quarta-feira, 26 de junho de 2019

António Pedro Saraiva: Das Visitações

Já tivemos contos inspirados em Borges, em Carroll, nos Grimm (ou talvez na Disney), e eis que temos mais um conto com inspiração em... Borges. Mais que inspiração, na verdade, pois deste conto de António Pedro Saraiva pode-se dizer com propriedade que merece por inteiro o título de pastiche.

Infelizmente para o leitor que sou, não é um pastiche dos contos borgesianos que mais me agradam, mas dos que menos me agradam. De novo, tal como acontece com a Aventura Borgiana do Nuno Fonseca. De resto, são vários os pontos de contacto entre as duas obras. Das Visitações (bibliografia) também é um pseudofactual que usa Borges e/ou a sua obra como fio condutor. Aqui, temos um pseudoensaio académico sobre um manuscrito místico de um tal Cícero Pendragon, que terá sido descoberto por Borges durante investigações que o argentino teria levado a cabo.

Não tendo gostado por aí além deste conto, porque é raríssimo eu gostar por aí além de pseudofactuais, sejam eles quais forem e escritos por quem forem, devo dizer que Saraiva foi bastante eficaz no seu pastiche. Nesse sentido, o conto é bastante bom. Lê-se praticamente como um pseudofactual do próprio Borges, com a linguagem ensaística e a mistura de erudição e referências, umas falsas outras verdadeiras, que os caracterizam, e logra semear na mente do leitor a dúvida sobre se o que está a ler é ficção ou não ficção. Eu não gostei lá muito, mas o autor está de parabéns.

Contos anteriores deste livro:

Ana Alves Oliveira: Aniversário

Os três ou quatro que costumam ler o que aqui se escreve já deverão saber que há algumas coisas que decididamente me desagradam na literatura, e que uma dessas coisas é encontrar nela fiozinhos demasiado óbvios a tentar laçar e depois manipular os sentimentos do leitor. Não só essa falta de jeito me deixa imune ao impacto sentimental que se pretende atingir, como me irrita. E é principalmente por isso que este Aniversário é o primeiro conto deste livro de que decididamente não gostei.

Ainda por cima, Ana Alves Oliveira resolve contar uma história americana já contada milhares de vezes por autores que a conhecem melhor e mais de perto: a história de um veterano de guerra, no caso a do Afeganistão, que regressa traumatizado e mergulha no alcoolismo e na mendicância. Não a escreve mal, o trabalho da língua é em geral correto, e os flashbacks (num conto destes convém ser em inglês) estão razoavelmente bem inseridos na narrativa, mas todo o conto soa a falso, a coisa feita artificialmente para puxar ao choradinho. Não. Assim, não.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 25 de junho de 2019

Charles Sheffield: A Serpente do Velho Nilo

Não sei se foi de propósito, mas este número da Isaac Asimov Magazine está cheio de Egito: depois de Esperando os Olimpianos, em boa parte ambientado nas margens do Nilo, eis que este A Serpente do Velho Nilo (bibliografia) é fiel ao título e também tem o rio egípcio como pano de fundo.

Mas aqui o ambiente tem mais fantasia, ainda que este conto de Charles Sheffield não deixe de ser de ficção científica. Estamos entre arqueólogos e engenheiros hidráulicos, numa corrida contra o tempo para concluir as escavações num certo vale que os arqueólogos julgam ter grande significado por lá se encontrar enterrado algo que não se sabe bem o que é (há opiniões divergentes, as quais geram tensões fortes, especialmente entre os dois arqueólogos principais) antes da data aprazada para que as águas do Nilo inundem o vale a fim de fornecer irrigação a explorações agrícolas fundamentais para alimentar um Egito crescentemente sobrepovoado.

A trama complica-se quando chega ao local uma mulher que diz ser filha de um dos dois arqueólogos rivais, a qual depressa se transforma em objeto de desejo não só do outro arqueólogo, mas também do engenheiro, especialmente quando dá um espetáculo de dança fantasiada de serpente do velho Nilo, uma antiga deusa local. Sim, esta história não passaria nos testes de machismo: só tem uma personagem feminina, e esta só serve realmente à trama como objeto do desejo masculino. De tal forma que é esse desejo que leva ao desenlace trágico (e mágico, ou pelo menos fantástico no sentido em que procura deixar o leitor na dúvida sobre o que realmente acontece), que no entanto culmina com uma descoberta arqueológica de grande importância.

Apesar disso, o enredo não deixa de ser bem construído, o que torna o conto interessante. Não muito bom, parece-me, mas interessante.

Contos anteriores desta publicação:

Fernando de Sousa Pereira: Fada

De Fada (bibliografia) gostei mais do que do texto anterior e também do que do primeiro. Fernando de Sousa Pereira é eficaz a criar um poemazinho de fantasia com pegada infanto-juvenil, daqueles que se leem bem em voz alta a um miúdo pequeno, ou até naquelas sessões em escolas e bibliotecas em que atores contam histórias e declamam poemas para deleite da petizada. Não posso dizer que tenha gostado muito deste poema, até porque já não sou público-alvo há uns aninhos, mas não desgostei.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Italo Calvino: História de Astolfo na Lua

Nesta História de Astolfo na Lua, Italo Calvino foge um pouco à técnica que tem utilizado para construir estas histórias, afastando-se até certo ponto da narrativa dedutiva em que cada carta posta na mesa é motivo de especulação e análise para o narrador ir reconstruindo a história que quem descarta quer contar, entre muitas hesitações e incertezas. Aqui, estas reduzem-se bastante e as dúvidas sobre o significado de cada carta transformam-se sobretudo em dúvidas sobre que varta virá a seguir. É tão legítimo contar a história assim como da forma anterior, obviamente, mas não consegui evitar uma certa sensação de batota.

Quanto ao conto em si, é uma visita de Calvino à proto ficção científica medieval e renascentista, coisa que ele também faz com frequência nas Cosmicómicas ainda que sob uma abordagem bastante diferente. O conto tem ligação direta com o conto anterior, uma vez que também Astolfo é personagem dos poemas épicos de Boiardo (e não só, pois ambos têm base em lendas mais antigas), e é para tentar recuperar o juízo de um Orlando enlouquecido que Astolfo parte para a Lua montado num cavalo alado. Mas só encontra um deserto.

À parte a sensação de batota referida acima, este conto é muito bom, literariamente falando. A narrativa, privada das dúvidas e hesitações do decifrar da história através das cartas de tarot (ou pelo menos com elas atenuadas), fica mais fluida e o conto ganha mais ritmo, mantendo-se tão bem escrito como os restantes.

Contos anteriores deste livro:

Comecei a fazer isto e agora vou precisar de ajuda


Ora bem, se forem ao Bibliowiki, mais especificamente a esta página, verão o que esta imagem aqui por cima retrata: o início de algo que me parece bastante útil, uma forma rápida para se ver quem são e o que fizeram e quando as pessoas ligadas à FC em Portugal. Um Quem É Quem. Para já é só à FC, e em Portugal, porque é aquilo que eu conheço melhor. E mesmo assim já vi que vou precisar da vossa ajuda.

Comecei por mim, porque sei exatamente o que fiz e quase exatamente quando, não precisando, portanto, de fazer nenhuma investigação prévia, mas já aí, e apesar disso, deparei com dificuldades. É que quis, por me parecer particularmente útil, dividir a atividade de cada pessoa em várias capacidades e em três graus: esporádica, regular e intensa. Mas... como separar umas das outras? Que critérios usar para que o esquema fique razoavelmente rigoroso?

OK, é certo que a atividade de tradutor costuma ser bem separada da de autor (e quando não é, nas adaptações, sempre tenho posto no Bibliowiki os adaptadores como coautores, portanto faz sentido continuar a fazê-lo), mas quando se chega a coisas como "ensaísta" ou "divulgador" começam a aparecer áreas cinzentas. E há sempre áreas cinzentas nos graus de atividade. Como diferenciar uma atividade regular de uma intensa? Uma esporádica de uma regular? Com que critérios, que terão forçosamente de ser diferentes para as várias atividades?

E mais tarde haverá outro problema. Para já, a preocupação básica foi arranjar gente ativa nas vertentes de que me lembrei (e poderá vir a haver outras? Eis mais uma dúvida) e autores que me permitissem esticar desde o início a tabela até à sua dimensão máxima (ou quase) porque estar a fazê-lo mais tarde implica muito mais trabalho, mas estas tabelas não são para toda a gente, e mais tarde ou mais cedo confrontar-me-ei com uma decisão sobre que nível de presença de cada indivíduo no género, tanto quantitativo como qualitativo (?), é necessário e suficiente para ele ser aqui incluído. De momento confesso que não faço a mais pequena ideia.

Preciso, portanto, de opiniões. Fundamentadas, de preferência, para ter bases mais sólidas para pesar os prós e os contras de cada uma.

Guy de Maupassant: Amor

Guy de Maupassant é um dos grandes nomes do conto fantástico francês do século XIX, provavelmente o maior de todos, mas está longe de ter sido escritor apenas de fantástico sobrenatural. Este conto, Amor, é prova disso mesmo; trata-se de um conto naturalista, realista, sobre a caça.

Um conto sobre caça intitulado Amor?!

Sim. Porque o conto não é apenas sobre caça.

Muito bem escrito, como é típico de Maupassant, boa parte da narrativa do conto fala dos preparativos para a caça e da relação (de amor, também) do protagonista por tal atividade. A madrugada, verdadeiramente gélida, é o pano de fundo para uma caçada aos patos que vai terminar de forma abrupta. Este é dos tais contos em que uma porção significativa da eficácia depende da surpresa do final, pelo que não vo-lo revelarei, dizendo apenas que é um final forte, adequadamente romântico para o título e toda a ambiência da história, e que depende de uma característica que a lenda atribui aos patos mas na realidade não se-lhes aplica (aplica-se a gansos e cisnes, não a patos): acasalarem para a vida.

Pelo que, no fundo, esta é uma história sobre amores cruzados, sobre como e até que ponto um amor pode afetar outro. E isso contribui para fazer com que este conto seja bastante bom.

domingo, 23 de junho de 2019

Leiturtugas da semana #25

E eis que chega ao fim mais uma semana, e mais uma vez há leiturtugas a divulgar. Eu tinha dito que isto ia agora ficar por vossa conta porque eu não tinha nenhuma na calha para breve, mas enganei-me. Tinha-me esquecido de que a opinião sobre esta ainda não tinha saído. Saiu agora. E assim a primeira leiturtuga desta semana foi minha, com uma opinião sobre o número 3 do fanzine Dagon, dirigido e publicado pelo Roberto Mendes. Tem muito pouca FC mas tem alguma, pelo que eu passo a 4c6s. Mais duas coisas com FC e estão cumpridos os objetivos.

Mas não fui só eu a contribuir. A Cristina Alves, depois de me consultar sobre se a BD entra nisto ou não (entra), decidiu incluir no projeto um livro de BD que tinha comentado na semana anterior: Mar de Aral, da dupla José Carlos Fernandes e Roberto Gomes, coedição da G Flory e da Comic Heart. E mais: a consulta veio a propósito da opinião que publicou esta semana sobre o livro Laura and the Shadow King, autoedição do Bruno Martins Soares via Amazon. Este último tem FC e a BD também, mas as BD vão sempre para a parte sem FC, pelo que a Cristina passa a 4c2s.

Irmãos Grimm: Contos da Infância e do Lar, Volume I

Sessenta e três. São sessenta e três os contos que os Irmãos Grimm recolheram e trabalharam e anotaram e a editora resolveu incluir neste primeiro volume de três dos Contos da Infância e do Lar. São muitos contos, com muitos elementos repetidos devido à incessante fertilização cruzada típica da literatura de raiz oral, pois como se sabe quem conta um conto acrescenta um ponto. Ou retira. Ou vai buscá-lo a outros contos que já conhece porque sempre é mais simples do que inventar de raiz e é mais fácil de decorar.

É esta repetição que constitui o principal ponto fraco de uma compilação como esta quando é lida como outro livro qualquer. Porque compilações destas não devem ser lidas como outro livro qualquer. Não devem ser lidas do princípio até ao fim, sistematicamente, um conto após outro e após outro e após outro. Não. Lidas assim acabam por se tornar cansativas (a menos que sejam curtas, coisa que esta decididamente não é) e a experiência de leitura ressente-se.

Um livro como este é feito para ser estudado por gente interessada em mergulhar a fundo nas histórias tradicionais, sejam académicos ou não, ou então para estar na estante à espera que alguém pegue nele, leia uma ou duas histórias, provavelmente escolhidas ao calhas, possivelmente em voz alta, para serem escutadas por miúdos ou graúdos, e o devolva ao lugar até à próxima vez que lhe chega o apetite de ler mais duas ou três histórias.

Mas claro que eu o li de fio a pavio, começando pelo princípio e terminando no fim.

E o resultado disso é que vou ter de descansar pelo menos alguns meses destas histórias antes de pegar no segundo volume. Independentemente da qualidade desta edição, que é muito elevada, tradução incluída, o que obviamente abre excelentes perspetivas para os outros dois volumes. É necessário porque já imagino o que aí vem: mais histórias repletas de elementos repetidos, mais trios, mais reis, príncipes e princesas.

E também mais crueldade, porque se há coisa que impressiona ao ler os originais dos Irmãos Grimm e compará-los com muitas das adaptações mais ou menos delicodoces feitas mais tarde é a enorme crueldade que se encontra nos originais. Fruto de um tempo diferente, provavelmente. Fruto também da cultura tradicional germânica, quem sabe? O certo é que quando comparamos estas histórias com os contos populares portugueses do Adolfo Coelho não encontramos nestes uma crueldade tão intensa, embora ela também lá esteja. Os portugueses são mais brandos que os alemães, e também mais iconoclastas, ainda que tudo isso também possa ser mais efeito dos compiladores e muitas vezes retocadores das histórias do que propriamente do material de base. Mas especulo. Para o poder afirmar com segurança seria necessário fazer um estudo aprofundado que misturasse literatura, etnologia e sociologia e fosse buscar mais fontes que estas duas, e isso é areia muito excessiva para a minha pequena camioneta. Foi essa a impressão com que fiquei (e foi essa uma das fontes de interesse que encontrei nas histórias dos dois livros), agora se é verdadeira ou não, não faço a mínima ideia. O que sei é que, cansativo ou não, este o livro é bastante bom e inclui várias histórias que se tornaram clássicos absolutos. Isso basta.

Eis o que achei de cada um dos contos deste livro:
Este livro foi comprado.

Claudia Brabetz Cameira: A Viagem da Giulia Tarossi

Há uma corrente de pensamento que defende que um escritor deve escrever sobre aquilo que conhece, e há quem retire daí a ideia de que a melhor escrita é autobiográfica. É a perspetiva umbiguista. Cá por mim, discordo. Mais que discordar, custa-me a perceber os mecanismos mentais que poderão levar alguém a achar a sua própria vida tão relevante que certamente irá despertar interesse suficiente nas pessoas para as levar a querer ler ficções autobiográficas (ou memórias, as quais são tendencialmente não ficcionais). Para mim, ficção interessante é sobretudo imaginação, empatia, procura do outro, mesmo reconhecendo como inevitável que os autores deixem parte de si em tudo o que escrevem.

E é precisamente isso o que Claudia Brabetz Cameira, italiana radicada em Portugal, faz neste A Viagem de Giulia Tarossi. O que significa que eu não gostei, certo?

Bem... não. Errado. Todas as regras têm as suas exceções, e gostei muito mais deste conto do que esperei gostar depois de perceber que ele era autobiográfico. Porque a autora usa o seu percurso de vida, usa a forma como abandonou o seu país de origem porque se apaixonou por outro, para refletir sobre isso mesmo, o modo como o lugar onde nascemos só nos define até certo ponto, como outros lugares podem acabar por ter mais a ver connosco, podem ressoar mais harmonicamente com o núcleo de quem somos.

E isso, numa época em que a xenofobia reergue a sua feia (e tão, tão estúpida) cabeça como há muito não se via, é de toda a relevância. E por isso, de baixo do umbiguismo característico das ficções autobiográficas, surgem nesta coisas absolutamente relevantes e universais. E além disso, o conto está bastante bem escrito, pesem embora uma ou duas frases um pouco estranhas, provavelmente resquícios do facto do português não ser a primeira língua da autora. Esta foi uma boa surpresa.

Conto anterior deste livro:

sábado, 22 de junho de 2019

Sérgio Nuno Ferreira Guerreiro: Mulher Aranha

Dada a natureza oblíqua da poesia, identificar um poema como "fantástico" tende a ser tarefa mais complicada e incerta do que quando se está a falar de textos em prosa (e estes por vezes já o são bastante). E, pior, redutora, porque os poemas vivem de imagens e o facto de estas, quando tomadas ao pé da letra, poderem parecer fantásticas não significa que o sejam de facto ou que o poema o seja. E este é um problema que, vou desde já suspeitando, será recorrente na primeira parte deste livro, dedicada a textos poéticos.

É certamente um problema deste Mulher Aranha (bibliografia). Neste texto — de que vou desde já adiantando que não gostei muito — Sérgio Nuno Ferreira Guerreiro traça um paralelo entre a perigosidade das fêmeas de aranha e as fêmeas humanas, usando aquelas para falar destas, obtendo como resultado um poema que à primeira vista é fantástico (ou até de terror) mas se visto mais de perto talvez seja apenas uma espécie de parábola. Não creio que tenha sido muito bem sucedido no esforço, especialmente nos aspetos formais da criação poética, mas este texto sempre tem algum interesse. Pouco, acho.

Textos anteriores deste livro:

Aldous Huxley: O Génio e a Deusa

Aquela malta que acha que se devem seguir à risca os conselhos que recebe nos cursos de escrita criativa, se pegasse neste livro, tinha uma apoplexia. Felizmente, eu pouco ligo ao receituário, e pelos vistos quem aceitou para publicação este livro de Aldous Huxley também não quer saber dele. Show, don't tell? Bah. Que se mostre se assim resulta, que se conte se é melhor assim, que se misturem as duas coisas conforme dê mais gozo e gere mais e melhor efeito. As regras só servem para serem quebradas.

E Huxley quebra-as, ainda que me pareça mais provável que nunca tenha sequer ouvido falar delas. E se ouvisse o mais certo seria rir-se. Aqui não há praticamente nada que seja mostrado, tudo é contado ao longo de pouco mais de 200 páginas pouco densas, a longa narração de uma conversa praticamente unidirecional na qual o narrador em primeira pessoa ouve contar uma história.

É uma técnica muito comum na literatura oitocentista e do início do século XIX, na qual quem narra o livro, geralmente em primeira pessoa, funciona apenas como recetáculo e transmissor de uma história alheia. Neste O Génio e a Deusa, o narrador escuta a história da boca de um dos participantes numa enredada história sentimental que começa quando ele, à época um jovem físico educado numa família puritana e religiosa, é contratado como assistente de outro físico famoso chamado Maartens. Este e a família acolhem-no em casa, numa solução que deveria ser provisória mas rapidamente passa a definitiva, e o livro debruça-se quase exclusivamente sobre a dinâmica sentimental (e perto do fim também sexual) existente dentro da família e entre esta e o jovem.

Enquanto conta a história, Huxley aproveita para tecer uma série de considerações sobre os mais variados temas, da sexualidade à religião, passando por uma porção de outras coisas. A morte, e a relação que as pessoas estabelecem com ela, estão muito presentes, pois a mortalidade é, a par da paixão e da dependência sentimental, a principal fonte dos sentimentos que se cruzam entre as personagens. Estas são um grupo de perturbados: o físico famoso, sentimentalmente dependente da mulher, que a páginas tantas se convence de que esta está a trai-lo e por isso adoece gravemente, a mulher, provavelmente a mais sã de todas aquelas pessoas, que não trai o marido (provavelmente) enquanto se mantém por longe a cuidar da mãe moribunda mas acaba mesmo por trai-lo quando volta para casa depois da mãe morrer, o assistente, virgem, cheio de noções românticas e puritanas sobre as relações humanas que se perde de amores pela mulher do patrão, inicialmente platónicos, e acaba a dormir regularmente com ela sem que com isso consiga mais que acrescentar a culpa à sua perturbação, e a filha adolescente do casal que se imagina poetisa e apaixonada pelo assistente e depois fica despeitada por ser rejeitada, o que acaba por levar ao desenlace trágico da história.

Um pouco envelhecido, pois parte das questões que aborda têm vindo a mostrar alguma tendência a perder a centralidade que tinham há sessenta e tal anos, este livro deve ser bastante mais interessante para quem goste de histórias construídas com base em relacionamentos cruzados, e nas crises sentimentais que tais cruzamentos tendem a gerar, do que foi para mim, que geralmente me aborreço com elas. Apesar dessa peculiaridade do meu gosto literário (e não só; isto estende-se a outras formas de contar histórias) não me aborreci por completo, pois há aqui algumas discussões razoavelmente filosóficas que não deixam o sono instalar-se. Não me custa a crer, portanto, que haja quem ache este livro bastante bom. Para mim foi apenas mediano.

Este livro vem da biblioteca dos meus pais.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Lawrence Watt-Evans: Tempo Real

A ideia de Lawrence Watt-Evans (autor que leio pela primeira vez) talvez fosse deixar o leitor na dúvida sobre a real natureza do protagonista e narrador em primeira pessoa que arranjou para este seu conto. Este está convicto de que viajou no tempo, para o passado, para os nossos tempos (ou por outra, para os anos 80, contemporâneos desta história), e de que a sua função é assegurar-se de que ninguém mexe com a linha temporal porque se o fizesse as consequências poderiam ser terríveis. E por isso, sempre que sente que alguém está a fazer mudanças no fluxo do tempo (através de umas dores de cabeça aparentemente direcionais), põe-se à caça do atrevido. E se o encontra, o desgraçado está arrumado. Pois nada pode intrometer-se no Tempo Real (bibliografia).

Talvez fosse essa a ideia. É o que se depreende da forma como a história está construída e é narrada segundo o ponto de vista do homem. Este deteta um alarme, o que equivale a dizer que tem uma dor de cabeça, e põe-se à caça, aproveito os tempos mortos da caçada para transmitir ao leitor a informação necessária para compreender a história. E aquela tentativa final de transformar o narrador num daqueles narradores indignos de confiança, que tanto podem estar a falar verdade como não, ou cuja verdade pessoal não é exatamente a verdade verdadeira, só reforça que a ideia era essa.

Mas se eu falo de tentativa é por uma razão. É que se a ideia era mesmo essa, falhou por completo. Porque há uma e só uma solução para o enigma da natureza do protagonista que não gera inconsistências lógicas. A outra gera, logo é falsa. E é por isso que este conto me parece bastante fraco.

Ah, sim, já agora: a solução falsa faria com que a história fosse FC; a verdadeira faz com que não seja.

Conto anterior desta publicação:

Cristina Flora: As Crianças Nunca Mentem

E depois da fanfic (pouco fan, conceda-se) da Cinderela, passamos à fanfic da Alice. Que Alice? A do Lewis Carroll, naturalmente; a do País das Maravilhas.

Estamos em clima de ficção científica. Cristina Flora põe o seu conto a abrir com um jardim artificial baseado num modelo antigo do século XXI, situando-o no futuro. E o conto segue com livros digitais (que já temos), espécies extintas (que também temos com fartura, embora não cravos, orquídeas, malmequeres, etc.), minhocas telecomandadas, e a coisa arranca de vez quando a criança que protagoniza esta história decide que vai fazer uma máquina do tempo. Ninguém acredita. Mas As Crianças Nunca Mentem (bibliografia), não é? Pois. Diz que não.

É aqui que a ficção científica se fica pelo clima. É que apesar de nunca ninguém ter alcançado tal feito, a miúda que protagoniza esta história constrói mesmo uma máquina do tempo (não se fica a saber como, claro), ou pelo menos uma máquina de qualquer coisa, capaz de a transportar para o País das Maravilhas. Tudo movido quase exclusivamente a diálogos, com uma pegada declaradamente infanto-juvenil (com ênfase na parte mais infantil) e ternurenta. Decididamente, não sou o público-alvo desta história, e não vejo a necessidade ou a vantagem de introduzir nela elementos de ficção científica que depois não são usados realmente para nada. Não é um mau conto, mas parece andar um bocado à deriva, querendo ser qualquer coisa que não é mas sem querer realmente sê-lo, por paradoxal que isto possa parecer. Não é mau conto, mas é fracote.

Contos anteriores deste livro:

Jorge Luis Borges: O Livro de Areia

Não, não estou gago. É só a velha mania que tantos autores têm de dar os mesmos títulos a contos e às coletâneas de que esses contos fazem parte e que tanta chatice (e páginas de desambiguação) me tem dado no Bibliowiki. Ataca por igual bons autores e autores maus e autores assim-assim (quando são sequer os autores a determinar os seus títulos, que às vezes são mais os editores que eles) e mesmo quando são bonzinhos e agregam aos títulos um apêndice do género de "e outras histórias" não é raro que à reedição n alguém se esqueça dele.

Bastante diversificado, como de resto é de comum nas coletâneas de Jorge Luis Borges, há neste O Livro de Areia histórias magníficas lado a lado com outras que ficam aquém do que um leitor razoavelmente fã do autor argentino espera dele, há o fantástico mais típico de Borges junto de contos realistas, de contos históricos, e até de um conto lovecraftiano e outro de ficção científica, e quanto à geografia em que têm lugar, ora estamos na Argentina natal do autor, ora saltamos para a Europa de Leste, e daí para a Inglaterra, para o Uruguai, para os Estados Unidos ou para tempos e lugares menos definidos.

Em comum, há a prosa concisa e precisa de Borges, despida de floreados inúteis e carregada de erudição e de uma certa atmosfera fantástica que até assoma ao de leve nos contos realistas. Mas o que realmente se destaca são os melhores contos. Ulrica é um assombro, A Noite das Mercês é ótimo, O Espelho e a Máscara é excelente, O Disco é magnífico e O Livro de Areia justifica absolutamente ter sido destacado para o título da compilação. Quem dera a muitos contistas ter apenas uma história com esta qualidade em cada um dos seus livros; Borges aqui tem várias. E isso chega e sobra para o livro ser muito bom.

Eis o que achei de cada história aqui contida:
Este livro foi comprado.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

História alternativa: toda a gente a faz, ninguém a lê

Bandeira da República Socialista Soviética de Portugal e Adjacências

É para mim cada vez mais espantoso o facto de Portugal não ter um sólido e pujante mercado de literatura de história alternativa, porque se há coisa que cada vez falta menos é gente a fazer história alternativa a cada oportunidade que lhe apareça. Ou a cada meia oportunidade. Já me lembrei de uma explicação provável, a de que a pulsão para a história alternativa poderá estar inversamente relacionada com a quantidade de livros lidos ao longo da vida, mas mesmo assim continua a parecer-me estranho. Mesmo uma relação inversa dessas deixaria uma margem suficiente para se publicarem por ano vários sucessos de vendas baseados em alguma espécie de ucronia.

Há outra explicação; pode ser doença. Se calhar é doença. Chamemos-lhe ucronite para simplificar.

O último ataque generalizado de ucronite aconteceu a propósito das comemorações do Dia D, o desembarque aliado na Normandia. É um dia muito importante para o desenrolar da II Guerra Mundial e para a história subsequente do planeta e detém recordes que provavelmente nunca mais serão ultrapassados. Isto só por si basta e sobra para lhe garantir um lugar de destaque na história universal... mas há quem não se contente com isso, se deixe contaminar pela ucronite (ou pela ignorância) e debite disparates sobre ter "inaugurado a libertação da Europa" e asneiras do género. Ouvi esta num noticiário da RTP e reagi, no facebook, assim:
Eu cá acho excelente que se comemore o desembarque na Normandia.

Agora que se diga que "inaugura a libertação da Europa", sem ser numa peça de propaganda pura e simples, convenhamos que é tosco.

O dia D foi 6 de junho de 1944.

Nesse dia, já o Exército Vermelho tinha corrido com os alemães da Rússia e da Ucrânia e combatia na Polónia oriental, na Belorrússia e nos bálticos.

Nesse dia, a libertação de Itália ia já tão avançada que os alemães tinham perdido Roma dois dias antes. Também as grandes ilhas mediterrânicas estavam já todas libertadas, incluindo a Córsega.

E isto são os factos históricos, não é a propaganda. Factos históricos esses que todos, e muito em especial os jornalistas, temos obrigação de reportar.

Em vez disso, a RTP papagueia a baboseira da libertação da Europa ter começado no Dia D.

Depois dizem-se muito preocupados com as notícias falsas, enquanto dão "notícias" como quem só aprendeu história nos filmes de Hollywood.

Raio que os parta, pá.
(Alguns dias mais tarde, o Miguel do Vento Sueste foi mais longe, publicando também no facebook uma longa lista de momentos em que as forças do Eixo foram travadas ou forçadas a recuar, começando com a batalha aérea de setembro de 1940 em que a força aérea britânica abateu mais de 50 aviões alemães e que terá levado à suspensão da invasão de Inglaterra, passando pelas grandes batalhas em que o exército vermelho trava os alemães, entre 1941 e 1943, pelas sucessivas derrotas do Eixo no norte de África em 1942 e início de 1943, pela invasão da Sicília em julho de 1943, pelo início da libertação de França com a recuperação da Córsega no outono de 1943 e por vários outros momentos até finalmente se chegar ao tal "momento decisivo" do Dia D em junho de 44.)

Não reparei se o post do Miguel viralizou, mas o meu sim, embora não muito, tendo sido partilhado duas dezenas de vezes e recebido mais de meia centena de polegarzinhos para cima. E, claro, em algumas das partilhas gerou discussão, na qual não podia faltar mais história alternativa.

Alguns apoiam a baboseira, fazendo a história alternativa de que sim senhor, foram os EUA a começar a libertar a Europa no Dia D, fazendo de conta que nenhuma das vitórias aliadas anteriores ao desembarque na Normandia existiu. Nada de Frente Leste, nenhuma frente italiana, népia de derrota nazi em África, nada de nada. E naturalmente, nesta história alternativa as tropas que desembarcaram em França a 6 de junho de 1944 eram todas americanas, sem exceção, ou, vá lá, quando admitem alguma exceção, os americanos teriam tido de andar a salvar os ingleses ou os canadianos, que só teriam conseguido acobardar-se assim que chegaram à praia.

Outros vão ainda mais longe na história alternativa, reconhecendo que, sim, existia uma frente leste e, sim, os russos já estavam a ter vitórias sobre vitórias contra os nazis, mas dizendo que por isso mesmo é que o Dia D corresponde à libertação da Europa, porque sem ele os russos viriam por aí fora, levando tudo à frente até Lisboa. Esquecem a frente italiana, porque não convém ao enredo que arranjam, fazem de conta que não percebem que estão a defender o salazarismo e o franquismo, e se alguém lhes apresenta argumentos contra um tal cenário enfiam os dedos nos ouvidos e cantarolam lalalala-lalalala-lalala.

E por aí fora, numa série de variedades e variações.

Há sobretudo duas coisas que me incomodam nesta pulsão pela história alternativa por parte de gente que não lê história alternativa.

Uma é a falta de qualidade do cenário ucrónico que arranjam. Um bom cenário de história alternativa procura ser sólido, procura analisar as consequências lógicas e prováveis de um determinado acontecimento se ter dado de forma diferente. De um atentado falhado ter tido sucesso ou vice-versa, de uma batalha renhida ter tido outro vencedor, de uma inovação ignorada ter tido reconhecimento ou de uma inovação reconhecida ter sido ignorada. Ou até de um viajante no tempo ter pisado uma borboleta. Mas estas ucronias tiradas da cartola por quem não lê história alternativa são invariavelmente de más a péssimas.

Os Estados Unidos salvam a Europa sozinhos, derrotando sozinhos o poderio militar alemão, apesar de travarem simultaneamente outra guerra no Pacífico, de terem uma logística incomparavelmente mais complexa para porem homens e armas no teatro de guerra e até inferioridade em material durante a maior parte da guerra, tanto em quantidade como em qualidade. É estúpido. No mundo real, o desembarque na Normandia foi das batalhas mais violentas e mortíferas de toda a II Guerra Mundial, apesar dos nazis estarem a combater em outras duas frentes, uma das quais muito extensa, e muitíssimo dispendiosa em homens e material durante os anos que antecederam o Dia D, e não nos esqueçamos dos atos de sabotagem da Resistência francesa (e não só) nas vias de abastecimento. Sem o desgaste provocado pela Frente Leste e, em menor escala, pela frente italiana, o desembarque na Normandia teria sido basicamente impossível, mas isso não detém a fantasia destes americanófilos de pacotilha.

Segundo outros, o desembarque na Normandia foi a forma de evitar outra história alternativa ligeiramente melhor, mas ainda bastante má. Dizem eles que sem o Dia D os russos vinham por aí fora e cobriam a Europa inteira com uma imparável maré vermelha, levando tudo à frente. É o disparate oposto ao primeiro, porque mais uma vez ignora as necessidades e limitações da logística militar, já para não falar da tolice de pensarem que durante a II Guerra havia três forças em confronto e não duas. A verdade é outra: os aliados eram mesmo aliados, russos incluídos, e houve quase desde o início cooperação ao mais alto nível entre Moscovo e as capitais ocidentais, incluindo fornecimento de material enquanto a União Soviética montava (e deslocava) à pressa a sua estrutura industrial.

E como bem se viu no Iraque pós invasão americana, conquistar território é bem diferente de mantê-lo ocupado. Ora, para chegarem à Península Ibérica os russos teriam primeiro de passar pela Alemanha cheia de uma população em grande medida intoxicada pela propaganda nazi, onde certamente enfrentariam resistência suficiente para terem de lá estacionar uma quantidade significativa de efetivos. Foi o que as quatro potências aliadas fizeram no fim da guerra, de resto, e se esse esforço tivesse caído apenas sobre os russos pura e simplesmente não haveria capacidade para invadir a Península Ibérica, até porque atravessar uma Europa inteira destruída pela guerra para trazer material, combustível e mantimentos até à Península seria um esforço hercúleo.

Mas a verdade é que esta pulsão pela história alternativa movida a americanofilia primária ou a anticomunismo igualmente primário também me diverte. É que, sabem?, esta queda direitola pela falsificação da história escorre ironia por todo o lado:

É tão profundamente... estalinista!

Frederik Pohl: Esperando os Olimpianos

Não sei se quando Frederik Pohl arregaçou as mangas para escrever Esperando os Olimpianos (bibliografia) pretendia dar uma lição sobre a natureza (e o interesse) da história alternativa e da ficção científica ou se se limitou a deixar-se entusiasmar pela ideia, mas o que é certo é que esta noveleta é uma aula sobre o que é, sobretudo, e em parte também para que serve tanto a história alternativa em particular como a ficção científica em geral. E também é uma daquelas histórias de escritores, que tantos escritores tanto gostam de escrever e tanto agrada a outra gente ligada à literatura: uma história sobre o mundo dos escritores e dos editores. Tudo numa história de história alternativa. E de ficção científica.

E é uma história de HA e de FC bastante bem feita. Abre com os problemas de um escritor mediano de ficção científica em Londres (o género não tem esse nome, mas percebe-se o que é), cheio de esperança em ver o seu último romance aceite pelo editor e lançado de repente aos leões quando o descobre recusado. Aqui há na história elementos um pouco estranhos e notas de futurismo que levam o leitor a achar estar perante uma história típica de FC de futuro relativamente próximo, na qual as coisas se passam basicamente como se passam no presente (no presente do autor quando a escreveu, em finais dos anos 80, mas em grande medida também no presente dos nossos dias).

Mas depois, de repente, o leitor percebe que não, o que está a ler não é uma história de FC de futuro relativamente próximo. É uma história de história alternativa, passada num presente alternativo em que o Império Romano perdurou até aos dias de hoje. Sem as invasões bárbaras, sem Idade Média, neste mundo alternativo a tecnologia avançou mais rapidamente do que na nossa linha de tempo, e já existem colónias espaciais, inclusivamente à volta das estrelas mais próximas.

Mas o que faz mover a história, além dos problemas do protagonista escritor que procura desesperadamente arranjar algo sobre que escrever a tempo de não ficar sem cheta e cheio de dívidas (e atenção, que no Império Romano havia escravatura, a qual perdura tanto quanto o próprio império... e uma das formas de alguém acabar em escravo é tendo dívidas impossíveis de pagar), é o primeiro contacto. Não com uma espécie alienígena, mas com todo um conjunto delas, uma espécie de federação galática... um panteão completo: os olimpianos. Estes vêm a caminho, depois de encetarem contactos por mensagens de rádio. E ninguém quer fazer nada que possa ofendê-los. Mais um problema para um autor cujo último livro, esse mesmo que foi recusado, é uma sátira na qual emburrece os alienígenas.

Ora acontece que o bom do escritor decide viajar para a província romana do Egito em busca de inspiração e, por casualidade, encontra um velho amigo, também escritor mas, ao contrário dele, cientista de renome, e consulta-o na esperança do amigo lhe fornecer alguma ideia útil. É este quem lhe sugere escrever uma história alternativa, conceito que não entra na cabeça do protagonista. Imaginar que as coisas se passaram de outra forma?! Mas se não se passaram assim!... Vai ser esta incompreensão que Pohl utiliza para explicar o conceito e os seus méritos e gasta nisso uma boa porção do texto, à mistura com uma relação romântica do protagonista com a filha do amigo escritor e cientista, que calha ser historiadora.

Tudo isto muito bem feito (à parte, talvez, a paixão instantânea, mas enfim...), com cada peçazinha no sítio que lhe é próprio. E tendo em conta que o final, que não revelarei, é ao mesmo tempo surpreendente e inteiramente previsível, estamos perante uma novela de primeira água.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Gerson Lodi-Ribeiro: Aventuras do Vampiro de Palmares

Construir romances-colagem é um exercício delicado, em especial quando as histórias que vão constribuir para a sua elaboração não são escritas à partida com a ideia de contribuírem para uma grande narrativa que as transcenda. Muitas vezes são-no, pois os autores, quando escrevem numa série, vão encaixando cada ideia que vão tendo num universo ficcional em que se esforçam por manter a coerência. Mas por vezes essas preocupações cedem primazia às necessidades narrativas de cada história em concreto, porque não existe a priori a vontade ou sequer a ideia de as fundir numa narrativa comum, e quando, mais tarde, essa ideia e essa vontade surgem, surgem também os problemas.

De resto, isto não é exclusivo de romances-colagem. São célebres no meio ligado à FC as séries problemáticas de alguns grandes escritores do género, iniciadas com grande pujança e qualidade e concluídas de forma mais ou menos pífia, com histórias pouco consistentes ou muito desnecessárias. Asimov, com os malabarismos a que teve de recorrer para fundir os universos da Fundação e dos robôs positrónicos, ou Clarke, com as suas sequelas, cada vez piores, de 2001, estão aí para não me deixarem mentir. No entanto, quando isto acontece numa série de obras mais ou menos independentes, o estrago tende a ser menor do que quando acontece num romance-colagem, porque basta desfrutar dos livros bons e ignorar os menos bons. Em romances-colagem não temos essa opção.

Por outro lado, os romances-colagem podem ser muito diferentes entre si e é problemático estabelecer padrões que se apliquem a todos. Eles variam no grau de alteração das histórias para se conformarem ao formato romance, por exemplo, indo daqueles que alteram muito pouco os contos de base, limitando-se fundamentalmente a acrescentar mais material, quando sequer chegam a tanto, até aos verdadeiros fix-ups, em que as histórias de base praticamente desaparecem, engolidas pela nova narrativa que se lhes sobrepõe. As Aventuras do Vampiro de Palmares, descai claramente para o lado da reduzida alteração, acrescentando-se novas histórias às anteriormente existentes, e mantendo-se estas em grande medida inalteradas. É uma estratégia arriscada e creio que, ao contrário do que acontece noutro livro seu em que seguiu a mesma estratégia (Xochiquetzal, de que falei há relativamente pouco tempo aqui), Gerson Lodi-Ribeiro não é aqui lá muito bem sucedido.

O problema principal, parece-me, é a falta de um verdadeiro fio condutor que sirva de arco narrativo para todo o livro. Começando este no nascimento do protagonista (na verdade começa antes, nos acontecimentos que vão levar ao seu exílio), um arco narrativo lógico terminaria na sua morte, ou então em algum acontecimento relevante o suficiente para levar a uma mudança de rumo fundamental na sua vida. Mas não é nada disso o que aqui temos, pelo contrário; o romance termina com uma história relativamente menor (em termos de percurso de vida do protagonista, não de qualidade), na qual ainda por cima é introduzida uma personagem com um potencial de desenvolvimento que não é concretizado.

Também a história inaugural (deixando de parte o prólogo; com ele incluído será a segunda) não contribui para a obtenção de um todo coeso. Muito mais descritiva do que a maior parte das restantes, esta história tem material suficiente para um romance autónomo, o qual poderia ser muitíssimo interessante se a narração descritiva e distanciada fosse intercalada com momentos de ação em proximidade, diálogo e conflito, à semelhança do que acontece com as melhores histórias do conjunto. Talvez se devesse ter começado por aí a publicação destas histórias, escrevendo e publicando primeiro esse romance e seguindo depois para as restantes, embora seja forçoso reconhecer que também essa opção acarretaria riscos: se esse livro não fosse bem sucedido, a publicação das restantes histórias poderia ficar comprometida.

De resto, pode perfeitamente dar-se o caso de ter sido muito isso o que aconteceu. É que a cronologia do Vampiro de Palmares não termina em finais do século XIX, como surge neste livro, e há mais material já publicado, ambientado nos séculos XX e XXI, e inclusivamente no futuro. É possível que a ideia tivesse sido (ou ainda seja) complementar este livro com outra obra semelhante ambientada em tempos mais recentes, uma espécie de segundo volume. No entanto, isto é mera especulação da minha parte; não tenho nenhuma informação que a suporte.

Quem tenha chegado até aqui pode estar a pensar que não gostei deste livro. Mas a verdade é que, embora possa dar essa ideia, ela não é verdadeira. Algumas das histórias são realmente muito boas e isso bastaria para não poder achar o livro mau. O que acho é que houve algumas escolhas na feitura deste romance-colagem que fizeram com que o resultado não fosse melhor que a soma das partes, como seria ideal, nem sequer igual à soma das partes, mas pior que a soma das partes. Mas como as partes são boas ou muito boas, este livro está entre o razoável e o bom. Talvez a atirar mais para o lado do bom que do razoável, até porque é muito possível que parte da minha opinião menos favorável se deva a eu já conhecer anteriormente as melhores histórias e por isso esperar mais do livro do que ele me deu, o que não acontecerá com um leitor que parta para a leitura sem nenhuma informação prévia sobre este universo ficcional.

Um leitor assim, provavelmente, deixar-se-á fascinar por todo o worldbuilding subjacente ao livro, tanto em termos de vampirismo (e licantropia) científico, quanto no que toca aos aspetos de história alternativa. É que são ambos muito bons. A forma como o autor afasta a sobrenaturalidade dos seus vampiros, o modo sólido como a biologia destas criaturas é descrita, mas sobretudo a credibilidade da cadeia de consequências que vai dar origem a esta cronologia alternativa, através da qual se abordam temas tão relevantes como o passado colonial de vários pontos das Américas, o racismo sistémico e a escravatura, podem perfeitamente levar muitos leitores a nem reparar nos problemas de que falo acima. Ou a não lhes dar importância.

Mas eu, que não sou um leitor assim, não só por já conhecer este universo mas até porque tenho vindo ao longo de anos a escrever (devagarinho) um livro nestes moldes, estive mais atento a outras coisas. E encontrei aqui armadilhas a que me convirá ficar atento para não correr o risco de me deixar enredar nelas. Sim, esta leitura foi-me muito útil. E isso é mais um ponto a seu favor.

Eis o que achei de cada uma das histórias, considerada isoladamente:
Este livro foi-me oferecido pelo autor.

Irmãos Grimm: As Três Penas

Quem julgasse que eu exagerei quando, na opinião sobre o conto anterior, falei repetidamente de clichés e elementos existentes em muitas outras histórias, bastar-lhe-ia pegar neste As Três Penas para ver como não houve exagero rigorosamente nenhum. Aqui se encontra um rei, de novo, com três filhos, de novo, o mais novo dos quais é simplório e recebe a alcunha de Tolo, de novo, e vão os três partir à aventura, de novo, e de novo há provas a ultrapassar. E de novo. E de novo.

Mais uma vez, e a crer na típica nota que sucede ao conto, também aqui os Irmãos Grimm não meteram grande prego ou estopa, ainda que esta história seja mais extensa do que a anterior. Um pouco mais extensa, mas menos do que parece, visto conter versos que, como se sabe, são coisas pouco económicas em termos de espaço. Outra semelhança é a ideia geral: o Tolo acaba por vencer as provas que os irmãos não são capazes de ultrapassar, graças à ingenuidade e à magia que encontra onde os outros nada veem. A diferença, subtil, é que ao passo que no conto anterior parece ser o bom coração o principal responsável pelo sucesso do Tolo (outro Tolo? o mesmo? boa pergunta), aqui este está mais dependente da sorte (ou da simples fé, para os que se inclinem para aí) do que de qualquer outra qualidade.

Mas no fim de contas, este também é um conto banal, cheio de elementos reciclados de outras histórias. Uma variante de muitas variantes, que se esquece rapidamente.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Em maio falou-se de...

E cá estamos nós em junho, o que quer dizer que mais um mês ficou para trás e é tempo de darmos uma vista de olhos ao que foi sendo lido e comentado por aí na internet lusófona, no que toca a material de ficção científica ou relacionado mais ou menos de perto com o género. E este mês houve uma surpresa que é ao mesmo tempo uma estreia e uma novidade.

Mas antes, o blá blá blá de sempre. Quem caia aqui de paraquedas e não saiba o que é isto (e queira saber), pode dar um saltinho ao primeiro destes posts onde tem mais informação. Quem esteja interessado em dar uma vista de olhos por todos, passados, presentes e futuros, só tem de ir à tag leituras fc que lá os encontrará. E quem quiser saber o que eu tenho a dizer sobre estar listas que aqui estão em baixo, é só puxar o texto para o fim delas que lá terá os meus comentários. Para já, fiquem com as listas:

Ficção portuguesa:
  1. Lisboa Oculta, org. ??
  2. Nunca Mais, de João Barreiros (conto)
  3. O Invisível, a sua Sombra e o seu Reflexo, de António Bizarro
  4. Rebeldes, de Ana Cláudia Dâmaso
  5. Somos Felizes, de Sara Farinha (conto)
  6. Arrábida 8, de Pedro G. P. Martins (conto)
  7. Universal, Limitada, de Isabel Cristina Pires
  8. Bang!, nº 3, ed. Rogério Ribeiro e Luís Corte Real
  9. Os Exploradores da Lua, de Pedro de Sagunto
  10. Ensaio Sobre a Cegueira / Ensayo Sobre la Ceguera, de José Saramago (2x)
  11. Contra a Demagogia, de Luís Filipe Silva (conto)
  12. Des-Sincronicidades, de Luís Filipe Silva (conto)
  13. Rapsódia sem Dó (Maior), de Luísa Marques da Silva (conto)
  14. Proxy, org. Anton Stark
  15. A Batalha da Escuridão, de Bruno Martins Soares
Ficção brasileira:
  1. Aqui quem Fala é da Terra, org. André Caniato e Jana Bianchi
  2. Dezoito de Escorpião, de Alexey Dodsworth
  3. Sencientes, de Day Fernandes (conto)
  4. Charlotte Sometimes, de Fábio Fernandes (conto)
  5. Projeto 94, de Rodrigo Fonseca
  6. Caçada Cósmica, de José M. S. Freire
  7. Homo Tempus, de F. E. Jacob (2x)
  8. O Código de Camões, de Beto Junqueyra
  9. Tangentes da Realidade, de Jeronymo Monteiro
  10. Ninguém Nasce Herói, de Eric Novello
  11. Morcego do Mar, de Gerson Lodi-Ribeiro (conto)
  12. Afrofuturismo, org. Junno Sena
  13. Favela Gótica, de Fabio Shiva
  14. Fanfic, de Braulio Tavares
Ficção internacional:
  1. A Vida, o Universo e Tudo o Mais, de Douglas Adams
  2. Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes!, de Douglas Adams (2x)
  3. O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams
  4. O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams
  5. O Salmão da Dúvida, de Douglas Adams
  6. Opostos, de Jennifer L. Armentrout
  7. Chuva, Chuva, Vá Embora!, de Isaac Asimov (conto)
  8. Fundação, de Isaac Asimov
  9. Fundação e Império, de Isaac Asimov
  10. Fundação e Terra, de Isaac Asimov
  11. O Bardo Imortal, de Isaac Asimov (conto)
  12. O Cair da Noite, de Isaac Asimov (conto)
  13. Os Robôs e o Império, de Isaac Asimov
  14. Um Dia, de Isaac Asimov (conto)
  15. Visões de Robô, de Isaac Asimov
  16. A História de uma Serva / O Conto da Aia, de Margaret Atwood (2x)
  17. Oryx e Crake, de Margaret Atwood
  18. 4, 3, 2, 1, de Paul Auster
  19. Faca de Água, de Paolo Bacigalupi
  20. Ship Breaker, de Paolo Bacigalupi
  21. The Drowned Cities, de Paolo Bacigalupi
  22. Tool of War, de Paolo Bacigalupi
  23. Raízes do Mal, de Gwenda Bond
  24. Antologia da Literatura Fantástica, org. Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo
  25. Mentes Poderosas, de Alexandra Bracken
  26. Despertar, de Octavia E. Butler (2x)
  27. A Guerra das Salamandras, de Karel Čapek
  28. A União dos Universos, de Francis Carsac
  29. A Seleção, de Kiera Cass
  30. País das Maravilhas, de Michael Chadbourn (conto)
  31. Síndrome Fasciolar Cerebral dos Carteiros, de Stepan Chapman (conto)
  32. The Deaths of Tao, de Wesley Chu
  33. Todo o Tempo do Mundo, de Arthur C. Clarke (conto)
  34. Matéria Escura, de Blake Crouch
  35. Vox, de Christina Dalcher
  36. Realidades Adaptadas, de Philip K. Dick (2x)
  37. Um Tempo Aceitável, de Madeleine l'Engle
  38. Count Zero, de William Gibson
  39. Mona Lisa Overdrive, de William Gibson
  40. Neuromancer, de William Gibson
  41. Crianças do Éden, de Joey Graceffa
  42. Feed, de Mira Grant
  43. Uma Coisa Absolutamente Fantástica, de Hank Green
  44. Os Despossuídos, de Ursula K. Le Guin
  45. Duna, de Frank Herbert
  46. Messias de Duna, de Frank Herbert
  47. O Legado, de Amie Kaufman e Meagan Spooner
  48. Flores Para Algernon, de Daniel Keyes (3x)
  49. O Bazar dos Sonhos Ruins, de Stephen King
  50. O Concorrente, de Stephen King
  51. Exo, de Fonda Lee
  52. Canção de Ninar Venusiana, de Paul Leonard
  53. Além do Planeta Silencioso, de C. S. Lewis
  54. Aquela Fortaleza Medonha, de C. S. Lewis
  55. Perelandra, de C. S. Lewis
  56. Nas Montanhas da Loucura e Outras Histórias de Terror, de H. P. Lovecraft
  57. O Chamado de Cthulhu, de H. P. Lovecraft
  58. Legend, de Marie Lu
  59. O Jogo do Coringa, de Marie Lu
  60. Às Cegas, de Josh Malerman
  61. Santuário dos Ventos, de George R. R. Martin e Lisa Tuttle
  62. Os Seis Finalistas, de Alexandra Monir
  63. Mundo em Caos, de Patrick Ness (2x)
  64. Starters, de Lissa Price
  65. As Escalas da Injustiça, de Gary Russell
  66. Skyward, de Brandon Sanderson
  67. Troopers da Morte, de Joe Schreiber
  68. Frankenstein, de Mary Shelley
  69. Seca, de Neil Shusterman e Jarrod Shusterman (3x)
  70. As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift
  71. The Big Book of Science Fiction, org. Jeff VanderMeer e Ann VanderMeer
  72. Twenty Thousand Leagues Under the Sea, de Jules Verne
  73. Matadouro-Cinco, de Kurt Vonnegut (2x)
  74. Artemis, de Andy Weir (2x)
  75. A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells
  76. A Máquina do Tempo, de H. G. Wells
  77. The Invisible Man, de H. G. Wells
  78. Nós, de Evgueni Zamiatine
Não-ficção brasileira:
  1. A Invenção do Monstro, de Francisco Vugman
Não-ficção internacional:
  1. O Zen e a Arte da Escrita, de Ray Bradbury
  2. Romantic Outlaws, de Charlotte Gordon
Este foi um mês especial, porque não só os comentários a ficção portuguesa ultrapassaram mais uma vez (a terceira) os dez, como aquele número de 15 bateu uma vez mais o recorde mensal. E graças a outro mês relativamente fraco nos comentários à ficção brasileira, maio de 2019 é o primeiro mês desde que eu faço isto em que houve mais comentários a ficções portuguesas do que a brasileiras. E eu só sou responsável por quatro desses comentários. Destaques? Saramago, com dois comentários a um seu romance, e Luís Filipe Silva, com dois comentários a dois contos. Se isto continuasse assim daqui para o futuro era ótimo. Mas também é improvável (e o que já apareceu em junho não é animador).

Como digo acima, o mês foi relativamente fraco na ficção brasileira, pois 14 títulos (e seriam 13 sem a minha participação) está muito abaixo dos meses mais profícuos e é pela primeira vez inferior aos números portugueses. Por outro lado, se contarmos apenas os livros, i.e., excluindo os contos, os números brasileiros continuam a ser melhores que os portugueses e, ao contrário destes, continuam a ultrapassar o número de 10, que eu acho o mínimo admissível. O destaque do mês é F. E. Jacob, graças aos dois comentários que o seu romance recebeu.

Em termos de ficção traduzida, o mês foi razoável, pois os 78 títulos ainda estão longe dos meses mais abundantes mas são cerca de uma dezena a mais que nos meses anteriores. É curiosa a inexistência de grandes febres de leitura (ou de marketing, talvez), livros lidos mais ou menos ao mesmo tempo por muita gente, pois o máximo de comentários a uma obra só foi neste mês de 3. Isto talvez tenha reflexo no maior número de obras diferentes que foram alvo de comentário, mas se tem parece-me razoavelmente reduzido. Os destaques do mês foram Douglas Adams, com 6 comentários a 5 obras (o Dia da Toalha é em maio, e está explicado), Isaac Asimov, com 9 comentários a outras tantas obras (muitas das quais contos) e Paolo Bacigalupi, com 4 comentários a outras tantas obras.

E é tudo o que tenho a dizer sobre maio. Dentro de um mês, mais dia, menos dia, cá aparecerá outro post destes. Até lá.

Esopo: Fábulas de Esopo Ilustradas

Ora aqui está um livro que faz parte dos grandes clássicos e cujo título não podia ser mais ilustrativo. Fábulas de Esopo Ilustradas é, com efeito, um livro de fábulas ou pequenas historietas de fundo moral (com o tamanho de miniconto ou vinheta), em prosa, cuja autoria se atribui a Esopo, um escravo grego que graças à sua verve e inteligência conseguiu elevar-se a uma posição incomum entre escravos. E ilustradas porque, bem, esta edição é profusamente ilustrada, com ilustrações antigas, as quais não acompanham todas as histórias mas quase.

Note-se que falo aqui de "fábulas ou pequenas histórias" por um motivo: é que nem todas as historietas incluem a antropomorfização de animais ou outras de entidades que é característica das fábulas. Mas todas as 115 têm um fundo moral ou alegórico.

Esta edição, como vem assinalado na capa, foi "traduzida e adaptada por Carlos Pinheiro". Este, segundo julgo saber, será um professor do ensino secundário, e a sua função terá sido sobretudo a adaptação da maioria das histórias, previamente publicadas em português em 1848, à grafia moderna, e a tradução de um punhado de outras de versões inglesas datadas do século XIX e do início do século XX. É possível que também tenha produzido algumas das morais da história, seguindo o exemplo do autor (anónimo) da tradução portuguesa de 1848. Esta tradução oitocentista, já agora, está digitalizada e disponível na internet, por exemplo aqui.

Estas morais da história, de resto, são a meu ver o principal ponto fraco desta edição. Em primeiro lugar porque não são necessárias: a maioria das fábulas é de tal forma clara nos seus princípios moralizadores que a explicação incluída à parte se torna muito redundante. E em segundo lugar porque o caráter beato das morais da história detrai relativamente às fábulas propriamente ditas, chegando até a levar a dúvidas quanto à fidedignidade da tradução. Esopo foi grego, nascido mais de seiscentos anos antes de cristo, numa época em que a religião dominante entre o seu povo era politeísta e tinha uma hierarquia celeste encimada por Zeus. Falar de santos, do Deus cristão, ou até de Júpiter, o equivalente romano de Zeus, são marcas graves de anacronismo, e as notazinhas morais explicativas estão repletas delas. Pior: elas até surgem nas fábulas propriamente ditas.

É certo que é bastante claro que há neste livro um certo objetivo pedagógico, e é possível que o seu público alvo sejam crianças razoavelmente pequenas, caso em que parte da objeção acima fica prejudicada. Mas só parte: fazer proselitismo católico com base em textos de um grego politeísta parece-me no mínimo antiético, seja qual for o grupo etário envolvido.

Também é certo que em 1848, possivelmente, seria inevitável fazê-lo, dado o peso que a igreja católica tinha entre nós. Afinal de contas, a Inquisição só tinha sido extinta cerca de vinte anos antes. Mas estamos no século XXI, Portugal é um estado laico, e se calhar é mais que tempo de dar a Esopo, ao tempo de Esopo e às ideias de Esopo, inclusivamente as religiosas, o respeito que lhes é devido.

Sim, porque estas historietas têm mostrado uma resiliência notável, o que só por si basta para as elevar a um pedestal bastante elevado. Não é uma nem duas as que ressurgem em compilações de contos populares feitas dois milénios (ou mais) mais tarde, ainda que bastante alteradas. Pese embora o caráter cínico que muitas mostram, e uma forma de ver o mundo como se nele nada mais houvesse que lobos e candidatos a lobos, sempre prontos a devorar o primeiro incauto, que poderá ser muito natural num homem que nasceu escravo numa sociedade em muitos aspetos muito bárbara mas que hoje em dia não é particularmente educativa (especialmente se descontextualizada), há em muitas destas historinhas intemporalidade e universalidade suficientes para explicar a sua sobrevivência até aos dias de hoje.

Tudo somado, este livro é bom? Se tivermos em linha de conta a sua antiguidade, se o enquadrarmos no seu tempo e nas circunstâncias do seu autor, sem qualquer dúvida. Nos tempos civilizados em que vivemos (embora não tanto como às vezes parece e seria desejável) parte da sua relevância perdeu-se ou está em vias de se perder (se tudo correr bem), mas esta é uma das obras formadoras da vertente mais popular da cultura europeia. Deve ser lido. Com o espírito crítico bem desperto, mas deve ser lido.

Este livro está disponível em ebook, em vários locais da internet e pelo menos em dois formatos (PDF e epub), bastando procurar pelo título. Por exemplo: aqui.

domingo, 16 de junho de 2019

Roberto Mendes (ed.): Dagon 3 (#leiturtugas)

Há três tipos diferentes de fanzines e revistas literários. Um, que é bem exemplificado em Portugal pela extinta revista Ficções, dedica-se sobretudo ou exclusivamente a publicar contos, e por vezes histórias mais longas de forma serializada. O outro, de que a revista Blimunda é bom exemplo, tem um foco importante em material ensaístico de vário tipo, do artigo à entrevista, passando por uma série de outras coisas. Mas na ficção científica e fantasia portuguesa (e, na verdade, lusófona), o tipo que predomina é o terceiro, que tenta equilibrar a vertente ensaística e a ficcional.

E quase sempre acontece que as publicações mantêm uma certa consistência na abordagem que preferem seguir. A Dagon (um fanzine razoavelmente sofisticado — aquilo a que os gringos chamam semiprozine — iniciativa de Roberto Mendes) é que nem por isso. Se em alguns números tem uma componente ensaística relevante, em outros, como este número 3, esta quase desaparece e o conteúdo é quase integralmente constituído por ficção.

Esta não é muito boa. Ou por outra, um dos dois contos é bom, o outro é muito fraco. E para além deles, o fanzine contém apenas um editorial e um breve artigo sobre o artista que produziu a capa (a qual nada tem a ver com nenhum dos contos, diga-se), seguido de uma galeria de outras ilustrações feitas por ele. Bastante boas, convenhamos, mas não chegam para compensar aquilo que de menos bom ficou para trás. Tudo somado, esta publicação não ultrapassa o razoável.

Eis o que achei dos dois contos:

Leiturtugas da semana #24

Mais uma semana de Leiturtugas, desta feita sem a minha participação. Mas houve quem participasse, nomeadamente o Artur Coelho, o qual publicou a sua opinião sobre o mais recente número da Granta em Língua Portuguesa, o 3. Dedicado ao futuro, este número desta revista publicada pela Tinta da China e editada pelo Pedro Mexia podia ter bastante mais FC do que a que tem, aparentemente, mas sempre terá umas tangentes, pelo que o Artur sobe a 5c1s.

E não esteve sozinho, pois também a Tita publicou duas pequenas opiniões (mais desenvolvidas em vídeo, como é hábito dela) sobre dois álbuns de BD portuguesa, ambos de Filipe Melo e Juan Cavia e ambos publicados pela Tinta da China: Comer/Beber e Os Vampiros. Como a BD conta sempre como sem FC (e neste caso os álbuns não têm mesmo FC), a Tita passa a 5c4s.

E por esta semana estamos conversados. Na próxima haverá mais. Até lá.

sábado, 15 de junho de 2019

Irmãos Grimm: A Rainha das Abelhas

Já aqui falei várias vezes de contos em que três personagens com características diferentes, frequentemente irmãs, são confrontadas com os mesmos desafios, dos quais se saem (ou não se saem) de forma diferente. Trata-se de um dos mais comuns clichés das histórias populares, e esta, A Rainha das Abelhas, é mais uma que se baseia nesse cliché.

Aqui, os Irmãos Grimm não parecem ter mexido muito. O conto é curto, com meras duas páginas e meia, e narra a história de três irmãos, príncipes, os dois primeiros maus e irresponsáveis, e o terceiro, a que chamam Tolo, com bom coração. Os dois primeiros partem em busca de aventuras e, quando não regressam, o terceiro vai à sua procura, encontra-os, impede-os de fazer variadas malfeitorias a uma série de animaizinhos humildes entre os quais, sim, contam-se abelhas. E depois é hora de serem capturados e postos à prova, prova essa que os dois primeiros são incapazes de ultrapassar e pagam-no sendo transformados em pedra, mas o terceiro ultrapassa graças ao auxílio da bicharada que antes poupara e lhe paga o favor.

Este é, como de resto é norma nas histórias que se servem deste cliché, um conto cautelar, advertindo contra a arrogância e a maldade, ainda que também possa ser interpretado como defendendo a ideia de que mais vale um bom tolo que um mau não tolo. Mas é, sobretudo, um conto bastante banal, repleto de elementos encontrados em (muitos) outros contos.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Blindsight

Ler este livro foi mais ou menos acidental. O que pretendia ler era o terceiro e último da série Rifters, também do Peter Watts, e peguei neste Blindsight, distraído, julgando ser o livro certo. Pus-me a ler. Não era. Mas não consegui pô-lo de lado.

Estou em crer que o principal motivo para isso é tratar-se de uma boa e hard ficção científica espacial, e eu já andar com saudades de ler uma boa e hard ficção científica espacial — a última que tinha lido foi O Jogo Final, do Card, já há mais de um ano. Mas este romance é mais hard que o livro de Card. Não sei bem é se é melhor. Mas olhem que é bem capaz de ser.

Uma coisa é certa: é menos juvenil. Povoado pela mesma espécie de personagens quebradas que Watts apresenta na série Rifters, protagonizado por um homem que, num mundo de seres humanos melhorados, sofreu a amputação de um hemisfério cerebral para curar uma epilepsia violenta, este romance mergulha profundamente na velha questão tão típica da ficção científica: o que significa ser humano? E fá-lo, como também é muito típico da ficção científica, principalmente em pano de fundo, apesar de Watts por vezes chamar as questões filosóficas a primeiro plano.

Quando aí surgem, no primeiro plano, elas vão fazer companhia a uma história de Primeiro Contacto nos confins do Sistema Solar, que em certos momentos faz lembrar Stanislaw Lem e a sua ideia recorrente de que a inteligência alienígena não se limita a ser estranha, é mesmo incognoscível. Não tanto o Lem de Solaris, talvez, mas de certeza o Lem de Fiasco. Ou de A Voz do Dono, de certa forma.

Sim, há alienígenas. O livro praticamente começa com uma estranha forma de intrusão alienígena no planeta, enchendo os céus terrestres de microssondas que ardem na atmosfera e emitem uma enorme quantidade de informação para o espaço, localização indeterminada. Seguem-se anos de pausa e depois uma emissão claramente artificial que é captada por uma sonda terrestre, aparentemente oriunda de um cometa no cinturão de Kuiper. E toca a enviar naves para lá. Mas quando a história começa a sério é quando uma nave tripulada é súbita e bruscamente desviada do cometa para um ponto mais distante na nuvem de Oort. O que está lá? Um gigante gasoso até aí desconhecido. E em órbita desse gigante gasoso? Uma estrutura alienígena, gigantesca e praticamente incompreensível. Que os tripulantes da nave vão tentar compreender.

E esses tripulantes são gente estranha. O protagonista de cérebro amputado já referenciado, incapaz de empatia e obrigado a analisar racionalmente os sinais comportamentais dos companheiros para conseguir interagir socialmente com eles, é apenas um, e nem sequer o mais estranho. Também há uma mulher com personalidades múltiplas, por exemplo, cada qual com as suas particularidades e as suas especialidades. Mas quem leva a palma a todos os outros é o vampiro.

Sim, o vampiro.

No mundo futuro de Watts há vampiros. Não sobrenaturais, atenção: naturais. E não deixa de ser curioso que eu tenha pegado neste livro enquanto lia o do Gerson Lodi-Ribeiro com uma ideia semelhante. Não idêntica, que os vampiros de Watts são uma espécie verdadeira, resultante da evolução predatória e hematófaga de um ramo da humanidade, mas extinta, apenas devolvida à existência porque por algum motivo que não chega a ficar inteiramente claro se decidiu fazê-lo por intermédio de engenharia genética e clonagem.

Para uma expedição daquelas, no entanto, uma expedição que terá de lidar com o desconhecido e o imponderável, um vampiro é o ideal. Porque é uma criatura mais inteligente que os humanos normais, ou mesmo que os aditivados. Porque tem uma mente diferente, mais declaradamente predatória, mais fria na análise e implacável na ação. Quase tão alienígena como as dos alienígenas.

Pelo menos é essa a ideia a priori. A realidade... bem...

A realidade é que os alienígenas são muito alienígenas. Encontrados bem longe da Terra, em órbita de um planeta gigante até aí desconhecido, mergulhado nas profundezas sem luz da Nuvem de Oort, os alienígenas constroem uma estação espacial, ou uma nave espacial, dotada de tecnologia aparentemente viva e capaz de manipular a seu bel-prazer campos magnéticos extraordinariamente intensos. Mas quem são? O que são? O que pretendem? Será possível comunicar com eles? Encetar relações pacíficas?

O grosso do enredo narra as várias tentativas e fases por que passa o contacto entre as duas espécies, e as duas naves, da simples troca de mensagens a uma sucessão de ilusões e intrusões que vão acabar por chegar a um desfecho praticamente inevitável. Simultaneamente, Watts usa a natureza colonial dos alienígenas, a par das características invulgares dos tripulantes da nave terrestre, para explorar a fundo o que se entende por consciência, livre-arbítrio e inteligência, quais os seus limites, e até que ponto são influenciadas pela capacidade dos nossos sentidos se aperceberem do mundo. É que se os terrestres são estranhos, os ETs são-no muito mais. Watts, sempre biólogo marinho mesmo quando escreve sobre o espaço, baseia-se nos pólipos para criar uma espécie de alienígenas tecnológicos desprovida de sistema nervoso central e da maior parte dos órgãos de sentidos que nos são familiares. E acaba a escrever sobre a cegueira.

É por via da cegueira que este romance mais se aproxima das obras de Lem que refiro acima. Porque cada uma das duas espécies (mas especialmente a humana) está limitada àquilo que os respetivos sistemas sensoriais lhe permite captar. Não que seja incapaz de se aperceber tecnologicamente do resto, mas há milhões de anos de evolução a adaptar as vias de raciocínio a determinadas características sensoriais, tratando-as como absolutas, ao ponto de deixar as pobres criaturas dotadas dessas vias de raciocínio completamente cegas para tudo aquilo que lhes fuja. E isso tem consequências quando enfrentamos um choque de cegueiras.

Este é um romance complexo, sofisticado e inteligente sobre as nossas limitações enquanto seres humanos e sobretudo enquanto seres biológicos, um ótimo exemplo do que a ficção científica consegue ser quando quem a escreve sabe o que está a fazer. Não direi que é excelente, mas digo que é muito bom, mesmo muito bom, e que lhe falta um niquinho de nada para ser mesmo excelente. Ótima leitura para todos os que não se deixam desencorajar pela FC mais densa no que toca a terminologia científica. Recomendo vivamente. E ainda por cima é uma ótima e recomendável leitura que está livremente disponível na internet, aqui, numa série de formatos. Eu cá li o livro em epub.