terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ainda sobre edição, agora mais a sério

Há uma citação, atribuída a um almirante americano chamado Hyman Rickover, que reza assim: "Great men talk about ideas; Mediocre men talk about things; Small men talk about people." Traduzindo: "Grandes homens falam sobre ideias; Homens medianos falam sobre coisas; Homens pequeninos falam sobre pessoas." Isto, embora todos nós façamos as três coisas de vez em quando, tem muito de verdadeiro. Quando se desce das ideias para as coisas está a reduzir-se o nível da conversa, e quando destas se começa a falar de Fulano ou Beltrano ela bate no fundo. Quanto mais medíocre é o indivíduo, mais frequente é trazer a conversa para este nível rasteiro do diz-que-disse, e isto pode observar-se em todos os campos, da vida do dia-a-dia de cada um de nós aos níveis pretensamente mais elevados da política das nações.

Adaptando a coisa à literatura e à maneira de se falar do que é editado, esta máxima poderia ser adaptada a algo como isto: "Grandes homens falam dos livros; Homens medianos falam da vertente criadora dos autores; Homens pequeninos falam das editoras." E, claro, os homens realmente rascas não falam nem de livros, nem de autores, nem de editoras, mas das qualidades ou defeitos que os autores têm, em seu entender, enquanto pessoas.

Que quero eu dizer com isto?

Que o que importa é a obra. Falar-se do autor, mesmo que enquanto criador, não pode nunca substituir-se à leitura de cada um dos livros que ele escreveu, individualmente considerados. Porque o talento não se revela ao só escrever-se obras-primas, mas sim na proporção de material de qualidade que é produzido ao longo de uma carreira (de toda a carreira, o que faz com que as pessoas realmente inteligentes evitem fazer juízos de valor apressados sobre autores enquanto estes ainda estão capazes de criar) relativamente ao que não a tem, ou a tem em menor quantidade. Cada livro é um livro. Cada conto um conto é. Cada poema um poema. Todos diferentes, todos merecedores duma análise individualizada (a não ser que façam parte de séries, claro, ou quando se está fazer um apanhado da obra do autor X).

E se falar-se do autor enquanto criador deve ceder lugar à obra, por maioria de razão falar-se da editora em que a obra sai ou deixa de sair é atirar completamente ao lado. Porque se aquilo que envolve a obra (capa, marketing, distribuição, rigor e cuidado na edição, etc.) depende da editora, a obra propriamente dita não depende. Sendo verdade que a qualidade média das obras publicadas vai diminuindo das boas editoras para as más, não é menos verdade que há obras muito más editadas por editoras muito boas e vice-versa. Miguel Torga, grande escritor português do século XX, várias vezes nomeado para o Nobel, publicou boa parte da sua obra em edições de autor; ao Cristiano Ronaldo não faltam editoras ansiosas por fechar contrato.

De editoras pode e deve falar-se quando o assunto são as práticas comerciais desonestas em que algumas incorrem, ou aquilo que delas depende no processo de edição. Quando o assunto é a obra, falar-se seja do que for que não seja a obra é mostrar com toda a clareza que se está a Leste, que não se percebe nada do assunto, que não se tem a mais pequena credibilidade. Ou, pior, que a má-fé que por vezes move quem assim age pega no que encontra com o único fito de atacar obras ou autores que não consegue atacar de outra maneira. E assim voltamos à adaptação da citação do senhor Rickover.

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