Chrome Oxide (óbvio pseudónimo) está presente nesta antologia com um conto, intitulado
Cop for a Day. E é uma bosta monumental. Pessimamente escrito, com um "humor" do mais básico possível, conta uma historieta de ficção científica mal-amanhada e absolutamente ridícula sobre um tipo que é polícia por um dia e vai descobrindo os problemas de se ser bófia num mundo politicamente correto. Sim, o Chrome Oxide é obviamente um puppy dos mais raivosos e, se o que eles têm a oferecer não passa deste tipo de lixo, percebe-se bem por que motivo raramente ganham prémios, o que, naturalmente, os deixa ainda mais raivosos. Não me perguntem como esta porcaria conseguiu ser publicada na antologia L. Ron Hubbard Presents Writers of the Future porque também não percebo; aparentemente, nos EUA publica-se em livro lixo amador que em Portugal teria dificuldade em ser aceite para publicação online gratuita das menos exigentes. Julgo que não errarei se disser desde já, mesmo sem ter acabado ainda o livro (falta-me ler menos de uma mancheia de histórias, embora falte falar de muitas mais) que este conto é, de longe, o pior de toda a antologia. De fugir.
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sexta-feira, 10 de junho de 2016
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Lido: 2014 Campbellian Anthology - Ramez Naam
Ramez Naam também está aqui presente com um excerto de romance, que no caso dele se intitula
Nexus. Um daqueles títulos típicos de ficção científica, e de facto é disso que se trata. Mais precisamente, estamos perante um romance de ficção científica pós ciberpunk, trans-humanista, ambientado (ou pelo menos iniciado) em 2040, que parece ter por tema o desenvolvimento de uma droga (ou pelo menos a sua adaptação ao uso civil, depois de ela, ou uma sua antecessora, ter sido desenvolvida para fabricar supersoldados) capaz de ampliar a capacidade sensorial e mental de quem a toma através da criação de uma rede de nanoestruturas interligadas com o cérebro dos utilizadores, capazes de correr programas próprios, que dão aos utilizadores acesso a uma série de melhoramentos, incluindo a comunicação direta cérebro a cérebro. E claro que algo capaz de correr código está sujeito a bugs. O ambiente está bastante bem criado, incluindo o perigo inerente a tudo aquilo ser clandestino e portanto haver quem procure recolher informações e acabar com toda aquela brincadeira, e o excerto está bastante bem escrito, numa prosa escorreita e ágil. Parece ser um bom romance, mas o que vem publicado nesta antologia não afasta o risco de tudo aquilo degenerar em mero bangue-bangue entre humanos 2.0. Seja como for, o excerto desperta interesse e por isso cumpre bem a sua função.
Nexus. Um daqueles títulos típicos de ficção científica, e de facto é disso que se trata. Mais precisamente, estamos perante um romance de ficção científica pós ciberpunk, trans-humanista, ambientado (ou pelo menos iniciado) em 2040, que parece ter por tema o desenvolvimento de uma droga (ou pelo menos a sua adaptação ao uso civil, depois de ela, ou uma sua antecessora, ter sido desenvolvida para fabricar supersoldados) capaz de ampliar a capacidade sensorial e mental de quem a toma através da criação de uma rede de nanoestruturas interligadas com o cérebro dos utilizadores, capazes de correr programas próprios, que dão aos utilizadores acesso a uma série de melhoramentos, incluindo a comunicação direta cérebro a cérebro. E claro que algo capaz de correr código está sujeito a bugs. O ambiente está bastante bem criado, incluindo o perigo inerente a tudo aquilo ser clandestino e portanto haver quem procure recolher informações e acabar com toda aquela brincadeira, e o excerto está bastante bem escrito, numa prosa escorreita e ágil. Parece ser um bom romance, mas o que vem publicado nesta antologia não afasta o risco de tudo aquilo degenerar em mero bangue-bangue entre humanos 2.0. Seja como for, o excerto desperta interesse e por isso cumpre bem a sua função.
terça-feira, 7 de junho de 2016
Lido: 2014 Campbellian Anthology - E. C. Myers
Com E. C. Myers regressamos aos excertos de romances, que no caso dele se intitula
Fair Coin. Parece ser um romance curioso, talvez misto de horror com ficção científica, que começa quando um rapaz chega da escola e encontra a mãe quase em coma por ter engolido uma porção de comprimidos. Porquê? Porque o julgava morto. E se isso não fosse estranho o suficiente, depressa as coisas se tornam mais estranhas ainda quando ele começa a reparar em incongruências entre o mundo em que se encontra e aquele de que se recorda, quase como se... quase como se estivesse no lugar errado, como se tivesse ido ali parar sem saber como, vindo de outro universo em que as coisas eram subtilmente diferentes. Quase como se não fosse ele o filho daquela mãe suicida, cujo filho teria realmente morrido, mas sim um duplo. Uma cópia. Há histórias destas na ficção científica, e algumas são excelentes, mas esta não sei para onde vai; tanto pode ser mais uma boa história como não. Por vezes, basta o excerto para fornecer garantias, seja pela qualidade da prosa, seja pela forma como o enredo é apresentado, mas nem sempre isso acontece. Este excerto pertence claramente ao segundo grupo. Desperta interesse, mas deixa muitas dúvidas no ar.
Fair Coin. Parece ser um romance curioso, talvez misto de horror com ficção científica, que começa quando um rapaz chega da escola e encontra a mãe quase em coma por ter engolido uma porção de comprimidos. Porquê? Porque o julgava morto. E se isso não fosse estranho o suficiente, depressa as coisas se tornam mais estranhas ainda quando ele começa a reparar em incongruências entre o mundo em que se encontra e aquele de que se recorda, quase como se... quase como se estivesse no lugar errado, como se tivesse ido ali parar sem saber como, vindo de outro universo em que as coisas eram subtilmente diferentes. Quase como se não fosse ele o filho daquela mãe suicida, cujo filho teria realmente morrido, mas sim um duplo. Uma cópia. Há histórias destas na ficção científica, e algumas são excelentes, mas esta não sei para onde vai; tanto pode ser mais uma boa história como não. Por vezes, basta o excerto para fornecer garantias, seja pela qualidade da prosa, seja pela forma como o enredo é apresentado, mas nem sempre isso acontece. Este excerto pertence claramente ao segundo grupo. Desperta interesse, mas deixa muitas dúvidas no ar.
quarta-feira, 1 de junho de 2016
Lido: 2014 Campbellian Anthology - John P. Murphy
John P. Murphy está presente nesta antologia com dois pequenos contos. Nomeadamente:
Tumbleweeds and Indelicate Questions é um divertido conto de ficção científica que relata uma conversa, num bar algures nos EUA, cujo tema é uma cabeça de ET, de uma espécie bizarramente chamada "tumbleweeds", que o bar exibe entre as garrafas de isto e aquilo. Ou melhor: o tema da conversa não é propriamente a cabeça mas quem teria matado o seu dono. É um conto com graça, mas pouco mais.
At the Old Folks Home at the End of the World é um conto de fantasia, também carregadinho de humor, que descreve o aborrecidíssimo dia-a-dia de uma casa de repouso para supervilões imortais (e ocasionalmente divinos) no fim do mundo. Fim do mundo esse que nunca mais chega, raios o partam, deixando os supervilões, fartíssimos uns dos outros como só supervilões imortais poderiam estar, à beira de um ataque de nervos. Ou de vários. Um conto muito divertido e imaginativo, que quase chega a fazer sentir pena dos supervilões. Quase. De qualquer forma, bastante melhor que o primeiro.
Tumbleweeds and Indelicate Questions é um divertido conto de ficção científica que relata uma conversa, num bar algures nos EUA, cujo tema é uma cabeça de ET, de uma espécie bizarramente chamada "tumbleweeds", que o bar exibe entre as garrafas de isto e aquilo. Ou melhor: o tema da conversa não é propriamente a cabeça mas quem teria matado o seu dono. É um conto com graça, mas pouco mais.
At the Old Folks Home at the End of the World é um conto de fantasia, também carregadinho de humor, que descreve o aborrecidíssimo dia-a-dia de uma casa de repouso para supervilões imortais (e ocasionalmente divinos) no fim do mundo. Fim do mundo esse que nunca mais chega, raios o partam, deixando os supervilões, fartíssimos uns dos outros como só supervilões imortais poderiam estar, à beira de um ataque de nervos. Ou de vários. Um conto muito divertido e imaginativo, que quase chega a fazer sentir pena dos supervilões. Quase. De qualquer forma, bastante melhor que o primeiro.
segunda-feira, 30 de maio de 2016
Lido: 2014 Campbellian Anthology - Clint Morey
Com Clint Morey regressamos aos excertos de romances e o dele intitula-se
The Outer Rims. Parece tratar-se de uma obra de ficção científica mais ou menos militar, muitíssimo americana, sobre o contacto e coexistência, ou não, entre uma espécie indígena de um planeta, inteligente mas tecnologicamente pouco desenvolvida, e colonos humanos. O protagonista é um "space marshall", uma espécie de polícia planetário independente de elevada patente, que parece seguir o modelo dos federal marshalls dos EUA, o qual é nomeado para o planeta onde os tais indígenas lhe tinham assassinado os pais, missionários evangélicos, que teriam ido ao planeta a fim de evangelizarem os nativos. Eu avisei que isto era muito americano.
O enredo é bem lançado (ainda existe uma mulher doente, que a medicina dos nativos parece poder tratar, e mais uma série de pontos de tensão) e a escrita é competente, mas o excerto não dá pistas sobre o rumo que o romance vai seguir, deixando em aberto muitos rumos diferentes, uns bastante bons, outros bem pelo contrário. No entanto, despertou-me curiosidade, mesmo tendo-me toda aquela americanice deixado de pé atrás; pelo menos essa qualidade tem de certeza.
The Outer Rims. Parece tratar-se de uma obra de ficção científica mais ou menos militar, muitíssimo americana, sobre o contacto e coexistência, ou não, entre uma espécie indígena de um planeta, inteligente mas tecnologicamente pouco desenvolvida, e colonos humanos. O protagonista é um "space marshall", uma espécie de polícia planetário independente de elevada patente, que parece seguir o modelo dos federal marshalls dos EUA, o qual é nomeado para o planeta onde os tais indígenas lhe tinham assassinado os pais, missionários evangélicos, que teriam ido ao planeta a fim de evangelizarem os nativos. Eu avisei que isto era muito americano.
O enredo é bem lançado (ainda existe uma mulher doente, que a medicina dos nativos parece poder tratar, e mais uma série de pontos de tensão) e a escrita é competente, mas o excerto não dá pistas sobre o rumo que o romance vai seguir, deixando em aberto muitos rumos diferentes, uns bastante bons, outros bem pelo contrário. No entanto, despertou-me curiosidade, mesmo tendo-me toda aquela americanice deixado de pé atrás; pelo menos essa qualidade tem de certeza.
domingo, 29 de maio de 2016
Lido: 2014 Campbellian Anthology - Tim Maughan
Tim Maughan está presente nesta antologia com uma quantidade significativa de texto, espalhado entre uma noveleta e dois contos.
Limited Edition, a noveleta, é uma história de ficção científica pós-ciberpunk sobre um grupo de jovens hackers que organiza um ataque a um centro comercial para roubar um carregamento de sapatilhas de gama alta, numa ação, transmitida em direto pela net clandestina, que encaram mais como forma de ganhar nome no submundo e de mandar o sistema ao tal sítio do que de obter coisas para delas desfrutarem ou serem vendidas. Mais como um jogo anarquista ou niilista do que como um crime. E isso é sublinhado quando um deles, impressionado com um vídeo que mostra as condições de trabalho dos miúdos asiáticos semi-escravos que produzem as sapatilhas, decide introduzir no feed da ação uma denúncia geral contra o abuso dos mais elementares direitos humanos que elas comportam. Uma história ágil, entrecortada por comentários ao estilo de tweets, e cheia de diálogos que por vezes se tornam difíceis de seguir (mas ficam muito mais credíveis) devido à quantidade de gírias que trazem consigo. Uma história bastante boa, sob vários aspetos.
Zero Hours é outro conto de ficção científica em futuro razoavelmente (e assustadoramente) próximo, ambientado no submundo pobre de uma sociedade distopicamente ultracapitalista, protagonizado por uma rapariga que sobrevive trabalhando clandestinamente à tarefa, em biscates, naquilo que aparece. O conto limita-se a descrever um dia da vida dela, mas mesmo assim é aterrador pela plausibilidade do que descreve. Outra história muito boa.
Collision Detection, o segundo conto, volta a ser ficção científica de futuro próximo mas aqui o tom é menos político e mais sentimental, ainda que a política (distópica, ultracapitalista, violenta) continue a existir num pano de fundo que acaba por ter um impacto direto (como tem sempre) na história e no protagonista. Este é um homem que se submete a operações cirúrgicas meio legais, meio clandestinas, para a implantação de uma rede neural secundária que lhe permita sentir o toque da amante, que vive a meio continente de distância. E tudo parece correr bem até que o pano de fundo sobe a primeiro plano e o desenlace de duas vidas acontece.
São três histórias francamente boas e carregadinhas de conteúdo. Maughan é um autor a manter debaixo de olho, sem sombra de dúvida.
Limited Edition, a noveleta, é uma história de ficção científica pós-ciberpunk sobre um grupo de jovens hackers que organiza um ataque a um centro comercial para roubar um carregamento de sapatilhas de gama alta, numa ação, transmitida em direto pela net clandestina, que encaram mais como forma de ganhar nome no submundo e de mandar o sistema ao tal sítio do que de obter coisas para delas desfrutarem ou serem vendidas. Mais como um jogo anarquista ou niilista do que como um crime. E isso é sublinhado quando um deles, impressionado com um vídeo que mostra as condições de trabalho dos miúdos asiáticos semi-escravos que produzem as sapatilhas, decide introduzir no feed da ação uma denúncia geral contra o abuso dos mais elementares direitos humanos que elas comportam. Uma história ágil, entrecortada por comentários ao estilo de tweets, e cheia de diálogos que por vezes se tornam difíceis de seguir (mas ficam muito mais credíveis) devido à quantidade de gírias que trazem consigo. Uma história bastante boa, sob vários aspetos.
Zero Hours é outro conto de ficção científica em futuro razoavelmente (e assustadoramente) próximo, ambientado no submundo pobre de uma sociedade distopicamente ultracapitalista, protagonizado por uma rapariga que sobrevive trabalhando clandestinamente à tarefa, em biscates, naquilo que aparece. O conto limita-se a descrever um dia da vida dela, mas mesmo assim é aterrador pela plausibilidade do que descreve. Outra história muito boa.
Collision Detection, o segundo conto, volta a ser ficção científica de futuro próximo mas aqui o tom é menos político e mais sentimental, ainda que a política (distópica, ultracapitalista, violenta) continue a existir num pano de fundo que acaba por ter um impacto direto (como tem sempre) na história e no protagonista. Este é um homem que se submete a operações cirúrgicas meio legais, meio clandestinas, para a implantação de uma rede neural secundária que lhe permita sentir o toque da amante, que vive a meio continente de distância. E tudo parece correr bem até que o pano de fundo sobe a primeiro plano e o desenlace de duas vidas acontece.
São três histórias francamente boas e carregadinhas de conteúdo. Maughan é um autor a manter debaixo de olho, sem sombra de dúvida.
sábado, 28 de maio de 2016
Lido: 2014 Campbellian Anthology - Rich Matrunick
Rich Matrunick está presente nesta antologia com um só conto, intitulado
Barren Sky. Trata-se de uma história híbrida, com elementos de ficção científica e de fantasia, passada aparentemente num mundo secundário (ou talvez num planeta distante) cuja cultura também mescla elementos culturais variados, ocidentais, indianos e talvez nativo-americanos. O ambiente é distópico, com a civilização prestes a ruir devido a uma prolongada seca que está a provocar a fome e o desespero, a consequente violência e o inevitável surgimento (ou ressurgimento) de superstições. Mas não é, julgo, uma boa história. Além de não ser literariamente brilhante, deixa demasiadas pontas soltas, demasiadas incongruências lógicas, para realmente funcionar bem. Tem alguns motivos de interesse, mas creio que não passa disso.
Barren Sky. Trata-se de uma história híbrida, com elementos de ficção científica e de fantasia, passada aparentemente num mundo secundário (ou talvez num planeta distante) cuja cultura também mescla elementos culturais variados, ocidentais, indianos e talvez nativo-americanos. O ambiente é distópico, com a civilização prestes a ruir devido a uma prolongada seca que está a provocar a fome e o desespero, a consequente violência e o inevitável surgimento (ou ressurgimento) de superstições. Mas não é, julgo, uma boa história. Além de não ser literariamente brilhante, deixa demasiadas pontas soltas, demasiadas incongruências lógicas, para realmente funcionar bem. Tem alguns motivos de interesse, mas creio que não passa disso.
quinta-feira, 26 de maio de 2016
Lido: 2014 Campbellian Anthology - Michael Matheson
Michael Matheson também está presente nesta antologia com três contos.
The Many Lives of the Xun Long é uma fantasia urbana fantasmagórica ambientada na comunidade chinesa de Toronto, Canadá, e serve-se dos fantasmas e de uma linhagem hereditária de protetores mascarados, os Xun Long, para fazer uma reflexão bastante interessante sobre as questões de identidade no seio das comunidades imigrantes em terras estranhas. No caso é a chinesa, mas poderia ser qualquer outra. Não é nada de muito profundo, até porque o conto é razoavelmente breve, mas mesmo assim é interessante.
Weary, Bone Deep é um conto de horror, protagonizado por um rapaz que é o único na família a conseguir ver os monstros fantasmagóricos que habitam na sua casa. Dilacerado entre o medo e a curiosidade, o rapaz vive à espreita dos fantasmas, dos portais para dimensões desconhecidas. Contudo, pode não se tratar de nada disso. O horror sobrenatural pode não passar de imaginação, de uma forma de racionalização do impensável. O horror verdadeiro pode ser bastante mais concreto e mais próximo, feito de abuso. Um conto bastante bom, este.
The Last Summer é outro conto de horror protagonizado por um grupo de rapazes quase a deixarem de o ser, cujo líder está a gozar dos últimos dias de saúde, prestes a deteriorar-se por causa de uma doença inescapável mas nunca nomeada. O ambiente é um velho casarão abandonado e com fama de assombrado desde que se descobrira uma série de cadáveres enterrados na propriedade. Vítimas de assassínio. É outro bom conto, com um ambiente opressivo bastante bem criado, e uma história que, não sendo nada de extraordinário, funciona bem. Um daqueles contos de fim de infância, sendo que neste caso o fim é bastante literal para um deles, e quase para todos os restantes.
Matheson parece ser autor a ter debaixo de olho.
The Many Lives of the Xun Long é uma fantasia urbana fantasmagórica ambientada na comunidade chinesa de Toronto, Canadá, e serve-se dos fantasmas e de uma linhagem hereditária de protetores mascarados, os Xun Long, para fazer uma reflexão bastante interessante sobre as questões de identidade no seio das comunidades imigrantes em terras estranhas. No caso é a chinesa, mas poderia ser qualquer outra. Não é nada de muito profundo, até porque o conto é razoavelmente breve, mas mesmo assim é interessante.
Weary, Bone Deep é um conto de horror, protagonizado por um rapaz que é o único na família a conseguir ver os monstros fantasmagóricos que habitam na sua casa. Dilacerado entre o medo e a curiosidade, o rapaz vive à espreita dos fantasmas, dos portais para dimensões desconhecidas. Contudo, pode não se tratar de nada disso. O horror sobrenatural pode não passar de imaginação, de uma forma de racionalização do impensável. O horror verdadeiro pode ser bastante mais concreto e mais próximo, feito de abuso. Um conto bastante bom, este.
The Last Summer é outro conto de horror protagonizado por um grupo de rapazes quase a deixarem de o ser, cujo líder está a gozar dos últimos dias de saúde, prestes a deteriorar-se por causa de uma doença inescapável mas nunca nomeada. O ambiente é um velho casarão abandonado e com fama de assombrado desde que se descobrira uma série de cadáveres enterrados na propriedade. Vítimas de assassínio. É outro bom conto, com um ambiente opressivo bastante bem criado, e uma história que, não sendo nada de extraordinário, funciona bem. Um daqueles contos de fim de infância, sendo que neste caso o fim é bastante literal para um deles, e quase para todos os restantes.
Matheson parece ser autor a ter debaixo de olho.
quarta-feira, 25 de maio de 2016
Lido: 2014 Campbellian Anthology - Samuel Marzioli
Com Samuel Marzioli voltamos aos contos, e no caso dele são três.
A House in the Woods é um conto de horror, muito curto, sobre um casebre assombrado na floresta. Ou talvez, como o protagonista pensa, não propriamente assombrado mas decerto habitado. O conto é demasiado curto para causar realmente algum impacto, mas a ideia varia levemente do tema típico das casas assombradas e por isso tem o seu interesse.
Midnight Visitors é outro conto de horror, este distópico, pós-apocalíptico, que se centra num pequeno (o último?) grupo de sobreviventes humanos num mundo tomado por visitantes noturnos. Trata-se de uma variante do tema dos zombies, e está bastante bem conseguido. Os visitantes, que surgem à meia-noite a bater às portas das pessoas, são suas familiares ou amantes, entes queridos de alguma forma regressados do mundo dos mortos, exercendo sobre os vivos pressão psicológica para desistirem e se lhes irem juntar. Este é um conto bastante bom.
Burning Men é mais um conto em que o horror está bem presente, mas este é uma distopia passada num mundo (futuro?) em que as pessoas inúteis à sociedade são sumariamente executadas por uma espécie de polícias cuja função é queimá-las vivas. O protagonista é um destes últimos, atormentado pela consciência movida a religião, mas o conto volta a ser demasiado curto para ser mais do que interessante. Mas isso é, apesar do óbvio proselitismo antiateu que traz consigo.
A House in the Woods é um conto de horror, muito curto, sobre um casebre assombrado na floresta. Ou talvez, como o protagonista pensa, não propriamente assombrado mas decerto habitado. O conto é demasiado curto para causar realmente algum impacto, mas a ideia varia levemente do tema típico das casas assombradas e por isso tem o seu interesse.
Midnight Visitors é outro conto de horror, este distópico, pós-apocalíptico, que se centra num pequeno (o último?) grupo de sobreviventes humanos num mundo tomado por visitantes noturnos. Trata-se de uma variante do tema dos zombies, e está bastante bem conseguido. Os visitantes, que surgem à meia-noite a bater às portas das pessoas, são suas familiares ou amantes, entes queridos de alguma forma regressados do mundo dos mortos, exercendo sobre os vivos pressão psicológica para desistirem e se lhes irem juntar. Este é um conto bastante bom.
Burning Men é mais um conto em que o horror está bem presente, mas este é uma distopia passada num mundo (futuro?) em que as pessoas inúteis à sociedade são sumariamente executadas por uma espécie de polícias cuja função é queimá-las vivas. O protagonista é um destes últimos, atormentado pela consciência movida a religião, mas o conto volta a ser demasiado curto para ser mais do que interessante. Mas isso é, apesar do óbvio proselitismo antiateu que traz consigo.
terça-feira, 24 de maio de 2016
Lido: 2014 Campbellian Anthology - Kate Maruyama
Kate Maruyama também está presente nesta antologia com um excerto de romance, que no caso dela se intitula
Harrowgate. É um romance de horror, aparentemente com muito de horror psicológico mas também com horror sobrenatural. Uma história de fantasmas que parece ser francamente arrepiante e centrar-se na relação de uma mãe com o seu bebé recém-nascido. Bebé? Nascido? Bem... não propriamente. O melhor será chamar-lhe feto recém-abortado, morto, portanto, o que significa que se alguma relação existe só poderá ser com o seu fantasma. Para piorar ainda mais as coisas, enfiando-as decididamente no campo do mais absoluto pesadelo, a mulher teve de passar sozinha pelo trauma do aborto porque o pai que acabou por não o ser, e que também entra na história, estava ausente de casa em trabalhos científicos de campo. Sim, a tensão é múltipla e omnipresente.
O excerto está bastante bem conseguido. Se o livro conseguir sustentar a qualidade até ao fim, o que não me parece muito fácil — a história tal como aparece no excerto é muito intimista — poderá ser um belíssimo livro. Bem, talvez não belíssimo, que a beleza não é certamente o que aqui se tenta alcançar. Boníssimo, vá. Não sendo o horror o meu género favorito, não me despertou uma curiosidade particularmente grande, mas isso já tem a ver com o meu gosto pessoal, não com a qualidade que o livro me pareceu ter. Fosse eu mais amigo de sustos, arrepios e repugnâncias, tê-la-ia tido em quantidade bastante maior.
Harrowgate. É um romance de horror, aparentemente com muito de horror psicológico mas também com horror sobrenatural. Uma história de fantasmas que parece ser francamente arrepiante e centrar-se na relação de uma mãe com o seu bebé recém-nascido. Bebé? Nascido? Bem... não propriamente. O melhor será chamar-lhe feto recém-abortado, morto, portanto, o que significa que se alguma relação existe só poderá ser com o seu fantasma. Para piorar ainda mais as coisas, enfiando-as decididamente no campo do mais absoluto pesadelo, a mulher teve de passar sozinha pelo trauma do aborto porque o pai que acabou por não o ser, e que também entra na história, estava ausente de casa em trabalhos científicos de campo. Sim, a tensão é múltipla e omnipresente.
O excerto está bastante bem conseguido. Se o livro conseguir sustentar a qualidade até ao fim, o que não me parece muito fácil — a história tal como aparece no excerto é muito intimista — poderá ser um belíssimo livro. Bem, talvez não belíssimo, que a beleza não é certamente o que aqui se tenta alcançar. Boníssimo, vá. Não sendo o horror o meu género favorito, não me despertou uma curiosidade particularmente grande, mas isso já tem a ver com o meu gosto pessoal, não com a qualidade que o livro me pareceu ter. Fosse eu mais amigo de sustos, arrepios e repugnâncias, tê-la-ia tido em quantidade bastante maior.
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Lido: 2014 Campbellian Anthology - Michael J. Martinez
Michael J. Martinez é mais um autor que está presente nesta antologia com um excerto de romance, que no seu caso se intitula
The Daedalus Incident. Com este título os leitores mais experientes facilmente situam a obra na ficção científica, e de facto acertam, mas trata-se de uma ficção científica bem diferente do que poderão esperar. Tão diferente, de facto, que haverá leitores que estranharão o rótulo, ainda que talvez estranhassem menos se a palavra ficção fosse substituída pela palavra fantasia. É que este romance parece ser um híbrido de história pré-vitoriana de navegação com space opera, e se isso soa estranho é porque realmente o é. Imaginem uma daquelas histórias, passadas no século XVI ou XVII, em que os intrépidos navios ao serviço de Sua Majestade britânica combatem ferozmente os galeões espanhóis carregados de ouro vindo das colónias castelhanas na América. Imaginaram? Agora transponham-na para o espaço, ponham os navios a navegar não o mar Oceano mas o Vazio, algures nas imediações de Marte, mas sem que a manobra, as armas e até a estrutura das embarcações mude por aí além. É isso que este excerto nos traz. E é só isso que este excerto nos traz. O problema é que se for só isso que o romance contém o resultado deverá ser muito, muito insatisfatório. Não sei se assim é ou não. Mas lá que o excerto não me deixou minimamente interessado no livro completo, não deixou.
The Daedalus Incident. Com este título os leitores mais experientes facilmente situam a obra na ficção científica, e de facto acertam, mas trata-se de uma ficção científica bem diferente do que poderão esperar. Tão diferente, de facto, que haverá leitores que estranharão o rótulo, ainda que talvez estranhassem menos se a palavra ficção fosse substituída pela palavra fantasia. É que este romance parece ser um híbrido de história pré-vitoriana de navegação com space opera, e se isso soa estranho é porque realmente o é. Imaginem uma daquelas histórias, passadas no século XVI ou XVII, em que os intrépidos navios ao serviço de Sua Majestade britânica combatem ferozmente os galeões espanhóis carregados de ouro vindo das colónias castelhanas na América. Imaginaram? Agora transponham-na para o espaço, ponham os navios a navegar não o mar Oceano mas o Vazio, algures nas imediações de Marte, mas sem que a manobra, as armas e até a estrutura das embarcações mude por aí além. É isso que este excerto nos traz. E é só isso que este excerto nos traz. O problema é que se for só isso que o romance contém o resultado deverá ser muito, muito insatisfatório. Não sei se assim é ou não. Mas lá que o excerto não me deixou minimamente interessado no livro completo, não deixou.
sábado, 21 de maio de 2016
Lido: 2014 Campbellian Anthology - Helen Marshall
De regresso a esta antologia, hoje falo de Helen Marshall, autora que está nela presente com três contos.
The Hanging Game. É sobretudo um conto de horror psicológico, mas também tem uma discreta componente de horror sobrenatural. Gira em volta de ursos, de estranhas tradições e de coisas que há que fazer para que outras coisas, aparentemente sem qualquer relação, aconteçam. Uma dessas tradições é um jogo infantil, chamado jogo do enforcamento, que consiste nisso mesmo, no enforcamento de um miúdo de uma árvore. Rezam as crenças que, ao ser enforcado, o miúdo vê o futuro. O enforcamento não leva à morte, apenas ao transe... até ao dia em que as coisas correm mal e alguém morre mesmo. É um conto bastante bem construído e inquietante.
I'm the Lady of Good Times, She Said. Outro conto de horror, muito bem concebido, muito bem escrito, até, com um uso muito bom de coloquialismos a servir para ambientar a história no meio em que ela se desenrola, apesar de este ser cliché e fazer imediatamente recordar cenas vistas em road movies pelo Oeste americano e em séries policiais. No meio de tudo está um homem que conduz sob a ameaça de uma arma, e vamos descobrindo aos poucos o porquê da condução e da ameaça. Quem o ameaça é o cunhado, criminoso condenado, e o motivo da ameaça é a traição. O ameaçado, que narra a história na primeira pessoa, é incapaz de resistir a mulheres, e o cunhado soube e não gostou. E não, o horror não é esse. O horror é essas mulheres serem fantasmas.
The Slipway Grey. Mais um conto de horror, contado por um velho sul-africano à sua "bokkie". É outro conto em que o que chama mais a atenção é a excelente forma como Helen Marshall adapta o texto à voz das personagens. Neste caso é a voz de um velho, prestes a morrer, que decide que tem de transmitir à descendência a sua sabedoria, aquilo que foi aprendendo ao longo da vida sobre a morte e as coisas mágicas que a rodeiam. Porque ao longo da vida ele se tinha aproximado muito da morte, não uma, mas duas vezes.
São três bons contos de horror, que mostram uma escritora muito forte na caracterização e nos instrumentos literários dessa caracterização, uma escritora que sabe ir transmitindo a informação necessária para a compreensão da história nos tempos certos, mas que no entanto têm um problema: não há neles nada que seja realmente memorável e por isso esquecem-se depressa.
The Hanging Game. É sobretudo um conto de horror psicológico, mas também tem uma discreta componente de horror sobrenatural. Gira em volta de ursos, de estranhas tradições e de coisas que há que fazer para que outras coisas, aparentemente sem qualquer relação, aconteçam. Uma dessas tradições é um jogo infantil, chamado jogo do enforcamento, que consiste nisso mesmo, no enforcamento de um miúdo de uma árvore. Rezam as crenças que, ao ser enforcado, o miúdo vê o futuro. O enforcamento não leva à morte, apenas ao transe... até ao dia em que as coisas correm mal e alguém morre mesmo. É um conto bastante bem construído e inquietante.
I'm the Lady of Good Times, She Said. Outro conto de horror, muito bem concebido, muito bem escrito, até, com um uso muito bom de coloquialismos a servir para ambientar a história no meio em que ela se desenrola, apesar de este ser cliché e fazer imediatamente recordar cenas vistas em road movies pelo Oeste americano e em séries policiais. No meio de tudo está um homem que conduz sob a ameaça de uma arma, e vamos descobrindo aos poucos o porquê da condução e da ameaça. Quem o ameaça é o cunhado, criminoso condenado, e o motivo da ameaça é a traição. O ameaçado, que narra a história na primeira pessoa, é incapaz de resistir a mulheres, e o cunhado soube e não gostou. E não, o horror não é esse. O horror é essas mulheres serem fantasmas.
The Slipway Grey. Mais um conto de horror, contado por um velho sul-africano à sua "bokkie". É outro conto em que o que chama mais a atenção é a excelente forma como Helen Marshall adapta o texto à voz das personagens. Neste caso é a voz de um velho, prestes a morrer, que decide que tem de transmitir à descendência a sua sabedoria, aquilo que foi aprendendo ao longo da vida sobre a morte e as coisas mágicas que a rodeiam. Porque ao longo da vida ele se tinha aproximado muito da morte, não uma, mas duas vezes.
São três bons contos de horror, que mostram uma escritora muito forte na caracterização e nos instrumentos literários dessa caracterização, uma escritora que sabe ir transmitindo a informação necessária para a compreensão da história nos tempos certos, mas que no entanto têm um problema: não há neles nada que seja realmente memorável e por isso esquecem-se depressa.
quinta-feira, 19 de maio de 2016
Lido: A Guerra dos Cibernautas
A Guerra dos Cibernautas é um digno representante da tradição mais pulp da ficção científica. Com origem na banda desenhada dos anos 30, o herói, Flash Gordon, criado por Alex Raymond, teve uma ilustre carreira por outros media, que incluiu passagens pelo cinema, pela televisão, tanto em imagem real como em desenhos animados (e sim, eu em miúdo era fã dos desenhos animados do Flash Gordon), até pela rádio e pelo teatro, e também por pequenos romances como este.
Que é, claro, um romancezinho muito mau.
E que, apesar de nesta edição portuguesa da Agência Portuguesa de Revistas vir creditado a Raymond, na verdade foi escrito por Bruce Cassiday.
Tudo começa quando se descobre um planeta à deriva, vindo de outra "constelação", em aproximação ao Sistema Solar. Sim, a incongruência astronómica, a utilização de termos científicos sem qualquer correspondência com os seus reais significados, é de regra. Fala-se de galáxias como se fossem coisas acessíveis e não os objetos quase incompreensivelmente longínquos que realmente são, fala-se de constelações como se fossem mais do que relações arbitrárias entre objetos celestes no céu da Terra, sem nenhuma realidade física subjacente, e por aí fora. Pulp, portanto.
Feita a descoberta, e depois de uma série de naves de exploração terem desaparecido misteriosamente nas imediações do planeta, lá vai o herói resolver o assunto, acompanhado pelo Doutor Zarkov, também personagem habitual nas aventuras de Gordon. E ao chegar ao planeta são imediatamente atacados por robôs que rodeiam o dito numa quase impenetrável camada defensiva. Com grande dificuldade, o herói lá salva a situação e consegue pousar no planeta, ainda que o verbo "cair" talvez tenha aqui uma aplicação mais acertada.
O que os dois terráqueos vão encontrar é um planeta em guerra total entre dois exércitos de robôs, os tais cibernautas do título. Sim, a palavra nada tem a ver com o significado que hoje lhe damos, o que em si mesmo é curioso. Após as previsíveis peripécias, o herói lá consegue chegar à fala com os mais importantes líderes do planeta, duas mulheres, ambas lindas, esculturais e desesperadamente carentes de homem que, como é evidente, não conseguem resistir ao macho terrestre e caem de quatro por ele, apesar de viverem rodeadas de homens... só que esses são ratos de laboratório, os técnicos que constroem e fazem a manutenção das máquinas de guerra, criaturas masculinas que nenhuma fêmea boazona digna desse nome se rebaixaria a olhar duas vezes. Credo, nerds, que nojo!
E no fim, claro, o herói (e o sub-herói) lá arranjam maneira de se safar para poderem prosseguir as aventuras noutra ocasião e noutras paragens exóticas. Como não poderia deixar de ser e como mandam os mandamentos do pulp.
Mas nem tudo é mau e desinteressante neste livro. Apesar de estar mal escrito, apesar da história básica, apesar do machismo, apesar de, tendo sido publicado em 1975, obedecer fielmente à receita das aventuras pulpescas e às características da personagem, estabelecidas quarenta anos antes, este livro contém uma crítica fortíssima e muito pouco subtil à irracionalidade da Guerra Fria. Os dois exércitos robóticos são uma clara alusão aos gigantescos exércitos soviético e americano do tempo, o planeta devastado é um aviso igualmente claro contra o que poderia acontecer se a esses exércitos fosse dada rédea solta, e a irracionalidade de tudo é sublinhada pelo final deprimente. À sua maneira tosca, este romancezinho despretensioso é um libelo pacifista. E essa foi a maior surpresa que tive ao lê-lo.
Mas a verdade é que há melhores. Há muito melhores, tanto na FC ocidental como nas ficções científicas polaca e soviética. Não é isso que salva o livro de ser mau.
Este livro foi-me oferecido por um amigo.
Que é, claro, um romancezinho muito mau.
E que, apesar de nesta edição portuguesa da Agência Portuguesa de Revistas vir creditado a Raymond, na verdade foi escrito por Bruce Cassiday.
Tudo começa quando se descobre um planeta à deriva, vindo de outra "constelação", em aproximação ao Sistema Solar. Sim, a incongruência astronómica, a utilização de termos científicos sem qualquer correspondência com os seus reais significados, é de regra. Fala-se de galáxias como se fossem coisas acessíveis e não os objetos quase incompreensivelmente longínquos que realmente são, fala-se de constelações como se fossem mais do que relações arbitrárias entre objetos celestes no céu da Terra, sem nenhuma realidade física subjacente, e por aí fora. Pulp, portanto.
Feita a descoberta, e depois de uma série de naves de exploração terem desaparecido misteriosamente nas imediações do planeta, lá vai o herói resolver o assunto, acompanhado pelo Doutor Zarkov, também personagem habitual nas aventuras de Gordon. E ao chegar ao planeta são imediatamente atacados por robôs que rodeiam o dito numa quase impenetrável camada defensiva. Com grande dificuldade, o herói lá salva a situação e consegue pousar no planeta, ainda que o verbo "cair" talvez tenha aqui uma aplicação mais acertada.
O que os dois terráqueos vão encontrar é um planeta em guerra total entre dois exércitos de robôs, os tais cibernautas do título. Sim, a palavra nada tem a ver com o significado que hoje lhe damos, o que em si mesmo é curioso. Após as previsíveis peripécias, o herói lá consegue chegar à fala com os mais importantes líderes do planeta, duas mulheres, ambas lindas, esculturais e desesperadamente carentes de homem que, como é evidente, não conseguem resistir ao macho terrestre e caem de quatro por ele, apesar de viverem rodeadas de homens... só que esses são ratos de laboratório, os técnicos que constroem e fazem a manutenção das máquinas de guerra, criaturas masculinas que nenhuma fêmea boazona digna desse nome se rebaixaria a olhar duas vezes. Credo, nerds, que nojo!
E no fim, claro, o herói (e o sub-herói) lá arranjam maneira de se safar para poderem prosseguir as aventuras noutra ocasião e noutras paragens exóticas. Como não poderia deixar de ser e como mandam os mandamentos do pulp.
Mas nem tudo é mau e desinteressante neste livro. Apesar de estar mal escrito, apesar da história básica, apesar do machismo, apesar de, tendo sido publicado em 1975, obedecer fielmente à receita das aventuras pulpescas e às características da personagem, estabelecidas quarenta anos antes, este livro contém uma crítica fortíssima e muito pouco subtil à irracionalidade da Guerra Fria. Os dois exércitos robóticos são uma clara alusão aos gigantescos exércitos soviético e americano do tempo, o planeta devastado é um aviso igualmente claro contra o que poderia acontecer se a esses exércitos fosse dada rédea solta, e a irracionalidade de tudo é sublinhada pelo final deprimente. À sua maneira tosca, este romancezinho despretensioso é um libelo pacifista. E essa foi a maior surpresa que tive ao lê-lo.
Mas a verdade é que há melhores. Há muito melhores, tanto na FC ocidental como nas ficções científicas polaca e soviética. Não é isso que salva o livro de ser mau.
Este livro foi-me oferecido por um amigo.
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Lido: VanderMeer 2005
VanderMeer 2005 é um livrinho de 71 páginas que serve como apresentação das obras mais recentes do autor (publicadas ou no prelo), Jeff VanderMeer, à data da publicação, 2005. Sendo uma apresentação é, naturalmente, composto por excertos, não por obras completas, mas mesmo assim estas existem, pois um dos livros apresentados é uma coletânea de contos intitulada Secret Lives. Na verdade não é a única coletânea aqui presente: City of Saints & Madmen também o é, mas as histórias desta última são mais extensas e por isso o que aqui aparece é também apenas um excerto. Completam o volume uma entrevista a VanderMeer, feita por Neddal Ayad, e uma nota do autor.
Estes livrinhos são sempre ofertas e eu, depois de o receber, pu-lo na pilha e nunca mais me lembrei dele até há pouco tempo. Hoje arrependo-me, porque os excertos aqui presentes são francamente interessantes e, uns mais do que outros, como é natural, despertam mesmo a vontade de ir à procura dos livros completos. Fiquei particularmente interessado em Veniss Underground e em City of Saints & Madmen, mas suspeito (risca: tenho certeza) que haverá também histórias muito boas em Secret Lives. Shrek: an Afterward foi o livro que menos curiosidade me despertou, mas mesmo assim despertou-a, até porque há uma coisa que é constante em todos estes excertos: qualidade literária.
Tudo somado, este livrinho que se destina a despertar a quem o ler curiosidade sobre as obras completas, cumpriu em pleno o objetivo. Ou seja: é muito bom. Um dia saberei se os quatro livros a que se refere também o são, como parecem ser.
Eis os comentários que os vários excertos (e histórias completas) me foram despertando:
Como já foi dito, este livro foi uma oferta.
Estes livrinhos são sempre ofertas e eu, depois de o receber, pu-lo na pilha e nunca mais me lembrei dele até há pouco tempo. Hoje arrependo-me, porque os excertos aqui presentes são francamente interessantes e, uns mais do que outros, como é natural, despertam mesmo a vontade de ir à procura dos livros completos. Fiquei particularmente interessado em Veniss Underground e em City of Saints & Madmen, mas suspeito (risca: tenho certeza) que haverá também histórias muito boas em Secret Lives. Shrek: an Afterward foi o livro que menos curiosidade me despertou, mas mesmo assim despertou-a, até porque há uma coisa que é constante em todos estes excertos: qualidade literária.
Tudo somado, este livrinho que se destina a despertar a quem o ler curiosidade sobre as obras completas, cumpriu em pleno o objetivo. Ou seja: é muito bom. Um dia saberei se os quatro livros a que se refere também o são, como parecem ser.
Eis os comentários que os vários excertos (e histórias completas) me foram despertando:
Como já foi dito, este livro foi uma oferta.
domingo, 17 de abril de 2016
Lido: Contos Comédia Social
Contos Comédia Social é mais uma das pequenas antologias de contos publicadas pela Rosto e distribuídas pelo JN e pelo DN há alguns anos. E não é das melhores. Não só porque alguns destes contos só com enorme boa vontade podem ser minimamente relacionados com o conceito de "comédia", o que não terá importância se não os encararmos enquanto parte de um conjunto temático como este mas, fazendo parte dele, tem, como porque mesmo abstraindo-nos desse fator estas histórias não são, realmente, nada de extraordinário.
Na verdade, relendo agora o que escrevi sobre cada um, reparo que o adjetivo mais positivo que lhes atribuí foi "interessante".
Com dois contos "interessantes", um "curioso", o outro nem uma coisa nem a outra e um tema que parece ajustar-se mal a parte dos contos escolhidos, ou vice-versa, esta antologia não pode ser boa. Achei-a fraca. Não má, note-se; não chegou a tanto. Mas fraca.
Eis o que achei dos quatro contos:
Este livro foi comprado.
Na verdade, relendo agora o que escrevi sobre cada um, reparo que o adjetivo mais positivo que lhes atribuí foi "interessante".
Com dois contos "interessantes", um "curioso", o outro nem uma coisa nem a outra e um tema que parece ajustar-se mal a parte dos contos escolhidos, ou vice-versa, esta antologia não pode ser boa. Achei-a fraca. Não má, note-se; não chegou a tanto. Mas fraca.
Eis o que achei dos quatro contos:
Este livro foi comprado.
quarta-feira, 13 de abril de 2016
Lido: Histórias Extraordinárias
Histórias Extraordinárias (bibliografia, embora o conteúdo desses livros varie) é uma coletânea de Edgar Allan Poe, que reúne um total de 19 contos distribuídos por dois volumes. É uma compilação de uma parte significativa da prosa curta de Poe (estão publicados certa de 70 contos), incluindo os seus contos mais importantes, e que por isso são publicados e republicados não só em antologias, aqui e ali, mas também em todas as compilações genéricas da sua ficção curta, o que tem como consequência que um leitor que procure conhecê-la, à ficção curta, vai acabar por lê-los e relê-los várias vezes em vários sítios diferentes.
Não que isso seja aborrecido, pois os contos são de facto bons, quase todos, sendo alguns excelentes, e por isso as releituras são prazerosas, salvo casos particulares de histórias que dependem demasiado do primeiro impacto para terem todo o efeito desejado sobre quem lê. E quando vêm servidos por uma tradução competente, como é o caso, menos aborrecidos ainda se tornam.
Este é, pois, um bom livro. Ou dois bons livros, se for esse o ponto de vista. Livro(s) repleto(s) de boas histórias, bem traduzidas e várias delas muitíssimo influentes. Histórias principalmente de horror, mas também policiais, de fantasia, de humor e até de ficção científica. Histórias que, se não são suficientes para um conhecimento completo da obra deste autor, são-no para se ter uma ideia muito concreta de quem ele foi e do seu impacto em vários géneros literários.
Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Primeiro Volume
Não que isso seja aborrecido, pois os contos são de facto bons, quase todos, sendo alguns excelentes, e por isso as releituras são prazerosas, salvo casos particulares de histórias que dependem demasiado do primeiro impacto para terem todo o efeito desejado sobre quem lê. E quando vêm servidos por uma tradução competente, como é o caso, menos aborrecidos ainda se tornam.
Este é, pois, um bom livro. Ou dois bons livros, se for esse o ponto de vista. Livro(s) repleto(s) de boas histórias, bem traduzidas e várias delas muitíssimo influentes. Histórias principalmente de horror, mas também policiais, de fantasia, de humor e até de ficção científica. Histórias que, se não são suficientes para um conhecimento completo da obra deste autor, são-no para se ter uma ideia muito concreta de quem ele foi e do seu impacto em vários géneros literários.
Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Primeiro Volume
- Manuscrito Encontrado Numa Garrafa
- Ligeia
- O Homem que Fora Consumido
- A Queda da Casa de Usher
- William Wilson
- O Homem da Multidão
- Uma Descida no «Maelström»
- Eleonora
- O Retrato Oval
- Os Crimes da Rua Morgue
- A Máscara da Morte Vermelha
- O Poço e o Pêndulo
- O Coração Revelador
- O Escaravelho de Ouro
- O Gato Negro
- A Carta Roubada
- A Verdade no Caso do Sr. Valdemar
- O Barril de «Amontillado»
- Hop-Frog
segunda-feira, 21 de março de 2016
Lido: Relatório Sobre a Probabilidade A
Relatório Sobre a Probabilidade A (bibliografia) é um bizarríssimo romance de ficção científica de Brian Aldiss. Ou algo de parecido.
Porque chamar-lhe romance pode ser esticar o termo um pouco além do seu alcance. Este Relatório é, de facto, um relatório. Relata com minúcia obsessiva e bastante repetitiva o que vai fazendo um tal G, cuja vida é observar discretamente o que se vai passando numa banalíssima e mui britânica casa e suas redondezas. Tudo, cada objeto, cada personagem, cada movimento, é descrito com todos os detalhes. Só G. não. G. é uma inicial e um par de olhos e uma vida absurda, pouco mais.
Esta descrição obsessiva, que viola sistematicamente todas as regras que os miúdos aprendem nas oficinas de escrita criativa, depressa ganha novos níveis, quando nos apercebemos de que G., o observador, está por sua vez a ser observado o que, de resto, explica a existência do relatório. É o relatório da observação de G. e do universo em que ele se insere, ou pelo menos da parte deste que está visível para quem produz o relatório, através de alguma espécie de janela interdimensional mal compreendida.
E novas camadas surgem quando se sabe que por sua vez essas pessoas, se é que de pessoas se trata verdadeiramente, estão a ser observadas por outras pessoas (?) em outro universo, subtilmente diferente dos anteriores, e estas por outras, e por aí fora sugerindo-se, mas sem o afirmar taxativamente, uma infinidade de universos contidos uns nos outros, uma espécie de interminável cebola de universos, e interligados por janelas de observação.
Porém, esta sucessão de observadores, sendo embora o tema principal deste livro (o que está adequadamente espelhado na capa), ocupa relativamente poucas páginas. Talvez pudesse ocupar mais, deixando um pouco mais de lado o bendito relatório, que consegue ser muitíssimo maçudo. Embora inteligente, não é leitura fácil e leve, esta. Exige paciência, e a verdade é que ao chegar o fim do livro não me senti lá muito recompensado pela paciência. Fiquei mesmo com a sensação de ter sido alvo de uma elaborada partida, de que Aldiss se estaria a rir baixinho, trocista, atrás de uma cortina. De que este Relatório Sobre a Probabilidade A, no fundo, terá sido um grande gozo, apesar de ter subjacente uma ideia bastante válida, filosófica, psicológica e até politicamente. De que Aldiss se terá sentado um belo dia à frente da máquina de escrever ou do papel e pensado, entre gargalhadinhas de gozo antecipado: "Ora bem, vamos lá agora a ver qual é o livro mais chato que consigo escrever e ainda ser lido."
Sim, acho que Aldiss enquanto troll explica muito deste livro. Não é preciso ter grande imaginação para arranjar outras formas bem mais interessantes de vincar as mesmas ideias que este livro vinca. E eu só posso tirar-lhe o chapéu. Sim senhor, caro Brian, conseguiste. Escreveste mesmo um livro chatíssimo e conseguiste mesmo arrastá-lo durante cerca de 150 páginas na maior parte das edições (esta, de letras miudinhas e páginas largas, tem menos umas 30). E eu li-o de fio a pavio. Eu e mais uma porção de gente. E queres saber? Até gostei dele, mais ou menos. Não muito, mas, eh pá, um bocado.
Muito bem. Recebe os meus parabéns.
Mas acho que é preciso ter-se um sentido de humor retorcido para se ler este livro e realmente gostar dele. Não é, de forma alguma, livro adequado a toda a gente. É livro para uma minoria de leitores razoavelmente desaparafusados da cabeça. No mínimo tanto quanto eu, mas desejavelmente mais. Portanto, em termos de recomendações, só posso dizer: "Não bates bem? Então é possível que gostes. Mas estás por tua conta; eu não assumo quaisquer responsabilidades."
Terão de se contentar com isso.
Este livro foi comprado.
Porque chamar-lhe romance pode ser esticar o termo um pouco além do seu alcance. Este Relatório é, de facto, um relatório. Relata com minúcia obsessiva e bastante repetitiva o que vai fazendo um tal G, cuja vida é observar discretamente o que se vai passando numa banalíssima e mui britânica casa e suas redondezas. Tudo, cada objeto, cada personagem, cada movimento, é descrito com todos os detalhes. Só G. não. G. é uma inicial e um par de olhos e uma vida absurda, pouco mais.
Esta descrição obsessiva, que viola sistematicamente todas as regras que os miúdos aprendem nas oficinas de escrita criativa, depressa ganha novos níveis, quando nos apercebemos de que G., o observador, está por sua vez a ser observado o que, de resto, explica a existência do relatório. É o relatório da observação de G. e do universo em que ele se insere, ou pelo menos da parte deste que está visível para quem produz o relatório, através de alguma espécie de janela interdimensional mal compreendida.
E novas camadas surgem quando se sabe que por sua vez essas pessoas, se é que de pessoas se trata verdadeiramente, estão a ser observadas por outras pessoas (?) em outro universo, subtilmente diferente dos anteriores, e estas por outras, e por aí fora sugerindo-se, mas sem o afirmar taxativamente, uma infinidade de universos contidos uns nos outros, uma espécie de interminável cebola de universos, e interligados por janelas de observação.
Porém, esta sucessão de observadores, sendo embora o tema principal deste livro (o que está adequadamente espelhado na capa), ocupa relativamente poucas páginas. Talvez pudesse ocupar mais, deixando um pouco mais de lado o bendito relatório, que consegue ser muitíssimo maçudo. Embora inteligente, não é leitura fácil e leve, esta. Exige paciência, e a verdade é que ao chegar o fim do livro não me senti lá muito recompensado pela paciência. Fiquei mesmo com a sensação de ter sido alvo de uma elaborada partida, de que Aldiss se estaria a rir baixinho, trocista, atrás de uma cortina. De que este Relatório Sobre a Probabilidade A, no fundo, terá sido um grande gozo, apesar de ter subjacente uma ideia bastante válida, filosófica, psicológica e até politicamente. De que Aldiss se terá sentado um belo dia à frente da máquina de escrever ou do papel e pensado, entre gargalhadinhas de gozo antecipado: "Ora bem, vamos lá agora a ver qual é o livro mais chato que consigo escrever e ainda ser lido."
Sim, acho que Aldiss enquanto troll explica muito deste livro. Não é preciso ter grande imaginação para arranjar outras formas bem mais interessantes de vincar as mesmas ideias que este livro vinca. E eu só posso tirar-lhe o chapéu. Sim senhor, caro Brian, conseguiste. Escreveste mesmo um livro chatíssimo e conseguiste mesmo arrastá-lo durante cerca de 150 páginas na maior parte das edições (esta, de letras miudinhas e páginas largas, tem menos umas 30). E eu li-o de fio a pavio. Eu e mais uma porção de gente. E queres saber? Até gostei dele, mais ou menos. Não muito, mas, eh pá, um bocado.
Muito bem. Recebe os meus parabéns.
Mas acho que é preciso ter-se um sentido de humor retorcido para se ler este livro e realmente gostar dele. Não é, de forma alguma, livro adequado a toda a gente. É livro para uma minoria de leitores razoavelmente desaparafusados da cabeça. No mínimo tanto quanto eu, mas desejavelmente mais. Portanto, em termos de recomendações, só posso dizer: "Não bates bem? Então é possível que gostes. Mas estás por tua conta; eu não assumo quaisquer responsabilidades."
Terão de se contentar com isso.
Este livro foi comprado.
sábado, 5 de março de 2016
Lido: Lisboa no Ano 2000
Lisboa no Ano 2000 (bibliografia) é uma antologia de ficção científica organizada por João Barreiros, mas não uma antologia como as outras. Normalmente, quando se pensa numa compilação de contos de vários autores, pensa-se em contos isolados ou englobados de uma forma mais ou menos coerente num tema genérico. Aqui, a ideia é outra. Aqui, a ideia é a construção de um universo partilhado, dentro do qual os autores desenvolvem as suas ficções.
Não é inédito, claro. Não só tem antecedentes lá fora, como já tínhamos exemplos na ficção científica de língua portuguesa, entre os quais se destaca o projeto Intempol, idealizado por Octavio Aragão. Mas em Portugal, que eu saiba, é a primeira vez que se faz algo do género e o resultado é francamente bom.
Aqui, o fulcro é uma ideia do João Barreiros, que pegou nas especulações futuristas de vários autores da viragem do século XIX para o XX, que imaginavam futuros dominados pela tecnologia de ponta do tempo, a eletricidade, temperou-a com doses generosas das suas obsessões literárias, tirou o chapéu, a boina, o barrete e o capachinho a Nicola Tesla, enquanto lhe fazia uma profundíssima vénia, misturou tudo com outras ideias meio espiritualistas, muito em voga entre finais de oitocentos e inícios de novecentos, e criou um universo ficcional sólido o suficiente para servir de alicerce para outros autores nele e com ele brincarem.
E eles fizeram-no em geral bem, criando — não que a competição seja muita — o melhor livro retrofuturista português.
Retroquê, perguntam? Retrofuturista. É uma forma de ficção científica que reimagina passados, presentes ou futuros possíveis (ou nem tanto) se a evolução tecnológica tivesse seguido caminhos diferentes daqueles que seguiu no mundo real. E subdivide-se numa profusão de subgéneros. Ficções em que a forma dominante de maquinaria funciona a vapor (e/ou, funciona segundo os princípios e/ou a estética dominantes na época do vapor) são ficções steampunk; ficções inspiradas pela era atómica chamam-se atompunk, e por aí fora.
Aqui, temos um presente (bem... um passado próximo) alternativo em que, espiritualismo à parte, tudo tem inspiração nos aparelhos elétricos dos pioneiros do aproveitamento da energia elétrica para uso humano. Ou seja, tudo isto é retrofuturismo eletropunk tingido de horror.
Ao longo de vários anos, fui dizendo que a melhor antologia de ficção científica e fantástico escrita originalmente em português que eu conhecia era a Por Universos Nunca Dantes Navegados, justificando a opinião com a inexistência nela de maus contos, coisa demasiado rara nas nossas antologias, e com o equilíbrio na qualidade das histórias. Com a publicação de Vaporpunk, a Universos perdeu o Brasil mas manteve-se dominante em Portugal. Teve um abanão quando saiu Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa mas resistiu porque, embora esta seja francamente boa enquanto trabalho de edição, a qualidade de demasiados dos seus contos deixa bastante a desejar. Mas não resistiu a Lisboa no Ano 2000.
Porque Lisboa no Ano 2000 também não tem contos maus. Porque tem uma mancheia de contos bons ou muito bons. Porque os melhores são de melhor qualidade média do que os melhores da Universos. Porque, ao contrário da Universos, Lisboa no Ano 2000 é mais do que a mera soma das histórias que a compõem.
Lisboa no Ano 2000 é um livro bastante bom. Mesmo que algumas destas histórias mostrem falhas, mesmo que alguns dos autores estejam ainda bastante verdes, ombreando com outros muito mais experientes e com muito maior domínio de todos os aspetos da arte de contar histórias, há um patamar mínimo de qualidade que está sempre presente, há uma estrutura que ajuda a disfarçar ou pelo menos a apoiar fragilidades e há algo que está ausente de quase todas as antologias que eu já li: a sensação de que restam ainda muito mais histórias para contar no complexo mundo aqui criado. Também isso é bom.
E como, mesmo sendo maior que as partes, a antologia não deixa de as ter, eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro foi comprado.
Não é inédito, claro. Não só tem antecedentes lá fora, como já tínhamos exemplos na ficção científica de língua portuguesa, entre os quais se destaca o projeto Intempol, idealizado por Octavio Aragão. Mas em Portugal, que eu saiba, é a primeira vez que se faz algo do género e o resultado é francamente bom.
Aqui, o fulcro é uma ideia do João Barreiros, que pegou nas especulações futuristas de vários autores da viragem do século XIX para o XX, que imaginavam futuros dominados pela tecnologia de ponta do tempo, a eletricidade, temperou-a com doses generosas das suas obsessões literárias, tirou o chapéu, a boina, o barrete e o capachinho a Nicola Tesla, enquanto lhe fazia uma profundíssima vénia, misturou tudo com outras ideias meio espiritualistas, muito em voga entre finais de oitocentos e inícios de novecentos, e criou um universo ficcional sólido o suficiente para servir de alicerce para outros autores nele e com ele brincarem.
E eles fizeram-no em geral bem, criando — não que a competição seja muita — o melhor livro retrofuturista português.
Retroquê, perguntam? Retrofuturista. É uma forma de ficção científica que reimagina passados, presentes ou futuros possíveis (ou nem tanto) se a evolução tecnológica tivesse seguido caminhos diferentes daqueles que seguiu no mundo real. E subdivide-se numa profusão de subgéneros. Ficções em que a forma dominante de maquinaria funciona a vapor (e/ou, funciona segundo os princípios e/ou a estética dominantes na época do vapor) são ficções steampunk; ficções inspiradas pela era atómica chamam-se atompunk, e por aí fora.
Aqui, temos um presente (bem... um passado próximo) alternativo em que, espiritualismo à parte, tudo tem inspiração nos aparelhos elétricos dos pioneiros do aproveitamento da energia elétrica para uso humano. Ou seja, tudo isto é retrofuturismo eletropunk tingido de horror.
Ao longo de vários anos, fui dizendo que a melhor antologia de ficção científica e fantástico escrita originalmente em português que eu conhecia era a Por Universos Nunca Dantes Navegados, justificando a opinião com a inexistência nela de maus contos, coisa demasiado rara nas nossas antologias, e com o equilíbrio na qualidade das histórias. Com a publicação de Vaporpunk, a Universos perdeu o Brasil mas manteve-se dominante em Portugal. Teve um abanão quando saiu Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa mas resistiu porque, embora esta seja francamente boa enquanto trabalho de edição, a qualidade de demasiados dos seus contos deixa bastante a desejar. Mas não resistiu a Lisboa no Ano 2000.
Porque Lisboa no Ano 2000 também não tem contos maus. Porque tem uma mancheia de contos bons ou muito bons. Porque os melhores são de melhor qualidade média do que os melhores da Universos. Porque, ao contrário da Universos, Lisboa no Ano 2000 é mais do que a mera soma das histórias que a compõem.
Lisboa no Ano 2000 é um livro bastante bom. Mesmo que algumas destas histórias mostrem falhas, mesmo que alguns dos autores estejam ainda bastante verdes, ombreando com outros muito mais experientes e com muito maior domínio de todos os aspetos da arte de contar histórias, há um patamar mínimo de qualidade que está sempre presente, há uma estrutura que ajuda a disfarçar ou pelo menos a apoiar fragilidades e há algo que está ausente de quase todas as antologias que eu já li: a sensação de que restam ainda muito mais histórias para contar no complexo mundo aqui criado. Também isso é bom.
E como, mesmo sendo maior que as partes, a antologia não deixa de as ter, eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro foi comprado.
quarta-feira, 2 de março de 2016
Lido: Sharaz-De
Sharaz-De é um assombro. Sim, eu sei que ao longo destas opiniões sobre os álbuns de BD da Levoir que comprei (não comprei a coleção completa; este é o último) fui dizendo e repetindo que não me sentia avalizado para opinar mais detalhadamente sobre a parte gráfica da coisa, mas este álbum de Sergio Toppi torna completamente impossível não o fazer. Porque ele é, sobretudo, grafismo. E que grafismo, caramba!
Mas vamos voltar um pouco atrás.
Sharaz-De é uma compilação de onze histórias retiradas das Mil e Uma Noites, e Sharaz-De, a Sherazade de Toppi, é quem as conta ao seu rei cruel, salvando-se assim noite após noite. Histórias fantásticas, quase todas, cheias de magia, de djinns, de gigantes e de uma espécie crudelíssima de justiça, o tipo impiedoso de justiça que prevalece em terras e tempos impiedosos.
As histórias têm um fascínio muito próprio, o que não é de espantar sendo como são as 1001 Noites a mais célebre obra literária proveniente da cultura árabe. Mas Toppi soma a esse fascínio uma arte a que só posso chamar deslumbrante. Quase sempre em página inteira, pouco ligando à tradição da banda desenhada que manda dividir as páginas em quadrados e retângulos, contendo cada qual a sua cena (na verdade, quando usa os típicos quadrinhos da BD rara é a ocasião em que a cena neles contida não os extravasa, ligando-os aos outros ou a alguma cena de fundo), umas vezes a cores, outras a preto e branco, Toppi cria um luxo de livro que é uma delícia para os olhos.
Não sei quão inovador é isto, esta espécie de transformação de um álbum de BD num livro de ilustrações por vezes quebradas em quadros e ocasionalmente acompanhadas por um ou outro balão. O texto introdutório, infelizmente, não ajuda a ficar a saber. Não sei se tem percursores, se tem outros cultores, anteriores ou posteriores, se tem resultados ainda melhores. Mas sei que cada uma destas imagens me fascinou, mais até, muito mais até, do que o texto das histórias que, de resto, acompanham na perfeição. Acompanham? Não, a palavra não é essa. A palavra é interligam, pois palavra e imagem entretecem-se de uma forma que também me pareceu rara.
Eu já disse várias vezes, e repito, que pouco percebo de BD. Mas achei este livro absolutamente soberbo. Que belíssima compra!
Mas vamos voltar um pouco atrás.
Sharaz-De é uma compilação de onze histórias retiradas das Mil e Uma Noites, e Sharaz-De, a Sherazade de Toppi, é quem as conta ao seu rei cruel, salvando-se assim noite após noite. Histórias fantásticas, quase todas, cheias de magia, de djinns, de gigantes e de uma espécie crudelíssima de justiça, o tipo impiedoso de justiça que prevalece em terras e tempos impiedosos.
As histórias têm um fascínio muito próprio, o que não é de espantar sendo como são as 1001 Noites a mais célebre obra literária proveniente da cultura árabe. Mas Toppi soma a esse fascínio uma arte a que só posso chamar deslumbrante. Quase sempre em página inteira, pouco ligando à tradição da banda desenhada que manda dividir as páginas em quadrados e retângulos, contendo cada qual a sua cena (na verdade, quando usa os típicos quadrinhos da BD rara é a ocasião em que a cena neles contida não os extravasa, ligando-os aos outros ou a alguma cena de fundo), umas vezes a cores, outras a preto e branco, Toppi cria um luxo de livro que é uma delícia para os olhos.
Não sei quão inovador é isto, esta espécie de transformação de um álbum de BD num livro de ilustrações por vezes quebradas em quadros e ocasionalmente acompanhadas por um ou outro balão. O texto introdutório, infelizmente, não ajuda a ficar a saber. Não sei se tem percursores, se tem outros cultores, anteriores ou posteriores, se tem resultados ainda melhores. Mas sei que cada uma destas imagens me fascinou, mais até, muito mais até, do que o texto das histórias que, de resto, acompanham na perfeição. Acompanham? Não, a palavra não é essa. A palavra é interligam, pois palavra e imagem entretecem-se de uma forma que também me pareceu rara.
Eu já disse várias vezes, e repito, que pouco percebo de BD. Mas achei este livro absolutamente soberbo. Que belíssima compra!
terça-feira, 1 de março de 2016
Lido: 2014 Campbellian Anthology - Marshall Ryan Maresca
Marshall Ryan Maresca está presente nesta antologia com um só conto, intitulado
Jump the Black. Trata-se de um conto muito interessante de ficção científica que, como a boa FC muitas vezes faz, está profundamente enraizado nos acontecimentos e preocupações do tempo de todos nós e do espaço que o autor habita. Fazendo lembrar alguns dos contos do nosso João Barreiros, mostra-nos uma Terra futura, após o contacto com inteligências alienígenas e por isso repleta de alienígenas de várias espécies. Maresca situa a sua história algures nos Estados Unidos do nosso tempo, ou pelo menos faz o seu protagonista ter vivido por algum tempo em San Antonio, Texas, não por acaso uma cidade fronteiriça com o México. Porque é precisamente disso que o conto trata: de fronteiras, de dificuldades económicas, de oportunidades e da vontade de fazer qualquer coisa para partir em busca de uma vida melhor. Mesmo que quem detém o poder não queira deixar. De emigração, em suma, pouco importa se legal ou ilegal, para fora de um buraco sem futuro, para algum lugar que é visto como uma espécie de salvação.
Hoje em dia, tanto no primeiro mundo como nos restantes, sabemos todos muitíssimo bem de que está Maresca aqui a falar... embora muitas vezes muitos de nós não queiram saber. Mas este conto força-nos a confrontar a realidade dos outros, dos que no mundo real imigram, porque o sítio atrasado e sem futuro que ele nos apresenta se chama Terra, este planeta em que vivemos, e é lá fora, no espaço, onde os alienígenas dominam, que os desesperados julgam existir as oportunidades. Aqui, neste futuro imaginado, o espaço é os Estados Unidos (e a Europa) do mundo contemporâneo, a Terra o inferno de onde toda a gente quer fugir, mas os problemas e as ambições são os mesmos.
Sim, este conto conta uma história, a história de um candidato à emigração. E de uma forma bastante terra-a-terra; não se trata de nenhum panfleto. Mas não deixa por isso de ser um conto completamente político. E ainda bem que o é.
Jump the Black. Trata-se de um conto muito interessante de ficção científica que, como a boa FC muitas vezes faz, está profundamente enraizado nos acontecimentos e preocupações do tempo de todos nós e do espaço que o autor habita. Fazendo lembrar alguns dos contos do nosso João Barreiros, mostra-nos uma Terra futura, após o contacto com inteligências alienígenas e por isso repleta de alienígenas de várias espécies. Maresca situa a sua história algures nos Estados Unidos do nosso tempo, ou pelo menos faz o seu protagonista ter vivido por algum tempo em San Antonio, Texas, não por acaso uma cidade fronteiriça com o México. Porque é precisamente disso que o conto trata: de fronteiras, de dificuldades económicas, de oportunidades e da vontade de fazer qualquer coisa para partir em busca de uma vida melhor. Mesmo que quem detém o poder não queira deixar. De emigração, em suma, pouco importa se legal ou ilegal, para fora de um buraco sem futuro, para algum lugar que é visto como uma espécie de salvação.
Hoje em dia, tanto no primeiro mundo como nos restantes, sabemos todos muitíssimo bem de que está Maresca aqui a falar... embora muitas vezes muitos de nós não queiram saber. Mas este conto força-nos a confrontar a realidade dos outros, dos que no mundo real imigram, porque o sítio atrasado e sem futuro que ele nos apresenta se chama Terra, este planeta em que vivemos, e é lá fora, no espaço, onde os alienígenas dominam, que os desesperados julgam existir as oportunidades. Aqui, neste futuro imaginado, o espaço é os Estados Unidos (e a Europa) do mundo contemporâneo, a Terra o inferno de onde toda a gente quer fugir, mas os problemas e as ambições são os mesmos.
Sim, este conto conta uma história, a história de um candidato à emigração. E de uma forma bastante terra-a-terra; não se trata de nenhum panfleto. Mas não deixa por isso de ser um conto completamente político. E ainda bem que o é.
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