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domingo, 26 de julho de 2009

Semana

Mais uma semana de merda. É o único descritivo que se aplica a semanas passadas entre idas a médicos, cuidar de doentes e estar preocupado com doentes. Principalmente estar preocupado com doentes. A única coisa que semanas destas têm de bom é reduzirem certas conversas, grupos e personagens à dimensão que lhes é própria. Quando a família sofre, a importância de tudo o resto é rigorosamente igual a zero.

Igualmente insignificante é estar aqui a falar das banalidades que fui fazendo nos intervalos na semana que passou. Sim, li umas coisas. E daí? Que interessa o que achei? Nem tenho a certeza de ter estado com a cabeça em estado de apreciar convenientemente a leitura. Não foi nem uma nem duas as vezes em que "lia" página atrás de página e só passado algum tempo reparava que tinha na verdade estado o tempo todo a pensar precisamente naquilo em que queria evitar pensar. Do que "lera", nem sinal. E lá voltava atrás, página atrás de página, para começar de novo. Fica aqui a lista, só para o caso da semana que aí vem permitir o regresso a algum tipo de normalidade:

- O Símbolo Circular, conto de Mário Carneiro;
- Candy Art, conto de James Patrick Kelley;
- Regresso a Zenda, de Rhys Hughes.

E basta. Logo veremos se na semana que vem ainda há um post destes por aqui.

sábado, 18 de julho de 2009

Semana

Esta começou bem e acabou mal. Mas como não interessa estar aqui com preocupações e queixumes públicos, fica só esta nota. A semana começou bem e acabou mal.

As leituras laborais estão quase no fim, faltando apenas cerca de 50 páginas. Já sei que o livro tem uma primeira metade relativamente fácil, mas a segunda é difícil como o raio, e até tem um longo poema que me vai dar água pela barba e mais alguns versejos. Mas que se lixe: é coisa para me preocupar só lá para dezembro, de modo que não vale a pena pensar muito nela agora.

O wiki continua parado. A vida anda em oposição a esse nosso amigo: sempre que faço planos para gastar nele algum tempo, surge algo mais inadiável a fazer.

E quanto a leituras de lazer, claro, foram poucas.

Só uma crónica do Saramago intitulada A Ponte. Mais uma reminiscência dos seus tempos de criança, uma viagem de comboio, uma ponte cheia de luzes, talvez uma cidade. Nada que me desperte muito o interesse.

Do Bradbury foi mais um dos contos minúsculos que servem para interligar os contos maiores do livro em que se integram. O que foi lido esta semana chama-se A Praia e é fulcral para explicar por que motivo o Marte bradbudriano é inteiramente americano, mas para além disso pouco interesse tem.

Doutro livro, mas também de Bradbury, foi também lido Trovoada Matinal, um conto fantástico sobre um condutor duma daquelas máquinas que percorrem as ruas de madrugada para as lavarem, que a páginas tantas começa a ouvir uma voz vinda de dentro da máquina a suplicar-lhe que a deixe sair. Uma voz de homem, quando homem nenhum poderia ali estar. Um conto interessante, dos mais interessantes do respetivo livro.

E foi só isto. Se a vida não me pregar mais partidas, a semana que agora entra vai ser muito diferente.

sábado, 11 de julho de 2009

Semana

Esta semana foi... hm... estranha.

Começou com três dias de violenta constipação, que veio de braço dado com toda aquela palhaçada do fim de semana, e seguiu-se uma quantidade de outros estímulos daqueles que parecem postos de propósito à frente dos nossos olhos para nos pôr a pensar. O artigo do Luís Filipe Silva e as fotos da I Grande Guerra. Uma crónica (ou será post? Web log?) de Saramago em que ele discorre de forma para mim inesperada sobre o que é escrever e o que é traduzir. Uma coisa que se afirma, num artigo do Público sobre os resultados dos exames do secundário, por uma docente não identificada: os estudantes, diz ela, têm em comum "pouca riqueza de vocabulário" e "grande dificuldade em interpretar, decifrar, sentidos implícitos". E várias outras coisas. Não sei bem se foi uma semana particularmente rica em estímulos, se estive invulgarmente atento aos que surgiram. O que é certo é que foi uma semana passada com o cérebro a 200, sempre pronto a desatar a correr em todas direcções assim que surgisse uma oportunidade para isso. Houve dois resultados dessas correrias, este e este, mas ainda haverá pelo menos mais um. Resultados produtivos.

Mas também houve resultados improdutivos. Tanta reflexão (e a palhaçada do fim de semana também, naturalmente) gasta tempo e concentração, que não podem ser usados a ler ou a trabalhar no Bibliowiki. Como consequência, as leituras laborais avançaram mas bastante menos do que poderiam: o livro está mais ou menos meio lido, já sei onde vai ser dividido, e desta vez até haverá um final razoável para a primeira parte. Como consequência, o wiki esteve rigorosamente parado. E também como consequência, voltei a não terminar nenhuma leitura de lazer. É a vida.

sábado, 4 de julho de 2009

Semana

Isto hoje é muito curto.

Como dei um salto a Lisboa, para, entre outras coisas, regressar à base com uma violenta carraspana (mas descanse quem esteve comigo: da saúde 24 dizem-me que não tenho sintomas da tal gripe. A febre é baixa demais e falta-me uma porção de outros sintomas), aquilo que costumo fazer todas as semanas reduziu-se consideravelmente.

Na actividade que dá dinheiro, estou a ler o próximo livro e já está um quarto lido.

O wiki subiu mais 41 páginas, e tem agora 16 521.

E, com as leituras laborais e a viagem, não houve nenhuma leitura de lazer concluída.

Que a semana que vem seja mais produtiva é o que se deseja.

domingo, 28 de junho de 2009

Semana

Desta vez ao domingo, que ontem não me apetecia escrever nem uma linha (acontece, e quando acontece não fale a pena forçar, desde que se possa não o fazer), eis a semana que passou numa penada. Ou em duas ou três.

Trabalho? Acabou. O livro está traduzido, revisto e enviado ao editor, alguns dias antes do prazo terminado. Segue-se, claro, o próximo. 757 páginas de texto miudinho, denso e quase sem margens, que irão ser divididas em dois volumes, cada um, imagino, mais perto das 400 do que das 350.

Ah, sim, e claro que há versejos. Nem podia deixar de haver. O que vale é que é só um. Comprido, mas só um.

O wiki esteve amodorrado. Não passaram de 16 as páginas que se estrearam na última semana, aumentando o total para 16 480.

E quanto a leituras, acabei dois livros e li mais umas coisas.

Com O Povo Branco, terminei O Grande Deus Pã, de Arthur Machen. O conto é capaz de ter sido aquele que mais me agradou de entre os quatro que compõem o livro. Consta de um longo texto "escrito" por uma rapariga adolescente, rodeado por um prólogo e um epílogo que situam o leitor no que toca a quem e o quê é a rapariga. Particularmente bem sucedido é o modo como Machen altera o estilo para dar "voz" à rapariga, e o próprio texto desta é muito interessante, funcionando quase como pot-pourri de contos maravilhosos do folclore britânico, cheio de magia e criaturas fantásticas da floresta. Mesmo muito bom. E é um óptimo fecho para um livro de que acabei por gostar, apesar de por vezes me ter aborrecido bastante, em especial no primeiro conto.

E com Planeta que Nada tem Para Dar, de Olga Larionova, terminei Poção de Marte, antologia de FC&F soviética. O texto de Larionova é uma noveleta de ficção científica que acompanha a exploração de um planeta que vamos aos poucos reconhecendo no espaço, ainda que não no tempo, por parte de uma espécie alienígena metamórfica e totalitária. Apesar da história ter aspectos interessantes, em particular se tivermos em conta o contexto em que foi escrita, não me agradou lá muito. O mesmo posso dizer da antologia como um todo: nem o romance que lhe empresta o título, nem os contos que o acompanham, são propriamente maus. Mas tampouco são bons, antes reúnem aspectos interessantes e falhas num todo que acaba por ser mediano.

Além destes dois livros, li também Curse of the Immortal's Husband, poema de Bruce Boston que não me pareceu lá muito bem conseguido, e dei um bom avanço num romance bastante grosso que já me acompanha há algum tempo.

E é só isto. Para a semana há mais.

sábado, 20 de junho de 2009

Semana

E pronto, lá se passou mais uma semaninha, entre descanso, um artigo complicado e comprido e (algum) desbaste no email acumulado. E calor, montes de calor, e de mudanças malucas de temperatura também, daquelas que deixam um tipo derreado, sem vontade de fazer nada.

Em todo o caso, sempre se foi fazendo qualquer coisinha, por exemplo, no wiki, que cresceu mais 62 páginas. Tem agora 16 466.

E leu-se também umas coisas, claro. E até se acabou uma delas: o número 324 da revista Asimov's. Não a acabei lendo algo de que valha a pena falar aqui — críticas a livros saídos nos States há uns anos —, mas o número em si é típico da Asimov's: uma ou duas coisas muito boas, mais uma ou duas boas e o resto, quase tudo, suficientemente interessante para fazer com que a revista valha muito a leitura. Pessoalmente, destaco The War on Treemon, de Nancy Kress, e The Ice, de Steven Popkes, como os melhores textos e Etiquette With Your Robot Wife, de Bruce Boston, como o mais divertido.

Noutras leituras, li Cultos da Carga da Ilha do Beijo Picante, de Rhys Hughes, uma excelente prosa metaliterária composta por uma autêntica cebola de histórias metidas dentro umas das outras e em tensão mútua, com uma revolta do leitor lá metida no meio. Achei muitíssimo curiosa a semelhança que esta história de Hughes tem com O Deus das Gaivotas, que escrevi com o meu pai e está publicada na colectânea Por Universos Nunca Dantes Navegados. Hughes faz rebelar-se o leitor enquanto nós sofremos a revolta da personagem, e também vai mais longe do que nós na exploração do absurdo da ideia, mas há mesmo assim muitos pontos de contacto entre as duas histórias. Mal posso esperar que o meu pai leia isto para ver o que diz.

Também li O Sinistro, de Carlos Patati, um misto de ficção científica e horror, com umas ideias bem interessantes, em especial a ideia principal: tatuagens que funcionam como uma espécie de rede neuronal artificial e complementar ao cérebro biológico, e que põem os tatuados em contacto com os monstros lovecraftianos. Mas apesar da ideia interessante, não gostei particularmente da sua concretização, que muito teria sido ajudada por uma revisão atenta ao texto. Há partes incompreensíveis, onde parecem faltar palavras, há erros ortográficos e gralhas, há trechos onde o estilo perde solidez, enfim... é pena.

Também li São Asas, crónica de Saramago sobre uma estátua de Camões, que achei muito esquecível. A crónica, não a estátua.

E li Encontro Nocturno, de Bradbury, outro conto que mistura a ficção científica e o horror, no qual um terrestre, recém-instalado no morto planeta Marte, se encontra com o fantasma de um marciano vindo de um passado em que a sua civilização se mostrava viva e pujante. Ou talvez fosse o marciano a encontrar-se com o fantasma do terrestre vindo do futuro. De uma forma ou de outra, uma coisa é certa: o conto é muitíssimo bom.

O Final do Verão é a outra história de Bradbury que li esta semana. Outra boa história, esta é praticamente mainstream, embora contenha um certo ambiente fantasmagórico, e conta uma escapadela sexual duma jovem geralmente muito composta e aprumada.

Si Tan Solo, de Gerardo Horacio Porcayo, é um poema em prosa sobre o sonho. Não me agradou por aí além.

Por fim, e também em estrangeiro, li The Convert, de Simon Ings, uma noveleta escrita numa linguagem muito rica em metáforas, sobre um homem que recebe como implante um sentido artificial que o informa sobre o fluxo do dinheiro e para isso se associa a um milionário com uma saúde mental algo débil. O mais curioso desta história é passar-se quase toda no Brasil, e por isso aparecerem coisas em português no texto inglês, mas que eu ache isso o mais curioso já mostra que não gostei lá muito do que li. Não gostei da caracterização das personagens, por exemplo, e como isso é boa parte do conto...

E pronto. Para a semana haverá mais.

domingo, 14 de junho de 2009

Semana

Ontem esqueci-me de semanar, no afã de acabar a tradução, semano hoje.

Não que haja muito a dizer da semana que passou. Foi, como é hábito em mim sempre que um trabalho está com o fim próximo, dedicada quase em exclusivo a dar-lhe esse mesmo fim. Não que tenha terminado por completo, claro, ainda falta a revisão. Mas por qualquer motivo encaro sempre a revisão como um sucedâneo do trabalho verdadeiro. Um sucedâneo importante, sem dúvida, mas sucedâneo mesmo assim.

O wiki cresceu um bocadinho, mas continua bastante parado. Tem agora mais 20 páginas do que há uma semana, e mais 16 404 do que no momento em que nasceu.

E nem as leituras foram abundantes. Antes pelo contrário.

Li A Luz Mais Interior, noveleta de horror de Arthur Machen, de que não gostei tanto como da Novela da Chancela Negra. É mais uma história de investigação sobrenatural, uma daquelas histórias que tipicamente parecem inspiradas pelo velho adágio sobre a curiosidade ter morto o gato. Neste caso não mata, propriamente, mas apenas porque o protagonista recua no último momento depois de ser avisado por uma personagem secundária que não recuou. Está bem escrita, sem dúvida, e bem delineada, mas não me prendeu.

E li Afinador de Pianos, conto de fantasia de Victor Kolupaev que gira em volta de um afinador de pianos muito especial. Magicamente muito especial. O conto leva-o a percorrer uma série de apartamentos afinando os pianos consoante as características das famílias que os possuem e das pessoas que, nessas famílias, mais usam os instrumentos. É um bom conto, apesar de ser bastante capaz de irritar solenemente os leitores que odeiam histórias humanistas.

E foi isto que li esta semana. Até à próxima.

sábado, 6 de junho de 2009

Semana

Olá a todos, caros nãoseiquantos leitores, aqui o mordomo dos sábados dá-vos as boas vindas a mais um. Isto hoje vai ser rápido, que tenho de ir ali. Onde? Ali.

O livro está cada vez mais quase traduzido. Faltam agora 54 páginas para o fim. Na próxima nota semanal deverei dizer que "o livro está traduzido". Ou então que "o livro acaba-se hoje". Não sei, e mesmo se soubesse não vos diria; afinal há que manter algum suspense nestas coisas.

O wiki, depois de duas semanas parado, mexeu finalmente um tudo-nada. 4 páginas novas, acrescentadas ontem. Não faço prognósticos para a semana; tanto pode voltar ao crescimento rápido como continuar na modorra dos últimos tempos. É com ele.

E agora as leituras.

Uma das coisas que li esta semana foi mais um conto totalmente surreal de Rhys Hughes, Horizonte Eterno, no qual um tal Luís Rodrigues (de onde é que eu conheço este nome? Hm...), navegador, depois de ser lançado borda fora do seu veleiro por piratas, entra numa tórrida relação amorosa com uma deusa e percorre meio mundo em surreais peripécias, entre as quais se destaca o problemático aparecimento de um segundo horizonte, mais próximo de nós do que o original. Divertido, mas de novo senti falta de um fio condutor mais firme para gostar realmente desta história.

Noutra versão da língua portuguesa li Toda Forma de Amor, de Carlos Orsi, um conto de ficção científica com toques de horror sobre uma mulher que tem um encontro poético com uma misteriosa personagem que responde pela alcunha de Grafo. Cheio de ideias sofisticadas sobre matemática, computação e literatura, é um conto explanatório clássico, que até tem uma versão modernizada do cientista louco da velha FC do início do século XX. É um esforço competente e bem desenvolvido, mas confesso que não gostei muito, provavelmente porque põe a ideia à frente de tudo o mais.

Voltando à minha versão do português, li As Palavras, de Saramago, uma crónica que se debruça sobre as palavras (óbvio) e a comunicação em tempos de ditadura. Também não gostei por aí além.

A coisa mais curta que li esta semana foi Os Gafanhotos, de Bradbury, mais um dos tais contos que têm mais importância para o livro do que valor como textos independentes.

E mudando finalmente de língua encontra-se a jóia da semana. The Ice, novela de Steven Popkes, conta a história dum clone clandestino duma lenda do hóquei sobre o gelo. É uma história excelente sobre a identidade e as relações interpessoais, sobre aquilo que somos e até que ponto isso é determinado pelos genes que herdamos ou pelas escolhas que fazemos ao longo da vida. Muito bom.

E pronto, post feito, resta ir ver se não houve alguma gralha a enfiar-se nele à má-fila, etiquetá-lo e clicar em "publicar mensagem".

sábado, 30 de maio de 2009

Semana

E o tempo lá continua a minguar, os dias a fundir-se uns nos outros num continuum uniforme, e as semanas passam com a velocidade dum TGV, agora vem aí, e num instante vuuuch, já lá vai.

No livro restam 102 páginas. Duas semanas e picos, ou talvez simplesmente duas semanas, dependendo do estado da cabeça e do efeito que trouxerem os remates da nossa amiga Robin. O desta semana trouxe um poema. O último. Ficou porreiro, parece-me.

O wiki não tugiu nem buliu. Passou uma semana de férias. Às vezes tem de ser.

E no que toca a leituras, também não foram propriamente abundantes.

Li O Reflexo do Espelho, conto de Ray Bradbury com uma atmosfera vagamente mágica sobre as relações de dominância e submissão entre duas gémeas de meia idade. Este é mesmo muito bom.

E li A Novela da Chancela Negra, de Arthur Machen, novela que descreve as investigações de um cientista inglês, o qual descobre um artefacto com estranhas inscrições que lhe vai abrir as portas para algo de tenebroso, tudo contado por uma jovem arrolada por ele para lhe servir de testemunha. Gostei francamente mais do que de O Grande Deus Pã, apesar da estrutura desta história ser mais tradicional. Ressoou melhor cá dentro e manteve-me atento, em vez de me dar sono.

Li também Inspiração, de Victor Kolupaev, um conto fantástico sobre um operário que em tempos idos pintou e passadas décadas regressa ao seu antigo passatempo. Mas quando o quadro é exposto, todos os que o observam vêem coisas diferentes. É interessante, embora não seja memorável.

E li Tudo para Nada, conto surrealista de Rhys Hughes que parte do extravio de um pequeno cão e vai por aí fora com a textura dos sonhos mais desconexos, saltitando de tema em tema com a agilidade dum filme do Daffy Duck, embora sem nenhum do seu frenesim. Interessante, mas falta-lhe um fio condutor mais firme para me agradar mesmo a sério. O onirismo também pode ser excessivo.

E, resumidamente, foi isto. Agora com licença, que tenho aqui umas páginas a chamar por mim.

sábado, 23 de maio de 2009

Semana

Bem, e cá estamos. Parece que o último sábado foi ontem ou anteontem, mas pelos vistos não foi. Para onde diabo voa o tempo?

Bem, um sítio para onde ele voa é o trabalho. Com 149 páginas a faltar para o fim, ele vai avançando a um ritmo estável, mas cada página tem um pouco (ou não tão pouco como isso) de tempo nela aninhado, entretecido nas fibras do papel que os leitores folhearão depois do livro publicado (lá para Setembro, acho eu).

Também voa um pouco para o wiki, que engordou mais 30 páginas, somando agora 16 380, ainda que já esteja parado há alguns dias.

E voa também para leituras, que nesta semana até que foram relativamente abundantes.

Para começar, acabei um romance bastante longo, 434 páginas de letra apertadinha: Regresso a Marte, de Ben Bova. Ficção científica, claro. Trata-se duma sequela a outro romance de Bova, intitulado (adivinhem) Marte, que tratava da primeira viagem tripulada ao planeta vermelho. Esta sequela descreve (adivinhem) a segunda viagem tripulada a Marte. Adivinharam? Vocês são mesmo bons nisto! É um original de 1999, de antes dos rovers marcianos e das sondas em órbita que revolucionaram o que sabemos sobre Marte, e como consequência já está algo ultrapassado pelos acontecimentos. Apesar disso é uma leitura interessante, que se lê bem. Não é um grande livro de FC, mas é um livro agradável e honesto, que tem no confronto entre a avidez do lucro e a vontade de preservar o património (natural ou não) o seu ponto mais forte. Gostei.

Mas se pensam que foi o único romance que acabei, desenganem-se, embora o outro faça parte duma colectânea. Falo de Poção de Marte, de Kir Bulitchev, um pequeno romance sobre aquilo que acontece a um grupo de habitantes duma cidadezinha da província soviética quando é descoberto por acaso um subterrâneo secreto onde se guardava uma garrafa com um líquido peculiar lá dentro. Vem a descobrir-se que esse líquido é uma poção da juventude, que terá vindo "de Marte", no dizer das duas misteriosas personagens que a andam a usar há 200 anos. Não é um bom romance. Começa de forma interessante e continua de forma interessante, mas quando nos preparamos para saber o que acontece àquelas pessoas quando partem para Moscovo a fim de tentar colocar a poção ao serviço da ciência, o romance acaba abruptamente com um final apressado, deixando um certo sabor amargo na boca. Em todo o caso vale pelo divertido retrato da cidadezinha e por personagens bastante mais sólidas do que é costumeiro encontrar-se na FC. Razoável, portanto.

E, como sempre, li coisas mais curtas.

O Grande Deus Pã, novela gótica de Arthur Machen, teve, confesso, o condão de me adormecer. OK, está construída duma forma interessante, como uma série de historietas interligadas que se estendem por uma porção de anos. E também consigo compreender a sua relevância no contexto da literatura inglesa da época vitoriana, visto que tem uma forte componente sexual (disfarçada, claro) e mexe não só com o sobrenatural, mas também com o paganismo. De modo que entendo, intelectualmente, o porquê de ser considerada um clássico do horror. Mas, oh, o aborrecimento que me causou! A soneira! A completa ausência duma ligação emocional, qualquer que ela fosse, com este texto!

Madame et Monsieur Isco, é outro conto mainstream de Ray Bradbury, com leves laivos de fantasia, e este nem sequer se pode chamar americana, visto passar-se em Paris. Um jovem "atraente" é contratado pelo dono dum restaurante para fazer companhia a uma jovem "belíssima" numa mesa colocada na montra do estabelecimento e comer gratuitamente. Mas depois ele apaixona-se. É uma história bem construída e, claro, bem escrita. Bom.

Etiquette With your Robot Wife, de Bruce Boston, é um poema muito divertido que também funcionaria bem em formato mini-conto. Para perceberem o estilo, começa assim: "Never tell her she tastes like metal" E continua, por mais umas quantas frases de semelhante catadura. Porreirinho!

A Manhã Verde, de novo de Ray Bradbury, é um bom conto sobre um homem cuja missão na vida é plantar árvores em Marte, para que a rarefeita atmosfera do planeta ganhe mais oxigéneo e ele consiga aí respirar melhor. Olhado como ficção científica, é bastante mau. Olhado simplesmente como literatura, é bastante bom, e o curioso é que funciona lindamente no contexto do livro, que é mais ficção científica do que outra coisa.

Viagens na Minha Terra, de Saramago, é uma crónica que divaga sobre o livro de Garrett com o mesmo título. Nada de especial.

Por fim, Tritões Lunares, de Rhys Hughes, é um conto em que Hughes nos explica que na verdade a Lua é habitada por um povo de tritões ameaçados por pescadores de Saturno, que as crateras na verdade são telescópios e mais uma série de detalhes sobre a verdadeira Lua. Pelo menos a verdadeira tal qual existe na imaginação dele. Weird fiction divertida e bastante bem escrita.

E pronto, foi para isto que o tempo voou. E para mais uma série de coisas de que não serve de nada falar aqui. Quando voar outro período de sete dias, voltaremos a encontrar-nos. Até lá. Ou até algum post "não-semanal" que apareça entretanto. Está planeado, resta saber é se encontrarei tempo para passar dos planos aos bits.

sábado, 16 de maio de 2009

Semana

Sábado, e tal, ali ao lado a Rita Redshoes cantarola na TV, enfiada numa farfalhante farpela amarela, e aqui na Lâmpada é altura de mais uma notazinha sobre a semana que passou.

A calma que por aqui houve nas últimas semanas começa a reduzir-se com a aproximação do fim do prazo para a entrega do trabalho. E de mais alguns prazos que, suspeito, vão ser todos furados. O trabalho que paga tem e terá sempre prioridade sobre tudo o resto, e com os sarilhos em que este trabalho que paga me tem metido, o tempo e, pior, a disponibilidade mental para o resto cai a pique. Faltam 197 páginas, o que, ao ritmo a que tenho conseguido avançar, não dá grandes folgas, embora seja perfeitamente possível de cumprir.

Embora no trabalho a calma se tenha reduzido, no wiki não. Continuou a crescer ao ritmo lento que tem sido característico nos últimos tempos, subindo desta vez mais 52 páginas, para 16 350. Algum material brasileiro, algum material português, e também, sem contar para o crescimento no número de páginas, umas tarefazinhas de manutenção.

As leituras continuaram dominadas por romances, e esta semana um deles chegou ao fim. Trata-se de O Sentido Latente, de Nuno Neves. Um romance de estreia de um escritor muito novo e que é excelente como exemplo do mal que faz escrever romances sem passar antes pelo tirocínio dos contos e aprender neles a gerir coisas tão fundamentais como o ritmo de escrita e o desenvolvimento do enredo. Nuno Neves é evidentemente talentoso, e poderá dar coisas válidas à literatura e mesmo à FC portuguesa, desde que não siga por este caminho, desde que se refine como escritor. Porque este livro é mauzinho. Não que esteja mal escrito no que toca apenas ao texto. Não está, embora tampouco esteja particularmente bem. Mas está mal concebido, com elementos de FC que só deixam de ser apenas folclóricos (e com um folclore muito ultrapassado, ainda por cima) lá pela página 100, diálogos que põem investigadores policiais tarimbados a falar como putos do secundário, esfrangalhando por completo a sua credibilidade como personagens, enfim, uma porção de erros de principiante. E é muito desequilibrado como romance, pondo no fulcro da (pouca) acção a investigação policial sobre o assassínio do filho de um magnata da engenharia genética, quando o verdadeiro tema do romance, e o que lhe dá título, é um tal sentido latente, que ocupa uma dúzia de páginas, se tanto.

Quanto mais romances destes leio mais firme se torna a minha convicção de que é absolutamente fundamental que os escritores que pretendem dedicar-se à FC comecem a "treinar" em ficção curta, porque só na ficção curta podem fazer experiências (e falhar, pois falhar é inevitável por maior que seja o talento que se tem) com um investimento razoável de tempo e esforço. E mais firme se torna a minha convicção de que vale muito mais investir na publicação (as editoras) e leitura (os leitores) de colectâneas e antologias do que de romances como este. É que uma colectânea ou uma antologia raramente termina sem que o leitor tenha gostado, pelo menos um pouco, de alguns dos textos que a compõem. O mesmo não se pode dizer dum livro composto por um único texto. Se é mau, nada o salva.

Pensem nisso, oh vocês que tanto desprezam a ficção curta.

E por falar em contos...

Li também O Sem Título, de Simone Saueressig, um conto curtinho sobre um homem que descobre os textos de Lovecraft e acaba por descobrir um pouco mais do que isso. Não gostei muito, mas também não desgostei. Nasce na Serra de Albarracim, em Espanha, é uma crónica de José Saramago que mais parece uma declaração de amor ao rio Tejo. Embora o tema pouco ou nada me diga, a linguagem deste textozinho é uma delícia. Os Colonos, de Ray Bradbury, é outro dos seus contos muito pequenos que valem mais pelo efeito que têm no livro em que se inserem do que por si próprios. E Golden Bird, de Mary Rosenblum, é uma noveleta de ficção científica sobre um homem particularmente dotado para a engenharia genética que chega à cidade grande, violenta e paranóica, perpetuamente sob a ameaça do bioterrorismo, e aí encontra uma paixão em que a sua ingenuidade de rapaz do campo é posta à prova. Apesar de estar muito bem escrito, é apenas bonzinho, não me parece que passe disso. Acima de razoável, mas falta-lhe qualquer coisa para chegar a ser realmente bom. Ou tem qualquer coisa a mais, talvez; talvez funcionasse melhor, pelo menos a meus olhos, se fosse um pouco mais compacto.

E a semana foi isto. Muito resumidamente, claro.

sábado, 9 de maio de 2009

Semana

Cá estamos de volta à singularidade nestas notas semanais, desta feita uma singularidade muito rápida, pois quando não há muito a dizer é escusado tentar dizer muito.

A tradução lá vai avançando a um ritmo regular, ainda que calmo, sem nada do frenesi que tem acompanhado outras traduções recentes. A carteira não gosta, mas a cabeça agradece. Faltam 243 páginas para chegar ao fim, e em todas elas haverá certamente um problema bicudo qualquer a resolver. Esta autora é assim. Há autores que quaisquer 7 euros por página pagam bem; outros nem 20 fariam justiça ao trabalho que dão.

O wiki também vai avançando a um ritmo regular, ainda que calmo. Nesta fase, tudo é calmo. Neste momento com um total de 16 298 páginas, tem 72 novidades desde a semana passada, e novidade também é que as mais relevantes dessas novidades passaram a ser divulgadas através duma conta própria no twitter. Quem estiver interessado - e quem não estaria? - Pode segui-la em @bibliowiki.

Também calmas têm sido as leituras, muito dedicadas a romances. De tal forma dedicadas a romances, na verdade, que na semana que passou só li um conto: Alguém à Chuva, de Ray Bradbury. Trata-se de uma história melancólica sobre um casal que revisita um local especial do passado do marido, para grande desagrado da mulher, onde ele reencontra alguns fantasmas desse mesmo passado. Fundamentalmente mainstream, só com uns leves toques de fantástico, é agradável de ler, embora desprovido de qualquer rasgo que o pudesse tornar especial.

E nada mais tenho a dizer, portanto calo-me. O silêncio, há quem diga, é a maior das virtudes.

domingo, 3 de maio de 2009

Semanas

Na semana passada, esqueci-me dela. Por assim dizer. Um tipo esquecer-se duma semana é algo que só está ao alcance dum amnésico de alto gabarito, e não é propriamente o meu caso (ainda?), daí o "por assim dizer". Mas esqueci-me de vir aqui à Lâmpada falar dela, o que talvez se tenha ficado a dever à irreverência e subversão que costumam vir associadas ao 25 de Abril. A consequência é que hoje não falo duma semana, mas sim de duas.

Começando pelo mais importante: tinha um conto quase pronto quando descobri que estava a tentar forçá-lo a ser algo que ele se recusava terminantemente a ser: fantástico. Era eu a empurrá-lo para o irreal, e ele a empacar que nem jerico malcriado. Era eu a tentar introduzir-lhe goela abaixo umas pitadas de fantasia e ele a vomitá-las como se de veneno se tratasse. Foi uma luta com perdedor inevitável, e claro que acabei por ceder. Era inescapável que o conto seguisse o que lhe sai naturalmente das tendências congénitas e, por mais que me entristeça vê-lo assim, vou ter de deixá-lo ser quem é: um mainstreamzito qualquer, que nem a revista Bang! aceitaria publicar. Como vingança, vai ser todo reescrito, de cima a baixo. Já está a ser, aliás.

Seguindo em ordem de importância, tenho aqui um livrito a ser traduzido, ah pois tenho. Uma metade de livro, mais propriamente, que pega na história onde a deixou O Punhal do Soberano, que está previsto que saia daqui a 20 dias. Isto se não decidir dar um salto à feira do livro de Lisboa entretanto, que os livros andam cada vez mais saídos das capas. E neste momento faltam-me 269 páginas para chegar ao último ponto final, que neste caso será um ponto final exuberante como todos os itálicos.

Descendo mais um pouco da escada, o wiki esteve absolutamente imóvel durante cerca de uma semana. Nem tugiu, nem mugiu, o que de qualquer forma nunca faz, visto que não é vaca nenhuma. Mas depois dessas feriazinhas lá voltou a saracotear-se um pouco. Foram 64 páginas novas a somar às que já lá se encontravam, aumentando o total para 16 226. Tudo graças aos meus dedinhos, pois então. Infelizmente, ainda não se descobriu nenhum modo de pôr as boas intenções a trabalhar. Mas consta-me que os cientistas estão a estudar o problema, algures num laboratório da Terra do Nunca. O Peter Pan é que anda chateado com o assunto. É ludita, o raio do puto.

E cá estamos nós no rés-do-chão: os livros. Passei as semanas dedicado quase em exclusivo a romances. Um muito chato, que, portanto, se lê lentamente, outro bastante grande, que, portanto, tem muito para ler, e um terceiro muito russo. Não acabei nenhum, mas felizmente (pois de contrário nada teria para vos dizer) também li isto:

Colheres de Amor em Perigo, de Rhys Hughes, é uma história saltitona e muito surreal sobre colheres, morsas, icebergues, boémios e sereias, e se conseguirem tirar sentido desta salada sem ler o conto contactem o vosso psiquiatra com alguma urgência. Trocando por miúdos, é uma história de amor com uma construção bizarra e por isso mesmo interessante.

Esperando o Fim do Mundo, de Celso Gajo, é um conto lovecraftiano bem mais tradicional, sobre um homem coberto de tatuagens que realiza rituais diários que supostamente evitam o fim do mundo. Supostamente porque ele descobre que na verdade não acredita no que está a fazer, mais ou menos ao mesmo tempo que também descobre o amor duma mulher. Bom, especialmente porque o Gajo (não, não estou a destratá-lo: é mesmo nome) escapa à armadilha que condena à ilegibilidade tantos dos escritores que são fãs de Lovecraft: tentar escrever como o velho Howard Phillips.

E fico-me por aqui. O resto, foi a vida, e isso, lamento, não vos diz respeito.

sábado, 18 de abril de 2009

Semana

Lá se acabou mais uma semana, e mais uma semana muito pouco produtiva, sob todos os aspectos. Eu chamo-lhe recarregar de baterias, que realmente andavam em baixo. Mas se alguém lhe chamar preguiça eu lá terei de baixar os olhos e raspar com o pé na terra, pois então.

Não que não tenha feito nada. Li os capítulos do próximo livro do Martin que estão disponíveis, quer no último livro (o típico capítulo de chamariz que aparece em todos), quer na web. Depois, escolhi aquele que me pareceu mais interessante, traduzi-o, revi-o e enviei-o à editora. Ou seja: até que o Martin termine e publique A Dance With Dragons, nada mais dele tenho a traduzir.

Isto, claro, se a editora não decidir publicar algum livro fora da série do Gelo e Fogo e não pensar em mim para a tradução. Não se pode dizer que não tivesse a sua piada.

Ah, sim, e também escrevi umas coisas. Tenho um conto quase pronto, o primeiro que escrevo desde há muitos meses. É... bizarro.

O wiki esteve muito parado. Só tem 18 páginas novas desde a semana passada, subindo o total para 16 162. Mesmo tendo em conta que a maior parte do que se fez foi refinamento de material pré-existente, que portanto não entra nas contas das novidades, é pouco.

No que toca a leituras, passei a maior parte da semana a tentar penosamente dar um avanço num romance muito chato, mas ainda li mais umas coisitas. Nomeadamente...

Três crónicas de Saramago. Ninguém se Banha Duas Vezes no Mesmo Rio é um daquelas reflexões filosóficas sobre o tempo e a mudança por que toda a gente já deve ter passado. As Bondosas tem um certo tom neo-realista ao descrever aquilo que terá acontecido à casa de infância da família Saramago. E Cair no Céu é mais um texto umbiguista sobre um momento em que, deitado de costas, o autor se terá deixado dominar pela vertigem do azul. A linguagem é quase sempre saborosa, mas confesso que estas crónicas pouco mais do que isso me estão a dar. A ver vamos o que está para vir.

Li também —E a Lua Continue Assim Brilhante, conto de Bradbury em jeito de western de ficção científica, no qual um dos elementos de mais uma expedição a Marte se decide defensor das cidades mortas do planeta morto, e primeiro deserta, regressando depois para matar os antigos companheiros. É um conto francamente bom se tomado isoladamente, e melhor se torna quando enquadrado na história mais lata a que pertence. É uma das charneiras dessa história.

Por fim, li Four Lawns, um poema razoavelmente longo de Tom Disch. Sabem aqueles textos que se lêem e relêem e nos deixam sem saber o que pensar ou, sequer, se fazem ou não sentido? Pois. Foi o caso.

E é tudo. Até para a semana

sábado, 11 de abril de 2009

Semana

Um pouco mais tarde do que o que é hábito (tenho estado cá com uma preguiça... mas não. Chamemos-lhe "recarregar de baterias". Isso), eis-me aqui a falar da semana que passou.

Passou e com ela foi-se uma avaria na net que já andava a chatear há quase uma semana, mas que foi piorando aos poucos até me deixar quase completamente desligado na terça-feira. O mais chato das avarias nem são as avarias: é o tempo imenso que se perde a fazer experiências nisto e naquilo até que o técnico decida finalmente chegar, e passar depois algumas horas, também ele, a fazer experiências nisto e naquilo enquanto um tipo fica de lado, de braços cruzados, a ver. O que é ainda pior do que perder tempo pessoalmente com experiências.

Mas enfim, lá se foi a avaria, e com ela foi-se um modem e veio outro.

No que toca a trabalho daquele que se executa para ganhar a vida, a semana foi gasta a ler o próximo livro, e já lá vi mais daquelas chaticezitas que me perseguem as traduções: poemas e trocadilhos, um exemplar de cada, que irão querer dizer dois dias de muito trabalho e muito pouco rendimento da espécie que se põe no banco. Não ocupam uma mão-cheia das 315 páginas que ainda estão por fazer, mas deviam valer por umas 10 ou 15.

O wiki esteve razoavelmente activo, com 73 novidades que fizeram crescer o total de artigos para 16 144. Material brasileiro antigo e traduções portuguesas recentes, principalmente.

E como acontece sempre que tenho leituras laborais a fazer, as de lazer ficaram um pouco postas de lado. Mas ainda li umas coisitas. De Bradbury, li Aquele Velho Cão Deitado Sobre a Poeira, um conto algo surrealista sobre uma visita ao circo, cujo interesse reside sobretudo na linguagem. Não gostei lá muito, confesso. Já gostei mais de A Sereia de Curitiba, de Rhys Hughes, um conto sobre um viajante que conhece uma sereia uma certa noite no carnaval de Curutiba. Conhece e apaixona-se ao ponto de a seguir quando ela parte da cidade, de comboio, a cavalo, de bicicleta, através de todos os meios de transporte que consegue arranjar. Não será nenhuma obra-prima, mas é um conto fantástico interessante.

E, tirando o que avancei num par de romances, o que li esta semana resumiu-se a isto. Até à próxima.

sábado, 4 de abril de 2009

Semana

Olé, olá! Estou a sentir-me levezinho!

É que acabei o último livro do Martin e despachei uma tarefa relacionada com o próximo da Hobb que me foi pedida mais ou menos à última hora. E agora o próximo prazo a cumprir é francamente longínquo. A pressão destes últimos meses foi levantada, e eu respiro. E vai ser agora que vou finalmente fazer tudo aquilo que tenho vindo a adiar por falta de tempo, oh se vai.

Bem, tudo, tudo, talvez não. São muitas coisas. Mas pelo menos escrever umas coisas, responder a uns mails mais "cabeludos", fazer uns desenhos e o mais que se verá não irão escapar-me.

No wiki, a semana teve ajudinha externa. E em parte como consequência, aumentou mais 50 páginas, subindo o total para 16 071. Também é algo a que vou poder dedicar-me mais, espero.

Quanto a leituras, li O Cadáver de James Joyce, conto célebre de José Luís Peixoto. Tem alguns pormenores de linguagem deliciosos, é certo. O insólito da situação descrita (um tipo que a páginas tantas decide que James Joyce não devia estar enterrado na Suíça e põe mãos à obra de corrigir essa injustiça) deverá explicar boa parte da atracção que este conto originou pela bibliosfera portuguesa fora. Mas eu confesso que acabei a leitura com uma pergunta entalada: "OK, e daí?" Literariamente é bom, sem dúvida, mas pessoalmente não retirei dele grande coisa. Este conto fecha o número 3 da revista Ficções, que anda globalmente pelo bom, apesar do texto do Mendes A. e, menos, do Agnon. Os do Mário de Carvalho, do Maupassant e do Agualusa, que são aqueles de que mais gostei, compensam.

Também li mais duas crónicas em que Saramago passa em revista duas figuras da sua infância: O Meu Avô, Também, e O Amola-Tesouras. Gostei mais da segunda do que da primeira, mas não gostei assim muito de nenhuma. São textos introspectivos e umbiguistas, características que raramente me despertam interesse, por mais bem escritos que estejam.

A Terceira Expedição, de Ray Bradbury, fala-nos duma expedição a Marte, cujos membros vão encontrar no quarto planeta aqueles que lhes tinham morrido no terceiro: os pais, os avôs, os irmãos mortos em acidentes, as saudades. Pelo menos em aparência. A realidade é diferente: uma espécie de telepatas que se defende daquilo que vê como uma invasão. Bastante bom.

Também bastante bom, mas por outros motivos, é The War on Treemon, de Nancy Kress, uma noveleta que, aparentemente, se debruça sobre uma guerra, no mundo longínquo de Treemon, entre uma sociedade ditatorial e uma outra em que os valores da tolerância e da humanidade são defendidas com fúria puritana e fundamentalista. A semelhança do título com o célebre slogan bushista de "the war on terror" não é coincidência. É a ficção científica, essa literatura a que chamam por aí escapista, a reflectir em mundos distantes sobre o momento contemporâneo no planeta Terra. E muito bem.

E, além de umas visitas a um par de romances, e de um artigo sobre a geografia mítica lovecraftiana, foram estas as leituras da semana. Dentro de sete dias haverá outras. Até lá.

sábado, 28 de março de 2009

Semana

Cá temos mais uma no fim, inesperado acontecimento que se repete todas as semanas. É assim como os festejos de fim de ano, ou do carnaval: há todos os anos, mas todos os anos enchem páginas e páginas de jornais e longos minutos de noticiário televisivo. Aqui as minhas notas têm a vantagem de serem mais variadas, pelo menos nas leituras e no que vou dizendo sobre elas.

Sim, porque quando falo de trabalho pouco há a dizer, além de informar (desta vez) que a revisão do último livro do Martin está prestes a terminar. E estou a gostar do resultado do labor destes últimos meses, francamente. É sempre bom quando isso acontece.

No wiki, a semana foi gasta principalmente a adaptar as páginas das colecções ao novo formato, aproveitando para corrigir alguns erros e acrescentar alguma informação em falta. Mesmo assim, subiu às 16 021 páginas, o que significa 40 novidades.

E agora, leituras:

Em estrangeiro resumiram-se a New Lightning, um pequeno poemita de Ruth Berman sobre os novos tipos de relâmpago de grande altitude que têm sido descobertos recentemente. Achei muito fraquinho e desinteressante, francamente.

Que Será Feito de Sally?, de Ray Bradbury é um conto mainstream sobre um homem de meia-idade a quem uma canção tocada num bar faz lembrar uma antiga namorada do liceu e que decide procurá-la, acabando desiludido. Está bem escrito, é verdade, mas não é nada de especial, até porque há histórias destas ao pontapé, tanto na literatura como no cinema.

Também de Bradbury, Nada Muda é um conto fantástico no qual um homem repara que as mesmas caras se repetem nos livros de curso dos liceus ao longo dos anos... incluindo a dele. É um bom conto, apesar de lhe faltar o golpe de asa dos melhores contos de Bradbury.

O Decendente, de H. P. Lovecraft, não passa dum fragmento de uma história, no qual se faz referência ao Necronomicon mas que tem pouco mais do que isso. Além de eu não gostar do estilo de Lovecraft, tenho de dizer que a tradução do meu amigo Gabriel Boz deixa muito a desejar. É preciso ser-se um tradutor bastante bom e experiente para se conseguir deixar Lovecraft legível, e o Boz tentou dar um passo maior do que a perna. A soma de um mau texto de Lovecraft com uma má tradução é, inevitavelmente, bastante má.

De Saramago li mais uma crónica pessoal, intitulada Carta Para Josefa, Minha Avó. É um texto onde ele revela a sua incompreensão perante a resignação, e mesmo o contentamento, com que a avó aceita os seus horizontes limitados, e tem esse interesse, além da escrita competente que seria de esperar.

Também li mais um muito pequeno conto de Bradbury, O Contribuinte, sobre um homem que acha que, porque paga os seus impostos, tem direito a embarcar para Marte no foguete que se prepara para partir. É outro dos contos que valem mais pelo efeito que têm no livro em que se incluem do que por si próprios. Este caracteriza o clima emocional, e mesmo político, que se vive na Terra enquanto se explora Marte.

Por fim, li As Cartas, de um autor que desconhecia, Mendes A. E não posso dizer que tenha ficado bem impressionado com este exercício de estilo de fundo católico. Muito pelo contrário.

Li outras coisas, uns artigos, uma curta BD lovecraftiana, avancei algumas dezenas de páginas em dois romances. Mas destes falarei apenas quando os terminar, e daqueles não me parece que valha a pena falar. De BD percebo ainda menos do que de literatura, e nenhum dos artigos foi suficientemente desenvolvido ou relevante para me levar a ter uma opinião. Quanto ao resto...

... quanto ao resto fica para o futuro. Que começa a revelar-se já na semana que vem. Até lá.

sábado, 21 de março de 2009

Semana

Já todos sabem, não é? Pelo menos todos os que se interessam por tal informação. Escuso, portanto, de informar o mundo que a tradução está concluída e à espera que eu desanuvie (se os montes de esterco barulhentos que moram por cima de mim deixarem) o suficiente para me lançar a uma revisão atenta e com calma.

(Alguém conhece um mafioso simpático que parta pernas a um preço camarada? Conhecem? Sorte a vossa.)

Naturalmente, o wiki, que já andava a ficar tristonho com a falta de atenção, voltou a mexer de forma visível, embora em boa medida graças a algumas ajudas. Tem neste momento 15 981 páginas, mais 89 do que na semana passada. Mas as alterações não se resumiram a criar páginas novas: também temos uma nova forma de apresentar as colecções, exemplificada com a Bang! e já implementada em cerca de 20 outras colecções mais pequenas. Dá mais trabalho, sim, mas também fornece muito mais informação apresentada de um modo fácil de consultar, o que constitui todo o objectivo da coisa.

Nas leituras, acabei uma antologia de FC francesa lendo o artigo que a encerra, basicamente uma bibliografia daquilo que, segundo a organizadora, merece mais relevo no que foi publicado no género até ao início dos anos 70. O livro chama-se O Sexo na Moderna Ficção Científica, e é um título algo desadequado. Não que não contenha FC, embora alguns dos contos se desviem mais para outros registos, não que não tenha sido mais ou menos moderna na época em que o livro saiu, mas sexo tem muito pouco. Debruça-se sobre muitas questões relacionadas com o género, com os afectos, mas sexo propriamente dito, daquele que justifica todos aqueles pénis tentaculares da capa e das ilustrações interiores, tem muito pouco. Salvo uma ou duas excepções, é um livro francamente púdico. E também é um livro bastante irregular a todos os níveis: não havendo nenhum conto muito bom, há dois ou três bons, uma série de contos interessantes, alguns maus e um horrendo; e a tradução oscila entre o bom e o muito mau, às vezes assinada pela mesma pessoa (os tradutores são três). Somando tudo obtém-se um livro medianozinho, mais desviado para o lado mau do que para o bom, embora não deixe de ter o seu interesse. Afinal de contas, a edição de FC francesa em Portugal foi rara a partir dos anos 70 do século passado, e este é o único exemplo que eu conheço de uma antologia de autores franceses (e contém a única obra que muitos deles publicaram por cá).

Das outras leituras consta O Sapateiro Prodigioso, uma crónica de José Saramago sobre um sapateiro que terá conhecido, supõe-se, e que, apesar do título, nada tem de fantástico. O prodígio está no homem se dedicar a profundas questões filosóficas quando menos se esperaria.

Também consta Os Homens da Terra, de Ray Bradbury, um óptimo conto, cujo grande ponto forte é o modo como toda a inverosimilhança que encerra acaba por encaixar no fim. À primeira vista é um conto sobre o primeiro contacto entre terrestres e extraterrestres (neste caso, marcianos), mas vai bastante além da primeira vista.

A segunda leitura mainstream da semana foi O Homem da Luz, um conto do José Eduardo Agualusa sobre a loucura da guerra civil e a magia do cinema. Também gostei bastante.

Rejection, de Robert Reed, foi a leitura em estrangeiro da semana, um conto de ficção científica que também se debruça sobre o primeiro contacto entre nós e os ETs. Mas este é tratado duma forma curiosa, como se fosse um namoro, com as suas hesitações, idas e vindas e frustrantes investimentos emocionais. Não posso dizer que tenha gostado assim muito, mas a ideia é engraçada.

E por fim, as leituras concluíram-se com Conduzindo às Cegas, outro conto de Bradbury sobre um homem misterioso que aparece numa cidadezinha americana a vender carros com um capuz opaco enfiado na cabeça, despertando todas as curiosidades (e fartando-se de vender carros) e a amizade curiosa de um rapazinho. Outro bom conto, entre o fantástico e a americana, pendendo para aquele à superfície e para esta em profundidade.

E é isso o que tenho para vos dizer sobre a semana que passou. Portem-se bem, se for essa a vossa inclinação.

sábado, 14 de março de 2009

Semana

Pronto, já ali está a dar o top+, de modo que é capaz de ser sábado outra vez. Mas isto hoje vai ser curto, que não tenho muito tempo.

A semana correu melhorzinho, ténquiuvérimóche. O livro, que é o que interessa mesmo a metade do pessoal que lê estes posts, está a 81 páginas do fim, e é possível que o tenha pronto ainda durante a semana que vem.

O wiki cresceu pouco, mas cresceu. Neste momento com 15 892 páginas, só tem mais 35 do que há uma semana.

A parte das leituras é que tem mais que se diga, porque li uma série de coisas, embora quase todas muito curtas.

Li A Aparição, de José Saramago, uma historieta de fantasmas que talvez não seja mesmo uma historieta de fantasmas. Bom. E o mais curioso (curioso com um pendor algo diabolicozinho, admito) é eu ter a certeza de que quem não gosta de Saramago era capaz de gostar desta história... desde que não soubesse que é dele.

Li A Noite de Verão, de Ray Bradbury, historinha sobre uma sociedade atacada por visões colectivas. É mais uma história que vale mais pelo efeito que tem sobre o livro em que se enquadra do que por si própria.

Li O Celacanto, de Mário de Carvalho, conto fantástico algo surrealista sobre os problemas que causa a uma galeria de arte um celacanto (sim, o peixe) que resolve pôr-se a passear do lado para o outro armado em balão. Divertido, e tecnicamente muito bem feito.

Em estrangeiro só li um poeminha muito pequeno, Poor Richard's Analogue, de Steven Utley. Uma brincadeira de história alternativa centrada em Benjamin Franklin. Escapatório.

Regressando a Bradbury, li Fi Fa Fó Fum. Sob este título bizarro esconde-se um conto francamente bom sobre uma velha paranóica (e provavelmente mais do que um pouco demente) que está convencida de que o marido da neta a quer matar com um leão disfarçado de triturador. E se calhar quer mesmo. Mas a velha é mulher para lhe dar a volta, oh se é!

Por fim, li Voltemos Para Casa, Masculamor, de Bernard Mathon, um conto de ficção científica contado pela IA de um elevador, que vai assistindo, patamar a patamar, ao desenrolar de um drama familiar (heterossexual) numa sociedade de homossexualidade normalizada e dominada pelas mulheres. Não será propriamente bom, mas é curioso.

E foi isto. Também ando a ler um romance, mas dele falarei quando o terminar. Até ao próximo sábado.

sábado, 7 de março de 2009

Semana

Tenho de arranjar tempo para escrever uns posts que tenho aqui já matutados na cabeça. Isso e mais uma série de coisas. Contos, e tal. Mas enquanto não dá, a Lâmpada vai ter de continuar reduzida a estes updates semanais e a pouco mais. Para compensar, acrescentei ali ao fundo da barra da direita uma caixinha nova com os updates que vou fazendo no meu twitter.

Para mim, o twitter tem uma grande vantagem sobre o blog tradicional: serve para comunicação directa com as pessoas, quase em regime de mensagens instantâneas, para pensamentos rápidos, para desopilar e aliviar a pressão intelectual do trabalho, para disparatar à vontade. Desde que tenho twitter, nunca mais houve aqui na Lâmpada posts curtos de uma ou duas linhas, que constituíram uma boa percentagem do conteúdo deste blogue em certas fases da sua vida: isso foi transferido para o twitter. Aqui ficou apenas aquilo que não pode ser dito num instante. E como aquilo que não pode ser dito num instante também não pode ser pensado num instante, o conteúdo actual da Lâmpada exige tempo. Que é coisa que não abunda.

Mas divago. Este post pretende ser sobre a semana que passou.

Passou a traduzir, naturalmente. O saldo, contudo, foi fraco: só 45 páginas. Estou FARTO, assim mesmo, em maiúsculas, itálico e negrito, de viver rodeado por gente que acha que pode fazer o escarcéu que lhe dá na real gana às horas que muito bem entende, e mais farto ainda das leis deste país serem uma merda que não protege quem precisa de sossego porque trabalhar, para nós, significa usar o cérebro, o que implica concentração e exige noites bem dormidas, o que implica silêncio. Tivesse eu dinheiro, e mudava-me para o campo. Ontem.

Sim, que furar os tímpanos é capaz de ser solução demasiado radical.

Adiante. O wiki subiu para 15 857 páginas, com uma ajudinha dum amigo, o que equivale a 63 novidades. Também não é grande coisa.

Só nas leituras a semana foi igual às outras.

Terminei um romance bastante bom de ficção científica ciberpunk. Snow Crash, de Neal Stephenson, que em português recebeu o disparatadíssimo título de Samurai: Nome de Código. Uma idiotice, este título, capaz de fazer supor o pior da tradução, mas quem culpar o tradutor está a cometer uma tremenda injustiça, pois a tradução, que não é fácil, está muito boa, e tudo indica que o título não foi da responsabilidade do tradutor e sim da editora. Cheguei a essa conclusão sherlockianamente, mas para explicar isto vou falar um pouco do livro.

O romance conta a história de um hacker, Hiro Protagonista, que se vê envolvido numa movimentada trama em que se mistura a vida real passada nuns Estados Unidos pulverizados anarquicamente numa imensidão de minúsculos estados soberanos corporativos, e uma realidade virtual chamada "metaverso", e mete cultos antigos, umas ideias malucas do Stephenson sobre neurolinguística e os paralelismos entre a programação de computadores e a do cérebro. Tudo sustentado por uma súbita infecção de um terrível vírus que infecta tanto computadores como cérebros, a que ele chamou, precisamente, "snow crash". É esta infecção que constitui a linha dorsal do romance, motivo pelo qual o Stephenson escolheu o nome do vírus para título do livro.

Na tradução portuguesa, o tradutor decidiu chamar ao vírus "nevão marado". Assim, a seco, é uma opção discutível, mas perfeitamente compreensível dada a dificuldade de traduzir numa palavra suficientemente ágil o conceito de crash informático (motivo que leva, aliás, toda a gente a dizer coisas como "o computador crashou"). Lendo-se o livro, compreende-se que essa opção joga perfeitamente com todo o estilo do texto. E ao chegar ao fim, se se lerem os agradecimentos, lê-se uma frase que começa com "Para terminar, depois da saída da primeira edição de Nevão Marado [...]", o que indica que foi esse o título escolhido, correctamente, pelo tradutor. Aparentemente, a editora teve medo dum título assim tão iconoclasta. E alterou-o para o absurdo que ficou. Sem alterá-lo onde aparecia no corpo do livro, o que também é típico.

Esquecendo o título português, o livro é muito bom. Bem traduzido, bem concebido e bem concretizado, encontro-lhe apenas dois defeitos: torna-se algo maçudo durante os infodumps que Stephenson usa para explicar as ideias que o levaram a esta história (e as ideias são suficientemente estrambólicas para abalar significativamente a suspensão da descrença), e felizmente que só os introduziu depois de passar de meio, e, bem... ser ciberpunk, um estilo demasiado preso ao presente da época em que é escrito para continuar a funcionar bem enquanto FC alguns anos mais tarde. E Snow Crash foi publicado em 1992, já vai quase para vinte anos. Está demasiado repleto de anos 80.

E também li uns contos, não foi só o romance.

Um Natal há Cem Anos é uma pequena vinheta de José Saramago sobre a desilusão infantil de não se ser levado a sério. A identificação com o miúdo que tenta sem sucesso contar uma história aos adultos foi total. Julgo que algo de semelhante terá acontecido à maioria de nós em crianças. Muito bom.

Ylla, de Ray Bradbury, é um conto sobre o sonho e o ciúme. O Marte bradburiano está cheio de americanos, com algumas diferenças mas muito mais semelhanças com os seus compatriotas terrestres, e esta história é uma das que tornam isso mais evidente. O espantoso é ele conseguir safar-se com isso, graças a uma escrita de altíssima qualidade e a uma forma soberba de contar histórias.

Sete Andares, de Dino Buzzati, é um conto kafkiano que, em jeito de parábola sobre a vida, descreve o modo como um homem é internado com uma doença ligeira num sanatório, organizado por forma a que os casos mais leves fiquem no último dos sete andares e os irremediáveis no primeiro. Apesar de previsível desde as primeiras páginas, não deixa de ser um conto interessante.

Pick my Bones With Whispers, de Sally McBride, é uma óptima história de ficção científica, passada num mundo extraterrestre em estudo por um grupo de exploradores, que constituem uma sociedade isolada em que a generalidade dos membros se transferiu para a virtualidade, abandonando a biologia (mesmo assim transumanística, complementada com implantes cibernéticos e biónicos) excepto no que toca à reprodução. Vemos essa sociedade pelos olhos de uma jovem que vai ser forçada, por forças fora do seu controlo, a fazer o que não quer.

Lembra-se de mim?, de Ray Bradbury, é outra história mainstream sobre o encontro casual de dois americanos, vagamente conhecidos, em Itália. Nada de transcendente, sob todos os aspectos.

Finalmente, O Encontro no Sul, de Michel Jeury, é um conto fronteiriço entre a fantasia, o horror e a ficção científica, no qual um homem se vê compelido a procurar uma mulher que lhe invade o cérebro com um chamamento telepático a que ele não é capaz de resistir. Mas o mundo em que vive é um futuro violentamente distópico, no qual a noite está entregue a um banditismo mais ou menos institucionalizado. De modo que o homem vai encontrar a mulher mas não como estava à espera. Razoável.

E foi isso. Foi uma boa semana no que toca a leituras, mas má sob todos os outros aspectos. Oxalá a próxima seja melhor.