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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Mais um pouco de feira do livro

Aproveitando uma noite magnífica, daquelas em que não dá mesmo para fazer mais nada além de sair para a rua e desfrutar dela, voltei realmente a dar um salto à feira do livro e, inevitavelmente, voltei para casa com mais dois.

O chato é que vi pelo menos mais um que também chamou por mim com uma canção de sereia e só lá ficou porque já tinha estes dois na mão e... enfim... quando começam a pesar muito começo a sentir-lhes o peso na carteira. A feira fecha na sexta. Tenho poucos dias para decidir se ainda lá vou mais uma vez ou não.

Indecisões...

Bibliomanias...

Desta feita só vieram para casa livros da Relógio d'Água, talvez a editora profissional que — a par da Saída de Emergência — melhor trabalho tem vindo a fazer recentemente no campo da ficção científica, o que não deixa de ser algo surpreendente em vista do seu historial. Agradavelmente surpreendente, sublinhe-se.

Relatório Minoritário e Outros Contos não era livro que eu tivesse assim muita curiosidade por ler, porque já conheço a maior parte destas histórias. Mas lá está: é Philip K. Dick e eu pelo-me por contos, portanto não resisti.

Já a Quinta Estação, por outro lado, é um dos vários livros publicados recentemente em Portugal que me despertaram muita curiosidade e que mais tarde ou mais cedo hão de encontrar o caminho até à minha biblioteca (e acabar por ser lidos, se não me der alguma solipampa antes de ter oportunidade). Este foi agora; o da Carmen Maria Machado foi há dias. Os outros virão a seu tempo. N. K. Jemisin, de resto, acabou de ganhar o seu terceiro Hugo consecutivo de melhor romance, o que acontece pela primeira vez na história do prémio. Ela tornou-se, como se reza o cliché, incontornável, entrando na categoria dos autores que há que ler pelo menos uma vez na vida. O meio caminho está andado: o livro já cá cante. Veremos quando será percorrido o resto.

domingo, 12 de agosto de 2018

Feira do livro

Embora seja só a de Lisboa (e, vá, a do Porto) que faz parangonas, a realidade é que existem feiras do livro um pouco por todo o lado, umas maiores outras mais pequenas. A de Portimão tem fama de ser uma das maiores, pelo menos em volume de vendas, aproveitando para isso o bom tempo estival mas sobretudo a invasão de turistas na cidade que acontece todos os agostos, estratégia em que de resto está acompanhada por todas as outras feiras do livro do Algarve (são talvez umas dez, todas a decorrer mais ou menos ao mesmo tempo).

Todos os anos lá vou, normalmente mais que uma vez, e este ano já aproveitei uma noite bem quente para lá dar um salto. Voltei para casa com os três livros novos que estão ali na foto.

De Carmen Maria Machado já tinha lido três contos, um dos quais faz parte desta edição portuguesa de O Corpo Dela e Outras Partes. E como tinha gostado muito, assim que soube que este livro iria ser lançado arrebitei logo as orelhas. É raro, muito raro mesmo, eu comprar um livro tão pouco tempo depois de sair — geralmente espero que passe o hype — o que vos deve dar uma ideia da expetativa com que encaro este.

De Cormac McCarthy nunca li nada, o que de resto foi aqui há meses tema de conversa facebookiana entre mim e um outro Jorge (que naquela altura também ainda não tinha lido nada dele) a propósito de um outro livro. Ambos concordámos que tínhamos curiosidade, mas que o primeiro livro que leríamos seria muito provavelmente A Estrada. E cá está ela, A Estrada, pronta para ser lida.

Quanto a Dan Simmons, já li A Canção de Kali e gostei o suficiente para o incluir na listinha de melhores livros do ano de 2011 (não, o livro não é de 2011; eu é que o li em 2011). Ando há vários anos vai não vai para comprar este Hyperion porque se por um lado tenho ótima impressão do autor e o livro até foi premiado com um Hugo, pelo outro a space opera deixa-me sempre um bom bocado de pé atrás, apesar de por vezes ter boas surpresas com ela. Mas agora não resisti e lá veio o livro para casa. Este não tem edição portuguesa, e se calhar nunca terá.

É provável que ainda volte à feira do livro, que lá ficará até dia 24, até porque vi mais um ou dois livros que estiveram também quase a vir e sou capaz de não resistir à tentação de os ir buscar. Mas para já o saque é prometedor.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Ponto

Este é mais rápido que o último, que não há muito a dizer, pois tudo correu basicamente como previ nele: passei este mês e picos a trabalhar na tradução do primeiro dos três livros que tenho para traduzir até fevereiro e a fazer muito poucas coisas além disso. O resultado é ter mantido tudo o resto congelado à espera que eu volte a emergir, com a exceção que previ em junho e, sim, houve interrupções também aí, o que teve como consequência um atraso de vários dias, que ainda perdura, no tratamento do material. Isto só não foi zandinguice da boa porque todas as previsões tiveram por base experiências passadas. Eu já sei com o que conto e até onde chegam as minhas forças.

Mas a tradução vai correndo bastante bem e estou bastante adiantado em relação aos prazos. Não é caso para abrandar muito, no entanto: eu tenho de me adiantar aos prazos dos dois primeiros livros para conseguir cumprir o terceiro; de contrário é completamente impossível. Mas sim, está por dias... dois ou três. Depois segue-se a revisão, que me vai dar muito mais trabalho do que é hábito, cá por uns porquês, e depois mergulho no segundo dos três.

Entretanto, mesmo não podendo abrandar muito, provavelmente poderei abrandar um bocadinho, em especial durante a revisão (sempre foi atividade que me cansa a cabeça muito depressa e tenho de fazer pausas frequentes para conseguir manter a concentração), o que significa que deverá recomeçar a aparecer por aqui um post ou outro dentro de alguns dias. Não serão diários ou quase, como é hábito quando estou mais desafogado; serão mais espaçados. Mas serão.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Ponto da situação

A menos que seja uma pessoa distraída, quem acompanha aqui a Lâmpada e o Bibliowiki já terá reparado que as coisas têm andado a meio gás, quando não é a menos que meio: o wiki desde o início de maio que não mexe, e a Lâmpada idem há meio mês. E eu achei boa ideia explicar porquê, tanto mais que é coisa que tenderá a prolongar-se.

É que estou mais ou menos como este tipo verde aqui ao lado.

Nos últimos tempos tenho tido uma tradução em mãos, que não só tem sido particularmente exigente (sabem que mais? Detesto quando as personagens dos livros que traduzo resolvem embarcar. Detesto de detestamento detestado.) como tem sido feita a um ritmo um pouco mais acelerado do que poderia ser porque eu pretendia tirar uns diazitos de férias antes de deitar mãos à próxima, cuja data de entrega estava estabelecida para outubro. Essa exigência, por um lado, e o adiantar de serviço pelo outro foram os principais motivos para ter deixado alguns dos meus projetos um pouco ao abandono, ainda que não tenham sido os únicos.

Mas ainda bem que fui adiantando serviço: é que de repente em vez de ter um livro para traduzir até outubro tenho três para traduzir até fevereiro.

Ou seja, estou cheio de trabalho, e vou continuar a estar nos próximos meses. Por um lado é ótimo: antes ter trabalho a mais que trabalho a menos (na vida de um freelancer as ocasiões em que temos precisamente a quantidade certa de trabalho não são muito frequentes; é um dos maiores problemas desta forma de ganhar a vida). Por outro, no entanto, isso leva ao congelamento de uma série de atividades não essenciais.

Ou seja: aqui a Lâmpada tem sofrido e deverá continuar a sofrer. Tenho uns quantos contos lidos à espera de opiniões, mais de 10 livros e periódicos idem aspas, e é bastante provável que não consiga escrevê-las tão cedo. Depende sobretudo da rapidez com que o próximo livro se deixe traduzir, a qual só conhecerei quando começar efetivamente o trabalho. Está por dias, que estou a acabar a revisão do que tenho em mãos. Felizmente (em certo sentido) pouco tenho lido nos últimos tempos além do material que tenho para traduzir, e portanto a lista de opiniões pendentes pouco cresce.

Daqueles posts com informações sobre os outros autores aceites na antologia Nanocuentos del Planeta Tierra (como este), então, nem se fala: não vou ter mesmo tempo para eles. Felizmente (de novo, em certo sentido) há grandes atrasos com a tradução de textos produzidos em algumas das línguas mais exóticas, e tudo tem sofrido adiamentos sucessivos por causa desses atrasos. E sim, também as mudanças relacionadas direta ou indiretamente com a criação da página Meus Livros, que não, ainda não acabaram, estão em banho-maria.

De igual modo, o Bibliowiki deverá continuar parado nos tempos mais próximos. Talvez haja alguns dias em que consiga ir introduzindo lá algum material, mas duvido.

Idem para a minha escrita de ficção. Tencionava descongelá-la este ano, e no inverno ainda escrevi dois ou três contos muito curtos e uns parágrafos de uma novela que continua incompleta, mas tudo indica que ainda não será desta. Isto apesar de ter voltado a apresentar textos a antologias...

(e há também um projeto de edição a que não tenho conseguido dedicar tempo quase nenhum... isto é, há se o editor ainda não se chateou de vez com os atrasos; se calhar já não há.)

A única coisa que pretendo manter realmente ativa é o Ficção Científica Literária. Interrupções no FCL geram muito rapidamente uma enorme acumulação de material por tratar, o que não convém nada. Mas mesmo isso poderá sofrer interrupções, se por acaso as necessidades no trabalho que paga o exigirem.

Em suma: tudo indica que me vão ver pouco por aqui nos próximos tempos.

Já agora, haveria interesse em pontos da situação periódicos? Coisas parecidas com esta? Digamos, uma vez por mês, ou assim? Isso talvez se arranjasse mais facilmente; afinal, é bem mais simples e rápido escrever um texto descritivo do que um texto opinativo, que exige reflexão. Digam coisas. Aqui, no twitter, no facebook, cara a cara, como vos der mais jeito.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Eu e a BD

Esta foto cheia de grão tem quase precisamente um ror de anos. Os três putos que ali se veem, com quatro anos de diferença entre uns e outros, sou eu e os meus dois primos albufeirenses, e o trio é só parte da foto completa. Foi tirada num dos natais passados em Albufeira, velha tradição familiar, e eu ali estou numa velha tradição pessoal: agarrado a um livro. No caso, um livro de BD, não me lembro qual.

Quando eu era puto, todos os natais, ou quase, havia BD à disposição. Ou eu, ou o meu primo Pedro ou, mais tarde, o Ricardo, recebíamos de alguém um ou mais álbuns de presente e toda a família (bem, não toda, mas incluindo o meu pai e o meu tio) se refastelava na tarde fria e preguiçosa de 25, a devorá-los. Era principalmente Astérix, embora o album que eu aqui tenho na mão não seja um dos de Goscinny e Uderzo (e o facto de eu não me lembrar dele significa que o contemplado deverá ter sido o Pedro) ou, em geral, BD franco-belga. Os comics americanos não faziam parte do menu. Também os lia quando os apanhava a jeito, e acabaram por vir alguns parar-me às mãos, não sei bem como, mas nunca comprei nenhum com o meu dinheiro (sim, nesta altura eu já tinha o meu dinheiro) e creio que nunca ninguém comprou nenhum com o intuito de mo dar. Lia-os, mas nunca fui grande fã, nem dos da Disney, nem dos das casas rivais de super-heróis. Quanto a estes, ganhei certa simpatia por alguns, em especial o Batman e o Homem-Aranha, mas em geral sempre os achei fundamentalmente ridículos. E os quadrinhos brasileiros, Mónica, Cebolinha e companhia, também estão nesta categoria: lia quando os apanhava, mas sem ser grande fã. Do que gostava mesmo era de Lucky Luke, Tintim e seus "parentes" (Spirou, Estrumpfes (smurfs é o caracinhas, tá bem?), Blake and Mortimer, Alix) e, acima de todos, Astérix.

Foi assim que foi construída a minha cultura de BD. Ela não é vasta nem particularmente variada, porque nunca me dediquei a aprofundá-la. Chegou uma altura na vida em que me desinteressei das histórias aos quadradinhos; passei a achar mais complexas e estimulantes as histórias escritas em texto corrido, e a vertente gráfica da BD, que é o que mantém muitos dos verdadeiros bedéfilos presos ao género depois da adolescência, nunca me interessou muito.

Como consequência, não deixei completamente de ler BD, mas quase. De vez em quando regressava aos meus velhos álbuns do Astérix que, de tanto lidos, estão hoje praticamente desfeitos e, mais raramente, lia um ou outro livro apanhado aqui e ali. A revolução da novela gráfica adulta passou-me quase completamente ao lado, embora tenha sido nessa fase que descobri e me tornei absoluto fã de Quino. Mais de outras coisas do que da Mafalda, embora também da Mafalda.

Ah, sim, claro, e nunca deixei de ler as tiras que vinham nos jornais, pelo menos até deixar de comprar jornais. O Calvin é o maior e Hobbes a sua consciência.

A que propósito vem agora tudo isto? Bem, é que este ano foi completamente atípico: li bastante BD e tive algumas surpresas agradáveis. Essa BD irá ser comentada aqui na Lâmpada nos próximos tempos, mas achei necessário deixar a nota prévia de que eu não sou bedéfilo. Sou só um tipo que foi lendo alguma BD ao longo da vida mas estou longe de sequer começar a ser conhecedor do género. Por conseguinte, se as minhas opiniões sobre o que leio valem sempre o que valem, no caso da BD isso é ainda mais assim. Especialmente no que diz respeito à parte gráfica, que é a que sempre me interessou menos.

Esclarecidos? Então vamos lá.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Capa de revista

Acontece cada uma a um gajo...

Aqui há coisa de um mês, recebo um contacto no facebook, de um antigo colega meu dos tempos em que andei a trabalhar na imprensa regional. Que queria falar comigo. Que estava a colaborar com uma revista algarvia e achava interessante entrevistar-me, por causa do Martin, e tal, e da Guerra dos Tronos, e quê, e de eu ser o tradutor português, e patati, e patata. E eu, depois de hesitar um bocadinho, disse-lhe que sim. Afinal, sei bem o que é, por já ter passado por isso, um tipo ter espaço numa publicação (no meu caso era jornal) para encher e andar a bater com a cabeça nas paredes.

"Então está combinado," disse-me ele, "passo por aí no dia tal para falar contigo e tirarmos umas fotos."

"Fotos?," digo eu. "É mesmo preciso?"

"Pá, isto é uma revista. Sabes como é."

Pois sabia, sim senhor. Pronto, está bem, combinou-se o encontro, achando eu que ia ficar com a feia carantonha a decorar uma página central ou duas e não passar disso. Fez-se a entrevista, que ainda rendeu coisa de uma hora de conversa, tiraram-se as fotos, e foi cada um de nós tratar dos respetivos trabalhos.

Quando ele me voltou a contactar para dizer "está feito" foi logo prevenindo que a coisa tinha saído um pouco diferente do que estava previsto. Depois mostrou-me como.

Assim.


Não sei quem foi que teve a ideia (e o mau gosto, não desfazendo) de espetar com as minhas feias fuças na capa da revista, mas foi mesmo isso que fizeram. Fiquei em choque. Agora já passou um bocado; está feito, está feito, mais vale seguir com a corrente. Mas logo quando vi isto só consegui exclamar, em maiúsculas e tudo, "NA CAPA?! ARGH!"

Quanto ao texto, é o típico de uma revista ligeira. A entrevista foi muito abreviada e muito parafraseada, para a encaixar no espaço disponível e a adequar à publicação. Muito do que ali aparece não corresponde textualmente ao que eu disse, ainda que corresponda quase sempre (há duas ou três exceções, que calculo terem sido causadas por cortes) ao sentido do que eu disse. Debruça-se principalmente sobre as Crónicas de Gelo e Fogo e sobre como é traduzir os livros do Martin, as qualidades que eles têm e a comparação com a série. Mas não esperem grandes profundidades. É daquelas entrevistas boas para se ler entre um banho de mar e o seguinte.

Uma coisa é certa. Nunca, mas nunca, sonhei algum dia vir a ver-me na capa de uma revista. Já o John Lennon dizia que "a vida é o que te acontece enquanto estás ocupado a fazer outros planos." Não há melhor ilustração disso mesmo do que esta.

PS - já que estamos com a mão na massa, quem tem conta no ISSUU pode aceder ao conteúdo da revista, aqui.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Coisas que acontecem na vida de um tipo quase sem que ele dê por isso

Como já disse algumas vezes (por exemplo, aqui), sou próximo do Bloco de Esquerda desde que o partido se formou, em 1999. Até 2011, fui aquilo a que se costuma chamar um simpatizante: alguém que é próximo mas não filiado, que vota normal mas não exclusivamente no partido, que se identifica com a maioria das suas propostas mas não com todas.

Em finais de 2010, início de 2011, comecei a notar os primeiros sinais sérios de um certo desvario, que me levaram até a ter grandes dúvidas sobre se valeria a pena votar no partido nas eleições desse ano. Acabei por votar. Mas depois das eleições pus-me a pensar. E a 12 de junho, farto de tanto e tão crasso erro, vendo que ou se fazia alguma coisa ou em breve deixaria outra vez de ter em quem votar, tomei uma decisão: aderir ao Bloco. O objetivo? Tentar contribuir para que se cometessem menos erros, participando até certo ponto da vida interna do partido (só até certo ponto porque nem tenho tempo nem espírito de ativista), mas fundamentalmente votando em gente que, a meu ver, fosse capaz de evitar cair no mesmo tipo de disparates.

E foi o que fiz, na convenção seguinte.

Infelizmente, fui traído: parte dessa gente a primeira coisa que fez a seguir a ser eleita foi pôr-se na alheta.

E os erros, como se sabe, não pararam, apesar de nunca terem voltado a ter a mesma amplitude e catastrófica repercussão daquele destrambelhadíssimo início de 2011.

Portanto este ano resolvi participar mais ativamente, escrevendo coisas, debatendo ideias, fazendo propostas. Coisas destas. Às duas por três, vejo-me contactado pela mesma gente em quem tinha votado dois anos antes (aqueles que ficaram). Queriam reunir-se comigo — andavam a preparar uma moção para concorrer este ano. Achei ótimo: ia voltar a ter em quem votar com vontade. Uma reunião, outra reunião, às tantas descubro que a parte algarvia dessa malta queria pôr-me à cabeça da lista de candidatos a delegados. Recusei terminantemente, mas lá me convenceram a ficar em segundo lugar. Aceitei porque pensei que era bem possível que acabasse por não ser eleito e, se fosse, participar de um congresso partidário (nós chamamos-lhes "convenções", mas é a mesma coisa) era uma experiência nova e podia ser interessante, quanto mais não fosse porque me faria conhecer melhor o que é o partido.

Fui mesmo eleito delegado. Pronto, está bem.

A convenção era uma semana depois. Dias antes de começar, descubro que me querem pôr numa lista para a Mesa Nacional. Digo-lhes claramente que é má ideia. E lá fui para Lisboa reunir-me com eles à volta de um jantar, convencido de que não me seria difícil dissuadi-los. Ao jantar, descubro que estava bem enganado: nunca vi tanta gente a não querer candidatar-se a dirigente de um partido político. Eram nãos atrás de nãos, sins-mas-mais-abaixo atrás de sins-mas-mais-abaixo, nem-pensar-nissos atrás de nem-pensar-nissos. E eu, ali no meio, sem saber muito bem o que dizer, descubro-me listado, e, pior, em posição elegível. Argumentei, chamei-lhes lelés da cuca por me quererem pôr naquela posição, mas a verdade é que era só mais uma voz renitente entre muitas. Podia ter recusado taxativamente? Podia. Mas depois o Algarve ficava sem representação, e tinha de se refazer a lista toda porque seria demasiada Lisboa junta e haveria que encontrar mais gente de fora para o meu lugar, e não havia, e isto, e aquilo, e mais um critério, e mais outro, e mais algum, e "de qualquer maneira vais lá parar mais tarde ou mais cedo porque há sempre gente que sai". Portanto limitei-me a desaconselhar veementemente a minha inclusão na lista e sentei-me. Ninguém me ligou peva.

E lá fui para a convenção. A posição era elegível mas a eleição não era certa: podia haver faltas, votos transferidos à última hora, tanta coisa. Em suma: havia esperança de ficar de fora, pelo menos para já.

Mas qual quê! Fui mesmo eleito. Fui o último eleito dos 79, mas fui.

E assim, sem saber bem como, sem vontade nenhuma, tornei-me dirigente do Bloco de Esquerda três anos depois de ter entrado no partido única e exclusivamente para tentar contribuir para pôr na direção gente capaz de fazer menos disparates.

Conhecem muitos partidos em que algo assim seja possível? Eu não conheço nenhum, pelo menos entre aqueles que têm alguma dimensão.

E agora?

Agora vou fazer o que faço sempre que meto as mãos a alguma obra: o melhor trabalho possível, tentando, obviamente, contribuir para que não se façam disparates. Uma coisa, no entanto, é certa: não planeio tratar quem votou em mim, por mais indireto que esse voto seja, como o Daniel Oliveira me tratou a mim: tenciono ficar até ao fim (a menos que me revele incompetente para a tarefa, caso em que é melhor que saia). Não sei se será possível, mas é o que tenciono fazer. E vou tentar também fazê-lo sem mergulhar na bolha política. Tive um contacto de raspão com ela há uns anos e não gostei nada do cheiro.

Até escrevi um livro sobre isso e tudo.

A vida dum gajo dá umas voltas do caraças, essa é que é essa.

E o que acontecer, acontecerá.

domingo, 2 de novembro de 2014

Onde se meteu outubro?

Para onde foi outubro? Ainda agora estava quase a começar e de repente já passou.

Pelo menos é o que parece quando se mede o tempo pelos posts na Lâmpada. Mas na realidade da vida não foi bem assim.

O mês foi passado a descansar, a trabalhar e a fazer política. A descansar porque terminei francamente cansado a tradução de mais um livro, a precisar urgentemente de férias. Fi-las, não daquelas férias das pessoas desocupadas mas umas férias à moda do Jorge, interrompendo por alguns dias as leituras e as escritas e tratando de outras coisas há muito pendentes. A trabalhar porque retomei o bibliowiki, que vinha passando por mais um período de negligência, e porque recebi a próxima tradução, um tijolão de um ror de páginas que houve que ler atentamente, tomando notas mentais sobre os seus desafios e dificuldades. Há um, em especial, que me vai dar água pela barba. Os autores, às vezes, são mesmo maus com os tradutores.

E a fazer política.

Porque tem mesmo de ser. Porque, como disse por outras palavras no texto francamente irritado em que há anos anunciei a decisão de aderir ao Bloco, deixar todas as decisões aos outros, sem participar nelas, é meio caminho andado para o resultado serem decisões más, que nos desagradam. Aderi demasiado tarde para participar ativamente na convenção de há dois anos: um recém-chegado, sem conhecer os meandros, a cultura e as leis internas por que se regem os partidos tem (infelizmente, diga-se) muito poucas oportunidades de participação nas decisões que estes tomam. Portanto limitei-me a assistir a alguns debates, a ler os materiais, a tomar uma decisão e a votar para eleger delegados à convenção. Mas agora, com três anos na bagagem, e vendo que pouco mudou para melhor e muito mudou para pior, apesar da esperança com que o resultado da última convenção me deixou, não pude adiar mais.

Portanto discuti, escrevi coisas, troquei opiniões, falei com gente. Escrevi um longo texto, que aqui está em 3.61 megabytes de PDF e tem esta capa vermelhusca e branca aqui em cima, no qual tentei explicar bem as ideias e opiniões que me parecem mais importantes neste momento sobre o que o BE é e deve ser no futuro próximo, e tomei partido. Para quem não sabe, estão neste momento em discussão 5 moções sobre o futuro do BE e eu decidi apoiar a moção B por ser aquela cujas ideias mais se aproximam das minhas. Apoiar e não só: desta vez sou candidato a delegado à convenção... a ver vamos se serei eleito. É muito possível que seja. Seria mais uma novidade.

(E não, malta, não é um tacho: é só uma viagem, um fim de semana ocupado e com pouco sono e, esperemos, a participação em algumas decisões decentes. Ao contrário do que reza o folclore, política não é só tachos.)

E li mais umas coisas, escrevi outras, troquei mais opiniões, falei com mais gente.

Parte do resultado, entre um artigo de opinião e algumas propostas de alteração aos estatutos, está publicado no boletim DeBatEs nº 2 (outro PDF), um documento impressionante com quase 160 páginas de letra miudinha, que contém 86 textos de opinião, individuais e coletivos, além dos textos das moções e das propostas de alteração de estatutos, e mostra um partido que, apesar de tudo, está bem vivo e cheio de gente com vontade de o ver prosperar e desenvolver-se. É uma das coisas que me dá esperança porque o BE continua a ser, com todos os seus defeitos, a única formação política que realmente nasceu e se desenvolveu com a pluralidade e união da esquerda no código genético.

E como precisamos de uma esquerda minimamente unida neste país!...

E como precisamos de esperança!

É que às vezes parece que isto é uma última oportunidade. Que não haverá mais. Que, se não arregaçarmos as mangas agora, não voltaremos a poder fazê-lo. E não, não me refiro apenas ao BE; refiro-me também, ou talvez principalmente, ao país.

Por isso, arregacei-as. Na medida do que sei e posso.

Cidadania. Parece que é esse o nome que isto tem.

PS - se fores algarvio e inscrito no BE não deixes de votar já no próximo dia 15. Na moção B, claro.

domingo, 10 de agosto de 2014

Tuitos da semana, nº 2

Olha, lembrei-me. Como é domingo, cá estão os tuitos da semana passada, dominados, como talvez fosse inevitável, pelo Espírito Santo. Amém.
— Diga 1 2 3!
— BPN BPP BES.
——
"Com a habitualidade com que estão habituados". Uau. O homem é bom nisto.
Esta é comentário à comunicação do Carlos Costa, o do Banco de Portugal. Ou fui eu que ouvi mal, ou ele disse mesmo isto. E muitos "repito"s. Muitos "repito"s.
——
O fundo não inclui fundos públicos. O fundo contraiu um empréstimo temporário junto do Estado. Mas não são fundos públicos. Mas são.
——
Não sei porquê, mas a palavra que eu ouvi mais o Carlos Costa dizer foi "bullshit". Ele falou em inglês?! Não percebo isto.
——
Já ninguém trabalha neste país. Só se "colabora".
——
O que fariam as "contribuições periódicas" do fundo de resolução se não estivessem enfiadas aí? Financiavam a economia, não era? Pois.
——
Previsões para os próximos dias: amanhã há uma corrida ao "banco bom" para fechar contas. Antes de acabar a semana já há processos.
A primeira previsão cumpriu-se; a segunda não, mas só porque os advogados são uns molengões. Eles estão a tratar disso, mas levam tempo. Ou seja: como eu disse também noutro tuito passados uns dias:
O que vale é que eu não percebo nada disto e voto em malucos que percebem ainda menos.
Não é?
——
Ninguém me tira da cabeça que aquela coisa da Dona Inércia era boca ao Banco de Portugal.
——
Olha, olha. E não é que nem lá fora se acredita na mais recente aldrabice?
——
Coisas que me irritam assim um bocadinhozinho: quando brasileiros arranjam Argonautas que eu não tenho. Humpf. Ainda por cima aquilo tinha sempre escrito algures "venda interdita na República Federativa do Brasil".
——
Coincidências... puras coincidências...
——
"Porque assim se finge que não há nacionalização do banco." Pois.
——
Olha, giro. Parece que fui nomeado para um prémio.
Vou escrever um pouco mais sobre isto um destes dias.
——
Sabem quem não tem papas na língua? Os estrangeiros.
——
Malta que não sabe a diferença entre eminente e iminente: dicionário, tá?
——
O que o Baptista Bastos aqui não diz é que o seu "sistema" tem nome: capitalismo.
——
Não, queridos dedos, fritar não é o mesmo que gritar.
——
Ironias: o momento em que os banqueiros privados passaram anos a dizer como "tem de ser" mas o único banco saudável é o banco público.
——
Islândia: um "case study" sobre as consequências da traição.
——
Isto de dizerem que querem vender depressa o novo banco "para não perder valor" é giro. Estão a dizer que não vale o que pedem por ele.
——
Ah a internet voltou a matar o Jô Soares? Em quantas vezes já vai?
——
De acordo com isto. Mas acho que os partidos devem democratizar-se mais. Todos. Como consegui-lo é a questão.
——
Uma visão interessantre sobre a dimensão ideal do Estado. Não concordo por completo, mas...
——
Que bom que é ter um telemóvel com bateria que dure mais que 5 minutos.
Esta não tuitei, mas podia ter tuitado: no momento em que escrevo isto, o telemóvel que tive de comprar porque o antigo entregou a alminha ao criador está ligado há 80 horas desde o último (e primeiro) carregamento. Oitenta. E tem 42% da carga. Estou devidamente impressionado.
——
E tudo se começa a conjugar para a brilhante solução adotada para o BES vir a ser muitíssimo pior que a do BPN.
——
Não consigo evitar. É mais forte que eu. Sempre que vejo mensagens revolucionárias "enviadas do meu iPhone" parto-me a rir.
——
O Monteiro Lobato tinha uma das mais impressionantes monossobrancelhas que eu vi na vida. Aquilo era um albatroz negro.
Não conhecem? Então fiquem a conhecer.
——
Marques Mendes crítica a demagogia dos partidos da maioria. Um minuto depois faz demagogia sobre a subserviência de "todos os partidos" para com Ricardo Salgado.
"Esqueceu-se" dos alertas que Bloco de Esquerda e PCP (principalmente o primeiro; veja-se aqui) lançaram há montes de tempo, coitado.
——
Quando estou com sono (tipo agora) falo muito bem wookie. Serei só eu?

domingo, 3 de agosto de 2014

Tuitos da semana

Se me lembrar, vou passar a fazer isto: uma compilação dos tuitos da semana anterior que, ao relê-los, não me parecerem inteiramente parvos ou irrelevantes. Talvez com algumas alterações, para expandir as abreviaturas tuiteiras, explanar melhor uma ideia ou piada ou juntar num só parágrafo vários tuitos sobre o mesmo tema. Se calhar devia chamar a isto "retuitos" em vez de só "tuitos." É caso para pensar. Se me lembrar.

Acham bem?

Então cá vai a compilação da semana que acaba hoje:
Reiterando algo que já disse uma vez — Caros sites que pedem likes ou têm nagscreens antes de mostrar conteúdo: encham-se de varejeiras.
——
O êxito dos oquestrada é para mim um dos grandes mistérios do universo.
——
Uma União Europeia que aceita calmamente isto é uma União Europeia a que eu recuso pertencer.
——
Se isto é verdade (Observador = pé atrás), o papel do Brasil na entrada do Obiang foi perfeitamente vergonhoso. Já agora: que raio interessa que um documento venha escrito em Comic Sans, em Garamond ou em Helvetica?! Que coisa mais parva.
——
Pelos cabelos quando as pessoas dizem "os partidos", referindo-se exclusivamente a coisas feitas por PS e PSD.
——
Continua, Israel. Ainda não convenceste toda a gente de que o melhor é riscar-te do mapa, mas lá chegarás.
——
Não há uma tenda grande o suficiente para cobrir a Madeira? É que circo já existe, só falta mesmo a tenda.
——
Os brasileiros (e em especial as brasileiras) têm uma relação de amor com a palavra "super".
——
Nunca deixarei de me surpreender com a estupidez humana. Nem de me deprimir com ela.
——
A princípio disseram que o cometa da Rosetta era um patinho de borracha. Não é: é uma bota.
——
E lá vamos nós para a nacionalização dos prejuízos e manutenção em mãos privadas de tudo o que dá lucro. Tão bom. E depois "o Estado é mau gestor." Pois.
——
Ideia para um programa de TV: um Shark Tank tuga, com Oliveira e Costa, Ricardo Salgado, Jardim Gonçalves e João Rendeiro. Ia ser tãlindo ver os liberaloides todos a apresentar ideias de negócio aos mestres!
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Olhem uma lei fixe: "Empresa que tenha de ser nacionalizada só será privatizada depois de dar lucros ao Estado dez vezes superiores ao que custou." Sim, que o que se preparam para fazer ao BES é simplesmente pornográfico.
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Coisas como o BPN e o BES continuarão a acontecer enquanto o Estado meter dinheiro e deixar as empresas voltar alegremente a mãos privadas. Coisas como o BPN e o BES continuarão a acontecer enquanto não se perceber que empresas demasiado grandes para falir devem ser públicas. E pelos mesmos motivos, os monopólios naturais também devem ser públicos. Sempre. Até porque um Estado financiado por mais-valias é um Estado que precisa de cobrar menos impostos para o mesmo nível de despesa.
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Para que se perceba bem o que é a banca hoje em dia.
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Normalmente não leio BD, mas quando leio, ela é brilhante!
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Diz que o BES vai passar a ter um só acionista — uma empresa cujo capital é, em parte, dinheiro pelo qual o Estado está a pagar juros. Mas não, não é uma nacionalização. Nacionalizações são coisas malignas que só os comunistas fazem. E o Sócrates.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Será recomendável, mandar assim embaixadores às pessoas?

O Goodreads tem um serviço interessante para quem quer promover um livro: pode-se recomendá-lo a amigos ou contactos, e essas recomendações permitem que os que se deixarem interessar adicionem o livro a listas ao estilo de "quero ler" ou "vou comprar" ou até mesmo "coisinha apetitosa do papá."

Quando publiquei Por Vós lhe Mandarei Embaixadores depressa adicionei o livro ao Goodreads e foi com igual velocidade que senti vontade de fazer uso desse serviço de recomendações. No entanto não o fiz, pelo menos por enquanto.

Porquê?

Porque tenho estado a tentar decidir a que tipo de leitor recomendaria este livro.

Provavelmente, não serão poucos os marqueteiros que chegados aqui pensariam: Mas que está este parvalhão a dizer? Como quer vender livros assim? É claro que tem de o recomendar, caraças! No entanto, eu não consigo deixar de duvidar. De que me serve recomendar o livro a alguém que sei à partida que não vai gostar dele? Que utilidade teria fazê-lo? Vender mais livros? Mas para que quero eu vender livros com recomendações inadequadas, correndo assim o risco de alienar prováveis futuros leitores de outros livros meus, dos quais poderiam gostar bastante mais do que deste?

Sim, que eu não escrevo só maluquices...

E assim pensando, cheguei à sequência lógica desta cadeia de dúvidas: ao certo quem teria mais hipóteses de dar por bem empregues as horas gastas a ler este romance?

E cheguei a uma espécie de resposta.

Este romance foi escrito para mim, para me divertir a escrevê-lo. E divertiu. Mais: continua a divertir-me, anos mais tarde, apesar de já o ter relido tantas vezes, à conta das múltiplas revisões que lhe fiz, que quase seria capaz de recitá-lo (bem, há aqui um ligeiríssimo exagero... coisa pouca). Portanto, julgo que há uma elevada probabilidade de que quem se divirta com aquilo que me diverte leia isto com um sorriso nos lábios e talvez até vá soltando de vez em quando umas gargalhaditas. Especialmente se for como eu e, ao olhar para o cerimonial mais ou menos pomposo que está inerente a boa parte da política, o ache fundamentalmente ridículo. Especialmente se acha que boa parte das declarações solenes que por aí se fazem não passam de chachadas sem pés nem cabeça. Especialmente se consegue ver os interessezinhos escondidos por trás dos "valores" de que tanto hipócrita se faz paladino. Especialmente se tiver em si um núcleo de irreverência e subversão. Especialmente se algures no corpo tiver uma costelinha anarca. E muito em particular se costuma achar piada às maluquices que vou debitando ou partilhando nas redes sociais (aqui no blogue nem tanto).

O meu problema quando toca a fazer recomendações é não saber, na maioria dos casos, se a pessoa a quem eventualmente o recomendaria partilha deste tipo de atitude. Desta forma de encarar a parte mais solene e sisuda do mundo como uma grande e mascarada farsa. Daí a hesitação.

Se soubesse que sim, pois recomendaria sem reservas. O livro não será nenhuma obra prima literária, que não é (eu próprio já escrevi coisas literária e conceptualmente mais fortes do que esta) e de resto nunca pretendeu ser, mas é um livro escrito com correção no uso do português — a que, diga-se de passagem, a versão que se mantém online não faz inteira justiça; a do livro físico é francamente melhor — e está carregadinho de referências, piscadelas de olho, subcaricaturas da grande caricatura que nele fiz. Tantas que duvido mesmo muito que alguém as apanhe todas à primeira.

Se não, se não têm sentido de humor ou o têm mas muito diferente do meu, se até gostam de pompa e circunstância, se acham os políticos gente cheia de qualidades, se acham demasiado parva a ideia de terem um ET a ventosar por aí sem que ninguém lhe ligue peva, se consideram um crime de lesa-cultura-pátria que se brinque com Os Lusíadas, se, enfim, acham o respeitinho muito bonito, então aconselho-vos a passarem ao largo. De certeza quase absoluta não irão gostar do meu livrinho. Não percam tempo nem dinheiro com ele. Esperem pelo próximo, que talvez seja mais a vosso gosto.

E isto, reparo agora, deixa-me precisamente na mesma quanto a recomendar, ou não, o livro à maioria do pessoal a que estou ligado lá pelo Goodreads.

Ora bolas.

Já sei! Vou recomendá-lo ao Artur Coelho. Boa! Vamos lá então a ver onde é q... olha, ele já o leu e tudo?! Humpf! Assim não vale.

Adendinha melhor informada - Pois calha que sim, o Goodreads tem um sistema para recomendar livros às pessoas, mas não, os autores não podem usá-lo para recomendar os próprios livros. Desconhecia este piqueno detalhe. O que vale é que a ideia de usar o Goodreads para recomendar o meu livrinho à malta não está no centro deste post. Imaginem se estivesse. Imaginem só.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Confissão ortográfica

O mais engraçado nas 150 mil palavras (e umas 350 mil de tradução; soma-se e dá meio milhão) que escrevi no ano passado foi terem sido todas, sem exceção, escritas segundo a nova ortografia, a tal que, de acordo com uns Emilianos que por aí andam, ninguém é capaz de usar.

Estas coisas divertem-me, confesso. Estou aqui feito bolinha amarela com olhinhos e traço curvo.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

2013. O meu.

O meu 2013 foi um ano de muita fúria, de muito asco pelas figurinhas repugnates que parasitam os mais altos lugares do Estado, insultando com a sua mera existência a própria essência desses lugares, desses cargos, e do próprio Estado.

O meu 2013 foi o ano de uma esperança ténue, entrevista em dias como o de 2 de março, mas depressa remetida à campa rasa das coisas que assim que nascem logo morrem, assassinada por um povo de fogachos, incapaz de compreender que só com persistência e determinação se consegue alguma coisa, ou demasiado medroso para se mostrar persistente e determinado seja no que for.

O meu 2013 foi o ano em que desfiz a golpes de rigor e de um tudo-nada de estatística as invencionices caturras de quem, perante a absoluta falência intelectual daquilo que defende, decidiu que só levaria a sua avante através da vigarice. Saiu-se mal. Mas há um bando de criacionistas da língua que volta sucessivamente à carga com as mesmas asneiras, com as mesmas aldrabices, com as mesmas mentiras, completamente impenetráveis à verdade, aos factos, à lógica e à razão. A língua inglesa tem um nome excelente para quem assim se comporta, e que a portuguesa ainda não conseguiu expressar com igual contundência: crackpot. Há-os de todos os matizes, os criacionistas são apenas um deles. Há quem negue a gravidade, há quem sustente que a Terra é oca, há ainda quem jure (juro!) que não, que é plana, há malucos de todos os géneros e feitios. E nós, além dos outros, temos agora os que garantem a pés juntos que a nova ortografia obriga a escrever "fato" e "cagado". Gente doida.

O meu 2013 foi o ano em que me aconteceu o bizarríssimo caso de ter o meu nome citado nos salões da Assembleia da República, coisa que nunca em dias da minha vida esperava ver acontecer-me.

O meu 2013 foi o ano em que pela primeira vez na vida fui candidato a algum cargo político. Fui-o para fazer número e dar apoio, sem qualquer perspetiva ou vontade de ser eleito. Não fui eleito. Felizmente.

O meu 2013 foi o ano em que trabalhei bastante menos do que em anos anteriores, e em coisas, em geral, bem menos agradáveis. É a tal crise, que andam aí uns malucos a dizer que não existe. Mas acabou da melhor forma possível.

O meu 2013 foi o ano em que publiquei em papel o meu primeiro (e por ora único) romance.

O meu 2013 foi o ano em que escrevi umas 150 mil palavras de texto original. 400 e tal páginas de livro, se tivessem sido publicadas em livro, ainda que dessas só uma pequena parte tenha sido de ficção. Foi o ano em que concluí um conto já velho e muito bizarro, que até hoje estou sem saber se presta ou não presta, e que é capaz de ser a coisa mais esquisita que já me saiu das mãos. Está inédito e inédito ficará por algum tempo. Foi também o ano em que tentei fazer resultar uma ideia que não resultou, pese embora a boa vontade de um punhado de colaboradores, e aquele em que provavelmente dela desisti.

O meu 2013 foi o ano em que fiz crescer em quase quatro mil páginas o Bibliowiki.

O meu 2013 foi o ano em que fiquei um ano mais velho, coisa que me acontece todos os anos, sem exceção. Foi o ano em que ganhei mais alguns cabelos brancos e umas quantas rugas, mas também o ano em que alguém, decerto com uma grande falta de vista, me deu 27 anos de idade. Agora em 2014, suponho, farei 28. Não está mal.

O meu 2013 foi um ano em que li. Há coisas que não mudam, felizmente.

O meu 2013 foi um ano estranho. Mais estranho do que o normal, com uns altos e baixos invulgares, mesmo para um ano como este.

A ver vamos o que 2014 me trará.

sábado, 30 de novembro de 2013

É hoje! E não será hoje.

Deveria hoje publicar aqui mais uma parte da minha série de artigos sobre a edição presente e futura, mas umas alterações que fiz ao publicar a parte de ontem exigiram fazer também alterações na estrutura das próximas partes, e não tenho agora tempo. Terá de ficar para amanhã. Isso não será hoje.

Hoje é isto, às nove da noite, na Casa Inglesa em Portimão. O aniversário com aniversariante ausente, livros pelo meio e umas cervejinhas a acompanhar. Venha quem vier; eu lá estarei, sozinho ou acompanhado, pelo menos durante uma horita. Quem vier, já agora acrescento, vai poder ver uma novidade em primeiríssima mão.

E hoje é também o fim do prazo para isto. Se não fosse esta mania que toda a gente tem de escrever a computador, dir-vos-ia a propósito "força nas canetas".

A quem vier celebrar o meu velhote, até logo. A quem não vier, até amanhã aqui no blogue, ou até já nas redes sociais.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Encontramo-nos a 30?

Aconteceu quase por acaso. No dia em que passou um ano da morte do meu pai, comprei um livro. E senti-me tão bem com isso, senti que fazê-lo era tão certo, que um ano depois, tendo decidido transformar esse ato simples numa tradição pessoal, comprei outro. E dentro de cinco meses, comprarei o terceiro. Porque a data dói, mas dói um pouco menos assim. Porque assim transmuto em coisa boa uma coisa má. E porque assim não marco uma morte mas celebro uma vida.

Olhando para trás, para a sua vida e interesses, para o que fez, para as conversas que teve, para as suas ideias, o meu pai foi muitas coisas mas só uma se manteve constante e inabalável ao longo de quase todos os setenta e cinco anos que viveu. Desde que aprendeu a ler até poucos meses antes de morrer. Os livros. Um constante amor pelos livros, pela leitura, ocasionalmente pela escrita, que o levou a juntar uma biblioteca de uns quatro mil volumes. E por isso, comprar um livro na data da sua morte tem a certeza de um ponto de exclamação.

Mas porquê ficar por aí?

Se estivesse vivo, o meu pai faria no próximo dia 30 setenta e sete anos. E há dias, ao pensar nisso, nele, na sua vida e interesses, tive uma ideia. E se agarrasse em mim, nos meus livros e nos dele, e fosse passar um par de horas à Casa Inglesa (sítio que qualquer portimonense conhece e onde ele passava longas horas, em especial antes do 25 de Abril e aos fins-de-semana, à volta do xadrez, dos livros e, sim, da política), bebendo umas cervejas, lendo se não aparecer ninguém, conversando se aparecer?

Pareceu-me boa, a ideia. Uma espécie de festa de anos com aniversariante ausente por motivos de força maior. E ainda bem, que ele detestava essas pepineiras (palavras dele) e haveria de responder à ideia com uma ironia mordaz e demolidora qualquer. Mas depois, se conseguíssemos a difícil proeza de o arrancar de casa, até acabaria muito provavelmente por se divertir. Portanto, sim.

E assim será. Estão convidados. Dia 30, às nove, nove e meia da noite. Eu estarei lá, na Casa Inglesa, naquela sala que lá existe no primeiro andar. Levo livros. Os meus, os dele, talvez uma tradução ou outra. Venham daí. Se tiverem livros vossos, tragam-nos também. Se tiverem algum outro que achem que seria boa ideia trazer, venha ele.

Eu levo o meu pai. Ele anda sempre comigo.

domingo, 20 de outubro de 2013

Quase

Já faltou mais.
Mas continuo a ter de gastar o meu tempo de fuga em viagens até muito, muito longe daqui.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Hoje

Hoje apetecia-me estar algures, bem longe. Talvez aqui.

Ou então na cama, a dormir o que não dormi durante a noite.

Mas não. Nem uma coisa nem outra.

É a vida a que temos direito, aparentemente.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Contas

Estive a fazer contas e há dezoito dias que não tenho descanso.

Exceto, bem entendido, quando parto para lugares longínquos.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Ultimamente

Ultimamente não tem havido escrita, mal tem havido leituras, tem havido apenas trabalho. Um trabalho de tal forma desgastante que quando me farto e o ponho de lado estou tão absolutamente saturado de letras vírgulas pontos finais e o raio que parta tudo o que seja linguagem que só encontro refúgio nas paisagens alienígenas de um simulador do universo, o Space Engine. Paisagens como esta.
Quando isto acabar a Lâmpada retomará o ritmo habitual. Até lá, é pouco provável que recebam mais de mim do que uma imagem destas de vez em quando.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Organizando a prosa

Por estranho que pareça, nunca tinha feito isto que fiz hoje: ir vasculhar nos baús e nas gavetas da criação literária e ver quantas coisas tenho completas, quantas estão por completar, quantas publicadas, quantas inéditas, quantas publicáveis e assim por diante.

É coisa útil para se fazer. Para quê, por exemplo, manter-se histórias incompletas a ocupar espaço nas gavetas e na imaginação? Pois descobri que tenho 29. Não vos parecem demasiadas? A mim parecem, mesmo que muitas sejam daquelas histórias com ideias mal definidas, começadas para participar em concursos ou antologias temáticas, e que nunca chegaram verdadeiramente a ganhar corpo. Pouco mais que ideias vagas anotadas no bloco das ideias vagas. Mas digamos que o sejam metade. Ainda ficam umas 15 histórias com pernas para andar. Porque não andam?

Bem, algumas vão andando.

Devagarinho.

Em todo o caso, 29 histórias pouco são quando comparadas com as que tenho completas. Estas são 165. Sim, 165. Eu também me admirei. Mesmo havendo aí, como há, grande número de historietas com menos de mil palavras, dariam para uns 5 ou 6 livros com mais de 200 páginas cada, se bem que nem todas me pareçam publicáveis. Pelo menos sem umas revisões suficientemente grandes para as transformar em coisa decente. E algumas nem assim.

Em todo o caso, mais de 70 dessas histórias foram sendo publicadas de uma forma ou de outra, por aqui e por ali. Literalmente: parte delas só foi publicada aqui mesmo na Lâmpada. Mas 70 histórias publicadas em 165 querem dizer mais de 90 inéditas. Porque é que continuam inéditas? Porque publicar, para mim, nunca foi o objetivo principal; basta considerar que as minhas primeiras histórias razoáveis datam dos anos 80 e, tirando uns velhíssimos jogos florais escolares em que participei (e ganhei, com perdão da imodéstia) e que resultaram numa edição manhosíssima em fotocópias, foi só em 1998 que publiquei o primeiro conto. O objetivo principal, como aliás já disse por aqui, sempre foi libertar-me das histórias que imagino.

E eis outra utilidade disto que fiz hoje: já tenho perdido oportunidades de participar em antologias temáticas por julgar que não tenho nada já escrito que se ajuste ao tema, e nem tempo nem ideias para escrever de novo. Em certos casos é verdade. Mas noutros só julgo que assim é porque me esqueço do que está aqui a ganhar pó na gaveta.

Vale a pena?

Não, não vale. Porque mesmo que publicar não seja o mais importante, não deixa de ser agradável. Até porque há por aí quem goste do que eu escrevo. Não muito, talvez, nem muitas pessoas, mas há. Por que não dar-lhes a oportunidade de lerem mais algum continho? Para quê mantê-los engavetados e, pior, esquecidos?

Outra coisa que obtive disto não poderei dizer que me tenha surpreendido: sou um escritor de coisas curtas, embora cada vez o seja menos. Das tais 165 histórias completas, quase 100 têm menos de mil palavras. Houve uma fase em que produzia historietas assim curtinhas em catadupa, mas, ainda que continuem a surgir-me ideias para pequenuras destas, nos últimos tempos tenho-me cansado da brevidade extrema (até porque raramente me sai bem), tem-me apetecido explanar e expandir mais os meus textos, até interligá-los, juntá-los em séries. Inclusive alguns destes pequenos. Algumas destas historietas acabaram por servir de base para coisas bem maiores, e na verdade há nesta centena e meia de histórias alguns casos de pais e filhos, ou até de pais, filhos e netos. Histórias desenvolvidas a partir de outras histórias invariavelmente mais curtas. Conto-as como histórias diferentes porque o são, mesmo que a ideia base seja a mesma. Não é possível escrever a mesma história numa noveleta e num miniconto.

Esse é, aliás, um motivo comum para a não publicação de algumas destas ficções. Não é tão raro como talvez devesse ser que acabe uma história e me ponha a pensar se não seria melhor expandi-la, juntar-lhe outras coisas, transformá-la de conto curto em noveleta ou de noveleta em romance. Por vezes reescrevê-la de cima a baixo, sob outro ponto de vista, experimentando outra técnica, talvez até mudando-lhe o género.

Sim, nem sempre me consigo libertar delas mesmo quando as escrevo.

Mas é pior quando não as escrevo. De modo que escrevo.

Mas enfim, a moral da história é que já devia ter feito um apanhado como este há bastante tempo. Ah, mas isto tudo é só a prosa. Depois há os versos. Pois. Os versos. Só na spamesia são 366 textos, e há muitos, muitos mais guardados por aqui.

Quer isso dizer que vou fazer algo de semelhante com os versos?

Ná! Nem pensar em tal coisa.