terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Lido: A Mão Esquerda das Trevas

A Mão Esquerda das Trevas (bib.) é um magnífico romance de ficção científica de Ursula K. Le Guin. Pertencente à série Hainish, conjunto de histórias independentes, unidas por terem lugar no mesmo universo ficcional, e à qual pertence também um dos meus livros favoritos seja de que género for, Os Despojados, este romance planetário ambienta-se num planeta remoto e frio (adequadamente apelidado de Inverno), no qual se desenvolveu um ramo da Humanidade com uma característica única: a divisão entre sexos não existe. Em vez de serem durante uma vida inteira homens ou mulheres, como é hábito, os indivíduos passam a maior parte do tempo como seres andróginos e assexuados, um pouco como as crianças, entrando de vez em quando numa espécie de cio, o kemmer, durante o qual se tornam muito mais subjugados pela motivação sexual do que nós. Durante esse período, um dos parceiros desenvolve características de um dos sexos e induz no outro as características do sexo oposto, permitindo-se assim a reprodução.

Ao planeta que serve de cenário chega um emissário dos mundos unidos no Ecuménio, uma espécie de confederação comercial e filosófica de planetas humanos, a fim de avaliar a capacidade e a vontade dos povos de Inverno virem a aderir a essa confederação. Emissário esse que é, está bom de ver-se, um humano como nós. Ou seja: uma aberração aos olhos dos habitantes de Inverno.

Com este material de base, Ursula Le Guin constrói uma fascinante especulação sociológica sobre como se desenvolveria uma (ou várias) sociedade sem ter subjacente a dicotomia de género que domina as nossas, e como essas sociedades encarariam o súbito desafio que é tomar consciência de que lá fora, entre as estrelas, existem dezenas de planetas ocupados por uma humanidade diferente da sua. Para isso, conta a história quer através dos olhos do emissário, quer através dos de um seu aliado local, que quando o romance começa ocupa um alto cargo no governo de uma das principais protonações do planeta mas rapidamente cai em desgraça e é obrigado a exilar-se.

É também uma história de descoberta dos limites da humanidade, do substrato comum que une esses dois homens (o emissário pensa no seu aliado como homem, embora este só o seja no sentido de "membro da espécie humana") apesar das suas diferenças. E também é uma história de sobrevivência, pois boa parte do fim do romance conta a longa travessia de um dos grandes glaciares do planeta que os dois amigos fazem depois do exílio não ter corrido lá muito bem.

A Mão Esquerda das Trevas é um livro e peras, de uma época em que ainda se conseguia contar uma história complexa e inteligente em menos de 300 páginas. Muito bom.

Este livro foi comprado.

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