sábado, 21 de novembro de 2009

Lido: O Livro dos Guerrilheiros

O Livro dos Guerrilheiros é um pequeno livro do escritor angolano José Luandino Vieira, composto por um conjunto de narrativas focadas no lado angolano da guerra colonial, e que se segue a O Livro dos Rios numa trilogia dedicada ao tema, por agora ainda incompleta, intitulada De Rios Velhos e Guerrilheiros. Apresenta-nos a vivência da guerrilha, e o modo como esta via a tropa colonial portuguesa que a combatia. Curiosamente, tanto as populações autóctones de Angola como as populações de colonos estão muito pouco presentes nestas histórias, que nos mostram uma guerrilha muito fundida com o mato e frequentemente muito isolada. Essa foi uma das surpresas que o livro me causou, mais pela abordagem do escritor do que por uma questão de realidade factual, pois não há qualquer dúvida histórica de que as guerrilhas nacionalistas tinham fortes ligações com as populações. Que Luandino tenha escolhido mostrar-nos pouco essa faceta surpreendeu-me, ainda mais tendo em conta as suas conhecidas convicções políticas.

Mas o que mais se destaca neste livro é o uso dado à linguagem. Não é, muito longe disso, um livro de leitura fácil para o leitor português típico. A linguagem adquire por vezes um tom quase quinhentista, que remete para as epopeias narradas por um Fernão Mendes Pinto, e essa é a parte mais acessível. Pior é a profusão de termos em kimbundu que são totalmente desconhecidos a quem não tem vivência de Angola. É um choque. Um glossário ajuda a atenuá-lo, e há notas de rodapé quando surgem falas inteiras em kimbundu, mas mesmo assim é um choque. Para muita gente, pode ser um forte empecilho à leitura. Mas para quem se interessa pela língua que partilhamos é um choque com muito de saboroso, porque há como que a sensação de se estar a assistir ao nascimento de mais uma variante do português, a qual, entre vestígios de um português antigo caídos em desuso naquele que falamos hoje, e novas palavras e conceitos provenientes das línguas indígenas angolanas, se irá impor a breve trecho como mais uma fonte enriquecedora de cultura lusófona. Por mais que isso faça doer a xenofobia linguística de certos setores.

Para mim, este livro valeu a pena ser lido principalmente por isso. Comparadas com o uso dado à língua, as histórias da guerrilha acabaram por ser secundárias, embora seja sempre bom ter acesso ao outro lado. Sim, que a literatura portuguesa dedicada a África e às guerras coloniais se tem focado quase exclusivamente no lado português. Como é natural, aliás.

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