domingo, 18 de fevereiro de 2007

Tamanhos e populações

Isto não vem a propósito de coisa nenhuma, mas hoje, ao procurar na internet por outras coisas mais úteis no imediato, fui cair num site chamado World Gazetteer, que tem dados sobre a população de uma aparente infinidade de áreas urbanas e divisões administrativas de todo o mundo, e resolvi aproveitar para verificar umas ideiazinhas que tenho vindo a ter, pelo menos, desde o referendo à regionalização. Ou seja, desde 1998.

Dizia-se, na altura, no campo adversário da regionalização, que Portugal não se devia regionalizar porque "é do tamanho de uma região espanhola".

Isto já eu sabia ser relativamente falso, pois das 17 regiões espanholas só 3 têm uma dimensão comparável à do nosso país (92 mil quilómetros quadrados): as duas Castelas e a Andaluzia (com 94, 87 e 79 mil quilómetros quadrados). Todas as outras são bem mais pequenas, e a maioria nem chega sequer ao tamanho do Alentejo.

Mas acontece que o Alentejo, que é a maior das nossas regiões, conta muito pouco no todo nacional. Porquê? Porque o que faz um país ou uma região, muito mais que um território, são as pessoas e aquilo que essas pessoas produzem. E no Alentejo não só não vive mais que meio milhão de pessoas, vez e meia menos que na zona Centro, e sete vezes menos que no Norte ou em Lisboa e Vale do Tejo, como ainda por cima o que esse meio milhão produz tem menos relevância para a economia nacional do que, por exemplo, o que produzem os habitantes do Algarve, que são menos 100 mil.

Situação simétrica existe em Espanha, com a Catalunha, por exemplo, pequena (pouco mais do que a soma do Alentejo e do Algarve), mas rica e populosa (sete milhões de habitantes), logo com um peso enorme no todo espanhol.

Quis por isso verificar se a ideia de Portugal ser do tamanho de uma região espanhola era mais ou menos válida quando se pensa na população em vez da área. E uns quantos cálculos de somar mais tarde tinha a resposta.

A ideia é menos válida ainda.

Portugal tem dois milhões e meio mais pessoas do que a mais populosa das regiões espanholas: a Andaluzia. E, uma vez mais, há três regiões muito mais populosas do que as restantes: a Andaluzia, quase com 8 milhões de habitantes (quase um décimo dessa gente vive em Sevilha, e esse valor sobe para cerca de um sexto quando é tida em conta a área metropolitana), a Catalunha com 7 milhões de habitantes (milhão e meio em Barcelona e quase 5 milhões se incluirmos a área metropolitana) e a Comunidade de Madrid com 6 milhões de habitantes, metade dos quais na cidade propriamente dita. Das outras regiões de Espanha só Valência tem mais população do que as mais populosas das atuais (e não-autónomas) regiões portuguesas, quase 5 milhões de pessoas, e de novo com grande peso a cair na capital. As restantes andam pelos dois milhões, um milhão, e, sem contar com as cidades autónomas do Norte de áfrica, Ceuta e Melilla, há três com uma população comparável ao Alentejo ou Algarve: a Cantábria, La Rioja e Navarra.

Comparando as sete regiões portuguesas (as cinco CCRs do continente e as regiões autónomas) com as espanholas, o Norte viria em 5º lugar, Lisboa e Vale do Tejo viria logo a seguir, e o Centro ainda viria na parte superior da tabela, com o seu milhão e 800 mil pessoas a encaixar-se entre Castela-La Mancha (pouco mais de 1 milhão e 900 mil) e Múrcia (quase 1 milhão e 400 mil). Das regiões do Continente só o Alentejo e o Algarve ocupariam posições na parte de baixo da tabela, ambos a encaixar-se entre a Cantábria e La Rioja, a menos populosa das regiões europeias de Espanha. Curiosamente, as duas autonomias que temos de facto, a Madeira e os Açores, só conseguem ter mais habitantes do que os dois enclaves espanhóis em Marrocos.

Portanto da próxima vez que alguém vos vier dizer que Portugal é do tamanho duma região espanhola, já sabem: mandem-no dar uma curva. Portugal é maior do que qualquer das regiões de Espanha, e as cinco regiões que temos hoje enquadram-se harmoniosamente no contexto ibérico, quer em dimensão, quer no que é realmente importante, em população. Os espanhóis têm duas vantagens sobre nós: cidades bastante maiores que as nossas (em Espanha há nove zonas urbanas com mais de 500 mil habitantes e em Portugal há duas; em Espanha as zonas urbanas com mais de 100 mil habitantes são 42, e em Portugal não passam de 4), e poder regional democraticamente eleito.

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