domingo, 24 de outubro de 2021

Bob Kurosaka: Quem Pode, Faz

Nunca tinha lido nada de Bob Kurosaka e, olhando para a quantidade de coisas de sua autoria listadas no ISFDB, o mais certo é nunca mais o voltar a ler. É, ou era, daqueles autores bissextos, que raramente escrevem ou raramente publicam. E não é, realmente, grande coisa como escritor. Mas se tudo o que escreve for como este Quem Pode, Faz (bibliografia) tem pelo menos alguma piada.

Trata-se de uma história de fantasia mais ou menos urbana. Estamos numa sala de aula universitária, e um estudante contrafeito confronta o professor de matemática para que este lhe explique a utilidade da matéria. Acha que para ele, pelo menos, não tem nenhuma, visto que o rapaz tem um dom. É mágico. E quando o professor ironiza com as suas vistas curtas, resolve mostrar o que sabe fazer. Não contava era ter pela frente um adversário mais do que à altura.

Há nesta história uma ironia que vai muito além da superfície da narrativa. Uma ironia que toma como alvo os estudantes universitários e a sua autossuficiência nascida de ideias equivocadas sobre os conhecimentos que realmente adquiriram ou os talentos com que nasceram. E essa ironia tem piada. É a sua melhor qualidade. Porque de resto, é uma historinha banal, sem grandes motivos de interesse.

Conto anterior desta publicação:

Ricardo Dias: O Industrioso SL4V3 (#leiturtugas)

Ah. Este conto é bom.

Estamos num planeta distante, a bordo de uma nave de exploração, a Vasco da Gama, de onde algum tempo antes de nós, leitores, lá chegarmos, os tripulantes saíram a fim de explorarem o planeta, deixando O Industrioso SL4V3 a cuidar da manutenção e proteção da nave. SL4V3 é um robô, e Ricardo Dias consegue com a essa designação de conotações desagradáveis criar logo à partida um clima de inquietação e ameaça, que no entanto não se concretiza de imediato. E já sabem: vai haver SPOILERS.

Quer dizer, existe desde o início ameaça, mas não o tipo de ameaça que a designação agoira. Por algum motivo que SL4V3 não compreende, os nativos do planeta insistem em atacar a nave, que ele vai defendendo como pode, mas com eficácia. Os nativos, no entanto, parecem tão industriosos como SL4V3, ou talvez mais ainda, e não se detêm nem perante fortes baixas, insistindo, insistindo sempre. E o robô lá vai congeminando novos planos de defesa, tendo em conta as reservas cada vez mais reduzidas de que dispõe, sabendo que a continuar assim será só questão de tempo até ser derrotado. E a tripulação, por onde andará?

No fim percebemos por onde anda a tripulação, embora não fosse nada de que não se suspeitasse já. Dias, no entanto, faz bem a revelação, sem deixar as pistas tão óbvias que a tornem dececionante, mas também sem incorrer noutro erro bastante comum em autores pouco experientes (e mesmo em alguns experientes), o deus ex machina.

Com uma prosa que não é famosa mas é funcional, e com um enredo bem concebido, este é dos melhores contos que encontrei até agora no Fantasy & Co.

Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

José Viale Moutinho: «Negra Sombra, Negra Sombra!»

Caraças! Que conto!

José Viale Moutinho leva-nos aqui à raia minhota e aos tempos da guerra civil espanhola, na época em que as tropas franquistas, já dominantes na Galiza, andam à caça de republicanos, reais ou imaginários, a fim de os prenderem, torturarem ou simplesmente assassinarem. Mas não nos leva diretamente; leva-nos através de cartas que um dos membros dos pelotões franquistas envia ao neto de uma das suas vítimas, não se percebe porquê. Ele, nas cartas, diz que é para pedir perdão, mas não parece lá muito. Há uma sombra bem negra sobre tudo, sim, como o título de «Negra Sombra, Negra Sombra!» (sim, com as aspas) bem indica.

A história é contada de modo episódico, entrecruzando-se o passado descrito pelas cartas com o presente, época em que o destinatário daquelas procura descobrir quem é o homem e o que há de verdade ou mentira no que lhe escreve. Pois as cartas são anónimas e enviadas de lugares diferentes, o que só adensa o mistério. E também há narrações de acontecimentos contemporâneos aos descritos nas cartas, mas vistos do lado de cá da fronteira, onde só chegam os ecos e os clarões dos tiros dados em Espanha e um ou outro galego fugido à guerra, sob o olhar atento da instituição que antecedeu a PIDE. O impacto do conto, no entanto, está todo na brutalidade franquista. Ou melhor, na mistura de brutalidade com a forma como o das cartas se pinta em jovem: um tipo normal que se deixa levar pela pressão de grupo e faz assim coisas imperdoáveis. E no fim, temos uma surpresa, que vistas bem as coisas não devia ser surpresa nenhuma.

Este é um conto muito bom. Mesmo muito bom. O melhor do livro até ao momento.

Contos anteriores deste livro:

Pedro Pereira: O Caçador (#leiturtugas)

Sempre achei algo bizarras as histórias contadas em primeira pessoa nas quais o protagonista/narrador acaba por morrer. Especialmente quando são escritas no passado. Há nelas uma violação que sempre me pareceu um bom bocado grosseira de uns quantos princípios de verosimilhança necessários para a suspensão da descrença indispensável para desfrutar de uma obra de ficção. Afinal, quem narra? O morto? E como é que o morto narra, exatamente? Hm?

Não que seja impossível fazê-las bem; há uns truques que, se bem aplicados, até resultam. Mas na generalidade dos casos os autores não usam esses truques e a coisa fica presa numa espécie de uncanny valley de onde não consegue sair.

E sim, se já supõem o que aí vem o mais certo é terem acertado. Pedro Pereira não usou esses truques. E a consequência é a primeira parte de O Caçador cair nesse uncanny valley, o que só é exacerbado pela mudança de ponto de vista na segunda parte. Compreende-se bem o que ele pretendeu fazer, mas o resultado é... bizarro. Sim, a palavra é essa. Bizarro. Atenção que vêm SPOILERS.

Na primeira parte do conto estamos em plena perseguição, na pele (porque a narração é em primeira pessoa, lá está) do perseguido. Parece-nos homem, sentimo-lo como homem, comiseramos com ele por ser homem. Mais bem escrito do que está, este trecho podia até ser bom, uma vez que Pedro Pereira até consegue criar alguma intensidade narrativa... até que o narrador morre e entramos no tal vale de que falo acima. Quem diabo narrou aquilo, afinal? E como?

Na segunda parte, muito curta, mudamos para a pele do caçador... e passamos, incongruentemente, a uma narrativa em terceira pessoa. Esta parte, na verdade, serve exclusivamente como final surpresa, para virar do avesso as expetativas do leitor. O caçado, afinal, não é um homem a ser perseguido por um monstro, mas um monstro a ser perseguido por um homem. É esta a ideia que o autor teve para o conto, e sem a bizarria anterior até talvez funcionasse. Mas como está, não funciona. É pena.

Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.

Leiturtugas #124

Bem... isto desta vez atrasou bué. É esse o termo técnico: bué. Mas finjamos que não aconteceu, pelo menos até chegar o momento de explicar porquê, e façamos o post como habitualmente, referindo-se apenas à semana propriamente dita e não aos (muitos) dias que decorreram desde domingo.

Eis uma semana de Leiturtugas diferente. Porquê? Porque temos vídeo. E sorteio.

Mas antes, temos também aquilo que mais importa, as leiturtugas propriamente ditas. Chegam-nos pela mão do Artur Coelho, que prossegue o seu mergulho na obra de Altino do Tojal, opinando desta vez sobre Viagem a Ver o que Dá, romance fantástico publicado em 1993 pela Dom Quixote. Sem FC, o Artur passa assim a 5c12s.

E chegam-nos também pela mão da Carla Ribeiro, que desta feita nos fala de BD. O livro intitula-se Alma Mãe, primeiro volume da série Umbigo do Mundo, e os autores são Penim Loureiro e Carlos Silva. Edição deste ano d'A Seita e, sendo BD, conta como "sem FC". A Carla passa assim a 3c10s.

E chegam-nos também pela mão de um gajo que tem andado muito desaparecido, um tal Jorge Candeias, não sei se estão a ver quem é. Pois esta semana houve uma pequena desforra, com o aparecimento não de um post relativo às Leiturtugas, não de dois, mas de três.

Em dias sucessivos, falei aqui de três contos publicados pela Fantasy & Co. O primeiro é de autoria de Ricardo Dias, intitula-se Icarus Blues e é um conto de FC publicado em 2015. O segundo é de Pedro Pereira, data de 2013, e é um conto fantástico intitulado O Acordo. E o terceiro, também de Pedro Pereira e também de 2015, é outra história de FC, esta intitulada O Artefacto. Duas histórias com FC e uma sem, o que me leva à sinalefa de 5c2s.

E foi tudo o que aconteceu na semana. Tem sido bastante comum haver semanas só com participações oficiosas, mas acho que é a primeira vez que temos uma só com oficiais, desde que comecei a incluir os outros nestes posts, naturalmente.

Mas vamos aos outros. Temos um vídeo para mostrar. Cá está ele:


Este vídeo é o motivo do atraso deste post. É que não queria publicá-lo sem ter o sorteio do Sally feito, e esta semana tive enorme dificuldade em conjugar os momentos em que estava disponível para gravar isto com aqueles em que havia aqui à volta o sossego necessário para a gravação. Não é por acaso que o vídeo começa com "bom, vamos lá a ver se é desta": fiz várias tentativas, só conseguindo ser interrompido em todas. Ou quase todas. Grumpf.

Mas pronto, lá se fez. Agora vou contactar quem ficou em primeiro, a Despenteada, e se ela não quiser o livro (ou se não responder até domingo) passo à próxima e assim sucessivamente até alguém o querer. Se caírem aqui sem saberem o que raio é isto, está tudo explicado no último post. Onde também está uma fotografia do Sally, para quem não sabe o que é.

E pronto, já está. Retomaremos a programação normal no próximo domingo.

Espero eu.

domingo, 17 de outubro de 2021

Pedro Pereira: O Artefacto (#leiturtugas)

Este texto vem classificado como conto, mas não é um conto. Será porventura um primeiro capítulo de um texto mais extenso, o qual talvez nunca tenha sido escrito, mas conto, decididamente, não é. E isso é um problema.

Não sou, confesso, grande fã de finais em aberto. Principalmente porque acho difícil fazê-los bem. Um final, supostamente, deverá encerrar um arco de história, quando não encerra a história toda. E neste caso convém que o arco que encerra seja mais interessante do que aquele(s) que deixa em suspenso para que o leitor termine a leitura com alguma satisfação. Não sei se Pedro Pereira quis fazer isto (ou sequer se concorda comigo; pode ter outra opinião), mas se quis não conseguiu. Aquilo que fica em suspenso no final deste O Artefacto é bastante mais interessante do que o que se encerra.

O conto cheira a Star Wars por todo o lado. Num planeta habitado por uma espécie autóctone, os sakuki, há duas fações que procuram um certo artefacto de tecnologia avançada, produzido por uns tais inai. A protagonista é uma caçadora de prémios que é contratada para recuperar (i.e., roubar) o artefacto, mas acaba por descobrir ter-se metido em assuntos algo mais sérios do que julgava. E depois... não perca as cenas dos próximos capítulos.

E é pena a coisa ser assim cortada de forma tão incerimoniosa, porque aqui Pedro Pereira até conseguiu construir uma história com um ritmo interessante, pese embora o seu caráter altamente derivativo, e sem grandes fragilidades de escrita. Se fosse realmente um conto, esta história poderia ser significativamente melhor que as outras histórias suas que li até agora. Mas assim, a insatisfação que aquele final deixa para trás não permite que o seja.

Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.

Ângelo Brea: Por Causas Naturais

Começo dizendo que este conto é incomparavelmente melhor que o anterior, o que não o impede de ter os seus problemas. E são vários, mas o principal mal deste Por Causas Naturais, onde voltamos a encontrar um Ângelo Brea igual a si próprio, com tudo o que isso iimplica, é ser tão previsível. Que quero eu dizer com isto? Bem...

Estamos em Marte, nos primeiros tempos da colonização do planeta, uma fase em que vão chegando pessoas novas em cada nave que faz o trajeto vindo da Terra, mas ainda em número reduzido. Numa dessas naves chega uma mulher, e vem grávida. Um daqueles azares: embarcara sem se saber grávida e quando se apercebera era tarde demais. E Brea faz questão de sublinhar que a imprensa tem a mania de especular sobre quem será a primeira pessoa a morrer em Marte. E a nascer, também. E nesse momento, o leitor que não seja completamente tapado fica a saber o fim do conto.

Para chegarmos a esse final, Brea destaca a mulher num posto de comunicações, afastado da base principal. Por que motivo um posto de comunicações haveria de ficar longe da colónia? Não é explicado e, sem ser explicado, não faz qualquer sentido. É dos tais artifícios que são usados apenas para dar mais tensão ao enredo, mas que acabam por ter o efeito oposto, desgastando a verosimilhança. E não chega, pois o autor ainda tem de arranjar uma das tempestades de poeira que por vezes envolvem o planeta inteiro. E assim a mulher fica isolada na altura do parto, sem que se saiba bem que efeitos poderá ter o ambiente marciano no desenvolvimento do feto. Soa tudo muito a coisa forçada para se atingir um fim determinado, o que torna esse fim completamente previsível.

E quando se junta a isso aquelas características que já se esperam das prosas do autor, a FC escrita à moda antiga e um tom excessivamente didático em que as personagens explicam umas às outras coisas que ambas sabem porque Brea acha que os leitores não sabem, o resultado é mais um conto bastante fraco. Brea já mostrou que é capaz de muito melhor que isto.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 16 de outubro de 2021

Pedro Pereira: O Acordo (#leiturtugas)

Existe um artifício narrativo que conheço pela sua designação inglesa, foreshadowing, mas julgo poder-se traduzir corretamente como "prefiguração", embora não saiba se é ou não essa a palavra usada pelos estudiosos da coisa literária quando escrevem em português. Consiste em antecipar elementos narrativos futuros, fornecer pistas ao leitor atento para o que está por vir. Pode ser extremamente eficaz em fornecer ao leitor aquela sensação satisfeita de "a-ha! Percebi-te!" Mas convém usá-lo com cautela: se a pista é demasiado óbvia é fácil destruir a surpresa e com ela a tensão narrativa, transformando a satisfação em aborrecimento.

E foi isso mesmo o que Pedro Pereira fez neste conto: deixou tudo tão óbvio que o final, que pretendia ser surpreendente, nada teve de surpresa.

O Acordo é um conto que vai beber profusamente ao velho e muito reutilizado mito de Fausto. O protagonista é um condenado à morte, segundo ele injustamente, e quando o Diabo lhe aparece com uma proposta que lhe poupa a vida ele não tem de pensar muito antes de aceitar. OK, já vimos centenas de coisas muito semelhantes. Mas o autor teve uma ideia que achou poder resgatar o conto do cliché, e resolveu fazer foreshadowing. Má ideia. O foreshadowing não funciona bem em textos tão curtos, porque uma coisa é dilui-lo no meio de uma floresta de outros factoides, outra bem diferente é pô-lo quase sozinho num conto que se lê em minutos. Fica tudo tão óbvio que dói, e a tentativa de foreshadowing transforma-se em mero spoiler. E sim, vêm aí spoilers. Que nem são propriamente spoilers, dado que o próprio autor os faz.

A questão é que o Diabo avisa o homem que lhe poupa a vida em troca da alma, trocando-o de corpo com alguém que está a assistir à execução. Todo o cenário é muito americano, sim; neste conto pouco há de português. Mas também o avisa de que o acordo só abrange esse momento; qualquer acidente que lhe possa acontecer depois está fora da alçada do combinado. E neste momento o leitor já sabe o que aí vem: o tipo vai sair vivo da cadeia mas pouco depois bate a bota num acidente qualquer. Óbvio, dolorosamente óbvio. E é precisamente o que acontece.

O resultado? Um conto com muito pouco interesse.

Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Ricardo Dias: Icarus Blues (#leiturtugas)

É possível escrever histórias interessantes com base em clichés? Sem dúvida. Mas ajuda não exagerar na dose de cliché, usá-los com uma certa conta, peso e medida e arranjar motivos de interesse que ultrapassem o cliché. E escrever bem, já agora, também é bastante útil. E antes de avançarem mais, tomem lá um aviso: daqui em diante há SPOILERS com fartura.

Ricardo Dias parece ter-se inspirado no Toy Story para escrever este conto. Mais especificamente no personagem Buzz Lightyear, o intrépido (mas algo desastrado) astronauta, eternamente vestido com o seu ultrassofisticado fato espacial. O fato do protagonista desta história, Icarus de seu nome, é um fato desses, capaz até de viajar pelo hiperespaço entre planetas separados por muitos anos-luz.

E é o que faz, experimentalmente, mas um imprevisto desastroso faz com que o faça de forma precipitada. O resultado é ir parar a algum lugar desconhecido (e eu lembrei-me de todo um arco narrativo do Star Trek), onde é capturado por aliens. E sim, quando falo de aliens não estou simplesmente a falar de extraterrestres; falo dos tipos que, segundo as lendas urbanas, andam por aí e enfiar sondas retais nas pessoas e a raptar vacas. Enfim, tudo corre mal. Icarus Blues.

Mas claro, a coisa acaba por se resolver, graças a um étê que, à revelia dos outros étês, se alia ao prisioneiro humano. Já vimos este filme milhentas vezes, é só mais um cliché a juntar a todos os outros que, se fossem diluídos numa história mais longa, com outros elementos mais originais a afastar deles a atenção de quem lê, poderiam passar, mas sendo tantos numa história tão curta o resultado é uma densidade demasiado elevada para não saltarem à vista. E como o português não é propriamente perfeito, o resultado é um conto fraco.

Este livro, como todos os publicados pela Fantasy & Co., pode ser descarregado a partir daqui.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Lloyd Biggle Jr.: Maneira Doida de Lecionar

Uma das coisas a que mais graça sempre achei naquela conversa habitual de "isso é só ficção científica" proferida por quem pretende dizer que a ideia é coisa descabelada, sem pés nem cabeça, que só mesmo num livro de FC poderia encontrar cabimento, é lembrar-me das milhentas ocasiões em que coisas que eram "só ficção científica" se transformaram passado algum tempo em realidade pura e dura, apanhando, invariavelmente, as pessoas que assim falam completamente de surpresa. Ainda recentemente tivemos uma surpresa desse género, englobando o planeta inteiro, quando a pandemia obrigou a medidas drásticas de contenção. E no entanto, ninguém parece ter-se dado conta de quão insensata essa conversa de "é só FC" realmente é, nem o género pareceu ter ganho mais um pouco de respeito ao ver-se repentinamente no centro da realidade quotidiana de um planeta inteiro. Acho isto francamente bizarro. Mas é só mais uma bizarria no meio de tantas outras.

Também sempre achei muita graça a uma outra conversa que não é por ser desmentida, literalmente, todos os dias que deixa de ressurgir com regularidade: a de que a arte (ou esse seu ramo que é a ficção científica) e a política não se misturam. Falo, evidentemente, da política propriamente dita, não do seu sucedâneo falsificado que é a politiquice partidária: a discussão sobre o que poderá ser melhor para a vida em sociedade destes macacos nus que somos.

Vem isto a propósito, obviamente, desta Maneira Doida de Lecionar (bibliografia), uma noveleta de ficção científica que Lloyd Biggle Jr. publicou no já longínquo ano de 1966. É uma daquelas histórias cautelares, desde sempre abundantes na FC, que pretendem alertar para os potenciais problemas que poderão surgir caso a sociedade futura decida seguir um determinado rumo. Que rumo? É aqui que vocês sorriem um pouco: o rumo é a educação das crianças à distância; elas em casa, os professores num estúdio de televisão.

Faz lembrar alguma coisa?

Pois é, passámos por isso durante este último ano de pandemia, e se calhar vamos voltar a passar durante o ano que começou há pouco, embora de forma mais limitada. E sim, parte dos efeitos para que Biggle alerta verificam-se, embora as coisas não sejam tão extremas como ele as apresenta. A história de Biggle insere-se naquela corrente, que já existe na FC pelo menos desde que ela chegou à modernidade com Frankenstein, que alerta contra a desumanização que pode advir da mecanização da sociedade, e entretanto aprendemos que os efeitos perversos das máquinas têm mais a ver com a revelação do pior que existe na humanidade do que com a desumanização propriamente dita.

A conjuntura deu a esta história um interesse acrescido; fazendo um pequeno exercício de imaginação e pensando em qual seria a minha opinião caso a tivesse lido antes da pandemia, concluo que não gostaria muito. Não me parece que esta seja uma história realmente boa. Biggle arranja uma professora "à antiga", que chega à Terra depois de uma carreira inteira a lecionar no sistema educativo de um Marte colonizado, indo deparar com um sistema completamente diferente daquele com que estava habituada. É um choque cultural dos grandes, mas claro que vai conseguir, sozinha, mudar tudo. Essa é uma das fragilidades da noveleta, mas não a única; há nela também uma certa superficialidade e simplismo no tratamento daquilo que envolve a educação, que pouco ultrapassa a dicotomia máquinas e televisão = mau, professores de carne e osso em sala de aula = bom. Mas sendo a conjuntura a que é, a leitura tornou-se interessante.

É das tais coisas: a leitura nunca se faz num vácuo e é sempre influenciada por aquilo que a rodeia, mesmo quando não nos damos conta disso.

Tammy Plotner: What's Up 2006

Desde miúdo que sinto vontade de arranjar algum instrumento ótico que me permita fazer um pouco de astronomia amadora, nem que fossem só uns binóculos. Foi uma vontade nunca concretizada, por vários motivos entre os quais avultam a falta de dinheiro e o facto de morar numa cidade costeira, sujeita a toda a poluição luminosa e à fraca visibilidade que viver junto ao mar, no meio de casas e de luzes urbanas, origina (e também ao facto de não me apetecer muito fazer expedições a Monchique para ver estrelas). Mas a altura em que esteve mais perto de se ver concretizada foi há cerca de 15 anos. Então, cheguei ao ponto de me andar a informar sobre os melhores instrumentos em termos de relação qualidade/preço para quem mora em lugares como o meu. E quase comprei uns binóculos. Quase.

O timing coincidiu com o lançamento deste livro por um site que eu frequentava quase todos os dias, o Universe Today. A versão que me veio parar às mãos, um PDF, foi disponibilizada pelo site previamente ao lançamento do livro físico, e é, claramente, uma versão preliminar, pois tem uma relativa abundância de gralhas e alguns erros de formatação que cortam um par de textos. A What's Up This Week era uma coluna regular que a Tammy Plotner tinha no site, destinada a astrónomos amadores, uma coisa descontraída com informação geral pouco aprofundada, sugestões e dicas de observação, e este What's Up 2006 é basicamente a mesma coisa, mas com um texto para cada dia do ano de 2006. A ideia era comprar os binóculos e depois usar o livro como referência para uns bocadinhos de noite divertidos a tentar descobrir umas coisas lá em cima. Não aconteceu. E o livro ficou esquecido nas catacumbas do meu disco rígido.

Recentemente, quando me pus a vasculhar o que tinha por cá para ser lido, voltei a encontrá-lo. E "folheei-o", e resolvi lê-lo. É que se é verdade que o grosso do livro se compõe de sugestões de observações a serem feitas pelos astrónomos amadores, e algumas dessas sugestões se referem a acontecimentos celestes específicos do ano de 2006 (pelo menos no que toca aos momentos em que acontecem; há uma série de coisas periódicas cujos períodos não correspondem ao ano terrestre), não é menos certo que Plotner acompanha as sugestões com informação menos específica, efemérides, notas anedóticas sobre este ou aquele acontecimento, descoberta ou personalidade, etc., e isso é interessante mesmo estes anos todos depois.

E outra coisa que é interessante é ser muito fácil de entrever, nas sugestões que ela faz e na forma como as faz, como é o hobby do astrónomo amador, como é a vida das pessoas que se dedicam a ele. Pelo menos nos Estados Unidos, embora eu imagine que noutros pontos do globo terá pelo menos muitos detalhes em comum, mesmo que não seja exatamente igual. Foram estas duas coisas que sustentaram o meu interesse por esta leitura, mesmo não sendo propriamente o seu público-alvo, em especial passados todos estes anos. Foi curioso ler isto.

E acabei de ir à procura e descobri que este livro já não está disponível no site. Parece ser daquelas edições cujo destino é perder-se no tempo. É pena.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Mário de Carvalho: O Padre Alentejano

Pois que li este O Padre Alentejano (bibliografia), sim senhor, e agora quero um livro inteiro cheio das aventuras e desventuras e casos e descasos e desastres provocados pelo padre alentejano! Mas assim, tipo, já!

Mas claro que não vai acontecer. Mário de Carvalho há muito que partiu para outra, deixando para trás o Beco das Sardinheiras e os insólitos que lá se passam. Para ele, o padre alentejano será apenas mais um desses insólitos. Mas é pena, muita pena. É uma personagem e peras; bem desenvolvida dava pano para muitas mangas.

Pois que o padre alentejano aparece no Beco das Sardinheiras, recém-responsável pela paróquia do lugar, e perdoe-se-me o facto de me referir a ele sempre como vem no título mas Mário de Carvalho, que dá nome a quase toda a gente, resolveu não lhe dar nome algum. Ora acontece que o padre é um tipo estranho. É um padre inventor, passando mais tempo às voltas com experiências e criatividades de todos os tipos do que propriamente com as necessidades espirituais da paróquia. Não será o primeiro, e não só na ficção, mas é francamente engraçado porque as experiências que faz e as coisas que inventa tendem a ter efeitos secundários bastante imprevistos. E bastante destrutivos também. Tanto que acabam por correr com ele.

E para mim esta história ainda tem o bónus adicional de trazer um leve odor a ficção científica. É mesmo porreirinha, portanto. Soube-me a pouco, mas é mesmo, mesmo porreirinha.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Irmãos Grimm: Doutor Sabe-Tudo

E eis-nos de volta aos contos que não parecem ter sido grandemente alterados pelos Irmãos Grimm. E também de volta à farsa.

E não é, em si mesma, uma farsa particularmente interessante ou divertida, mas tem bastante interesse sociológico. É que o Doutor Sabe-Tudo não é doutor nenhum, é apenas um camponês que um belo dia, ao ver como os doutores comem bem, se encheu de inveja e resolveu ser também doutor. Como? O doutor explica: basta arranjar um livro com ar sábio, pendurar uma tabuleta a dizer "Doutor Sabe-Tudo" e ficar à espera da clientela. Ou seja: basta ser burlão.

Ou melhor, talvez: basta ser burlão e ter uma sorte desmedida, ainda que a credulidade alheia ajude bastante. É que o novel "doutor" dá repetidas mostras da sua sapiência, resolvendo crimes para cuja resolução se limita a dizer coisas que lhe vêm à cabeça e só a interpretação dos outros permite transformar em verdades. E assim se vai safando.

O interesse sociológico deriva precisamente daí: contos como este mostram que o anti-intelectualismo que põe hoje carradas de gente a recusar vacinas ou a defender que a Terra é plana, entre muitos outros disparates do mesmo calibre, é coisa velha de muitos séculos. Este conto é um sintoma dessa velha doença da humanidade, que não parece haver forma de erradicar, até porque os intelectuais muitas vezes não ajudam, preferindo encerrar-se nas suas torres de marfim a descer à plebe e falar com ela de forma que ela entenda.

Pessimista, eu? Impressão vossa.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Bernardo Rodrigues: Sismo

«Partida de novo para este pensar do pensar. O que disturba a mente e impede o voo interno, os olhos do pensamento.» Assim arranca este texto que Bernardo Rodrigues achou por bem intitular como Sismo. E já ficaram com uma ideia excelente do conteúdo. É precisamente aquilo que as pessoas de fora associam ao pior da escrita académica: prosa pretensiosíssima, hermética, repleta de palavras esdrúxulas no sentido alegórico desta palavra, enfim e em suma, chata. Que nem toda a escrita académica seja assim, ou que também surjam coisas destas fora da academia, pouco importa: a associação existe e é sólida, e o surgimento de textos destes em revistas publicadas por universidades só a reforça.

Pretende Bernardo Rodrigues com este texto contrastar tipos diferentes de inquietações que fazem mover as personagens literárias, ilustrando a ideia com duas delas. Pelo menos à superfície. Mais profundamente, pretende agregar-se, ou pelo menos mostrar-se agregado, a uma tribo. É essa a função principal de textos como estes: a sua impenetrabilidade, o seu pretensiosismo, são marcas tribais que servem para identificar os membros face aos que não o são. Fazer um texto claro, que qualquer pessoa entenda, corre o risco de deixar qualquer um entrar nos rituais sagrados da tribo; assim, esse risco não existe, ou pelo menos qualquer alguém que consiga (e queira) desbastar a palha literata será um alguém com as qualidades necessárias para ser aceite como neófito. E é isto o que realmente interessa neste texto e noutros como ele; tudo o resto é secundário.

Não faço, nem nunca farei, parte desta tribo. Felizmente.

Textos anteriores desta publicação:

domingo, 10 de outubro de 2021

Leiturtugas #123

Ora bem. Esta foi uma semana curiosa. Depois de uma série delas sempre a somar Leiturtugas, pareceu que toda a gente fez greve, uma greve que ainda por cima coincidiu com o fim das coisas que eu encontrei por aí quando me pus à procura. Não que tenhamos ficado em branco, que não ficámos. Mas para termos alguma coisa de que falar houve que importá-la do Brasil. E nem sequer foi uma opinião publicada esta semana; foi uma opinião encontrada esta semana.

É uma opinião que veio do Brasil e de uma edição brasileira, embora com participação portuguesa. Falo da opinião do Wilbur D. sobre a antologia Vaporpunk, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva e publicada pela Draco em 2010. É uma antologia com FC, ou não fosse steampunk, e como a opinião ainda foi publicada antes de outubro entra nas contas do sorteio do Sally.

E por falar no sorteio do Sally, ele será feito esta semana que entra. Já sabem que é exclusivo para as publicações a que eu tenho chamado por comodidade "participantes oficiosos nas Leiturtugas", ou seja, as que vêm em azul na tabelinha abaixo. A vasta maioria. O livro é este que aqui está ao lado. Pequenino e maneirinho. Os participantes oficiais já passaram por vários sorteios, já deverão saber como isto se faz, mas entre os oficiosos muitos estarão completamente a leste pelo que convém explicar tudo.

Então é assim: a ideia das Leiturtugas é promover a leitura e comentário de obras portuguesas de ficção científica (sobretudo), fantasia e todas as outras vertentes da literatura fantástica em sentido lato, com uns pezinhos de outros géneros e de BD metidos ao barulho de vez em quando. De vez em quando há um sorteio de algum livro oferecido para o efeito, e as possibilidades que cada um tem de ganhar têm a ver com a sorte, obviamente, mas dependem também de quantos comentários produziu. Para tal, a aleatoriedade do sorteio é ponderada com um quociente que no caso dos participantes oficiais tem a ver com o grau de cumprimento dos objetivos estabelecidos, valendo um ponto por mês cumprido, e no dos oficiosos vale meio ponto por cada leitura com ficção científica e um quarto de ponto por cada leitura sem. Na tabela abaixo isto está abreviado com Xc (i.e., X leituras com FC) e Ys (i.e., Y leituras sem FC).

Tudo isto é feito via excel e filmado. São feitos cinco sorteios e o que vale é o último dos cinco. O resultado é uma lista ordenada. Ganha quem fica no topo da lista, mas se esse blogue depois de contactado não quiser o prémio ele passa para o seguinte e depois para o seguinte e por aí fora até alguém o querer. Para este sorteio, porque é para pessoas com as quais, em princípio, tenho menos contacto (muitas vezes não tenho nenhum) vou instituir mais uma regra: há 48 horas para responder ao contacto. Se após 48 horas não receber resposta, partirei do princípio de que a resposta é negativa e passarei ao seguinte.

Tudo esclarecido (espero; se houver alguma dúvida, estão aqui as caixas de comentários e também podem encontrar-me no twitter ou no facebook), passemos à tabela de potenciais candidatos (e também ao ponto da situação dos participantes oficiais) com o quociente de cada um. Como veem, a lista é extensa.

PublicaçãoJá cumpridoFalta cumprirQuoc.
O Prazer das Coisas objetivo ultrapassado 28
Intergalactic Robot 5c11s 1 (1c) 33
Rascunhos 5c7s 1 (1c) 33
As Leituras do Corvo 3c9s 3 (3c) 10,33
O Senhor Luvas 0c9s 6 (6c) 21
A Lâmpada Mágica 3c1s 8 (3c) 26
O Diário de uma Despenteada 3c3s - 2,25
Deus me Livro 0c8s - 2
Livros de Cabeceira e Outras Histórias 3c1s - 1,75
Livros e Saltos 0c7s - 1,75
Livros? Gosto 3c0s - 1,5
A Liliana Raquel 1c3s - 1,25
Abrir o Livro 1c3s - 1,25
Marcador de Livros 2c1s - 1,25
Bloguinhas Paradise 1c2s - 1
Boas Leituras 2c0s - 1
Notícias de Zallar 0c4s - 1
Por Detrás das Palavras 1c2s - 1
Quando se Abre um Livro... 1c2s - 1
Tudo Sob Linhas 2c0s - 1
A Viciada dos Livros 0c3s - 0,75
Book Tales 1c1s - 0,75
Gotika 1c1s - 0,75
Marta - O Meu Canto 1c1s - 0,75
O Tempo Entre os Meus Livros 1c1s - 0,75
Palavras Sublinhadas 1c1s - 0,75
Postal do Algarve 1c1s - 0,75
Toupeira 1c1s - 0,75
A Biblioteca da João 1c0s - 0,5
A Prateleira Mais Alta 1c0s - 0,5
A Sério, Outro Blog 1c0s - 0,5
Activa 1c0s - 0,5
Algodão Doce Para o Cérebro 1c0s - 0,5
Armazém de Ideias Ilimitada 1c0s - 0,5
As Leituras da Fernanda 1c0s - 0,5
Atmosfera dos Livros 0c2s - 0,5
Ficção Científica em Português 1c0s - 0,5
Joana's Bookshelf 1c0s - 0,5
Karina Padilha 1c0s - 0,5
Leituras Descomplicadas 1c0s - 0,5
Ler por Aí 1c0s - 0,5
Livros e Papel 1c0s - 0,5
Marcas de Leitura 1c0s - 0,5
Ministério dos Livros 0c2s - 0,5
Não Me Apetece Estudar 1c0s - 0,5
No Conforto dos Livros 1c0s - 0,5
O Aroma dos Livros 1c0s - 0,5
O Informador 1c0s - 0,5
Papéis e Letras 0c2s - 0,5
Portugueses Contemporâneos 1c0s - 0,5
Quem Me Lera 1c0s - 0,5
Wilbur D. 1c0s - 0,5
A Outra Menina Bennett 0c1s - 0,25
Armando Frazão 0c1s - 0,25
As Leituras do Fiacha 0c1s - 0,25
Books Coffee Break 0c1s - 0,25
D311nh4 0c1s - 0,25
De Rerum Natura 0c1s - 0,25
Estante de Livros 0c1s - 0,25
Faces de Marisa 0c1s - 0,25
Geocrusoe 0c1s - 0,25
Gothic Clare 0c1s - 0,25
Horas Extraordinárias 0c1s - 0,25
Ler y Criticar 0c1s - 0,25
Livros 2009 0c1s - 0,25
Livros de Vidro 0c1s - 0,25
My Best Toys 0c1s - 0,25
Não Digas Nada a Ninguém 0c1s - 0,25
O Livro Pensamento 0c1s - 0,25
Profissão: Leitor 0c1s - 0,25
The Girl Who Reads Books 0c1s - 0,25

Então vamos a isso. Resta-me apenas desejar-vos boa sorte, boas leituras e despedir-me até para a semana.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Que editoras estão a publicar contos?


Giro. Aparentemente, o blogger não me deixa responder a comentários no meu próprio blogue.

Vai por aqui, então.

A Olinda perguntou-me, aqui, que editoras estão agora a publicar contos. E o que eu tentei responder-lhe foi que...

Quando falei do estigma estar a ficar menos intenso referia-me ao dos leitores, não tanto ao das editoras.

Seja como for, e agora de repente, lembro-me de quatro editoras com publicação recente de livros de contos na área da FC&F: Imaginauta, Divergência, On-y-Va e Coolbooks. E dando uma olhadela na secção de contos da Wook provavelmente encontrar-se-iam mais.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Escrita de setembro


Tal como ameacei na nota de agosto sobre o que vou escrevendo, setembro foi o mês em que a escrita de nova ficção começou realmente a entrar em velocidade de cruzeiro. Ainda não muito elevada, ainda longe, por exemplo, dos meses realmente produtivos do ano passado, mas mesmo assim a produção do mês ficou só muito ligeiramente abaixo da do mês mais produtivo deste ano, abril.

Foram quase 5300 palavras novas, cerca de 16 páginas, todas para o tal romance incompleto que resolvi completar. Mais ou menos uma página de dois em dois dias.

Continuando a este ritmo é possível que o livro fique escrito para o ano que vem, mas também pode perfeitamente só ficar pronto em 2023. Ele foi interrompido ainda no início, mal tinha chegado ao tamanho de novela, e julgo que é coisa para se tornar razoavelmente extensa. Umas 300 páginas ou mais. Provavelmente mais; talvez bastante mais. É possível que atinja as 100 antes do fim de 2021 — se a produção acelerar atinge de certeza — em especial se eu não fizer pausas para ir escrevendo outras coisas nos entretantos. Não sei; veremos. Para já, vai avançando.

Quem quiser saber como vai isto evoluir só tem de ficar atento a este espaço. Daqui a um mês voltaremos a falar.

domingo, 3 de outubro de 2021

Leiturtugas #122

Mais uma semana, mais Leiturtugas. E desta vez vai mesmo chegar ao fim o material que fui descobrir no meu refrescamento da lista de fontes. Mas antes...

... mas antes temos os participantes oficiais no projeto, cuja presença está esta semana nas mãos da Tita, que nos traz uma opinião em vídeo sobre dois livros de Rute Simões Ribeiro. Um deles, O Homem que Sonhou, parece ser uma peça distópica autopublicada em junho via Amazon. Com FC, portanto.

O outro, O Escritor e o Prisioneiro, é uma noveleta também autopublicada na Amazon em 2018 e parece pender mais para um certo horror psicológico, ou seja, entra na coluna dos "sem FC". A Tita soma e segue, mesmo depois de cumprir os mínimos. Assim é que é! Sigam o exemplo da Tita, não o do Jorge, que vai atrasadíssimo.

Quanto aos oficiosos, temos uma opinião atrasada da semana passada, visto que o Paulo Serra resolveu os problemas que teve no blogue. A obra de que ele fala é o romance fantástico de Julieta Monginho, Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio, uma edição da Porto Editora. Sem FC.

Já esta semana, a Júlia Martins opinava sobre mais um livrinho infantil que parece estar entre o maravilhoso e a fábula. O Mistério da Meia Desaparecida, de Vitória Alves e ilustrado por Sandra Sofia Santos, é uma edição da Tcharan (e olhem que nome para uma editora, hã?). FC? Népia.

Depois foi o Nuno Coelho a estrear-se aqui graças à sua opinião sobre um romance que parece ter mergulhado de cabeça no realismo mágico. O título é A Balada do Medo, o autor é Norberto Morais, e o livro foi publicado em 2019 pela Relógio d'Água. FC? Não há.

De seguida tivemos a Toupeira a opinar sobre um livro de José Rodrigues dos Santos. Publicado pela Gradiva em 2006, A Fórmula de Deus tem um cheirinho mais ou menos ténue a FC, como de resto é comum acontecer na literatura inspirada por Dan Brown.

E a encerrar o mês, o Tomé publicou uma opinião sobre um livro de que também a Tita falou esta semana: a peça O Homem que Sonhou, de Rute Simões Ribeiro.

Por fim, vamos lá a concluir a lista de coisas que encontrei por aí nas minhas pesquisas.

Encontrei, por exemplo, a opinião da Maria João Covas sobre o muito lido Segredo Mortal, de Bruno M. Franco. Por esta altura, mesmo que só passem uma vista de olhos sobre estas notas de vez em quando, já sabem tudo o que há para saber sobre esse livro.

Também encontrei a opinião do José Pacheco sobre um livro que já encontrámos aqui hoje: Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio de Julieta Monginho. É ver acima.

Encontrei a opinião de alguém que já apareceu aqui hoje, o Nuno Coelho, sobre um livro que não apareceu hoje mas apareceu em outras notas semanais: Palavra do Senhor, o livro de fundo cristão (ou não) de Ana Bárbara Pedrosa. Edição Bertrand, deste ano. Sem FC.

E encontrei a opinião da Maria do Rosário Pedreira sobre outra fábula infantil: Histórias de (En)Contar de Um Lobo Que não Gostava de Matemática. A autora é Maria Francisca Macedo, a edição é da Fábula e data do ano passado.

E pronto, tá feito. Segue agora a programação normal.

Ah, sim, já me esquecia. O sorteio do Sally, exclusivo para os participantes oficiosos, não está esquecido e vai ser feito com base no número de leituras de cada publicação até este post. Não publico ainda a tabelinha, que este post já vai demasiado longo. Fica para a semana. Quanto ao sorteio em si, ficará provavelmente para a outra semana. Até lá.

João Barreiros: A Arder Caíram os Anjos

E no princípio foi A Arder Caíram os Anjos (bibliografia).

Vá, imagino-vos aí a dizer, não sejas enigmático. Desembucha lá. Que raio queres tu dizer com essa bizarra referência bíblica? Algo a ver com os anjos do título?

Sim, mas não. É que esta é a noveleta que deu origem a todo este Terrarium. Existe na anglosfera um termo de que não há tradução estabelecida em português, fix-up novel (João Barreiros e Luís Filipe Silva chamam-lhe romance em mosaicos, eu tenho preferido romance-colagem), isto é, um romance feito pelo menos parcialmente a partir de textos com existência autónoma anterior, e esta noveleta de João Barreiros foi o texto, publicado originalmente no Brasil e aí premiado, que levou ao desenvolvimento deste romance-colagem e à parceria com o seu coautor.

E é um texto "à Barreiros". Quem não conhece ficou na mesma, quem conhece sabe perfeitamente do que estou a falar. Pancadaria a rodos, montes de coisas desfeitas "com o máximo prejuízo", mas também uma construção de ambiente muito sólida servida por uma imaginação invejável, um protagonista completamente ultrapassado pelos acontecimentos mas capaz de se desenvencilhar dos escolhos aparentemente intransponíveis que o universo lhe põe no caminho, sem saber como nem porquê, e raízes profundamente inseridas no imaginário popular.

Aqui, a parte do imaginário popular a que Barreiros faz referência é muito cristã. Sim, o título para aí aponta, mas como sabemos os títulos por vezes induzem em erro. Não é o caso. A história arranca com a chegada à Terra de uma "potestade", transfigurada em arcanjo; um elemento de uma espécie alienígena incompreensivelmente avançada e poderosa, a espécie responsável pelo êxodo de outros alienígenas do centro da galáxia e sua chegada à Terra. O que a atrai ao nosso planeta periférico é sequência direta dos acontecimentos das primeiras histórias: o roubo ao Mr. Lux e a entrada em funcionamento de tecnologia alienígena avançada, e por conseguinte proibida, que esse roubo pôs em mãos que não deviam ter a ela acesso.

Quanto ao Mr. Lux, esse também se transfigura, mas de outra forma. Desde as histórias anteriores sabemos que ele não é bem o que aparenta ser, ou não tivesse na sua posse precisamente a tal tecnologia proibida que está no fulcro de tudo. Mas aqui começa a ganhar mais um pouco de solidez, ao assumir o papel de... hm... Repararam na semelhança? Lux, palavra latina que significa luz, e está na raiz de outra palavra que também significa luz apesar de designar habitualmente um tal Senhor das Trevas? Apanharam? Lúcifer?

Claro que o uso da mitologia cristã não é literal. No mundo criado por Barreiros, os anjos, caídos ou não, são apenas máscaras com que os alienígenas decidem apresentar-se. Mas a guerra da luz com as trevas que está muito enraizada na mitologia judaico-cristã e transcende em muito a mera escala humana corresponde a uma guerra igualmente transcendente entre as ultrapoderosas criaturas que dominam o universo de Barreiros. Esta noveleta narra um episódio dessa guerra; e a sua principal qualidade, além do uso inteligente (e bastante pós-moderno) de mitologias prévias para aumentar a eficácia da transmissão da ideia ao leitor, consiste no facto de nada correr inteiramente de feição a nenhum dos intervenientes.

E além disso, todo o universo continua aqui a ser ampliado. No Terrarium como um todo, e nas histórias que o compõem em particular, não encontramos muita daquela exposição frequentemente entediante que explica ao leitor tintim por tintim toda a ideia, o ambiente, as personagens, por aí fora. Os infodumps. Não. Aqui a informação vai sendo transmitida aos poucos, por vezes à medida que vai sendo necessária, por vezes apenas onde faz sentido. E é também por isso que esta história é — estas histórias são — tão boa.

Venha a próxima.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Irmãos Grimm: A Água da Vida

Depois de uma quantidade assinalável de contos que os Irmãos Grimm parecem ter-se limitado a transcrever mais ou menos no estado em que lhes foram transmitidos, ainda que não seja de afastar a hipótese de muitos deles terem recebido retoques estilísticos para melhor se adequarem a uma publicação destinada a ser lida, eis que reaparecem as histórias que os irmãos (ou um deles, pelo menos) terão criado, ou recriado, a partir de fontes díspares.

Um título como A Água da Vida facilmente identifica o que aqui podemos encontrar. Ou pelo menos identifica facilmente para qualquer pessoa com um pouco de experiência na leitura de histórias de fantasia ou maravilhoso, e/ou de cultura geral, visto que este tema da água que dá vida tem sido muito usado, sob as mais variadas formas, e constitui parte do substrato cultural de, pelo menos, qualquer europeu. A celebérrima fonte da eterna juventude, afinal, não passa de uma variante desta ideia, não é?

Encontramos aqui um rei moribundo com os três filhos da praxe. Estes, ao ouvirem falar de um lugar distante onde existe uma água milagrosa que cura qualquer doença, resolvem partir à procura dela. Um de cada vez, como é da praxe, porque quem parte primeiro não regressa, também como é da praxe. A leitura do conto explica porquê, e ninguém que tenha lido os contos anteriores se surpreende com o motivo: os irmãos mais velhos são arrogantes e caem vítimas dessa arrogância e da vingança de quem é alvo dela. Mas o mais novo é um porreiro, resolve o assunto e fica tudo bem, como quase sempre.

Este é um conto com o seu interesse, especialmente se lido isoladamente de todos os outros. É que no contexto dos restantes contos traz demasiados elementos repetidos para evitar uma certa sensação de mesmice. É o principal problema que encontro nesta literatura popular, quando vista da perspetiva de simples leitor: um leitor quer ser surpreendido, e estes contos reutilizam-se e vampirizam-se tanto uns aos outros que ao fim de algum tempo já começam a parecer todos iguais.

Ou, vá, muito parecidos.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Leiturtugas #121

Ora vivam. Começa aqui mais uma nota de divulgação das Leiturtugas que foram aparecendo por aí na última semana. E não só.

Entre os participantes oficiais no projeto, tivemos mais uma vez o Artur Coelho, que parece estar em pleno mergulho pelo velho mais-ou-menos-pulp a que tivemos direito por cá em décadas que já vão ficando razoavelmente distantes. Esta semana opinou sobre Eu, Ross Pynn, um romance policial de Frank Gold (sim, é tuga) que homenageia Ross Pynn, outro escritor de romances policiais e não só (e sim, também é tuga). O livro foi publicado pela Europress em 1985. Nada de FC e o Artur passa a 5c11s.

Quanto a oficiosos, houve bastante mais, o que de resto tem sido hábito.

Começamos pela Fátima Costa, que opina sobre um livro que já apareceu por aqui várias vezes: Prisioneira do Tempo, de Patrícia Madeira. Já se sabe, é edição da Cultura, deste ano, e tem um levíssimo odor a FC.

Seguimos para dose tripla da Despenteada, que começa por opinar sobre a coletânea carrolleana de Pedro Rodrigues, Alice do Lado Errado do Espelho, edição também da Cultura mas do ano passado, e sem FC alguma.

No mesmo dia, a Despenteada publicou outra opinião, desta feita sobre um romance de fantasia: Aquorea (ou Inspira), de M. G. Ferrey. Edição deste ano da Nuvem de Tinta. E aqui não há nada de FC.

E no dia seguinte compôs o ramalhete com outra opinião sobre outro romance de fantasia, julgo que esta em variedade urbana: A Rapariga Invisível de Carlos M. Queirós. Outra edição da Cultura, esta do ano passado.

Depois tivemos o LV Paulo, em estreia, com a sua brevíssima opinião sobre a antologia O Atlântico Tem Duas Margens, organizada por José Manuel Morais e publicada em 1993 pela Caminho. Esta tem bastante FC.

Por fim, tivemos o Nuno Ferreira a opinar sobre O Deus das Moscas tem Fome, a coletânea de Luís Corte Real publicada este ano pela Saída de Emergência. Nada de FC por aqui.

(na verdade ainda havia mais uma coisa, mas o site está com problemas; se forem resolvidos entretanto, ficará para a lista da semana que vem)

E como isto já vai com bastante atraso, vou só deixar aqui mais duas das coisas que fui encontrando nas minhas pesquisas. O fim ficará para a semana que vem.

Em abril, a Maria João opinava sobre Segredo Mortal, o tecnothriller de Bruno M. Franco que já todos sabem ser edição da Cultura.

E em julho, a Cris opinava sobre Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio, o romance fantástico de Julieta Monginho publicado pela Porto Editora.

E chega. Até para a semana.

Anton Tchekhov: Amor

Ninguém estava nada à espera que uma antologiazita de Contos Românticos incluísse um intitulado, muito simplesmente, Amor, pois não? Claro que não. E é um bom conto, apesar de, mais uma vez, estar bem longe do tipo de história que geralmente me interessa. É bom porque Anton Tchekhov arranja um protagonista apaixonado por uma mulher que nada parece ter a ver com ele e consegue com isso gerar uma tensão narrativa que numa história destas seria difícil arranjar de outra forma. E porque no fim a resolve muito bem.

Bem, quando digo que seria difícil arranjar de outra forma quero dizer principalmente que seria difícil fugir ao habitual cliché deste tipo de contos: a história ser propulsionada por um dramalhão qualquer de faca e alguidar, pronto para deixar todos os coraçõezinhos sensíveis a despejar uma torrente de lágrimas aorta acima.

Aqui, felizmente, não temos nada disso. Tchekhov passa o conto inteiro, enquanto relata várias peripécias do noivado e do casamento, a explicar por que motivo o seu protagonista nada tem em comum com a mulher. O desfecho parece óbvio: a desistência do casamento, ou o divórcio caso a coisa se prolongue o suficiente. Em suma, cada um para seu lado e façamos de conta que nada aconteceu. Mas o desfecho não é esse. Tchekhov consegue, sem ser minimamente lamechas nem recorrer àqueles exageros sentimantaloides que tornam insuportável a maior parte da literatura romântica, passar a ideia de que o amor verdadeiro é superior a tudo, incluindo às maiores incompatibilidades de caráter.

Este é um conto muitíssimo bem construído. Sim senhor. Se tivesse chapéu tê-lo-ia tirado.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 19 de setembro de 2021

Leiturtugas #120

Sintam-se bem-vindos a mais uma semana cheia de Leiturtugas.

Começando, como sempre, pelos participantes oficiais no projeto, temos esta semana dose dupla de Artur Coelho.

O primeiro livro sobre o qual ele opinou é mais uma obra de Altino do Tojal, desta feita o romance O Oráculo de Jamais, numa edição de 1979 da Sá da Costa (que curiosamente está ausente do Bibliowiki, onde consta uma edição do mesmo ano do Círculo de Leitores). É um livro sem nada de FC, pelo que o Artur somaria 5c9s caso não tivesse publicado também uma segunda opinião.

Mas publicou, ainda que também essa opinião se tenha debruçado sobre outro livro sem nada de FC. E pelos vistos com pouco fantástico no geral, apesar do título fantasmagórico. É outro romance, este de F. C. Melim, intitula-se A Cripta, e foi uma edição de 1986 da Europress. Soma assim o Artur 5c10s.

Quanto a oficiosos, também tivemos dois, começando pela Ana Catarina, que publicou um post só com um vídeo, no qual opina, entre outros livros, sobre Prisioneira do Tempo, o romance "outlanderesco" de Patrícia Madeira publicado este ano pela Cultura. De resto, a Ana Catarina já tinha sido descoberta por mim graças a outro post em que fala desse mesmo livro, aqui num vídeo dedicado só a ele e também em texto.

Por seu lado, a Inês Pereira dedicou-se a José Saramago e opinou sobre As Intermitências da Morte, livro de 2005 que ela parece ter lido na edição recente da Porto Editora.

E pela penúltima vez (julgo eu; pode ser antepenúltima), temos também mais alguns resultados da minha revisão da matéria dada.

Temos, por exemplo, a Rosarinho e a sua opinião (mais uma) sobre Segredo Mortal, o tecnothriller de Bruno M. Franco. Edição da Cultura, como já deverão estar fartos de saber.

Temos a Joana, também com uma opinião sobre Segredo Mortal de Bruno M. Franco. Soma e segue.

Temos a Despenteada, com a sua opinião sobre Prisioneira do Tempo, de Patrícia Madeira.

Temos a Rita Costa e a sua opinião sobre Deus Pátria Família, o romance de HA de Hugo Gonçalves, publicado pela Companhia das Letras.

E para terminar, por hoje, temos a opinião de Carlos Fiolhais sobre Os Canibais e Outros Contos, de Álvaro do Carvalhal, um fantástico inclinado para o horror e o bizarro que ele leu numa edição da Livros do Brasil.

Vá. Chega por hoje. Fiquem bem. Para a semana cá nos encontramos.

sábado, 18 de setembro de 2021

Fernão Mendes Pinto: Zeimoto Dá Primeira Espingarda aos Japões

O meu pai passou a vida a recomendar-me livros. Foi ele, de resto, quem me passou para as mãos os primeiros livros de ficção científica, o que o torna responsável por tudo isto, do blogue à vida que vivi até ao ano passado. Mas houve alguns livros que ele me recomendou e eu nunca li, por um motivo ou por outro. Na verdade era inevitável: as recomendações foram muitas e variadas. Mas alguns dos livros em falta são livros que eu sempre tive nos meus planos ler, mas por alguma razão nunca cheguei a transformar os planos em prática. Um desses livros é a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto.

Bem, agora não posso dizer que já tenha lido o livro, mas pelo menos já não está todo por ler. É que este Zeimoto Dá Primeira Espingarda aos Japões é um excerto da Peregrinação, não só sobre o episódio a que o título faz referência, mas também sobre os acontecimentos que a ele levaram.

Não sei é se é representativo da Peregrinação como um todo, o que ajuda a fazer com que o livro do velho Fernão vá continuar nos planos de leitura. Trata-se de um excerto muito focado em acidentes de navegação, em batalhas e em desventuras, escrito em jeito de crónica de sucedidos verdadeiros ainda que por vezes a improbabilidade pareça ser muita, o que suponho que explique o título daquela peça que esteve em cena aqui há uns anos, Fernão, Mentes? Certo é que o que aqui se encontra é uma autêntica montanha-russa de sortes e azares, alianças feitas e desfeitas, diplomacias bem e mal sucedidas, piratarias e tempestades. E no fim, o episódio que dá título ao livro.

Aqui chegado eu, que já tinha lido o relato do primeiro encontro entre japoneses e portugueses visto pelo lado japonês, o qual retrata os nossos bravos lusitanos como um bando de bárbaros fedorentos e sem maneiras (mas com uns paus-de-fazer-fogo muito especiais), não consegui evitar o sorriso com as descrições de Fernão "Mentes" Pinto e a forma como ele apresenta os encontros como cerimónias obsequiosas em que os japoneses se vergam à natural superioridade dos marinheiros portugueses, "emissários d'el-Rei". Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto, sem dúvida, mas cheira-me (sim, é piadola) que existem também aqui diferenças de ponto de vista a influir na história, pois quem está convicto da sua superioridade, mesmo se malcheiroso, facilmente parte do princípio de que os demais a reconhecem tão claramente como ele próprio. O que é com grande frequência uma enorme ilusão.

Foi uma leitura curiosa, embora não rápida, que o português quinhentista tende a ser bastante enovelado, cheio de frases longas e sinuosas. E creio também que não foi uma boa representação do livro de Fernão Mendes Pinto, pois a sua natureza de conjunto de extratos dá-lhe um caráter um tanto ou quanto desconexo que suspeito que a obra completa não terá. Mas foi curiosa, sim, e percebi o fascínio que este livro tem exercido em gerações de leitores. Mesmo com exageros e visões enviesadas... ou talvez também por causa deles.

Este livro foi obtido, em PDF, no site da Biblioteca Digital Camões, aqui. Mas desde a época em que o obtive apareceram outras edições eletrónicas, melhores e relativamente fáceis de encontrar, tanto em PDF como em epub. É só procurar.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Irmãos Grimm: Os Três Passarinhos

Eis outra história que os Irmãos Grimm não parecem ter alterado de todo, pois até inclui alguns apartes típicos da narrativa oral, como opiniões do narrador que se intrometem na história propriamente dita. Quem sabe se por não encontrarem neste Os Três Passarinhos qualidades suficientes para se dedicarem a desenvolvê-lo, uma vez que se trata de uma história muito semelhante a tantas outras, visto fazer uso de uma série de elementos que se encontram muito difundidos nestes contos populares.

Quem conheça a história da Cinderela (e quem não conhece?) vai reencontrar aqui parte dos seus ingredientes. A história tem a ver com três irmãs, uma das quais se casa com o rei de um reino antigo. Essa é a boazinha; já as outras duas são más e invejosas. Invejosas, por exemplo, da fertilidade da irmã boa, pois ambas parecem ser estéreis. Vai daí, raptam-lhe os filhos recém-nascidos e substituem-nos por cães, acabando por convencer o rei de que a mulher só dá à luz monstros, o que tem as consequências que facilmente se adivinham. Mas este não seria um conto de fadas se não houvesse final feliz, e os três passarinhos do título vão ser os veículos desse final.

Em suma, esta é mais uma história com pouco que a distinga de muitas outras. Um banal pinheiro num pinhal.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 12 de setembro de 2021

Leiturtugas #119

E aqui começa mais um post longo, devido ainda à minha ronda pelas obras de que se falou neste ano de Leiturtugas e a todas as opiniões (e publicações) adicionais que essa ronda me levou a conhecer.

Mas não só devido a isso, claro, pois também tivemos esta semana o fluxo habitual de opiniões, vindas dos participantes oficiais neste projeto e também dos oficiosos.

Entre os primeiros tivemos mais uma vez uma opinião do Artur Coelho sobre mais um livro sem nenhuma FC e provavelmente também sem qualquer fantástico: Relação do Reino do Congo e das Terras Circunvizinhas. Trata-se de um livro de autoria dupla, fruto do labor de Filippo Pigafetta, matemático e explorador italiano do século XVI, e ao ler isto estarão decerto a perguntar aos vossos botões o que raio tem este livro a ver com leituras tugas. Mas tem, porque falta o outro autor, o navegador português Duarte Lopes, que tinha narrado a Pigafetta as suas viagens pelo Congo e o que lá encontrou. Sem FC, o Artur passa a 5c8s.

Quanto aos segundos, tivemos uma opinião da Marta sobre um livro de Célia Fernandes publicado pela Chiado em julho último, que parece ser um conto de fantasia infantojuvenil de fundo ecológico. O título é Terra Azul.

E também em maré infantil, tivemos a opinião da Anabela Risso sobre Greve, um livro de Catarina Sobral que imagina uma greve dos sinais de pontuação, publicado em 2019 pela Orfeu Negro. Zero de FC, tal como no anterior.

Por fim, há ainda uma lista razoável de material encontrado nas minhas pesquisas. Razoável ao ponto, na verdade, para ainda não ficar despachada hoje. Mas algum desse material vai ficar.

Vai ficar, por exemplo, a opinião da Manuela Santos sobre Segredo Mortal, o tecnothriller de Bruno M. Franco que tantas opiniões rendeu. Já sabem como é: edição da Cultura e com FC.

Igualmente fica a opinião da Cris, também sobre Segredo Mortal. Bruno M. Franco soma e segue.

E o Bruno M. Franco continua a somar e a seguir com a opinião da Inês, também sobre Segredo Mortal.

Para variar, fica também a opinião da Despenteada sobre O Livro Sagrado da Factologia, de Rui Zink, outro livro que não é de FC mas tem lá alguma, este publicado pela Teodolito em 2017.

A rematar a semana, para isto não ficar demasiado extenso, fica a opinião do Paulo Serra sobre Palavra do Senhor, o romance fantástico de fundo cristão que Ana Bárbara Pedrosa publicou este ano na Bertrand.

Irmãos Grimm: O Velho Hildebrando

Mais um conto sem nada de fantástico, este O Velho Hildebrando, a menos que se ache que um homem enfiar-se num cesto de ovos e ser carregado por outro é coisa mágica (e eu não acho, que há cestos de ovos bem grandes e há homens pequeninos e leves). Trata-se de um conto maroto, até com o seu quê de anticlerical, mostrando que os contos beatos que os Irmãos Grimm incluíram no livro não são necessariamente resultado das suas ideias religiosas.

A história é a do velho Hildebrando, homem bom mas crédulo, cuja mulher anda com vontade de o presentear com uma valente parelha de cornos. Com quem? Com o padre, vejam só, e ainda por cima o sacana do padreco está pelos ajustes, pelo que os dois se combinam para que ela se faça de doente e ele declare no sermão que um homem tem a obrigação de partir em busca de cura para quaisquer familiares doentes, nem que seja para bem longe. E o velho Hildebrando cai como um patinho. E lá vai ele.

A sorte é encontrar pelo caminho um amigo, que lhe explica o que se passa e lhe sugere uma artimanha para que o veja com os seus olhos. E lá acaba a história em bem, com o bom vingado e os maus punidos. Que entre os maus se conte aqui um padre é detalhe. Detalhe curioso, mas detalhe.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Irmãos Grimm: A Filha Esperta do Camponês

E eis que, após uma série de contos bastante parecidos uns com os outros, temos nesta coletânea dos Irmãos Grimm um conto completamente diferente. Para começar é puramente realista, ou quase, nada (ou quase) tendo de fantástico. Depois, não é uma história de trabalhos mais ou menos hercúleos com muitos feitiços à mistura mas sim uma pequena farsa, ainda que o prémio final seja basicamente o mesmo: um casamento real.

Como o título de A Filha Esperta do Camponês indica, trata-se da história de uma rapariga camponesa que, por meio de inteligência e astúcia, consegue subir na vida até ao topo da hierarquia. O que esta história tem de mais curioso, ou até surpreendente, é afastar-se decididamente do arquétipo da jovem mais ou menos incapaz, vítima de maldades várias, quer sejam feitiços ou simples maldade humana, à espera que algum candidato a cavaleiro andante a venha salvar. Esta camponesa não: arregaça as mangas e trata de fazer ela própria o que é preciso, e sem que para isso tenha de atropelar muita gente.

Quê?, perguntarão com maior ou menor espanto. Um conto feminista no livro dos manos Grimm? Sim, parece ser isso mesmo o que aqui temos.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 5 de setembro de 2021

Leiturtugas #118

Olá, olá, a todos os que querem saber de que andaram as pessoas que leem livros portugueses de FC e fantástico a falar esta semana. Sim, o nome da coisa é Leiturtugas, e a lista vem já a seguir.

E nesta primeira semana pós agosto temos de tudo: oficiais, oficiosos e publicações atrasadas dos encontrados de fresco. Por esta ordem, o que nos chegou dos participantes oficiais foi:

Um livro de contos de Altino do Tojal, lido e comentado pelo Artur Coelho. Orvalho do Oriente é uma edição já razoavelmente antiga (1981), da Sá da Costa, e não mostra nenhum sinal de FC. O Artur passa assim a 5c7s.

Entre os oficiosos temos a Maria João Covas, que publicou um vídeo em que fala do conto Hospital Einstein, autoeditado por Rui Pinto Ferreira via Amazon. Este é FC.

E depois há carradas de material mais antigo. Esta semana encerrei as buscas, mas o que encontrei vai dar para várias notas destas.

Por exemplo, temos a Ana Rute Primo a opinar sobre Segredo Mortal, o tecnothriller de Bruno M. Franco que já fez várias aparições por aqui. Edição da Cultura, e sim, tem FC.

Temos também a "Despenteada", que opina igualmente sobre Segredo Mortal de Bruno M. Franco.

Também encontrei a opinião da Karina Padilha sobre A Rainha Desejada, o tal romance autoeditado por Telma Monteiro Fernandes que faz lembrar Outlander. Continua a contar como com FC.

E descobri também outra opinião da Liliana Raquel sobre outro livro de Andreia Ramos. Intitulado A Defensora do Oculto, é outro romance de fantasia publicado pela Chiado.

Que mais? Bem, temos a opinião da Silvana sobre Encontro em Itália, um romance de fantasia de Liliana Lavado publicado pela Marcador.

E temos também a opinião da anónima que escreve os Livros de Vidro (como tenho de lhe chamar alguma coisa, por uns quinhentos cá meus, vou chamar-lhe "anónima de vidro") sobre O Deus das Moscas Tem Fome, o livro de contos de fantasia pulp de Luís Corte Real publicado pela Saída de Emergência.

E aiinda há mais, mas por esta semana chega, que isto já vai outra vez bastante longo. Até domingo.