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domingo, 8 de agosto de 2010

Sobre as dicas de escrita do David

O David Soares publicou há bocado no blogue um conjunto de dez dicas sobre escrita, e eu assim que li a primeira pensei cá com os meus botões "diabo, que isto vai ser mau". Quando acabei, achei que tinha de comentar aquilo, e aqui está o meu comentário. A negrito estão as dicas do David mas não as explicações que dá para elas. Por baixo de cada dica estão os comentários que dica e explicação me provocam. Portanto para lerem este post é imprescindível que, antes de mais, vão lá ler as dicas dele. Depois, se quiserem, podem voltar cá. Mas só depois.

Está lido? Então vamos lá.

1- Não escrever como se fala.
Dificilmente se podia começar pior uma lista de dicas sobre escrita, francamente. E a explicação não é melhor, porque aquilo que realmente denuncia falta de talento nos escritores não é a coloquialidade, não é o "escrever-se como se fala", mas sim não saber utilizar a coloquialidade e o texto erudito nos locais que lhes são próprios. Não há coisa mais triste do que ler os diálogos forçadíssimos dos escritores suficientemente medíocres para não serem capazes de usar corretamente a linguagem coloquial. Nem o uso de coloquialismos em locais em que ficaria melhor uma escrita mais elaborada é pior do que isso. E posso mesmo dizer que há magníficas obras de literatura que fazem uso quase exclusivo da linguagem oral e coloquial. Quem quiser um bom exemplo leia Quantas Madrugadas tem a Noite, de Ondjaki. A verdade é que querer amputar o coloquialismo da literatura é equivalente a serrar uma perna duma mesa ou duma cadeira. A verdade é que tudo o que faz parte do fenómeno linguístico pode e deve servir de matéria-prima para a literatura. Tudo.

2- Aprender a gramática.
Não me oponho a esta, pelo contrário, mas tenho de fazer uma ressalva. Aprender gramática é, antes de mais, aprender a usar a língua. O António Aleixo, analfabeto como era, nada sabia das formalidades gramaticais, do que era um complemento indireto ou uma voz passiva, mas usava magnífica, e corretamente, a sua língua. Aprender gramática, no sentido prescritivo da expressão, no abstrato, é pouco menos que inútil. É o conhecimento prático que é importante para quem escreve (e para quem traduz, já agora), ainda que o outro muitas vezes dê uma ajuda importante.

3- Apesar de aprender a gramática, escrever como um escritor e não como um linguista.
Esta subscrevo. Integralmente.

4- Escrever um livro e não um guião de cinema.
Aqui também tendo a concordar, mas sou muito menos radical. Já li livros excelentes baseados em diálogos e descrições de ação, praticamente sem descrições, e já li livros muito maus quase exclusivamente descritivos. Um dos piores livros que li na vida, na verdade, tinha uma única linha de diálogo nas suas cento e tal páginas. Uma. E era horrendo. O que quero dizer com isto é que há e deve haver lugar para as duas coisas, e que nehuma é superior à outra, desde que as pessoas saibam o que estão a fazer e porque o fazem. Ah, sim, e não é questão de género, é de abordagem. O Hemingway não era um escritor de género.

5- Ser erudito.
O David aqui faz alguma confusão entre dois conceitos muito diferentes. O "ser erudito" que põe na dica não tem grande coisa a ver com o "sejam inteligentes a escrever" com que começa a explicação. O que não falta por aí é gente muito erudita mas completamente idiota (e consequentemente incapaz de transpor a erudição para uma escrita inteligente) e gente com grandes lacunas no conhecimento que no entanto é capaz de transpor para o papel um nível de subtileza e inteligência que está ao alcance de poucos. Dito isto, concordo que a busca de informação é importante, desde que não funcione como bloqueio. E mais: muitas das melhores obras são aquelas em que o escritor sabe mais sobre os temas em causa do que aquilo que transparece na obra. Muitos dos melhores escritores evitam o show-off. Mas sabem. Por outro lado, conheço vários candidatos a escritores que andam há anos em worldbuilding sem conseguirem escrever uma linha, porque quando tentam são tolhidos por aquilo que ainda não sabem, pelos bocadinhos de mundo que ainda não construíram. Aqui, como na maior parte das coisas, o que é realmente importante é ter a capacidade de encontrar um equilíbrio, que será diferente para cada autor.

6- Ler os clássicos.
Não faz mal nenhum, pelo contrário. Não me parece que tenha tanta importância como o David lhe dá, mas não faz mal nenhum.

7- Ler os melhores autores que escrevem no género de literatura em que se quer singrar.
Meh. Com toda a franqueza, acho tristíssimo que um escritor aceite, acate e contribua para a ditadura dos géneros, que é uma questão mais comercial do que outra coisa. Um escritor deve querer escrever as histórias que o inspiram, não perder tempo a pensar "mas 'pera lá, isto não é do meu género, não pode ser". Escritor que aceite isso é escritor que até pode chegar aos pináculos do género que escolheu mas no grande esquema das coisas nunca passará da mediocridade porque se condenará a ser músico de uma nota só. Um escritor que almeje passar da cepa torta deve ler de tudo um pouco. Deve ler fora do género e deve ler fora de géneros. Além disso, também não me parece que colocar o fulcro da coisa nos "melhores" seja correto. É conveniente ler-se os mais influentes, isso sim, para se saber onde e como se encaixam as histórias que se quer contar. Os mais influentes não são necessariamente os melhores.

8- Ser perseverante.
Subscrevo, por inteiro. Dica e explicação.

9- Sacrificar-se.
Também subscrevo. Mas há que saber encontrar a fronteira entre sacrificar-se e crucificar-se. E não a transpor.

10- Ser sério.
E o David acaba quase tão mal como começou. Os piores livros que li na vida eram, todos eles, insuportavelmente sérios. Mas umas merdas quase ilegíveis. Também li livros que pretendiam ser humorísticos mas que na realidade eram muito maus, ainda que não chegassem a sê-lo tanto como as tais estuchas seriíssimas. Porquê? Porque não há coisa mais difícil de fazer bem do que o humor. E também não há coisa mais importante do que o humor. O humor é a coisa mais séria do universo, a única que torna suportável a existência. Escritor (ou qualquer pessoa, na verdade) que se leve demasiado a sério tem em si os esporos da mediocridade presunçosa prontinhos a germinar à primeira distração. E uma vez brotado esse horrendo fungo dos seus esporos é preciso um tratamento duro e persistente para que a vítima se cure, pois o raio dos fungos são umas bichezas notoriamente difíceis de erradicar. Um tratamento, lá está, composto da dose correta de humor e q.b. de excipiente. Os melhores livros que li na vida, já agora, tinham quase todos seriedade e humor em doses equilibradas. Aqui, como em quase tudo, o que é realmente importante é encontrar um equilíbrio e fazer bem seja o que for que se pretenda fazer. E se for rir, será rir. Fazer rir é precisamente tão nobre como fazer pensar... e há poucas formas melhores de levar as pessoas a pensar do que fazendo-as rir.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago

Não se assustem. Isto não vai ser mais um artigo a tecer loas ao nosso Nobel literário. Já existem em quantidade mais que suficiente, na blogosfera e na net em geral, e na imprensa, uns genuínos, feitos por gente que realmente lia Saramago há muitos anos e gostava, outros feitos por pessoinhas que passaram décadas a destratá-lo, mas aproveitam este tipo de oportunidade para se porem em bicos de pés e se mostrarem muito cultos, assim como quem diz "veem, veem, eu também sou um intelectual e sempre gostei da escrita dele".

Não, nada disso.

Isto é só um post para vos dizer que, se quiserem, podem ler um artigo que escrevi há cinco anos para publicar no número zero da revista Bang!. Está no scribd, aqui, e fala, porque foi o aspeto que me pediram para focar, da relação entre a obra de Saramago e a ficção científica. Poderia ter falado muito mais das relações entre a mesma obra e outros géneros fantásticos, porque Saramago sempre foi muito mais dado à fantasia mais ou menos mágico-realista do que à FC, mas pediram-me FC, e sobre a FC foi.

Hoje, um artigo que escrevesse com o mesmo ponto de partida seria praticamente idêntico, embora ele me obrigasse a atualizar-me. É que fiquei suficientemente dececionado com alguns dos romances pós-Nobel para fazer uma pausa de alguns anos na leitura de Saramago, e os livros mais recentes ainda estão aqui nas minhas múltiplas pilhas de material para ler à espera de uma aberta. O Caim, claro, mas também As Intermitências da Morte e A Viagem do Elefante. Mas serão lidos, como todos os outros romances já foram (até o Terra do Pecado, esse romance de Saramago que não é de Saramago), e o Objecto Quase. Têm-me dito que são melhores do que A Caverna e principalmente O Homem Duplicado, os dois livros de que menos gostei. Espero que sim. Mais tarde vos direi se são ou não, na minha peculiar maneira de ver a literatura. E direi só mais tarde, porque também não irei lê-los a correr, como muita gente certamente fará (e as vendas hão de subir à estratosfera, porque há um certo tipo de consumidor que está sempre à espera que os artistas morram para lhes mostrar o seu apreço, comprando, quando eles já não podem beneficiar desse apreço, o que é sem dúvida uma perfeita maravilha).

É que Saramago continua vivo apesar de ter morrido, o que faz com que seja uma idiotice eu ter passado o dia inteiro triste e cheio de mágoa. A vida continua como até aqui. A nossa, e a das palavras que ele nos deixou, ele que foi, de muito longe, o melhor de todos nós, aqueles que fazemos da imaginação o principal motor para aquilo que escrevemos. Apesar dos desapontamentos literários e das opiniões discordantes. Meteu-nos a todos num chinelo, obrigou-nos a todos a confrontar a nossa pequenez e mediocridade. Foi uma maldade da parte dele, com certeza, mas a vida nunca deixou de continuar por causa disso.

A vida, sim, continua. E amanhã é outro dia. Ainda andaremos todos por cá, ele incluído. Até amanhã.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Curtas

Um comentário do Francisco Norega no post aqui de baixo merece, creio, uma resposta "cá em cima" no blogue propriamente dito. Diz ele que as coisas relativamente à ficção curta estão a melhorar nos últimos tempos, com o aparecimento das revistas dedicadas ao género. E eu respondo-lhe que:

Sim, as revistas são fundamentais. Revistas, fanzines, sites, qualquer coisa onde a malta que escreve (porque há malta que escreve; os concursos estão sempre cheios de candidatos — mais sobre isto mais adiante) possa ir publicando. Mas não chega, até porque em geral todos esses veículos têm um círculo de leitores bastante limitado. Mesmo a Bang!: é descarregada por montes de gente mas, por conversas que tenho tido por aí, concluo que é muito pouco lida. A maior parte dos que a descarregam passam os olhos, pensam vagamente em ler ou lêem uma coisa ou outra, e acabam por deixar para depois. É preciso também chegar aos livros, e aqui as editoras são fundamentais e, para que as editoras apostem, é também preciso que o público se mostre interessado em colectâneas e antologias e as compre e comente como faz com os romances.

É que basta passar os olhos pelos blogues que falam de livros e literatura. Quantas vezes se vê referência a livros de contos? É só romances, romances, romances, romances e mais romances. Sagas atrás de sagas. Vejo gente a falar de todas as edições fantásticas da Presença, por exemplo, mas não me lembro de ter visto uma única referência a algo pertencente à colecção A Biblioteca de Babel fora das notas sobre lançamentos. Quando essa colecção é talvez a única colecção de literatura fantástica actualmente em publicação em que se publicam fundamentalmente contos. Do pessoal que vai escrevendo sobre o que vai lendo o único que fala mais de contos do que de romances, que eu saiba, sou eu.

OK, é verdade, podia ser pior. E já foi. Estamos melhor agora, com uma (em breve duas) revistas de contos e mais um ou dois fanzines, ainda que sejam muito baixadas dos sites e pouco lidas, do que estivemos aqui há uns anos, quando não tínhamos nada. Se isto fizer parte de um percurso, tudo do bom e do melhor, aplausos e assobios de entusiasmo. Mas julgo que continua a ser fundamental que quem gosta de contos os promova para desfazer os preconceitos ou desagrados no público que a eles é avesso, e para que a ficção curta volte a ser coligida em colectâneas e publicada pelas nossas editoras.

É que conheço gente com produção dispersa por contos e novelas que não a consegue reunir em livro e publicar. Inclusive alguns dos nossos melhores autores. E isto é francamente mau, e bem pior do que a situação que já houve em Portugal, há coisa de 15 anos, quando saíram dos melhores livros de FC&F que já se escreveram por cá, quase todos livros de contos. Óptimo seria que se voltasse a esse estado de coisas. Duma forma sustentada, de preferência.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Não participo

Não, não vou participar nisto. Por uma questão de princípio. Têm categorias para tudo e mais alguma coisa, até para o mais recente modismo com uma implantação insignificante: os booktrailers. Mas para os tradutores?

Traduquem?

Portanto não, não participo. E se, como eu, acharem inaceitável que o trabalho dos tradutores continue a ser sistematicamente esquecido (salvo quando é para deitar abaixo), o apelo que faço é para não participarem também.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Byblos

A blogosfera literária (e não só) anda por aí toda com qualquer coisa aos saltos por causa do encerramento da Byblos. E eu, como também gostava de ter qualquer coisa aos saltos, resolvi também fazer o meu comentário a esse momento de transcendental importância. Nada como estar na moda. Portanto cá vai:

Nunca lá pus os pés.

domingo, 2 de novembro de 2008

Escrever, para quem?

De tudo o que aqui é dito (refiro-me, naturalmente, ao filme) uma coisa, acima de todas, vale a pena reter. Está mesmo no fim. Bradbury descobriu a dado ponto da sua carreira que o escritor não escreve para Fulano ou Beltrano; escreve para si próprio.

Por mais que custe aos egos dos leitores, que gostam de estabelecer uma relação quase pessoal com o escritor que escreve aquelas coisas que os tocam, por vezes, tão profundamente, é isso mesmo. Escritor que tente escrever para os outros é escritor que nunca deixará de ser medíocre, que nunca deixará de se limitar à superfície das coisas. Só escrevendo para si próprio é possível atingir a grandeza. Não que escrever para si a torne inevitável, longe disso, mas é a única coisa que a torna possível.

O mistério da escrita é muitas vezes esse. Como é que se passa de algo feito para si próprio, de algo capaz de satisfazer o crítico interno, capaz de tocar o nosso próprio âmago, para algo que desperte a curiosidade, o interesse, a apreciação e, nos casos mais bem sucedidos, a devoção, de outras pessoas. Desvendar este mistério tornaria a vida de toda a gente envolvida no grande mundo da literatura muito mais fácil. Falo por mim, que apesar de ter já passado por experiências semelhantes à que o Bradbury descreve, de terminar um conto e não propriamente rebentar em lágrimas mas sentir aquele aperto no peito que é o estágio imediatamente anterior (com este conto, por exemplo; aquela avó deve andar mesmo pelo lugar para onde vão as coisas que desaparecem), nunca consegui uma ligação tão forte, nem de perto nem de longe, como a que ele consegue estabelecer com os seus leitores. E escrevo para mim. Ou seja, sou a prova viva de que isso é importante, mas não chega.

Mesmo quando escrevo disparates, escrevo-os para mim. O Por Vós lhe Mandarei Embaixadores foi escrito para me divertir (e divertiu e continua a divertir), e também para resolver um velho trauma que a escola me causou ao obrigar-me à particularmente estúpida actividade de dividir orações nos Lusíadas. Resta saber é se diverte mais alguém. E se toda aquela brincadeira em volta do Camões tem interesse para alguém além de mim.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A energia do virtual

Ora aqui está uma leitura interessante, embora já com dois anos de idade, acerca do consumo de energia dos avatares do Second Life, e respectiva comparação com o consumo de energia dos humanos de carne e osso.

E é interessante em especial para fãs e escritores de ficção científica. Porque nos admiráveis mundos novos que lemos e escrevemos não raro os constrangimentos energéticos são pura e simplesmente postos de lado, descartados como partes desinteressantes do cenário. É assim que temos nanomáquinas a fazer coisas maravilhosas, gastando energia que aparentemente obtém do nada, é assim que temos ambientes virtuais indistinguíveis da realidade e infinitamente extensíveis, é assim que temos ecologias hiperluxuriantes, com plantas e animais de crescimento instantâneo, etc., etc. Tudo para que escritores e leitores trepidem. Tudo pelo factor uau.

O problema é que às vezes há leitores capazes de fazer as perguntas chatas, como "de onde diabo vem a energia para isto?" Leitores que não se deixam deslumbrar pelos efeitos especiais, malandros dos gajos. Leitores para os quais este tipo de detalhe é suficiente para quebrar a suspensão da descrença, após o que a trepidação se transforma em bocejo e o uau se metamorfoseia em bah.

Como sair disto? Onde está o segredo? Não sei. Mas suspeito que é fazendo histórias que não exijam esse tipo de explicações. É possível; já li muitas. Mas claro que essa também é medalha com reverso. Não será difícil, por exemplo, encontrar quem, confrontado com a falta de efeitos especiais, ache as histórias empasteladas, quem exija todas as inverosimilhanças que outros rejeitam. O problema de quem cria - e também o de quem critica, e se calhar ainda mais o de quem edita e disso quer fazer negócio - é este: o público é múltiplo, procura coisas diferentes naquilo que lê, encontra qualidades onde outros só vêem falhas por nenhum outro motivo que não seja o simples olhar para as coisas sob diferentes perspectivas. E lá se foi a objectividade nas avaliações de qualidade.

Ou quase. Há coisas, não muitas, mas há, que podem ser avaliadas objectivamente. A qualidade do uso da língua, por exemplo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Coincidência cósmica

Um dos vários livros que tenho actualmente em leitura (sete, mais uma revista), um dos dois romances (os outros são livros - e revista - de contos), e, na verdade, o único de que se pode dizer com propriedade que já comecei (e estou quase a acabar), visto que do outro não li mais do que um punhado de páginas, é A Invenção de Leonardo, título que em Portugal foi dado a Pasquale's Angel, de Paul McAuley. Publicado pela mesma Saída de Emergência que tantos livros do Martin (e não só) me tem dado para traduzir.

Não tem nada a ver, mas um dos blogues que visito com maior regularidade e de que mais gosto, fruto da minha velha pancada por tudo o que tenha a ver com o Universo, é o Universe Today. É aí que obtenho a minha dose quase diária de notícias espaciais. Não é o único sítio, mas é provavelmente o principal. E além das notícias tem uma espécie de jogo, uma imagem espacial por semana, que os frequentadores deverão tentar identificar. Costumo jogar. E até acerto com uma certa regularidade, pelo menos quando não se põem com galáxias e nebulosas, que tendem a parecer-me todas iguais.

Foi o que aconteceu hoje. Reconheci de imediato a imagem, de Tritão, a maior lua de Neptuno, e lá fui deixar a notinha. Calhou ser o segundo comentador a fazê-lo, e o primeiro a dar a resposta certa, mas houve outro comentário a entrar segundos depois do meu (a hora dos dois é idêntica), também com a resposta certa. De quem?

Do Paul McAuley.

A sério. Se não é ele, é alguém que não só se apropriou do nome como liga para o blog dele, o que me parece muito pouco provável.

Ou seja, o autor do romance que estou a ler neste momento, publicado pela "minha" editora, põe um comentário quase idêntico ao meu, no mesmo blogue que eu, segundos depois de eu lá deixar o meu.

What are the odds?

Claro que quem puser uma destas numa história é imediatamente ridicularizado por quase toda a gente por usar um plot device tão inverosímil. Quem é que acredita em coincidências cósmicas? É preciso ser pateta de todo, não é?

Não é?

Pois é.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A gralha deturpadora

No mundo dos corvídeos textuais, há gralhas e há gralhas. Há gralhas, as grqlhas, que são óbvias e evidentes. Fáceis de detectar, são ainda mais fáceis de eliminar porque não fogem, não se escondem, limitam-se a ficar ali, garridamente coloridas, como toureiros a dar a capa ao touro. Depois há um segundo tipo de gralha, a grslha, ou gralha camuflada, que é simples de corrigir quando detectada, mas nem sempre é fácil de detectar. É que se esconde, muito quieta entre o ruído de fundo, sem um movimento, sem soltar um som, dir-se-ia que sem respirar. E há ainda um terceiro tipo, a gralha deturpadora, ou grelha. Estas são as piores. Não só se escondem como se chegam mesmo a mascarar daquilo que não são. Não só tentam escapar ao caçador pelo imobilismo como fogem e se esgueiram para a toca, vestidas de coelhos ou toupeiras. Astutas e terríveis, as gralhas deturpadoras exigem atenção e rapidez no gatilho e não se compadecem com cansaços e noites mal dormidas. Chegam mesmo a aproveitar-se delas.

Matei uma recentemente. No livro que acabei hoje de traduzir uma personagem reflecte sobre a sua necessidade de matar um homem. Tenta convencer-se a fazê-lo, apesar de isso ir contra a sua consciência, porque precisa de ganhar a confiança das pessoas que o acompanham e que lhe exigem que o faça. E para isso pensa: "O homem está morto. Que importa que seja a minha mão a matá-lo?"

Mas antes da gralha morta, o que a personagem pensava era: "O homem está morto. Que importa que seja a minha mãe a matá-lo?" O que é algo de muito diferente. Muito diferente mesmo.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Uma sentinela do futuro a menos

Para todos os que gostam de ficção científica, o dia 19 de Março de 2008 é um dia triste: marca a morte de uma das mais brilhantes sentinelas do futuro que iluminaram o século XX. Clarke foi indiscutivelmente um dos melhores, apesar de alguns pecados literários cometidos no fim da carreira, e será assim que será recordado no futuro que ajudou a construir.

Morreu aos 90 anos, deixando-nos largas dezenas de contos e 33 romances, alguns dos quais escritos em parceria com outros autores, e até está bem representado em tradução portuguesa, contrariamente ao que acontece com muitos outros. O último, escrito em parceria com Stephen Baxter, foi editado no ano passado e fecha a trilogia "Time Odissey" que se desenrola no mesmo universo do grande clássico que é 2001: Odisseia no Espaço (o qual, ao contrário do que há-de ser dito por aí, não é a inspiração para o filme do Kubrik, antes a consequência de Clarke ter elaborado o argumento do filme com o realizador, baseando-se num conto seu de 1951: A Sentinela) e restante série. Fala-se de um livro inteiramente seu, intitulado The Last Theorem, desde 2006. Se chegar a ser publicado, Clarke já não o poderá folhear.

Ontem foi um dia triste para quem gosta de FC. Mas não muito. Afinal, as palavras que Clarke escreveu perduram, prontas a serem lidas por gerações de novos leitores. E o mundo em que vivemos é dele consequência em mais do que um sentido. E além disso, a ficção científica tem perdido muita gente nos últimos anos. Muita gente mesmo. Já começamos a acostumar-nos a perder os monstros sagrados.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

E de repente toda a gente faz história alternativa

E de repente, aniversareia-se o Regicídio (o que para mim até tem outras ressonâncias, pois ando a traduzir uma série de livros com um Regicida em lugar de destaque) e toda a gente desata a escrever história alternativa. Ele é a Saída de Emergência e sua antologia que, por ser iniciativa inédita (e muito bem amanhada graficamente) anda nas bocas do povo, ele é portimonenses com inclinações esquerdalhas...

Quando é a próxima efeméride que pode servir de ponto de divergência? 5 de Outubro de 1910, certamente. Pergunto a mim próprio se quando chegarmos a 5 de Outubro de 2010 este surto deu algum fruto mais ou menos persistente ou se terá sido mais um dos muitos acontecimentos fugazes em que a nossa literatura fantástica costuma ser pródiga.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Curioso...

Acabei de dar-me conta de um curioso fenómeno. Costumo ser um leitor de coisas curtas. Gosto muito de contos e os romances longos tendem a aborrecer-me muito antes de chegar a meio. Tenho pouca a nenhuma tolerância para a palha com que os autores por vezes enchem páginas e mais páginas. E mais páginas.

E no entanto, no ano passado o livro de que menos gostei (ou, neste caso, que mais detestei, porque o detestei superlativamente) foi uma coisa pequenina com contos curtos e três prefácios, posfácios, introduções, o que seja. Não se ficou por menos. E eram estes os melhores textos de todo o livro, o que fala de forma cristalina da qualidade dos outros. Pelo contrário, aquele de que mais gostei é um épico gigantesco, montes de volumes e milhares de páginas, precisamente o oposto daquilo que costuma agradar-me.

Ano bizarro, este de 2007.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Da morte de Luiz Pacheco

Que raio tem um país que manteve o homem na miséria a vida inteira de lhe tecer agora encómios depois de morto? De que serve agora embandeirá-lo em génio? Agora? Não será um tudo-nada tarde demais?

À boa maneira do Pacheco, vão mas é todos à merda.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Porreirinho!

Porreiro: alguém que fala de uma das minhas traduções. E mais porreiro ainda: fala bem:

As palavras de Howard estão muito bem servidas pela tradução. Costuma-se dizer que traduttore traditore, mas a tradução cuidada destes contos preserva-lhes o vigor e a chama que são tão vitais a este género literário.


Tinha algum receio desta, confesso. Porque não gosto dos contos do Howard, receei que esse não-gosto se refletisse na tradução. Parece que não, e fico contente.

Obrigado, Artur. E olha: há mais na calha...

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Escrever ficção

Escrever ficção é ter uma arena onde gastar toda a mentira e poder assim viver a vida real de forma verdadeira.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Comentário a Rui Tavares



O Rui Tavares pôs hoje no blogue dele uma posta salomónica, com a qual concordo quase por inteiro. Mas como falta o quase, tentei deixar lá um comentário a explicar o quase que falta. Só que o weblog.com.pt está transformado na maior porcaria que já vi e o comentário não entrou. Assim, aqui fica:

Hm... não pode ser que andes a ler o que eu escrevo em sites de redes sociais... ou pode? Não, não pode!

Como já tinha escrito noutro sítio muito do que escreveste aqui, em forma condensada, menos desenvolvida e menos clara, o amen é óbvio e evidente. Só num ponto discrepo, e discrepo de modo fundamental: nos clássicos.

Não, não devem ser os clássicos a fornecer o esteio do ensino da literatura. Os clássicos atraem os miúdos que gostam de história mas afastam e reforçam o preconceito de que ler é chato em todos os outros. O ensino da literatura deve ser equilibrado, com material clássico, moderno, futurista, etc. e tal e coiso, mas fundamentalmente com material que não só seja boa literatura mas seja também divertido. Que ensine aos putos que ler pode estar muito longe de ser a seca que pensam que é.

Só assim se vai lá. Não com clássicos cheios de teias de aranha e chatos como a potassa, e/ou demasiado complexos para mentes imaturas, descrevendo mundos que não só já não existem mas que não lhes interessam nem um bocadinho. Ainda me lembro das estuchas que apanhei na escola a tentar ler alguns clássicos; se não tivesse já o hábito de ler e livros que realmente me interessavam com fartura, estou convencido de que teria pura e simplesmente desistido.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Cá está ele, o segundo

Cá está já o boneco de capa do segundo livro traduzido por mim, aquele que fui apresentar a Lisboa, no Fórum Fantástico, por indisponibilidade de última hora do autor, Harry Turtledove. É um romance quase com 500 páginas que me deu uma trabalheira imensa e uma satisfação enorme quando cheguei ao fim do trabalho pelo simples facto de ter sido capaz de chegar lá.

Explicando-me:

Aceitei o trabalho sem saber bem se seria capaz de o levar a bom termo, consciente de ser um desafio considerável, mas sem saber que seria tão grande como acabou por revelar-se. Aceitei-o porque precisava do trabalho e do respetivo pagamento, depois de uma leitura em diagonal que me deu uma ideia, só parcialmente correta, sobre aquilo que teria de enfrentar. Este é um romance de vulto, cheio de passagens em inglês do século XVI, passagens ou retiradas diretamente das obras do Shakespeare e de outros poetas/dramaturgos do tempo, ou adaptadas a partir dessas mesmas obras. Algumas estão claramente visíveis sob a forma de versos, outras estão dissimuladas no texto, à espreita de olhares atentos. A leitura em diagonal apanhou as primeiras, mas não as segundas. E tampouco apanhou a miríade de trocadilhos e subtilezas de linguagem que enriquecem o romance, detalhes esses que me esforcei por manter ou adaptar para que essa riqueza não se perdesse. É que foi só ao trabalhar este texto que me apercebi de até que ponto poderia ser arruinado por uma má tradução. E ainda por cima, o editor tinha prazos apertados por causa da projetada vinda do Turtledove a Portugal... E ainda por cima, esta era apenas a minha segunda tradução de vulto...

Mas consegui. Em cerca de dois meses tinha a coisa pronta, mesmo subestimando grosseiramente a dificuldade da tarefa (e arrependendo-me várias vezes de a ter aceite ao longo do caminho).

Na verdadeira atividade desportiva radical que foi aquela apresentação no Fórum Fantástico, tanta era a adrenalina que me corria nas veias, fiquei a saber mais algumas coisas. Parece que fui o terceiro tradutor daquele livro, tendo os dois primeiros renunciado ao trabalho, por algum motivo que desconheço (mas imagino). E parece que, segundo o próprio autor e várias outras pessoas que o leram em inglês, este romance em particular é especialmente difícil de traduzir. Foi bom de ouvir. E também foi bom ouvir o editor a elogiar-me o trabalho. Num país de elogio difícil, como o nosso, os que surgem são ainda mais preciosos.

Estou contente com o meu trabalho, e gostei bastante do livro em si. Não os acho perfeitos, nem o trabalho nem o livro, mas ambos me satisfazem. O livro por ser divertido, espantosamente bem pesquisado e sólido, cheio de personagens e cenários palpáveis, e o meu trabalho por me parecer que, mesmo tendo a componente de traição inevitável em todas as traduções, mesmo com uma gralha ou outra, não sofre quase nada com a minha inexperiência e acaba por estar mais ou menos ao nível da de A Cor do Céu, um livro não só muito mais curto, mas também quase infinitamente mais fácil de traduzir. Se esse nível é ou não bom, não me cabe a mim dizer. Leiam-no e digam-me vocês.

(Se clicarem na imagem da capa, ali em cima, poderão vê-la maior - embora sem o nome do autor e mais algum texto que consta da capa verdadeira - e ler aquilo que a editora tem a dizer sobre o livro)