quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Lido: O Leilão

Para concluir o tríptico de minicontos com que João Ventura se apresenta nesta antologia, O Leilão é uma historinha de fantasia, quase uma fábula, quase de um maravilhoso infantil, sobre os livros que compõem a biblioteca de um recém-falecido. Estes, diz-nos Ventura, gostavam muito de estar juntos e, sabendo que iam ser leiloados em breve e que esse leilão iria necessariamente ter como resultado a sua separação, discutem o que fazer. A resposta é curiosa e imaginativa, mas de novo me parece que o autor tem histórias bastante melhores do que esta, tanto em formatos mais extensos como nesta dimensão ultracurta.

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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Lido: O Espelho Antropomórfico

O Espelho Antropomórfico, apesar de um parágrafo inicial que faz referência ao conto anterior e ameaça englobar este texto nos domínios da ficção, é apenas um artigo de opinião, no qual Alexandra Pereira reflete sobre a natureza da internet. Nada de grandemente relevante e muito menos de novo, é um texto que repete ideias feitas sobre as limitações da experiência virtual por contraponto à "real" e dá voz a preocupações (que, apesar de relevantes, já foram expressas milhares de vezes, provavelmente em tudo quanto é língua) sobre quem controla a informação e a sua distribuição. Dispensável.

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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Lido: Bunker

Luiz Bras, neste livro, já apresentou contos, já apresentou textos que se podem perfeitamente ver como poemas, embora também possam ser vistos de outra forma, já apresentou textos mais experimentais e, com Bunker, apresenta um texto quase cénico, uma quase peça de teatro ou curta que, se vista de certa forma, mas se vista dessa forma, poderá ser enquadrada na ficção científica. E este quase não é causado apenas pela brevidade, mas também por exigir um encenador ou realizador com muita imaginação para ser realmente levado ao palco ou a alguma espécie de écran sem com isso se destruir o impacto do final.

Não que seja impossível. É apenas difícil. É um texto sobre um grupo de pessoas encerradas num bunker, sem saberem bem se o apocalipse, no exterior, já passou o suficiente para saírem dali. Ou talvez não, talvez seja uma história bem diferente. O final desvela mas eu não o farei aqui. Vou limitar-me a dizer que não gostei muito deste texto. Sim, é interessante, sim, o final tem impacto, mas faltou-lhe qualquer coisa. Talvez seja o meu já por várias vezes referido fraco gosto por ler textos teatrais, talvez seja o facto de eles me aparecerem sempre carentes de uma componente não literária que realmente os complete. Talvez. O facto é que este foi dos textos que menos me agradaram em todo o livro até ao momento.

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Lido: Transfert

Transfert, conto curto de Antônio d'Elía, tinha tudo para me desagradar. É o que geralmente acontece com contos que usam a linguagem da ficção científica sobretudo para poetar, prestando mais atenção à forma como as palavras rebolam na boca do que ao seu significado e correndo assim sérios riscos de resultar em disparates. E é também o que geralmente acontece com histórias de amor interespécies, que quase nunca se preocupam minimamente com os imperativos biológicos de cada uma ou, o que é pior, que tratam as espécies alienígenas como meras variantes ligeiras do muito terrestre Homo sapiens. Transfer tinha, pois, tudo para me desagradar, porque é tudo isto. É a história de um terrestre, poeta, que se apaixona por uma alienígena e tenta convencê-la, a princípio sem grande sucesso, a concretizarem esse amor.

Mas a verdade é que não me desagradou por aí além. Porque o conto está realmente bem escrito, com lirismo mas sem exageros; porque apesar de haver alguns disparates terminológicos estes são bem mais reduzidos do que é hábito em histórias destas; porque a questão da concretização do amor interespecífico é bem resolvida, de uma forma que não agride a noção de ficção científica, através do tal transfert do título; e porque o final dantesco (em sentido próprio, e entendam isto como quiserem) acaba por fazer reavaliar tudo o que ficou para trás de uma forma que também me pareceu bem conseguida.

Ou seja, não sendo um grande conto, pareceu-me um conto muito razoável, a atirar para o bom. Por improvável que isso seja num conto deste tipo.

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domingo, 28 de janeiro de 2018

Lido: Tio Einar

Muitos dos escritores ativos nos géneros fantásticos (e não só, convenhamos) têm mostrado ao longo das décadas uma marcada tendência para aglomerarem as suas histórias em séries mais ou menos longas, revisitando repetidamente os mesmos universos ficcionais. É compreensível: criar mundos e/ou mitologias é trabalho árduo e é natural que os autores por um lado se apeguem às suas criações e por outro queiram explorar tudo o que elas têm para dar, ou pelo menos o máximo que lhes for possível.

Mas Ray Bradbury tem comparativamente poucas dessas séries. Tem a de Fahrenheit 451, composta apenas pelo célebre romance e por um conto publicado antes e que o romance expande, tem a das Crónicas Marcianas, não menos célebre, tem a de Green Town, que reúne histórias de infância, ambientadas numa cidadezinha do Midwest, tem uma série de histórias irlandesas, várias bem próximas do mainstream, e tem a da Família Elliot, uma família de monstros de bom coração e variados tipos de monstruosidade, muito semelhante em vários aspetos à Família Addams que conhecemos do cinema e da TV (embora tenha dito origem em comics) e que lhe é anterior.

Tio Einar (bibliografia) pertence a esta última série. É uma história que se poderia pensar ser de horror se só se soubesse que trata sobre uma espécie de vampiro ou homem alado, o Tio Einar, precisamente, mas na realidade é uma história poética, ternurenta e com bastante humor sobre a vida do protagonista desde que, depois de uma visita a alguma paragem distante, durante o voo de regresso a casa, embateu num poste de alta tensão e se viu incapaz de voar. Um desastre completo para uma criatura como ele. E no entanto desse desastre vai acabar por nascer o amor, um casamento e uma família.

Esta é uma história doce, de uma inocência quase infantil, que eu facilmente imaginaria profusamente ilustrada e publicada em edição própria para miúdos bem pequenos, o que parece nunca ter acontecido. Literariamente, é uma história tão bem escrita como seria de esperar. Mas não é das histórias de Bradbury que mais me agradam.

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Lido: Dama Polaca Voando em Limusine Preta

Não tenho muito a dizer sobre este conto de Lídia Jorge. Apesar de se intitular Dama Polaca Voando em Limusine Preta, a dama não é polaca, propriamente, e a limusine, que é realmente preta, não voa em qualquer sentido que não seja o figurado. Trata-se de um conto realista, umbiguista e resmoneado, sobre uma inesperada viagem em limusine entre o hotel em que a narradora estava hospedada e um aeroporto ainda razoavelmente distante. O país em que a história se desenrola não chega a ser nomeado mas cheira a Estados Unidos por todo o lado, e o texto — tão bem escrito quanto seria de esperar de alguém como Lídia Jorge — é de certa forma um fluxo de consciência da narradora, enquanto vai reagindo, com total passividade, primeiro ao facto de estar a viajar numa velha limusine, e depois ao facto de o motorista ter saído da sua reserva profissional e a ter contactado porque, segundo vem a saber, ela lhe faz lembrar intensamente a falecida mulher, essa sim polaca. E aparentemente judia. Essa familiaridade aparente leva-o a fazer-lhe algumas confidências e a história resume-se a isso. Trata-se, no fundo, de um esboço de personagem para o qual a viagem não passa de pretexto. A limusine funciona como casulo que isola quase por completo as personagens do mundo exterior, e praticamente tudo se passa apenas entre a memória e a saudade (e o amor, também) de um homem e as dúvidas e inseguranças de uma mulher.

Não é um mau conto; não me chocaria minimamente, até, que houvesse quem o considerasse bastante bom. Mas é um conto que não me conseguiu despertar interesse. Pelo contrário, despertou-me aborrecimento. São gostos.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Lido: Conflitos Livrescos

Outro continho muito curto de João Ventura (não tenho bem a certeza se é miniconto ou vinheta, mas anda por perto dessa fronteira), este Conflitos Livrescos é uma mistura de fábula com ficção científica. Tem da fábula a antropomorfização de objetos inanimados, no caso livros e ebooks que, na ficção de Ventura (e na vida real, por intermédio dos fãs de uns e de outros), discutem quais são melhores e quais são piores. E também tem da fábula ou do conto tradicional em geral, reconheça-se, uma moral da história muito clara e nada subtil. De ficção científica, tem um certo e determinado acontecimento apocalíptico e futuro que vai decidir a contenda.

É uma historieta interessante, mas Ventura tem melhor, tanto em ficções assim ultracurtas como em ficções mais extensas.

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Lido: Posição Yoguística

E eis-nos de volta às abundantes e geralmente curtas histórias de Alexandra Pereira, para falar brevemente de uma que não é tão curta como a maior parte das restantes. Apesar do título, Posição Yoguística nada parece ter a ver com yoga ou com posições, é uma daquelas histórias fantásticas que têm como tema prodígios do mundo natural. No caso, um cato, que vai crescendo desmesuradamente até atingir dimensões equiparáveis às de um estádio, e o que a autora conta é esse crescimento, os sucedidos que ele causa, e as consequências que tem, até quando finalmente atinge o seu inevitável limite. É uma história bem contada, numa atmosfera próxima do realismo mágico e com uma pegada que faz lembrar um pouco algumas das histórias do Mia Couto subtraídas dos típicos neologismos. Nada de muito novo — histórias deste género têm raízes tão fortes que uma das histórias tradicionais mais bem conhecidas, a história do Feijoeiro Mágico, se encaixa nele, o que de resto está explicitamente mencionado na de Alexandra Pereira — mas a autora sai-se aqui bem da sua variação pessoal ao tema.

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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Lido: O Uso da Força

A literatura é sempre sobretudo uma questão de interpretação, mesmo quando tenta não o ser. Há sempre qualquer coisa subjacente, a espreitar dos subterrâneos do impulso criativo, à espera de ser descortinada por quem acaba por ler o produto final. Mas descortinar essas coisas nem sempre é simples e, não raro, a tentativa traz consigo o risco de ver aquilo que não existe, em exageros de exegese que até os autores desconcertam.

Em 1938, William Carlos Williams publicou este conto, O Uso da Força. É um conto realista e muito possivelmente autobiográfico, sobre um médico que é chamado para ver e tentar tratar uma miúda doente. Mas esta é teimosíssima, recusa-se a ser vista, e o médico, que vai ficando cada vez mais frustrado e furioso, acaba por recorrer à força para tratar a paciente. O enredo é esse e está bem delineado numa prosa segura e direta, sem divagações ou devaneios. Passa-se a história nos EUA e em tempo de paz. É um bom conto, mas não uma história que me desperte grande interesse.

E no entanto foi escolhido para integrar um número especial de uma revista dedicada a contos de guerra.

É possível que quem o fez tenha interpretado o conto como uma parábola sobre a justificabilidade de recorrer à força militar em determinadas circunstâncias, tenha achado que sob a capa de pacatez campestre americana Williams estava realmente a falar da violência que se ia somando na Europa, às portas da eclosão da II Guerra Mundial, justificando-a pelo menos em certas circunstâncias. É uma interpretação possível mas... Honestamente? Não me parece nada. Nem toda a ficção escrita perto da Segunda Grande Guerra teve a ver com ela, direta ou indiretamente, e os EUA, cuja psique coletiva é tradicionalmente insular, ainda estavam nessa altura na sua fase isolacionista, o que só reforça esse alheamento.

Também é possível que tenha decidido arranjar exemplos literários de outras guerras, fugindo ao óbvio. Neste caso, uma guerra de vontades entre médico e doente. OK, se assim foi nada tenho a opor. Mas a verdade é que ler esta história depois das três anteriores faz com que ela pareça bastante deslocada. A ver vamos se com as próximas esse deslocamento se reduz ou reforça.

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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Lido: Fuga

Existe uma arte delicada em retirar o tapete de baixo do leitor no fim de uma história (ou no meio; também pode ser no meio, ou até várias vezes ao longo do enredo), fazendo-o reavaliar tudo o que ficou para trás. Quando essa arte é aplicada como deve ser e tudo o resto de que se faz a literatura está no lugar que lhe é próprio, o resultado é uma obra de primera água. Mas quando é mal aplicada o resultado nunca consegue ultrapassar a mediania, sendo as mais das vezes bem pior do que isso.

Embora a execução da arte seja delicada e complicada, é fácil descrevê-la: a reavaliação tem de ter como resultado que tudo o que ficou para trás continua a fazer sentido à luz da nova informação. Ou seja, para dar um exemplo: se uma personagem tem planos e desses planos consta vir a ser perseguida pelas autoridades, os seus pensamentos revelados ao leitor pelo narrador omnisciente não podem manifestar surpresa quando se vê perseguida. Pelo menos surpresa por se ver perseguida. Se o faz na tentativa de levar o leitor a julgar que a perseguição é um problema e não estava nos planos, quando surge a informação de que não é e estava, a história torna-se incoerente e batoteira. A arte falha.

E é precisamente esse o principal problema com este Fuga (bibliografia), de Gabriel Cantareira, um conto de ação sobre uma jovem que se põe em fuga depois de roubar informações, segundo as quais a elite (de que faz parte) se prepara para apertar mais ainda a malha que cerca a consciência dos cidadãos, controlando-a e, assim, reforçando o seu poder, não só político como económico. Ou talvez seja melhor dizer que é um dos principais problemas, porque infelizmente não é o único: o conto também sofre com longos infodumps e com um português que está longe do ideal. E segue um rumo que me parece completamente equivocado: focar-se na ação da fuga e perseguição, as quais seguem um enredo muitíssimo básico, já visto centenas de vezes em centenas de fitas de Hollywood, deixando para infodump tudo o que tem de interessante.

E é pena, porque eu gosto bastante do seu substrato político e de quão relevante ele é nos tempos que correm. Mas a execução deixa tanto a desejar que não posso deixar de considerar este conto bastante fraco, o pior que esta antologia apresentou até aqui.

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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Lido: Pai de Família

Para não variar, Ricardo Lopes Moura termina o seu livrinho com mais um conto que tinha potencial para ser bastante melhor do que acaba por ser. Pai de Família é uma história muito americana, por mais que se ambiente em Portugal, e de um fantástico que talvez tente ser horror mas não consegue realmente ter o impacto necessário. O enredo resume-se facilmente. Num hospital dão entrada duas pessoas vítimas de traumas violentos; uma dessas pessoas, um médico, sofeu um acidente de viação; a outra, um criminoso, foi baleado durante um assalto. O médico salva-se, após uma demorada operação; O assaltante não mas, por algum motivo misterioso, a consciência deste é transferida para o corpo daquele. E o que se segue é a história da recuperação do criminoso no corpo do médico, e da vingança que vai fazer cair sobre os outros bandidos que o tramaram.

É uma ideia com pernas para andar. E até se pode dizer que o enredo está bem concebido, mesmo sem ser particularmente original. Infelizmente, não só o racismo subjacente a toda a história é muito dispensável (o criminoso, claro, é preto, um cliché de gangsta rap; o médico, claro, é branco... como se tivesse sempre de ser assim), como as fragilidades de Moura no tratamento da língua portuguesa saltam demasiado à vista. Mesmo que se possa culpar a revisão (ou sua ausência) por não ter apanhado disparates como "trabalhava ali à dez anos" ou "dissipar-se-à", para só falar em questões ortográficas e não no uso desadequado de certas palavras e expressões, que também está demasiado presente, a verdade é que em última análise a responsabilidade cimeira é do próprio autor, que os cometeu.

E o resultado é um conto que chega a duras penas à categoria do razoável (estou a sentir-me generoso) quando poderia ser bom. Potencial desaproveitado...

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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Lido: O Capuchinho Vermelho

Quem diria que uma história tão famosa como esta tinha origens tão humildes? Conheço esta história d'O Capuchinho Vermelho desde que me conheço; deve ter sido das primeiras histórias infantis que os meus pais me contaram, e enquanto fui crescendo encontrei-a em diversos lugares e em vários formatos. Por isso, suponho, esperava encontrar aqui no original dos Irmãos Grimm (que desta vez até parece nem ser coisa muito adulterada face à história popular propriamente dita) uma história que respeitasse o que eu conhecia mas fosse mais desenvolvida e mais longa. Mas não. É uma historinha de pouco mais de três páginas, com todos os pontos sobejamente conhecidos e muito pouco mais. As notas que a acompanham são igualmente curtas, e a única fonte de surpresa é os Grimm terem nela integrado uma segunda historinha de meia página sobre outro encontro entre o Capuchinho Vermelho e outro Lobo Mau, que se desenrola de forma bem diferente porque o Capuchinho já ia prevenido com o que aprendera no primeiro encontro.

Mas lá está, esta história é um clássico e vale sempre a pena ler os clássicos, em especial na sua versão mais ou menos original.

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Lido: O Príncipe Sapo

É em contos como este O Príncipe Sapo que melhor se nota que esta recolha de contos populares de Adolfo Coelho é realmente uma recolha propriamente dita, não um objeto literário construído por ele com base em contos recolhidos junto do povo como acontece com a compilação dos Grimm. Lê-se este conto e como que se ouve o contador de histórias sentado à lareira, a trocar todos os vês que se encontrariam em texto escrito pelos bês característicos do seu dialeto, a salpicar a contação de regionalismos, de palavras e expressões que para ele eram naturalíssimas mas até Adolfo Coelho, ele próprio beirão, portanto bem mais próximo desses falares do que os verdadeiros meridionais como eu, sente a necessidade de as grafar a itálico. A história é básica e maravilhosa e eivada de sinais de catolicismo que provavelmente não existiam nela quando nasceu: um rei não tinha filhos e a mulher, desesperada, suplica a deus um filho, qualquer filho, nem que fosse um sapo. E deus concede-lhe o desejo com toda a crueldade do mundo: dá-lhe um filho sapo. Depois, a história mete uma moça contratada para cuidar do príncipe, o que mais tarde dá em casamento (tudo contado num ápice, com a história reduzida ao seu esqueleto), mas as coisas correm mal, há mais umas peripécias e umas crueldades até que por fim tudo acaba no típico viveram felizes para todo o sempre. Uma história de encantar de ascensão social com um certo fundo comum com a da Cinderela. Tivéssemos nós tido um Grimm, alguém dedicado a tornar as histórias do povo palatáveis para o delicado (coff coff) gosto das classes altas, talvez tivesse sido esta a história a tornar-se globalmente conhecida, e não a da Cinderela. Mas perderíamos sem dúvida em irreverência. Ou seja, olhem: antes assim.

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Lido: Ventania

Um dos aspetos mais interessantes destes pequenos ou pequeníssimos contos de Luiz Bras é a capacidade que o autor por vezes mostra de relatar em extensão tão curta histórias de ficção científica de vastíssima escala. De escala, literalmente, cósmica. Ventania é um desses exemplos, uma vinheta que conta em duas páginas exatas uma história que nasce na singularidade prévia (é maneira de falar; eu sei que isto é uma incorreção científica) ao Big Bang e vai terminar num futuro bem longínquo, a história de uma entidade que apesar da sua enorme antiguidade ganha expressão concreta enquanto pessoa humana no planeta Terra e vai prosseguir séculos fora até ao seu futuro pós-humano, sofrendo múltiplas transformações até acabar por desaparecer. É um conto-vertigem, este, um conto que arrebata qualquer pessoa que se deixe encantar com a perspetiva cósmica das coisas. É o meu caso. Sim, o título está bem dado. Francamente bom.

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domingo, 21 de janeiro de 2018

Lido: Um Velho Engenheiro

Um Velho Engenheiro é um miniconto (poema?) de Luiz Bras sobre os perigos da construção de androides. Especialmente de androides chamados J4N3. E isto já é mais longo que o miniconto (poema?) propriamente dito.

É uma micro-história eficaz e divertida e de um texto deste tamanho não se pode esperar muito mais do que isso, a menos que se trate de algum exemplo completamente fora de série da arte. Este não o é. É bom, mas não fora de série.

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Lido: Homens sob Medida

Como sabes, Bob, há contos bons, contos maus, contos assim-assim e contos de todos os graus de cinzento entre estas classificações. La Palice não o diria melhor mas, como sabes, Bob, ou se calhar esta não sabes, há lapalissadas simples e lapalissadas que só o são no contexto ficcional em que as histórias se inserem.

Quero eu dizer com isto que o fenómeno, tão prevalente na má ficção científica, conhecido em inglês como "as you know, Bob" (nome que acabei de aportuguesar; podem usar à vontade), é uma forma especial de lapalissada. A lapalissada simples é uma coisa tão óbvia para todos que a sua verbalização se torna estúpida; a lapalissada especial constituída pelo "como-sabes-Bob" é uma coisa tão óbvia para todas as personagens de uma dada história que a sua verbalização se torna estúpida no contexto da história, mas que não obstante acontece porque o escritor só dessa forma consegue transmitir ao leitor a informação que acha necessário transmitir.

Como há maneiras muito melhores de transmitir informação, o "como-sabes-Bob" é um dos principais pecados cometidos pelos maus escritores de FC, mas raramente surge sozinho. E este Homens sob Medida, de Nelson Palma Travassos, é um excelente exemplo disso mesmo, porque não só é "como-sabes-Bob" do princípio ao fim, um diálogo puro entre duas personagens que explicam uma à outra conceitos que ambas conhecem como, quando saem disso (e não só), entra-se no domínio do tecnopaleio disparatado, outro pecado dos maus escritores de FC (bem, os maus aplicam-no mal, de forma demasiado evidente; os bons também o cometem, mas mal se nota) que consiste na utilização de jargão de aparência científica para apresentar conceitos cientificamente absurdos e/ou revestir conceitos básicos que qualquer criancinha conhece com uma capa de futurismo.

Homens sob Medida podia ser um conto interessante: lida com conceitos relevantes e problemáticos, hoje mais do que nunca, e até tem algumas ideias válidas, apesar da idade que já tem em cima. O seu fulcro reside na forma como o progresso tecnológico poderá um dia vir a alterar o próprio Homem e as consequências sociais que isso teria. É tema que dá pano para muitas mangas e, quando bem explorado, pode resultar em obras de primeira água. Mas Travassos explora-o pessimamente e o resultado é pouco melhor que um desastre.

Oportunidades perdidas. São uma praga.

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Lido: Gelo e Fogo

As fronteiras que separam a ficção científica do que não o é são quase sempre muito mais questão de ponto de vista e do objetivo da classificação do que coisas sólidas e objetivas. Variam. Sinal disso é a profusão de definições propostas para o género, muitas delas contraditórias entre si, que levaram alguns autores e críticos a propor definições sarcásticas do estilo de "ficção científica é aquilo para que eu aponto quando digo 'ficção científica'". Para alguns, isto é frustrante e presta-se a discussões intermináveis e, na maior parte dos casos, perfeitamente inúteis. Mas é simplesmente a inevitável natureza das coisas, nem que seja porque no preciso momento em que alguma definição porventura se tornasse universalmente aceite alguém trataria logo de produzir alguma obra que a pusesse em causa.

Vem isto a propósito de Gelo e Fogo (bibliografia), uma raridade na obra de Ray Bradbury, não por algum motivo temático ou estilístico, mas pela sua extensão de novela. Poderão ficar com uma ideia de quão raro foi Bradbury escrever nessa extensão se vos disser que, embora nem toda a obra de Bradbury esteja traduzida para português e provavelmente nem toda a obra que o está já tenha chegado ao Bibliowiki, das 189 obras que chegaram até este momento (Bradbury é o autor com mais obras já incluídas no site, e um de apenas três que atingiram as 100; os outros dois são Asimov — 167 — e King — 100) esta é a única novela.

Gelo e Fogo tem uma premissa imaginativa: o que aconteceria à tripulação de uma nave espacial se se despenhasse num planeta distante apenas marginalmente habitável, no qual algum estranho efeito de radiação causasse uma gigantesca aceleração no desenvolvimento metabólico do ser humano? Ao ponto de as pessoas passarem a viver vidas inteiras em meros dias. Ao ponto de essa vida ser uma constante guerra pela sobrevivência, uma precipitação para aproveitar os escassos recursos no mais escasso ainda tempo que existe entre dias de um calor a que é impossível sobreviver, e noites de um frio não menos assassino, durante os quais é indispensável procurar refúgio em grutas. E o que aconteceria se a população não coubesse toda numa só gruta, separando-se em grutas diferentes, divergindo assim ao longo dos dias (para eles, anos) em tribos diferentes e inimigas porque competidoras pelos mesmos recursos?

Nessas circunstâncias, o que aconteceria a qualquer atividade que não tivesse como único objetivo a sobrevivência imediata? O que aconteceria, sobretudo, à ciência, à procura do conhecimento indispensável para vencer aquele terrível planeta e conseguir partir, regressar a um lugar onde, dizem as lendas, a vida não se escoa com a velocidade de um relâmpago?

É este o ambiente em que nasce Sim, um génio do seu povo, animado de intensa curiosidade e não menos intensa rebeldia, que o levam a fazer tudo o que pode para resolver o problema. É que uma nave está visível ao longe, a uma distância que todos lhe dizem ser inacessível antes de ficar ressequido pelo calor do dia ou congelado pelo frio da noite. Uma nave que é para ele um brilhante farol de esperança.

Esta é claramente, segundo muitas definições, uma história de ficção científica. Afinal, tem naves, passa-se num planeta distante, num ambiente estranho que coloca desafios à sobrevivência. Passa nas calmas a definição que uso para alimentar o Ficção Científica Literária. No entanto, viola de forma grosseira algumas leis muito básicas do universo, nomeadamente as que limitam a quantidade de crescimento e atividade possíveis a um sistema biológico num dado intervalo de tempo à quantidade de energia disponível para o alimentar nesse intervalo, e não se dá propriamente o caso de tais leis serem desconhecidas na época em que esta história foi escrita (a primeira publicação dá-se em 1946). Não passa na minha definição preferida de FC, que exige que as obras não violem grosseiramente os factos científicos conhecidos na época em que forem escritas.

Mas isso importa?

Nem por isso, não. Por mais inverosímil que seja em alguns dos seus aspetos, a história é eficaz na criação de um enorme sentido de urgência, no estabelecimento do ambiente, implacável e violento, e na criação da personalidade do protagonista. A narrativa talvez derive por vezes em excesso, e o final talvez tenha um certo sabor a deus ex-machina que fazem com que não estejamos perante uma das melhores obras do autor. Mas há muitos que nem a isto chegam, e no quesito inverosimilhança Bradbury é um menino quando comparado com autores pulp como Raymond ou Hamilton. Está vários degraus abaixo das melhores obras de Bradbury, entre o razoável mais e o bom, mas é leitura agradável e a qualidade da prosa é aquela a que o autor nos habituou.

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sábado, 20 de janeiro de 2018

Lido: Dagon, nº 2

Um editorial, um conto, um conto curto, um poema e um artigo. Assim se compõe este número da Dagon, o segundo (bibliografia), em 66 páginas quase inteiramente de e sobre ficção científica que, no entanto, sabem a pouco. Sabem a pouco apesar de o conto ser bom, porque está muito mal traduzido e/ou revisto, carregadinho de erros. Sabem a pouco apesar de o conto curto ser dos melhores ciberpunk portugueses que li, porque isso não quer dizer que passe do razoável. Sabem a pouco porque o poema se sabota a si próprio com um final desastrado. E sabem a pouco porque o artigo, apesar de ser o texto mais relevante (e mais extenso) presente nesta publicação, não é suficiente por si próprio para a arrancar a uma grande mediania, até porque tem um interesse limitado às pessoas que se dedicam mais profundamente ao género. Mas falemos um pouco dele, já que não recebeu opinião autónoma.

Intitulado P.K. Dick - Um Visionário entre Charlatães, este artigo, escrito por Stanislaw Lem e publicado em 1975, é uma longa análise à obra de Philip K. Dick, acompanhada por opiniões variadas sobre o género como um todo (e especialmente sobre a abordagem americana à FC) e o papel da crítica. É um texto muito interessante e intelectualmente estimulante, que não envelheceu muito nestes últimos 40 anos porque ainda nos debatemos com muitos dos mesmos problemas e a obra de Dick continua a ser o que era (embora tenha tido acrescentos posteriores, claro), mas exige algumas coisas ao leitor para um desfrute pleno: um conhecimento do género acima da média, mente aberta para alguns conceitos não muito pacíficos e sobretudo conhecimentos sólidos sobre a obra de Dick.

Para alguém como eu, este artigo vale por si só a publicação. Mas julgo que para um leitor de FC mais casual ele terá um interesse limitado, baixando o interesse global deste número do fanzine. Para esses leitores seria necessário um conto realmente forte para compensar tanto espaço gasto com as opiniões de Lem. Mas esse conto não se encontra aqui. E o resultado é uma publicação que, para a generalidade dos seus leitores, deverá surgir como coxa.

Eis o que achei dos contos e do poema:
Publicação lida em versão PDF de distribuição gratuita.

Lido: De Pequenino...

Há um exercício literário que me dá um razoável gozo fazer: pegar em expressões idiomáticas portuguesas, ou de jargão em certas áreas, tirá-las do contexto, levá-las à letra e ver o que sai daí. E normalmente saem minicontos bastante surreais, como quem tiver interesse pode verificar aqui e aqui.

E pelos vistos não é só a mim que me sai disso com esse tipo de abordagem: João Ventura faz precisamente o mesmo em De Pequenino..., e o resultado é também um miniconto muito surreal. E divertido, mesmo que se possa achar legitimamente que eu, gostando o suficiente do exercício para o pôr em prática, sou suspeito para opinar sobre ele.

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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Lido: Naturalmente Feliz

Alguém com um nome como Alexandra Pereira que começa um conto com "a senhora dona escritora sentou-se no café" corre sérios riscos de que quem o leia o suspeite autobiográfico. Especialmente se o que se segue a esse início é uma daquelas tipicíssimas histórias contemplativas de escritor-a-escrever-sobre-escritor, repletas de observação da banalidade do quotidiano e de reflexões sobre este ou aquele aspeto desse quotidiano (ou dessa banalidade?). Naturalmente Feliz é um risco desses; um conto sobre uma "senhora dona escritora," já entradota, que se senta num café a observar o que a rodeia, aquela típica vida de café que praticamente todos os portugueses conhecem bem, mas em especial uma jovem, entre o divertimento, a curiosidade e a inveja. É também um conto bem escrito, como a maioria dos outros, mas é banal, limitando-se a repetir situações e ideias já expressos numa miríade de outros contos realistas de escritor-a-escrever-sobre-escritor que o umbiguismo de tantos escritores foi produzindo ao longo das décadas. Só uma coisa, na verdade, se destaca: o fim. O fim é interessante (e não, não vou revelá-lo), o suficiente para arrancar esta história à maior das medianias. Mas mesmo assim há histórias bem melhores neste volume.

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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Lido: Walpurgis Afternoon

Sabemos que um determinado género ou subgénero literário não nos diz grande coisa se lemos bons exemplos desse género e a leitura fica longe de nos encher as medidas. Passa-se isso comigo com alguns subgéneros da fantasia, muito em especial (uma vez que ganhou uma projeção invulgar nas últimas décadas) com a fantasia urbana. Para que eu me sinta realmente satisfeito com a leitura de uma fantasia urbana, é bom que ela seja excecional, porque caso não chegue lá o mais certo é deixar-me entre a indiferença e o aborrecimento.

E este Walpurgis Afternoon é uma boa noveleta de fantasia urbana. Delia Sherman tem uma narrativa sólida e fluida e usa-a para contar uma história suburbana sobre uma casa que aparece de um dia para o outro num lote vazio e sobre as suas habitantes. Contada sob o ponto de vista da filha adolescente de um casal de vizinhos, a história e as personagens vão-se revelando com mão segura, ficando o leitor a saber que estas últimas são um casal de bruxas lésbicas que decidiram ir viver para ali em vésperas do casamento, o que tem como consequência ficar a vizinhança inteira em alvoroço (e descobrir-se mais algumas bruxas entre os habitantes do sítio, também).

Uma fantasia urbana bem feita (ainda que me pareça que a comoção causada pelo aparecimento súbito de um casarão é abafada com demasiada facilidade), que toca em alguns temas bastante relevantes nos dias que correm (tanto ou mais que em 2005, ano em que foi publicada) e fala de preconceitos e da aceitação da diferença e do outro. E no entanto...

... e no entanto é apenas uma fantasia urbana boa, não excecional. E eu li a noveleta com razoável agrado, mas sem realmente me sentir puxado para a história e/ou para a forma como é contada. Tenho a certeza de que a esquecerei bem depressa.

Lido: George e o Dragão

Tal como acontece com o conto de Scavone A Bôlha e a Cratera, também este George e o Dragão se insere na corrente lunar da ficção científica de meados do século XX. Mas nenhuma caixinha é estanque e esta, a da FC lunar, também não, pelo que este conto de Álvaro Malheiros é também uma história de naufrágio espacial e de mais algumas coisas.

Sem a procura de burilamento literário que se sente na ficção de Scavone, com uma prosa mais direta e objetiva (e, sim, de menor qualidade), este conto de Malheiros consegue apesar disso ser mais interessante. George, o protagonista, é um náufrago espacial, o primeiro homem a pousar na Lua, mas incapaz de dela sair e regressar à Terra. Está longe de ser a única história já escrita com esta premissa; em algumas, o astronauta perdido não tem possibilidade de salvamento e só lhe resta tentar morrer o melhor possível; noutras, essa hipótese existe e é a esperança de sobrevivência que faz mover a história. A história de Malheiros pertence ao segundo grupo, pois o lançamento rápido de uma segunda expedição estava nos planos no caso de alguma coisa correr mal.

Essa expetativa é parte do que torna o conto interessante, mas talvez a parte mais relevante nem seja essa: é a lenta alteração do estado de consciência do astronauta à medida que o tempo vai passando, causada por algum fenómeno que o autor não deixa claro apesar de fazer referências vagas ao calor do longo dia lunar. Seja como for, é inteiramente verosímil que, seja lá por que motivo for, um astronauta numa situação assim comece a perder o pleno das suas capacidades mentais, podendo até chegar a um estado alucinatório. E isso faz com que esta FC seja bastante hard. O que é muito curioso se tivermos em conta as referências fantasistas que o conto apresenta e o título já sugere.

Este é outro ponto alto desta antologia. Não tão alto como alguns dos outros, certamente, mas o contraste com o conto que o antecede, por exemplo, é intenso.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 14 de janeiro de 2018

Lido: O Presente

Ray Bradbury, mesmo nos seus contos menores, e especialmente num certo período da carreira, consegue com frequência transmitir um intenso sentido de maravilhamento, aquele assombro sonhador e deslumbrado com o universo que há quem diga estar no âmago da experiência de ficção científica. Não sou propriamente dessa opinião — penso que a FC se enraíza em mais do que isso — mas o que é facto é que em Bradbury esse fator é muito importante. E este conto curto, O Presente (bibliografia), é disso um excelente exemplo.

Esta é uma história natalícia. Acompanhamos uma família em viagem para Marte (turística, ao que parece). Uma família de pai, mãe e filho que, porque o natal os vai apanhar em trânsito, e sem querer privar o miúdo da experiência da quadra, tenta levar consigo uma árvore de natal. Mas não consegue: a bagagem, com a árvore, excede os limites de peso. Mas lá conseguem desenrascar qualquer coisa... e qualquer coisa melhor ainda que um mero pinheiro.

É um conto menor, é certo. Mas a perícia narrativa de Bradbury está nele plenamente presente. Tudo está no seu lugar próprio, tudo é conciso mas não apressado, e toda a informação necessária para o pleno desfrute da história vai sendo oferecida em pequeníssimas migalhas ao longo do conto, sem nunca chegar sequer a ameaçar estragar a reviravolta final, em volta da qual tudo está construído. Em Bradbury, e especialmente no Bradbury desta fase, "menor" é equivalente a "bom".

Contos anteriores deste livro:

sábado, 13 de janeiro de 2018

Lido: Bajo el Signo de Alpha

Esta é mais uma das muitas publicações eletrónicas que eu fui acumulando, sem ler, ao longo dos anos. Publicada no ano 2000, em PDF, pela Asociación Mexicana de Ciencia Ficción y Fantasía, julgo que com o objetivo principal de divulgar o que se ia produzindo no país à época, Bajo el Signo de Alpha é, como facilmente se poderá deduzir, uma antologia de ficção científica (e alguma fantasia) mexicana.

As publicações deste tipo são sempre algo irregulares na qualidade dos contos, especialmente quando são oriundas de países e momentos em que a produção é relativamente escassa e portanto não oferece muito por onde escolher. Esta, longe de ser exceção, é das mais irregulares que conheço, incluindo quer contos muito bons, quer contos muito maus. Em termos de edição propriamente dita, peca ainda por erros de formatação que prejudicam bastante alguns dos contos, e porque a incógnita pessoa — pessoas? — que a organizou (a antologia não traz essa informação) optou por concentrar a maioria dos melhores contos no início, deixando o pior de todos para o fim, o que tem como consequência que o leitor que seja exaustivo e sequencial na leitura muito provavelmente vai terminá-la com uma impressão global mais negativa do que a antologia merece.

Sim, é certo que está longe de ser uma obra-prima, é verdade que no máximo seria uma antologia a merecer a qualificação de "bonzinho", mas também é verdade que os bons contos que inclui (e parece que alguns foram premiados, embora essa informação também não conste em nenhum sítio da própria antologia, o que, se a premiação for anterior à edição, é a meu ver mais uma falha editorial) justificam plenamente a edição. Destaco em especial os três contos de abertura, em particular o de Alberto Chimal, e ainda Llegar a la Orilla e El Libro de García. Estes cinco contos valem bem a pena. Os restantes sete são mais dispensáveis, ainda que vários de entre eles também se deixem ler bem.

O que não sei, e gostaria de saber, é quão representativa esta edição é da ficção científica que se fazia no México nesta época. Não posso, por isso, recomendá-la como tal. Mas julgo que será suficiente para se ficar com uma ideia, mesmo se vaga.

Tudo somado, não dei o tempo de leitura por mal empregue.

Eis o que achei de cada um dos contos:
Esta é uma antologia de download livre e gratuito, que continua disponível, entre outros sítios, aqui.

Lido: Uma Demanda Literária

Como já deve ter ficado claro de opiniões anteriores, a meu ver há uma extensão certa (ou, vá, uma quantidade limitada de extensões) para contar uma história. Histórias existem que podem ser contadas em miniconto ou em vinheta, mas outras precisam de mais espaço para respirar, e algumas, até (embora menos do que muitos autores parecem julgar, escrevendo mais que o necessário), só podem ser realmente contadas em séries de múltiplos volumes. Por vezes é impossível contá-las noutras extensões; por vezes, a extensão certa é aquela que permite extrair da história o máximo do seu potencial. Quando se tenta contá-la noutras extensões, ela aparece coxa, apressada ou palavrosa, incompleta ou cheia de palha, ineficaz, em suma.

E esta vinheta de Joel Puga intitulada Uma Demanda Literária é mais uma história contada com a extensão errada.

Trata-se de um continho de fantasia sobre alguém que anda numa demanda para adquirir certos livros, para o que vai até um sítio remoto ao encontro de um alfarrabista mágico e nómada que se materializa em certos locais e em certos momentos. Mas Puga não tem tempo para sequer sugerir o que leva o protagonista a fazer o que faz e tem de introduzir vários infodumps para retratar rapidamente o mundo ficcional, deixando ainda o final em aberto. O resultado de tudo isto é uma história bastante coxa, que melhor seria se fosse recontada em formato mais extenso.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Na Metade do Meio

Após um breve artigo, Alexandra Pereira volta aos contos (mas não às dedicatórias). Na Metade do Meio é uma vinheta muito bem escrita que tem como base o determinismo e a leitura, aquilo que está escrito no sentido teleológico da expressão, ainda que essa base seja usada muito mais como artifício literário do que propriamente como desenvolvimento de um ideário filosófico. Em duas páginas, conta-se a história de um estranho homem que convida um amigo a ir ver onde vive, num ambiente bastante surreal. O amigo vai, e vê. E é só isso, ao mesmo tempo que é bastante mais do que isso.

Não é nada fácil falar muito mais deste conto sem o revelar por completo, o que não seria bom visto que o seu enredo se sustenta na reviravolta final, portanto vou apenas acrescentar que sim, é um bom conto. Um bom conto fantástico. Mais um.

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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Lido: Mary Postgate

Mary Postgate é um conto repugnante. Escrito por Rudyard Kipling (sim, o do Livro da Selva, de Mowgli e companhia) durante a I Guerra Mundial, e bastante bom, literariamente falando, consegue a façanha de ser misógino tendo uma mulher como protagonista e é discurso de ódio do mais puro e virulento que já encontrei na literatura. Pior: porque Kipling era bom a fazer o que fazia, é discurso de ódio eficaz.

O enredo é contemporâneo da escrita. Na Inglaterra da I Grande Guerra um avião alemão despenha-se e a sua queda mata uma rapariguinha. Mais tarde, Mary Postgate, a protagonista, encontra o aviador, ferido. Este tenta render-se. Ela assassina-o a sangue-frio. E o tom de Kipling, a forma como desumaniza por completo o aviador (é tratado por "a coisa") é óbvio: assim é que é. O homem é um inimigo, logo é para matar. Tenta render-se? Não importa: mate-se. Nem uma palavra ou um pensamento é dedicado à possibilidade de se tratar de um militar recrutado à força e não ter grande vontade de andar por aí a matar gente, de estar apenas a cumprir as ordens que lhe são dadas. No mundo de Kipling isso não existe: é inimigo? Mate-se.

Um nojo. Boa literatura, mas um nojo.

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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Lido: O Espelho

E depois há contos assim.

Nunca tinha ouvido falar de Nelson Leirner, e bastou-me começar a ler este seu O Espelho para perceber com total clareza porquê. "Existem no universo homens quanto no firmamento estrelas", começa ele. Como? Por mero acaso não faltará aí um "tantos", algures? "Definindo astronáutica não diria ser somente a ciência que estuda o vôo espacial", continua, muito pouco depois. A falta que fazem as vírgulas! E, muito pouco depois, "Para muitos, que nunca saíram de nosso planeta chega a ser o encontro com o absurdo." A falta que faz entender como funcionam as vírgulas! No terceiro parágrafo (todos bastante curtos), fala de "Cores que fogem ao espectro." A falta que faz saber o que é um espectro! E logo a seguir: "Meu amigo Enovacs, o primeiro astronauta a desembarcar em Titã descrevia suas experiências neste planeta" onde se percebe que a total taralhoquice com vírgulas não é casual mas sistemática e se fica a saber que o bom do Leirner é amigo ou fã do Rubens Teixeira Scavone: Enovacs é Scavone ao contrário.

E chega. Já perceberam. Este conto é péssimo, um exemplo típico daqueles contos e autores que usam a linguagem da ficção científica sem a compreenderem nem quererem compreendê-la, como mero artifício poético. No caso de Leirner é ainda piorado pelo deficiente manejo da língua que viram acima e por uma ideia sobre mundos-espelho que até podia dar (e deu) histórias com algum interesse mas que aqui está tão mal executada que se termina de ler este conto curto com um suspiro de alívio. Dos piores contos que li no ano passado. Para esquecer.

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Lido: O Dragão

Ray Bradbury é com demasiada frequência apresentado como escritor de ficção científica, o que tem como consequência muita gente pensar que ele só escreveu FC. Mas embora eu compreenda a necessidade que as pessoas ligadas ao género sentem de reivindicar para si os escritores que nunca os renegaram (ao contrário de outros que, apesar de por vezes escreverem ficção científica, cedem ao preconceito reinante entre os pseudo bem-pensantes, quando não o alimentam diretamente), parece-me que isso tem o efeito perverso de gerar ou pelo menos alimentar uma ideia errónea não só sobre a obra do autor (antes desta ser lida), como sobre o próprio género (quando as obras são lidas).

Acho mais correto dizer-se que Bradbury foi um autor que escreveu FC, alguma da qual magnífica, mas também escreveu outras coisas. Escreveu horror, ou a sua peculiar versão dulcificada de horror (que se calhar não é propriamente horror, mas fantasia de pendor macabro), escreveu um fantástico mais respeitador da definição de Todorov, escreveu histórias inteiramente mainstream, escreveu policial, e por aí fora. E escreveu muita ficção híbrida em maior ou menor grau, que não se encaixa univocamente em nenhum género (ou se encaixa em vários).

O Dragão (bibliografia) é um desses contos híbridos, embora descaia principalmente para a fantasia. O cenário, pelo menos e à primeira vista, é-o por inteiro: cavaleiros medievais procuram num pântano um dragão que devora viajantes. Encontram-no e atacam-no, quixotescamente, pagando por isso com a vida. E depois o conto muda de perspetiva e o leitor percebe que os acontecimentos descritos são bem mais estranhos do que pareciam à primeira vista. Quem conhece as histórias de ficção científica sobre roturas no espaçotempo, gerando descontinuidades espaciais, temporais, ou ambas, razoavelmente populares em meados do século XX, talvez reconheça nesta história um parentesco claro, mas a verdade é que a FC, aqui, é só questão de interpretação. Pode-se dispensá-la sem problemas, encarando o conto como uma simples história fantástica. Boa, sim, mas não das mais impactantes, e esta palavra, impactantes, foi escolhida com uma certa ironia. Quem a ler perceberá.

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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Pensando ao vivo e em direto sobre o RBI

Acabou de me aparecer no facebook o seguinte texto, tradução parcial de um artigo de Yannis Varoufakis que pode ser encontrado aqui:

"É insuportável a ideia de uns trabalharem no duro e pagarem impostos enquanto outros escolhem não trabalhar e viver à pala da bondade legal.
Para ser legitimado, o RBI (rendimento básico incondicional) não pode ser financiado por "Jill que paga ao Jack". Por essa razão o RBI não deve ser financiado pelos impostos, mas sim pelos ganhos sobre o capital.
Um mito urbano, promovido pelos ricos, é o de que a riqueza é produzida individualmente antes de ser coletivizada pelo Estado, através dos impostos. Na realidade a riqueza é sempre produzida coletivamente e privatizada por aqueles que detêm o poder para o fazer : a classe que vive do rendimento de bens móveis e imóveis. As terras de cultivo e as sementes, formas pré-modernas de capital, foram coletivamente desenvolvidas ao longo de gerações de esforço por parte dos agricultores, antes de terem sido apropriadas por furto pelos proprietários fundiários. Hoje em dia qualquer smartphone inclui componentes desenvolvido por algum subsídio governamental, ou então através do "bem comum" que é a partilha de ideias, para as quais nenhum dividendo foi alguma vez pago à sociedade.
Como poderia então a sociedade ser compensada? Os impostos são a resposta errada. As empresas pagam impostos pela troca de serviços fornecidos pelo Estado, não pelo capital injetado que tem de gerar rendibilidades. Assim pode-se defender que "o bem comum" tem direito a uma fatia do capital social e dos dividendos associados, refletindo o investimento que a sociedade faz nos capitais das grandes empresas. E como é impossível calcular a dimensão do estado e do capital social cristalizado em qualquer empresa, só através de um mecanismo político podemos decidir quanto do capital da empresa deve ser afetado ao domínio público. Algo simples poderia ser o requisito legal em cada OPA de canalizar uma percentagem das ações da empresa p/ uma Caixa de Capital Bem Comum, cujos dividendos financiassem o RBI. O Rendimento Básico Incondicional deve e pode ser totalmente independente das prestações de segurança social, subsídio de desemprego, etc. mitigando assim a preocupação de que viria substituir a segurança social, (segurança social que comporta em si o conceito de reciprocidade entre trabalhadores assalariados e desempregados). " (…)
Isto parece-me uma ideia interessante. Mas preocupa-me a volatilidade associada ao financiamento da tal Caixa de Capital Bem Comum através das ações das empresas (imagino que cotadas em bolsa, portanto inerentemente voláteis). O que acontece quando, em situação de crise ou crash, os dividendos caem a pique, sem que deixe de existir um gasto mensal fixo com o RBI, bem mais importante numa situação dessas do que em outra qualquer? Entra o Estado a pagar o défice do sistema via impostos? E isso não faz com que volte tudo ao princípio?

E é ideia que continua a não dar resposta à minha preocupação número um: a quantidade brutal de dinheiro que é necessário para que o RBI seja mais que simbólico. Em Portugal, um RBI de 200 €/mês (bastante baixo), que fosse distribuído pelos cerca de 9 milhões de adultos que cá temos, custaria cerca de 22 mil milhões de euros. É, em linguagem técnica, uma gigantesca batelada de massa. Bem mais que 10% de todo o Produto Interno Bruto. Mais ou menos a mesma quantidade de dinheiro de todos os impostos indiretos cobrados pelo Estado segundo o orçamento para 2018. Todos.

Eu até gosto da ideia RBI, em abstrato. Mas quando olho para os detalhes não gosto do que vejo. Não estou a ver como isto possa ser minimamente viável. Mesmo com as sugestões do Varoufakis.

Lido: A Escolha de Hobson

Na ficção científica portuguesa existem alguns casos muitíssimo curiosos que geralmente passam debaixo do radar dos fãs do género, pelo menos até que alguém dá com eles e lança o alerta. E este livrinho é um excelente exemplo disso mesmo.

Trata-se de uma novela de ficção científica (ou talvez até noveleta), que saiu em 1995 de uma forma discretíssima, imagino que para uso escolar e pouco mais, apesar de apoiada pela Gulbenkian e pelo Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, o que também deve ser caso único na nossa FC. E não me surpreenderia nada se fosse caso único por tão dignas instituições terem ficado horrorizadas com o resultado. Ou talvez não; afinal, a publicação inseriu-se num tal Projeto Entre Mar e Estrelas, atividade pedagógica com duas fases que consistia primeiro em recolha de informação sobre astronomia e oceanografia e, depois, na elaboração de histórias sugeridas pela fase anterior, em colaboração com vários escritores.

E se sim não será por esse resultado ser mau, entenda-se. É que há envolvido na coisa um nome que deverá levar à cabal compreensão dos motivos, pelo menos por quem lhe conhece a prosa e os temas: João Barreiros.

Mas desfaçamos o mistério: o que é isto, afinal? É uma novela de FC, como já se disse, concebida e escrita em conjunto por Barreiros e por um grupo de sete alunos da Escola Secundária do Monte da Caparica: Ana Ferreira, Ana Margarida Gil, Ângelo Claro, Carina Figueiras, Filipa Jales, Hugo Oliveira e Marta Ribeiro. E nota-se. O tema, boa parte da prosa, o jargão futurista, as ineficiências mecânicas e as situações que elas criam, as ironias e pequenas subversões deste A Escolha de Hobson (termo que significa basicamente "ilusão de escolha"), são Barreiros típico. Mas tudo é atenuado em relação ao que se costuma encontrar no autor, num tom explicitamente juvenil, e há detalhes que fogem à "voz autoral" típica de Barreiros, mostrando portanto, supõe-se, as dos jovens coautores. Inclusivamente com alguns erros; coisas como alguém acordar "meia estremunhada," por exemplo.

A história que é contada é a de uma nave interestelar que regressa ao Sistema Solar quatro mil anos depois de ter partido, graças à dilatação do tempo típica das velocidades relativísticas, encontrando-o totalmente modificado. Planetas inteiros em falta, uma Lua que serve de painel publicitário, por aí fora. E a Terra... bem...

De baleias drogadas a lulas-polícia, passando por intermináveis e incompreensíveis trâmites burocrático-alfandegários que levam à apreensão da nave à conta da violação de não sei quantos regulamentos e por uma série de paisagens imensamente alteradas, o mínimo que se pode dizer é que a Terra tem muito pouco a ver com o planeta que esperavam encontrar. E isto é o principal motor do resto da história, passada pelo grupo a tentar perceber o que raio se terá passado e como sair da situação em que se encontra. No fim, claro, enfrentam a escolha de Hobson do título.

O resultado não é muito bom enquanto FC, mas não deixa de ser uma ficção juvenil divertida e com algum interesse. Um interesse provocado não só pela história em si como também (ou sobretudo) pelo modo como surgiu. E deixa ficar uma intensa curiosidade sobre os outros resultados deste projeto. Sim, que isto não é único; uma busca na BN informou-me de que o Entre Mar e Estrelas levou à publicação de mais três livros: Fogo de Santelmo, coordenado por João Aguiar e A Clepsidra de Cronos e A Era do Aquário, ambos coordenados por Daniel Tércio. Ora, se é possível que o livro de João Aguiar nada tenha a ver com literatura fantástica (embora também possa ter; o autor não é inocente de mergulhar o pé no género), parece-me muito improvável que o mesmo se possa dizer dos de Tércio.

É que o Bibliowiki está mesmo aqui ao lado, a dar ao rabo e a farejar paparoca, sabem?

domingo, 7 de janeiro de 2018

Revolucionário

Ao rebentar o ano de 2017, tomei uma espécie de resolução de ano novo. Já algum tempo que andava com o bichinho da escrita a formigar, com as histórias às voltas na cabeça a querer sair e outras histórias semiescritas a suplicar por uma conclusão, e disse aos meus botões (e, se bem me lembro, ao twitter) algo como "macacos me mordam se este ano não acabo pelo menos uma das coisas que tenho incompletas".

A vida, claro, tinha feito outros planos: primeiro uma inundação de trabalho, depois uma doença não identificada (na altura; entretanto já foi) mas muito chata e a seguir um braço partido na família e outra inundação de trabalho, reduziram a quase zero a disponibilidade, mental e de tempo, para escrever fosse o que fosse.

Mas recusei-me a continuar mais um ano a seco e, quando o Sérgio Gaut vel Hartmann, um editor argentino que tem intensa atividade como antologista de ficções curtas e ultracurtas, me surgiu no Facebook com uma proposta nova para contos até 300 palavras, tive imediatamente uma ideia e, algum tempo mais tarde, passei-a a escrito, pensando que nada como ficções ultracurtas para descongelar, desenferrujar os músculos ficcionistas depois de terem passado demasiado tempo adormecidos. Mais tarde ainda, tive outra ideia e também a escrevi. Ao enviar os contos, prometi aos que me seguem nas redes sociais que o(s) que não fosse(m) aceite(s) seria(m) publicado(s) aqui na Lâmpada.

Ora, a proposta do Sérgio estava limitada a um conto por autor, portanto eu sabia de antemão que um desses dois contos seria recusado. Originalmente, estava previsto ficar a saber a 31 de dezembro se algum conto meu (e qual) iria entrar no livro, mas essa data foi postergada para o fim de janeiro. Mas entretanto já sei qual não irá ser aceite. Portanto improvisei uma ilustraçãozinha, a fingir de capa, e aqui está como prometido. É ficção científica razoavelmente hard e, dos dois contos, é aquele de que mais gosto, embora também concorde que é aquele que menos respeita a proposta da antologia. Espero que gostem.

Revolucionário

Quando lhe trocaram a mão esquerda por um implante multifuncional não se importou muito. O trabalho exigia-o. E, bem vistas as coisas, o aumento de versatilidade compensava a perda de sensibilidade.
Quando lhe queimaram ambos os olhos com hélio líquido e os substituíram por lentes de largo espectro aborreceu-se um pouco. Gostava de se rever nos seus olhos castanhos e, apesar de passar a ver mais e melhor, nunca evitava algum incómodo ao ver-se ao espelho, como se não fosse bem ele quem ali estava.
Quando um dia acordou sem ambas as pernas e se viu transportado para o centro de reformulação para lhe implantarem dos novos fleximembros de cinco articulações teve um momento de verdadeiro mau humor. Mas o contrato de escravatura temporária era claro: durante cinco anos era propriedade integral da empresa; podiam fazer com ele o que quisessem. Por isso, fez um esforço para se resignar.
Quando o mindinho e o anelar da mão direita lhe foram cortados a sangue-frio e substituídos por interfaces de média velocidade teria encolhido os ombros se a ligação não tivesse ficado mal feita, causando-lhe um certo desequilíbrio neuronal.
Quando o esfolaram meticulosamente, recobrindo-o depois com uma sintetiderme multifuncional, ficou realmente irritado. Mas a sintetiderme era fotossintética e por isso negra, como a pele velha, portanto tentou convencer-se de que a mudança nem era assim tão grande.
Mas depois ligaram-lhe o mindinho direito ao mainframe do asteroide e percebeu, quando um curto-circuito fez com que recebesse alguns pacotes que não devia ter recebido, que se preparavam para lhe substituir a consciência por uma dócil IA de baixo espectro.
Foi um erro. Sério.
Há anos que ninguém se atreve a pousar no asteroide. Diz-se que ele ainda por lá anda, revolucionário, sozinho entre os cadáveres.

Lido: O Iluminiaturista

O Iluminiaturista é mais um caso de abordagem errada a uma ideia potencialmente interessante. A meu ver, naturalmente. Nas páginas dos antigos códices iluminados, diz-nos Carlos Alberto Espargueiro, vive um povo antigo que é o verdadeiro responsável pela manutenção (e também criação) das ilustrações que eles contêm, e que se vê agora acossado primeiro pela imprensa e mais recentemente pelo advento dos ebooks. Com esta ideia, o autor poderia ter escrito um texto mais extenso, arranjando um enredo e, através desse enredo, introduzir aos poucos a ideia e as suas complexidades, cumprindo assim todo o seu potencial. Poderia igualmente ter incutido nessa história todo o humor que introduziu nesta vinheta, sem ceder à necessidade do infodump. Porque é isso (e algumas fragilidades na escrita) o que estraga a vinheta: esta é descrição pura, sem enredo, um simples despejo de informação sobre as criaturas, os seus problemas e a sua função no grande esquema das coisas. É provável que Espargueiro tenha optado por esta abordagem devido às limitações que o projeto tinha (é uma antologia de ficções ultracurtas), mas a verdade é que a ideia não se conjuga bem com um texto tão curto. O melhor que ele tem é o fim, mas só funciona realmente num livro em papel e ilustrado... ora, eu li-o em ebook. E numa edição sem ilustrações.

Contos anteriores deste livro:

Lido: A Alegoria da Gaiola

E eis que de repente Alexandra Pereira passa uma rasteira a quem vai todo lampeiro ler mais um dos seus contos, apresentando não um conto mas uma crónica de página e meia, meio filosófica, meio humorística, sobre as insuficiências da linguagem. Como o título indica, A Alegoria da Gaiola vai buscar inspiração à Alegoria da Caverna e (mesmo sem que o título o indique) aos surrealistas, e é um texto bem escrito, com algumas ideias curiosas, mas insuficientemente desenvolvido para poder ser realmente relevante. Venha o próximo.

Contos anteriores deste livro: