No dia seguinte, sábado, houve 73 spams, incluindo um que anunciava "A little elf has a message for you.i". Não sei qual era a mensagem, que nunca abro os spams. Mas imagino:
Um pequeno duende tem uma mensagem para ti
Estava eu calmamente sem fazer nada
(tarefa desgastante que me consome a vida
como que a corroendo com o ácido da imobilidade)
quando me aparece no écran do computador a frase
«um pequeno duende tem uma mensagem para ti»
Fui ver qual era, evidentemente, que isto
quando mete duendes é caso para ter cuidados
Dizia assim:
«Meu caro amigo,
chegou ao meu conhecimento, por vias que não interessa
estar agora a especificar, que o caro amigo leu de fio
a pavio a obra do malandro do velho Tolkien.
Espero que não tenha acreditado em nada.
Aquilo é uma resma de patranhas
ainda mais mentirosas que as patranhas antigas
com que o meu povo submergia o seu nos tempos antigos.
Quando nos abordou, o velho, que na altura ainda não era
assim tão velho, embora já o fosse
se compreende o que quero dizer
achámos que não fazia mal contar-lhe algumas coisas
mas o filho da mãe ou não percebeu nada
ou fingiu que não percebeu
e escreveu aquilo.
Só demos agora por aquilo, que o nosso tempo é diferente do vosso
(nalguma coisa o diabo inglês teria de acertar)
e estamos agora a tentar, por todos os meios que for possível
repôr a verdade dos factos.
Não está a ser nada fácil.
Vocês estão de tal maneira habituados às mentiras
que já nem reconhecem a verdade quando ela acorda.
Obrigado pela atenção
Disponha sempre»
Querem um comentário à mensagem do duende?
Então cá vai: o tipo é um doente!
Claro que nós reconhecemos a verdade!
Não é verdade?
quinta-feira, 18 de dezembro de 2003
Spamesia (222)
Na passada sexta-feira chegaram cá 81 spams, uma conta jeitosa. Também jeitosos foram alguns dos títulos que eles traziam, nomeadamente o que dizia "No mínimo,". Deitei fora a vírgula e:
No mínimo
No mínimo um mimo
que ponha um pouco de verde
na vastidão cinzenta
destes dias queimados
Já não peço mais nada
No mínimo
No mínimo um mimo
que ponha um pouco de verde
na vastidão cinzenta
destes dias queimados
Já não peço mais nada
Intervenção cívica
Durante a sabática, não abandonei os blogs por inteiro. De vez em quando, aproveitava um intervalo breve no que tinha a fazer e vinha espreitar as novidades. Por vezes deixava um comentário breve. Uma vez deixei um comentário longo à relação entre o mercado e a edição. É um itálico intitulado O Deus-Mercado e a Edição, no Blog de Esquerda. Podem comentar à vontade.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2003
Spamesia (221)
Nestes entretantos de ausência, o spam marcou a sua habitual presença. Resultado: uma semana inteira de spam acumulado. O de quinta-feira foi curto, só 59 mensagens, e nestas uns títulos muito chungosos. Peguei no que dizia "Impress the daylights out of her! bwjr", deitei fora o "bwjr", aldrabei a tradução do resto e escrevi:
Impressione-a como a luz do dia
Impressione-a como a luz do dia
basta fazer dois passes de magia
e dizer daquelas coisas
falsas mas doces
com os olhos semi-cerrados em sorrisos doces
e as mãos entrecruzadas numa timidez doce
tudo muito suave, muito doce
Basta fazer de conta que se é um sol
brevemente passeando pelo rés da terra
a mesma táctica que já resultava na adolescência
mas que parece que nunca atinge a obsolescência
Porque ela tem um sexto sentido,
diz ela, que está sempre em sentido,
raramente tem dúvidas e nunca se engana
nem mesmo das vezes que se engana
Impressione-a como a luz do dia
Impressione-a como a luz do dia
basta fazer dois passes de magia
e dizer daquelas coisas
falsas mas doces
com os olhos semi-cerrados em sorrisos doces
e as mãos entrecruzadas numa timidez doce
tudo muito suave, muito doce
Basta fazer de conta que se é um sol
brevemente passeando pelo rés da terra
a mesma táctica que já resultava na adolescência
mas que parece que nunca atinge a obsolescência
Porque ela tem um sexto sentido,
diz ela, que está sempre em sentido,
raramente tem dúvidas e nunca se engana
nem mesmo das vezes que se engana
Regresso
Até parece que foi de propósito. No sábado, o Luís Ene (e aí, mermão... tudo jóia?) anunciava perante uma plateia de algumas dezenas de semi-interessados que este meu blog tinha actualizações diárias, e eis que fica quase uma semana sem tugir nem mugir.
Coisas da vida...
Não que ele habitualmente seja pródigo em mugidos, note-se. Habitualmente vagueia entre o rosnido e o zurro, com um cacarejo ocasional a espreitar dos interstícios. Mas nos últimos dias foi o silêncio, e isso, realmente, é coisa rara.
Mas agora acabou. E antes de retomar a actividade normal, vou falar um bocadinho do umbigo.
Pois no tal sábado houve festarola no Marginália (mexam-me esse blog, ó meus!), aqui na terrinha, a pretexto da apresentação do livro do Luís N e do Paulo Querido. Blogueiros confessos estavam os autores, eu, a Paula e o Baeta que, como chegou a horas e tinha de estar noutro sítio não muito tempo mais tarde, acabou por não assistir a nada. Baeta, se há coisa em que os algarvios são piores que os (outros) portugueses é na pontualidade. Prá próxima não te esqueças... O resto dos blogueiros do Al Gharb tiveram uma honrosa falta de comparência, os malçoados. Mas ninguém se marafou com isso, na há que almariar.
E como já se disse noutros sítios, a noite acabou com uma amena e divertida cavaqueira sobre blogs e assuntos conexos (isto é: tudo e mais alguma coisa) entre o Jorge, o Paulo e a Paula. Se mais alguém tivesse estado, mais alguém teria entrado. A cavaqueira acabou por desembocar naquele sacrossanto tema a que vão dar tantas conversas: o que raio querem ou deixam de querer os homens das mulheres e vice-versa. Não chegámos a conclusão nenhuma, como é evidente. É conversa que já devia existir à porta das cavernas, quando a Lua e as estrelas das noites de verão primitivas apelavam ao espírito reflexivo, e que provavelmente continuará a existir quando homens e mulheres se encontrarem sob a luz de outros sóis e de outras constelações. A heterossexualidade é assim.
Por isso, só tenho a dizer o seguinte: pois é, Paula, realmente gostei da tua última frase. E até acho que as verdades nela expressas se aplicam que nem dedos duma luva à penúltima das tuas frases.
E se o caro visitante não entendeu esta, paciência. Nem tudo na vida é para entender.
Fim do interlúdio umbigal. O blog segue como habitualmente dentro de momentos.
Coisas da vida...
Não que ele habitualmente seja pródigo em mugidos, note-se. Habitualmente vagueia entre o rosnido e o zurro, com um cacarejo ocasional a espreitar dos interstícios. Mas nos últimos dias foi o silêncio, e isso, realmente, é coisa rara.
Mas agora acabou. E antes de retomar a actividade normal, vou falar um bocadinho do umbigo.
Pois no tal sábado houve festarola no Marginália (mexam-me esse blog, ó meus!), aqui na terrinha, a pretexto da apresentação do livro do Luís N e do Paulo Querido. Blogueiros confessos estavam os autores, eu, a Paula e o Baeta que, como chegou a horas e tinha de estar noutro sítio não muito tempo mais tarde, acabou por não assistir a nada. Baeta, se há coisa em que os algarvios são piores que os (outros) portugueses é na pontualidade. Prá próxima não te esqueças... O resto dos blogueiros do Al Gharb tiveram uma honrosa falta de comparência, os malçoados. Mas ninguém se marafou com isso, na há que almariar.
E como já se disse noutros sítios, a noite acabou com uma amena e divertida cavaqueira sobre blogs e assuntos conexos (isto é: tudo e mais alguma coisa) entre o Jorge, o Paulo e a Paula. Se mais alguém tivesse estado, mais alguém teria entrado. A cavaqueira acabou por desembocar naquele sacrossanto tema a que vão dar tantas conversas: o que raio querem ou deixam de querer os homens das mulheres e vice-versa. Não chegámos a conclusão nenhuma, como é evidente. É conversa que já devia existir à porta das cavernas, quando a Lua e as estrelas das noites de verão primitivas apelavam ao espírito reflexivo, e que provavelmente continuará a existir quando homens e mulheres se encontrarem sob a luz de outros sóis e de outras constelações. A heterossexualidade é assim.
Por isso, só tenho a dizer o seguinte: pois é, Paula, realmente gostei da tua última frase. E até acho que as verdades nela expressas se aplicam que nem dedos duma luva à penúltima das tuas frases.
E se o caro visitante não entendeu esta, paciência. Nem tudo na vida é para entender.
Fim do interlúdio umbigal. O blog segue como habitualmente dentro de momentos.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2003
Spamesia 220
Na quarta-feira chegaram-me 69 spams, e entre eles vinha um a falar de dois dias antes: "monday".
Segunda-feira
Toca o despertador
desperto com a dor
de cabeça de todas
as segundas-feiras
Visto-me à pressa
e tomo depressa
o pequeno-almoço
quando saio está frio
e encolho o pescoço
para dentro do casaco
Passo o tempo
debruçado sobre o
amolgado tampo
de uma secretária
faço coisas e mais coisas
pensando noutras coisas
Uma pausa para comer
um qualquer
bocado insípido
de combustível
Depois faço mais coisas
e mais coisas
pensando noutras coisas
Reentro em casa
e a noite já caiu
janto qualquer coisa
e desligo o cérebro
estendido no sofá
Vou deitar-me resmungando
por ser ainda segunda-feira
e desejando poder mandar
esta vida para a puta que a pariu
Segunda-feira
Toca o despertador
desperto com a dor
de cabeça de todas
as segundas-feiras
Visto-me à pressa
e tomo depressa
o pequeno-almoço
quando saio está frio
e encolho o pescoço
para dentro do casaco
Passo o tempo
debruçado sobre o
amolgado tampo
de uma secretária
faço coisas e mais coisas
pensando noutras coisas
Uma pausa para comer
um qualquer
bocado insípido
de combustível
Depois faço mais coisas
e mais coisas
pensando noutras coisas
Reentro em casa
e a noite já caiu
janto qualquer coisa
e desligo o cérebro
estendido no sofá
Vou deitar-me resmungando
por ser ainda segunda-feira
e desejando poder mandar
esta vida para a puta que a pariu
quarta-feira, 10 de dezembro de 2003
Spamesia 219
Na terça-feira, ou seja, ontem, houve 78 spams, dos quais um apregoava-se "Messy":
Desarrumado
Hoje sinto-me desarrumado
procuro a mão direita
e lembro-me que a deixei no meu último emprego
a mão esquerda segura a máquina de lavar
tentando evitar que ela trema tanto
os olhos estão algures a tentar ver um pôr-de-sol
a boca, esqueci-me dela colada aos teus lábios
e não sei que lhe terá acontecido desde então
e o cérebro está arrumado na estante
junto de todos os outros livros
O mais estranho
é que só dou conta desta desarrumação
porque me chegou pelo correio
um pacote contendo o meu coração
Tinha tentado enviá-lo, já não me lembro a quem
mas veio devolvido com a indicação
de que naquele endereço não mora ninguém
Desarrumado
Hoje sinto-me desarrumado
procuro a mão direita
e lembro-me que a deixei no meu último emprego
a mão esquerda segura a máquina de lavar
tentando evitar que ela trema tanto
os olhos estão algures a tentar ver um pôr-de-sol
a boca, esqueci-me dela colada aos teus lábios
e não sei que lhe terá acontecido desde então
e o cérebro está arrumado na estante
junto de todos os outros livros
O mais estranho
é que só dou conta desta desarrumação
porque me chegou pelo correio
um pacote contendo o meu coração
Tinha tentado enviá-lo, já não me lembro a quem
mas veio devolvido com a indicação
de que naquele endereço não mora ninguém
Spamesia 218
Na segunda-feira houve 81 spams, incluindo um chamado "afrodisíaco":
Afrodisíaco
Um dia Afrodite saltitava pelos campos
os pés nus afundando-se na relva
os olhos baixos sob pálpebras semelhantes a pétalas
e os cabelos entretecidos com as lianas da selva
não estava nua, Afrodite, mas era como se estivesse
pois chovera e a toga de fino tecido
colava-se ao seu corpo como se lhe pertencesse
e a face brilhava de humidade e de cor
cheia de gotas de chuva, ou de suor
Estava linda, Afrodite, quando assim a vi
numa promessa de prazer quase dionisíaco
e foi assim que percebi porque se chama o que se chama
ao afrodisíaco
Afrodisíaco
Um dia Afrodite saltitava pelos campos
os pés nus afundando-se na relva
os olhos baixos sob pálpebras semelhantes a pétalas
e os cabelos entretecidos com as lianas da selva
não estava nua, Afrodite, mas era como se estivesse
pois chovera e a toga de fino tecido
colava-se ao seu corpo como se lhe pertencesse
e a face brilhava de humidade e de cor
cheia de gotas de chuva, ou de suor
Estava linda, Afrodite, quando assim a vi
numa promessa de prazer quase dionisíaco
e foi assim que percebi porque se chama o que se chama
ao afrodisíaco
segunda-feira, 8 de dezembro de 2003
Spamesia 217
Ontem foi domingo, e chegaram-me 67 spams, dos quais resolvi reaproveitar um que vinha intitulado "note":
Nota
Escrevo esta nota no dia do meu vigésimo aniversário
e determino que ela me seja entregue de volta
daqui a sessenta anos
«Olá, velha carcaça
ainda te lembras de que já foste novo?
Lembras-te dos sonhos em que embrulhaste o teu futuro?
Não cumpriste nenhum, pois não?
Imagino-te como um tronco de árvore, seco
e já um pouco oco
e também um pouco louco
encurralado num mundo de tecnologia que já não entendes
Imagino-te igual aos velhos que vejo à minha volta
igual aos velhos que andam às voltas sem rumo
numa cidade de que já não conhecem as nascentes.
Olha, velho eu velho
comecei esta nota desejando aconselhar-te a morrer
porque não me imagino vivo com a vida coberta de rugas
porque não me imagino vivo com dores como as tuas
porque não me imagino vivo com saudades da vida
mas agora que aqui estou, de qualquer forma vivo
já não sei bem
Mesmo que já não haja esperança
é certo que enquanto há vida, há vida»
Nota
Escrevo esta nota no dia do meu vigésimo aniversário
e determino que ela me seja entregue de volta
daqui a sessenta anos
«Olá, velha carcaça
ainda te lembras de que já foste novo?
Lembras-te dos sonhos em que embrulhaste o teu futuro?
Não cumpriste nenhum, pois não?
Imagino-te como um tronco de árvore, seco
e já um pouco oco
e também um pouco louco
encurralado num mundo de tecnologia que já não entendes
Imagino-te igual aos velhos que vejo à minha volta
igual aos velhos que andam às voltas sem rumo
numa cidade de que já não conhecem as nascentes.
Olha, velho eu velho
comecei esta nota desejando aconselhar-te a morrer
porque não me imagino vivo com a vida coberta de rugas
porque não me imagino vivo com dores como as tuas
porque não me imagino vivo com saudades da vida
mas agora que aqui estou, de qualquer forma vivo
já não sei bem
Mesmo que já não haja esperança
é certo que enquanto há vida, há vida»
domingo, 7 de dezembro de 2003
Spamesia 216
Isto de ter sites temáticos tem algumas consequências no spam, pois existem spammers que já vão direccionando o "produto" para recipientes que possam mostrar mais interesse por ele, recolhendo preferencialmente os endereços disponíveis nesses sites. E assim se explica que, no meio dos 89 spams que me chegaram no sábado, tenha vindo um com o título de "Ficção científica":
Ficção científica
O extraterrestre saiu da nave no mundo morto
e rebolou-se na poeira em sinal de tristeza
verteu algumas escamas, o que na sua espécie
significa o mesmo que na nossa verter lágrimas
depois retirou de um bolso do fato estanque
a perfeita reprodução de um velho livro
cuja capa mostrava uma paisagem quase igual
ao poeirento deserto sem vida que o rodeava
O extraterrestre colocou o livro sobre uma pedra
e ergueu os olhos ao horizonte em sinal de respeito
depois disse numa língua de rangidos e estalos
«Não ligaram aos avisos, e agora é tarde»
O extraterrestre ficou muito tempo naquele local
já a tarde findava quando regressou à nave e partiu
espalhando vento, levantando nuvens de pó
e fazendo com que o livro se abrisse sozinho
e se fosse folheando até à última página
onde o último parágrafo dizia inutilmente
pois já não restava ninguém que o soubesse ler
«Não ligaram aos avisos. E agora é tarde»
Ficção científica
O extraterrestre saiu da nave no mundo morto
e rebolou-se na poeira em sinal de tristeza
verteu algumas escamas, o que na sua espécie
significa o mesmo que na nossa verter lágrimas
depois retirou de um bolso do fato estanque
a perfeita reprodução de um velho livro
cuja capa mostrava uma paisagem quase igual
ao poeirento deserto sem vida que o rodeava
O extraterrestre colocou o livro sobre uma pedra
e ergueu os olhos ao horizonte em sinal de respeito
depois disse numa língua de rangidos e estalos
«Não ligaram aos avisos, e agora é tarde»
O extraterrestre ficou muito tempo naquele local
já a tarde findava quando regressou à nave e partiu
espalhando vento, levantando nuvens de pó
e fazendo com que o livro se abrisse sozinho
e se fosse folheando até à última página
onde o último parágrafo dizia inutilmente
pois já não restava ninguém que o soubesse ler
«Não ligaram aos avisos. E agora é tarde»
Spamesia 215
Na sexta-feira houve uma estreia: spam em russo. O mais curioso foi que recebi logo vários spams e um deles foi publicidade ao partido Yabloko, cujo principal financiador está na prisão acusado de corrupção. É que hoje vota-se na Rússia. O outro dizia "Подарок любимой женшине" (podarok lyubimoy jenshine), e eu resolvi aceitar essa proposta, entre as 76 que me chegaram:
Presente para a mulher que se ama
O melhor presente possível
para dar à mulher que se ama
é dado na cama
Não, não falo do momento
em que a tempestade desaba
e o mundo se preenche
de raios e trovões
Falo do antes
da lenta construção de um universo separado
daquele onde vive o comum dos mortais
e do momento dos suspiros
depois
quando lá fora só se ouvem cantos de andorinhas
Presente para a mulher que se ama
O melhor presente possível
para dar à mulher que se ama
é dado na cama
Não, não falo do momento
em que a tempestade desaba
e o mundo se preenche
de raios e trovões
Falo do antes
da lenta construção de um universo separado
daquele onde vive o comum dos mortais
e do momento dos suspiros
depois
quando lá fora só se ouvem cantos de andorinhas
sábado, 6 de dezembro de 2003
Spamesia (214)
Na quinta-feira a pilha estava menos ordenada, mas havia menos spam: 56 mensagens. Poucos títulos interessantes desta vez, acabei por pegar em votos da época: "Desejamos-lhe um Feliz Natal"
Desejamos-lhe um feliz Natal
Desejamos-lhe um feliz Natal
este é o tempo da boa vontade
entre todas as pessoas
e os seus comerciantes
Não saia de casa sem o seu cartão de crédito
ou de débito
e não se esqueça
que se não oferecer aos amigos
tudo o que eles nunca desejaram
(peúgas, bibelôs, tachos e abajures)
eles deixarão de ter respeito por si
e abandoná-lo-ão à porta do centro comercial
como qualquer trapo inútil
vazio e triste
Desejamos-lhe um feliz Natal
Desejamos-lhe um feliz Natal
este é o tempo da boa vontade
entre todas as pessoas
e os seus comerciantes
Não saia de casa sem o seu cartão de crédito
ou de débito
e não se esqueça
que se não oferecer aos amigos
tudo o que eles nunca desejaram
(peúgas, bibelôs, tachos e abajures)
eles deixarão de ter respeito por si
e abandoná-lo-ão à porta do centro comercial
como qualquer trapo inútil
vazio e triste
Spamesia (213)
De regresso da Conflitolândia, encontro o spam de quarta-feira numa ordenada pilha de 84 itens. Andou por aqui a mulher-a-dias, porque se fosse eu, era o caos. Procurei e escolhi: "Just for dad"
Só para o pai
Só para o pai
um raio de sol em forma de gaivota
que chega e sobrevoa
as caudas verticais de gatos felizes
os gritos estridentes de petizes
e as sombras fugidias de andorinhas
Só para o pai
os tesouros esquecidos nas gavetas
poeira de cometas
Só para o pai
Só para o pai
um raio de sol em forma de gaivota
que chega e sobrevoa
as caudas verticais de gatos felizes
os gritos estridentes de petizes
e as sombras fugidias de andorinhas
Só para o pai
os tesouros esquecidos nas gavetas
poeira de cometas
quinta-feira, 4 de dezembro de 2003
Uma questão de prestígio
Têm flash instalado no vosso browser? Então não percam esta apresentação extremamente educativa. É também preciso saber ler castelhano.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2003
As curiosas noções de respeito dos peluches
Ali os bonecos de peluche têm uma noção de respeito (absoluto, dizem eles a negrito) curiosa. Permitam-me uma citação: "Alguém insultou um de nós. E apesar de reconhecermos que temos um mau feitio do caraças, temos a noção dos limites. Não vamos à casa dos outros para os insultar: aplaudir, sim; discordar, sim; contrapor, com certeza. Mas com a consciência que somos visitas, e que devemos respeito ao anfitrião. Respeito absoluto [era aqui o negrito - NdoE]. E é exactamente esse respeito que esperamos de quem nos visita.".
Ou seja, trocando por miúdos: eles, como são os "anfitriões com noção dos limites" podem escrever coisas como "É a chamada simpatia do caralho. Ora, meu caro, vai-te foder.". Assim está tudo bem. Mas se quem é assim tratado responde à altura (sem dizer um palavrãozinho para amostra — O Statler não sabe, mas pode-se insultar sem se ser carroceiro) já está mal. A primeira parte é "respeito absoluto"; a segunda é sabe-se lá o quê, crime de lesa-marreta no mínimo. Enfim, os tipos são uns cómicos.
A seguir afirmam a firme intenção de me passarem a ignorar. Óptimo. É bem mais agradável ser ignorado do que mandado foder. E de minha parte, esse foi blog que já saiu ali das listas (com pena pelo Animal e pela metade bem educada da dupla de velhos ranhetas, mas é a vida — juntam-se a ovelhas negras, pagam as favas) e a que continuarei a ir provavelmente durante dois ou três dias, por inércia e curiosidade mórbida, mas depois chapéu. Não só a vida é mais do que blogues, como com alguns 2000 por onde escolher, bonecos de peluche malcriados não fazem falta nenhuma.
Ou seja, trocando por miúdos: eles, como são os "anfitriões com noção dos limites" podem escrever coisas como "É a chamada simpatia do caralho. Ora, meu caro, vai-te foder.". Assim está tudo bem. Mas se quem é assim tratado responde à altura (sem dizer um palavrãozinho para amostra — O Statler não sabe, mas pode-se insultar sem se ser carroceiro) já está mal. A primeira parte é "respeito absoluto"; a segunda é sabe-se lá o quê, crime de lesa-marreta no mínimo. Enfim, os tipos são uns cómicos.
A seguir afirmam a firme intenção de me passarem a ignorar. Óptimo. É bem mais agradável ser ignorado do que mandado foder. E de minha parte, esse foi blog que já saiu ali das listas (com pena pelo Animal e pela metade bem educada da dupla de velhos ranhetas, mas é a vida — juntam-se a ovelhas negras, pagam as favas) e a que continuarei a ir provavelmente durante dois ou três dias, por inércia e curiosidade mórbida, mas depois chapéu. Não só a vida é mais do que blogues, como com alguns 2000 por onde escolher, bonecos de peluche malcriados não fazem falta nenhuma.
Spamesia (212)
Ontem foi terça-feira e houve spam, muito spam, 80 spams. Um deles veio da Stacy e chamou-se "Re[8]: violin". E eu escrevi, enquanto ouvia no Mezzo o grande, o enorme, o gigantesco Keith Jarrett:
Violino
Piano pauta pino
toca troca violino
nota acorde forte
vida a fugir da morte
com som com sorte
grave mudo agudo
no fim o fino
som de sino
piano pauta violino
piano flauta violino
no fim de tudo
fica a fala
(aqui as palavras têm menos importância que o som que fazem em conjunto — consequência de estar cheio a transbordar de música ao escrever)
Violino
Piano pauta pino
toca troca violino
nota acorde forte
vida a fugir da morte
com som com sorte
grave mudo agudo
no fim o fino
som de sino
piano pauta violino
piano flauta violino
no fim de tudo
fica a fala
(aqui as palavras têm menos importância que o som que fazem em conjunto — consequência de estar cheio a transbordar de música ao escrever)
Não percebo o blogue dos Marretas
Decididamente, não percebo o Blogue dos Marretas. Tem um tipo bestial, de esquerda, cheio de piada, que assina como Animal, depois tem um tipo de direita que assina como Waldorf, que também tem piada embora intervenha menos que os outros dois (tem assim daquelas piadas direitinhas que um tipo lê e se ri, pensando "ah! meu sacana, que tás a gozar comigo mas tens piada"), e depois tem uma completa besta que assina como Statler, que não tem nem ponta de piada e como qualquer besta que se preze a maior parte das vezes limita-se a ser insultuoso. Decididamente não percebo como é que os outros dois conseguem aturar aquilo. É que lhes estraga completamente o blog. Sob todos os aspectos.
terça-feira, 2 de dezembro de 2003
Spamesia (211)
Segunda-feira (i.e., ontem) chegaram-me mais 71, uncluindo um simpático de um tal Adam Burns, que diz "I Believe in You ruqmynyvizr". Não percebi lá muito bem a parte do "ruqmynyvizr", mas do resto gostei:
Acredito em ti
Se me disseres que podes parar o tempo
eu acredito em ti
pois nunca dei pelo tempo dentro de ti
Acredito em ti
Se me disseres que podes parar o tempo
eu acredito em ti
pois nunca dei pelo tempo dentro de ti
Spamesia (210)
(Aqueles números ali em cima começam a fazer-me alguma impressão. Olho para eles e só consigo pensar coisas como "bolas!" Mas basta de parêntesis) Domingo foi, uma vez mais, dia de spam, com 80 mensagens a forçar a entrada na minha inbox, através dos filtros. Um deles chamava-se "Free Food 5419", e foi esse o feliz escolhido para eu adulterar:
Comida livre
Quando éramos tão novos que não passávamos
de potencialidades encerradas no código genético
de uma humanidade recém-nascida, a comida
que comíamos crescia livre pelos campos.
Hoje, tudo o que comemos nasce numa caixinha
ou num pacote, e cresce alimentado à força
entre varões metálicos e comida feita em fábricas
ou adubado em longas linhas rectas sob o sol
(o único sinal de natureza que ainda vai restando)
Se a biologia dita que cada homem é o que come
que dizem do que somos os nossos alimentos?
Comida livre
Quando éramos tão novos que não passávamos
de potencialidades encerradas no código genético
de uma humanidade recém-nascida, a comida
que comíamos crescia livre pelos campos.
Hoje, tudo o que comemos nasce numa caixinha
ou num pacote, e cresce alimentado à força
entre varões metálicos e comida feita em fábricas
ou adubado em longas linhas rectas sob o sol
(o único sinal de natureza que ainda vai restando)
Se a biologia dita que cada homem é o que come
que dizem do que somos os nossos alimentos?
Ah! Então é por isso!
Andava eu a matar a cabeça, tentando entender porque razão estava esta gente toda a mudar-se de armas e bagagens para o weblog.com.pt quando hoje, de repente, se fez luz: quando um tipo não consegue aceder ao seu próprio blog durante horas por causa duma falha qualquer nas bases de dados do blogspot, fica ligeiramente irritado...
segunda-feira, 1 de dezembro de 2003
Spamesia (209)
No sábado, houve bastante menos: 57. Mas também houve títulos interessantes. Escolhi um "joreis Poor Memory", deitei fora o "joreis", que é a primeira parte do endereço de um desgraçado qualquer que, desde que a IOL vendeu a spammers a base de dados dos assinantes netc, passou a receber tanto spam como eu (morra a IOL, a maior bosta que em Portugal se disfarça de ISP!), e escrevi:
Má memória
Lembro-me como se fosse ontem
do dia em que os teus lábios murmuraram
que sempre que olhavas o futuro
ele tinha como sol a luz dos meus olhos
mas esse também pode ter sido o dia
em que te afastaste como uma nuvem
sem remorso, sem me deixar uma gota
de chuva salgada, dizendo-me apenas
adeus, num murmúrio que soa a aragem
Má memória
Lembro-me como se fosse ontem
do dia em que os teus lábios murmuraram
que sempre que olhavas o futuro
ele tinha como sol a luz dos meus olhos
mas esse também pode ter sido o dia
em que te afastaste como uma nuvem
sem remorso, sem me deixar uma gota
de chuva salgada, dizendo-me apenas
adeus, num murmúrio que soa a aragem
Spamesia (208)
Na sexta-feira o número de spams voltou a subir muitíssimo: só os que atravessaram os filtros foram 81. E, como é hábito nestas situações, apareceu um daqueles títulos que titilam qualquer coisa cá por dentro: «A "loja do vidro"». Só lhe tirei as aspas:
A loja do vidro
A loja do vidro vendia cigarros
que tiniam quando o lume alumiava
a sua ponta e a punha em brasa
A loja do vidro vendia carpetes
translúcidas feitas de fios pontiagudos
e quebradiços que voltavam a crescer
A loja do vidro vendia vassouras
que varriam com um som de violinos
que dominavam o pó como pastores
A loja do vidro vendia mulheres
de vidro. Comprei uma, enchi-a dos meus
sonhos transparentes e perdi-me nela
para sempre
A loja do vidro
A loja do vidro vendia cigarros
que tiniam quando o lume alumiava
a sua ponta e a punha em brasa
A loja do vidro vendia carpetes
translúcidas feitas de fios pontiagudos
e quebradiços que voltavam a crescer
A loja do vidro vendia vassouras
que varriam com um som de violinos
que dominavam o pó como pastores
A loja do vidro vendia mulheres
de vidro. Comprei uma, enchi-a dos meus
sonhos transparentes e perdi-me nela
para sempre
Isto não é um parabéns a você...
O meu pai detesta dias de anos, datas festivas, efemérides. Eu percebo porquê — se há noção deprimente é a de divertimento ou alegria com data e hora marcada, festa burocrática definida pelo relógio e calendário. De que vale a alegria que não nasce espontânea do fluir da vida? Mas quando mais um ano passa, especialmente quando é um ano cheio de problemas, a celebração tem de ser feita, como quem diz ao Aziago: "Toma lá, minha besta, para aprenderes! Resistimos mais um ano!"
Por isso, pai, vou pregar-te a partida de pôr aqui um poema teu. E não protestes, que o 68º aniversário foi ontem, logo isto não é nem data marcada nem festejo obrigatório. É só festejo.
E de mim para ti não há distância
há apenas o impulso dos meus dedos
arco mordido na prisão da pele
Nas esquinas rectilíneas desta rua
arde o sol e de mim para ti passam as sombras
da angústia
feros forjados varandim suspenso
sobre os teus seios Arde o Sol nas esquinas rectilíneas
sacos de roupa branca felicidade doméstica
gatos felizes purificando a sombra
E de mim para ti não há distância
uma nesga de escada
meia porta ensolarada alguidar de roupa branca
portas abertas à música
rádios cúmplices de felicidade triste
ali em baixo uma vela que me espreita
com os seus olhos de gaivota
lá em cima andorinhas pombos brancos raparigas
e aqui o mar escoado rochas à flor da pele
Mas de mim para ti não há distância
sinto-me alegre e doce tenho sol nos teus flancos
bebo luz dos teus dedos
purifico-me de todos os remorsos
ardo dentro deste globo de quietude
numa tristeza serena
num inconsolo de escárnio e de espuma
Nesta nesga de escada permitida
irmão dos trastes domésticos
suportando nos ombros as esquinas rectilíneas
dentro desta onda serena de incertezas
pesada de memória e permanência
irrompo como uma flor e existo
porque de mim para ti não há distância
poesia
Por isso, pai, vou pregar-te a partida de pôr aqui um poema teu. E não protestes, que o 68º aniversário foi ontem, logo isto não é nem data marcada nem festejo obrigatório. É só festejo.
E de mim para ti não há distância
há apenas o impulso dos meus dedos
arco mordido na prisão da pele
Nas esquinas rectilíneas desta rua
arde o sol e de mim para ti passam as sombras
da angústia
feros forjados varandim suspenso
sobre os teus seios Arde o Sol nas esquinas rectilíneas
sacos de roupa branca felicidade doméstica
gatos felizes purificando a sombra
E de mim para ti não há distância
uma nesga de escada
meia porta ensolarada alguidar de roupa branca
portas abertas à música
rádios cúmplices de felicidade triste
ali em baixo uma vela que me espreita
com os seus olhos de gaivota
lá em cima andorinhas pombos brancos raparigas
e aqui o mar escoado rochas à flor da pele
Mas de mim para ti não há distância
sinto-me alegre e doce tenho sol nos teus flancos
bebo luz dos teus dedos
purifico-me de todos os remorsos
ardo dentro deste globo de quietude
numa tristeza serena
num inconsolo de escárnio e de espuma
Nesta nesga de escada permitida
irmão dos trastes domésticos
suportando nos ombros as esquinas rectilíneas
dentro desta onda serena de incertezas
pesada de memória e permanência
irrompo como uma flor e existo
porque de mim para ti não há distância
poesia
Subscrever:
Mensagens (Atom)