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quinta-feira, 3 de março de 2016

E então? Que me aconselham?

Ora bem, despachadas as opiniões sobre os álbuns de BD que li no ano passado (estão aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, para quem ainda não as tinha visto), e sabendo umas coisas sobre a minha relação com a BD ao longo dos anos, estando portanto razoavelmente bem cientes dos meus gostos, digam-me lá: o que me recomendam que arranje e leia a seguir?

É escusado recomendarem este cavalheiro aqui ao lado, claro; ele é a base da minha fraca bedefilia. Também não adianta muito recomendarem-me o que conheço melhor, Tintim, Lucky Luke, essas coisas. Também não vale a pena virem-me aconselhar Marvel ou DC, que super-heróis com as cuecas por cima das fatiotas não são, decididamente, material que me encha as medidas. Mas e fora isso? O que há por aí que me possa surpreender pela positiva e, idealmente, que seja mais ou menos fácil de encontrar?

Sim, que depois da surpresa globalmente tão positiva que foi a minha experiência com a BD no ano passado, e depois de ter descoberto que a BD é o antídoto ideal para aquelas alturas em que o cansaço do texto corrido é tanto que não apetece ler uma página (coisa que acontece de vez em quando a quem trabalha com texto, suponho; às tantas satura. Pelo menos eu sofro disso) quero continuar a ler BD e a descobrir coisas. Mas quais?

Fãs de BD, sintam-se desafiados. A caixa de comentários é vossa.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Lido: Sharaz-De

Sharaz-De é um assombro. Sim, eu sei que ao longo destas opiniões sobre os álbuns de BD da Levoir que comprei (não comprei a coleção completa; este é o último) fui dizendo e repetindo que não me sentia avalizado para opinar mais detalhadamente sobre a parte gráfica da coisa, mas este álbum de Sergio Toppi torna completamente impossível não o fazer. Porque ele é, sobretudo, grafismo. E que grafismo, caramba!

Mas vamos voltar um pouco atrás.

Sharaz-De é uma compilação de onze histórias retiradas das Mil e Uma Noites, e Sharaz-De, a Sherazade de Toppi, é quem as conta ao seu rei cruel, salvando-se assim noite após noite. Histórias fantásticas, quase todas, cheias de magia, de djinns, de gigantes e de uma espécie crudelíssima de justiça, o tipo impiedoso de justiça que prevalece em terras e tempos impiedosos.

As histórias têm um fascínio muito próprio, o que não é de espantar sendo como são as 1001 Noites a mais célebre obra literária proveniente da cultura árabe. Mas Toppi soma a esse fascínio uma arte a que só posso chamar deslumbrante. Quase sempre em página inteira, pouco ligando à tradição da banda desenhada que manda dividir as páginas em quadrados e retângulos, contendo cada qual a sua cena (na verdade, quando usa os típicos quadrinhos da BD rara é a ocasião em que a cena neles contida não os extravasa, ligando-os aos outros ou a alguma cena de fundo), umas vezes a cores, outras a preto e branco, Toppi cria um luxo de livro que é uma delícia para os olhos.

Não sei quão inovador é isto, esta espécie de transformação de um álbum de BD num livro de ilustrações por vezes quebradas em quadros e ocasionalmente acompanhadas por um ou outro balão. O texto introdutório, infelizmente, não ajuda a ficar a saber. Não sei se tem percursores, se tem outros cultores, anteriores ou posteriores, se tem resultados ainda melhores. Mas sei que cada uma destas imagens me fascinou, mais até, muito mais até, do que o texto das histórias que, de resto, acompanham na perfeição. Acompanham? Não, a palavra não é essa. A palavra é interligam, pois palavra e imagem entretecem-se de uma forma que também me pareceu rara.

Eu já disse várias vezes, e repito, que pouco percebo de BD. Mas achei este livro absolutamente soberbo. Que belíssima compra!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Lido: Mort Cinder

Mort Cinder é mais um da série de álbuns de banda desenhada que li no outono passado e me reavivaram, de uma forma bastante inesperada, o interesse pelo género. Contudo, este, do argentino Hector German Oesterheld e do uruguaio Alberto Breccia, começou por parecer não ir de encontro às minhas preferências. E isso também seria inesperado, uma vez que a premissa do livro deveria agradar-me: uma série de histórias centradas no protagonista Mort Cinder, um imortal que foi vivendo momentos fulcrais da história humana e passa por mirabolantes aventuras acompanhado por um velho arqueólogo. O que há para não gostar?

Bem, há a parte gráfica da coisa que, por menos que eu me sinta capaz de a avaliar, umas vezes agrada-me, outras nem por isso. E o estilo que Breccia aqui usa está bem longe da linha clara dos franco-belgas que me satisfaz mais plenamente o sentido estético.

Mas como, apesar disso, o estilo gráfico também me parece muito adequado às histórias que aqui se contam, essa dessintonia entre ele e o meu gosto não chegaria para me levar a não gostar particularmente deste álbum. O que me pôs o pé atrás no início da leitura foi, portanto, sobretudo outra coisa: a estrutura da primeira história de maior fôlego.

A segunda das histórias de Mort Cinder é quase como se fosse a primeira pois aquela que realmente abre o livro é muito curta e funciona basicamente como preâmbulo. E faz lembrar as histórias pulp de super-heróis em algumas das suas piores características. O vilão, em especial, mau como as cobras, é um cientista enlouquecido pela ambição, que não para perante nada para levar a sua avante. Como se não bastasse esse cliché, o malandro ainda tem um gostinho especial por longas exposições de todas as malfeitorias que vai fazer aos heróis, dando a estes, claro, tempo para se prepararem e se lhe oporem. Tão típico!

E tão parvo.

Tivesse todo o livro sido assim, e eu teria terminado a leitura muito desapontado com ele.

Mas não, felizmente. Todas as outras histórias (são ao todo nove) são muito melhores do que essa, chegando até a tocar temas bastante profundos de uma forma muito adulta e, não raro, bastante subtil, mesmo sem perder o caráter de aventura inerente a toda a premissa.

Como consequência, fui gostando cada vez mais do livro à medida que lhe ia virando as páginas e, quando cheguei ao fim, descobri que tinha gostado bastante. Se aquela segunda história fosse melhor, teria até gostado muito e este livro teria entrado para a lista restrita das melhores leituras do ano. Assim, ficou perto mas não chegou lá.

Mas não dei nada por mal empregado o dinheiro que gastei nele.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Lido: Um Contrato com Deus

Um Contrato com Deus é, segundo afirma quem disto percebe (já sabem que não é o meu caso), mais um álbum de BD particularmente importante de mais um autor particularmente importante, Will Eisner, um dos percursores da forma de BD que ganhou o nome de novela gráfica. Precisamente com este livro.

Judeu, Eisner conta nestas páginas uma realidade que conhece bem: a do quotidiano das camadas pobres da população judaica de Nova Iorque nos anos 30 do século passado (embora tudo tenha origem muito antes e bem longe, nos ataques antissemitas de 1882 na Rússia imperial), focando-a num determinado prédio e nas pessoas que o foram habitando ao longo do tempo. Gente pobre, muita dela imigrante e refugiada, tornada mais pobre ainda pela Grande Depressão. O tom é quase neo-realista, ainda que a BD traga consigo um elemento significativo de caricatura.

São quatro histórias interligadas, desenhadas de uma forma que muitas vezes não respeita a divisão tradicional da BD em quadros, caso em que normalmente se espraia por toda a página à maneira dos cartunes. Há em todas um certo aspeto tragicómico, pois as suas personagens têm muito de patético mas ao mesmo tempo são quase sempre retratadas por Eisner com alguma ternura. Como quem diz "esta gente é estranha e talvez um pouco louca mas é a minha gente".

Foi mais um álbum de que gostei bastante mas sobre o qual, curiosamente, não tenho muito a dizer. E foi comprado, claro.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Lido: A Louca do Sacré-Coeur

A Louca do Sacré-Coeur é um mirabolante álbum de banda desenhada de Moebius e Alejandro Jodorowsky, dividido em três partes, que segue o lento mas inexorável mergulho de um tal Alain Mangel, seriíssimo (ou talvez não tanto) professor catedrático de filosofia na Sorbonne, no mais absoluto delírio místico-sexual.

O livro é, parece-me, no fundamental um grande gozo. Um gozo a uma certa forma pretensiosa e oca de intelectualismo, para começar. Mangel, a princípio um respeitado catedrático, decompõe-se sem qualquer esforço num caco humano, incapaz, cobarde e manipulável, incapaz de resistir à atração sexual por jovens vinte ou trinta anos mais novas (e invariavelmente loucas) e aos seus caprichos e às consequências que estes têm.

Um gozo, também, à crise masculina da meia idade, àquela pulsão que certos homens sofrem por partir numa busca frenética por qualquer coisa que lhes traga de volta a juventude perdida. No mundo real, esta pulsão é frequentemente destrutiva, mas é raro que o seja tanto como no caso de Mangel.

Um gozo, ainda, ao misticismo new age; embora esta história date dos anos 90, há aqui uma clara influência do substrato cultural dos anos 60 e 70. Drogas? Temos. Guerrilheiros nas selvas da América Latina? Temos. Xamãs? Temos. Mistura de sexo e misticismo? Temos, oh se temos! Particularmente hilariante é uma cena em que a seita de quatro em que Mangel se mete, mais ou menos a contragosto, e que tem como objetivo gerar o novo Messias, o batiza, dando-lhe o nome de Zacarias. Como é feito o batismo? Forçando-o a dar a sua semente a "Cristo-Maria" (uma das duas loucas da seita, filha de um barão da droga colombiano). Coisa que ele desejava muito fazer, aliás. O que Mangel não esperava era que a sessão de sexo acabasse com ele amarrado e... enrabado por "São José", o outro homem da seita, um pequeno criminoso cujo verdadeiro nome é Mohamed.

Sim, o livro tem bolinha vermelha ao canto superior direito. Aliás, a própria capa o sugere.

E sim, é muito divertido. Quase todo.

O que, a meu ver, o estraga é a última parte. O desenho perde consistência e torna-se abonecado e o gozo torna-se significativamente menos gozativo, pois tudo aquilo que até aí era misticismo sem consistência passa a ser apresentado como realidade. Temos aqui um dos raríssimos casos em que a introdução de uma fantasia mais concreta numa história (em oposição a um fantástico que pode ou parece ser apenas questão de imaginação de alguma personagem, o qual existe desde o início) acaba por a piorar. Quando as certezas estapafúrdias dos loucos que levam Mangel da Sorbonne à selva colombiana acabam por se concretizar numa sessão alucinatória de onde Mangel sai sarado de todas as suas maleitas e rejuvenescido, num final feliz delicodoce, quase à filme de Hollywood, toda a troça que fica para trás perde fôlego e consistência. E isso é de lastimar.

Com um desenlace diferente, teria gostado muito deste livro. Com este...

Bem, mesmo com este não posso dizer que não tenha gostado; afinal de contas, o final não consegue apagar o que ficou para trás. Mas que deixa um gostinho um pouco amargo na boca, isso deixa.

Mais um livro comprado.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Lido: Em Busca de Peter Pan

Em Busca de Peter Pan, do suíço Cosey, é um bucólico álbum de banda desenhada que, apesar das múltiplas referências ao traquinas fantasista e voador de Barrie, nada tem de fantástico. Conta uma história branda, protagonizada por um tal Sir Melvin Woodworth, inglês, escritor de sucesso no meio de uma crise de inspiração, que decide ir procurar o meio-irmão desaparecido para o último lugar de onde recebera notícias dele: uma aldeola suíça, ameaçada pelo avanço de um glaciar.

Avanços de glaciares são coisa impossível nos dias que correm, em que o globo aquece e os glaciares vão derretendo um pouco por todo o mundo, mas nos anos 30 do século passado, época em que se ambienta esta história, ainda iam acontecendo. Pois é precisamente numa aldeia que a ameaça do glaciar força a evacuar, e de onde o protagonista, preso aos fios que o irmão deixara, acaba por não sair, que o grosso desta história se vai desenrolar.

Não é só uma história bucólica, na qual a imponência e força irresistível da natureza têm uma importância central, mas também uma história de procura e encontro (ainda que este não seja necessariamente aquilo que se procurava), uma história de aventura em alta montanha, uma história de amor e uma história de contrabandistas e fora-da-lei. Tem, portanto, a sua riqueza. Mas a verdade é que não me agradou por aí além. E não por quaisquer questões gráficas (de resto, o estilo franco-belga, apesar de eu não perceber nada disto, é o que mais me agrada... e o de Cosey faz-me lembrar as bandas desenhadas de Alix, do Jacques Martin); é por causa de um certo estilo contemplativo de contar histórias em BD que me aborrece solenemente. Foi também muito por causa disso que não gostei do álbum do Jiro Taniguchi que li dez anos antes.

Gostei mais deste, é certo. Não só é menos contemplativo, como é mais rico em conteúdo. Mas mesmo assim, esteve longe de ser leitura que me enchesse as medidas. Não desgostei da experiência mas, para o meu gosto pessoal, este álbum conta-se entre os mais dispensáveis desta série da Levoir.

Este livro foi comprado.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Lido: Foi Assim a Guerra das Trincheiras

Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, é uma reconstituição obsessiva da I Guerra Mundial, contada sob o ponto de vista de quem combatia nas trincheiras. Quem julgue que este álbum, por ser banda desenhada, traz para o tema alguma espécie de leveza, desengane-se. Ao esforçar-se por retratar com a maior crueza e realismo o quotidiano da guerra, e em especial de uma guerra tão cruel e sem sentido como a primeira grande guerra, Tardi criou um livro duríssimo, ora revoltante, ora comovente, em que as grandezas e misérias da condição humana são expostas até ao osso.

Nem todos os leitores terão a mesma impressão, pois nem todas as pessoas leem as mesmas coisas, mas eu fui-me lembrando várias vezes, vivamente, do romance A Oeste Nada de Novo, de Erich Maria Remarque. Quem julga que a experiência da guerra é dominada pelo lado em que se está pode achar isto estranho, pois Remarque retrata-a pelo lado alemão e Tardi pelo francês, mas encontrei uma identidade quase absoluta no que as duas obras retratam. A mesma desesperança, a mesma miséria humana, os mesmos truques nascidos do desespero, a mesma camaradagem e, acima de tudo, a mesma irracionalidade. Em um e no outro, não há bons nem maus. Há homens encurralados, mergulhados no horror de uma situação sobre a qual não têm qualquer espécie de controlo e lhes vai roubando as vidas aos bocados até que um tiro, um obus ou uma nuvem de gás lhas rouba de vez. E tudo para quê?

Foi Assim a Guerra das Trincheiras tem de ser lido sem flacidez na boca do estômago, porque este álbum pretende no-la esmurrar e fá-lo com regularidade ao longo das suas pouco mais de 100 páginas. Com o texto, sim, mas sobretudo com as imagens. Não que eu perceba muito disto, mas parece-me que no caso deste livro é sobretudo a violência do que se vê que contribui para a violência do todo (ao contrário, por exemplo, do álbum de Altarriba, cuja componente literária me parece preponderante).

O resultado é, julgo, muito bom. Um livro cheio de conteúdo, uma obra de arte claramente pacifista, ao ponto de alguns patetas poderem até chamar-lhe panfletária, mas que no entanto consegue transmitir com total clareza a ideia de que a guerra é absurda sem recorrer a mais do que à ilustração o mais realista possível dos seus absurdos. Recomendo-a sem reservas, muito em especial a todos aqueles que gostam de falar com leveza da guerra e dos que dela fogem.

Gostei. Francamente. Dei por muito bem empregue o dinheiro gasto a comprar este livro.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Lido: A Arte de Voar

A Arte de Voar, de Antonio Altarriba (guião) e Kim (arte), foi uma das grandes surpresas das minhas leituras do ano passado. Eu, que da BD espanhola só conhecia mal e porcamente algumas coisas do Salamão e Mortadelo (ou será Mortadela? Nunca sei), mais uma prova clara de que não sou bedéfilo, foi com algum espanto que dei por mim a mergulhar nesta adultíssima biografia em banda desenhada e foi com assombro que descobri, ao fechar a contracapa, que a tinha adorado.

Há nisso, de resto como há sempre, uma mistura de razões objetivas com outras absolutamente subjetivas. Entre as primeiras, avulta uma forma muito literária de narração e de construção da história. Exemplo claro disso são os últimos três quadros das três páginas que funcionam como prólogo, nos quais, entre pensamentos do protagonista, o narrador narra o seguinte: "Posso por isso assegurar que foi assim que [o meu pai] se suicidou. Posso igualmente assegurar que, ainda que parecessem apenas segundos, o meu pai demorou noventa anos a cair do quarto andar..."

Entre as razões subjetivas, a mais importante é também a mais simples: esta história mexeu comigo de uma forma muito, muito profunda. À semelhança do livro de Jean Renoir sobre o pai, tambérm este é a reconstrução da vida de um homem, feita pelo seu filho, deixando transparecer nas entrelinhas uma enorme ternura pelo pai desaparecido. Este é, decididamente, um ponto fraco meu; isso ficou bem claro nas leituras do ano passado. Ainda por cima, neste álbum fui encontrar um homem que, embora diferente do meu pai em muitas coisas, também era semelhante em muitas outras. Era semelhante na condição de homem de aldeia transplantado para a cidade, na condição de homem de esquerda vivendo a maior parte da vida em tempos de ditadura de direita, no entusiasmo com o fim da ditadura e na desilusão com o que veio depois. O pai de Altarriba suicidou-se no fim da vida; o meu só não fez o mesmo porque não teve forças para isso.

Antonio Altarriba escreveu esta história para compreender a morte do pai, sabendo que para lhe compreender a morte teria de lhe compreender a vida. E eu, ao lê-la, ao compreender a vida e a morte do pai dele, compreendi também melhor as do meu.

Juntando a isso, e isso só por si já é muito, uma arte que não só é de grande qualidade (dizem-no os peritos; quem sou eu para negar?) como está muito próxima do tipo de traço de que eu mais gosto desde miúdo, umas sequências oníricas, ou até talvez alucinatórias, que trazem o meu querido fantástico para o terreno biográfico em que, em princípio, lhe seria impossível ganhar raízes, e uma história movimentada pelos tempos mais turbulentos do século XX europeu, o ramalhete de qualidades deste livro fica variado e frondoso e explica com total clareza por que motivo o escolhi para integrar o trio de melhores livros do ano.

Não sei se o livro é realmente excelente e, na mais pura das verdades, nem me interessa saber. Sei que gostei muitíssimo dele. Isso é mais que suficiente.

Este livro foi comprado.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Lido: Beterraba: A Vida Numa Colher

Beterraba: A Vida Numa Colher é um álbum de BD do português Miguel Rocha, bastante estranho por vários motivos, o que neste caso é qualidade.

Quando há algum tempo falei da minha relação com a BD, disse que a vertente gráfica do género nunca me interessou muito e que, portanto (embora não por estas palavras), aquilo que menos me sinto qualificado para avaliar num álbum de BD é a sua parte gráfica. E isso levanta-me um problema com este álbum do Miguel Rocha: a vertente gráfica (francamente invulgar... tanto quanto a minha fraca cultura de BD consegue avaliar) é aqui absolutamente fulcral.

A capa dá uma boa ideia do grafismo de todo o álbum: cores fortes, saturadas e muitas vezes inesperadas (céus esverdeados ou vermelhos vivos, por exemplo) e desenhos que parecem apenas esboçados em pinceladas largas, como se se tratasse de pinturas impressionistas, criam uma experiência de leitura muito diferente de toda a BD que eu tinha lido até este álbum. Lê-lo foi, portanto, quase como descobrir um género inteiramente novo. Vou tentar explicar em que medida.

Quando leio um álbum "normal" de BD, os olhos primeiro captam o todo da imagem (mais raramente da página) e de seguida põem-se a saltitar de pormenor em pormenor ou de pormenor em balão. Mas aqui não há muitos pormenores, o que causa uma espécie de corte no processo e leva a uma preponderância maior do texto. Mas ao mesmo tempo, a força da cor chama a atenção para as imagens, afastando-a do texto (e o tipo de letra usado, que não é tão claro como poderia ser, também contribui para isso), o que tem como resultado uma sensação de certa forma paradoxal. E, para mim, um bom bocado incómoda.

Junte-se uma história bizarra, ambientada num lugar não identificado mas com inconfundíveis traços alentejanos, sobre um homem, de alcunha Beterraba, que cisma que dê lá por onde der há de arrancar beterrabas a um terreno estéril e improdutivo, surdo a todos os avisos, numa obstinação inabalável, não só se mergulhando a si na obsessão, mas também à mulher que a dado passo arranja e a uma autêntica ninhada de filhas que a mulher vai pondo no mundo com o passar do tempo, encerrando-se, e a elas, numa espécie de mundo privativo, onírico, fantástico e surreal. De resto, a própria falta de definição das imagens ajuda a tornar toda a história mais onírica, assemelhando-a a um daqueles sonhos de cujas imagens nos lembramos vagamente ao acordar.

Dir-se-ia pelo que acima ficou dito que gostei muito deste álbum, não é? Mas não. Gostei de o ler, é verdade, mas não muito. Em parte por questões de gosto (julgo que a sua qualidade é superior ao prazer que a leitura me causou, consequência de eu preferir a BD mais "limpa"), mas também porque a falta de detalhe de algumas das imagens prejudicou a compreensão das cenas... e por causa de uma calinada que me irritou de tal forma que pus o livro de parte durante vários dias, até a esquecer. Com que então, caro Rocha, os filhos "saem há mãe"? Ugh!

Mas que me parece uma experiência muitíssimo interessante, isso sem dúvida. Mesmo não sendo eu bedéfilo.

Mais um livro comprado.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Lido: Bando de Dois

Bando de Dois é um álbum de banda desenhada do brasileiro Danilo Beyruth sobre um par de cangaceiros que, depois de uma batalha com uma patrulha de soldados, são os únicos sobreviventes do seu bando. Um deles fica ferido e, num delírio, recebe ordens do fantasma do chefe do bando, para os "libertar". A partir daí, a história transforma-se numa aventura muito semelhante a um western, pois os dois sobreviventes decidem que a ordem delirante significa que terão de se apropriar das cabeças dos companheiros mortos, que a patrulha leva consigo em caixas a fim de as expor como prova de sucesso, e enterrá-las. Isso vai dar lugar a uma série de peripécias que, despidas de um certo sabor nordestino, poderiam perfeitamente fazer parte de uma história do Velho Oeste americano. Mas uma história do Velho Oeste que nunca se afasta muito do horror. Há aparições de almas do outro mundo, por mais sonhadas que sejam, há várias imagens cadavéricas, como a da capa, e há um final que é praticamente apocalíptico.

Da BD brasileira só conhecia algumas coisas do Maurício de Sousa e um projeto de BD do universo da Intempol, do Octávio Aragão (já vos disse que não sou bedéfilo) e, também por ser tão diferente de ambos esses contactos anteriores, gostei bastante deste álbum. Abriu-me mais os horizontes.

Mas não foi só isso. Achei também a história francamente bem contada e gostei muito da arte, limpa e clara à maneira da BD que mais li e de que mais gostei, a franco-belga. Ao contrário da de Crumb, diga-se, que tem um ar atulhado que não me agrada particularmente.

Não me pronuncio sobre o enquadramento deste álbum na BD brasileira, por motivos óbvios, mas ele inclui duas páginas de uma introdução que fazem, basicamente, isso mesmo. Também por isso é bom.

Este livro foi comprado.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Lido: O Livro do Mr. Natural

O Livro do Mr. Natural é um álbum de banda desenhada de Robert Crumb que reúne uma série de histórias desenvolvidas à volta do protagonista, o Mr. Natural, um guru new age, tão místico como vigarista, representado sempre como aparece na capa (embora nem sempre nu), como um tipo baixo e roliço com uma longa barba branca.

Não sei bem se nunca tinha lido Crumb, o que só por si demonstra bem que não sou bedéfilo. O estilo, quando comecei a ler este livro, não me foi estranho. Ainda aventei a hipótese de que poderia ser ele o autor de Os Sobrinhos do Capitão, histórias que acompanhei em miúdo nos álbuns de capa mole do Carlitos e só vinham assinadas por uma assinatura quase ilegível a que eu pura e simplesmente não ligava, mas uma comparação rápida informou-me de que não: há semelhanças no estilo rechonchudo do desenho, mas pouco mais. E depois, pesquisando, descobri que Os Sobrinhos do Capitão são no original The Katzenjammer Kids e foram criados por Rudolph Dirks. OK, esse assunto ficou arrumado, mas a sensação de familiaridade continuou sem explicação. O mais provável é ter tomado contacto com algum trabalho dele, algures, sem saber que era dele.

Seja como for, O Livro do Mr. Natural é um grande gozo. Ou uma sátira, como se diz em intelectualês. Um gozo, primeiro que tudo, a uma certa forma de estar em sociedade muito típica dos anos 60 e 70 do século passado. Um gozo à credulidade das pessoas, à facilidade com que um líder carismático pode influenciá-las e servir-se delas. O Mr. Natural está constantemente a testar os limites dos seus seguidores (em especial de um tal Flakey Foont, a sua vítima predileta), a abusar deles, a levá-los à certa enquanto debita frases vazias de qualquer espécie de significado mas todos acham muito profundas, e isso só lhe traz cada vez mais seguidores. Manda-os todos dar uma volta ao bilhar grande e eles vão e, quando voltam, são mais.

Hoje, um Crumb moderno que quisesse criar um Mr. Natural teria de fazê-lo diferente. Estes gurus new age, embora ainda existam, estão em franca decadência. Fora de moda. Já não atraem multidões, embora continuem a atrair grupinhos. Um Mr. Natural de um Crumb dos dias de hoje seria bem menos natural. Não se passearia nu por aí. Seria orador motivacional, escreveria livros de auto-ajuda (ou, mais precisamente, pagaria a alguém para lhos escrever), fundaria uma seita onde venderia vassouras ungidas para varrer o mal. Mas de resto seria igual. Debitaria frases vazias para aplauso geral. Refastelar-se-ia com a idolatria de que seria alvo enquanto, secretamente (poucos são tão descarados como o Mr. Natural), desprezaria os idolatradores. Seria menos surreal. Procuraria marcar presença em palestras TEDx. Quiçá, até talvez concorresse à presidência da república.

A personagem é bastante interessante, sem dúvida, e deu pano para mangas. Mas não gostei muito do livro. Há piadas demasiado óbvias. Há outras bastante básicas. Há uma certa misoginia, provavelmente inevitável em algo criado nesta época, mas mesmo assim desagradável. Há no guru uma canalhice vazia de escrúpulos que o torna previsível mesmo quando está aparentemente a ser o contrário (um pouco à semelhança do Mr. Bean). Há algum racismo. E há uma certa incongruência na própria personagem, que ora é genuinamente canalha e vigarista, ora parece acreditar nas suas próprias tangas.

Não me manifesto quanto à importância deste livro na BD americana (por clara incompetência), mas para o meu gosto, pessoal e intransmissível, ele deixou um pouco a desejar. Gostei, mas não muito. Diverti-me, mas nem sempre. Foi, como se diz por aí, um bocado meh.

Este livro foi comprado.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Eu e a BD

Esta foto cheia de grão tem quase precisamente um ror de anos. Os três putos que ali se veem, com quatro anos de diferença entre uns e outros, sou eu e os meus dois primos albufeirenses, e o trio é só parte da foto completa. Foi tirada num dos natais passados em Albufeira, velha tradição familiar, e eu ali estou numa velha tradição pessoal: agarrado a um livro. No caso, um livro de BD, não me lembro qual.

Quando eu era puto, todos os natais, ou quase, havia BD à disposição. Ou eu, ou o meu primo Pedro ou, mais tarde, o Ricardo, recebíamos de alguém um ou mais álbuns de presente e toda a família (bem, não toda, mas incluindo o meu pai e o meu tio) se refastelava na tarde fria e preguiçosa de 25, a devorá-los. Era principalmente Astérix, embora o album que eu aqui tenho na mão não seja um dos de Goscinny e Uderzo (e o facto de eu não me lembrar dele significa que o contemplado deverá ter sido o Pedro) ou, em geral, BD franco-belga. Os comics americanos não faziam parte do menu. Também os lia quando os apanhava a jeito, e acabaram por vir alguns parar-me às mãos, não sei bem como, mas nunca comprei nenhum com o meu dinheiro (sim, nesta altura eu já tinha o meu dinheiro) e creio que nunca ninguém comprou nenhum com o intuito de mo dar. Lia-os, mas nunca fui grande fã, nem dos da Disney, nem dos das casas rivais de super-heróis. Quanto a estes, ganhei certa simpatia por alguns, em especial o Batman e o Homem-Aranha, mas em geral sempre os achei fundamentalmente ridículos. E os quadrinhos brasileiros, Mónica, Cebolinha e companhia, também estão nesta categoria: lia quando os apanhava, mas sem ser grande fã. Do que gostava mesmo era de Lucky Luke, Tintim e seus "parentes" (Spirou, Estrumpfes (smurfs é o caracinhas, tá bem?), Blake and Mortimer, Alix) e, acima de todos, Astérix.

Foi assim que foi construída a minha cultura de BD. Ela não é vasta nem particularmente variada, porque nunca me dediquei a aprofundá-la. Chegou uma altura na vida em que me desinteressei das histórias aos quadradinhos; passei a achar mais complexas e estimulantes as histórias escritas em texto corrido, e a vertente gráfica da BD, que é o que mantém muitos dos verdadeiros bedéfilos presos ao género depois da adolescência, nunca me interessou muito.

Como consequência, não deixei completamente de ler BD, mas quase. De vez em quando regressava aos meus velhos álbuns do Astérix que, de tanto lidos, estão hoje praticamente desfeitos e, mais raramente, lia um ou outro livro apanhado aqui e ali. A revolução da novela gráfica adulta passou-me quase completamente ao lado, embora tenha sido nessa fase que descobri e me tornei absoluto fã de Quino. Mais de outras coisas do que da Mafalda, embora também da Mafalda.

Ah, sim, claro, e nunca deixei de ler as tiras que vinham nos jornais, pelo menos até deixar de comprar jornais. O Calvin é o maior e Hobbes a sua consciência.

A que propósito vem agora tudo isto? Bem, é que este ano foi completamente atípico: li bastante BD e tive algumas surpresas agradáveis. Essa BD irá ser comentada aqui na Lâmpada nos próximos tempos, mas achei necessário deixar a nota prévia de que eu não sou bedéfilo. Sou só um tipo que foi lendo alguma BD ao longo da vida mas estou longe de sequer começar a ser conhecedor do género. Por conseguinte, se as minhas opiniões sobre o que leio valem sempre o que valem, no caso da BD isso é ainda mais assim. Especialmente no que diz respeito à parte gráfica, que é a que sempre me interessou menos.

Esclarecidos? Então vamos lá.

sábado, 3 de dezembro de 2005

Lido

Estes posts lamparinos sobre o que vou lendo tiveram uma longa pausa, devido a três factores principais: ter coisas bastante chatas na pilha "regular" de livros a ler, a grande quantidade de contos que li (e alguns mais do que uma vez) para a Antologia de Literatura Fantástica e uma avaria no scanner que tornou bastante problemática a obtenção das capas.

Regresso agora, armado de scanner novo, durante algum tempo sem nenhuma capa do lado direito porque estas coisas saíram todas de leituras "intercalares".

Pois bem, um dos livros que li nos entretantos foi O Homem que Caminha de Jiro Taniguchi (Edições Devir, Série Ouro nº 19, 148 p., 2005). É um álbum de banda desenhada japonesa (mangá, portanto) com uma série de pequenas histórias encadeadas pelas personagens e por uma atmosfera bucólica. Não sou grande fã de BD mas gosto muito de algumas coisas: Moebius, Bilal, Astérix quando o Goscinny ainda estava vivo, Calvin & Hobbes... Não foi o caso deste álbum. Estas histórias do Jiro Taniguchi são quase sempre não-histórias, retratos da banalidade envoltos em silêncio (quase não há texto), coisinhas sensaboronas que não me conseguiram despertar o interesse. É um estilo, suponho, e como o efeito foi propositado, até é um estilo bem conseguido. Mas não me agrada.