domingo, 13 de junho de 2010

Lido: O Escaravelho de Ouro

O Escaravelho de Ouro (bib.) é uma noveleta de aventuras de Edgar Allan Poe, a qual descreve uma peculiar caça ao tesouro. Ambientada no sul dos Estados Unidos, o protagonista é um homem que decide afastar-se da civilização e tomar residência numa pequena ilha, acompanhado apenas por um negro, antigo escravo e criado fiel. O narrador é um seu amigo que vai visitá-lo e fica preocupado ao encontrá-lo aparentemente enlouquecido, depois de ter sido mordido por um escaravelho dourado, que o negro insiste ser mesmo de ouro, e cujo peso é repetidamente descrito como excessivo para um inseto normal. Reside aqui o único (e subtil) elemento fantástico que a noveleta contém, visto que a natureza do escaravelho nunca chega a ser completamente esclarecida. O fulcro da história, no entanto, é outro.

O fulcro da história é uma expedição que os três homens acabam por fazer a um determinado local situado nas proximidades, onde o protagonista julga haver enterrado um velho tesouro de piratas, e a longa explicação que se segue sobre o modo como chegou a tal conclusão, incluindo várias páginas dedicadas à decifração do código criptográfico que teria sido utilizado pelo pirata. É, portanto, uma história que ocupa a interseção de vários géneros que se desenvolveram em pleno mais tarde. Por um lado, claro, as aventuras de piratas, as aventuras de caça ao tesouro. Por outro, a descrição da investigação levada a cabo pelo protagonista e a utilização da criptografia apontam para os vários géneros baseados na decifração de mistérios. O policial, acima de tudo, mas também, até certo ponto, as histórias de espionagem ou até a FC de laboratório.

Enquanto (re)leitor, achei particularmente curioso o modo como a memória da minha primeira leitura desta história, já distante de quase três décadas, só veio ao de cima aqui e ali. Foi quase como lê-la de novo. Quase. O esquecimento quase completo significa que já devia ter voltado a pegar nas histórias de Poe há mais tempo, suponho. Talvez fosse novo demais quando as li pela primeira vez. É possível que histórias como esta, hoje, só despertem realmente o interesse a quem tem já alguma perspetiva histórica e é capaz de as colocar no devido contexto. É que nem sequer me lembro se o adolescente que as leu há todos estes anos gostou delas ou não, ainda que o facto de só agora ter voltado a pegar na ficção curta de Poe sugira que não. Mas desta vez gostei. Não muito, mas gostei.

4 comentários:

  1. Esta história foi também publicada num dos números do ABC Policial, editado por Artur Varatojo, que salienta o facto de na tradução, de sua autoria, ter tido necessidade de adaptar a decifração do bilhete, uma vez que a frequência das letras em português e em inglês é diferente. E eu devo ter lido isto no princípio dos sisties... :P
    [] João

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  2. Nesta tradução que eu li, o tradutor fugiu a esse problema deixando todo o enigma em inglês. Provavelmente fez bem: nem toda a gente é um Varatojo. ;)

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  3. Se eu encontrar esse ABC Policial, faço uma cópia do conto e envio. Juntamente com um boneco da capa da revistinha propriamente dita.

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  4. Isso era realmente porreiro, pá! :)

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