezes buscar ao horror possuem também nestes seus livros uma solidez muito pouco sobrenatural. Pelo menos neste livro, mas tudo isso constitui uma parte tão fulcral da estruturação do seu mundo que muito me surpreenderia que nos restantes fosse diferente.
E ainda bem que assim é.
A história de The Scar passa-se inteiramente no mar. Bellis, a protagonista, é uma neocrobuzonita (trocando por miúdos: uma cidadã de New Crobuzon, cidade-estado que é uma das principais potências de Bas-Lag e o local onde se desenrolam os outros dois romances da série) que foge da cidade rumo a uma colónia noutro continente porque pensa estar a ser perseguida pelas autoridades. Mas essa viagem é interrompida quando o navio em que segue é atacado por piratas, que o levam, e a toda a tripulação, passageiros e prisioneiros até aí a caminho do desterro, para um lugar extraordinário: a cidade flutuante de Armada, livre e pirata, composta por gerações e gerações de navios capturados e alterados para se fundirem com a cidade. Aí, Bellis, naturalmente revoltada com a sua condição de cidadã à força (e, pelo menos a princípio, de segunda) de Armada, com a lealdade ainda presa à sua pátria, vai ser ao mesmo tempo espetadora e catalizadora de uma série de acontecimentos que vão levar toda a cidade aos mais estranhos confins dos mares de Bas-Lag: a scar a que o título se refere, precisamente.
O livro é brilhante. Escrito com uma prosa de grande qualidade, em que tudo é descrito com uma tal profusão de pormenores, com uma tal texturização, que confere solidez e realidade mesmo às coisas mais extrordinárias, com um grupo razoavelmente numeroso de personagens, as mais importantes, também elas de grande solidez, é daqueles romances que como que abrem portais e sugam o leitor para as suas próprias realidades. Tudo é credível, por incrível que seja. Tudo é verosímil, por mais inverosímil que possa ser. E a história, sempre movida a mistérios por mais que ziguezagueie pelos vastos oceanos de Bas-Lag, em que o esclarecimento de um só serve para criar novas perguntas, nunca perde o interesse. Pelo contrário. As quase oitocentas páginas passam quase sem se dar por isso.
E além disso é um livro com conteúdo. É um livro sobre a identidade, sobre o patriotismo, sobre a lealdade. É um livro sobre a manipulação e as obsessões. É um livro sobre o amor, os sentimentos que não são propriamente amor mas andam por perto dele, e as coisas que por esses sentimentos somos levados a fazer. É também um livro sobre perda (e são múltiplas as perdas que nele têm lugar) e superação da perda. E é, ainda, um livro sobre informação, sobre o seu valor, sobre o perigo que pode advir quer da sua falta, quer da sua posse.
Este é dos tais livros que o Jorge tradutor adoraria traduzir. Seria um desafio: não se trata de um romance fácil. Mas também seria um prazer. Editoras portuguesas, editem este livro, façam esse favor aos vossos leitores. E passem-mo para as mãos.
Prometo aqui solenemente tratá-lo bem.
Este livro foi comprado.
domingo, 5 de janeiro de 2014
Lido: O Homem do Talho
O Homem do Talho é mais um pequeno texto de José Alberto Braga, e aqui a palavra "texto" aplica-se com mais propriedade do que em muitos dos outros. Nele, Braga discorre sobre o tema que o título indica, com a habitual profusão de trocadilhos e ironias mais ou menos nonsensuais, aproximando-se aqui e ali de um humor negro a que há quem chame horror (ou horrir), o que se compreende dado o talhante lidar com carnes e objetos cortantes. Tem o seu interesse, sim; quando mais não seja por ser um texto mais elaborado do que as listas de frases de que Braga tanto parece gostar. Não me parece que seja bom, note-se (é um pouco óbvio em demasia), mas pelo menos dá para ir lendo de sorrisinho razoavelmente aberto.
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sábado, 4 de janeiro de 2014
Lido: Porque é que:
Porque é que: (sim, com dois pontos e tudo) é mais um texto de José Alberto Braga composto de pequenas frases independentes, como tem sido frequente encontrar ao longo deste livro. Aqui, mais que frases, são perguntas. Perguntas mais que vagamente caliméricas, de alguém que sente que o universo conspira contra si e se interroga por que motivo "quando chega o elevador está sempre a subir", e coisas semelhantes. Com a qualidade de refletir algo que terá já cruzado por vezes a mente de quase toda a gente, mas também com muito pouca graça. E nem se pode avalar a coisa do ponto de vista literário, porque literatura é coisa que aqui simplesmente não existe.
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Lido: Cinema & Crítica
Cinema & Crítica é mais um dos textos satíricos de José Alberto Braga, este com alvo bem definido: a crítica de cinema. Nele, Braga descreve sucintamente quatro filmes que ele próprio inventa (um dos quais de ficção científica, não que isso tenha grande importância) e depois arvora-se em crítico-tal-qual-os-críticos-escrevem-nos-jornais, e disserta, também sucintamente. O absurdo é grande, o nonsense é muito, mas também é tudo bastante óbvio, especialmente porque Braga faz anteceder a sua lista de filmes de uma introdução em que, basicamente, explica ao que vai. E boa parte da piada que o resto poderia ter perde-se logo aí.
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Lido: (sem título)
Falar de textos sem título tem sempre aquela dificuldade típica de chamar gente sem nome. Ou mais. Afinal, as velhas fórmulas do "ó coisinho" ou "ó pá", que acabam por desenrascar quando o "coisinho" não tem nome, aqui não resultam. O coiso não é gente, logo não atende.
Enfim, este texto sem título é uma espécie de artigo enciclopédico sobre Portugal, seguido de anedota, também sobre Portugal, que Luísa Costa Gomes escreveu e fez publicar há uns anos que já vão para o largo na revista Ler. Artigo piadético, está bem de ver, pois de humor trata o livro em que se inclui. Mas, francamente? Estes exercícios de cascar no ceguinho Portugal são, desde Eça, dos clichés mais surrados da intelligentzia portuguesa (e não só - qualquer zé de qualquer tasca desanca no país com gosto, verve e bafo avinhado) e, como todos os clichés, ou são muito bem utilizados ou desembocam em bocejo. Aqui, o cliché não está suficientemente mau para dar em bocejo, mas não chega ao sorriso bocejante. Na verdade, pouco passa do bocejo ocasionalmente sorridente. A anedota ainda é capaz de ser a melhor parte por ser aquela que melhor consegue escapar à banalidade.
Não é mau, entenda-se — afinal, ainda consegue fazer esboçar uns sorrisinhos, por via de alguns pormenores bem conseguidos, além de vir escrito com competência. Mas está longe de ser bom, parece-me. E ainda não foi desta que gostei de um texto da Luísa Costa Gomes.
Textos anteriores deste livro:
Enfim, este texto sem título é uma espécie de artigo enciclopédico sobre Portugal, seguido de anedota, também sobre Portugal, que Luísa Costa Gomes escreveu e fez publicar há uns anos que já vão para o largo na revista Ler. Artigo piadético, está bem de ver, pois de humor trata o livro em que se inclui. Mas, francamente? Estes exercícios de cascar no ceguinho Portugal são, desde Eça, dos clichés mais surrados da intelligentzia portuguesa (e não só - qualquer zé de qualquer tasca desanca no país com gosto, verve e bafo avinhado) e, como todos os clichés, ou são muito bem utilizados ou desembocam em bocejo. Aqui, o cliché não está suficientemente mau para dar em bocejo, mas não chega ao sorriso bocejante. Na verdade, pouco passa do bocejo ocasionalmente sorridente. A anedota ainda é capaz de ser a melhor parte por ser aquela que melhor consegue escapar à banalidade.
Não é mau, entenda-se — afinal, ainda consegue fazer esboçar uns sorrisinhos, por via de alguns pormenores bem conseguidos, além de vir escrito com competência. Mas está longe de ser bom, parece-me. E ainda não foi desta que gostei de um texto da Luísa Costa Gomes.
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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Lido: Reserva de Sementes
Reserva de Sementes é um conto de ficção científica de Frank Herbert, passado num planeta distante, onde uma colónia humana luta desesperadamente pela sobrevivência mais ou menos contra um mundo que parece determinado a fazê-la desaparecer e do qual não tem possibilidade de fugir. O protagonista é, numa expedição cheia de cientistas e técnicos, um mecânico tornado pescador, uma das pessoas menos preparadas academicamente de toda a colónia, se não mesmo a pessoa menos preparada academicamente de toda a colónia. No entanto, ele possui algo que falta aos outros: uma noção empírica, dir-se-ia até quase instintiva, do comportamento dos seres vivos da zona em que a colónia se instalara e até das relações ecológicas estabelecidas no planeta e entre este e o corpo estranho nele enxertado que a colónia constitui.
Não é um conto particularmente bem escrito (ou então sou eu que continuo a não gostar do estilo do homem) e nem sequer me pareceu um conto lá muito bem feito no que toca ao enredo e à construção da história. Mas é um conto muito característico de Herbert na consciência ecológica, invulgar para a ficção científica da época em que foi escrito, e isso faz dele um conto muito mais contemporâneo do que muitas coisas escritas mais tarde. A sobrevivência humana num planeta pouco preparado para lidar com os humanos está muito na ordem do dia... mesmo no planeta em que os humanos nasceram. Tudo somado, este é um conto razoável em termos literários e muito interessante naquilo que trancende a literatura.
Contos anteriores deste livro:
Não é um conto particularmente bem escrito (ou então sou eu que continuo a não gostar do estilo do homem) e nem sequer me pareceu um conto lá muito bem feito no que toca ao enredo e à construção da história. Mas é um conto muito característico de Herbert na consciência ecológica, invulgar para a ficção científica da época em que foi escrito, e isso faz dele um conto muito mais contemporâneo do que muitas coisas escritas mais tarde. A sobrevivência humana num planeta pouco preparado para lidar com os humanos está muito na ordem do dia... mesmo no planeta em que os humanos nasceram. Tudo somado, este é um conto razoável em termos literários e muito interessante naquilo que trancende a literatura.
Contos anteriores deste livro:
Leituras de 2013
Em 2013, curiosamente, o número total de livros lidos foi exatamente igual ao do de 2012. Continua bastante abaixo das minhas médias de outros tempos, e se calhar é bom que me comece a mentalizar de que estes 30-40 volumes por ano já não são resultado de um ano excecionalmente mau, mas passaram a constituir um padrão para as minhas leituras. A relutância, no entanto, é muita. Admiti-lo seria mais que um pouco deprimente.
Mas adiante.
O ano foi um pouco menos variado do que anos recentes. Li menos mainstream e mais ficção científica, quer da razoavelmente pura, quer (ou talvez especialmente) da que vem contaminada com ou contamina outras coisas. Li bastante mais horror do que é hábito em mim, e não posso dizer que tenha ficado particularmente satisfeito com o resultado, e li uma quantidade invulgarmente baixa de produção local, entendendo como "local" a língua portuguesa. Foram apenas dez os livros lusófonos que li, e um deles foi um continho bastante curto. Contos, aliás, foi o que dominou por completo as leituras lusófonas: além desse conto, li mais três antologias e quatro coletâneas. Restam um ensaio e um romance. Mesmo muito pouco para o que é hábito em mim. É outra coisa a alterar em 2014.
Contos, diga-se de passagem, foi o que dominou as minhas leituras, e aí não houve grandes alterações relativamente ao que é hábito desde que lancei mãos à obra do Bibliowiki. Sim, é verdade que gosto de contos e que acho importante contribuir para que continuem a publicar-se, o que me leva a preferir comprar coletâneas e antologias a investir em romances. Mas parte relevante das minhas leituras deve-se à minha eterna (e eternamente insatisfeita, porque há sempre mais) curiosidade sobre que contos constam da publicação x, ou quais, entre os contos que dela constam, são relevantes para acrescentar ao wiki. E isso leva-me a ler todos os anos coisas invulgares, fronteiriças e obscuras. E às vezes mazinhas.
Mas basta de conversa fiada e vamos à lista.
Os livros propriamente ditos, lidos por lazer mas todos comentados na Lâmpada ao longo do ano (embora os últimos ainda estejam ali numa pilhazinha, à espera de haver tempo para escrever uma opinião), voltaram a ser mais do que no ano anterior, tendo somado 32. A lista completa é a seguinte:
1- Brasil, de Ian McDonald (romance de ficção científica);
2- O Castelo de Lorde Valentine, de Robert Silverberg (romance de fantasia científica);
3- Dieselpunk, org. por Gerson Lodi-Ribeiro (antologia de ficção científica retrofuturista);
4- O Ano do Apocalipse, de Brian Aldiss (romance de ficção científica pós-apocalíptica);
5- Pequenos Mistérios, de Bruce Holland Rogers (coletânea de fantasia, surrealismo e mainstream);
6- Se Acordar Antes de Morrer, de João Barreiros (coletânea de ficção científica);
7- O Centauro, de John Updike (romance de forte cariz fantástico);
8- Contos Assombrosos, de Steven Bauer e outros (contos de horror e afins);
9- Contos Policiais, de vários (contos policiais);
10- A Boneca do Destino, de Clifford D. Simak (romance de ficção científica);
11- Contos Natal, de vários (contos primordialmente mainstream, com algum fantástico);
12- Neuromancer, de William Gibson (romance de ficção científica);
13- O Prometeu Agrilhoado Hoje, de António Cabral (coletânea mainstream e fantástica);
14- Contos Ficção Científica, de vários (o título diz tudo);
15- Accelerando, de Charles Stross (romance em mosaicos de ficção científica);
16- Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2005, de César Silva e Marcello Simão Branco (ensaio);
17- Amigo Secreto Literário de Natal, org. por Joshua Falken (antologia de ficção científica e fantástico);
18- A Tentação do Milagre, de Michael Cordy (romance tecnothriller, com abundantes doses de ficção científica);
19- Histórias de Vampiros, de vários autores (contos principalmente de horror);
20- Contos de N'Nori, de Carlos-Edmilson M. Vieira (contos mainstream com toques fantásticos);
21- Férias com um Casal Amigo, de Ricardo Adolfo (conto mainstream);
22- Nebula Awards Showcase 2009, org. por Ellen Datlow (contos e novelas de ficção científica e fantástico);
23- Memória Para um Império Futuro, de Isaac Asimov (romance de ficção científica);
24- Com a Cabeça na Lua, org. por João Seixas (antologia de ficção científica e fantástico);
25- Contos Humorísticos, de vários (contos mainstream);
26- Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa, org. por Luís Filipe Silva e Luís Corte Real (contos pulp de vários géneros, com predomínio do horror);
27- The Scar, de China Miéville (romance de um misto de fantasia e ficção científica steampunk);
28- O Sangue de Âmbar, de Roger Zelazny (romance de fantasia);
29- O Centésimo em Roma, de Max Mallmann (romance histórico);
30- Histórias Fantasmagóricas, de Hugo Rocha (contos de horror);
31- Contos Fantásticos, de vários autores (contos principalmente de horror);
32- A Origem das Espécies, de Charles Darwin (ensaio científico)
A acrescentar aos livros li também uma revista, e como revistas funcionam praticamente como se fossem antologias periódicas também contam para o total. E já tinha dito isto no ano passado. Também tal como no ano passado, isto é metade das que tinha lido no ano anterior. Ler assim cada vez menos revistas talvez não seja muito bom; vou ter de fazer alguma coisa a respeito agora em 2014. Mas o que interessa para agora é que a que li este ano foi:
33- Ficções, nº 15 (contos mainstream, surrealistas e de ficção científica);
Por fim, e de novo tal como no ano passado, li alguns livros por obrigação laboral. Este ano foram apenas três. Ei-los:
34- Dragons of Spring Dawning, de Margaret Weis e Tracy Hickman (romance de fantasia épica);
35- Tigana, de Guy Gavriel Kay (romance de fantasia);
36- Mistborn, de Brandon Sanderson (romance de fantasia)
Ah, sim, e tinha ficado de mencionar os livros que li por obrigação laboral no fim de 2012. Faltavam dois para perfazer os 36, não era? Pois foram os seguintes:
35- Dragões de um Crepúsculo de Outono, de Margaret Weis e Tracy Hickman (romance de fantasia épica);
36- Dragons of Winter Night, de Margaret Weis e Tracy Hickman (romance de fantasia épica)
O ano foi bastante bom em termos de qualidade. Eu, que sou bastante parco a dar cinco estrelas (segundo a classificação do Goodreads, na qual 5 estrelas equivale a "amazing" — não acho assim tantas coisas espantosas), dei-as a três livros, o número mais elevado dos últimos anos. Entre estes, o melhor terá provavelmente sido The Scar, de China Miéville, seguido por Pequenos Mistérios, de Bruce Holland Rogers e por A Origem das Espécies, de Charles Darwin. E além disso, houve alguns outros livros que num ano não tão bom teriam com grande probabilidade integrado este grupo, em particular a antologia Nebula Awards Showcase 2009 e os romances Accelerando e O Centésimo em Roma.
Quanto aos maus, que também os houve, também me é fácil escolhê-los. O pior foi, destacado, Contos Assombrosos, de Seteven Bauer, já mau de origem e ainda por cima desfeito por uma tradução catastrófica. Juntam-se-lhe A Tentação do Milagre, de Michael Cordy e o muito pateta Férias com um Casal Amigo, de Ricardo Adolfo. Aqui não vou dar "menções desonrosas", que acho que nenhum dos outros livros que li merece o opróbrio.
E pronto. De 2013 ainda publicarei umas opiniões atrasadas e estaremos conversados. Siga para 2014.
Mas adiante.
O ano foi um pouco menos variado do que anos recentes. Li menos mainstream e mais ficção científica, quer da razoavelmente pura, quer (ou talvez especialmente) da que vem contaminada com ou contamina outras coisas. Li bastante mais horror do que é hábito em mim, e não posso dizer que tenha ficado particularmente satisfeito com o resultado, e li uma quantidade invulgarmente baixa de produção local, entendendo como "local" a língua portuguesa. Foram apenas dez os livros lusófonos que li, e um deles foi um continho bastante curto. Contos, aliás, foi o que dominou por completo as leituras lusófonas: além desse conto, li mais três antologias e quatro coletâneas. Restam um ensaio e um romance. Mesmo muito pouco para o que é hábito em mim. É outra coisa a alterar em 2014.
Contos, diga-se de passagem, foi o que dominou as minhas leituras, e aí não houve grandes alterações relativamente ao que é hábito desde que lancei mãos à obra do Bibliowiki. Sim, é verdade que gosto de contos e que acho importante contribuir para que continuem a publicar-se, o que me leva a preferir comprar coletâneas e antologias a investir em romances. Mas parte relevante das minhas leituras deve-se à minha eterna (e eternamente insatisfeita, porque há sempre mais) curiosidade sobre que contos constam da publicação x, ou quais, entre os contos que dela constam, são relevantes para acrescentar ao wiki. E isso leva-me a ler todos os anos coisas invulgares, fronteiriças e obscuras. E às vezes mazinhas.
Mas basta de conversa fiada e vamos à lista.
Os livros propriamente ditos, lidos por lazer mas todos comentados na Lâmpada ao longo do ano (embora os últimos ainda estejam ali numa pilhazinha, à espera de haver tempo para escrever uma opinião), voltaram a ser mais do que no ano anterior, tendo somado 32. A lista completa é a seguinte:
1- Brasil, de Ian McDonald (romance de ficção científica);
2- O Castelo de Lorde Valentine, de Robert Silverberg (romance de fantasia científica);
3- Dieselpunk, org. por Gerson Lodi-Ribeiro (antologia de ficção científica retrofuturista);
4- O Ano do Apocalipse, de Brian Aldiss (romance de ficção científica pós-apocalíptica);
5- Pequenos Mistérios, de Bruce Holland Rogers (coletânea de fantasia, surrealismo e mainstream);
6- Se Acordar Antes de Morrer, de João Barreiros (coletânea de ficção científica);
7- O Centauro, de John Updike (romance de forte cariz fantástico);
8- Contos Assombrosos, de Steven Bauer e outros (contos de horror e afins);
9- Contos Policiais, de vários (contos policiais);
10- A Boneca do Destino, de Clifford D. Simak (romance de ficção científica);
11- Contos Natal, de vários (contos primordialmente mainstream, com algum fantástico);
12- Neuromancer, de William Gibson (romance de ficção científica);
13- O Prometeu Agrilhoado Hoje, de António Cabral (coletânea mainstream e fantástica);
14- Contos Ficção Científica, de vários (o título diz tudo);
15- Accelerando, de Charles Stross (romance em mosaicos de ficção científica);
16- Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2005, de César Silva e Marcello Simão Branco (ensaio);
17- Amigo Secreto Literário de Natal, org. por Joshua Falken (antologia de ficção científica e fantástico);
18- A Tentação do Milagre, de Michael Cordy (romance tecnothriller, com abundantes doses de ficção científica);
19- Histórias de Vampiros, de vários autores (contos principalmente de horror);
20- Contos de N'Nori, de Carlos-Edmilson M. Vieira (contos mainstream com toques fantásticos);
21- Férias com um Casal Amigo, de Ricardo Adolfo (conto mainstream);
22- Nebula Awards Showcase 2009, org. por Ellen Datlow (contos e novelas de ficção científica e fantástico);
23- Memória Para um Império Futuro, de Isaac Asimov (romance de ficção científica);
24- Com a Cabeça na Lua, org. por João Seixas (antologia de ficção científica e fantástico);
25- Contos Humorísticos, de vários (contos mainstream);
26- Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa, org. por Luís Filipe Silva e Luís Corte Real (contos pulp de vários géneros, com predomínio do horror);
27- The Scar, de China Miéville (romance de um misto de fantasia e ficção científica steampunk);
28- O Sangue de Âmbar, de Roger Zelazny (romance de fantasia);
29- O Centésimo em Roma, de Max Mallmann (romance histórico);
30- Histórias Fantasmagóricas, de Hugo Rocha (contos de horror);
31- Contos Fantásticos, de vários autores (contos principalmente de horror);
32- A Origem das Espécies, de Charles Darwin (ensaio científico)
A acrescentar aos livros li também uma revista, e como revistas funcionam praticamente como se fossem antologias periódicas também contam para o total. E já tinha dito isto no ano passado. Também tal como no ano passado, isto é metade das que tinha lido no ano anterior. Ler assim cada vez menos revistas talvez não seja muito bom; vou ter de fazer alguma coisa a respeito agora em 2014. Mas o que interessa para agora é que a que li este ano foi:
33- Ficções, nº 15 (contos mainstream, surrealistas e de ficção científica);
Por fim, e de novo tal como no ano passado, li alguns livros por obrigação laboral. Este ano foram apenas três. Ei-los:
34- Dragons of Spring Dawning, de Margaret Weis e Tracy Hickman (romance de fantasia épica);
35- Tigana, de Guy Gavriel Kay (romance de fantasia);
36- Mistborn, de Brandon Sanderson (romance de fantasia)
Ah, sim, e tinha ficado de mencionar os livros que li por obrigação laboral no fim de 2012. Faltavam dois para perfazer os 36, não era? Pois foram os seguintes:
35- Dragões de um Crepúsculo de Outono, de Margaret Weis e Tracy Hickman (romance de fantasia épica);
36- Dragons of Winter Night, de Margaret Weis e Tracy Hickman (romance de fantasia épica)
O ano foi bastante bom em termos de qualidade. Eu, que sou bastante parco a dar cinco estrelas (segundo a classificação do Goodreads, na qual 5 estrelas equivale a "amazing" — não acho assim tantas coisas espantosas), dei-as a três livros, o número mais elevado dos últimos anos. Entre estes, o melhor terá provavelmente sido The Scar, de China Miéville, seguido por Pequenos Mistérios, de Bruce Holland Rogers e por A Origem das Espécies, de Charles Darwin. E além disso, houve alguns outros livros que num ano não tão bom teriam com grande probabilidade integrado este grupo, em particular a antologia Nebula Awards Showcase 2009 e os romances Accelerando e O Centésimo em Roma.
Quanto aos maus, que também os houve, também me é fácil escolhê-los. O pior foi, destacado, Contos Assombrosos, de Seteven Bauer, já mau de origem e ainda por cima desfeito por uma tradução catastrófica. Juntam-se-lhe A Tentação do Milagre, de Michael Cordy e o muito pateta Férias com um Casal Amigo, de Ricardo Adolfo. Aqui não vou dar "menções desonrosas", que acho que nenhum dos outros livros que li merece o opróbrio.
E pronto. De 2013 ainda publicarei umas opiniões atrasadas e estaremos conversados. Siga para 2014.
domingo, 22 de dezembro de 2013
Lido: A Despedideira
A Despedideira é mais um pequeno conto de mulheres de Mia Couto, ou talvez seja mais adequado dizer que é um longo poema em prosa de Mia Couto. Sim, que embora seja habitual encontrar poesia nos textos do autor moçambicano — a poesia é, mesmo, a par com os neologismos evocativos, uma das suas mais características imagens de marca —, raramente ela é tão dominadora, sobrepujante, como aqui. Para perceberem o que quero dizer, deixem-me citar o seu início, não em prosa, como o escritor o escreveu, mas em verso:
"Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol.
O meu quero-o nuvem.
Há mulheres que falam na voz do seu homem.
O meu que seja calado
e eu, nele, guarde meus silêncios.
Para que ele seja a minha voz
quando Deus me pedir contas."
Estão a ver? O ritmo, as imagens, as repetições? O conto é todo assim, escrito na primeira pessoa por uma mulher poeta que se sabe que o é não se interessa e que se conta desta forma, a si e aos seus afetos. E não foi dos contos que mais me agradaram, precisamente por isso. Apesar da magnífica linguagem, gosto das coisas mais comedidas, de maior equilíbrio entre forma e conteúdo. Aqui, parece-me, a forma está demasiado presente, a ponto de sufocar o conteúdo. Quem aprecie principalmente a forma, e em especial quando esta é prosa poética, provavelmente adorará. Não foi o meu caso.
Contos anteriores deste livro:
"Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol.
O meu quero-o nuvem.
Há mulheres que falam na voz do seu homem.
O meu que seja calado
e eu, nele, guarde meus silêncios.
Para que ele seja a minha voz
quando Deus me pedir contas."
Estão a ver? O ritmo, as imagens, as repetições? O conto é todo assim, escrito na primeira pessoa por uma mulher poeta que se sabe que o é não se interessa e que se conta desta forma, a si e aos seus afetos. E não foi dos contos que mais me agradaram, precisamente por isso. Apesar da magnífica linguagem, gosto das coisas mais comedidas, de maior equilíbrio entre forma e conteúdo. Aqui, parece-me, a forma está demasiado presente, a ponto de sufocar o conteúdo. Quem aprecie principalmente a forma, e em especial quando esta é prosa poética, provavelmente adorará. Não foi o meu caso.
Contos anteriores deste livro:
Lido: A Irmandade
A Irmandade (bibliografia), de Carlos Patati, é um conto algo inclassificável sobre uma irmandade informal de pessoas unidas por duas coisas: ouvem vozes, que não se chega nunca a perceber bem se fantasmagóricas se oriundas de algum bizarro fenómeno de sobreposição de realidades, e possuem umas tatuagens peculiares, que surgem ligadas a um medalhão. É tudo muito vago.
Essa falta de clareza é, aliás e a meu ver, o ponto mais interessante do conto. Julgo que só funciona porque este está bastante bem escrito (pesem embora algumas gralhas) e tem uma estrutura episódica, de coleção de depoimentos em primeira pessoa. Porque nenhuma daquelas pessoas parece saber bem o que lhe está a acontecer, todas lidam com o fenómeno de uma forma ligeiramente diferente, e portanto nós, os leitores, também ficamos sem perceber bem o que se passa. Funciona. Acaba-se a leitura desejando saber mais, sim, mas com a consciência de que, da forma que Patati escolheu para elaborar a história, provavelmente não haverá mais a saber.
Por outro lado, seria bom que Patati tivesse individualizado melhor as vozes de cada uma das suas personagens. Não as que elas têm nas cabeças, mas as delas, as que nos contam as histórias. Sim, a individualidade e a personalidade de cada uma transparecem no modo como reagem às tatuagens e ao que estas trazem consigo, mas o impacto seria maior se também transparecesse no modo como falam, escrevem ou pensam, nas palavras que usam para nos contar o que se está a passar com elas. Um pouco à semelhança com o que acontece com O Pico de Hubert, de Telmo Marçal.
Mas isso não é suficiente para fazer com que este não seja um bom conto. É, ainda que me pareça que não será conto capaz de agradar à generalidade da massa leitora. Talvez seja um pouco elaborado em demasia (ou experimental em demasia) para isso.
Contos anteriores deste livro:
Essa falta de clareza é, aliás e a meu ver, o ponto mais interessante do conto. Julgo que só funciona porque este está bastante bem escrito (pesem embora algumas gralhas) e tem uma estrutura episódica, de coleção de depoimentos em primeira pessoa. Porque nenhuma daquelas pessoas parece saber bem o que lhe está a acontecer, todas lidam com o fenómeno de uma forma ligeiramente diferente, e portanto nós, os leitores, também ficamos sem perceber bem o que se passa. Funciona. Acaba-se a leitura desejando saber mais, sim, mas com a consciência de que, da forma que Patati escolheu para elaborar a história, provavelmente não haverá mais a saber.
Por outro lado, seria bom que Patati tivesse individualizado melhor as vozes de cada uma das suas personagens. Não as que elas têm nas cabeças, mas as delas, as que nos contam as histórias. Sim, a individualidade e a personalidade de cada uma transparecem no modo como reagem às tatuagens e ao que estas trazem consigo, mas o impacto seria maior se também transparecesse no modo como falam, escrevem ou pensam, nas palavras que usam para nos contar o que se está a passar com elas. Um pouco à semelhança com o que acontece com O Pico de Hubert, de Telmo Marçal.
Mas isso não é suficiente para fazer com que este não seja um bom conto. É, ainda que me pareça que não será conto capaz de agradar à generalidade da massa leitora. Talvez seja um pouco elaborado em demasia (ou experimental em demasia) para isso.
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Lido: Acerte nas Frases Célebres
Acerte nas Frases Célebres é, sem tirar nem pôr, um daqueles testes de cultura geral que a dada altura se tornaram quase obrigatórios nas revistas de fim de semana dos jornais. Este tem citações e opções de correspondência da citação ao citado, em número de quatro por citação, como parece ser de norma. E, como também é muito comum, José Alberto Braga insere algum humor na coisa introduzindo opções de resposta insólitas ou ridículas. A citação "Fiat lux" pode atribuir-se à EDP, por exemplo. Ou aos Irmãos Lumière.
Tem alguma piada, mas não é nada de especial.
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Tem alguma piada, mas não é nada de especial.
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Lido: Fundamentalismo Para Principiantes
Fundamentalismo Para Principiantes é um risco tremendo para o humorista. José Alberto Braga, aliás, reconhece-o numa introduçãozinha itálica em que afirma que "religião à parte, é forçoso reconhecer em Khomeini um grande concorrente dos humoristas." E é um risco tremendo porque neste texto Braga pega em seriíssimas (e religiosíssimas) proclamações do antigo líder supremo da teocracia iraniana e comenta-as. Isso, em si mesmo, já é arriscado, e que o diga Salman Rushdie. Mas há pior, oh!, muito pior: Braga corre o risco das próprias proclamações terem mais piada do que os seus comentários!
E é precisamente isso o que acontece com a maioria. Muitas das sentenças que Braga escolhe são escatológicas, preceitos sobre como o bom fiel deve urinar ou defecar (ai do que cagar virado para Meca!), coisas dessas, outras são tão hilariantemente surrealistas como a regra sobre o mínimo de relações que o marido deve ter com a mulher (Três. Por ano.), ou a estrita proibição de consumir carne de cavalo, mula e burro caso o animal tenha sido sodomizado enquanto vivo. Coisas destas.
Contra um humor involuntário tal superlativo calibre, Braga não tem a mínima hipótese. Este texto é hilariante, sim, mas mais pelas sentenças que ele escolhe do que pelos comentários que faz.
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E é precisamente isso o que acontece com a maioria. Muitas das sentenças que Braga escolhe são escatológicas, preceitos sobre como o bom fiel deve urinar ou defecar (ai do que cagar virado para Meca!), coisas dessas, outras são tão hilariantemente surrealistas como a regra sobre o mínimo de relações que o marido deve ter com a mulher (Três. Por ano.), ou a estrita proibição de consumir carne de cavalo, mula e burro caso o animal tenha sido sodomizado enquanto vivo. Coisas destas.
Contra um humor involuntário tal superlativo calibre, Braga não tem a mínima hipótese. Este texto é hilariante, sim, mas mais pelas sentenças que ele escolhe do que pelos comentários que faz.
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sábado, 21 de dezembro de 2013
Lido: A Bomba é Nossa
A Bomba é Nossa é mais um daqueles textos do José Alberto Braga, em forma de lista e compostos em partes mais ou menos iguais por trocadilhos, informação e nonsense, e a que pouca graça acho. Desta feita, a ideia é definir (em parte com aspas, em parte sem elas) uma série de termos ligados à energia e em especial ao armamento nuclear, resultando em três páginas e picos de patetice voluntária e consciente. Sorri um par de vezes, mas não mais que isso.
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Lido: Um Dia na Noite
Um Dia na Noite é mais um texto de Alface, e de novo composto por excertos, ou pelo menos incompleto. Mais uma vez muito bem escrito, numa prosa rica, descomplexada e até despretensiosa apesar da sua elaboração, é um texto em que se traçam retratos de peculiares personagens ou se contam pequenas histórias com essas personagens como fulcro. Novamente se trata de um texto interessante, percorrido por uma ironia fina que, no entanto, não é o seu objetivo principal. Não me parece que se trate de um texto de humor, mas um texto com humor. Tal como acontece, aliás, com os restantes textos deste autor. Embora não tenha gostado assim muito deste último, estou com a curiosidade devidamente desperta para o que terá escrito o amigo João Carlos Alfacinha da Silva. Suspeito que ainda voltarei a lê-lo um dia.
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Lido: Fim de Estação
Fim de Estação é um conto insólito de Alface, contado na primeira pessoa por um narrador que teria tido no verão de 83 (mil nove e) uma bizarra profissão numa praia semiprivada e fina do Algarve. Pela descrição, provavelmente, algo para os lados do Vale do Lobo ou Vilamoura. E que profissão era essa? Pois que era virador. Viraquê? Virador, sim. Explico: uma vez que as pessoas de alta estirpe, como se sabe, não gostam de mexer uma palha, o trabalho do homem era virá-las enquanto largartavam ao sol, para ficarem uniformemente tostadinhas como a bem-parecença ordena.
Muito bem escrito e muito, muito próximo do fantástico, tanto que se não me agarrarem eu ainda sou capaz de ser gajo para o incluir no Bibliowiki, este continho não é coisa de gargalhada mas de fina ironia, por vezes prestes a resvalar para o sarcasmo. Um belo conto, que me espevitou mais um pouco a curiosidade por este autor.
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Muito bem escrito e muito, muito próximo do fantástico, tanto que se não me agarrarem eu ainda sou capaz de ser gajo para o incluir no Bibliowiki, este continho não é coisa de gargalhada mas de fina ironia, por vezes prestes a resvalar para o sarcasmo. Um belo conto, que me espevitou mais um pouco a curiosidade por este autor.
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domingo, 15 de dezembro de 2013
Lido: Os Braços Gigantescos das Árvores
Os Braços Gigantescos das Árvores é uma noveleta de Robert Silverberg, de uma ficção científica muito flower power, muito peace and love, com uma origem muito identificável no tempo e no espaço. A história gira em volta de árvores sencientes e carnívoras (num paralelismo curioso com os Assassinos de Sobreiros do João Ventura, e numa coincidência mais curiosa ainda nos tempos de leitura) num planeta distante, que são exploradas pelos frutos que dão. O protagonista é, também aqui, o homem que cuida da plantação e que tem uma relação especial com algumas das árvores, ao ponto de lhes dar nomes (ironicamente, de personagens ilustres da História). Mas a plantação, todas as plantações, aliás, estão sob a ameaça de uma estranha doença incurável e mortífera para as plantas, que se tem espalhado de planeta em planeta sem que ninguém lhe consiga pôr travão. A trama completa-se com uma sobrinha do protagonista, por quem este sente uma atração com mais do que um pouco de pedófila (e que ela, como boa Lolita, provavelmente até incentiva), que o ajuda nas lides agricolas e que parece gostar das plantas talvez ainda mais do que o tio. E com estas breves pinceladas o quadro está completo.
E é em parte por isso que o conto não é tão bom como outros contos do autor. Porque Silverberg tenta enfiar nele demasiadas coisas, só conseguindo com isso ser não só superficial, mas também previsível. Hoje em dia, agora que os ecos do movimento Hippy já se desvaneceram quase por completo, certamente, mas julgo que mesmo em 1968, ano em que ele foi publicado pela primeira vez, o conto já o seria. Sintonizado com o seu tempo, sim, com certeza. Mas previsível.
Mas também não é um mau conto. É mediano. Mais para menos, parece-me, do que para mais.
Conto anterior deste livro:
E é em parte por isso que o conto não é tão bom como outros contos do autor. Porque Silverberg tenta enfiar nele demasiadas coisas, só conseguindo com isso ser não só superficial, mas também previsível. Hoje em dia, agora que os ecos do movimento Hippy já se desvaneceram quase por completo, certamente, mas julgo que mesmo em 1968, ano em que ele foi publicado pela primeira vez, o conto já o seria. Sintonizado com o seu tempo, sim, com certeza. Mas previsível.
Mas também não é um mau conto. É mediano. Mais para menos, parece-me, do que para mais.
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