terça-feira, 24 de novembro de 2009

Péssimo jornalismo

Muitas vezes, ao assistir a telejornais ou enquanto lemos jornais, somos confrontados com informações e abordagens à informação que nos parecem duvidosas, mas somos obrigados a ficar na dúvida porque não sabemos o suficiente sobre o tema para decidir com certeza.

Mas noutras vezes basta fazer contas.

É o caso do muito que se tem falado nas últimas semanas sobre uma "relação" entre mortes de fetos e a vacina contra a gripe A que tem sido dada às grávidas. Não raro, sugere-se que é a vacina que causa essas mortes, ou pelo menos lança-se a dúvida. Será? Não será? Não perca as notícias de amanhã para mais pormenores.

Ora isto é péssimo jornalismo.

Péssimo.

Porquê? Porque não se destina a informar, mas sim a vender jornais e anúncios nos intervalos dos telejornais e noticiários radiofónicos. Porque cria uma suspeita sem qualquer razão de ser, disseminando entre as pessoas a incerteza e o medo. Porque é sensacionalista, mesmo nas suas versões mais suaves. E porque basta fazer contas para se ver que o assunto é uma não-notícia.

Fetos morrem durante a gestação. Sempre morreram, e sempre morrerão. É um processo biológico inteiramente normal, e que nunca desaparecerá. Por muito que custe aos pais que não o serão, por muito que possamos solidarizar-nos com a sua dor, há fetos que simplesmente não são viáveis. Há fetos que dão nós no cordão umbilical que interrompem o fornecimento de sangue. Há fetos com doenças genéticas que não permitem um desenvolvimento normal. Há uma série de motivos que desembocam todos num resultado comum: a morte do feto.

Ora, em Portugal sabe-se que esse desfecho acontece a cerca de 300 gravidezes todos os anos. É quase um feto morto por dia. De modo que agora que se está a vacinar primordialmente as grávidas, continua a morrer cerca de um feto por dia, e inevitavelmente alguns morrerão pouco depois da mãe ser vacinada. É evidente, é óbvio, é claro. De tal modo claro que a única notícia que se justifica é relatar este facto e passar à frente.

Mas não. O péssimo jornalismo que vamos tendo tem feito disto tema de notícias atrás de notícias, reportagens, o diabo a quatro.

Depois admiram-se.

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