quarta-feira, 18 de fevereiro de 2004

Spamesia (289)

Ontem chegaram-me 66 spams e vírus, incluindo alguns, de uns e de outros, "identificados" com nomes e endereços de amigos e conhecidos, às vezes tão próximos como eu próprio. Treta, claro. O Paulo Querido bem diz que este email tem os dias contados, sendo que a sua próxima encarnação irá necessariamente incluir uma forma qualquer viável de certificar a identidade do remetente. Mas adiante. Destes 66 títulos (na realidade foram menos que 66 títlos, mas isso pouco interesse tem), houve um que me agarrou: "subliminal phrase":

Frase subliminal

A frase subliminal vagueou durante semanas
pela selva dos parágrafos
rodeou cada ponto final
e saltitou em todas as reticências
ignorou as vírgulas
endireitou todos os pontos de interrogação
e subliminarmente foi contaminando todas as outras frases
fazendo-as serem, também elas, um pouco subliminais
Por onde passava a frase subliminal
já nada significava exactamente
o que as palavras gostariam de dizer
o branco transformava-se em tons claros de todas as cores
e o preto ganhava luzes
o amor, mal virava os olhos doces para outro lado
via-se contaminado por uma pitadinha de raiva
em grãos brancos como sal
e a chuva das palavras vinha seca
esquecida de anticiclones e baixas pressões
cascateando um pouco para o lado
e criando prismas diminutos que, todos juntos,
construíam arcos-íris levemente enrugados
Quando chegou ao fim de todos os livros
a frase subliminal olhou a sua obra e sentiu-se contente
tinha conseguido, sozinha, cumprir os sonhos de muita gente
colocar em cada futuro algumas gramas de passado
e em todos os passados bocadinhos do presente

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