domingo, 2 de janeiro de 2011

2011

Diz que estamos em 2011, não é? Diz que 2010 já acabou, não foi? Pois eu mal dei por isso, porque de lá para cá nada mudou. 2010, o ano do cancro, foi, mesmo, o pior ano da minha vida, tal como previ logo na abertura. Apesar de algumas coisas até terem corrido bem. O trabalho correu bem. As finanças correram bem. Unidade em Chamas tem tido precisamente o acolhimento que era minha esperança que tivesse. E...

E mais nada.

O ano do cancro foi dominado pelo cancro, e bastaria isso para o transformar no pior ano da minha vida. Os tempos livres do trabalho foram quase todos passados a cuidar do doente, a levar o doente para a quimioterapia e a trazê-lo de lá, a fazer coisas pelo doente, a não dormir porque o doente grita de dor, a pôr tudo em espera pelo doente. A ver o doente ir ficando cada vez mais fraco, cada vez mais incapaz de se bastar a si próprio. Termina com o doente internado no hospital, e é assim que começa 2011, ano novo que em vez de ter um início cheio de esperanças mostra logo à partida a sua feia carantonha como que a avisar que se achei o 10 mau é bom que ponha o cinto de segurança porque a viagem que aí vem no 11 vai ser muito, muito pior ainda.

Fora o cancro, não houve quase nada. Não escrevi praticamente nada, nem para o romance de que falava há um ano, nem para outras coisas. Onde anda o tempo? Onde para a disponibilidade mental? Que é feito da capacidade para abstrair das exigências concretas e imediatas da família e mergulhar nas palavras e nos mundos inventados, sondar a imaginação em busca de verdades?

E depois, como cereja em cima do bolo, ainda me aconteceu uma coisa que já não acontecia há bem mais de uma década e não devia nunca ter acontecido. Uma coisa que não quero que nunca, nunca mais me aconteça, que farei tudo o que possa para a evitar na vida que me reste. Uma coisa que é um perfeito desastre, uma coisa que é ácido a corroer-me por dentro dia sim, dia sim. Uma coisa que teria potencial para vir a compensar muitas outras coisas, mas que não compensará, nunca compensará. Uma coisa que é um poço a abrir-se em voragem à minha frente e a sussurrar "salta". Uma coisa que me rouba as forças na altura em que eu mais preciso delas, tanto por mim, como (principalmente) pelos outros. Uma coisa destrutiva, caótica, incontrolável e, sim, muitas vezes insuportável.

Merda de ano, este que passou. Repenicada merda de ano o que aí vem.

2 comentários:

  1. já passei por isso. são horas terríveis. felizmente no caso do meu pai o cancro ficou controlado, mas mesmo assim é uma espada de dâmocles que condiciona toda a vida. Um abraço, e força! É o que posso desejar.

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