quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Lido: O Astronauta

Há muito quem pense que a ficção científica se dedica a tentar prever o futuro. Escreveram-se e continuam a escrever-se rios de artigos a falar das "previsões acertadas" ou dos "erros" que a FC supostamente teria cometido ao longo da sua história, e as tecnologias avançadas são quase inevitavelmente descritas como "de ficção científica" ou vêm acompanhadas de frases como "não é ficção científica, mas realidade". Mas isto, lamento dizer, vem de gente que das coisas só percebe a superfície.

Porque se rasparmos a camada superficial, a FC não é isso e nunca o foi. A FC é, e sempre foi, sobre o presente de quando é escrita, embora o seja de várias formas, por vezes sobre os temas relevantes apenas no presente e por isso passageiros, por vezes sobre temas mais perenes como a condição humana, usando o futuro ou os planetas distantes como uma espécie de ambientes experimentais onde esses temas podem ser explorados de uma forma mais pura, sem o ruído inerente à complexidade do planeta em que vivemos, ou mais extrema, por conseguinte de uma forma que os realça.

O Astronauta (bibliografia), mais um bom conto de Ray Bradbury, é um destes últimos. Situado em ambiente doméstico e familiar, contado sob o ponto de vista de um filho de astronauta que sonha com as estrelas e com um dos periódicos regressos do pai, é um conto que tem como tema não o futuro ou a tecnologia, mas a dinâmica disfuncional da família de um herói, regularmente abandonada, e o coração dilacerado deste, dividido entre a vontade de ficar com os seus e a paixão pelas estrelas, que o leva a não poder deixar de voltar a partir.

Podia não ser um conto de FC. E na verdade, parte do seu impacto (e parte do motivo por que se mantém relevante apesar do que descreve já ter deixado de ser ficção científica há décadas) deve-se precisamente a isso. A situação não depende de o homem ser astronauta, mesmo que o fascínio pelo espaço a ajude e esse facto tenha impacto em alguns pormenores da narrativa: famílias abandonadas por homens demasiado absorvidos pela profissão são coisa de séculos, especialmente em sociedades patriarcais, nas quais às mulheres está reservada a família e aos homens a saída para o mundo. O espaço podia ter sido substituído pela guerra (e é provável que fosse essa a inspiração principal: o conto é de 1951) ou por muitas outras situações. É por isso que é tão fácil reconhecer a situação e o dilema e é em parte por isso que a história resulta tão bem.

A outra parte, claro, cabe à mestria de Bradbury, ao ponto de vista que escolhe, à forma como constrói a narrativa, à poesia das suas palavras. Mas nem tudo são rosas: Bradbury era um conservador e por isso não se vislumbra aqui sinal de contestação aos tradicionais papéis atribuídos aos sexos, bem mais vivos nos anos 50 do que hoje. Este conto não é misógino, como outras obras de FC da época são (há na mulher uma enorme dignidade), mas é certamente machista. A verdade, contudo, é que não há muitas neste período que não o sejam.

Contos anteriores deste livro:

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