"E se". A questão primordial do meu género literário favorito, e a primeira coisa que um tipo que escreve seja o que for pergunta a si próprio. "E se eu tentasse escrever isto? Conseguiria?" "E se fosse possível condensar estas ideias avulsas numa espécie qualquer de todo, o mais coerente que for capaz?"
Ou "e se eu voltasse a escrever no blogue?"
Afinal, o mastodonte já me saiu de cima, tenho um pouco mais de tempo do que tinha. Já tenho outro mastodonte na rampa de lançamento, mas por agora está mais ou menos amestrado, mais ou menos controlado. Já podia ter cá voltado há algum tempo, e tive vontade de o fazer, mas demorei-me por vários motivos.
Isto, se chegar a ser publicado (e se alguém estiver a ler estas palavras pelos vistos foi), responde à vontade e põe ponto final na demora. Voltei a escrever no blogue, portanto.
A toupeira espreitou da toca. Por uma vez sem exemplo?
E se tentasse publicar qualquer coisa com regularidade? Digamos, dia sim, dia não? Conseguiria? Ou rapidamente se me esgotaria o combustível?
Veremos.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
E se...
sexta-feira, 3 de janeiro de 2025
OK, vamos lá então
Agradeço a ideia, agradeço o gesto, mas devo dizer que não é. O que não me falta é FC para ler. E outras coisas para ler, diga-se. Entre livros em papel e em bits, tenho aqui leitura para mais que o tempo que me resta de vida, e muitos deles são FC.
Dito isto, a mensagem e a oferta tiveram o efeito pretendido. Despertaram-me da modorra. A oferta é uma enorme coleção de "Megapacks", ebooks vendidos pela Wildside Press por uma tuta e meia, com carradas de contos e romances lá dentro (daí o zip de zips, que um ficheiro epub não passa de um zip com ficheiros html — para ser mais preciso, xhtml, mas é basicamente a mesma coisa — lá dentro).
Estive aqui uns tempinhos a decidir o que fazer, que não tenho certezas sobre a legalidade da oferta, e acabei por resolver tratá-la como uma espécie de shareware literário: vou ler os livros e, se gostar, compro-os à Wildside. É 1 dólar cada, afinal; não será por isso que irei à falência.
E também vou fazer o que já tinha aventado como possibilidade: pegar nas coisas cujas opiniões deixei incompletas aqui nos arquivos da Lâmpada, relê-las, completar as opiniões e publicar. Entre uma e outra coisa, e a menos que haja imprevistos (tem havido, mas não há sempre), isto por aqui deverá voltar a mexer no futuro próximo.
Boas notícias? Más notícias? As opiniões divergirão, como sempre acontece...
Até já.
terça-feira, 12 de novembro de 2024
O fim de uma era
Já nem sei há quanto tempo criei conta no twitter, mas foi muito antes de aquilo se transformar no esgoto a céu aberto que é hoje. Tive lá conversas giríssimas, ri, irritei-me, voltei a rir, fiz amigos e conheci gente. Houve lá uma comunidade.
Essa comunidade começou a desfazer-se há anos quando o clima geral começou a tornar-se feio. Houve quem tivesse perdido a pachorra e ido embora, ou simplesmente deixado de publicar. Houve quem tivesse perdido a pachorra e desatado a disparatar. Houve quem tivesse tentado continuar a manter vivo o espírito comunitário, mas sem grande sucesso.
A compra do twitter pelo "fundamentalista da livre expressão" Elon Musk, que hoje (ontem?) baniu o Stephen King por lhe ter chamado First Lady, o que mostra bem o que ele pensa da livre expressão (se és nazi podes exprimir-te livremente, se não és, rua) e também demonstra que não faz a mais pequena ideia de como funciona a dinâmica da internet, a compra do twitter por essa nódoa ambulante, dizia, destruiu o pouco que ainda restava.
Como consequência, eu saí. Até certo ponto.
Havia bem mais de um ano que não punha nada no twitter mas continuava a ir lá porque há contas que seguia, queria continuar a seguir, mas se recusavam a sair.
Isso terminou ontem. O twitter implementou uma alteração aos termos de serviço que diz basicamente que para o usar as pessoas têm de concordar em deixar que os seus dados e aquilo que produziram seja usado para o treino de uma IA. E eu não deixo. Tenho zero confiança que aquela escumalha cumpra as regras e não use os meus dados, quer eu aceite, quer não aceite — não é assim que os fascistas funcionam —, mas se o fizer ao menos não será com a minha cumplicidade.
A conta foi desativada. A conta do bibliowiki, inativa há mais tempo que a minha conta principal, ainda que por outros motivos, também. Tenho pena de perder o contacto, mesmo unidirecional, com aquelas pessoas que queria continuar a seguir (era sobretudo informação), mas paciência. O cano de esgoto em que o twitter se transformou fez-me deixar de participar, a obrigatoriedade de contribuir para o treino de uma IA nazi foi o prego final.
Isto aconteceu ontem. De ontem em diante, qualquer @jorgecandeias que apareça no twitter não serei eu, mesmo que tente fingir ser. De ontem em diante, qualquer @bibliowiki que lá surja nada terá a ver com isto.
O Facebook está como o twitter estava até ontem: mantenho a conta, visito-a ocasionalmente, mas não participo. E é perfeitamente possível que acabem por se sair com alguma que me leve a fazer o mesmo que fiz com o twitter.
Cada vez mais, quem queira contactar comigo nas redes sociais tem uma hipótese: o fediverso. Mastodon, Friendica, o que for, que a grande vantagem dessa rede de redes é todas comunicarem umas com as outras. Ou o Bluesky, onde não estou, não estarei, mas existe uma ponte que o liga ao fediverso. Estou nessa ponte. Se vocês também estiverem, poderemos comunicar.
Mas este post é sobre o twitter. É para dizer que, por aquilo que me diz respeito, o twitter morreu de vez.
quinta-feira, 31 de outubro de 2024
E porque paraste há já quase dois anos?
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| Se a coisa fosse assim tão heroica, teria sido mais interessante. |
As paragens mais recentes deste blogue estão explicadas e são, julgo eu, razoavelmente simples de entender. Giram todas em volta do constante rodopio de trabalho, saúde, saúde, trabalho que faz com que não reste muito tempo ou disponibilidade mental — nos últimos tempos tem sido subretudo esta última — para escrever, seja aqui, seja onde for.
Explicar a paragem de há já quase dois anos, pelo contrário, é tudo menos simples.
Em grande medida porque nem eu a compreendo bem.
E acreditem quando vos digo que passei muito tempo a tentar compreendê-la. Muito tempo mesmo.
Os factos em si não têm grande mistério. Mas os seus porquês são quase só mistério. Ainda hoje. Se fosse simples, este texto não seria tão extenso que achei melhor não espetar com ele integralmente na página principal.
Os factos são: de uma forma que na altura me pareceu ser muito súbita, no início de dezembro de 2022 senti que tinha acabado de chocar com uma parede de pedra bem rija. De repente, deixei de conseguir fazer fosse o que fosse relacionado com o texto escrito. Tentava ler e não parecia conseguir reter nada, vendo-me obrigado a regressar uma e outra e outra vez à mesma linha. Escrever mais que meia dúzia de palavras era um esforço monumental e a minha subjetividade dizia que nada do que escrevia fazia qualquer sentido, ainda que relendo agora o pouco que fui escrevendo nessa altura, a objetividade das coisas desminta essa ideia, pelo menos parcialmente. Era como se estivesse irremediavelmente exausto. Era como se tivesse nascido com uma quantidade limitada de capacidade para lidar com texto, e essa quantidade se tivesse esgotado. Era como se já não houvesse mais nada no meu reservatório interno de palavras.
domingo, 8 de setembro de 2024
E então porque paraste?
A primeira coisa a fazer para regressar mesmo ao blogue, claro, é explicar o motivo da interrupção. Das interrupções, idealmente, mas a verdade é que explicar o porquê da última é bastante mais simples e exige menos texto do que explicar o porquê da anterior, não deixando por isso de necessitar de alguma elaboração para ficar convenientemente explicado, pelo que vai ser só nessa que me vou focar hoje.
À superfície bastariam três palavras para explicar tudo:
Falta de tempo.
Mas como a falta de tempo pode acontecer pelos mais variados motivos a superfície não chega. É insuficiente e insatisfatória. Portanto, vamos lá mais fundo.
Em parte, mas só em parte, o motivo para a falta de tempo é previsível para quem acompanha este blogue há anos e já o viu parado durante meses a fio em outras ocasiões. Já tinha acontecido, quando o trabalho aperta, a Lâmpada apagar-se, ver esgotado o óleo de que se alimenta. E, sim, desta vez também há um pouco disso. Sim, também desta vez tenho tido bastante trabalho. Mas é mais do que isso.
Por um lado, há ainda as consequências do que causou a paragem anterior e de que falarei noutra ocasião.
Por outro, e principalmente, em fevereiro a minha mãe teve um problema de saúde que se foi agravando ao longo de março e princípio de abril, a levou ao hospital, a deixou presa a uma cadeira de rodas e fez com que ela, que até aí tinha limitações mas era autónoma, ficasse inteiramente dependente de mim. Foram uns meses terríveis, principalmente para ela mas também para mim e, apesar das coisas terem vindo a melhorar desde então, muito devagarinho, ainda continuam frequentemente a ser.
Já não tanto, mas...
Já não há gritos e choros de dor, já não há (com frequência) a sensação de impotência absoluta e a falta de espaço mental para fazer seja o que for que não seja preocupar-me com o que não consigo fazer, com o alívio que não consigo dar, mas continuo a ter de fazer tudo o que ela fazia e algumas coisas que nenhum dos dois tínhamos de fazer.
Temo o inverno que se aproxima, temo que as melhoras recentes se devam mais ao clima do que ao tratamento e volte tudo ao mesmo, e isto fica escrito porque não há garantia nenhuma de que depois de voltar ao blogue não volte a desaparecer de um dia para o outro. Se isso acontecer, já saberão porquê.
Na ficção científica aparecem por vezes situações em que as pessoas trocam de corpo quando o velho já não funciona a contento. A minha mãe precisava de um corpo novo. Ou pelo menos de uma coluna nova. E de umas pernas novas.
Mas como a ficção científica é ficção, por mais que a nossa realidade se inspire nela, às vezes, as coisas são o que são e não há como não lidar com elas tal como são.
Tempo para continuar a fazer o que fazia antes da última pausa é que não tenho e não sei se voltarei a ter. Passar a pente fino os feeds à procura de coisas relevantes provavelmente é coisa do passado. Eles, os feeds, continuam cá, e se arranjar tempo e vontade posso sempre voltar a eles um dia. É a magia do RSS. Viva o RSS. Mas não estou a ver grandes possibilidades de isso acontecer, a verdade é essa.
Digamos que é uma possibilidade improvável.
Assim, a Lâmpada vai ficar nos tempos mais próximos com uma periodicidade mais aperiódica do que habitualmente e com posts espaçados no tempo. A menos que resolva acabar uns posts que tenho em rascunho há meses e mais meses, umas opiniões de leitura já tão velhas que teria de ir reler as coisas para me lembrar delas. Veremos.
Para já, ficamos assim. A última pausa está explicada e o futuro esboçado o menos vagamente que me é possível. Por agora chega.
Sigamos viagem.
quarta-feira, 6 de março de 2024
Bosões
Portanto é isso: isto continuará, e vou tentar que seja em breve. Se a tentativa terá sucesso ou não, está no segredo do tempo que ainda não chegou. Pelo menos para mim, enquanto escrevo isto. Talvez já tenha chegado para vocês, que o leem, caso em que sabem mais do que eu.
As crias de Homo sapiens são tão barulhentas que me parece quase um milagre que não tenham sido todas devoradas por leões quando ainda andavam lá pelas savanas de África.
Take five!
(quem sabe, sabe logo o que é... e provavelmente clica logo. Vale a pena)
Acho que é a primeira vez que vejo Portugal listado entre os "maiores países europeus".
O Orelhas é um querido, a chamar "nacionalistas" aos neonazis do Mário Machado e, imagina-se, às suas saudações nazis... perdão... "saudações nacionalistas".
(Isto foi num telejornal a 3 de fevereiro, caso alguém queira ir à procura. Eu não tenho tempo. Nem paciência, admito.)
A minha velhota passa muitas tardes a dormir à frente da televisão, na qual vão passando filmecos cor-de-rosa enquanto ela ressona.
Às vezes basta-me ver o título do filmeco para perceber a história toda.
(E eu que julgava que estes filmecos não prestavam para nada. Afinal servem lindamente de sonífero para velhotas. Sim senhor.)
Portanto... O Bluesky já não é só por convite.
Ótimo! Agora já não vou receber a insistência periódica de pessoas com convites para distribuir, tentando convencer-me a abrir conta.
Não vai acontecer. Nunca.
A única coisa que gostava de perceber é o que raio quer o Bluesky dizer com "federação". Se for uma "federação" com o seu próprio protocolo dentro do seu próprio ecossistema, isso não é federação nenhuma. E eu não quero saber.
Mas se for verdadeira federação, isto é, com o protocolo utilizado pelos serviços do Mastodon, Pixelfed, PeerTube, Friendica, etc., etc., etc., poderá tornar-se interessante.
A questão é: esse protocolo, o ActivityPub é um protocolo aberto. Um standard da W3C como aqueles que nos trouxeram a web aberta (HTTP, HTTPS, entre muitos outros). Se quisessem mesmo federar, em vez de desenvolverem o seu próprio protocolo implementavam o ActivityPub (e ajudavam a desenvolvê-lo) no seu serviço. Caso contrário, estão apenas a tentar encontrar outra forma de controlar o fluxo da especiaria, por assim dizer.
Todos sabemos que a especiaria tem de fluir. Mas como ela flui e quem controla o fluxo é fundamental.
Pois...
(é política)
Desconfio que o Zelensky acabou de cometer o seu maior erro em toda esta coisa. Não tanto por trocar o Zalujny, mas sobretudo por nomear o Sirsky para o lugar dele.
Pelo que tenho lido, esta nomeação vai provocar a maior queda no moral das tropas ucranianas desde que isto começou. O Sirsky é positivamente detestado por boa parte dos combatentes.
(Relido agora, um mês mais tarde, parece não se confirmar que isto foi sério... o que está a correr mal deve-se mais aos agentes do Kremlin no Congresso americano, os fascistas do Trump, do que a substituições no comando ucraniano.)
Também há eclipses em Marte, sabiam?
Ah, e tal, o português é uma língua muito palavrosa.
Inglês:
"Have you seen her?"
Português:
"Viu-a?"
Para mim, um dos momentos mais interessantes no debate entre a Mariana Mortágua e o Rui Tavares foi o fim. Quando ambos se mostraram de acordo no ceticismo quanto ao futuro da NATO (ela com base na Constituição, ele com base na nula fiabilidade dos EUA) e também na necessidade de criar e desenvolver estruturas militares de defesa específicas da União Europeia. O apoio total à Ucrânia foi explícito no caso dela e implícito no dele mas claro em ambos.
Pois.
Boa pergunta, esta que a Al-Jazeera aqui faz.
Bom. Chega por agora, que tenho de ir fazer outras coisas. Continuarei. Um destes dias.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024
Neutrinos
Enfim, adiante.
Vai haver mais do que um destes posts nos próximos dias. Não vou juntar tudo num só, porque o deixaria demasiado grande. Quando ficar em dia, aviso.
94. :)
(Os meus contactos do twitter e do facebook, quando ainda por lá andava, sabem o que é isto: há anos que gabo a juventude da minha velhota publicando uma foto dela no dia dos seus anos, e agora faço-o no mastodon. Foi há quase um mês mas, já agora, aqui fica também).
Na Rússia nazi, agora é o paradeiro do Kara-Murza que é desconhecido. O Navalny reapareceu. Reaparecerá, o Kara-Murza?
(Publicado ainda em janeiro. Reler isto agora é... revelador)
Os runs deste tipo são uma loucura. Uma loucura.
(Já agora, não gosto de nenhuma das traduções de "runs" que conheço em português. Floreados ou adornos não me parece que transmitam bem a ideia. Estará por aí alguém mais sabedor de terminologia musical do que eu que me ensine qualquer coisinha hoje?)
Encontraram o Kara-Murza. Está na solitária por algum delito inventado.
A Rússia nazi continua a não assassinar diretamente os oposicionistas na prisão. Aí, prefere matá-los devagar. Fora da prisão é que as janelas ou os evenenamentos são um perigo constante.
(oh, my sweet summer child...)
Diz-se na tv que a PJ trouxe da Madeira não sei quantas toneladas de "prova digital".
Bolas, que os bits e os bytes lá na Madeira são pesados como o caraças!
Há quem julgue que é só em pidgin nigeriano que a palavra MAGA significa "idiota facilmente enganável". Mas não é só em pidgin nigeriano, malta. Acreditem, que eu sei.
HAHAHAHAHAHAHA! A Índia libertou um pombo suspeito de espionagem. Um pombo!
Alguém viu demasiadas Wacky Races (ou A Mais Louca Corrida do Mundo, por cá)! 😂
OK, deixemos isto hoje nesta nota divertida. Um dia destes continuo.
E, como de costume, isto e muito mais está na minha conta no Mastodon:
sábado, 20 de janeiro de 2024
Grãos de areia
O desleixo, ou a falta de tempo, ou as duas coisas combinadas, deixam a entropia à solta.
A entropia acumula lixo.
Depois, quando o lixo se torna demasiado, é o bom e o bonito para nos vermos livres dele. Dá vontade de deitar tudo (tudo!) fora. Mas isso é como despejar o bebé com a água do banho, e, pior, é a saída mais preguiçosa possível.
Estou a falar do meu computador. Mas também serve para a vida cá fora.
Incluindo a política.
E a geopolítica.
Brasileiros? Ucranianos? Africanos de várias proveniências? Todos os dias. Mas britânicos? Quase nunca.
Na boca de cada português há uma língua portuguesa.
Será impressão minha, ou os anúncios na internet estão-se a tornar cada vez mais sórdidos?
O X-59 é um avião muito esquisito, caneco!
Aprendi duas coisas com o congresso dos cheganos:
1. A melhor maneira de embaraçar um chegano é perguntar-lhe o que pensa.
2. Alguns dos cheganos ainda não receberam o memorando que diz que agora têm de fazer de conta que não são fascistas.
(ou então receberam mas não o sabem ler)
Parecendo que não, esta do Leonardo Cruz também é uma história de ficção científica.
Há algumas coisas no universo que começam bestiais mas depois involuem até à completa patetice.
Como o steampunk.
Há uma coisa que eu não percebo nesta cegarrega da Globalmedia: toda a gente dizer que não sabe quem é dono do grupo.
Eles não são jornalistas?
E de alguns dos títulos mais reputados em Portugal?
E não fará parte das ferramentas de um bom jornalista saber investigar precisamente este tipo de coisa?
Então estão à espera de quê?
E isto vale também para os colegas que têm manifestado solidariedade.
Estão à espera de quê?
Muito gostam as mulheres divorciadas que querem ter aventuras sexuais comigo de me mandar emails, caneco. É quase todos os dias.
(calma... é só spam)
Alguém me chamou a atenção para isto, e eu ri.
Pelos vistos, estou num quiz sobre Timor-Leste. Sim, leram bem. A que propósito? Pft, sei lá!
E o mais giro é que conheço mais dois dos anónimos que também lá estão, um dos quais pessoalmente.
(pergunta 7, se quiserem saber)
Há com cada uma... 😂
Hm...
Quem será o Tom Raider?
🤔
Parece que anda por aí uma múmia muito aborrecida porque a história já começou a reduzi-la à sua intrínseca nulidade.
Estes cadáveres políticos que se julgam vivos, pá. Não há pachorra...
O meu teclado tem um agá pregiçoso. De vez em quando recusa-se a escrever. É um aborrecimento, mas não um aborrecimento muito grande; obriga-me a estar com atenção, mas não assim tanta que se torne mesmo chato. E às vezes saem coisas engraçadas. Como a "umanidade" que saiu agora.
É engraçado porque foi essa a opção tomada pelos italianos: abolir os agás mudos. Daí, umanità, umano, uomo. Em português ficaria umanidade, umano, omem.
Parece que falta qualquer coisa? Sim. Mas funcionaria.
Devo dizer que esta tradução automática está absolutamente impecável.
Outra gira do Leonardo Cruz... esta sem FC, tirando a referência verniana do título.
Mas é gira.
Os fachos passaram décadas a irritar-se quando lhes chamávamos fachos.
Às tantas aparece por aí um partido fascista com alguma capacidade de lhes dar uns tachos. E o que fazem os fachos? Mostram que de facto não são fachos?
Qual quê! Atiram-se para os braços do partido fascista. Alguns cinco dias depois de garantirem que nunca o farão.
Da imprensa: "Spanish singer Julio Iglesias detained at Punta Cana airport for carrying excess food in luggage"
Já não se pode ser um ancião com fome, caneco!
Mariana Mortágua: "Propomos proibir a venda de casas a não-residentes."
Idiota da TV: "Bloco propõe proibir a venda de casas a estrangeiros."
Encontre as diferenças.
No regime nazi de Moscovo, entretanto, criticar o poder pode não só dar prisão como, em breve, confisco de propriedade.
E é isso. Como da última vez, podem encontrar tudo isto e muitas outras coisas na minha conta do Mastodon. É só clicarem no logotipo aqui em baixo.
sábado, 13 de janeiro de 2024
Migalhas
Isto é uma salada. Não sei ainda se vai ser conteúdo normal na Lâmpada daqui para a frente, mas suponho que vamos todos descobrir em conjunto, eu e quem por aí vai chegando. Para já, é uma experiência. E começa aqui.
Não é só em Portugal que se escolhe a palavra do ano (de resto, estas patetices de isto-ou-aquilo do ano nunca são ideias originais nossas, são sempre copiadas de algures). Lá para as américas também o fazem. E a palavra escolhida este ano é, rufo de tambores, enshittification. Tradução? Algo como merdificação, ou assim. Foi cunhada pelo Cory Doctorow, um autor de ficção científica. E o seu significado é razoavelmente óbvio.
E isso diz-vos tudo o que precisam de saber sobre o estado atual da internet. Se bem que a abrangência da palavra ultrapasse em muito a internet.
E já que estamos a falar de Doctorow, isto, dele, tem de ser lido. É sobre um livro, é sobre o espaço, mas é sobretudo sobre tomar decisões informadas e defendermo-nos das tretas. Na condição de leitor de FC de toda a vida e escritor ocasional, tenho de dizer que concordo por inteiro com todos os argumentos que ele aqui faz.
A única coisa de que sinto falta é uma palavrinha ou duas sobre esta ideia que anda por aí de que é possível combater as alterações climáticas acrescentando mais energia ao sistema Terra através do uso de estações orbitais de captação solar. Mas suponho que não podiam falar de todas as tretas.
É que o produto implícito seria bastante diferente...
"YouTube agora permite enviar episódios de podcast via RSS"
OK, decididamente estou a gostar desta ressurgência do RSS.
Venham mais!
Como sabem (e se não sabiam sabem agora), estou a dar volta aos velhos artigos que se foram acumulando no meu leitor de RSS, para aquela coisa de Algol-7. E como efeito secundário, tenho andado a ler (e a gostar) as crónicas do Leonardo Cruz na Comunidade Cultura e Arte. Como esta, por exemplo.
E isto é tão, tão, TÃO bom!
Brasileiras e portuguesa a cantar em inglês e português (com ambos os sotaques).
Andava desconfiado de que as enormes subidas nas pageviews da Lâmpada Mágica nos últimos anos tinham a ver com o treino de LLMs.
Vai daí perguntei ao ChatGPT e ao Bard o que eram Leiturtugas. Se andaram a cheirar por aqui deviam saber essa, certo?
Bem... continuo desconfiado.
Mas o ChatGPT disse que não conhecia a palavra, e o Bard inventou que era uma "expressão típica portuguesa" para designar gente que "lê devagar". São sempre tão fidedignos, não são?
OK, eles não sabem.
Mas cá eu continuo desconfiado.
Dado o número de pessoas que anda a cair de janelas nos últimos tempos, a Federação Russa decidiu mudar de nome para Defenestração Russa.
Por favor, respeitem a decisão deles.
(e esta fica melhor em inglês... *suspiro*)
Fascistas em congresso.
Fascista em discurso direto: "eu aprendi a ser obediente a quem manda".
Se alguém ainda tinha alguma dúvida...
Raio de mania que as canecas arranjaram agora de se fazer em fanicos lá porque caíram ao chão. Drama queens do caraças.
E pronto, assim se conclui a experiência. Caso não passe disso, uma experiência, têm tudo isto e muito mais na minha conta no Mastodon. É passarem por lá.
Caso passe de experiência, cá nos voltaremos a encontrar um dia destes.
quinta-feira, 14 de dezembro de 2023
Interruptores? Não: injeções
Podia estar mais bem distribuída, convenhamos, no que de resto está longe de estar sozinha. Há carradas de coisas por aí que podiam e deviam estar mais bem distribuídas.
Mas é o que temos, e é com o que temos que temos de lidar.
Com a catadupa de vida que me caiu em cima agora — e logo agora, raios partam! — tenho lidado pondo algumas coisas em espera. Mas hoje tive uma abertazinha, portanto vamos lá despachar um bocadinho do expediente.
Lembram-se de A Injeção Financeira? Uma microficção cuja vida começou aqui mesmo na Lâmpada ainda nos tempos da ortografia antiga e depois se pôs a passear por outros lados já no tempo da nova? Pois agora não se limitou a mudar de ortografia; mudou de língua. Mudou de língua, para castelhano, e vestiu-se de Una Inyección Financiera. E foi publicada na Argentina (ou melhor: na web argentina), num apanhado de microficções que inclui não só um dos primeiros autores que traduzi, ainda amadoríssimo no ofício de pôr em português textos estrangeiros, mas outros dois lusófonos, um português e uma brasileira. O meu antigo traduzido é o Frank Roger, holandês (aliás, uma das histórias que traduzi nessa altura foi o conto que dá título a este livro dele, curiosamente). O português é o inevitável João Ventura. E a brasileira a Ana Cristina Rodrigues. E há mais uma porção de gente, alguma da qual conheço pelo menos de nome (o Gareth D. Jones, o Oscar de los Ríos, o Federico Schaffler, o José Luís Zárate, o Sergio Gaut vel Hartman), a maioria que me é desconhecida. O que não surpreende: a maioria são autores de língua espanhola, e já se passaram muitos anos desde que andei a passar os olhos por aquilo que se ia fazendo na língua hermana.
E era isso o que vos queria dizer hoje. Hasta luego, pues.
domingo, 3 de dezembro de 2023
Regresso
A Lâmpada foi durante muitos anos um blogue de opiniões literárias, basicamente. Nunca o foi em exclusivo, mas foi-o em grande medida durante boa parte da sua existência. Foi isso o que fez com que mantivesse a regularidade da publicação, exceto durante os períodos, mais ou menos extensos, em que esteve de pausa, voltando ao que era quando essas pausas terminavam.
Mas esta foi diferente das outras, e os motivos que levam ao seu fim também, pelo que algumas mudanças serão inevitáveis. Darei conta delas em breve, ou talvez nem dê, talvez me limite a torná-las evidentes. Não sei. Veremos.
Mas não se vai transformar numa coisa completamente diferente. O que foi até aqui continuará a ser, mesmo que em moldes um tanto ou quanto diferentes. Até porque quando interrompi a publicação ficaram carradas de posts incompletos, em rascunho, que vou querer transformar em conteúdo. Veremos se todos, mas pelo menos a maioria.
E era isso o que vos queria dizer hoje. Está dito, siga o caminho. Cá nos encontraremos em breve.
segunda-feira, 19 de abril de 2021
E ainda dizem que ninguém dá valor à ficção científica portuguesa!
Duvida? Então siga o link. Não tem nada que enganar.
E fica aqui a prova, em imagem. Para mais tarde recordar.
(E não, não tenho rigorosamente nada a ver com isto, caso estejam com dúvidas. E se alguém decidir mesmo desembolsar os benditos 3,33 dólares por página nem um cêntimo me virá parar ao bolso. O mundo é injusto, não é?)
E ainda dizem que ninguém dá valor à ficção científica portuguesa!
Obrigado ao Roberto Mendes pelo toque e pela gargalhada.
sábado, 24 de outubro de 2020
O dito ponto
Enfim. Veremos.
quarta-feira, 15 de julho de 2020
Porque é que eu faço isto?
O fim do Ficção Científica Literária, devido aos motivos que a ele levaram, levou-me a colocar muito seriamente a hipótese de este blogue a que no já longínquo ano de 2003 decidi dar o nome de A Lâmpada Mágica chegar também ao fim. E isso levou-me a analisar os motivos por que faço isto. Por que motivo o mantive durante todos estes anos, porque é ele como é e se se perderia alguma coisa se ele desaparecesse.
A Lâmpada nunca foi um blogue literário em sentido estrito, pois sempre cá fui publicando outras coisas que não têm diretamente a ver com a literatura. A última foi uma denúncia do comportamento do Facebook, por exemplo. Mas é sobretudo um blogue literário, e é-o praticamente desde o início, em boa medida porque a minha vida gira em torno da literatura. A leitura sempre fez parte importante dos meus tempos livres, escrevo desde a adolescência, ainda que com uns hiatos pelo meio, e poucos anos depois de começar a escrever aqui encetei uma carreira de tradutor que dura até hoje e durará muitos mais anos, se covid quiser.
Também nunca foi propriamente um blogue popular, apesar de o número de visualizações ter vindo sempre a crescer ao longo dos anos. E também é natural: as minhas preferências literárias, e por conseguinte as minhas leituras, são em boa parte de nicho, e há muita gente que prefere não ler opiniões sobre histórias que pode vir ainda a ler um dia, ou que não tem, pura e simplesmente, interesse em ler opiniões, quer haja a possibilidade de vir a ler as histórias, quer não haja. Ou seja: a Lâmpada tem o seu público, que talvez lhe sentisse a falta se desaparecesse, mas esse público é tão pequeno que no grande esquema das coisas o blogue estar cá ou não estar pouco importa.
Ou seja: para o mundo exterior, a existência da Lâmpada pouco importa. Podia desaparecer sem deixar rasto e nada realmente mudaria. E para mim?
Ao longo dos anos escrevi na Lâmpada por motivos variados. A princípio foi para ver o que raio era isso dos blogues de que toda a gente falava, mas depressa encontrei aqui um veículo para dar vazão a alguma criatividade. Mais tarde, as motivações mudaram e o conteúdo também, e ao longo dos últimos anos este blogue tem-me servido sobretudo como registo de leituras. E disso sim, se acabasse eu sentiria a falta. Porque fui descobrindo à medida que escrevia sobre o que lia que escrever uma opinião, mesmo que sumária, me obriga a pensar mais sobre o que vai sendo lido, o que enriquece a experiência. Acontece com alguma frequência eu só decidir mesmo o que penso sobre este texto ou aquele quando estou a escrever a opinião sobre ele, e por vezes há detalhes que me incomodam, que me desagradam ou de que gosto, que logo após a leitura ficam como meras sensações difusas e só se concretizam quando me sento aqui a escrever. Também é por isso que as opiniões que aqui deixo não são propriamente as coisas mais estruturadas que poderão ler sobre as obras que leio: quem aqui vem ler estes textos vem ver-me pensar. É isso o que aqui faço: pensar um pouco em forma escrita.
(Isto, já agora, e diga-se em jeito de parêntesis, torna muito estranho para mim que este blogue seja usado como fonte primária para trabalhos académicos, como já aconteceu umas quantas vezes. Isto não é crítica propriamente dita, ainda que eu perceba que a fronteira seja difícil de traçar.)
Também há nisto um certo grau de ativismo, baseado na ideia de que informar o mundo do que obtemos das leituras, tanto das que nos agradam mais como daquelas que nos são mais indiferentes, partilhar a paixão mesmo quando esta é pouco correspondida, pode ser uma forma de despertar interesse em outros, ou pelo menos de afastar neles ideias simplistas e às vezes simplórias sobre os motivos porque gostamos do que gostamos ou não gostamos do que não gostamos. Mesmo quando o mundo em geral se está nas tintas, e está, há sempre a esperança de que uma pequeníssima parte dele não esteja e acabe por compreender. E reparem que neste parágrafo usei quase sempre o plural: é que esta parte da questão é coletiva, pois nenhum de nós, os que lemos e comentamos o que lemos, é dono da verdade, seremos no máximo apenas donos da nossa verdade, e a verdade completa só se obtém quando somos muitos a exprimir a porção dela que nos cabe. Que sejamos tão poucos a fazê-lo é um problema, e o mais importante motivo externo para eu continuar a fazer isto é precisamente contribuir para não passarem a ser ainda menos.
Durante uns anos, e não foram tão poucos como isso, manter o blogue também me permitiu escrever material original, mesmo sendo este quase sempre outras coisas que não a ficção, o que me foi muito útil para desenjoar das traduções com que ganho a vida. Sim, ambas as coisas consistem em trabalhar o texto e a língua, mas a tradução e a produção de material novo correspondem a estados mentais muito diferentes. Traduzir é uma busca constante pela melhor forma de exprimir ideias alheias na minha língua; há aí criatividade mas é uma criatividade fundamentalmente diferente de produzir material original, seja ele qual for, que é um ato de criação absoluta, não só linguística mas também conceptual. E durante vários anos os meus únicos atos deste tipo de criação aconteceram aqui na Lâmpada. Ou quase os únicos.
Ora, se é verdade que de há coisa de ano e meio a esta parte tenho escrito bastante ficção, o que faz com que a criação que faço no blogue perca importância, nada garante que ele não venha um dia a ser necessário para retomar essa função. A vida dá muitas voltas, como é sabido e a pandemia se encarregou de relembrar.
O que de tudo isto se pode retirar é que a Lâmpada é fundamentalmente diferente de outros blogues que eu tenho tido, e até de outros projetos fora da blogosfera. Embora seja algo aberto ao exterior, não é algo que eu faça primordialmente para fora. É algo que faço principalmente para mim, porque me é útil a mim. Ter ou não público pouca diferença faz, o que me torna imune àquela desmotivação típica do blogger que vê a quantidade de visitas a baixar ou a não subir tanto quanto gostaria, e explica em grande medida a longevidade deste espaço, com hiatos e tudo. E também torna a Lâmpada imune a sabotagens por parte dos génios que acham boa ideia "modernizar" o Blogger tornando-o mais difícil e demorado de utilizar.
Portanto sim, a Lâmpada há de acabar um dia, porque quem a faz não é eterno, mas para já não vai a lado nenhum. Ou talvez feche aqui e reabra noutro lado qualquer, se o Blogger me moer mesmo muito o juízo. Mas vai andar por aí. É-me demasiado útil para acabar com ela.
sábado, 20 de junho de 2020
O facebook e a censura
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| «Ze ultra-right groupz muscht have freedom auf expressiohn, aba boobz und sarcazm are schtricktly verbotten!» |
Todos os dias, todas as horas, arriscar-me-ia mesmo a dizer todos os minutos, o lixo xenófobo e racista, as notícias falsas mais ou menos caluniosas, os memes mentirosos, são publicados e distribuídos sem qualquer travão. Páginas universalmente reconhecidas como propagadoras desse tipo de lixo mantêm a sua atividade há anos sem percalços. Denúncias caem sistematicamente em saco roto; o facebook não vê nelas nada de errado. Quem as procurar facilmente as encontra; há listas delas, feitas por jornalistas que investigaram esse género de propaganda fascista e as suas ligações e financiamentos. Está tudo no facebook, tão à vontade como se estivesse numa esplanada dos tempos pré-covid.
E não estou aqui a falar dos idiotas úteis que repetem estas coisas, sempre indignadíssimos e a espumar pela boca. Estou a falar de operações de propaganda de extrema-direita friamente calculadas, devidamente financiadas, a operar livremente no facebook enquanto este olha para o outro lado.
Mas para que lado, ao certo? E porquê?
Quanto ao lado, posso contar uma historinha que se passou comigo. Foi-se desenvolvendo durante anos mas teve um primeiro desenlace há umas semanas.
Começou com esta imagem:
Esta fotografia é um documento histórico. Parte de uma série de três (julgo eu), representa Mário Soares, então Presidente da República Portuguesa, a sua mulher, Maria Barroso, e uma banhista em topless que o casal encontrou na praia e com quem trocou umas palavras. Foi tirada pelo fotógrafo que acompanhava o presidente, portanto com pleno conhecimento e consentimento de todos os envolvidos, veio publicada na imprensa e é um documento histórico porque é das imagens mais eficazes que conheço a retratar um estilo descontraído de presidência e uma época. O conteúdo sexual é rigorosamente igual a zero. E apesar de tudo isto...
... o facebook baniu-a.
Porque, que horror, tem mamas!
Sim, que no reino do facebook o discurso de ódio tem rédea livre mas ai de quem publique alguma foto com (glup!) mamas! E assim se apaga a história. E assim se apaga a cultura de povos inteiros que não têm os provincianos pudores puritanos dos americanos, numa atitude não só desrespeitosa, não só profundamente sexista (os homens podem aparecer seminus à vontade, as mulheres têm de se tapar) como profundamente racista. E não estou a ser hiperbólico: um amigo meu, angolano, teve problemas com o facebook por partilhar imagens de uma cerimónia tradicional do seu povo. É schtricktly verbotten, ja. Nada de mamas, sem apelo nem agravo!
Depois, foi esta imagem:
Foi tirada por mim, no Festival Bang, porque me divertiu encontrar aquele orc a caminho da casa de banho. E é óbvio para qualquer pessoa que pelo menos tenha visto alguma propaganda dos filmes do Senhor dos Anéis ou do Hobbit que se trata de um orc.
Tendo achado piada à ideia (foi coisa da organização do Festival Bang, certamente), resolvi pô-la nas redes sociais com uma legenda que lhe acrescentava um bocadinho mais de ironia, fazendo referência a uma canção do Miguel Araújo que na altura passava por tudo quanto era rádio, «Os Maridos das Outras»
Eh pá, tá certo que toda a gente sabe que os homens são uns animais, mas isto é um exagero!O facebook não gostou. Baniu-me a foto com o argumento de que violava as regras referentes ao discurso de ódio.
E eu fiquei absolutamente boquiaberto. Que raio tem uma foto de uma piada com um orc e uma casa de banho a ver com discurso de ódio?! Ou uma outra piada relativa a uma canção?! Especialmente quando o mais puro ódio xenófobo, racista e sexista é destilado todos os dias nas páginas do facebook, com a mais absoluta complacência de quem as gere?
Depois de meses a lembrar-me de vez em quando desta coisa sem sentido e a pensar no que poderia tê-la causado, cheguei a uma tentativa de explicação, mas o grau de racismo por parte do facebook necessário para que seja verdadeira é tão gigantesco que não quero crer na sua veracidade. A única explicação que me ocorreu foi algum racista empedernido, lá nas catacumbas do facebook, ter achado que o orc era um negro. O que seria... sei lá. Imbecil? Nojento? Asqueroso?
Fiquemo-nos por inqualificável.
A última foi esta:
Trata-se de uma publicação da Manuela d'Ávila, ex-candidata a vice-presidente do Brasil, na qual ela chama ironicamente a atenção para o caráter arianíssimo das criancinhas que o governo neonazi do Bolsonaro escolheu para um cartaz de exaltação do orgulho patriótico. Se num país europeu isto já seria racista, num país como o Brasil, feito de miscigenações múltiplas, tanto voluntárias como forçadas, rebenta a escala do racismo.
Cometi a imprudência de usar de sarcasmo, chamando nazi ao que é nazi com uma citação do hino nazi. Suponho que seja por isso que o facebook voltou a banir a foto, de novo sob o argumento de que era discurso de ódio. Na verdade é precisamente o inverso de discurso de ódio, mas para o compreender é forçoso que exista um cérebro funcional, e isso talvez seja pedir demasiado lá por aquelas bandas.
De modo que o facebook me baniu durante 24 horas e me impôs mais umas quantas limitações, supostamente porque eu atingi as 5 violações aos termos e condições. Contaram-nas? São três, não são? Pois, também me parece que são três. Mas eles teimam que são cinco, e pode-se contestar à vontade que de nada serve. Ou há algum bug no programa, o que não é de excluir, ou então estamos no reino da mais absoluta arbitrariedade, um reino surrealista em que se chama discurso de ódio ao que é o oposto e em que cinco é três e três é cinco. Como no 1984 do Orwell, guerra é paz.
E entretanto, os verdadeiros grupos de ódio continuam a destilá-lo com total impunidade. Provavelmente porque guerra é paz. O verdadeiro racismo continua a ser destilado completamente à vontade, com raríssimas e muito publicitadas exceções, para se mostrar que se faz alguma coisa. Só para testar as águas, enquanto escrevia este texto resolvi denunciar uma publicação clarissimamente racista. Um indivíduo, num grupo que não é de fascistas e racistas, mas onde fascistas e racistas costumam sentir-se à vontade, achou por bem divulgar um vídeo de um negro a partir coisas, sabe-se lá feito onde e quando, com o ternurento comentário de "a culpa é dos brancos porque os foram tirar da selva". Denunciei este asco, e o facebook foi lesto a dizer-me que não via aqui mal algum. E como este existem aos milhares.
Mas mamas? Piadas? Sarcasmo antifascista? É proibido. Porque guerra é paz.
Ou se calhar porque o negócio do facebook, uma empresa que não paga impostos, com lucros milionários ganhos com base na venda de dados dos utilizadores, depende da promoção do fascismo na rede porque são os fascistas que lhe compram os dados. Isso foi óbvio no caso da Cambridge Analytica, talvez demasiado óbvio, mas só alguém muito ingénuo pensará que esse caso serviu de emenda para alguma coisa. Terá, quando muito, avisado os tubarões para serem menos óbvios, mas mais do que isso? Nem pouco mais ou menos.
O facebook devia ser destruído. Pura e simplesmente. No seu lugar devia criar-se uma rede de redes sem monopólios, intermodal e interligada, cuja infraestrutura fosse gerida por alguma associação sem fins lucrativos, constituída mais ou menos nos moldes do W3C. Uma rede a que uma série de pequenas e médias redes sociais pudessem ligar-se, permitindo a cada utilizador escolher a que prefere sem por isso perder o acesso aos seus amigos que prefiram outras.
Há empresas que são too large to fail, segundo parece. O facebook é too large to exist.
E demasiado facho, também.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
O meu pai tem novo livro
Morreu em 2011, aos 75 anos, graças a quilos de cigarros e às consequências que eles tiveram. Deixou por cá a família, uma série de publicações (poemas, sim, mas também contos e crónicas) dispersas por jornais, revistas e uma ou outra antologia e dois livros de poemas. Fininhos, como era norma no seu tempo e em grande medida continua a ser ainda hoje.
Agora saiu o terceiro.
Não começou com um telefonema mas, pela parte que me toca, foi assim que começou. Que conheciam a poesia do meu pai e gostavam muito dela, que era uma pena que poucos a conhecessem hoje em dia porque já há décadas anda fora de mercado, se eu estaria de acordo que se publicasse um livro novo com os poemas dele, e por aí fora.
E eu, sem saber bem o que ele diria (tanto podia recusar como ficar contente e dizer que sim), e sem lhe poder perguntar, aceitei. E ao aceitar passei a ter um problema.
É que me queriam envolvido. Queriam-me a colaborar na escolha dos poemas, no delinear da edição, nessas coisas miúdas de que são feitos os livros. Só que eu, como quem costuma ler o que vou pondo aqui já está farto de saber, me tenho na conta de um gajo que pouco percebe de poesia. Escolher poemas? Que sei eu sobre poemas para poder escolhê-los? Especialmente inéditos e dispersos?
E depois apareceram outros problemas. Falta de tempo, emails perdidos, um arquivo paterno muito mal organizado, onde estão poemas dispersos publicados em vários sítios mas quase sempre sem qualquer indicação de onde e quando, e etc., e etc., e etc. Com tudo isso, o tempo foi-se arrastando e por fim acabou por ficar decidido que para a publicação avançar teria de ser reduzida a uma compilação dos dois livros publicados em vida.
E a um prefácio.
Escrito por mim.
Mas têm a certeza? Eu pouco percebo de poesia, e patati, e patata. Que sim, que sim, escreva lá isso.
E eu suspirei, escrevi, apaguei, voltei a escrever, voltei a apagar, reescrevi. Por fim, lá saiu qualquer coisa razoável. E por fim o livro saiu. Não sou daqui: eu vim num dorso de vaga, o título, é também um verso de um dos poemas (e não, não fui eu que o escolhi). Candeias Nunes, o autor, veio mais tarde a assinar também como António Candeias, mas coisas diferentes, possivelmente mais conhecidas por quem frequenta este blogue. Douda Correria, a editora, está presente na internet aqui, e a página relativa ao livro, onde se encontra um link para contactos e pedidos, é esta.
E assim, quase nove anos depois de nos ter deixado e uns sessenta depois de ter escrito estes versos, o meu velhote volta a poder ser lido por quem tiver curiosidade.
É a magia da palavra escrita.
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Mais um pouco de feira do livro
O chato é que vi pelo menos mais um que também chamou por mim com uma canção de sereia e só lá ficou porque já tinha estes dois na mão e... enfim... quando começam a pesar muito começo a sentir-lhes o peso na carteira. A feira fecha na sexta. Tenho poucos dias para decidir se ainda lá vou mais uma vez ou não.
Indecisões...
Bibliomanias...
Desta feita só vieram para casa livros da Relógio d'Água, talvez a editora profissional que — a par da Saída de Emergência — melhor trabalho tem vindo a fazer recentemente no campo da ficção científica, o que não deixa de ser algo surpreendente em vista do seu historial. Agradavelmente surpreendente, sublinhe-se.
Relatório Minoritário e Outros Contos não era livro que eu tivesse assim muita curiosidade por ler, porque já conheço a maior parte destas histórias. Mas lá está: é Philip K. Dick e eu pelo-me por contos, portanto não resisti.
Já a Quinta Estação, por outro lado, é um dos vários livros publicados recentemente em Portugal que me despertaram muita curiosidade e que mais tarde ou mais cedo hão de encontrar o caminho até à minha biblioteca (e acabar por ser lidos, se não me der alguma solipampa antes de ter oportunidade). Este foi agora; o da Carmen Maria Machado foi há dias. Os outros virão a seu tempo. N. K. Jemisin, de resto, acabou de ganhar o seu terceiro Hugo consecutivo de melhor romance, o que acontece pela primeira vez na história do prémio. Ela tornou-se, como se reza o cliché, incontornável, entrando na categoria dos autores que há que ler pelo menos uma vez na vida. O meio caminho está andado: o livro já cá cante. Veremos quando será percorrido o resto.
domingo, 12 de agosto de 2018
Feira do livro
Todos os anos lá vou, normalmente mais que uma vez, e este ano já aproveitei uma noite bem quente para lá dar um salto. Voltei para casa com os três livros novos que estão ali na foto.
De Carmen Maria Machado já tinha lido três contos, um dos quais faz parte desta edição portuguesa de O Corpo Dela e Outras Partes. E como tinha gostado muito, assim que soube que este livro iria ser lançado arrebitei logo as orelhas. É raro, muito raro mesmo, eu comprar um livro tão pouco tempo depois de sair — geralmente espero que passe o hype — o que vos deve dar uma ideia da expetativa com que encaro este.
De Cormac McCarthy nunca li nada, o que de resto foi aqui há meses tema de conversa facebookiana entre mim e um outro Jorge (que naquela altura também ainda não tinha lido nada dele) a propósito de um outro livro. Ambos concordámos que tínhamos curiosidade, mas que o primeiro livro que leríamos seria muito provavelmente A Estrada. E cá está ela, A Estrada, pronta para ser lida.
Quanto a Dan Simmons, já li A Canção de Kali e gostei o suficiente para o incluir na listinha de melhores livros do ano de 2011 (não, o livro não é de 2011; eu é que o li em 2011). Ando há vários anos vai não vai para comprar este Hyperion porque se por um lado tenho ótima impressão do autor e o livro até foi premiado com um Hugo, pelo outro a space opera deixa-me sempre um bom bocado de pé atrás, apesar de por vezes ter boas surpresas com ela. Mas agora não resisti e lá veio o livro para casa. Este não tem edição portuguesa, e se calhar nunca terá.
É provável que ainda volte à feira do livro, que lá ficará até dia 24, até porque vi mais um ou dois livros que estiveram também quase a vir e sou capaz de não resistir à tentação de os ir buscar. Mas para já o saque é prometedor.
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
Ponto
Mas a tradução vai correndo bastante bem e estou bastante adiantado em relação aos prazos. Não é caso para abrandar muito, no entanto: eu tenho de me adiantar aos prazos dos dois primeiros livros para conseguir cumprir o terceiro; de contrário é completamente impossível. Mas sim, está por dias... dois ou três. Depois segue-se a revisão, que me vai dar muito mais trabalho do que é hábito, cá por uns porquês, e depois mergulho no segundo dos três.
Entretanto, mesmo não podendo abrandar muito, provavelmente poderei abrandar um bocadinho, em especial durante a revisão (sempre foi atividade que me cansa a cabeça muito depressa e tenho de fazer pausas frequentes para conseguir manter a concentração), o que significa que deverá recomeçar a aparecer por aqui um post ou outro dentro de alguns dias. Não serão diários ou quase, como é hábito quando estou mais desafogado; serão mais espaçados. Mas serão.
terça-feira, 26 de junho de 2018
Ponto da situação
É que estou mais ou menos como este tipo verde aqui ao lado.
Nos últimos tempos tenho tido uma tradução em mãos, que não só tem sido particularmente exigente (sabem que mais? Detesto quando as personagens dos livros que traduzo resolvem embarcar. Detesto de detestamento detestado.) como tem sido feita a um ritmo um pouco mais acelerado do que poderia ser porque eu pretendia tirar uns diazitos de férias antes de deitar mãos à próxima, cuja data de entrega estava estabelecida para outubro. Essa exigência, por um lado, e o adiantar de serviço pelo outro foram os principais motivos para ter deixado alguns dos meus projetos um pouco ao abandono, ainda que não tenham sido os únicos.
Mas ainda bem que fui adiantando serviço: é que de repente em vez de ter um livro para traduzir até outubro tenho três para traduzir até fevereiro.
Ou seja, estou cheio de trabalho, e vou continuar a estar nos próximos meses. Por um lado é ótimo: antes ter trabalho a mais que trabalho a menos (na vida de um freelancer as ocasiões em que temos precisamente a quantidade certa de trabalho não são muito frequentes; é um dos maiores problemas desta forma de ganhar a vida). Por outro, no entanto, isso leva ao congelamento de uma série de atividades não essenciais.
Ou seja: aqui a Lâmpada tem sofrido e deverá continuar a sofrer. Tenho uns quantos contos lidos à espera de opiniões, mais de 10 livros e periódicos idem aspas, e é bastante provável que não consiga escrevê-las tão cedo. Depende sobretudo da rapidez com que o próximo livro se deixe traduzir, a qual só conhecerei quando começar efetivamente o trabalho. Está por dias, que estou a acabar a revisão do que tenho em mãos. Felizmente (em certo sentido) pouco tenho lido nos últimos tempos além do material que tenho para traduzir, e portanto a lista de opiniões pendentes pouco cresce.
Daqueles posts com informações sobre os outros autores aceites na antologia Nanocuentos del Planeta Tierra (como este), então, nem se fala: não vou ter mesmo tempo para eles. Felizmente (de novo, em certo sentido) há grandes atrasos com a tradução de textos produzidos em algumas das línguas mais exóticas, e tudo tem sofrido adiamentos sucessivos por causa desses atrasos. E sim, também as mudanças relacionadas direta ou indiretamente com a criação da página Meus Livros, que não, ainda não acabaram, estão em banho-maria.
De igual modo, o Bibliowiki deverá continuar parado nos tempos mais próximos. Talvez haja alguns dias em que consiga ir introduzindo lá algum material, mas duvido.
Idem para a minha escrita de ficção. Tencionava descongelá-la este ano, e no inverno ainda escrevi dois ou três contos muito curtos e uns parágrafos de uma novela que continua incompleta, mas tudo indica que ainda não será desta. Isto apesar de ter voltado a apresentar textos a antologias...
(e há também um projeto de edição a que não tenho conseguido dedicar tempo quase nenhum... isto é, há se o editor ainda não se chateou de vez com os atrasos; se calhar já não há.)
A única coisa que pretendo manter realmente ativa é o Ficção Científica Literária. Interrupções no FCL geram muito rapidamente uma enorme acumulação de material por tratar, o que não convém nada. Mas mesmo isso poderá sofrer interrupções, se por acaso as necessidades no trabalho que paga o exigirem.
Em suma: tudo indica que me vão ver pouco por aqui nos próximos tempos.
Já agora, haveria interesse em pontos da situação periódicos? Coisas parecidas com esta? Digamos, uma vez por mês, ou assim? Isso talvez se arranjasse mais facilmente; afinal, é bem mais simples e rápido escrever um texto descritivo do que um texto opinativo, que exige reflexão. Digam coisas. Aqui, no twitter, no facebook, cara a cara, como vos der mais jeito.



























