segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Eles não me perguntam, mas eu respondo

Os tipos que fazem sondagens nunca me perguntaram nada na vida. Minto: uma vez fui interrogado "à boca das urnas" sobre o sentido do voto que tinha acabado de despejar na caixinha. E foi tudo.

Pois bem, resolvi que também tenho direito a responder, mesmo que eles não me perguntem. Portanto aqui vão as minhas respostas sobre a tal sondagem da Católica de que muito se fala por aí. E justificadas, que é coisa que nunca se vê em sondagens.

P: É a favor ou contra que haja educação sexual nas escolas?

R: Vou com a maioria, claro. Sou a favor, e sem a mínima hesitação. Embora ache que o ideal seria se a educação sexual fosse dada pela família, sei perfeitamente que a maioria das famílias se demite dessa tarefa até ser tarde demais ou presta informação errada às crianças. Por esse motivo, a existência de educação sexual nas escolas é um imperativo de saúde pública.

P: Acha que deveria ser legal ou ilegal para um médico provocar a morte de um paciente com doença incurável ou dolorosa, desde que o doente assim o solicitasse?

R: Também vou com a maioria, ao achar que deveria ser legal. Se há coisa de que uma pessoa deve poder dispor sempre é da sua própria vida. Nenhuma instituição deve arrogar-se o direito de impedir que alguém procure pôr termo a uma sobrevivência insuportável.

P: E se o doente estivesse em estado de coma: acha que deveria ser legal ou ilegal para um médico provocar a morte desse doente a solicitação dos familiares?

R: O Pedro Magalhães que me desculpe, mas esta pergunta está mal elaborada. Há comas e há comas. Há comas ligeiros de que as pessoas têm grandes possibilidades de despertar, e há comas profundos e irreversíveis, dos quais ninguém desperta. E há ainda todas as variações possíveis, todos os gradientes, entre um tipo de coma e o outro. E parece-me óbvio que a resposta perante uns e outros tem de ser diferente. Por isso, junto-me aos 15% que não respondem.

P: Acha que a prostituição devia ser uma actividade legal ou ilegal?

R: Junto-me, uma vez mais, à maioria e acho que devia ser legal. A prostituição é uma actividade degradante em si mesma, mas é muito pior do que poderia ser por envolver ilegalidade e clandestinidade. Julgo que legalizando a prostituição seria possível combater mais eficazmente o tráfico de mulheres, seria possível controlar mais eficientemente as condições sanitárias de quem se dedica a essa actividade (lá está: saúde pública) e provavelmente também seria uma forma de diminuir o próprio mercado. Frutos que deixam de ser tão proibidos assim, se calhar, já não apetecem tanto.

P: Acha que o consumo de marijuana ou haxixe devia ser legal?

R: Estou em minoria, mas acho sem hesitação que devia ser legal. Embora não seja tão inócuo como alguns dos seus defensores querem fazer crer, o consumo de marijuana ou haxixe é menos prejudicial do que o consumo de tabaco ou mesmo de álcool. Algum consumo de haxixe é, mesmo, medicinal (tal como o de álcool, aliás). E é falso que sirva de degrau para as drogas duras: só uma muito pequena percentagem dos que fumam haxixe ou marijuana dá esse salto, e se calhar dão-no mais facilmente porque o mesmo traficante que lhes vende haxixe também tem coca, speeds ou cavalo para vender. A venda de haxixe em estabelecimentos autorizados, como se faz na Holanda, parece-me absolutamente urgente.

P: Acha que seria bom ou mau que as mulheres pudessem ser ordenadas como sacerdotes na Igreja Católica?

R: Estou-me nas tintas. Estou totalmente a favor da promoção da igualdade, mas isso é em organizações públicas e na vida de todos os dias. Não me interessa meter o nariz no que fazem organizações privadas às quais não pertenço e que rejeito activamente, como a igreja católica (e agradeço, já agora, que essas organizações não tentem meter o nariz naquilo que não lhes diz respeito, como a minha vida). Se promovem a discriminação, isso é apenas mais um motivo para que eu as rejeite, mas não acho que tenha o direito de opinar sobre a sua organização interna. Que essas organizações não ajam de igual modo comigo, procurando impôr a sua moralzinha hipócrita à sociedade como um todo, só demonstra a sua inferioridade moral e não é razão para eu passar a agir de igual forma, bem pelo contrário. Ou seja: estou nos 20% que não respondem.

P: Acha que a investigação com células estaminais obtidas de embriões humanos devia ser permitida ou proibida?

R: Permitida, claro. Não só porque essa investigação poderá vir no futuro não muito longínquo a salvar muitas vidas (incluindo a minha, se calhar), como porque essas células estaminais são em geral recolhidas de embriões excedentários que caso não sejam aproveitados para investigação são, pura e simplesmente, deitados para o lixo.

P: É a favor ou contra a existência de quotas para as mulheres em lugares políticos elegíveis?

R: Não sei. Já fui frontalmente contra, achando que as mulheres se devem impôr na política pelas suas próprias qualidades, e não através de métodos artificiais de discriminação positiva. Já o fizeram em muitas outras actividades e não vejo nenhum motivo para que não o façam também na política. Mas há alguns argumentos pró-quotas que fazem sentido, de modo que hoje em dia estou mais numa posição de esperar para ver. Continuo a inclinar-me para o "contra", mas não com força suficiente para escolher essa resposta.

P: É a favor ou contra a pena de morte para pessoas condenadas por homicídio?

R: Completamente contra. Por um motivo simples: a justiça não é perfeita e comete erros. Já é suficientemente mau que se destruam as vidas de inocentes, prendendo-os e, por vezes, condenando-os, mas é intolerável que além disso ainda sejam assassinados pelo Estado. Se a ideia de ser cúmplice no assassínio de um culpado já me perturba, a possibilidade de assassinar um inocente é intolerável.

P: Acha que duas pessoas do mesmo sexo devem poder...

R: Casar. Do mesmo modo que não me meto no que fazem as instituições privadas, muito menos penso que tenho o direito de meter-me no que fazem indivíduos adultos e conscientes das suas acções. Se é casar que querem, pois que casem e sejam felizes. Também acho, já agora, que se preferirem "formar uniões com os mesmos direitos legais de um casamento" ou "formar uniões só com alguns dos direitos legais de um casamento", ou nenhuma das anteriores, também deviam poder fazê-lo.

P: Acha que pessoas homossexuais devem poder adoptar crianças?

R: Estou nos 8% que não sabem. Acho que aqui as crianças se sobrepõem aos direitos individuais dos adultos. Não fosse isso, responderia claramente que sim. Mas não sei que efeitos tem sobre as crianças serem educadas por casais homossexuais, se é que tem alguns. Precisava de saber mais para responder a esta.

P: Em geral qual acha que devia ser o objectivo mais importante para a nossa sociedade hoje em dia?

R: Encorajar maior tolerância em relação a pessoas com diferentes tradições e estilos de vida, sem sombra de dúvida. Os valores sociais e morais tradicionais, na sua esmagadora maioria, deviam, isso sim, ser mortos e enterrados hoje, já, e para sempre. São eles que determinam em boa medida o atraso deste país.

Finis

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