sábado, 30 de julho de 2005

Como será o sistema solar do futuro?

Quando eu andava na escola, uma das coisas de que se falava (muito por alto) era do sistema solar. Por essa altura, já eu tinha lido tudo o que tinha encontrado sobre os planetas, e já sabia que o sistema solar os tinha em número de nove que eram, do mais próximo do Sol até ao mais distante, Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Neptuno e Plutão. Sabia também que estes planetas eram muito diferentes uns dos outros, mas que se podiam dividir em dois grandes grupos, os interiores, ou terrestres, e os exteriores, gigantes ou gasosos. Plutão ficava assim meio de lado como uma espécie de patinho feio que não se encaixa em lado nenhum. Sabia ainda que entre Marte e Júpiter, no sítio onde em tempos se tinha teorizado que deveria existir um décimo planeta, havia uma cintura de centenas ou milhares de asteróides. E, claro, sabia que existiam também os cometas.

Mais tarde, com o continuar e aprofundar da curiosidade que sentia sobre o tema, vim a aprender mais coisas. Aprendi, por exemplo, que Mercúirio é quase um irmão gémeo da Lua e que há, em torno de Júpiter, Saturno, Neptuno e da Terra, satélites maiores que planetas, em especial o pequeno e misterioso Plutão. E isso começou a fazer-me alguma confusão na cabeça: é que se ordenarmos os corpos do sistema solar por tamanho não temos nenhuma indicação dos que são planetas e dos que não o são. Faz sentido? Até faz, algum. Mas fica sempre um mas. Querem ver? A lista dos objectos com mais de 1000 km de raio, ordenados do maior para o menor, é (ou era: ver à frente) a seguinte:

- Sol
- Júpiter
- Saturno
- Urano
- Neptuno
- Terra
- Vénus
- Marte
- Ganimedes
- Titã
- Mercúrio
- Calisto
- Io
- Lua
- Europa
- Tritão
- Plutão

Estão a ver? Está tudo misturado.

Depois, aprendi também outras coisas. Aprendi primeiro que os planetas eram todos esféricos, e depois que afinal isso não era bem assim, e que a palavra exacta deveria ser "esferóide", que designa um corpo cuja forma se aproxima de uma esfera mas não é totalmente esférico. É que parece que todos os planetas e satélites maiores são ligeiramente achatados devido à rotação e que os rochosos têm uma forma tornada irregular pelo relevo. A Terra, por exemplo, tem um diâmetro polar cerca de 43 km mais pequeno que o diâmetro equatorial; em Júpiter essa diferença é de mais de 9 mil km. Os asteróides, pelo contrário, são quase sempre coisas irregulares, a que só com grande boa vontade se pode aplicar a noção de "diâmetro", e o mesmo acontece com os satélites mais pequenos dos planetas. Porque são demasiado pequenos e têm gravidade a menos para se tornarem esféricos. São quase sempre assim. Ceres, por exemplo, o maior dos asteróides, é também um esferóide com um raio de quase 500 km e uma diferença entre o diâmetro maior e o diâmetro menor que não chega aos 30 km. E gira em torno do Sol. Porque razão não se lhe chama "planeta"?

Acabei por chegar à conclusão de que se tratava apenas de convenções sem grande relevância científica. Júpiter é muito mais diferente de Mercúrio do que Mercúrio é da Lua ou de Ceres, e no entanto Júpiter e Mercúrio são chamados planetas, a Lua satélite e Ceres asteróide. Plutão é muito mais parecido com alguns satélites do sistema solar exterior, como Tritão ou o seu próprio satélite Caronte, e com objectos do cinturão de Kuiper, como Qoaoar, do que com qualquer um dos outros planetas. E no entanto a ladainha permanece a mesma.

Porquê?

Tradição, conservadorismo, história da ciência. Só isso, nada mais.

Mas agora, parece que as coisas irão acabar por mudar, de uma maneira ou de outra. Foi descoberto lá nas profundezas escuras do sistema solar exterior um corpo que parece ser maior que Plutão e a que foi dado o nome provisõrio de 2003 UB313. Um corpo que gira em torno do Sol e que é maior que um planeta só pode ser chamado planeta. Ou então, é o menor dos planetas que não o é. De uma forma ou de outra, a ladainha irá ter de mudar, e algo me diz que não será a última mudança que ela sofrerá.

Gostaria que a oportunidade fosse aproveitada para uma revolução completa nos critérios que levam um corpo a receber o nome de planeta. Gostaria que o critério passasse a ser apenas a forma. Se um corpo fosse um esferóide, tornado assim pela gravidade e não por uma qualquer coincidência cósmica, deveria ser chamado planeta; se fosse irregular, seria um asteróide. Os satélites também poderiam ser divididos pelo mesmo critério, com satélites planetários por um lado e satélites asteroidais por outro. Acho muito mais simples e genérico, inclusivamente aplicável no futuro a outros sistemas solares. Imaginem, por exemplo, que um dia se descobre um corpo parecido com a Terra, com oceanos e vida e tudo, em órbita em torno de um gigante gasoso. Com que cara chamaremos "satélite" a uma Nova Terra assim?

Desconfio que a revolução não acontecerá. Mas seja como for, algo mudará e pergunto a mim mesmo como estudarão as crianças o sistema solar daqui a, digamos, 50 anos...

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