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sábado, 22 de junho de 2013

Que força é essa?

Às vezes regresso a esta canção. Ultimamente, então, tem sido com grande frequência.

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr´ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p´ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p´ra pouco dinheiro


Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo


Não me digas que não me compr´endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr´endes


Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo


Sérgio Godinho

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Vai o pau

Vai o pau
Vem o pau
Trau!
Mas que mau!

Olhò degrau
Voò calhau
Au!
Que recacau!

Nem carapau
Nem bacalhau
Só de varapau!

Ou noutro grau
Não tão mau
C'um berimbau.


Porquê isto, perguntam vocês? Porque me apeteceu, ora. E haverá mais algum motivo realmente válido?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Ano novo

Há uma quantidade enorme de anos, quando este blog era um bebé e eu me entretinha a alimentá-lo com o que a minha cabeça maluca ia retirando dos títulos dos spams que recebia por email, também aconteceu — por estranho que isso pareça a quem vive permanentemente no presente — um ano novo. E o meu spam, simpaticamente, acompanhou a efeméride, fornecendo-me um título que, embora cliché, era muito adequado ao acontecimento: Ano Novo, Vida Nova. Ou algo do género. Com base nesse título e no que eu há muito vinha sentindo sobre este deprimente país em que vivemos, escrevi o seguinte spamema:

Ano novo vida nova

Ano novo
vida nova
bota o ovo
para a cova

Dorme o povo
e não acorda
porque o polvo
se renova

Ano novo
vida nova?
Uma ova!


Isto foi escrito em 2003. Estamos em 2012. Mudou alguma coisa?

Bem, sim, mudou: estamos muito pior do que estávamos nessa época. Com o pior presidente da história da democracia e o pior governo da história da democracia e a pior situação económica da história da democracia gerada por décadas e décadas de roubo organizado por todos os cleptocratas que se foram infiltrando em tudo quanto é partido do dito arco do poder. O arco dos canalhas. O arco dos burlões. O arco da corja imunda e repugnante. O arco dos Relvas, descarados como o Relvas ou mais discretos como os muitos Relvinhas que poucos conhecem mas apodrecem todo o bocadinho da nossa vida coletiva em que têm oportunidade de tocar. O polvo de que ali falava, precisamente.

E o povo, esse, deu tímidos sinais de que talvez, eventualmente, com alguma sorte pudesse vir a acordar, sinais esses corporizados no melhor dia de todos os últimos 365: o 15 de setembro.

Pois o meu desejo, meus caros, é que 2013 seja o ano em que esse povo semidesperto, semiconsciente, semi-informado, semi-inteligente, acorde mesmo. Mesmo. É esse o meu desejo. A esperança, essa, é pouca.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Um poemita rápido

Eis um poemita rápido, motivado por esta coisa ridícula:

Os partidos do centrão

Os partidos do centrão
estão em competição
a fim de determinar
quem é mais incompetente

Mas não há azar
no fim vai tudo votar
neles
como sempre.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Versos avulso

Versos inspirados por uma mensagem de email e por um velho provérbio

De génio e de louco

De génio e de louco
todos temos um pouco
uns têm mais de génio
outros mais de louco
e há até aqueles
que vão a pouco e pouco
deitando o génio fora
ficando só com o louco

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Não seja por isso...

Eu bem queria
bem tenho tentado
de noite e de dia
sempre que estou
meio acordado
(pois é nessas alturas
que as ideias fluem
mais puras)
mas a verdade
é que a literatura
não me atura.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Chamando a musa, II

O amor
é
apenas
o que sentimos
quando não sabemos
o que sentimos

Peço a indulgência do estimável público

Peço a indulgência do estimável público

Estimável público, peço a vossa indulgência para o que se segue. Acontece que tenho para traduzir um soneto e me sinto preso de uma imensa falta de veia poética, indispensável para que o trabalho saia a contento. Anda arredia, a musa. Anda escusa. Devolve-me olhares de recusa quando a tento. De modo que decidi pôr-me a versejar de moto e tema próprios, para tentar fazer com que as palavras certas comecem por fim a cair nos lugares certos. Afinal, há quem diga que a mãe do talento se chama prática e o pai trabalho. E decidi também pôr esses versos aqui para me confrontar com eles. Serão, necessariamente, muito maus, pelo menos a princípio. Não existem milagres. Mas espero que, a pouco e pouco, melhorem um pouco, e me sirvam para treinar a mão o suficiente para acabar o trabalho que tenho em mãos. Quanto a vocês, se quiserem passar à frente, façam favor. Na verdade, até talvez seja melhor. Mas se quiserem ir lendo, podem depois falar mal deles, sugerir temas, até sugerir-me que pare com esta palermice, embora deva prevenir desde já que só o farei quando e se me der na realíssima gana. Afinal, estão avisados e portanto não podem alegar ignorância.

E aí vem o primeiro conjunto de versos:

Como será o dia da minha morte?
Trovejará? Alguém gritará de alegria
ao ver-se contemplado pela sorte
quem sabe se pela primeira vez na vida?
Alguém beijará outro alguém no momento
em que o meu coração deixar de bater?
E se o fizer, que poderá isso querer dizer?
Alguém chorará? Alguém ficará preso
de uma sensação indefinida como se
de algum modo sentisse o fim da minha vida
sem compreender, sem sequer querer saber?
Deixará esse dia de ser para alguém
apenas um dia igual a todos os outros?
E se sim, para quem?

Quem sentirá a minha falta
quando já cá não estiver?
Alguém que me esteja a ler?
Talvez tu, mulher?

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Luto

Quando a morte
nos calha em sorte
sempre há quem tente
usar palavras
para lhe fazer frente

Mas na morte
não há palavras
que não sejam ocas
nada lhe pertence
como o silêncio

Ou então o riso
talvez o riso


Escrevi isto a pensar em Eugénio de Andrade. Mas igualmente se aplica a Cunhal. Ou a Vasco Gonçalves. Nenhum destes heróis foi perfeito (não existem heróis perfeitos), mas todos eles o foram, cada um a seu modo.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Do baú, com data

Mais uma mão jogada ao baú dos versos velhos, mais um grupo de três que veio nela, mais uma escolha do menos mau entre os três. Desta vez, vem logo com data para que nada vos falte:

7.5.99

Sete
pecados mortais
sem morte
nem pecado
sete sinais
do passado
ou da sorte
sete dias
da semana
sete anões
no pijama
sete canções

Cinco vezes
que sorrias
cinco olhares
cinco palavras
receadas
cinco rotações solares
cinco estradas

Noventa e nove
noves fora
nada

terça-feira, 3 de maio de 2005

Mais uma do baú

Voltei a lançar a mão ao baú dos versos perdidos, e saiu de lá o menos mau de entre três. Este data de Março de 1994 e consta do seguinte:

Cidade Para Quê?

Motores da engrenagem da cidade
qual o vosso objectivo?
Que moléculas transportam
as vossas hemoglobinas?
Que melodias cantam
as vossas baleias?
Que sonhos embalam
os vossos tubarões?

Os fumos que respiram não sabem a flores
Os ruídos que semeiam não cheiram a mar
As cores que escurecem não soam
às brisas que brincam na floresta

Que sonhos mecânicos vos incitam?
Que lugares imaginados vos reclamam?
Que Atlântidas ressurgidas?
Que cândidas vidas?
Que contradições?

sábado, 30 de abril de 2005

Do baú dos versos esquecidos

Voltei a atirar a mão ao baú dos versos esquecidos e agarrei em três, completamente ao calhas. Escolhi o menos mau, datado de novembro de 1992, e aqui o têm:

Breve Poema Sobre a Paz

Paz
CatraPaz


(Se calhar vou continuar com isto. Que vos parece?)

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Do baú dos versos bem esquecidos

Em jeito de comemoração, regressando um pouco ao espírito inicial do blogue, eis aqui uns quantos versejos vindos directamente do baú das coisas bem esquecidas. Datam de Abril de 1992 e rezam assim:

A Princesa Que

Ela era uma princesa Que
Das muitas princesas
que havia naquele reino
Ela era uma das Que
Senhora do Castelo de Que
Descendendo da linhagem Que
Bela como sei lá o quê

E o seu nariz bicudo
erguia-se no orgulho de
saber ser uma pura Que

No entanto, sem que soubesse
habitavam nas suas veias
algumas gotas De

segunda-feira, 4 de outubro de 2004

Chegou-me por email mais uma coisa que gostei de ler

Numa demonstração da existência de sincronicidades várias neste mundo, no momento em que o Paulo Querido publicava um excelente e muito recomendável (sim, também gostei de o ler) texto acerca de blogues, internet, jornalismo e anonimato, parcial ou total, chegou-me por correio electrónico um óptimo texto de um anónimo a glosar a Nau Catrineta do Gil Vicente. Ei-lo:

NAU CATRINETA

Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar

São Paulo Portas à proa
Santanás a comandar

Ouvi agora senhores
Uma história de pasmar

D. Bagão conta o pilim
D. Morais trata das velas

D. Guedes limpa com VIM
Tachos, pratos e panelas

D. Pereira na enfermaria
Conta pensos e emplastros

E o D. António Mexia
Põe vaselina nos mastros

D. Durão deu à soleta
Enjoou de andar à vela

E Santa Manuela Forreta
Largou-os sem lhes dar trela

Aflito El-Rei Sampaio
Com estas novas tão más

Disse aos bobos de soslaio
Chamai lá o Santanás

Aqui estou meu Senhor
Vós mandastes-me chamar?

Soube agora desse horror
D. Durão vai desertar?

Cala-te lá meu charmoso
Não me lixes mais a vida

Troco um cherne mal-cheiroso
Por um carapau de corrida?

Pobre da Nau Catrineta
Já lamento a tua sorte

Esta marinhagem da treta
Nem sabe onde fica o Norte

Parece que já estou vendo
Em vez de descobrir mundo

Ao primeiro pé de vento
Espetam com o barco no fundo

Ou então este matraque
Com pinta de Valentino

Gasta-me a massa do saque
Nas boîtes do caminho

Não se aflija meu Rei
Que agora vou assentar

Pois depois do que passei
Cheguei quase onde quis chegar

E por aquilo que passei
Aqui, que ninguém nos escuta,

Eu quero mesmo é ser Rei
E vamos embora, à luta!!!

sexta-feira, 3 de setembro de 2004

Versos avulso

Beslan

A última coisa que ouviu
foram tiros
muitos tiros

Tinha só sete anos
e até aí sempre pensara que depois dos tiros todos se levantavam
sacudiam
sorriam, aos gritos, excitados pela brincadeira
e se preparavam para o próximo tiroteio

Sempre pensara que todas as mortes eram provisórias
menos as das pessoas velhas
que só os cabelos brancos faziam com que a morte fosse para sempre
que só as rugas prenunciavam a despedida

Nunca pensara que os tiros fizessem tanto barulho
tanto, tanto barulho
que a mãe, a gritar, fosse só um boneco sem som
como os da televisão quando se tirava o som
e mexesse a boca como se falasse mas sem emitir um som
só tiros, tiros, tiros

E nunca sequer imaginara que os tiros
pudessem doer mais que arrancar um dente de leite

Teve uma morte cheia de descobertas
mas o que de verdade interessa
é que a última coisa que sentiu
foram tiros
muitos tiros

segunda-feira, 23 de agosto de 2004

Versos avulso

Dias

Há dias que é melhor nem acordar
nem sequer entreabrir um olho
resmungar qualquer coisa
- talvez um insulto, um "vai-te cagar" -
virar para o outro lado e regressar
ao mundo de esquecimento
onde a vida sem ser vida
é mais vida que no mundo deste lado

Há dias que a vontade
ao encontrá-los a espreitar do calendário
é arrancá-los, sem qualquer anestesia
devagarinho e com requintes de sadismo

Mais do que isso não merecem, os cabrões

sábado, 7 de agosto de 2004

Versos avulso

As palavras

As palavras
são como
as pessoas
há algumas muito feias
e há outras que são belas

A maior parte
no entanto
nem é carne
nem é peixe

É marisco

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

Versos avulso

Nada a dizer

Não tenho nada a dizer
estou seco
como uma esteva à espera do incêndio

quarta-feira, 21 de julho de 2004

Versos avulso

Corda

A vida geralmente é uma corda
que ao nascer se ata
e vai balançando vida fora
pra cá, pra lá
pra cá, pra lá
pra cá, pra lá
até que um dia a corda parte
e parte fica pendurada da memória
e parte cai, num grito que se esvai

A minha vida também é corda
mas é uma corda diferente
por mais que eu faça
é corda que não ata

segunda-feira, 12 de julho de 2004

Versos avulso

Para um poeta que nunca soube que o era

Saber achar pra cada dia uma razão
é ser poeta mais poeta
do que todos os poetas que não sabem que o não são